Na primeira vez que a recebi no Flamengo o contato de nossos corpos e o fato de estarmos juntos novamente descobriu na nossa relação um desconhecido ódio que explodiu com tal intensidade que me pergunto se Val não transferia para o espaço da cama as dimensões da sua luta de classes.
Eu tinha ido à casa de seus tios em Caxias, naquele anexo ao Bairro 25 de Agosto que era quase uma favela, lá onde me tornei amigo daquele jovem que depois se tornou em perigoso traficante, e onde, como eu insistisse e necessitasse muito, fomos primeiro a um cinema na Praça do Pacificador, e de lá para a deliciosa experiência sexual num hotel. Completamos nossa aventura saindo do hotel para o Flamengo, ao que ela inicialmente se opôs e onde ela terminou morando, a princípio indo lá algumas vezes, quando permanecia ali somente algumas horas, para depois pernoitar comigo, tomando juntos o nosso café da manhã com leite condensado e pão fresco, até chegar à época dos seus fins à praia de Copacabana e à tarde vermos o pôr-do-sol no Arpoador, e daí em diante, como eu a prendesse cada vez mais, convertendo-me em indispensável por um processo de sedução consciente e por artimanhas de que a fiz economicamente subordinada a mim, como a toda a sua família, seu pai não lhes deixara a mísera pensão, exonerado, perseguido e torturado que foi pelo sistema de repressão estatal, e ela viera para o Rio em companhia de sua mãe e sua irmã, ela não mais se libertou de meus laços e da sutil tessitura com que a envolvi totalmente. Eu precisava dela. Fi-la dependente economicamente de mim.
Logo no caminho da primeira vez que com ela vinha ao Flamengo, eu começando a me sentir completo com Val a meu lado, sem o medo devoluto de meu amor próprio acerca de tudo o que sou e tenho, contra tudo o que ela era e lutava, porque agora no Rio de Janeiro a nossa separação, urgente, aguda, vulnerável, vindicativa, seria humilhante: Val pela primeira vez se sentia, queimando-lhe a pele, na experiência concreta da sua classe, com cinco pessoas morava numa casa de quarto e sala num subúrbio cujo melhor e mais eufêmico adjetivo seria sujo (pois ao lado de sua casa começava uma grande depressão no terreno e uma área baldia que culminava num lago formado pelas chuvas e num posterior monturo de lixo, as pessoas despejavam o lixo de suas casas pela ribanceira onde muitos anos mais tarde surgiu uma Universidade), e o dinheiro começava a fazer falta a ela, que nunca, apesar da vida atribulada que vivera com seu pai perseguido, passara as privações da grande cidade, e via-se agora sem poder fazer, nalguns dias, todas as refeições, modestas que fossem, e se deu conta finalmente de que entre mim e ela havia uma separação bem delimitada de classe social, ela oriunda de uma classe média pobre que se proletarizara ainda mais, e eu vindo da alta burguesia decadente desde as fazendas de café de meu avô no Estado do Rio até a semiparalisia de meu pai, nós dois tínhamos empobrecido, mas eu ainda continuava membro de um respeitável sobrenome, que era da burguesia antiga, do campo, que resistia, classe residual e nunca totalmente extinta neste pais.
Por isso aquele amor lírico e louco que nos unia desde o fundo de nossas vozes juvenis, cantos, frases soltas e idílicas, deixava de existir e caíamos na nova realidade e com esforço eu ia ter de juntar os seus pedaços para ligá-los de novo, e o de que eu participava perto de Val eram dos estampidos noturnos dos tiros que se ouviam de sua casa quando quadrilhas disputavam o espaço de Caxias a palmo.
Meu esforço para que não se rompesse a declaração, tão bela, até então, de meu amor por Val se esbarrava nas experiências mais comezinhas, para mim inéditas; para ela fundamentais (como a de eu ter de dar o dinheiro para a sua subsistência e de sua mãe e irmã, que era como se eu a tivesse pagando, como a uma prostituta), fatos descosidos de que só sei o meu lado, que Val se encontrava naquele tempo no mais crítico estado de necessidade e oh, nunca pulei o muro e o rio de sangue, e de Val só sabia o que ela me outorgou o direito de saber, Val minha princesa, dona de meu corpo, ela deveria passar imediatamente para minhas definitivas mãos, ou eu corria o risco de a perder e de que ela se tornasse minha inimiga irrecuperável.
Pois ela, aparentemente frágil, bela, fácil mas diferente, na cândida aparência de menina humilhada, magoada, na feminina figura de uma Marilyn dos trópicos, começava a militar em não sei qual ala de um partido clandestino de esquerda que tinha, no Nordeste, na multiplicidade das Ligas Camponesas, a sua mais altiva voz, e quando ficávamos a sós nada revelava do que fazia no outro lado oculto da sua vida e abandonada, isolada, descontrolada se fechava em silêncio sem remédio acerca daquele seu lado obscuro, a tal ponto que, por certas manchas roxas em sua coxa um dia, eu comecei a desconfiar, e disso tenho quase certeza hoje, a tal ponto a conheço agora, de que ela em certas noites que não estava comigo ia fazer trabalho como prostituta profissional, perto de um hotel na Avenida Brasil, cuja freqüência deveria ser das mais perigosas, tudo isso para se ver livre de mim e de minhas custas.
Finalmente, como se não bastasse, e para aumento de minhas suspeitas e dúvidas, um dia, depois de comigo fazer amor, tendo ela ido para o banho e como eu procurasse um cigarro na sua bolsa, ali encontrei, negro, pesado, municiado, um 38 de cano curto que fiquei detidamente examinando, como a um monstro, sentado na beira da cama enquanto ouvia correr a água do chuveiro que caía da sua ducha fria sobre a cerâmica do piso.
Com apenas 23 anos, ou por causa disso, Val lutava pela mobilização das lutas operárias que explodiam no Nordeste. Sua vida não combinava com a de um Rôni então amante de motocicletas, de rock, enquanto concluía com certo brilhantismo o curso de Letras Clássicas e mergulhava na primeira redação das primeiras páginas de seu primeiro livro.
Mas, apesar das discordâncias e diferenças, acabamos nos entendendo, ela como ídolo vivo no ar vazio de minha imprecisa vida, como ideóloga de meu amor, pois eu era mais frágil do que reacionário. Ela me humilhou? Nunca me humilhou ideologicamente, mas eu sabia que, se quisesse, poderia me ferir. Me dominava, como durante o ato de amar. Eu a temia. Não. Não consigo me libertar da liberdade dela.
Ela era livre demais para mim. Mas sempre voltava. Como para um lugar sossegado após a tempestade. Ela me mantinha na ilusão de que eu não estava só. Mas em algo que não sei explicar com clareza, ela se parecia com minha avó Madalena.
sábado, 28 de junho de 2008
A HISTÓRIA DOS AMANTES, 7
Val trabalhou comigo durante cinco meses na segunda redação de minha novela. Ditava modificações no texto e no enredo, atuava na simplificação do meu estilo (sempre tendendo a ser empolado), me indicava pontos fracos.
Devo tudo a ela.
Graças a ela meu primeiro livro ficou razoavelmente bom.
Ela passou toda a sua experiência feminina para meu texto.
Por fim datilografou as duzentas e vinte e cinco páginas e o livro se transformou numa novela epistolar, em que o telefonema substituiu a carta, podendo-se dizer que era uma estória telefônica, e ali dois jovens se correspondiam, prometendo amor eterno, encontrando-se às escondidas para fazer amor. Todas as incertezas dos jovens estão ali. O diálogo está muito solto, belo, real, extraído de nossas próprias conversações.
Mas foi difícil de vender.
A Editora Prometeu, de São Paulo, o publicou às minhas custas, sem muito alarde, mas com aquela capa colorida em que um jovem motociclista tomava nos braços a exuberante e sensual loura. O rapaz parecia dizer algo que ela quase já não ouvia, inebriada.
A primeira edição custou, mas se esgotou. Era pequena. Não foi um sucesso, mas uma única referência critica que ganhei valeu uma consagração: a do Mestre Alceu Amoroso Lima, meu professor de Literatura Brasileira, amigo de minha avó, que escreveu pequena carta sobre as relações entre o amor divino e o amor profano, provocado pela leitura de meu livro, que ele elogiava em duas breves linhas como um "romance sentimental bem escrito". O pequeno texto dele era uma de suas obras-primas. Aquelas duas linhas, publicadas quando a primeira edição do livro já estava quase esgotando, para mim, eram como se me lançassem no panorama das letras nacionais como um jovem promissor.
Depois, publiquei alguns contos no Correio da Manhã.
A grande intelectualidade, porém, não me reconhecia. Nem poderia. O meu trabalho literário saía numa época em que, alem do Concretismo, havia escritores como Cabral e João Guimarães Rosa (com quem longamente conversei, acerca de "Grande sertão: veredas", na porta da Academia). Havia um apogeu cultural até hoje insuperável. De certo modo eu era escritor desconhecido e sem sucesso de crítica e de venda.
Assim comecei a vida literária e me tornei um profissional dessa rara profissão, ainda que vivesse mesmo dos aluguéis dos imóveis que vinha avó me deixou.
Formei-me em Letras Clássicas e sonhava casar-me com Valquíria numa igreja engrinaldada, saindo no dia seguinte para Cabo Frio. Eu era feliz.
Mesmo a essa altura ainda me sinto desnorteado para encontrar a via segura que me contará os passos dessa história. Val se transforma cada vez que a penso.
No inicio da década de 60 ela começou a estudar inglês, a ler muito, a fazer psico-análise. Cuidava tardiamente de sua educação, com 29 anos. Acabou dominando razoavelmente o idioma, passou depois para a terapia grupal, escreveu poemas, lia os principais jornais e dois livros por semana. Ia ao cinema, ao teatro, mas continuava reticente quanto à música erudita, de que eu gostava. Dizia que eu era colonizado culturalmente e desligado do real. Quando estávamos juntos púnhamos no toca-disco a bossa-nova, Baden Powell, Tom.
Seus prediletos.
Mas nossos problemas sempre recomeçavam, nunca resolvidos, indenes.
Houve um período, entretanto, em que ela se demorou seguidamente, quase um mês, em minha casa: estava eu escrevendo o roteiro do meu próximo livro.
Val ideal, cuidando da casa, conforme meus padrões machistas, cuidando de mim, eu não me sentia só, era tratado e amado por ela. Foi uma época sem grandes ciúmes, Val me empurrando. Na carreira de escritor.
Numa noite de dezembro de 63 Val chegou tarde excessivamente agitada. Gritava, incompreensível e apavorada. Tinha os cabelos amarrados na nuca, como uma camponesa, e vinha de uma reunião política.
Eu estivera relendo "Crime e castigo" e já começava a adormecer quando ela me acordou, chegando.
- Que aconteceu? perguntei, vendo o seu estado.
- Tive um atrito, provoquei um tumulto, mandei todos à merda. Mas eles não me levam a sério porque sou mulher...
E foi falando, falando, enquanto tirava a roupa, procurava um cigarro, dirigindo-se para o banho. Não encontrava um copo, bebia com a garrafa na mão.
- O quê? perguntei, acompanhando-a.
- Uns merda! Rôni, uns merdas. E burros! - gritava, como se quisesse acordar todo o bairro.
- Quem? perguntei.
- Todos! Todos eles!... Não vêem o que está na cara de todos! Pensam que reforma de base é revolução socialista, forçam a barra, tumultuam o país e vão provocar uma reação armada da direita. Uns merdas! Tumultuam o país para provocar uma reação de direita!
- Mas você não é a favor das reformas de Jango? perguntei.
- Sim, Roninho, respondeu ela com a paciência inesperada com que falaria a uma criança: Mas é preciso compreender as reformas de base. O país é enorme, e as bases estão longe de serem amadurecidas... Há poucos anos, na época de Getúlio, ainda vivíamos nas cavernas... O povo é muito conservador, a sua consciência ainda está em formação, tanto a massa proletária, quanto a classe média. Não é fazendo greve todo dia que se vai amadurecer a consciência nacional, a consciência de classe. O pais está à beira do abismo, do caos, mas não da revolução, entenda, mas não da revolução!
Ela gritava:
- Filhos da puta! A esquerda está empurrando o pais para o caos. A direita vai jantar! As reformas de base, tal como propostas por Jango, de cima para baixo, servem apenas para neutralizar a revolução, uma proposta social-democrata.
- Mas não desenvolvem o país? perguntei.
- Sim, disse ela, já nua, já dentro da ducha do banheiro. Mas o pessoal tá fazendo greve contra o próprio Jango. Tomaram dele a liderança das reformas de base, da pseudo-revolução, querem radicalizar. Jango perdeu o controle, está forçado a reagir, empurram-no para o lado conservador. Jango é um palerma, está acuado, terá de renunciar, vai cair, e eu "sei" que não virá um governo popular, porque não pode vir, porque não temos nenhuma base política no país. A esquerda e a direita se encarregarão de derrubá-lo. A serviço de quem, meu Deus? A quem interessa? As reformas de base fazem parte de uma conjuntura ocidental para evitar outra revolução cubana no Terceiro Mundo. Esse pessoal é louco, querem agora forçar o presidente a uma reforma agrária, quando o próprio presidente é um latifundiário. Pensam que Jango vai lutar contra seus interesses.
- E o que você acha que se devia fazer?
- Aproveitar o que for possível das reformas de base sem tumultuar o cenário, fortalecer o governo de Jango, apoiá-lo para conseguir o que for possível, pacificamente. E tocar o bonde! Não podemos forçar o governo à uma reação contra as reformas, a dar um passo atrás, empurrá-lo para os braços da reação. Estão querendo demais dele. Ele não tem essa força política, Rôni. Não tem! Essa estória de mobilização popular é um perigo, não se fabrica uma revolução num país como o nosso, há mais líderes de esquerda à serviço da direita do que você pensa... Eu vou cair fora! Filhos da puta! Eles não me levam a sério porque sou mulher!
- Não entendo uma coisa... - comecei a dizer. Mas ela me interrompeu:
- Você vai ver, Rôni. Jango vai cair, as forças que o apóiam se radicalizaram e estão desvairadas, se afastaram dele, o deixaram nu e acossado. Suas reformas são vistas como uma revolução pelos Estados Unidos, ele não pode ficar mais à esquerda do que já está. Ele está só. Não pode radicalizar, pois é apenas um reformista... Há um erro, Rôni, um grande erro... Esse pessoal não segue nem o Manifesto de Marx. Estão a serviço da direita? Hem? Responda-me?
Seus olhos fuzilavam.
- Acalme-se, disse-lhe eu. Beba.
Eu lhe passava um copo de uísque para dentro do boxe. Val estendeu a mão cheia de espuma. Bebeu um grande gole.
- Obrigada, disse-me.
Devo tudo a ela.
Graças a ela meu primeiro livro ficou razoavelmente bom.
Ela passou toda a sua experiência feminina para meu texto.
Por fim datilografou as duzentas e vinte e cinco páginas e o livro se transformou numa novela epistolar, em que o telefonema substituiu a carta, podendo-se dizer que era uma estória telefônica, e ali dois jovens se correspondiam, prometendo amor eterno, encontrando-se às escondidas para fazer amor. Todas as incertezas dos jovens estão ali. O diálogo está muito solto, belo, real, extraído de nossas próprias conversações.
Mas foi difícil de vender.
A Editora Prometeu, de São Paulo, o publicou às minhas custas, sem muito alarde, mas com aquela capa colorida em que um jovem motociclista tomava nos braços a exuberante e sensual loura. O rapaz parecia dizer algo que ela quase já não ouvia, inebriada.
A primeira edição custou, mas se esgotou. Era pequena. Não foi um sucesso, mas uma única referência critica que ganhei valeu uma consagração: a do Mestre Alceu Amoroso Lima, meu professor de Literatura Brasileira, amigo de minha avó, que escreveu pequena carta sobre as relações entre o amor divino e o amor profano, provocado pela leitura de meu livro, que ele elogiava em duas breves linhas como um "romance sentimental bem escrito". O pequeno texto dele era uma de suas obras-primas. Aquelas duas linhas, publicadas quando a primeira edição do livro já estava quase esgotando, para mim, eram como se me lançassem no panorama das letras nacionais como um jovem promissor.
Depois, publiquei alguns contos no Correio da Manhã.
A grande intelectualidade, porém, não me reconhecia. Nem poderia. O meu trabalho literário saía numa época em que, alem do Concretismo, havia escritores como Cabral e João Guimarães Rosa (com quem longamente conversei, acerca de "Grande sertão: veredas", na porta da Academia). Havia um apogeu cultural até hoje insuperável. De certo modo eu era escritor desconhecido e sem sucesso de crítica e de venda.
Assim comecei a vida literária e me tornei um profissional dessa rara profissão, ainda que vivesse mesmo dos aluguéis dos imóveis que vinha avó me deixou.
Formei-me em Letras Clássicas e sonhava casar-me com Valquíria numa igreja engrinaldada, saindo no dia seguinte para Cabo Frio. Eu era feliz.
Mesmo a essa altura ainda me sinto desnorteado para encontrar a via segura que me contará os passos dessa história. Val se transforma cada vez que a penso.
No inicio da década de 60 ela começou a estudar inglês, a ler muito, a fazer psico-análise. Cuidava tardiamente de sua educação, com 29 anos. Acabou dominando razoavelmente o idioma, passou depois para a terapia grupal, escreveu poemas, lia os principais jornais e dois livros por semana. Ia ao cinema, ao teatro, mas continuava reticente quanto à música erudita, de que eu gostava. Dizia que eu era colonizado culturalmente e desligado do real. Quando estávamos juntos púnhamos no toca-disco a bossa-nova, Baden Powell, Tom.
Seus prediletos.
Mas nossos problemas sempre recomeçavam, nunca resolvidos, indenes.
Houve um período, entretanto, em que ela se demorou seguidamente, quase um mês, em minha casa: estava eu escrevendo o roteiro do meu próximo livro.
Val ideal, cuidando da casa, conforme meus padrões machistas, cuidando de mim, eu não me sentia só, era tratado e amado por ela. Foi uma época sem grandes ciúmes, Val me empurrando. Na carreira de escritor.
Numa noite de dezembro de 63 Val chegou tarde excessivamente agitada. Gritava, incompreensível e apavorada. Tinha os cabelos amarrados na nuca, como uma camponesa, e vinha de uma reunião política.
Eu estivera relendo "Crime e castigo" e já começava a adormecer quando ela me acordou, chegando.
- Que aconteceu? perguntei, vendo o seu estado.
- Tive um atrito, provoquei um tumulto, mandei todos à merda. Mas eles não me levam a sério porque sou mulher...
E foi falando, falando, enquanto tirava a roupa, procurava um cigarro, dirigindo-se para o banho. Não encontrava um copo, bebia com a garrafa na mão.
- O quê? perguntei, acompanhando-a.
- Uns merda! Rôni, uns merdas. E burros! - gritava, como se quisesse acordar todo o bairro.
- Quem? perguntei.
- Todos! Todos eles!... Não vêem o que está na cara de todos! Pensam que reforma de base é revolução socialista, forçam a barra, tumultuam o país e vão provocar uma reação armada da direita. Uns merdas! Tumultuam o país para provocar uma reação de direita!
- Mas você não é a favor das reformas de Jango? perguntei.
- Sim, Roninho, respondeu ela com a paciência inesperada com que falaria a uma criança: Mas é preciso compreender as reformas de base. O país é enorme, e as bases estão longe de serem amadurecidas... Há poucos anos, na época de Getúlio, ainda vivíamos nas cavernas... O povo é muito conservador, a sua consciência ainda está em formação, tanto a massa proletária, quanto a classe média. Não é fazendo greve todo dia que se vai amadurecer a consciência nacional, a consciência de classe. O pais está à beira do abismo, do caos, mas não da revolução, entenda, mas não da revolução!
Ela gritava:
- Filhos da puta! A esquerda está empurrando o pais para o caos. A direita vai jantar! As reformas de base, tal como propostas por Jango, de cima para baixo, servem apenas para neutralizar a revolução, uma proposta social-democrata.
- Mas não desenvolvem o país? perguntei.
- Sim, disse ela, já nua, já dentro da ducha do banheiro. Mas o pessoal tá fazendo greve contra o próprio Jango. Tomaram dele a liderança das reformas de base, da pseudo-revolução, querem radicalizar. Jango perdeu o controle, está forçado a reagir, empurram-no para o lado conservador. Jango é um palerma, está acuado, terá de renunciar, vai cair, e eu "sei" que não virá um governo popular, porque não pode vir, porque não temos nenhuma base política no país. A esquerda e a direita se encarregarão de derrubá-lo. A serviço de quem, meu Deus? A quem interessa? As reformas de base fazem parte de uma conjuntura ocidental para evitar outra revolução cubana no Terceiro Mundo. Esse pessoal é louco, querem agora forçar o presidente a uma reforma agrária, quando o próprio presidente é um latifundiário. Pensam que Jango vai lutar contra seus interesses.
- E o que você acha que se devia fazer?
- Aproveitar o que for possível das reformas de base sem tumultuar o cenário, fortalecer o governo de Jango, apoiá-lo para conseguir o que for possível, pacificamente. E tocar o bonde! Não podemos forçar o governo à uma reação contra as reformas, a dar um passo atrás, empurrá-lo para os braços da reação. Estão querendo demais dele. Ele não tem essa força política, Rôni. Não tem! Essa estória de mobilização popular é um perigo, não se fabrica uma revolução num país como o nosso, há mais líderes de esquerda à serviço da direita do que você pensa... Eu vou cair fora! Filhos da puta! Eles não me levam a sério porque sou mulher!
- Não entendo uma coisa... - comecei a dizer. Mas ela me interrompeu:
- Você vai ver, Rôni. Jango vai cair, as forças que o apóiam se radicalizaram e estão desvairadas, se afastaram dele, o deixaram nu e acossado. Suas reformas são vistas como uma revolução pelos Estados Unidos, ele não pode ficar mais à esquerda do que já está. Ele está só. Não pode radicalizar, pois é apenas um reformista... Há um erro, Rôni, um grande erro... Esse pessoal não segue nem o Manifesto de Marx. Estão a serviço da direita? Hem? Responda-me?
Seus olhos fuzilavam.
- Acalme-se, disse-lhe eu. Beba.
Eu lhe passava um copo de uísque para dentro do boxe. Val estendeu a mão cheia de espuma. Bebeu um grande gole.
- Obrigada, disse-me.
A HISTÓRIA DOS AMANTES, 8
Fomos para Búzios.
Mas, apesar de tudo, algumas vezes eu sentia indisfarçável e indefinível aborrecimento. Era quando eu começava a pensar que ela só estaria comigo por pouco tempo. Ou a percebia no meio de um certo vazio em que ela nada tinha para me dizer.
Tudo resistia à clareza com que eu tentava explicá-la no meio do que vivia. Expor minhas teses. Que a vida dela em Búzios, eu inicialmente pensava, estava ficando monótona, desagradável, longe do cenário político.
Mas eu estava enganado, conforme depois vi.
Todavia ela nada revelava do que estava se passando.
Sim, Val se desarticulava e era em vão que eu tentava rearmá-la no curso de minha ficção, ela não agüentando mais, eu unindo as partes que se soltavam dela, não deixando que seus detalhes mais importantes se perdessem, se desarticulassem. Mas ela se afinava, se adelgaçava e enfraquecia progressivamente, e eu não lhe podia valer. Nada a reanimava, nem mesmo nossas idas ao Rio, como a em que fomos conhecer Nara Leão no show «Opinião», e quando fomos ver «Vidas secas» de Nelson Pereira dos Santos e «Deus e o diabo na terra do sol» de Gláuber.
Mas Val não quis mais ir naqueles meses ao Rio com freqüência, pois seus amigos da CGT estavam presos, a UNE arrasada, os sindicatos sob intervenção militar.
Sim, começo a compreender que um dos meus fracassos com ela fora o casamento, que eu não devia nem podia ter casado, que tenho de viver na solidão somente para não desarticular o outro. Mas era um erro de que eu não me queria arrepender e de que não me arrependo até hoje, pois tinha sido uma necessária experiência.
Foi então que, inesperadamente, inexplicavelmente e de modo súbito e louco - Val disse que estava grávida.
Eu já devia ter notado que a nossa união se dava no meio de uma crise movida pela inexistência de outra motivação em minha vida, não sendo causa mas conseqüência vital.
O abismo onde sempre tenho a tentação de poder escorregar e cair como quem pisa cauteloso sobre uma ponte de tabuas podres se mostrava na minha frente. Mola do meu medo, castigo do meu casamento.
O fato de que Val nunca engravidava era para mim um permanente passaporte ao perigo da liberdade, que nada nos prendia se não tivéssemos filhos. A loucura básica do meu temperamento amante se dava na aparente e frágil solidez da nossa união, desde jovem, assegurada legalmente agora como eu sempre busquei nela, ela tão avessa à qualquer ligação duradoura. Mas a porta que ela deixava permanentemente aberta era um ponto de fuga que me ameaçava apunhalar pelas costas e a punha à salvo da desgraça de uma inevitável prisão - tese aliás de minha autoria - e o que eu poderia conseguir seria pedir que ela não me abandonasse em caráter definitivo, ou seja, nada a sério que viesse a me amedrontar ou corroer e desamparar. Ela podia sair - desde que voltasse!
Eu descobrira, então, que o fundamento de sua permanência, mesmo casada comigo, era só ilusória condição: ela poderia retirar-se a qualquer momento, cortando os laços frágeis da sua dependência com que se unira a mim, ela afetiva e emocionalmente para sempre emancipada.
Tudo isso eu considerava, explicando que era assim porque não tínhamos tido filhos - falta que fazia de nós um casal de certa maneira "errado".
Mas agora, pouco tempo depois de Carlos a possuir com aquela intensidade, o ter ela engravidado explodia em mim como uma bomba destruidora de tudo, como uma arrasadora arma que eu não podia assimilar de imediato.
Mas, apesar de tudo, algumas vezes eu sentia indisfarçável e indefinível aborrecimento. Era quando eu começava a pensar que ela só estaria comigo por pouco tempo. Ou a percebia no meio de um certo vazio em que ela nada tinha para me dizer.
Tudo resistia à clareza com que eu tentava explicá-la no meio do que vivia. Expor minhas teses. Que a vida dela em Búzios, eu inicialmente pensava, estava ficando monótona, desagradável, longe do cenário político.
Mas eu estava enganado, conforme depois vi.
Todavia ela nada revelava do que estava se passando.
Sim, Val se desarticulava e era em vão que eu tentava rearmá-la no curso de minha ficção, ela não agüentando mais, eu unindo as partes que se soltavam dela, não deixando que seus detalhes mais importantes se perdessem, se desarticulassem. Mas ela se afinava, se adelgaçava e enfraquecia progressivamente, e eu não lhe podia valer. Nada a reanimava, nem mesmo nossas idas ao Rio, como a em que fomos conhecer Nara Leão no show «Opinião», e quando fomos ver «Vidas secas» de Nelson Pereira dos Santos e «Deus e o diabo na terra do sol» de Gláuber.
Mas Val não quis mais ir naqueles meses ao Rio com freqüência, pois seus amigos da CGT estavam presos, a UNE arrasada, os sindicatos sob intervenção militar.
Sim, começo a compreender que um dos meus fracassos com ela fora o casamento, que eu não devia nem podia ter casado, que tenho de viver na solidão somente para não desarticular o outro. Mas era um erro de que eu não me queria arrepender e de que não me arrependo até hoje, pois tinha sido uma necessária experiência.
Foi então que, inesperadamente, inexplicavelmente e de modo súbito e louco - Val disse que estava grávida.
Eu já devia ter notado que a nossa união se dava no meio de uma crise movida pela inexistência de outra motivação em minha vida, não sendo causa mas conseqüência vital.
O abismo onde sempre tenho a tentação de poder escorregar e cair como quem pisa cauteloso sobre uma ponte de tabuas podres se mostrava na minha frente. Mola do meu medo, castigo do meu casamento.
O fato de que Val nunca engravidava era para mim um permanente passaporte ao perigo da liberdade, que nada nos prendia se não tivéssemos filhos. A loucura básica do meu temperamento amante se dava na aparente e frágil solidez da nossa união, desde jovem, assegurada legalmente agora como eu sempre busquei nela, ela tão avessa à qualquer ligação duradoura. Mas a porta que ela deixava permanentemente aberta era um ponto de fuga que me ameaçava apunhalar pelas costas e a punha à salvo da desgraça de uma inevitável prisão - tese aliás de minha autoria - e o que eu poderia conseguir seria pedir que ela não me abandonasse em caráter definitivo, ou seja, nada a sério que viesse a me amedrontar ou corroer e desamparar. Ela podia sair - desde que voltasse!
Eu descobrira, então, que o fundamento de sua permanência, mesmo casada comigo, era só ilusória condição: ela poderia retirar-se a qualquer momento, cortando os laços frágeis da sua dependência com que se unira a mim, ela afetiva e emocionalmente para sempre emancipada.
Tudo isso eu considerava, explicando que era assim porque não tínhamos tido filhos - falta que fazia de nós um casal de certa maneira "errado".
Mas agora, pouco tempo depois de Carlos a possuir com aquela intensidade, o ter ela engravidado explodia em mim como uma bomba destruidora de tudo, como uma arrasadora arma que eu não podia assimilar de imediato.
A HISTÓRIA DOS AMANTES, 9
As mãos de Roberto são delicadas, pequenas, brancas. Ele tira e recoloca a aliança de ouro que tinha no dedo. O aro percorria os dedos da mão e voltava a introduzir-se no anular. Uma prestidigitação. Revelava nervosismo, diante de Artur, que dava em cima dele.
Desde que Val resolvera passar o Natal no Rio estava eu de mau humor e bêbado. Agora aquelas mãos se cruzavam, em prece, em súplica.
Roberto era um rapaz branco, magro, olhos negros, vivos. Era médico.
Regina, sua mulher, passa, ocupada em arrumar a ceia de natal que ficou por sua conta.
Estávamos em Búzios, na minha casa.
Era a primeira vez que passava ali o natal só. A casa pintada, a ceia tinha sido marcada para a "inauguração".
Mas Val partira.
Meu casamento com ela era de altos e baixos, mas não é disso que eu quero falar agora. Não e não. Eu não estava mesmo pensando em Val, naquela noite, eu não estava mesmo pensando em nada, bêbado.
A aliança de Roberto voltou a entrar e sair do dedo, em cópula. Seria uma provocação? Ele estava sentado bem à minha frente. Artur como sempre quase nu a meu lado, de sunga preta. Assumido e provocante. " Ótimo", disse ele quando o convidei para o natal em minha casa. "Ótimo", disse-me ele: "bicha solitária sofre no natal. Vou sim".
Regina era maternal, cursado o Instituto de Educação. Corpulenta, quase gorda, pouco maior do que o marido. Perfeita boa esposa, do ponto de vista machista, doméstica, arrumada, organizada, prestimosa, trabalhadeira, fina. Ia engordar ao longo dos anos, certamente. Por ora, os seios grandes, maciços, as pernas, as ancas. Não tinha barriga. Fomos à praia e ela estava de biquíni. Um corpo belo, mas já cheio.
Roberto era branco e pálido.
Fomos para a mesa. Eu tinha colocado no toca-disco «The mamas & the papas», que cantava agora "California dreamin".
Creio que nem tínhamos começado a comer quando ouvimos bater à porta.
Roberto se levanta. Vai abrir o portão. Sai. Eu começo a comer. Artur diz que o peru está ótimo. Digo que sim, pergunto se conhece o "Peru de Natal", de Mário de Andrade. O som é "Look through my window".
.............................
Três homens entram pela porta. Um deles é Roberto. Pálido. Os lábios tremem. Atrás dele um homem louro, estatura mediana, cabelo cortado como soldado. Olhos brilhantes, de cão feroz. Empunha uma pistola na mão. O outro era moreno alto, segura Roberto pelo braço e olha em volta.
O louro se aproxima de mim de arma apontada, bem de perto e diz:
— Eu te conheço, cara. E começa a me amarrar na cadeira corda fina, de nylon. Regina vai-se levantando, mas o louro a empurra de volta à cadeira. Ela ficou ali, sentada, apalermada, chora, olhando o marido.
O moreno alto amarra Roberto na cadeira em minha frente.
O louro sai dali e vai revistando a casa. O disco acaba.
Entra novo personagem. É moreno baixo.
O louro se volta para mim e diz novamente que me conhece. Eu não o encaro. Tenho medo dele. Roberto ameaça fugir. Mas leva uma pancada no meio do rosto. Ele começa a gritar, pede socorro, descontrolado. Regina chora. Artur está quieto. Roberto continua gritando. Não deve haver ninguém há quilômetros dali.
O louro amordaça Roberto. Alguns copos caem no chão. Na luta contra a mordaça Roberto morde a mão do louro, que se irrita e bate nele.
Minhas mãos doem. A corda apertou forte. A quina da cadeira me incomoda, comprimindo a pele do braço de maneira terrível. Lentamente, para não provocar suspeitas, vou-me pondo de maneira mais confortável. Começo um movimento limitado com os dedos para afrouxar a corda, que é de nylon e deve ceder. Não vejo o que estão fazendo atrás de mim, tento manter a calma. Minha cadeira contra a parede, por onde passa o louro. Vejo algo do corpo de Roberto pelo reflexo de uma gravura. Ouço o choro abafado de Regina.
Sou tomado por uma estranha sensação de irrealidade. Não compreendo o que acontece. O moreno baixo examina os meus bolsos, passeia pela sala com uma garrafa de cerveja na mão. É homem fortíssimo. O louro acende um cigarro de maconha, passa para o moreno alto. O louro passa por mim, tem um ar de delírio. Pela primeira vez pressinto a morte.
— Bebe, diz o louro.
— Bebe, belezinha, diz para Regina.
O louro pega Regina no sofá.
— Amarra bem o cara, diz o louro, referindo-se a Roberto.
— Cala a boca, merda! ele grita, pavoroso, para Regina, que chora. De repente vi que aquele menino ia matar-nos a todos.
Ela não se cala, chora ainda mais. Eu ouço os gemidos de alguém com Artur. Mantenho a cabeça baixa, procuro nada ver, em silêncio.
— Eu te mato, puta! Não chora, pôrra!
E sem mais nada dizer, o louro fala: "Vamos". E desapareceram na noite escura.
A HISTÓRIA DOS AMANTES, 10
Ainda abalado por aquele terrível natal cheguei ao aeroporto, cheguei finalmente ao aeroporto, às quatro e meia, ainda teria de esperar, longo tempo esperar, esperar mais, atraso na partida, o aeroporto fechado para pouso e decolagem, telefono para ela, para Val, compro um jornal censurado, um sanduíche dividido, duas metades, estava sem dormir, desde o dia anterior sem dormir, fiquei naquele pequeno bar do aeroporto, quando Val me descobriu, ali dentro, reapareceu, cabelos pintados de louro, de ouro, enormes óculos escuros, agora, mais que nunca, agora, uma Marylin Monroe brasileira, guerrilheira.
Estava grávida.
Val grávida movia-se com dificuldade, a volumosa, braços e rosto um inchados, no forte calor.
Viera agora, tranqüila, estava sentada, a meu lado, olhava o movimento tumultuoso das pessoas do aeroporto, começava a comer a metade de meu sanduíche, pediu uma coca-cola e bebia.
— Não sei por que você não esquece logo esse negócio de assalto, disse-me ela, ajeitando o cabelo no espelho, como se nada tivesse acontecido comigo.
“Ninguém morreu”, acrescentou, divertida.
Eu nervoso desde que ela chegara, olhava os lados, imaginava um policial que a reconhecesse e viesse prendê-la, soubéramos que era procurada, estava incluída (o que nunca foi confirmado) em não sei que secreta lista (que tudo naquela época era secreto) pessoas que não podiam ausentar-se do pais.
Mas Val comia, bebia, com tranqüilidade, satisfação, e dali mesmo sentado eu podia ver a parede nua onde estava o cartaz sua fotografia se estampava procurada por todos os pontos e cantos do pais.
E Val com um gesto amigo, sentindo-se tão bem ali, como se estivesse no jardim, como se fosse viajar a turismo, os passageiros passando de um para o outro lado, como se o aeroporto fosse seu, passando por perto de nossa mesa, e os poucos empregados atarefadíssimos no balcão, porque havia muitos fregueses ali, poucos os empregados que conseguiram chegar ao trabalho, naquele dia um choque de dois trens na estação de Riachuelo interrompera a linha férrea e muitos morreram e não conseguiram comparecer ao trabalho, os trens parados, e nós bebíamos nossos refrigerantes.
Sentados na bancada alta, à esquerda, e embora com os corpos rijos e os copos nas mãos, um grupo de dois estrangeiros animadamente conversava com um jovem brasileiro, encostado ao balcão, aquém de uma fileira de copos de vidro recém-lavados e ainda molhados. Os homens bebiam uma garrafa de cerveja que era dividida ali (o jovem não bebia nada), dois homens simples, de meia idade, talvez dois turistas italianos, ou dois empregados de alguma empresa estrangeira, ou dois desocupados que estavam viajando juntos e conversavam com um jovem moreno que tinha cara de pertencer a alguma turma de alunos de inglês do IBEU, e eu não conseguia ouvir de que falavam.
Eu tenho as mãos frias. Trêmulas. Desde que Val chegara, talvez pela debilidade do longo jejum, talvez pela excitação do assalto, ou de meu novo livro em São Paulo , para onde estava indo, talvez pela fraqueza e medo de que acontecesse alguma coisa a ela, que eu proibira de sair do esconderijo onde a escondera, que era um apartamento de Copacabana, dividido com um amigo, onde ela ficava comigo em companhia de sua mãe, porque eu temia por sua segurança e naquele tempo a polícia estava caçando comunistas como ratos, arrombando portas, prendendo pessoas, dentro de suas casas, sem maiores explicações, com as mais violentas e obscuras finalidades, qual seja para matá-los. Sim, podiam me prender, mas nada tinham contra mim (o que para eles não significava nada); em Val, porém, nunca teriam conseguido por as mãos: eu a ocultava e protegia de tal forma que vivíamos como foragidos, personagens de filme policial americano. Eu era figura fácil de encontrar, mas minha mulher tinha sumido, ninguém sabia, estava grávida, era com exagerada cautela que eu entrava e saía do apartamento onde nos escondíamos, tantos eram os amigos e amigas de Val que estavam desaparecendo nos últimos meses.
Sentia as mãos frias e trêmulas desde que Val chegara, talvez de um vazio qualquer, que não saberia explicar, enquanto ela comia o seu pedaço de sanduíche, bebia o seu copo de coca com tranqüilidade.
Estava sem fome desde o dia anterior, cheguei no Rio, tomei um apressado banho e parti para o aeroporto.
Eu não queria que Val estivesse ali, eu não queria que Val estivesse em parte alguma, fora de casa, principalmente só, ela estava para dar à luz a seu filho, que devia nascer a qualquer momento, mas era procurada, estava numa desconhecida lista de pessoas que não podiam deixar o pais, lista aliás idiota, conforme vim a saber, pois incluía também humildes operários que nunca tinham ido nem de ônibus ao aeroporto.
Eu não sabia se a mandava para casa ou se teria tempo de a levar, telefonara avisando que o avião não partiria nas próximas horas e só chegaria a São Paulo à noite.
E pensava se não era melhor levá-la para casa, mas discutindo isto com ela me respondeu que estava sentindo-se tão bem que acabei também concordando, me era agradável saber como ela viera da cidade para me fazer companhia e não me deixar esperando, que era como eu me sentiria à noite sozinho em São Paulo , voluntariamente sozinho e cansado, no quarto do hotel em que me hospedava sempre, eu queria voltar naquela mesma noite para o Rio, mas não podia, no dia seguinte tinha um encontro marcado, voluntariamente sozinho e cansado, ainda que, se quisesse, poderia estar cercado de amigos e de pessoas que eu poderia até amar, até levar para cama, amizades que eu tinha em São Paulo , verdadeira família, algo meu, de meu lar paulista, meu segundo lar, aonde me aprazia ir.
Eu não queria levar Val comigo daquela vez, temia passar com ela pelo aeroporto (o que era um medo infantil). A espera longa demais para mim depois de uma noite sem sono. E não, ela deveria voltar logo para casa, eu estava louco para me ver livre dela, nem deveria ter saído de casa, eu não estava mais razoável ou raciocinando bem, o dia tinha sido longo demais para mim, ela podia voltar a passar mal, não devia ter saído, você deve voltar, lhe disse, em casa você tem meios de se comunicar comigo se algo acontecer, as ruas estão engarrafadas, não há trens, você está envolvida, perseguida, procurada, é um milagre que você não tenha sido encontrada no sindicato quando a policia chegou e prendeu todo mundo.
O amor. Rôni via que o amor não podia ser entendido, não podia ser visto com clareza. Entretanto, certamente, era o amor a recompensa das alegrias do amar. Como ela disse, e como ele dissera também e escrevera, bem no meio de um parágrafo do seu novo livro.
A HISTÓRIA DOS AMANTES, 11
Nada. No dia 19 de dezembro de 1967 Rôni não viu o soberbo pássaro de prateadas penas que fugia apitando furiosamente em desespero, e como uma máquina batia com seu bico de madeira na vidraça antes de a romper, na densa névoa o envolvia: passada a névoa, dali restou o seu perfume e um homem sentado, olhando para fora, interminavelmente olhando, relendo pela madrugada aquele bilhete sem mover-se, abrindo somente os olhos (os olhos apenas, porque o resto do corpo não perdia a imobilidade, prostrada e mortal), ouvindo o vago, o morto, o mutilado — e voltava a ler, ou a adormecer, perdido, solto, madrugada a fora, à mercê da sua tênue sensação de abandono, serenamente imóvel, até que uma beatificação, da plácida corrente do pensar, imóvel, como a sua morte, o envolveu e ele adormeceu sobre aquelas palavras.
Foi dias depois da noite em que Roni e Val foram a um show do Chico e o famoso cantor cantou as músicas preferidas dela, e era como se cantasse para ela, sem disfarce, olhando-a fixo, vivendo-a na canção, desejando-a na fala.
Quando Roni era mais jovem experimentava o fenômeno: fazia as coisas se derreterem ao redor, as paredes se afastavam na clareira do deserto. Era assim: Val não transigia com a vida, perigosamente. "Não amei", disse ela, certa vez. "Só conheci da vida a dor e o prazer".
Lembrando-se disso, Roni refletiu: "Tenho medo de estar sempre escrevendo minha condenação. Me canso".
Roni estava fartamente ligado a ela, mas não pôde suportar quando soube outra coisa.
Val estava ainda mais bonita, naquela época, e naquele dia 19 de dezembro de 1967 ela se foi não sei para onde.
No Correio da Manhã, que Rôni lia e relia, estava escrito:
"O correspondente da France Press escreveu que um novo ataque foi efetuado ontem, contra a capital pela aviação inimiga, desde as l1h 40m até às 12h 05m locais.
"As pontes P. D., nas margens do Rio V., e o setor de G. L. foram os principais objetivos, porém outros ataques de despistamento foram realizados simultaneamente contra vários pontos da região.
"O ataque foi realizado por três ondas de bombardeios, com uma diferença de cinco minutos entre si. Os ataques efetuaram-se a meia altura.
"A primeira e a segunda onda chegaram sobre a cidade por grupos de dois aviões cada uma. Os aviões voaram protegidos pelo sol, que mantinham atrás de si, para que as reverberações molestassem os atiradores em terra.
"Os aparelhos largaram projéteis verticalmente sobre o centro da cidade e era possível ver as bombas picarem em diagonal sobre os objetivos. Depois os aparelhos viravam sobre uma de suas asas, a fim de oferecer a menor superfície possível aos disparos dos canhões antiaéreos.
"Além das bombas e dos foguetes ar-terra, bombas de balas foram disparadas pela terceira onda de aviões. Estas bombas reconhecem-se por sua explosão, que se parece com um fogo de artifício.
Ao explodirem, elas lançam milhares de cubos de metal em todas as direções, são por isso conhecidas como bombas antipessoais.
DEFESA
"A defesa antiaérea foi muito intensa. O alarma começou na capital vários minutos antes da chegada dos aviões, e cada onda de caças-bombardeios era 'anunciada' pelos alto-falantes.
"A jovem anônima, sempre a mesma, que anuncia os alarmas pelo microfone, assinalava aos cidadãos que 'novos piratas do ar penetravam no espaço aéreo da cidade'.
"Ouvia-se então o surdo rugir dos reatores ao longe, e depois os primeiros disparos dos canhões pesados instalados nos arredores da cidade, e imediatamente depois o crepitar de todas as armas, quando os aviões surgiam sobre a cidade.
"De vez em quando a terra estremecia, quando explodia uma bomba de grande calibre.
"Às 12h 05m locais o último fragor dos reatores sumiu ao longe, e em seguida as sirenas anunciaram o final do alarma.
"Nas ruas, as pessoas abandonavam seus refúgios individuais, limpando a roupa, reajustando seus capacetes na cabeça e montavam de novo em suas bicicletas.
"Próximo do rio V., nuvens de pó branco elevavam-se sobre G. L., e o vento as empurravam, em direção da cidade".
A HISTÓRIA DOS AMANTES, 12
Ele deu dois passos e caiu num abismo. Deu dois passos com a chave na mão, e quando a chave se introduziu na fenda daquilo que parecia um cofre, Rôni sentiu passar para seus dedos uma leve eletricidade vinda da chave, e viu que aquela porta fechada não lhe seria indiferente.
Entrou e percebeu que a sala estava vazia. Mas o vazio era maior do que a sala. Não era um vazio pela ausência das pessoas que viviam ali, sua esposa, a empregada, mas algo havia morrido ali em caráter definitivo.
Rôni permaneceu alguns segundos com a chave na mão e a porta aberta.
Depois atravessou a sala, afastou a cortina, abriu a janela. Entrou um ar sujo, um indiferente ruído de trânsito, bem lá de baixo. E Rôni prosseguiu, entrou no hall que levava aos quartos. Ninguém estava lá. Ele sabia. Ele sentia.
Val tinha partido.
Era como se ele já esperasse. Apesar de tudo, seus lábios tremiam, pálidos, diante do espelho da alcova, enquanto lia o cartão:
Ronaldo:
Vou-me embora. Nossa separação é definitiva.
Depois mandarei buscar o resto de minhas roupas.
Valquíria.
Rôni reparou que o teto do quarto estava estranhamente róseo.
Uma luz do ocaso filtrava-se pela vidraça. Rôni abriu a janela e olhou para a rua. Aquela janela dava para o mar e para um labirinto de ruas em que seu olhar se perdeu por instantes, no trânsito.
A janela respirava a rua e um mar distante. Entrou, quase imperceptível, um som. Uns ruídos longínquos, vindos do longe. Gaivotas alçavam vôo.
Em baixo, duas ruas, cortavam uma cruz, indiferente, retas. Visto ali, no alto do prédio, dir-se-ia que ele ia suicidar-se.
Sim, foi naquela tarde que a sentença lhe veio, forte, compacta, perfeita e aterradora como uma lança. Val partira.
Agora o vento veio forte, bateu a porta, derrubou a folha de papel de cima da penteadeira.
Rôni abriu a gaveta e espalhou as camisas por cima da cama. Não ficaria ali, naquele apartamento vazio que testemunhara seu fim. Aquilo era um sonho...
Mas o bilhete, como uma bala, apareceu, caído no chão.
Rôni então sofreu uma angústia forte, foi atravessado por uma dor, e caiu de joelhos, chorando alto.
Quando se levantou, viu as camisas espalhadas sobre a colcha da cama, pegou a chave da rua e saiu.
Durante duas horas ele andou pelas ruas da cidade. Em direção da Lapa e entrando num bar mergulhado nas sombras. O bar cheio de prostitutas, mas nenhuma quis saber dele e de sua cerveja. Alguns homens formavam um grupo num ângulo da sala.
Rôni pôde lembrar Val com ele numa praça luminosa, na orla da praia, onde Rôni subia os degraus de um pedestal antigo que chegava à cabeceira do tanque retangular e no ar abria os seus braços, espalmando as mãos, feliz.
Eles estavam diante do majestoso mar da Ilha, o mar soava luminosamente e enchia o espaço da clara voz de Val, a aragem marinha filtrando-se no meio de tudo pela camisa aberta e os peitos nus.
Nada me entristece mais do que aquela ilha, a demora do tempo passado no momento presente e o movimento interior e imensurável da força dos instantes da juventude.
Visto de longe o mar era uma vedação azul soberana, e as coisas aconteciam em bloco e se dissolviam em brancas explosões de espuma.
Estou perdido. Trabalho mal nesse espaço. Isso é tudo?
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