quarta-feira, 23 de setembro de 2009

AFONSO DE CARVALHO



















AFONSO DE CARVALHO





Dias e noites


Os dias e noites são de uma tepidez mortal, e dias assim não convidam a pensar. Há uma exaUstão de ferro candente sobre as coisas do mundo, sobre a terra e sobre as águas, e os nossos corações sofrem as angústias de todos os tormentos das horas perdidas, as horas que não pudemos viver. É Novembro que se aproxima, amor. Bem sabes, querida, que este pode-ria ser um mês de alegrias, em que cantássemos aleluias de ressurreição, um mês em cujo inicio eu estaria te ofertando poemas de amor, em surdina, somente para as teus sentidos ou-virem, apenas para o teu coração comover. Não será assim, todavia, anjo meu. Para mim, o mês que se aproxima é uma quadra de recordações, e eis que me perco a meditar, não pen-sando nas glórias da existência, que não as quero, mas em ti, amor imortal, em ti somente. Que será de nós, amanhã? Pensamentos, palavras, emoções, tudo gira em torno de tua mara-vilhosa pessoa, tu, que és única, que és insubstituível, que estás presente em todas as minhas horas vazias, como uma obsessão e como uma loucura de que não me quero curar, para a qual não há remédio. Farei versos a ti. Novembro se aproxima, e com ele, e durante ele, meu velho coração não terá outro destino: só tu o ouvirás, só contigo ele estará. Ninguém mais.


MEDITAÇÃO DE NOVEMBRO

A tua não será uma vida em berço de rosas e sempre haverá pequenos obstáculos através da estrada que se abrirá a teus pés de peregrina impenitente. Será pouco o arrimo com que contarás, e teus amigos serão ainda menos, porque foste escolhido sob o signo desditoso das traições. Tem cuidado com eles, portanto. A tua será uma luta solitária e deves confiar apenas no valor de tua moral, na altivez de tua consciência, na pujança dos teus próprios méritos pessoais, se algum tiveres a teu favor — foi assim que Ela me disse quando eu nasci. E assim tem sido, ó companheiro que me segue, ó corcéis do tempo que passam, velozes, carregados de essências cósmicas no rumo inacabável das noites sem fim. Sim, a vida é bela, ó companheiro, mas os lagos azuis estão encapelados e ouço um rumor de torrente através das idades, que nascem e desaparecem como espumas, e só duas vozes amigas eu encontrei: a tua voz, minha mãe, e a tua,- querido amor do coração. Terei, talvez, um destino luminoso? Ou serei o último dos facínoras? Ou o mais execrável e repelente dos monstros? Creio que o meu será o destino que quiseres, ó espírito humilde de minha mãe, ó coração bondoso do meu amor. Lançarei meu rosto sobre a poeira das estradas, calcarei um ferro em braza sobre o coração dolorido e por certo morrerei, amor, morrerei por ti. Que importa a dor suprema do holocausto? Ainda haverá pelo mundo uma valsa de Strauss, uma Apassionata de Beethoven, uma Serenata de Shubert e o riso cristalino das crianças, que estes nunca morrerão, querida amiga, nunca morrrerão.
Minha mãe, e tu. meu amor, tão próximo e tão longe de mim. Chegou Novembro, o nono mês das meditações. O meu desejo e minha necessidade é apenas de preces. Estarei contente.

ULISSES, REIZINHO E BRUCUTU

Bem sabes que esta crônica que estou escrevendo, para o dia 4 que iremos viver, bem sabes que é uma divagação sobre a minha própria pessoa, mas toda ela está impregnada de ti, de tua lembrança imorredoura, e nesta crônica haverá muita música, porque agora, estou ouvindo a tua voz e por isso contarei uma história do que eu desejaria ser no dia 4. hoje que vai passar. Conto essa história, sim, porque sei que ela enternece os teus ouvidos, e porque essa é uma história que noutros tempos eu vivi. Lembrei-me repentinamente daquele Ulisses de Saroyan, sabes? E assim como me lembrei de Ulisses, poderia, também, me lembrar do ingênuo Reizinho das histórias de Soglów, ou do Capitão América ou mesmo do simplório e rude Brucutú, que estes são cavalheiros muito importantes, segundo eu penso. É que somos crianças, apesar de tudo, doce coração. Para que pensar em bombas atômicas? Para que pensar em delírios mortais de angústias humanas? ou em gemidos do sub-solo que, se os ouvíssemos agora, nos cortariam o coração? Para que? Não, voz amiga do terno sentimento. Ulisses pelo menos ficará aguardando a passagem da vida, metido nas suas calcinhas rotas de menino vagabundo, e estará contente quando o trem soltar o apito saudoso na curva da estrada, deixando o seu penacho de fumo bailando no ar. Então Ulisses irá embora, assobiando e tropeçando nau pedras do caminho, porque para ele a vida acabou, a vida é somente a paisagem do trem. Pois, assim mesmo doce coração, é a emoção que sinto por ti, neste 4 de novembro que iremos viver. Não haverá festas nem flores.
Tudo será silêncio e indiferença. Estarei no exílio e não falarei com ninguém. De que me serve falar com alguém que não sejas tu? E de que poderia eu falar, se tenho a certeza de que ninguém ia. compreenderia, a não ser tu, Coração terno e querido? Também não desejarei ouvir palavras estranhas, assim como o Ulisees de Saroyan se despedia da vida à passagem do trem pela. curva da estrada. Em momentos como este é quando tudo perde a cor, e nada interessa, amada minha. Sem ti nada existe. A vida se transforma num vácuo os violinos permanecerão mudos, o sol esconder-se-á na paisagem silenciosa das sombras.
O sorriso das crianças ó terna, ó infantil bondade de Ulisses, orai por nós....


SÓ, COM OS AMIGOS

Depois das horas melancólicas- do dia maior, ainda há passos perdidos pelo caminho das sombras e os ultimas Cantos da jornada agreste perdem-se na vastidao infinita dos mundos mortos e depois será o silencio sobre tudo, a mansidão, a quietude... Aqui ficarei, Coração, à sombra desta arvore amiga e acolhedora. Trouxe comigo os meus trágicos amigos da estepe e deles nao me afastarei, por hoje. Sim, porque só com eles me sentirei bem, me sentirei à vontade, nestas horas de recolhimento e saudade, quando há em mim uma ansia feroz de viver, mas quando o meu amigo me diz nao tente a penetração dos umbrais do pais do sonho, porque esta é a situação mais real, mais viva e mais permanente. Hoje nao desejarei a companhia amavel de, por exemplo, Elizabeth Barret, Keats ou Lord Byron, porque nao me sinto com disposiçao de planar nas alturas do sonho, nao terei forças, talvez, para atravessar a nevoa densa que me envolve o espirito e só tenho tentaçao pelos espaços limitados, onde haja sombra, onde haja silêncio, e nao rumores de vozes para me incomodar. Se é certo que a única voz que eu desejo, se é certo que ela nao vem, entao que a vida me deixe em paz, com meus tragicos e torturados amigos da estepe. Esse Raskolnikoff encherá o dia de um homem que pensa e sei que viverei bem com ele, era como se estivesse tambem amargurado, sentindo, como ele, o veneno de mil viboras sobre a consciencia atormentada, e no fim recebesse o castigo que eu acho que tambem mereço. Sim, o castigo, que para mim seria o sepultamento das esperanças que me restam. Estou tao obscuro, Coração, que nem poderei pensar nas tranças dos teus cabelos, que eu adoro, nem na magia de tua voz, pela qual enlouqueço. Arvore amiga que me dá sombra, passaros que cantam, vento que acaricia e sol que me da luz, para ver e para sentir, por que me abandonais? !

Porem, ainda resta uma ilusão, ainda ha uma esperança. Nao morrerei ainda, Coraçao. Podem cantar, passaros de minha vida.

Ventos assassinos, passai ao longe. .. Ha uma voz que me segue.



MANHÃS DE SOMBRAS





...Manhãs sombra.. Serena tranquitidade no ar. O ceu está carregado de amena e fluida caligem que reconforta o corpo cansado e bandos álacres passarinhos vieram pousar no meu telhado de pobre e eu penso que hoje teremos um dia feliz. Deus queira, irmão. Num dia como este, numa manha assim, seria impossivel a uma pessoa odiar. Eu, pelo menos, não poderia. Sinto desejos de abraçar a todos aqueles que me detestam, e penso que nao me custaria muito estalar um beijo enternecido na face dos Judas, e seria mesmo capaz de oferecer minha ultima camisa ao homem que me espera ali, na esquina, para me apunhalar. Hoje eu serei deste geito, irmao. Estou para perdoar todas as ofensas e te juro que serei o mais humilde dos mortais da terra. Acabou-se a negrura da alma, o coração adormeceu, comovido, e hoje este coração tem tempo para sonhar. Sonhos alegres, sonhos sem rancores, sonhos amaveis, carinhosos, ingenuos, sonhos assim como me pedes, Amor. Bem, a causa de eu estar possuido de tanta ternura, ja sabes qual é, Coração. Tu me infundiste confiança, tu me deste consolo, tu me fizeste convicto, de que sou um homem feliz, talvez o mais feliz de todos eles, porque nenhum é tao amado e tao querido e tao desejado como eu, por ti; nenhum é mais senhor de tua vida e de tuas emoçoes, e nao quero para mim mais do que isto, não quero, eu te juro. 0 resto são ilusões que se desfazem, sao cristais partidos, como dizia Balzac. Estou pensando agora numa alma de criança, ouviste? Quem sabe se não existe hoje, nesta manhã fluidica que reconforta, o espirito de uma delas, dentro de mim? Quem sabe se não é Ulisses, que me veio visitar? Estou pensando que sim, Coração, e se deste modo eu penso é porque não vejo e não ouço as vozes do orgulho e do preconceito, tudo é placides e bemaventurança, e sinto-me num mundo diferente, e há uma estrela e há um farol que me guia, e tudo isso es tu, doce Coração do meu amor. Quisera que todos os dias fossem como o de hoje, porque o meu deeejo é ser bom, ó Senhora das Graças. - Amem ...


ROTEIRO DA TAPAJÓS


Se voce der uma espiada na praça de Sao Sebastiao, principalmente acontecendo isto em noite de lua, voce poderá ver que ela deve ter sido uma praça bonita, no tempo em que esta era uma cidade risonha. Nao vamos falar aqui a respeito da noite, porque Manaus, toda ela, e uma cidade horrivel quando o sol se vai e é possivel que voce nem possa encontrar as praças e as ruas que nela existem, porque estao escuras, sujas, maltratadas, feias. A ausência da luz é sentida nessas ocasioes, a boa lua dos namorados, a lua dos que teimam em ser notivagos, e dos poetas, que ainda existem. Sao Sebastiao, deve ser dito, é uma praça amada. Ostenta o lindo monumento de bronze, as calçadas carijós e a igreja do santo, que foi capitao e foi martir, porque preferiu flcar do lado dos perseguidos, traindo a Cesar, de quem recebia soldo. Mas aqui, como o assunto nao é bem a praça, e quero me referir a rua que nasce dela, falarei nao só da igreja como tambem da mercearia de seu Manuel, que fica na outra esquina, para depois contar o caso em miudos, como é meu desejo assim fazer. A igreja de Sao Sebastiao, que é a nossa paróquia, ao que sei dela, foi construida por um frei Jesualdo Machetti. Na entrada, do lado direito, voce vera que tem uma placa de marmore e nessa placa, alem do nome do frei, há uma data em algarismos romanos: MDCCCLXXVIII, que uma pessoa entendida me contou que, traduzida para o nosso conhecimento, quer dizer 1878. A igreja pertence aos capuchinhos e todos os domingos la estamos, ouvindo a missa, quando frei Jose faz uma pregaçaozinha que ninguem entende, va1endo pela intençao. Tem pelas paredes murais de De Angelis e penso que São Sebastiao nao sera a única igreja da terra que possue vitrais. Frei Jose é um grande trabalhador e nesta condiçao deve ter visto o nascimento da rua dos Tapajos, que, como disse, nasce na igreja dele. Sou um tapajó, sabeis. Falo hoje dos tapajós e do que existe de bom na taba deles. Seu Manuel, no canto, vende sorvetes e aperitivos, trabalhando, ele me disse, 18 horas por dia. Um portugues simpatico, de cara alegre.Se ficar rico, que ninguem se admire. Sua mercearia é frequentada e seu Manuel sabe ser comerciante. Diz gracinhas para as domesticas das cadernetas, possue um jipe da marca Wills, e assim vai levando. Seu Manuel é homem respeitado na rua Tapajos, sua mercearia tem fama na redondeza, o que é merecido, sem duvida. Aqui, no fundo da igreja é a residencia dos capuchinhos e mais adiante, se voce for subindo, encontrara a Delegacia de Saude Federa1, confrontando a outra mercearia, que tem como dono um outro portugues, o sr. Monteiro. Deste lado esta o Luso, que apesar de ser "Sporting Clube" exibe apenas Pastorinhas e promove bailes retumbantes em datas certas do ano. As Pastorinhas do Luso sao famosas e dos bailes nem é bom falar. Animadíssimos, os soalho treme e a orquestra pode nao ser um primor, mas que ajuda, ajuda. No numero 154 moro eu, um dos tapajós mais antigos da taba. Com portas para a rua, de noite as cadeiras vão para a calçada e fica-se vendo as proesas da Tereca (é a gata).






(Vozes azuis. Manaus, Sérgio Cardoso, 1956).





Anjos e porcos




Faz tempo não vou ao cemitério no dia dos Finados e eu gosto de cemitérios. São lugares tranqüilos, têm ciprestes, reina paz e silêncio e todos que moram ali estão deitados, dormindo, como no verso de Bandeira, os corações parados, as bocas fechadas, ninguém incomodando ninguém. Este é o mundo dos mortos, leitor, pessoas que já existiram em cima da terra - foram bons? foram ruins? - mas aqui não se pergunta o que eles praticaram em vida, se eram pretos ou brancos, se tiveram dinheiro ou eram pobres, se religiosos ou ateus, porque a morada é comum, a terra é a mesma e lá no fundo, depois da última batida, dizem que os mistérios são muitos, o corpo fica e apodrece porém a alma tem um destino, que, até hoje, não conhecemos. Se aquelas pessoas todas que ali compareceram no dia dos Finados pensassem um pouquinho, estou certo de que o aspecto do local, nesse dia, seria bem diferente: não transformariam o campo santo, pelo menos, em salão de palestras, não levariam seus mercados para ali funcionar, haveria ordem, respeito, que os espíritos estão olhando e eles sabem o que vai no coração e nos sentimentos de cada um. Os irreverentes pagarão caro, é o que dizem, e brevemente vai descer um carro de fogo resplandecente, igual ao de Elias, e o carro só levará aqueles que, entre outras causas, souberam se portar bem nas visitas aos cemitérios - e ai dos debochados, dos cínicos, dos mal intencionados. Estes ficarão na terra, virarão bichos disformes ou tochas vivas e isto se dará quando o novo Sol penetrar em nosso sistema planetário, verticalizando o eixo da Terra, e os bons passarão a morar noutros mundos, alguns serão possivelmente anjos, que assim está escrito, irmãos, e a era se aproxima, preparem-se. Qualquer dia não se assustem se esses fatos forem confirmados em sua mais completa exatidão. Estamos na lua, hoje, mesmo sem morte. Mais uns dias e estaremos em Marte, ou talvez Vênus, que é mais perto. Anjos, dizem os teósofos. Mas você não irá, irmão, você roubou no peso, escondeu o leite das crianças, furtou o espólio da viúva, será bicho disforme, portanto, um porco. Sirva-se. O bom chiqueiro, a terra, é seu. Pode grunhir. Você não quis assim?
[A lua é dos pobres. Manaus, Sergio Cardoso, 1960.]



Casebres



NA semana passado a coluna de Ibrahim Sued publicou matéria interessante para os amazonenses. Alguém não gosta do Ibrahim, e deve ter seus motivos; não digo que gosto, leitor, mas confesso que, jornalisticamente falando, a coluna que ele escreve é boa; por isso leio o Ibrahim e considero-o mesmo uma dos grandes atrações do O GLOBO. Mas, eu dizia, Ibrahim Sued tocou no Amazonas e, tocando, a coluna de Sued certamente nos interessa. Marcel Camus andou por aqui, ele disse, e sabemos que andou, e Camus é aquele cineasta francês que fez um filme cujos artistas principais são os escurinhos brasileiros e o filme de Camus foi um bruto sucesso, ganhou palma de ouro e palma de mil mãos, foi o primeiro classificado numa festa mundial de cinema e por essa razão Camus voltou, pensando talvez em repetir a invejada glória, fazendo outra fita, para ganhar outro prêmio. Que Marcel a faça, são meus votos. Ele ficou maravilhado com o Amazonas, declara Sued na sua coluna. Passou todo um dia, “desde o nascer até o pôr do sol, na praia, a estudar os ângulos de filmagem”. Diz Sued que a imaginação de Camus ficou encantada com verdadeira cidade flutuante nos arredores da capital” e foi aí que alguém atrapalhou a história. Não se sabe quem foi esse alguém, que o Sued não diz. Era um homem da terra, um amazonense. “Se o senhor vai em outubro, desisto, afirmou-lhe o homem. Não haverá nenhuma cidade flutuante para o senhor filmar. Só um monte de casebres sujos, enterrados na lama”, - uma pinóia, quis o informante dizer. Imagino qual tenho sido a reação do francês, ouvindo semelhante espirito-de-porquismo do tal homem da terra. E’ possível que, pensando bem, o poeta do Orfeu preto tenha desistido daquilo que ele esperava ser a sua segunda glorificação, em outra festa de filmes. Se for indivíduo de muita firmeza, pode ser que não desista e venha, porem... Meus caros amigos, eu fui repórter muito tempo e meu campo de luta, meu posto, era exatamente aquilo que pode ser uma pinóia para o informante de Camus, mas acontece que um poeta vê tudo com olhos diferentes, a lama brilha, o fedor tem cheiro de jasmim e tudo aquilo, no fundo, é um palco iluminado e no caso o francês Camus seria um Orestes Barbosa redivivo, porque ele tem imaginação, e sonha, vê coisas que você não vê, sente o que você não sente — não é cego, não é burro, Compreende? Aqueles casebres na lama não são apenas um filme, são uma epopéia, maior que Guerra e Paz, mais comovente que Ben-Hur. Breve vou escrever esse livro, leitor; não, acho que não posso.
[A lua é dos pobres. Manaus, Sergio Cardoso, 1960.]





O temporal






A mais bonita descrição de um temporal amazônico, quem a fez foi o escritor Ferreira de Castro no seu livro “A Selva”. Li esse livro há bastante tempo, leitor, porém eu mesmo nunca assistira a um desses temporais, apesar das tantos anos que aqui resido, metido nesta cidade, sem coragem de avançar pelo mato, pois lá eu sei, é onde estão os acontecimentos que empolgam, lá é onde a natureza se manifesta em toda a sua grandeza e suas variadas dimensões. Viver em cidade é erro, saibam, e gostei de ver o entusiasmo do nosso amigo Bartolo, acabado de chegar de Brasília e eu sei que lá não existe mais selva, no entanto a natureza brasileira é ainda impregnada daquilo que aqui nós temos em abundância, aquele gosto de terra, aquele cheiro de chão - mas voltemos, leitor, a falar dos nossoss temporais. Foi ante-ontem que aconteceu um, e bem forte. Estava eu no terceiro andor de um prédio, olhando nuvens escuras que corriam e se aproximavam, derramando água na selva bruta, fazendo turbulência incrível para os lados do sudoeste, e de repente a área toda, onde eu estava, foi envolvida pelo turbilhão, água e vento às pamparras. Fechei a janela, e fiquei a espiar a fúria dos elementos através de uma frincha. Maravilha das maravilhas. A madeira rangia, parecendo o gemido de almas penados em desespero, e a água, caindo em bátegas violentos sobre as vidraças, dava-me a impressão de um novo dilúvio universal que se abatesse sobre minha cabeça, tão forte, tão rugidor, e em certos instantes até o medo queria se aproximar, dominando-me, não fosse eu pensar que ali estava um nordestino, e um nordestino não tem direito a ter medo da água do céu, que ela é Deus quem monda e dela depende nossa inteira existência. O rio Negro levantava ondas colossais, com suas embarcações em louco redemoinho, batendo aqui e ali, e até pensei que o roadway fosse arrancado do seu lugar, jogado do outro lado da baía, porém isso não aconteceu, leitor, e bem alegres devem ter ficado os peixinhos - peixinhos e peixões - que aquele foi um Carnaval que eles muito devem ter apreciado, tal era o reboliço e a confusão no local. Se a gente pudesse se aproximar, é possível ouvisse as cuícas e os tamborins dos peixinhos em festa. A grande baía nunca esteve tão animada, como na tarde daquele temporal. Os peixes velhos é que não devem ter gostado. Um pescador me disse que os peixes velhos são como pessoas velhas: aposentam-se, fazem a cama, deitam-se e só comem aquilo que lhes cai em cima, restos que alguém atira no água e dá ao fundo, sem que outros peixes mais vivos aproveitem na sua descida. E fico eu a pensar na semelhança dos peixes com os criaturas. Eu, por exemplo, não suporto mais o Carnaval. Barulhos e turbulências me incomodam. O silêncio, sim, é que é bom. E no fundo do rio o silêncio deve ser ainda mais agradável. Os peixes velhos, leitor, que o digam.
[A lua é dos pobres. Manaus, Sergio Cardoso, 1960.]





Cosme e Damião: Bons Amigos (*)

Crônica de Afonso de Carvalho

DOU NOTÍCIAS ao leitor do funcionamento dos Cosme-e-Damião nesta cidade. Mais de uma vintena dos simpáticos policiais já se acham em função em nossas ruas e praças, as mãos para trás, sérios, compenetrados do seu papel, com a missão precípua de manter a boa ordem, proteger os velhos, as crianças e as árvores, satisfazendo, assim, um justo anseio da boa gente manauense, que há tempos implorava segurança e tranquilidade, sem que ninguém a ouvisse nem de tal tomasse conhecimento.
Os Cosme-e-Damião já chegaram, porém, e chegaram em boa hora. Eles devem conhecer, nas maiores minúcias, as responsabilidades do seu posto, responsabilidades que são grandes, de todas as horas, de todos os minutos. Manaus vinha sendo, lamentavelmente, uma cidade sem proteção, uma cidade, por assim dizer, entregue aos maus elementos, que lhe destruíam as belezas ainda restantes, seus monumentos, seus jardins, suas árvores, suas instalações elétricas e telefônicas e até a propriedade particular se sentia abandonada, porque as autoridades não davam nenhuma atenção a um problema tão importante, como é esse, assistindo, a tudo, impassíveis e indiferentes como se não fosse sua obrigação zelar por aquilo que foi construído com o dinheiro do povo, arrancado, Deus sabe, a tão duras penas. 

Dupla de Cosme e Damião
Tínhamos uma Guarda Civil e tínhamos (ou temos) uma Guarda de Parques e Jardins, esta última sob a responsabilidade da Prefeitura Municipal — mas infelizmente esses órgãos não preenchiam suas finalidades por motivos bem fáceis de imaginar. Agora vem de ser criada a organização dos Cosme-e-Damião nos moldes da que existe na capital da República e outros centros adiantados do País. Os Cosme-e-Damião são cavalheiros que de nós merecem toda a consideração. 
Devemos prestigiá-los, estimulando-os na sua ação, pois eles vieram para, como dissemos, manter a ordem na cidade, corrigindo os malfeitos (que são muitos entre nós), pondo freio igualmente à molecagem destruidora e vieram também para proteger os pequeninos, os fracos e os indefesos — que são, no caso, as crianças, os velhos, as árvores, os passarinhos, que enfeitam e dão vida aos nossos pobres jardins. 
Dizem que, por enquanto, os simpáticos policiais de mãos-atrás-das-costas só estão agindo nas horas silenciosas da noite. Seu número ainda é pequeno e isso se explica pelo fato do trabalho de seleção dos seus membros ser bastante rigoroso. Cosme ou Damião só pode ser quem tenha um caráter à prova de fogo, quem possua bons sentimentos no coração, quem conheça deveres cívicos e possua, outro tanto, boa fortaleza física, calma, ponderação e coragem. Esses são os homens, leitor, que agora nos estão protegendo. Faço votos para que eles obtenham prestígio no seio da população da cidade. 
Que cada um de nós, de hoje por diante, tenha um sono mais tranquilo e uma existência mais segura, só em pensar que ali na esquina existe um homem fardado que lhe garanta a vida, a propriedade, o bom silêncio, a tranquilidade tão necessária que todos almejam. 
Cosme-e-Damião são policiais de elite, todos fiquem certos dessa verdade. São homens educados, cavalheiros, com uma missão consciente e uma vontade firme a executar. Deixo a eles, aqui, a minha mensagem de solidariedade e o meu pedido bem compreensível e modesto: não esqueçam a minha rua, a rua Tapajós. Ela é uma rua como as outras, abandonada, triste, terrivelmente escura e necessita da proteção de vocês, bons amigos que chegaram. Nas noites escuras gostarei de ouvir seus trinados e suas passadas cadenciadas pelo calçamento em frente à minha casa. Dormirei assim mais contente, terei mais confiança no dia de amanhã. 
Salve, pois, os Cosme-e-Damião.

(*) A Crítica, 28 de agosto de 1956

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Walmir Ayala




Walmir Ayala


ESTAÇÃO

Na geladeira as frutas
escurecem de mortas
as peras são secretas
usinas de água doce,
um mamão decepado
mostra a íntima carne
e as goiabas oloram
seu verão serenado.

Mas são mortas e lentas
neste ofertório as frutas.
Um vapor congelado
contorna seu mistério.
E elas posam no ardor
do branco cemitério
de seu grave pomar.
E a geladeira inventa
surdo primaverar.

(Antologia poética, Ed. Leitura, Rio, I 965)
   


ARTE POÉTICA






Na adolescência eu queria escrever poemas eternos.
Poemas que não envelhecessem.
Aspirava os pensamentos abstratos, as idéias transcendentes,
jogava palavras como anzóis atrás de uma baleia azul.
Eu queria a estação permanente dos fatos,
aquela zona de mistério que transforma os acontecimentos
em reflexos cíclicos
de uma realidade essência.
Eu desprezava a transitoriedade, dava-me engulhos o trivial,
pousava meu dente na polpa indizível da transcendência.

Hoje eu pouso o coração da poesia na bandeja das coisas que passam,
eu sei que, como todas as civilizações,
a nossa tem um fim,
e já durou demais.
Eu sinto o cheiro de seu sangue congelado,
adivinho o pus acumulado sob sua pele túrgida.
Sei que seremos de repente uma sobrevivência arqueológica.
Por isso não ambiciono mais, para o meu poema, esta imaginária
duração,
esta idade virtual com pés de efêmero tato.
Não desejo para o gênero humano poemas capazes de sobreviver
à sua legítima história,
mergulho no cotidiano com um alívio e uma surpresa que me renovam
a vida.

Não quero mais fazer poemas que não sejam tributo do instante,
quero tocar o perecível e segurar entre os dedos sua respiração
oscilante. Faço poemas transitórios e fugazes.

Os poemas eternos eu deixo para a vida eterna.

Walmir Ayala 


                                     AQUÁRIO ACESO


Os peixes submersos dormem
Nadando um sonho enorme
- o aquário é breve e claro,
com selvas silenciosas
que o todo-poderoso
nutre de grão e larva.


No entanto os peixes dormem.
Qualquer tremor das águas
e nadam aclarados
sonhando-se acordados
sonhando-se acordados.






POMAR ABERTO


Teu doloroso cheiro de laranjas
inventa este pomar que me embriaga
há vespas inflamadas e um luar
enclausura em teu peito a rosa amarga
deste gemido em que és como o desenho
de um rosto antigo, de um sorriso em pedra
(eterno e solitário). Este sorriso
que de repente no silêncio medra
e corta os fios da noite em que viajo
para os sempres de mim, tão decididos:
então nos laranjais escuto o adágio,
e o coração que ocultas é sonoro
como a ilha do amor em que me perco
e onde me salvo, e para sempre choro.










A Maria Helena Cardoso


O REINO


A José Olimpio Vasconcelos

Época de goiabas — no meu quarto
o aroma delas se incrustou no gesso
do cavalo troiano que o lagarto
cavalga; e estas goiabas de comêço
de estação sobrenadain o hausto farto
do olfato — o meu cavalo escarva o avêsso
do branco onde se funde e em cujo parto
goiabas e lagartos têm seu preço.

Assim meu quarto esta estação de aroma
envolve - e das goiabas me apercebo
que é tudo hora frutal que em tudo assoma;

e tenho para reino os meses quatro
do aroma de goiaba, e é minha carne
o gesso em que cavalgam, tais lagartos.


--------------------------------


Domingo


O domingo é um refúgio,
uma grande sala com candelabros bizarros
mas sem conforto.

É um relógio sem medo, uma cadeira sem encosto.


O azeite da vida começa sempre amanhã.
Olhamos o domingo como se fosse a máscara
dissimulada – atrás dela o punhal ou o mel.


Passeamos nos domingos como as feras em suas jaulas.
Tentamos perceber o grande acontecimento que não chega,
porque até os mortos, geralmente, deitam-se ontem
em seus leitos acolchoados.


O domingo é um touro sozinho numa arena.




METAL DE OURO

Metal de ouro e não ouro — bronze (ninho
do som) — falsa retórica. Metal
dado a azinhavre e pátina e ferrugem,
sino de antecedência dos que mugem:

bois; e vêem dois, os sinos combatendo
nos arcos de pescoços amorosos,
bronze alado e de feno, mais que o treno
das aves nos estercos vegetais.

Ardendo na pupila o ouro da tarde,
e o triturado trigo impregnando
de ouro os cascos e as crinas. Animais

rompendo ares bucólicos, as carnes
luzindo, os chifres áureos digladiando,
e a hora sôbre os corpos auriamando.




FILIAÇÃO

Ando buscando minha mãe e a hora
sêca me dá seu ventre sem memória.
Reclamo o leite e me assedia a asa
de uma galera por meu mar em fora.

Depois penso escutar: palavra ou rasa
cintilação de praia. Os olhos cerro,
suspiro fundo e aqueço o frio corpo
que elegi para mãe no meu destêrro.


E assim constato que só posso o alheio
dispor organizando e que me faltam.
tradições: o arco mínimo de um seio.

E sinto o quanto Deus cm mim se apóia,
sou êle próprio e rasgo os véus de cinza
sou treva e sou espírito que bóia.



O AEROMOÇO

Dos cintos que se cinge, dos aéreos
subornos que respira;
das rotas que viaja, voajando,
(e voa a vida) — os alvos em que mira

Sendo a um tempo da flexa o sangue brando
e seu rotor e guia, o que percorre
o restrito arcabouço, o louro o moço
que no temor da mãe, freqüente, morre.

O dono da maçã desorientada
a um transporte nos étereos — o dono
de rebanhos, rebanhos e rebanhos...

Pastor, o que as ovelhas abandonam,
só, nos aços das asas isolado
entre cajados mudos e tamanhos.



CANTO DO REI

Rico de ouro não sou, porém. fabrico
o sol cada manhã, estendo penas
(pássaro matinal) e atinjo antenas
de desespêro no meu vôo ubiquo.

Se tu, pálio de párias, me condenas
à rude mendicância onde claudico,

abro a minha canção no espaço oblíquo
das tuas superadas açucenas.
Jardineiro não sou. Feitor dos astros,
recrio minha aurora de aderências
na prematura submersão dos mastros.

Nas quilhas dêstes barcos que me sobram,
é que o sol dos meus ouros se conforma,
e as luas do meu reino se desdobram.



É TEMPO

É tempo das auroras de tão gastas
rasgarem seus cabelos nos arames,
que andam touros rondando a graça livre
dos arautos de Deus nascidos homens.

É tempo das calçadas desservidas
de austero passo desejarem gládios
e que sejam de rótulas e nervos
as asas da arca para outra viagem.

E que coisas dirão que de tardias
terão sêlo de morte em cada espinho
(rosa?) melhor dizer: gente banida

(que de tal material se formam clãs);
e os que na Arca estão de si não sabem
mais do que o morto quando junta as mãos.



O ESPELHO

Efêmero, não sei se neste espelho
terei repetição do meu contôrno,
ou se já erguida a mão se esboça o tôrno
onde serei refeito. Amplo conselho

talvez disseque meu findar-se morno,
e o Artífice me aguarda, ileso e velho,
pondo-me paternal sôbre o joelho
à espera do devido e exato forno.

Depois, Pai tão maior, de amor ferido,
de um barro tão mais rubro há de engendrar-me
para dar-me feliz ao chão do olvido,

Mas sempre num espelho irei achar-me,
noutro chão, noutra vida, em barro ou vidro
onde me outorguem tempo de sonhar-me.



HOJE ME DÓI A VIDA COMO UM CRAVO

Hoje me dói a vida como um cravo
e morro de desejo de morrer,
sinto pelo meu sangue se acender
a aurora de infortúnio em que me lavo.

Que vale desta forma receber
o dom da luz, o lídimo conchavo
de cada dia, se a carpir me agravo
no sítio onde devera florescer?

Hoje me dói o sol na córnea gasta
de tanto pranto não vertido, e adeja
a asa da solidão em minha carne.

Percorro como um louco iconoclasta
o adro de mim, o grito, sem que veja
instrumento melhor para quebrar-me.



A ROSA E O RIO

Ó tu de couro, de ouro e de granito
mas sempre rosa, sempre colunada
fronte de solidão, tristeza alada
e prêsa entre dois portos do infinito,


Cativa que do caule ao rude grito
a nada mais consente a côr velada,
raiz de espinho, face deplorada
pelo vento inconstante em rumo aflito.


Mas não te deixam olhos tão fugazes
pois nos meus ficas, transitórias e eterna,
e em meus rios de versos te desfazes;

mas não de todo, pois na minha mágoa
resta a inédita forma livre e interna:
rosa de seixo, areia, espuma e água.



POSTAL

O mar, postal, é verde, ou não, cerúleo —
o mar é mar de crinas, potro e lastro
onde têxteis côres dão a aguda
forma de suas barracas: árvore e astro.

Arvore pela sombra, astro no muito
de universo que lado a lado formam...
O mar, postal, não vê que cada mastro
ao longe é êle que cumpre seu circuito.

Mas tanto muda que se desampara
e crava, e da janela vou tangendo
nêle meu coração de asas e espuma.

O mar, postal, é orgia que carrego
por outros mares de aço, de concreto
e de tôrres, sem lágrima nenhuma,



O MANEQUIM

Tua cera é precoce, em que abelha, em que rosa
em que filtro, em que sêca e empedernida forma,
em que sôpro êstes lábios, e o nariz em que olfato
nutriu cova e mucosa — em que tuba esta orelha?

E esta bôca fingida e a destroçada abelha
de asas despedaçadas por dedos de meninos,
de alfinetes no ventre e zumbindo, e zumbindo
lamentos pequeninos.

E êste silêncio morto e êstes braços portáteis
com ensaios de abraço, e êstes tecidos breves
armados no estertor da mudez prematura.

E êstes cactos nos pés, nos desertos artelhos,
êste tórax fugaz onde brota o legume
de um segrêdo floral e apiário ciúme

[O edifício e o verbo. Rio de Janeiro, São José, 1961]


A MINHA MORTE SÃO AS COISAS

A minha morte são as coisas

e não poder retê-las,

é a matéria que existe

e resiste

à minha sorte,

como as estrelas.



A minha morte é a manhã

que se estende claríssima

sem temor, é este amor

de só desesperança,

como um clamor.



A minha morte é esta voz

por que a garganta enseia

e não sabe,

ela cabe

inteira nos meus olhos

que a lágrima incendeia.



Sobretudo é

esta vontade

de chorar e ir chorando

como uma única pergunta

sem remédio:

até quando?



CRER

Creio em mim. Creio em ti. Deus, onde mora?

Na vontade de crer que me consente

humano e ardente.

No meu repouso em ti, que me alimenta.

No que vejo e recebo, nesta vara

florida num deserto, em meu maná

de agora e de jamais. Saber-me hoje

tão digno do tempo que me mata

é arder-me em Deus, e este saber me basta.



ISTO É TUDO

As urnas estão fechadas,

os corações estão mudos,

mas o amor paira e condena —

isto é tudo.



As mãos vão entrelaçadas,

o olhar é sereno e agudo,

e o amor é mais do que as almas —

isto é tudo.



A lágrima quase aponta,

O desejo é um breve escudo,

e o amor é quase nada —

isto é tudo.


PENHOR

Quanto pode valer um pássaro

de canto puro e goela solta

que gosta de carícia e se espreguiça

como qualquer amado amante?



O dono levou-o à penhora

por trinta e oito mil

cruzeiros. Diz

que vale o dobro.



Avaliado, não dá mais do que mil e quinhentos

diz o causídico do banco, e chama de brincadeira

esta causa de tão pessoal alcance.



Falando por seu advogado

o dono do pássaro diz

que o assunto é muito sério

e pede mesmo que o pássaro

seja tratado com carinho

pois cantando e recebendo amor

é que se prova valioso.



Neste poema, atentem, a palavra é tão banal,

mas o miolo é pura

poesia.

Difícil é contar como canta o pássaro.

Aí é que seríamos sublimes.





ARTE POÉTICA



Na adolescência eu queria escrever poemas eternos.

Poemas que não envelhecessem.

Aspirava os pensamentos abstratos, as idéias transcendentes,

jogava palavras como anzóis atrás de uma baleia azul.

Eu queria a estação permanente dos fatos,

aquela zona de mistério que transforma os acontecimentos

em reflexos cíclicos

de uma realidade essência.

Eu desprezava a transitoriedade, dava-me engulhos o trivial,

pousava meu dente na polpa indizível da transcendência.



Hoje eu pouso o coração da poesia na bandeja das coisas que passam,

eu sei que, como todas as civilizações,

a nossa tem um fim,

e já durou demais.

Eu sinto o cheiro de seu sangue congelado,

adivinho o pus acumulado sob sua pele túrgida.

Sei que seremos de repente uma sobrevivência arqueológica.

Porisso não ambiciono mais, para o meu poema, esta imaginária

duração,

esta idade virtual com pés de efêmero tato.

Não desejo para o gênero humano poemas capazes de sobreviver

à sua legítima história,

mergulho no cotidiano com um alívio e uma surpresa que me renovam

a vida.



Não quero mais fazer poemas que não sejam tributo do instante,

quero tocar o perecível e segurar entre os dedos sua respiração

oscilante. Faço poemas transitórios e fugazes.



Os poemas eternos eu deixo para a vida eterna.





Extraídos do livro Estado de Choque; a poesia de Walmir Ayala. São Paulo: Galeria Parnaso; Massao Ohno Editores, 1980. s.p.;






De

ÁGUAS COMO ESPADAS

São Paulo: LR Editores, 1983





A CAÇA



Os caçadores de homens varam a noite com seus olhos de punhal.

Levam os punhos cerrados cerrados e um desejo ardente de agressão.

Irmãos dos delinqüentes eles vasculham os ninhos poluídos

e esmagam com os saltos das botas as ninhadas perplexas.



Os caçadores e sua caça estão sobrepostos como camadas contíguas

de uma mesma era de terror.





ROTA



Quem elabora estas inúteis palavras

com que as coisas se ataviam,

e são indagações, gritos, silêncios

reticentes?



Quem,

me pergunta agora sobre a hora

que eu não quis habitar de qualquer signo,

infladas do nada do vento?

Direção

cujo gosto apenas eu percebo:

silenciosamente recortado,

recrio o labirinto.





PASSEIO



Passeio com meu filho pelo mundo

e é pouco para amá-lo este percurso.

Toco seus olhos de cristal escuro

e ele me vê robô, cavalo, urso.

Ele me vê raiz, me desafia,

briga e ama num elo conseqüente

com tudo os que é real, e me anuncia.



Passeio com meu filho à luz do dia,

e a luz fecunda a noite que nos une

num sonho latejante de silêncio.

Concentro-me de amá-lo com a uma

guarda a alucinação de seu perfume,

e penso, piso a terra, restituo

em dom de amar a amarga antecedência

do filho que eu não fui e que construo.







De
CANTANTA

Poemas
Rio de Janeiro: Edições GRD, 1966.




O CORPO



Girasol com manga rosa

pequeno corpo acendido

no corpo imenso do mundo

cornamusa sonorosa.



Manga rosa, manga rosa,

rosa do clamor profundo

rosa, de fruto e de flor.



Eu de pedra, tu de incenso.

Tu de lume, eu de amargor.



Girasol com manga rosa,

muletas de mudo amor,

cada espádua madurando

sumos — e a rosa cravando

no sono arestas do rosa

na doce manga aflorando.



Girasol com manga rosa,

repousa, que repousando

vão os andores da santa

rosa, e que te vão levando

pela doçura da manga,

pequena rosa que gira,

sol a pino, gira, rosa

mortal te dilapidando.



Girasol com manga rosa,

qual o verão? Onde? Quando?.





PROTESTO



Não é no teu corpo que se imola

para a ceia dos meus sentidos

a vítima núbil, a áurea mola

que cinge o amor recente aos idos.



Mas é também no teu corpo que corre

o sangue que o meu sangue socorre.



Não é no teu corpo que se ergue

a guerra fria dos meus nervos.



nem nasceram tuas transparências

para a cegueira dos meus dedos.



Mas é também no teu corpo insano

que perscruto meu desconforto humano.



Não é no teu corpo, nos teus olhos

de fauno, que colho as minhas ditas,

nem o jasmim de tua boca flore

para a visão que me solicita.



Mas é também no teu corpo único

que o amor à forma do Amor reúno.



Não é no teu corpo que concentro

minha sede (esta sede ferina

que morre de seu farto alimento

e vive de quanto se elimina)



Mas é também teu corpo a medida

destas águas sobre a minha ferida.



Não é no teu corpo, mas é tanto

no teu corpo meu último refúgio,

que amoroso e em pânico me insurjo

contra a fonte que és: júbilo e pranto.



Mas é também no teu corpo o tudo

da solidão em que me aclaro e escudo.

Em teu corpo, canal que brande e acalma
minha alma, este pássaro árduo e mudo
na estranha migração da tua alma.





De
O EDIFÍCIO E O VERBO
Rio de Janeiro: Livraria São José, 1961



O COMEDOR



Não sei que posição tomar sentado à mesa.

O cadáver aberto à minha frente, a salsa, o azeite

e o olhar de quem me chamará de hiena.



O cadáver de meu irmão, olhos vazados,

posição hirta, e eu como trincar

assim, todo enredado de piedade?



Garfo e faca. A lâmina se estira

e nem ruído fará na polpa. Ah, bom tempero,

sei de teu gosto intacto nas mandíbulas

minhas, já tão cansadas desta fome.



A parte mais amorfa me contenta

a que eu não saiba coxa, orelha, lombo...
Mas chamarão de hiena, eu sei, a gente

que te come voraz, vendo que hesito

e gritarão quando cravar

dente em teu corpo macio, irmã Vitela..



Saio daqui, da mesa, onde te expões

nadando o molho do teu próprio sangue.

Eu me recuso, pois teu osso como um cetro

esmagará meu crânio deglutido,

e eu, teu devorador, sendo engolido

pelo acéfalo tempo, mais banquetes

manterei nestas mesas imaturas.





O REINO


A José Olímpio Vasconcelos


Época de goiabas — no meu quarto
o aroma delas se incrustou no gesso
do cavalo troiano que o lagarto
cavalga; e estas goiabas de começo



de estação sobrenadam o hausto farto
do olfato — o meu cavalo escarva o avesso
do branco onde se funde e em cujo parto
goiabas e lagartos têm seu preço.



Assim meu quarto esta estação de aroma
envolve — e das goiabas me apercebo
que é tudo hora frutal que em tudo assoma;



e tenho para reino os meses quatro
do aroma de goiaba, e é minha carne
o gesso em que cavalgam tais lagarto





--------------------------------------------------------------------------------




TEXTOS EM ESPAÑOL



WALMIR AYALA

Trad. Pilar Gómez Bedate





MI MUERTE SON LAS COSAS

Mi muerte son las cosas

y no poder asirlas,

la materia que existe

y resiste

a mi suerte,

como las estrellas.



Mi muerte es la mañana

que se extiende clarísima

sin temor, y este amor

de mi desesperanza

sola, como un clamor.



Mi muerte es esta voz

que la garganta ansía

y no cabe,

entera cabe

en estos ojos míos

que la lágrima incendia.



Sobre todo es

este deseo

de llorar e ir llorando

con una única pregunta:

¿hasta cuándo?



CREER

Creo en mí. Creo en ti. Dios, ¿dónde vive?

En el afán de fe que me consiente

humano y ardiente.

En mi reposo en ti, que me alimenta,

en lo que veo y tomo, en esta vara

florida en un desierto, en mi maná

de ahora y de por siempre. Este hoy saberme

merecedor del tiempo que me mata

es abrasarme en Dios, y esta saber me basta.



ESTO ES TODO

Las urnas están cerradas,

los corazones están mudos,

peor el amor paira y condena:

esto es todo.



Las manos van entrelazadas,

la mirada es serena y aguda,

y el amor es más que las almas:

esto es todo.



La lágrima casi apunta,

el deseo es un breve escudo,

y el amor es casi nada:

esto es todo.



Extraídos de la REVISTA DE CULTURA BRASILEÑA, Tomo IV, septiembre 1965, número 4, p. 312-321. Edición de la Embajada de Brasil en Madrid, España.

POEMA À MÁQUINA DE MOER CARNE

O perfil da máquina
tem muito de gótico,
mói por dentro a carne,
por fora é um pórtico
onda a alma da carne
lava seu delito.
Numa cruz geométrica
justapõe-se a máquina:
nem canta nem pensa,
mais que nunca espera
que a mão saturada
lhe dê movimento,
e um corpo de sangue,
de músculo e vento
vai sendo crivado
de dentes secretos,
de ocultas agulhas,
de engrenagens surdas,
e se transformando
em carne moída.
Assim como a vida.


##############


O supermercado




Eu estava selecionando uns pés de couve-flor quando meu marido me disse: "Espere um momento que vou cumprimentar Heloisa". Não levantei os olhos do balcão das verduras nem sequer pensei que só poderia ser aquela Heloisa, uma mulher forte e invulnerável cuja estabilidade doméstica tinha sido até motivo de inveja para mim algumas vezes. Meus dedos correram por sobre as alfaces, remexi os tomates, pesei uma quantidade de cenouras, e nem ergui os olhos para ver para onde ele se dirigira, para ver onde estaria Heloisa. Andei puxando o carrinho que ele deixara ao meu lado, com a mercadoria meticulosamente arrumada, à sua maneira. As salsichas junto com a manteiga, os iogurtes e os queijos suportando a caixa de ovos, os pacotes de arroz e feijão acolchoando a leveza dos biscoitos. Andei pelos corredores de gêneros variados mas já não escolhi nada. Nem sequer passei os olhos pela lista que a empregada me entregara ao sair de casa. Prestei muita atenção em todas as coisas, aquelas naturezas mortas, oferecendo-se. A vitrine das carnes, os buchos e fígados, a nobreza dos filés, rubores suspensos iluminados de uma claridade valorativa de suas nuances de sangue. As laranjas, as batatas, os abacaxis, os grandes balcões de salgados, carnes secas, toucinhos, despojos de seres mortos e conservados num requinte de temperos. As caixinhas de gelatina, com as frutas impressas em cores inesquecíveis, disfarçando os sabores artificiais que a empregada atenuaria com frutas e cremes de baunilha e morango, com claras batidas e outros recursos de enriquecer aquelas doçuras transparentes e monótonas.

Não procurei meu marido, embora imaginasse que num momento esbarraria com ele e Heloisa, sabendo que estariam falando do jardim, das plantas exóticas que Heloisa tinha o dom de descobrir em chácaras distantes. Ou então de uma raça de galinhas poedeiras, cujos ovos de grande valor nutritivo não poderiam ser comparados àqueles de gema vermelha, que eu tinha escolhido mecanicamente no correr da tarde. Não é que Heloisa quisesse comparativamente me subestimar, mas ela era assim, e eu é que me subestimava junto dela. Se é que a Heloisa que meu marido fora saudar era aquela que eu supunha.

Passei duas horas andando com aquele carrinho, sem acrescentar um grão ao já escolhido. Parei na lanchonete e comi uma coxinha de galinha. A fome pousada em meu lábio não determinou o menor luxo seletivo. Comi a coxinha de galinha como podia ter comido o cachorro quente ou o rizzoli, só para sobreviver. Pensei num momento em procurar meu marido mas desisti "ele deve estar falando com Heloisa". Olhei o pátio do supermercado e vi nosso carro. Ele está com a chave. Vasculhei a bolsa de dinheiro e verifiquei que a chave estava comigo. Eu não dirigia há tanto tempo. Ele voltaria? Que importância tinha isso, eu precisava ir embora. Foi o guarda que me alertou "vai fechar". Eu era a última freguesa a andar por aqueles corredores e notei que as moças das caixas me olhavam com ar cansado e irritado. Estavam tão tristes que eu tive vontade de chorar, de lamentar seu destino vendido tão barato, horas e horas apertando botões de máquinas registradoras em troca do dinheiro da passagem e da comida. Vi-as todas muito humilhadas, mas ainda pela necessidade de aceitarem o jogo daquela maneira enquanto invisíveis e gordos os donos das alcachofras e dos presuntos rolavam entre os lábios charutos de Havana.

Paguei e saí. Onde estaria meu marido? E Heloisa? Coloquei as compras no carro e rodei pelo bairro, tentando reconhecer um ou outro. Depois decidi ir para casa.

A empregada me recebeu como se nada tivesse acontecido, sequer me perguntando pelo adiantado da hora. Recolheu as compras e preparou-me o banho. Mergulhei na banheira de água quente. Quase adormeci. A água, ao esfriar, fez-me voltar à realidade. Fui para cama. O telefone não tocou. No dia seguinte muito cedo voltei ao supermercado sem ter contado a ninguém o acontecido. Tive medo de estar sendo ridícula, ou louca. Que me dissessem de repente "Que marido?". Ou, o que era pior, "olha ele ali". Fiquei todo o tempo rodando entre aqueles corredores, como se fosse coisa dali, uma das moças das caixas, ou mesmo uma das máquinas registradoras. Saí, no fim do expediente, sem ter comprado nada.

No terceiro dia é que eu descobri que o supermercado tinha andares diversos, escadas rolantes. Andei de cima para baixo, de baixo para cima, e parecia que os lugares eram sempre outros, como num labirinto. Fiquei feliz de andar por caminhos novos, onde poderia esbarrar com meu marido e ouvir ele dizer "— Que sorte você chegar já ia ao seu encontro". Eu sabia que isso não ia acontecer porque meu marido e Heloisa deveriam estar como eu, perdidos naquele labirinto, com espelhos multiplicando as caixas das douradas uvas, e os pêssegos e nêsperas tocadas de raras abelhas. Comecei a sentir que me desprendia dos valores antigos, e que só me interessava trilhar aquele caminho sem fim, no qual ele estaria sempre adiante, e eu atrás, sem ponto de encontro, sem retorno. Eu teria sonhado a minha vida? Ou estaria agora entrando num sonho maior? Senti-me tonta, percebi que minha roupa estava suja e que a urina corria pelas minhas pernas abaixo. Senti o grande peso da solidão, pela primeira vez. Indaguei a mim mesma qual o caminho a seguir, mas antes de me responder vi que me amparavam e levavam para determinado lugar, um lugar muito branco, com uma mesa muito branca onde eu comecei a adormecer. Deixei que cuidassem de mim, com um sorriso de infantil prazer me corrigindo os lábios. Quando voltei a mim já não reconheci o mundo que me davam. Estava cada vez mais longe dele, mais longe. Buscando encontrá-lo e me distanciando, de tal maneira que se o visse agora talvez nem reconhecesse.


Walmir Félix Solano Ayala, poeta, romancista, crítico de arte, contista, memorialista e autor de literatura infantil, nasceu em Porto Alegre (RS) no dia 04/01/1933. Seu primeiro livro, "Face dispersa", foi publicado em 1955. Em 1956 mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro. Dentre suas mais de cem obras, destacamos: "Diário I (Difícil é o Reino)"; "A Beira do Corpo" (romance); "Chico Rei e a Salamanca do Jarau" (teatro); "A Toca da Coruja" (literatura infantil, Prêmio Nacional de Literatura Infantil do INL)"; "Ponte Sobre o Rio Escuro" (contos, Prêmio Nacional de Ficção do INL) e "A fuga do Arcanjo" (diário íntimo). O intelectual ora enfocado faleceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ) em 28/08/1991.


O texto acima foi extraído da antologia "Ficção - Histórias para o prazer da leitura", Editora Leitura - 2007, pág. 266, organização de Miguel Sanches Neto.



sábado, 1 de agosto de 2009

SHAKESPEARE SONETOS

SHAKESPEARE



Daquelas belas criaturas retorno ansiamos,
A que suas belezas nunca morram
E quando cair do tempo o Outono
Guardemos na memória sua herança.

E Tu, que só teus belos olhos amas,
Te alimentas apenas de tua própria chama
E produzes fome onde abundância existe
Por que teu suave ser é tão adverso?

Pois és do mundo agora o ornamento
És o único cantor da primavera
E recusas em ti o teu contentamento

Egoísta da natureza que há contigo
Do mundo não tens piedade, nem lamentas
Se colher no chão do túmulo o que te foi servido

(trad. Rogel Samuel)


LA POESIA DE
WILLIAM SHAKESPEARE
Jorge Luis Borges
.

«Shakespeare que tantos hombres fue, Shakespeare, que fue Macbeth y fue el rey Duncan, acuchillado por Macbeth, Macduff que mató a Macbeth, solía despojarse de esas máscaras que la forma dramática le imponía y ser William Shakespeare. En 1609 apareció su único libro íntimo, que consta de ciento cincuenta y cuatro sonetos y del poema titulado A Lover's Complaint (La queja de un amante). La impersonal portada sugiere que otro, no Shakespeare, fue el editor. Leemos así: Sonetos de Shakespeare, nunca hasta ahora impresos. La obra está dedicada al señor W.H., único padre (literalmente engendrador) de los siguientes sonetos .

La obra es intrincada y oscura, precisamente porque es íntima. Nos depara fragmentos cuyo contexto no será revelado, nos deja oír respuestas a preguntas cuya respuesta siempre será dudosa.

Estas incertidumbres, que han inspirado muy diversas hipótesis entre ellas una de Oscar Wilde, sugieren el suplicio de Tántalo, condenado, según se sabe, a morir eternamente de hambre y de sed, entre fuentes y frutas. Felizmente, esa analogía es del todo falsa. El espectáculo de las aguas y de las frutas no podían satisfacer el apetito de Tántalo: el lector puede prescindir del incierto sentido de los sonetos, y deleitarse con su música y sus imágenes. Citemos este ejemplo:


Music to hear'st zhou music sadly?
Sweet with sweets war not, joy delights in joy
El sentido es baladí; la forma es espléndida. Busquemos otro:

Not mine own fears, nor the prophetic soul
Of the wide world dreaming on things to come
Nuestra fe en el anima mundi, nuestro juicio, favorable o desfavorable, del panteísmo, nada, absolutamente nada, tienen que ver con la vasta y vaga majestad de las líneas citadas.
Transcribamos otro pasaje, que no me animo a traducir:


No, Time, thou shalt no boast that I do change;
Thy pyramids built up with newer might
To me are nothing novel, nothing strange,
They are but dressings of a former sight.
Se advierte en estos versos una alusión a la doctrina del tiempo circular, que profesaron los pitagóricos y los estoicos y que San Agustín refutó. También puede advertirse que Shakespeare descreía de novedades.
Técnicamente los sonetos de Shakespeare son, es indiscutible, inferiores a los de Milton, a los de Wordsworth, a los de Rossetti o a los de Swinburne. Incurren en alegorías momentáneas, que sólo justifica la rima y en ingeniosidades nada ingeniosas. Hay, sin embargo, una diferencia que no debo callar. Un soneto de Rossetti, digamos, es una estructura verbal, un bello objeto de palabras que el poeta ha construido y que se interpone entre él y nosotros; los sonetos de Shakespeare son confidencias que nunca acabaremos de descifrar, pero que sentimos inmediatas y necesarias.

Según el dictamen de Walter Pater, todas las artes aspiran a la condición de la música; parejamente, en el caso de estos sonetos, importa menos el dudoso sentido que la manifiesta hermosura. Swinburne los llama documentos divinos y peligrosos; se refiere, tal vez, a lo menos importante que puede darnos, el testimonio de una anormalidad que es asaz común y que no justifica ni la ostentación ni el oprobio.

El soneto isabelino consta de tres cuartetos decasílabos de rima cambiante y de un dístico rimado. Esta forma, ahora no menos grata a nuestro oído, se ha difundido por el mundo; baste recordar ciertas composiciones de La urna (1911) del injustamente olvidado Enrique Banchs. De los ciento cincuenta y cuatro sonetos del texto original, Manuel Mújica Láinez ha traducido con maestría cuarenta ocho. »









TRADUZIR SHAKESPEARE

Rogel Samuel

Canta o texto original de Shakespeare:

From fairest creatures we desire increase,
That thereby beauty’s rose might never die,
But as the riper should by time decease,
His tender heir might bear his memory:
But thou, contracted to thine own bright eyes,
Feed’st thy light’s flame with self-substantial fuel,
Making a famine where abundance lies,
Thyself thy foe, to thy sweet self too cruel
Thou that art now the world’s fresh ornament
And only herald to the gaudy spring,
Within thine own bud buriest thy content
And, tender churl, mak’st waste in niggarding.
Pity the world, or else this glutton be,
To eat the world’s due, by the grave and thee.

Foi traduzido por Ivo Barroso assim:

Dos seres ímpares ansiamos prole
Para que a flor do belo não se extinga,
E se a rosa madura o Tempo colhe,
Fresco botão sua memória vinga.
Mas tu, que só com os olhos teus contrais,
Nutres o ardor com as próprias energias
Causando fome onde a abundância jaz,
Cruel rival, que o próprio ser crucias.
Tu, que do mundo és hoje o galardão,
Arauto da festiva Natureza,
Matas o teu prazer inda em botão
E, sovina, esperdiças na avareza.
Piedade, senão ides, tu e o fundo
Do chão, comer o que é devido ao mundo.

A tradução de Manuel Mújica Láinez é:

De los hermosos el retoño ansiamos
para que su rosal no muera nunca,
pues cuando el tiempo su esplendor marchite
guardará su memoria su heredero.
Pero tú, que tus propios ojos amas,
para nutrir la luz, tu esencia quemas
y hambre produces en donde hay hartura,
demasiado cruel y hostil contigo.
Tú que eres hoy del mundo fresco adorno,
pregón de la radiante primavera,
sepultas tu poder en el capullo,
dulce egoísta que malgasta ahorrando.
Del mundo ten piedad: que tú y la tumba,
ávidos, lo que es suyo no devoren.


WILLIAM SHAKESPEARE

48 SONETOS DE AMOR

Tradução de
Manuel Mújica Láinez



I
De los hermosos el retoño ansiamos
para que su rosal no muera nunca,
pues cuando el tiempo su esplendor marchite
guardará su memoria su heredero.
Pero tú, que tus propios ojos amas,
para nutrir la luz, tu esencia quemas
y hambre produces en donde hay hartura,
demasiado cruel y hostil contigo.
Tú que eres hoy del mundo fresco adorno,
pregón de la radiante primavera,
sepultas tu poder en el capullo,
dulce egoísta que malgasta ahorrando.

Del mundo ten piedad: que tú y la tumba,
ávidos, lo que es suyo no devoren.


II
Cuando asedien tu faz cuarenta inviernos
y ahonden surcos en tu prado hermoso,
tu juventud, altiva vestidura,
será un andrajo que no mira nadie.
Y si por tu belleza preguntaran,
tesoro de tu tiempo apasionado,
decir que yace en tus sumidos ojos
dará motivo a escarnios o falsías.

¡Cuánto más te alabaran en su empleo
si respondieras : - « Este grácil hijo
mi deuda salda y mi vejez excusa »,
pues su beldad sería tu legado!

Pudieras, renaciendo en la vejez,
ver cálida tu sangre que se enfría.


III
Mira a tu espejo, y a tu rostro dile:
ya es tiempo de formar otro como éste.
Si no renuevas hoy su lozanía,
al mundo engañas y a una madre robas.
¿Quién es la bella del intacto seno
que tu cultivo marital desdeñe?
y ¿quién tan loco para ser la tumba
de un amor egoísta sin futuro?

Tu madre encuentra en ti, que eres su espejo,
la gracia de su abril, su primavera;
así, de tu vejez por las ventanas,
aunque mustio, verás tu tiempo de oro.

Mas si pasar prefieres sin memoria,
muere solo y tu imagen morirá.


IV
Derrochador de encanto, ¿por qué gastas
en ti mismo tu herencia de hermosura?
Naturaleza presta y no regala,
y, generosa, presta al generoso.
Luego, bello egoísta, ¿por qué abusas
de lo que se te dio para que dieras?
Avaro sin provecho, ¿por qué empleas
suma tan grande, si vivir no logras?

Al comerciar así sólo contigo,
defraudas de ti mismo a lo más dulce.
Cuando te llamen a partir, ¿qué saldo
podrás dejar que sea tolerable?

Tu belleza sin uso irá a la tumba;
usada, hubiera sido tu albacea.


V
Las horas que gentiles compusieron
tal visión para encanto de los ojos,
sus tiranos serán cuando destruyan
una belleza de suprema gracia:
porque el tiempo incansable, en torvo invierno,
muda al verano que en su seno arruina;
la savia hiela y el follaje esparce
y a la hermosura agosta entre la nieve.

Si no quedara la estival esencia,
en muros de cristal cautivo líquido,
la belleza y su fruto morirían
sin dejar ni el recuerdo de su forma.

Mas la flor destilada, hasta en invierno,
su ornato pierde y en perfume vive.


VI
No dejes, pues, sin destilar tu savia,
que la mano invernal tu estío borre:
aroma un frasco y antes que se esfume
enriquece un lugar con tu belleza.
No ha de ser una usura prohibida
la que alegra a quien paga de buen grado;
y tú debes dar vida a otro tú mismo,
feliz diez veces, si son diez por uno.

Más que ahora feliz fueras diez veces,
si diez veces, diez hijos te copiaran:
¿qué podría la muerte, si al partir
en tu posteridad siguieras vivo?

No te obstines, que es mucha tu hermosura
para darla a la muerte y los gusanos.


VII
¡Ve! si en oriente la graciosa luz
su cabeza flamígera levanta,
los ojos de los hombres, sus vasallos,
con miradas le rinden homenaje.
Y mientras sube al escarpado cielo,
como un joven robusto en su edad media,
lo siguen venerando las miradas
que su dorada procesión escoltan.

Pero cuando en su carro fatigado
deja la cumbre y abandona al día,
apártanse los ojos antes fieles,
del anciano y su marcha declinante.

Así tú, al declinar sin ser mirado,
si no tienes un hijo, morirás.


XV
Cuando pienso que todo lo que crece
su perfección conserva un mero instante;
que las funciones de este gran proscenio
se dan bajo la influencia de los astros;
y que el hombre florece como planta
a quien el mismo cielo alienta y rinde,
primero ufano y abatido luego,
hasta que su esplendor nadie recuerda:

la idea de una estada tan fugaz
a mis ojos te muestra más vibrante,
mientras que Tiempo y Decadencia traman
mudar tu joven día en noche sórdida.

Y, por tu amor guerreando con el Tiempo,
si él te roba, te injerto nueva vida.


XVI
¿Y por qué no es tu guerra más pujante
contra el Tirano tiempo sanguinario;
y contra el decaer no te aseguras
mejores medios que mi rima estéril?
En el cenit estás de horas risueñas.
Los incultos jardines virginales
darían para ti vivientes flores,
a ti más semejantes que tu efigie.

Tendrías vida nueva en vivos trazos,
pues ni mi pluma inhábil ni el pincel
harán que tu nobleza y tu hermosura
ante los ojos de los hombres vivan.

Si a ti mismo te entregas, quedarás
por tu dulce destreza retratado.


XVII
¿Quién creerá en el futuro a mis poemas
si los colman tus méritos altísimos?
Tu vida, empero, esconden en su tumba
y apenas la mitad de tus bondades.
Si pudiera exaltar tus bellos ojos
y en frescos versos detallar sus gracias,
diría el porvenir: « Miente el poeta,
rasgos divinos son, no terrenales ».

Desdeñarían mis papeles mustios,
como ancianos locuaces, embusteros;
sería tu verdad « transporte lírico »,
« métrico exceso » de un « antiguo » canto.

Mas si entonces viviera un hijo tuyo,
mi rima y él dos vidas te darían.



XVIII
¿A un día de verano compararte?
Más hermosura y suavidad posees.
Tiembla el brote de mayo bajo el viento
y el estío no dura casi nada.
A veces demasiado brilla el ojo
solar, y otras su tez de oro se apaga;
toda belleza alguna vez declina,
ajada por la suerte o por el tiempo.

Pero eterno será el verano tuyo.
No perderás la gracia, ni la Muerte
se jactará de ensombrecer tus pasos
cuando crezcas en versos inmortales.

Vivirás mientras alguien vea y sienta
y esto pueda vivir y te dé vida.


XVIII
¿A un día de verano compararte?
Más hermosura y suavidad posees.
Tiembla el brote de mayo bajo el viento
y el estío no dura casi nada.
A veces demasiado brilla el ojo
solar y otras su tez de oro se apaga;
toda belleza alguna vez declina,
ajada por la suerte o por el tiempo.
Pero eterno será el verano tuyo.
No perderás la gracia, ni la Muerte
se jactará de ensombrecer tus pasos
cuando crezcas en versos inmortales.

Vivirás mientras alguien vea y sienta
y esto pueda vivir y te dé vida.



XIX
Mella, Tiempo voraz, del león las garras,
deja a la tierra devorar sus brotes,
arranca al tigre su colmillo agudo,
quema al añoso fénix en su sangre.
Mientras huyes con pies alados, Tiempo,
da vida a la estación, triste o alegre,
y haz lo que quieras, marchitando al mundo
Pero un crimen odioso te prohíbo:

no cinceles la frente de mi amor,
ni la dibujes con tu pluma antigua;
permite que tu senda sìga, intacto,
ideal sempiterno de hermosura.

O afréntalo si quieres, Tiempo viejo:
mi amor será en mis versos siempre joven.



XX
Pintado por Natura el rostro tienes
de mujer, dueño y dueña de mi amor;
y de mujer el corazón sensible
mas no mudable como el femenino;
tus ojos brillan más, son más leales
y doran los objetos que contemplas;
de hombre es tu hechura, y tu dominio roba
miradas de hombres y almas de mujeres.

Primero te creó mujer Natura
y, desvariando mientras te esculpía,
de ti me separó, decepcionándome,
al agregarte lo que no me sirve.

Si es tu fin el placer de las mujeres,
mío sea tu amor, suyo tu goce.



XXI
No me sucede lo que a aquel poeta
que versifica a una beldad pintada,
y al cielo mismo empleá como adorno,
midiendo cuánto es bello con su bella;
y en henchidas imágenes la acopla
al sol, la luna y a las gemas ricas
y a las flores de abril y a las rarezas
que el aire envuelve en este globo vasto.

Sincero amante, la verdad escribo.
Mi amor es tan gentil, podéis creerme,
como cualquier hijo de madre, y brilla
menos que las candelas celestiales.

Dejad que digan más los habladores;
yo no quiero ensalzar lo que no vendo.


XXII
No creeré en mi vejez, ante el espejo,
mientras la juventud tu edad comparta;
sólo cuando los surcos te señalen
pensaré que la muerte se aproxima.
Si toda la hermosura que te cubre
es el ropaje de mi corazón,
que vive en ti, como en mí vive el tuyo,
¿cómo puedo ser yo mayor que tú?

Por eso, amor, contigo sé prudente,
como soy yo por ti, no por mi mismo;
tu corazón tendré con el cuidado
de la nodriza que al pequeño ampara.

No te ufanes del tuyo, si me hieres,
pues me lo diste para no volverlo.


XXXIV

Como actor vacilantc en el proscenio
que temerosó su papel confunde,
o como el poseído por la ira
que desfallece por su propio exceso,
así yo, desconfiando de mí mismo,
callo en la ceremonia enamorada,
y se diría que mi amor decae
cuando lo agobia la amorosa fuerza.

Deja que la elocuencia de mis libros,
sin voz, transmita el habla de mi pecho
que pide amor y busca recompensa,
más que otra lengua de expresivo alcance.

Del mudo amor aprende a leer lo escrito,
que oír con ojos es amante astucia.



XXIV
Pintores son mis ojos: te fijaron
sobre la tabla de mi corazón,
y mi cuerpo es el marco que sostiene
la perspectiva de la obra insigne.
A través del pintor hay que mirar
para encontrar tu imagen verdadera,
colgada en el taller que hay en mi pecho
al que brindan vencanas cus dos ojos.

Y observa de los ojos el servicio:
los míos diseñaron tu figura,
los tuyos son ventanas de mi pecho
por las que atisba el sol, feliz de verte.

Mas algo falta al arte de los ojos:
dibujan lo que ven y al alma ignoran.



XXV
Que los favorecidos por los astros
de honores y de títulos se ufanen;
yo, que la suerte priva de esos triunfos,
hallo mi dicha en lo que más venero.
Los favoritos de los grandes príncipes
abren al sol sus hojas cual caléndulas,
y su orgullo sepultan en sí mismos
pues los abate un ceño que se frunce.

El célebre guerrero laborioso,
derrocado una vez tras mil victorias,
es del libro de honores suprimido
y de su gesta lo demás se olvida.

Feliz de mí, que amando soy amado,
y ni cambiar ni ser cambiado puedo.


XXVI
Señor del amor mío, cuyo mérito
obliga mi homenaje de vasallo,
te envío esta embajada manuscrita,
mi devoción probando y no mi ingenio.
Grande es mi devoción: mi pobre espíritu
la muestra sin ropaje de vocablos
y espera, aunque desnuda, que en tu alma
le dé tu comprensión sucil albergue;

hasta que el astro que mi andanza guía
me señale con brillo favorable,
y al ornar mis andrajos amorosos
haga que yo merezca que me mires.

Así podré exhibir mi amor ufano,
pero hasta entonces rehuiré la prueba.


XXVII
Extenuado, hacia cl lecho me apresuro
a calmar mis fatigas de viajero,
pero empieza en mi ánimo otro viaje,
cuando acaban del cuerpo las faenas.
Porque mis pensamientos, alejándose
en tu busca, celosos peregrinos,
de mis párpados abren el agobio
a la tiniebla que los ciegos miran.

Sólo que mi visión imaginaria
trae tu sombra hasta mis ojos ciegos,
como un joyel que cuelga de la noche
y el rostro oscuro le rejuvenece.

Así, por ti y por mí, nunca reposan
de día el cuerpo y a la noche el alma.


XXIX
Cuando hombres y Fortuna me abandonan,
lloro en la soledad de mi destierro,
y al cielo sordo con mis quejas canso
y maldigo al mirar mi desventura,
soñando ser más rico de esperanza,
bello como éste, como aquél rodeado,
deseando el arze de uno, el poder de otro,
insatisfecho con lo que me queda;

a pesar de que casi me desprecio,
pienso en ti y soy feliz y mi alma entonces,
como al amanecer la alondra, se alza
de la tierra sombría y canta al cielo:

pues recordar tu amor es cal fortuna
que no cambio mi estado con los reyes.



XXX
Cuando en sesiones dulces y calladas
hago comparecer a los recuerdos,
suspiro por lo mucho que he deseado
y lloro el bello tiempo que he perdido,
la aridez de los ojos se me inunda
por los que envuelve la infinita noche
y renuevo el plañir de amores muertos
y gimo por imágenes borradas.

Así, afligido por remotas penas,
puedo de mis dolores ya sufridos
la cuenta rehacer, uno por uno,
y volver a pagar lo ya pagado.

Pero si entonces pienso en ti, mis pérdidas
se compensan, y cede mi amargura.



XXXI
Los corazones que supuse muertos
pues me faltaban, a tu pecho ocupan;
en él reinan amor y sus virtudes
y los amigos que creí enterrados.
¡ Cuánta lágrima pía de mis ojos
robó el amor leal por esos muertos
que no son más que seres que han cambiado
de lugar y que yacen en ti ocultos!

Tú eres la tumba donde vive amor;
de mis amores los trofeos te ornan;
cada uno te dio mi parte suya
y ahora es tuyo el bien que fue de muchos.

Veo en ti las imágenes que amé:
soy tuyo entero pues las tienes todas.



XXXII
Si a mis días colmados sobrevives,
y cuando esté en el polvo de la Muene
una vez más relees por ventura
los inhábiles versos de tu amigo,
con lo mejor de tu época compáralos,
y aunque todas las plumas los excedan,
guárdalos por mi amor, no por mis rimas,
superadas por hombres más felices.

Que tu amor reflexione: «Si su Musa
crecido hubiera en esta edad creciente,
frutos más caros a su edad le diera,
dignos de incorporarse a tal cortejo:

pero ha muerto; en poetas más notables
estilo buscaré y en él amor».


XXXIII
He visto a la mañana en plena gloria
los picos halagar con su mirada,
besar con su oro las praderas verdes
y dorar con su alquimia arroyos pálidos;
y luego permitir el paso oscuro
de fieros nubarrones por su rostro,
y ocultarlo a la tierra abandonada
huyendo hacia occidente sin ventura.

Así brilló mi sol, un día, al alba,
sobre mi frente, con triunfal belleza;
una hora no más lo he poseído
y hoy me lo esconden las aéreas nubes.

No desdeñes mi amor: si el sol del cielo
se eclipsa, han de velarse los del mundo.


XXXIV

¿Por qué me prometiste un día hermoso
y a viajar sin mi capa me obligaste,
si me dejaste sorprender por nubes
que en su bruma ocultaron tu destello?
No me basta que surjas de la niebla
y que la lluvia enjugues en mi rostro,
pues no ha de ponderar ninguno el bálsamo
que cicatriza pero no remedia.

Ni tu vergüenza a mi dolor aplaca,
ni tu remordimiento a lo perdido:
del ofensor la pena poco alivia
a quien la cruz soporta del agravio.

Pero tus lágrimas de amor son perlas
y su riqueza todo el mal rescata.



XXXV
No te acongojes más por lo que has hecho;
fango y espina tienen fuente y rosa;
a la luna y al sol vela el eclipse;
vive el gusano en el capullo suave.
Todos cometen faltas, yo también
pues disculpo con símiles la tuya,
y por justificarte me corrompo
y excuso tus pecados con exceso.

A tu yerro sensual le doy mi ayuda;
de opositor me vuelvo tu abogado
y comienzo a pleitear contra mí mismo.
Tanto el amor y el odio en mí combaten

que no puedo dejar de ser el cómplice
del ladrón tierno que cruel me roba.



XXXVI
Déjame confesar que somos dos
aunque es indivisible el amor nuestro,
así las manchas que conmigo quedan
he de llevar yo solo sin tu ayuda.
No hay más que un sentimiento en nuestro amor
si bien un hado adverso nos separa,
que si el objeto del amor no altera,
dulces horas le roba a su delicia.

No podré desde hoy reconocerte
para que así mis faltas no te humillen,
ni podrá tu bondad honrarme en público
sin despojar la honra de iu nombre.

Mas no lo hagas, pues te quiero tanto
que si es mío tu amor, mía es tu fama.


XXXVII
Como un padre decrépito disfruta
al ver de su hijo las empresas jóvenes,
así yo, mutilado por la suene,
en tu lealtad y mérito me afirmo.
Pues sea la hermosura o el linaje,
el poder o el ingenio, uno o todos,
quien te corone con mejores títulos,
yo incorporo mi amor a esa riqueza.

Ni pobre ni ofendido soy, ni inválido,
que basta la substancia de tu sombra
para colmarme a mí con su opulencia,
y de una parte de tu gloria vivo.

Busca, pues, lo mejor: te lo deseo;
seré feliz diez veces, si lo hallas.


XXXVIII
¿Cómo puede buscar temas mi Musa
mientras cú aliencas, que a mi verso infundes
tu dulce inspiración, harto preciosa
para exponerla en un papel grosero?
Agradécete a ti, si algo de mi obra
digno de leerse encuentra tu mirada:
¿quién tan mudo será que no te escriba
cuando tu luz aclara lo que invenca?

Sé la décima Musa y sé diez veces
mejor que las antiguas invocadas,
y otorga a quien te invoque eternos versos
que sobrevivan a lejanos siglos.

Si al futuro censor mi Musa encanta,
mía será la pena y tuyo el lauro.


XXXIX
¿Cómo puedo elogiarte con modestia
cuando tú eres de mí la mejor parte?
¿Qué me puede otorgar mi propio elogio
y qué hago con tu elogio sino el mío?
Vivamos separados, y que pierda
su nombre de indiviso nuestro amor,
para que pueda darte, al separarnos,
lo que mereces tú, tú solamente.

¡Oh ausencia, cuál sería tu suplicio,
si tu amarga quietud no nos dejara
burlar al tiempo en el amor pensando,
engaño dulce del pensar y el tiempo,

y no enseñaras a hacer dos con uno,
aquí elogiando a quien está distante!



XL
Toma, amor, todos, todos mis amores,
¿qué rnás posees de lo que tenías?
Ningún amor, mi amor, que sea cierto;
pues ya antes era tuyo todo el mío.
Si a quien me ama por mi amor recibes,
no puedo reprocharte que lo goces,
mas te reprocho tu perverso engaño
si rechazas mi amor y no al que me ama.

Ladrón gentil, me robas y te absuelvo
por más que me hurtes mis escasos bienes,
y eso que duelen más, amor lo sabe,
las heridas de amor que las del odio.

Gracia inconstante en quien el mal es bello,
no seas mi enemiga, aunque me mates.



XLI
Las dulces faltas en que osado incurres
si de tu corazón estoy ausente,
cuadran a tu hermosura y a tus años
porque la tentación siempre te sigue.
Te querrán conquistar, pues eres noble;
te querrán asediar, pues eres bello;
¿qué hijo de mujer, antes que triunfe,
dejará a una mujer cuando lo acosa?

¡Ay! deberías respetar mi sitio
y a tu edad reprender y tus encantos
que en su fuga te arrastran al extremo
de violar obligado una fe doble :

la de ella, que ha tentado tu hermosura;
la tuya, infiel a mí con su belleza.



XLII
No sólo sufro porque la posees,
aunque en verdad la quise con ternura,
más hondo es mi dolor porque eres suyo
y esa pérdida siento más cercana.
Así disculpo vuestra ofensa, amantes:
tú la quieres pues sabes que la quiero,
y ella me engaña por amor de mí,
dejando que mi amigo la haga suya.

Si te pierdo, mi amada te recobra,
si la pierdo, mi amigo es quien la encuentra;
ambos se encuentran y a los dos los pierdo
y por mi amor me imporien esta cruz.

Pero al ser uno solo yo y mi amigo,
¡oh lisonja! yo soy quien ella quiere.


XLIII
Veo mejor si cierro más los ojos
que el día entero ven lo indiferente;
pero al dormir, soñando te contemplan
y brillantes se guían en lo oscuro.
Tú, cuya sombra lo sombrío aclara,
si ante quienes no ven tu sombra brilla,
¡qué luz diera la forma de tu sombra
al claro día por tu luz más claro!

¡Ay, qué felicidad para mis ojos
si te miraran en el día vivo,
ya que en la noche muerta, miro, ciego,
de tu hermosura la imperfecta sombra!

Los días noches son, si no te veo,
y cuando sueño en ti, días las noches.


LIII

¿Qué substancia es la tuya, qué te forma
que millones de sombras te acompañan?
Su propia sombra tiene cada uno
pero tú puedes producirlas todas.
Si describen a Adonis, su retrato
es tu pobre parodia; y te repïntan
con traje griego si a la bella Helena
embellecen con máximo artificio.

Si hablan del año joven o maduro,
primavera es la sombra de tu gracia
y lo es de tu esplendor el tiempo fértil;
en todo lo feliz te descubrimos.

Contribuyes a toda la hermosura,
mas nada se parece a tu constancia.



LV
Ni el mármol, ni los áureos monumentos,
durarán con la fuerza de esta rima,
y en ella tu esplendor tendrá más brillo
que en la losa que mancha el tiempo impuro.
Cuando tumbe la guerra las estatuas
y el desorden los muros desarraigue,
ni la espada de Marte ni su incendio
destruirán tu memoria siempre viva.

Irás contra la muerte y el olvido.
Acogerá tu elogio la mirada
de la posteridad que, consumiéndolo,
hasta el juicio final fatigue al mundo.

Así, hasta el día en que también te juzguen,
aquí estarás y en los amantes ojos.



LXI
Si nada es nuevo, si lo que es ya ha sido,
¡cómo se engaña nuestra inteligencia
cuando, empeñada en busca de invenciones,
de un niño ya nacido lleva el peso!
¡Ay, si mirando atrás quinientos años
pudiera presentarme la memoria
tu imagen en un libro muy remoto,
ya que el alma empezó a expresarse en letras!

¡Si pudiera saber lo que inspiraron
tus maravillas al antiguo mundo,
y ver si es nuestra o suya la ventaja
o si los ciclos son iguales todos!

Seguro estoy que los pasados genios
exaltaron objetos menos dignos.


LX
Como en la playa al pedregal las olas,
nuestros minutos a su fin se apuran,
cada uno desplaza al que ha pasado
y avanzan todos en labor seguida.
El nacimiento, por un mar de luces,
va hacia la madurez y su corona;
combaten con su brillo eclipses pérfidos
y el Tiempo sus regalos aniquila.

El Tiempo horada el juvenil adorno,
surca de paralelas la hermosura,
se nutre de supremas maravillas
y nada existe que su hoz no abata.

A pesar de su mano cruel, mi verso
dirá tu elogio en tiempos que esperamos.


LXI
¿En verdad quieres que tu imagen abra
mis pápados al tedio de la noche,
mientras las sombras que se te parecen
de mí se burlan y a mi sueño quiebran?
¿Mandas así fuera de ti tu espíritu,
lejos, para que aceche mis acciones
y mis horas espíe de flaqueza,
que son blanco y dominio de tus celos?

No; tu amor, aunque grande, no lo es tanto:
es el mío el que me abre los dos ojos,
mi propio amor quien mi descanso vence
y en centinela para ti se cambia:

pues por ti velo mientras te desvelas,
muy distante de mi, muy cerca de otros.



LXII
El pecado de amarme se apodera
de mis ojos, de mi alma y de mí todo;
y para este pecado no hay rernedio
pues en mi corazón echó raíces.
Pienso que es el más bello mi semblante,
mi forma, entre las puras, la ideal;
y mi valor tan alto conceptúo
que para mí domina a todo mérito.

Pero cuando el espejo me presenta,
tal cual soy, agrietado por los años,
en sentido contrario mi amor leo
que amarse siendo así sería inicuo.

Es a ti, otro yo mismo, a quien elogio,
pintando mi vejez con tu hermosura.



LXV
Si la muerte domina al poderío
de bronce, roca, tierra y mar sin límites,
¿cómo le haría frente la hermosura
cuando es más débil que una flor su fuerza?
Con su hálito de miel, ¿podrá el verano
resistir el asedio de los días,
cuando peñascos y aceradas puertas
no son invulnerables para el Tiempo?

¡Atroz meditación! ¿Dónde ocultarte,
joyel que para su arca el Tiempo quiere?
¿Qué mano detendrá sus pies sutiles?
Y ¿quién prohibirá que te despojen?

Ninguno a menos que un prodigio guarde
el brillo de mi amor en negra tinta.



LXXI
Cuando haya muerto, llórame tan sólo
mientras escuches la campana triste,
anunciadora al mundo de mi fuga
del mundo vil hacia el gusano infame.
Y no evoques, si lees esta rima,
la mano que la escribe, pues te quiero
tanto que hasta tu olvido prefiriera
a saber que te amarga mi memoria.

Pero si acaso miras estos versos
cuando del barro nada me separe,
ni siquiera mi pobre nombre digas
y que tu amor conmigo se marchite,

para que el sabio en tu llorar no indague
y se burle de ti por el ausente.



XCI
Unos se vanaglorian de la estirpe,
del saber, el vigor o la fortuna;
otros, de la elegancia extravagante,
o de halcones, lebreles y caballos;
cada carácter un placer comporta
cuya alegría a las demás excede;
pero estas distinciones no me alcanzan
pues tengo algo mejor que las incluye.

En altura, tu amor vence al linaje;
en soberbia al atuendo; al oro en fausto;
en júbilo al de halcones y corceles.
Teniéndote, todo el orgullo es mío.

Mi única miseria es que pudieras
quitarme todo y en miseria hundirme.


XCIV
Tu capricho y tu edad, según se mire,
provocan tus defectos o tu encanto;
y te aman por tu encanto o tus defectos,
pues tus defectos en encanto mudas.
Lo mismo que a la joya más humilde
valor se da en los dedos de una reina,
se truecan tus errores en verdades
y por cosa legítima se tienen.

¡Cómo engañara el lobo a los corderos,
si en cordero pudiera transformarse!
Y ¡a cuánto admirador extraviarías,
si usaras plenamente tu prestigio!

Mas no lo hagas, pues te quiero tanto
que si es mío tu amor, mía es tu fama.


CVI

Cuando en las crónicas de tiempos idos
veo que a los hermosos se describe
y a la Belleza embellecer la rima
que elogia a damas y señores muertos,
observo que al pintar de sus dechados
la mano, el labio, el pie, la frente, el ojo,
trataba de expresar la pluma arcaica
una belleza como la que tienes.

Así, sus alabanzas son presagios
de nuestro tiempo, que te prefiguran,
y pues no hacían más que adivinarte,
no podían cantarte cual mereces.

En cuanto a aquellos que te contemplamos
con absorta mirada, estamos mudos.



CXXIII
Tiempo, no has de jactarte de mis cambios:
alzas con nuevo brío tus pirámides
y no son para mí nuevas ni extrañas
sino aspectos de formas anteriores.
Por ser corta la vida, nos sorprende
lo antiguo que reiteras y que impones,
cual si fuera lo nuevo que dcseamos
y si rio corzociéramos su historia.

Os desafío a ti y a tus anales;
no me asombran pasado ni presente,
pues tus anales y lo visto engañan
al transformarse mientras te apresuras.

Por mí, te juro que he de ser constante
a pesar de tu hoz y de ti mismo.



CXLVI
Pobre alma, centro de culpable limo
a la que burla, indócil, quien la ciñe,
¿por qué adentro sufrir afán y hambre
si pintas lo exterior de alegre lujo?
Si el contrato es tan breve, ¿por qué gastas
ornando tu morada pasajera?
¿Tendrá por fin tu cuerpo sustentar
al gusano que herede tu derroche?

Vive, alma, a expensas de tu servidor;
que aumenten sus fatigas tu tesoro;
y cambia horas de espuma por divinas.
Sé rica adentro, en vez de serlo afuera.

Devora tú a la Muerte y no la nutras,
pues si ella muere, no podrás morir.