quarta-feira, 21 de abril de 2010

PE. NONATO PINHEIRO















É conhecida a secura ou aridez dos cientistas na composição de suas obras, posição até certo ponto compreensível e legítima, já que a ciência é, de sua natureza, austera e objetiva, dispensando os recamos e as louçanias da literatura, da eloquência e das artes, em geral. A literatura é a arte literária, e o artista preocupa-se com o sentido e a plenitude da beleza. Dele diremos o que disse lindamente a Escritura Santa daqueles Varões Insignes, que viveram com a volúpia da beleza: Pulchritudinis studium habentes! (Livro do Eclesiástico).



O homem de letras, a não ser que se trate de um borra-tintas ou um tamanqueiro, esmera-se em suas produções, chegando alguns ao requinte (que não exige) de transformarem suas páginas em obras de arte, esculturas marmóreas, vasos alabastrinos, cromos, cinzeladuras, vitrais, cornucópias e arranjos de rosas, acanto e louro!



O mundo da ciência não conhece ornatos e arabescos, nem se engalana de púrpuras e damascos, mas investiga com frieza a fosforescência do vagalume e a fissura do átomo!


A verdade nua e limpa é que Nunes Pereira, antes de ser o cientista qualificado nos domínios da antropologia cultural, da flora, fauna, potamografia, limnologia, climatologia, bromatologia e mitologia da Amazônia, já se notabilizara como primoroso homem de letras, inspirado poeta simbolista, que muito de indústria escolheu para seu patrono na Academia Amazonense de Letras, da qual foi um dos fundadores, o autor incomparável dos Faróis e dos Broquéis, o glorioso negro de imaginação de ouro, Cruz e Sousa!

Devo à minha pachorra e volúpia no trato da pesquisa o conhecimento que tenho da obra literária de Nunes Pereira. Passei muitas horas nos porões do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, do qual sou membro efetivo e benemérito, a consultar as coleções dos antigos jornais de Manaus. Encontrei sonetos lapidares do autor de Moronguetá e de Panorama da Alimentação Indígena, poemas verdadeiramente antológicos, de sonoridade verlainiana!

Os caminhos da vida ou a própria imposição da sobrevivência deram-lhe outra orientação intelectual, com incursões pela ciência. Como quer que seja, quem o ler, mesmo de inopino, logo percebe o cientista lírico, cuja formação literária suaviza e aveluda suas elucubrações científicas! Enganam-se pois, os que supuserem que o cientista asfixiou e extinguiu o primoroso homem de letras, como na imagem do apuizeiro das florestas amazônicas, estrangulador de espécies vegetais...
A obra literária de Nunes Pereira pede meças à obra científica, só que a primeira azula nos longes de sua mocidade, mas persiste, árdega e garrida, nos jornais e revistas do passado, na Revista da Academia Amazonense de Letras e nas conferências literárias que proferiu, assim no Amazonas como alhures. Recordo-me de uma palestra magistral que pronunciou na sede de nossa Acrópole literária sobre as grandes figuras que a enramaram de louros e mirtos. Ao império de sua admirável evocação, aqueles vultos olímpicos ressuscitaram, retornando redivivos ao recinto azul da academia, revestidos de clâmides refulgurantes, sob os olhares atônitos do presidente Péricles Moraes e de seus confrades, cabendo-me a honra e o júbilo de encontrar-me entre eles!
Nunes Pereira correspondia-se com o famoso antropólogo Claude-Lévi Strauss, o celebrado mestre de Triste- Tropiques; La Pensée Sauvage; Le cru et le cuit e Du miel aux cendres, que o tinha no mais alto conceito científico. Revistas especializadas em antropologia cultural e tribos indígenas brasileiras disputavam a publicação de seus trabalhos, tal o recorte científico que os distinguia! 

E que dizer do boêmio?! Sua vida boêmia não o impediu de atingir a mais provecta senectude, acentuadamente luminosa, conservando até ao ocaso de sua longa existência, referto de ouro e matizes policromos, como o crepúsculo do sol, a força extraordinária de sua portentosa mentalidade! E suas rodas escocesas eram verdadeiros triclínios de letras e saraus de cultura, sempre cercado de intelectuais! 

Eu sugiro a meus ilustres Pares da Academia que a cadeira que o grande maranhense ocupou, passe a crismar-se com o nome de NUNES PEREIRA, e que seja dado o seu nome, pela Prefeitura Municipal, a uma rua ou logradouro público de nossa capital, pelo muito que o nosso Amazonas lhe ficou a dever, assim nas ciências como nas letras!  

Parodiando um lúcido espírito francês, proclamo, entoando a antífona de minha admiração fervorosa, após incensar com redolências seu túmulo em flor:


“Uma águia gigante sobrevoou nosso espaço...”






Pe. Nonato Pinheiro

Rogel Samuel

Li no excelente Blog do Coronel, de Roberto Mendonça, que o Pe. Nonato morreu num cubículo, “morreu em 7 de dezembro de 1994, em um cubículo no subsolo de um hotel, situado na avenida Joaquim Nabuco, em Manaus, abandonado, solitário, cercado apenas de livros aos quais tratou com estima e apreço”.

Ele era um homem ilustre, quando o conheci, sempre elegante na sua batina, e frequentava a mais culta sociedade de Manaus. Respeitadíssimo.

Foi professor de latim de minha mãe. Ele gostava muito de minha mãe, porque ela se chamava Stella, e ele logo a mandava declinar o substantivo.

Amigo de Álvaro Maia e outras personalidades, certa vez o encontrei no gabinete de Genesino Braga, na Biblioteca Pública. Genesino me apresentou e apertamos as mãos. Naquele momento pude ver como ele era uma pessoa frágil. Suas mãos tremiam. Ainda que jovem, uns 40 anos talvez, o rosto marcado pelo sofrimento, aquela arrogância era uma capa protetora, tinha toda uma sociedade contra si, difamado que era.

O melhor prosador de sua época, seus escritos estão perdidos nos jornais de Manaus. Inteligentíssimo, muito culto, memória fotográfica, dia virá em que seus artigos serão editados em livro.

O melhor de sua prosa está espalhado em jornais e revistas e nas colunas que assinou.

Fui aluno de sua mãe, Diana Pinheiro, naquele casarão da vinte e quatro de maio.

E fui seu leitor assíduo.

PlNTURA DA CATEDRAL 

PE. NONATO PINHEIRO



Promovida pela Paróquia de N. S. de Nazaré, com a cooperação das demais entidades católicas desta Capital, iniciou-se e vai engrossando com as mais risonhas perspectivas de êxito a campanha em prol da pintura da nossa Catedral, tradicionalmente conhecida como a "Igreja Matriz". 

  
O movimento teve sua origem nas justas preocupações do nosso mundo católico, tendo à frente, naturalmente o cônego Walter Nogueira, responsável direto atual pela paróquia da Matriz, em torno do centenário do principal templo religioso desta cidade, a ser comemorado, com regozijos característicos, no ano vindouro.

Recorte do jornal A Crítica 

Primeiro, houve a preocupação de fazer a Matriz passar por uma reforma de fachada, inclusive no seu jardim, pela qual, aliás, nos batemos desta coluna, sugerindo que essa última parte fosse feita, com a cooperação efetiva e indispensável da Prefeitura. 
E o nosso mais tradicional e pitoresco templo de orações católicas, verdadeira sentinela e símbolo da religiosidade do nosso povo, logo passou a sofrer os reparos transfiguradores da sua vetusta fisionomia ostentando, já agora, clarões de beleza, à vista de todos, como que a anunciar a aproximação da sua data maior.


Para acontecimento de tanta magnitude, porém, o pensamento teria de encontrar, forçosamente, ideias correlatas. 

E assim deve ter sido concebida a reforma pictórica para o teto da imponente igreja, entregue, já agora, aos cuidados de artista de fama internacional que presentemente se encontra em Manaus. 


Transformada em plano, como era de esperar, a ideia tomou vulto para definir-se nos seus termos reais, em que de todo lado ressalta a sua harmonia com os legítimos anseios do povo desta cidade, no sentido de dotar a sua Catedral, através da reforma já iniciada, da configuração artística que ela merece, e, de outro lado, as despesas necessárias a tal empreendimento.



Para não nos alongarmos nestas considerações, queremos deixar patente que somente a pintura do teto será feito por algumas centenas de milhares de cruzeiros. E o que é interessante é que os recursos terão de provir, na sua quase totalidade, da contribuição particular de todos os (ilegível) da Catedral aqui e em todo o Amazonas. 



Por isso tratando-se de assunto ao qual a imprensa, como instrumento de esclarecimento do povo e de defesa das suas mais caras tradições, não podia ser indiferente, é que a A.A.I. [Associação Amazonense de Imprensa], por decisão unânime de sua diretoria, tendo à frente o presidente Aristofano Antony, resolveu assumir o patrocínio da campanha, desenvolvendo, concomitantemente com o dinâmico cônego Walter, um trabalho de angariação de fundos perante os católicos desta terra e todos aqueles que, afastados dos verdadeiros espíritos religiosos, compreendem perfeitamente que "nem só de pão vive o homem", mas, vive, igualmente, das tradições espirituais da sua cidade, com suas belezas arquitetônicas, seus templos de arte etc. 



Correm, assim, nesta Capital, os títulos de participação financeira na pintura maravilhosa que irá ter nossa Catedral os seus amigos, que, acreditamos, são todos os amigos de Manaus. Com um pouco de boa vontade, os comerciantes e industriais que, apesar de não estarem ganhando como desejavam, possuem, ainda, o conforto que a grande massa obreira somente conhece de notícia, poderão ajudar nossa querida Catedral. Poderão, também, ajudá-la, com os excedentes das mesas de jogo, das boates, dos clubes elegantes, dos picniques e regabofes, todos os que participam desses entretenimentos. 



Poderão ajudá-la, finalmente, todos os que, apesar da inflação, não estão passando fome e, por isso, com um pouco de boa vontade, devem aproveitar a oportunidade de contribuírem para o progresso da cidade, para aumentar o seu patrimônio artístico, que é uma riqueza comum, pertencente a todos, ricos, remediados e pobres ou miseráveis. 



DATE OBULUM – é o pedido, para os que podem, partido da campanha em favor da Catedral. Será que alguém, podendo satisfazê-lo, se negará.? Não acreditamos. 

A campanha continua comandada pelo cônego Walter e os homens da imprensa amazonense, como frisamos ao início, com as melhores perspectivas de êxito retumbante.



 

PADRE NONATO PINHEIRO
(1922-1994)







PADRE AGOSTINHO


Já repousas no céu, padre Agostinho
depois de dezesseis lustros de vida
Oitenta anos de luz e insana lida
mostrando à mocidade o bom caminho
Tua alma sempre em flor, alma de arminho
Tornava-te a batina preferida
em meio a petizada protegida
na casa de Dom Bosco, flóreo ninho
Como em frasquinho cabe muita essência
foste gigante em corpo pequenino
Qual no sacrário a augusta Onipotência
Em vez do De-profundis, canto um hino
Porque chegastes ao fim de tua existência
Sem deixares jamais de ser menino.





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Letras e Livros

Padre RAIMUNDO NONATO PINHEIRO

(Da Academia Amazonense de Letras)

1 O escritor João Nogueira da Mata teve a gentileza de enviar um exemplar de seu livro “Nos Prélios da Vida” ao autor destas linhas. Creio que, mais do que minha condição de sacerdote e de acadêmico, prevaleceu outra, porventura mais forte, que ora revelo: a de ter sido seu discípulo de língua portuguêsa, quando cursava humanidades no Colégio D. Bosco. Entre os professôres e os aprendizes, perduram sempre pela vida laços de estima e recordação. E estima foi precisamente que meu antigo mestre usou na dedicatória com que me obsequiou o volume.

2 Quando frequentei o currículo ginasial no tradicional estabelecimento salesiano, ocuparam as cátedras de língua portuguêsa, sucessivamente, os professôres José Chevalier, João Nogueira da Mata e Leopoldo Péres. Do primeiro tive a honra de ser sucessor na cadeira n.° 20 da Academia Amazonense de Letras, cujo patrono é Afonso Arinos, e sucessor ainda nas funções de secretário do Sodalício, que êle desempenhou com tanto luzimento e com tanto carinho. Em 1934, minha turma estava no primeiro ano ginasial, quando recebíamos as preleções de Chevalier.

3 Entre os meus colegas recordo a presença e o convívio do jornalista Neper Antony, e do governador Plínio Ramos Coelho, ao tempo bons companheiros, pois o azul sereno daqueles dias longínquos não podia ser atingido pelos nimbos plúmbeos d’a competições partidárias. Em 1936, assumiu a cadeira o professor Nogueira da Mata. Era deputado e concluia o curso de Direito. Guardo de suas aulas as melhores recordações, pela assiduidade e pela competência com que regia a cátedra. Nos dois últimos anos do curso, surgiu a figura inolvidável de Leopoldo Péres, com suas aulas magistrais de literatura.

4 Li com atenção devida o livro de estréia de Nogueira da Mata, vulto de notável saliência em nossa intelectualidade. Além de sua cultura opulenta, que todos reconhecemos, prima pelo alto teor do equilíbrio e serenidade com que caracteriza seus atos, o que lhe proporciona um halo de respeito, que provoca admiração. Em magnífica apresentação dos Editôres Sérgio Cardoso & Cia. Ltda., o autor oferece-nos discursos e trabalhos de imprensa que lhe assinalam as etapas da vida, tecida de lutas e vitórias. O título da obra reflete o sentido da luta, com que o escritor se dispôs a aceitar as vicissitudes da existência.

5 No que entende com a sintaxe, o livro de Nogueira da Mata muito se recomenda. Conhecedor do idioma, faz timbre de escrever com asseio e elegância, respeitando como poucos os cânones gramaticais, certo daquela verdade proclamada por nosso João Leda, em sua primorosa obra “Nossa Língua e Seus Soberanos”, “sem decente gramática, não há idéia que sobrenade” (pag. 172).

6 Lamento não dispor de mais espaço para tecer algumas considerações em tôrno dos assuntos que enchem os capítulos. Gostei do elogio de Leopoldo Péres, cuja glória em face da Valorização da Amazônia é inauferível. Outros já tentaram apoderar-se dela, como gralhas que se enfeitam com penas de pavão. A posição estelar de Leopoldo Péres, na obra de soerguimento da Amazônia, não pode ser esquecida e deve ser realçada pelos amazonenses.

7 O Amazonas encontrou em Nogueira da Mata um admirável antesígnano de sua grandeza e um denodado arauto de suas reivindicações. “Nos Prélios da Vida” devia estar nas mãos dos nossos jovens, que se preparam para a vida, como um livro-incentivo e um despertar de energias. Aquelas palavras à mocidade, discurso de paraninfo aos novos contabilistas do Colégio D. Bosco, é uma obra-prima no gênero. Lembrei-me das clássicas alocuções de paraninfo proferidas pelo genial Rui Barbosa. E Nogueira da Mata teve o mérito da síntese. Com duas páginas apenas traçou o roteiro de glórias para a glorificação de qualquer moço idealista.

8 Faço votos que o livro se divulgue e derrame seus clarões sôbre as caminhos da mocidade. E que seja o passaporte para a imortalidade acadêmica, porque Nogueira da Mata merece essa glorificação. Regosijar-me-ei com a ascenção, quando obtiver um sólio entre os príncipes da nossa intelectualidade.

(In. João Nogueira da Mata. “Flagrantes da Amazônia”, Manaus, 1960).










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APARIÇÃO DO CLOWN


Padre Nonato Pinheiro

da Academia Amazonense de Letras



O poema que o padre Luiz Augusto de Lima Ruas chega de dar a lume, oferece margem a vários estudos, entre os quais podemos ressaltar o processo amodernado de sua expressão literária (tema que vem sendo objeto de estudos e debates nestes últimos tempos) e a própria interpretação. Quanto a este particular  o da interpretação da mensagem do autor  fê-lo em alto estilo e largo fôlego o acadêmico André Araújo, que escreveu para prefácio uma de suas mais suculentas produções. Creio mesmo que poucos compreenderiam o alcance dessa mensagem sem a mão guiadora do prefaciador, que talvez pressentindo os apuros do leitor (evidentemente me refiro ao leitor “leigo”), quis logo oferecer-lhe um par de pupilas devassadoras para alcançar num flagrante o sentido e a beleza do poema.

Antes de me reportar à analise da obra, no tema profundo e capital que lhe compõe o arcabouço e lhe revela todo o “substratum”, desejo tecer algumas considerações acerca da linguagem do poema.

Como se sabe, ultimamente vem ocupando a atenção de não poucos estudiosos a questão concernente à expressão literária. Assim da prosa como da poesia. Eu próprio já me ocupei neste cotidiano associado, do concretismo na poesia, tentando dar uma súmula de minhas leituras relativamente ao assunto. Agora já se tenta outra experiência: o da prosa concreta. Venho acompanhando com o mais vivo interesse (não com simpatia, confesso de peito aberto, mas com aquela intenção de que, deseja acompanhar o que se passa no Brasil e no mundo, no campo das letras) alguns debates que se estão travando na imprensa metropolitana, dos quais participam, principalmente, os intelectuais Reynaldo Jardim, Assis Brasil, Theon Spanudis e A. Casemiro da Silva. Reynaldo Jardim é o pioneiro no Brasil dessa tentativa no campo da prosa concreta.
Entendem alguns que há necessidade de se plasmar nova expressão literária, desvinculada ou desvencilhada da tradicional, da que recebemos em legado de nossos antepassados. Alguns poetas e prosadores não hesitaram em romper com essa tradição e passaram a cometer em suas obras certos “atrevimentos” sintáticos, certas novidades “insólitas” no campo da linguagem, imprimindo em seus trabalhos sintomas evidentes de uma ruptura (pouco importa se tenta ou violenta) com a disciplina gramatical que aprendemos nos bancos escolares. Para não me referir à poesia, em cujo campo as ousadias são mais incisivas, poderei citar o caso, aqui no Brasil, do escritor Guimarães Rosa, cuja expressão literária representa um abalo da sintaxe portuguesa, sem embargo de representar, como acentuou com muita propriedade Assis Brasil, a “marca de um narrador clássico, de ressonâncias épicas”.

Outros entendem que não é possível o desvinculamento da tradição, fato que só se conseguiria com a supressão da própria linguagem. Reynaldo Jardim, porém, não pensa desse modo. Para ele, “se há alguma coisa nova a dizer (o galicismo sintático não me pertence) já não pode ser dita, esteticamente, com o material em circulação” (Jornal do Brasil, 21.XII.1958). Como se vê, Jardim fica adstrito ao campo “estético”. Outros ainda opinam que não é possível continuarmos com a mesma expressão sintática tradicional, nesta época em que o homem já “enfadado de viver neste planeta começa a farejar os astros, na ânsia insopitável de conhecer outros mundos”.

Confesso lealmente que não alcanço a necessidade de renunciarmos a velha sintaxe, que é a espinha dorsal de uma linguagem e a mais alta expressão do seu gênio, só porque estamos a pique de ir à Lua ou a Marte. Não compreendo porque o homem não possa levar consigo para os astros um volume da Divina Comédia, de Dante, ou o Hamlet, de Shakespeare, ou Os Lusíadas, de Camões, ou mesmo um romance de Jorge Amado. Não vejo a necessidade irrecorrível de se levar apenas prosa concreta e poesia concreta.

Com a nova fase interplanetária, que se vai abrir, quando o mundo se torna cada vez menor pela facilidade incrível de comunicação, meu ponto de vista é totalmente diferente. Sustento a tese (quem quiser, pense o contrário) de que ficaremos com uma só língua para expressão comum dos nossos sentimentos; ou o russo, ou o inglês, ou o francês, qualquer que seja o idioma. É evidente que o português está fora dessa cogitação; idioma que as nações supercivilizadas fazem questão de relegar ao ínfimo lugar. Prova disso é a declaração recente de um francês (li isso em Paris Match) que, regressando a Paris de uma viagem ao Rio de Janeiro, assim se expressou numa entrefala concedida aos ávidos noticiaristas de um grande jornal parisiense: “Não tenho palavras para exprimir o meu deslumbramento pelo Brasil. É, de fato, o país do futuro, onde se sente a palpitação de uma grandeza verdadeira. Trago, porém, ao lado desse deslumbramento, uma impressão dolorosa”. E o entrevistado concluiu, observando a expressão de interesse contido nos olhos arregalados dos jornalistas: “É que no Brasil se fala o português”.

Como quer que seja, creio que no mundo do porvir, ou em outros mundos que estão a ponto de serem descobertos, e cuja expectativa começa a provocar um estremeção nos códigos jurídicos, com a criação do “Direito Interplanetário” (quando teremos em nossa Faculdade a criação da cadeira?!) só se falará um idioma, sem sotaque, sem regionalismos, sem variantes léxicas ou sintáticas. Enquanto não se operar essa transformação radical, deixemos que os nossos poetas e especialmente os nossos ficcionistas se preocupem com a renovação da linguagem. Eu ainda vou ficando com a velha sintaxe tradicional, embora já me preocupe com o estudo da língua russa.
A verdade, porém, é que essa questão de renovação literária não é tão “nova” como se pensa. Muito antes de Joyce já se tratava desses processos. Daqui a pouco a coisa ficará tão velha como a Sé de Braga. Seja como for, vou acompanhando com olhos bem abertos todas essas inovações, mesmo em outras línguas. Em França há o caso curioso do romancista Michel Butor. Sabe o leitor como esse escritor narra. Simplesmente usando a segunda pessoa do plural.

Voltemos, porém, ao romance do padre Luiz Ruas. Não suponha o leitor que o talentoso sacerdote, sem favor uma das mais altas expressões culturais do nosso clero secular, e da nossa intelectualidade, seja um iconoclasta da linguagem tradicional, e já se exprima em prosa concreta ou poesia concreta. Nada disso. Preferiu um meio termo: conservou a sintaxe, mas aboliu as notações sintáticas e as maiúsculas. Sabemos que as notações sintáticas são os sinais ou símbolos que auxiliam a compreensão do escrito, determinadas pelo sentido e pela necessidade de respirar. São os sinais de pontuação. O padre Ruas, salvo engano de minha parte, só conservou no poema o ponto e o ponto de interrogação. Salvo engano também, só encontrei três vírgulas em toda a brochura (pp. 33 e 37), o que me leva a imaginar que se trata de cochilos do compositor, ou linotipista.

O que interessa, contudo, (e é o que só importa) no poema do padre Luiz Ruas é a mensagem, a um tempo lúcida e dolorosa, do seu poema. Já lhe fez a exegese profunda e minuciosa a pena autorizada de André Araújo. O poema “canta a excelsa angústia humana, representada na figura exótica do clown” (p.11). Efetivamente, é uma análise (poética, é verdade, mas ao mesmo tempo profunda e até angustiada) da alma humana, ou do homem, essa estranha simbiose, ou esse amálgama indecifrável e apaixonante de anjo e demônio. O poeta fez o seu descobrimento. Muitos já fizeram no passado o descobrimento desse “velho clown” (para me servir da palavra inglesa, já que o poeta encontrou nela mais sabor do que nos velhos vocábulos “bufão”, “truão”, “arlequim”, ou mesmo no tradicional “palhaço”. Alguns o fizeram em grande estilo, como o brilhante Shakespeare e o fabuloso Molière, dois profundos analistas da alma humana, dois insignes descobridores de “clowns”.

O palhaço tem sido objeto de numerosos estudos através dos tempos. Muitos zombaram dessa figura estranha, encarnação viva do disfarce. A verdade é que o palhaço também zomba, muitas vezes, dos espectadores. Lembro-me de uma cena num dos palcos de França. Toda a representação do palhaço consistia numa longa e saborosa gargalhada. O teatro repleto. O palhaço ria, ria a bandeiras despregadas, e no fim elucidou a longa gargalhada. “Vocês pagam para ver um palhaço no palco; eu recebo para ver mil palhaços na platéia, nas frisas, nos camarotes e nas arquibancadas...”

A verdade verdadeira é que só descobrimos o “clown” nos outros, e nunca em nós mesmos. Parece que Jesus deu a chave do enigma, ao declarar no seu Evangelho: “Como vês a palha no olho do teu irmão; e não vês a trave no teu? Ou como ousas dizer a teu irmão: deixa que eu tire a palha do teu olho, tendo uma trave no teu? Hipócrita: tira primeiro a trave do teu olho, e então tratarás de tirar a palha do olho do teu irmão”. (Mateus, 7: 3-5.)

O autor veio renovar o eterno tema do destino do palhaço, que é sempre “fundir o alegre riso e o triste pranto” (p.17). Reconhece (p.25) que ele se parece “com o menino que somos e com o inferno que não deixamos de ser”, carregando aquele “fado torturante de ser ave sem poder voar”, “de ser clown”. (p.34)


Não se pense que o padre Luiz Ruas descobriu a América. Ele próprio já havia descoberto o “clown” há muito tempo. Afirmou, à p.17, que verificou ser inútil o seu esforço “de descobrir integralmente o clown”. É força de expressão. Eu e ele, e todos os padres, descobrimos integralmente e diariamente o “velho clown” nas páginas do Breviário Romano, leitura cotidiana e obrigatória para todos nós. Nos salmos bíblicos, que compõem o travejamento, ou o vigamento da oração litúrgica está o “velho clown”, vivo e inconfundível, com o riso e o pranto, com as grandezas e as misérias, com os vôos altaneiros e as depressões dolorosas e letais. Antes que Molière compusesse as suas Précieuses ridicules, já Davi e os demais compositores dos salmos punham no maior relevo aquela “interrogação verde no cenário de carmim”, da página 21. Nos salmos deparamos vivo esse como “precioso ridículo”, que é o homem ou essa “preciosa ridícula”, em vez de um Molière zombeteiro, encontrou um analista profundo e misericordioso na inspiração suprema e divina do Espírito Santo. A verdade é que aí está o “clown”, não em silhuetas mas na sua “dimensão total” (p.29).

Como quer que seja, o poeta padre Luiz Ruas quis re...car o velho tema. Quis “redescobrir” o “velho clown”, e o fez em páginas cintilantes, com trechos soberbos e admiráveis como os de “aviso” e “legado”, este último uma esplendida apoteose de asas onde só falta aquele par de asas divinas, que é o mais alto vôo e o mais alto abrigo para o “velho clown”, e por cuja sombra suspirava o salmista: “sub umbra alarum tuarum protege me” (Salmo 16: 8).

O tema é fascinante. Ortega y Gasset também versou, com o esplendor do seu estilo grandioso, o assunto, velho é sempre novo. Afinal tinha razão o velho João Ribeiro, quando afirmava: “não há questões novas, o que há são questões velhas que se renovam periodicamente”. O padre Luiz Ruas, com a argúcia de seu espírito perquiridor e a opulência vigorosa de sua imaginação de poeta, produziu um poema magnífico, onde há lances de rara sensibilidade e descrições de faiscante colorido. A publicação do livro, em feitio moderno, com algumas tendências de renovação literária, representa uma vitória do autor e uma conquista das próprias letras no cenário da nossa intelectualidade. ◊






1 Coluna Letras & Livros, Jornal do Commercio, 5 de fevereiro de 1959.







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Uma lâmpada que se apagou

O Jornal, 26.04.1970


Custou-me acreditar na dura realidade, quando liguei o meu receptor no momento exato em que a estação noticiava o falecimento de Aderson Andrade de Menezes, um dos espíritos mais lúcidos da intelectualidade contemporânea de minha terra. Conheci-o pessoalmente em 1947, através de um circunstância a um tempo litúrgica e filial, quando me foi cometida a incumbência de celebrar, durante um ano inteiro, uma vez por mês, as missas em sufrágio da alma de seu genitor, na igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Impressionou-me a assiduidade desses irmãos à missa mensal mandada rezar pela família na intenção de Tude Henriques de Menezes. Foi o início do nosso conhecimento. Eu, jovem padre, e ele, já bacharel em Direito, com seu conceito firmado na sublime esfera da inteligência.


Um dia, sou chamado à residência do escritor Péricles Moraes, presidente da Academia Amazonense de Letras. Era eu o secretário do sodalício. O eminente crítico literário, que foi, a muitos títulos e a todas as luzes, o maior escritor do Amazonas, estava preocupado com o preenchimento das vagas da confraria. Naquele tempo, o processo não era o da inscrição do candidato. Os próprios luminares do Areópago das Letras, com suas pupilas de lince, escolhiam seus novos Pares. Sentia-se a preocupação do inolvidável presidente na seleção dos novos acadêmicos. Repugnava-lhe o ingresso, para o cenáculo das letras, dos medíocres e mistificadores literários. Chamou-me para conversarmos de espaço sobre os valores da terra no campo da literatura e da cultura literária. Sempre receou, contudo, a eventualidade de uma recusa por parte do candidato, o que seria, de qualquer maneira, desprimoroso para a Academia. Confiou-me a missão sigilosa e diplomática de consultar os doutores Abdul Sayol de Sá Peixoto e Aderson Andrade de Menezes sobre como receberiam sua eleição para a “Casa de Adriano Jorge”. Cumpri a missão, segundo suponho, a contento. Ambos responderam que, se bem consideravam excessivamente honrosa a distinção, não cometeriam a indelicadeza de uma recusa. E foram eleitos: Abdul, para a cadeira de Eduardo Prado, que pertencera a seu glorioso pai, o desembargador Antonio Gonçalves Pereira de Sá Peixoto; e Aderson, para a cadeira de Silvio Romero. O primeiro, porém, não tomou posse de sua poltrona, que foi declarada novamente vaga, decorrido o tempo previsto e concedido pelo Estatuto.


Notei que Aderson se entusiasmou pela concessão da láurea acadêmica. Dentro em breve tomava posse da poltrona de Silvio Romero, que encontrou grávida de esplendores, pois nela sucedeu ao grande Alfredo da Mata, cujo retrato fidelíssimo nos traçou em seu discurso de recepção, (...)


Aderson entrou para a Academia na presidência de Waldemar Pedrosa, seu grande amigo e mestre, de quem nos legou precioso estudo, entronizando a pena no cérebro e no coração, e que constitui seu canto de cisne, seu nupérrimo livro Waldemar Pedrosa (notas biográficas e textos documentais). Foi recebido, sous la coupole, pelo acadêmico Aristophano Antony, que proferiu, a meu juízo, um dos seus mais belos e substanciosos discursos, em estilo eminentemente acadêmico, limado e polido.


Aristophano fez ligeiros reparos ao discurso de Aderson, no que prendia aos títulos de Alfredo da Mata. Mencionou que o ilustre médico pertenceu aos Institutos Históricos do Ceará, Pernambuco, Sergipe, Bahia, Rio Grande do Sul, São Paulo, sendo ainda sócio ad honorem das Academias de Ciências, de Lisboa e de Estocolmo, tendo sido agraciado por 34 faculdade de medicina de vários países, inclusive pela famosa Sorbonne, que lhe conferiu o titulo de professor honoris causa.


Não resisto a tentação de transcrever o seguinte trecho do formoso discurso de Aristophano Antony, talvez o mais cintilante e comovedor, quando a Academia coroava de louros a fronte de Aderson Andrade de Menezes:


“Aqui chegastes, depois de fácil caminhada, entre epinícios consagradores ao vosso êxito. Nesta hora que vos será, como também a nós, inesquecível, os nossos corações comungando os mesmos ideais, pulsam ritmados por igual emoção.” (...) “Não vos arrependereis, entretanto, do convívio dos vossos confrades, que vos acolhem de encontro ao coração. Eles vos falarão sempre aquela linguagem do afeto e do carinho, linguagem que possui a claridade das estrelas e a suavidade encantadora das rosas.”


Uma vez acadêmico, Aderson Andrade de Menezes teve rebrilhante relevo na Casa de Adriano Jorge e Péricles Moraes. Foi quem recebeu no sodalício o acadêmico José Lindoso, eleito para a cadeira de Araujo Lima, e seu contemporâneo no Colégio Estadual e na Faculdade de Direito. (...)


O egrégio extinto foi diretor da Faculdade de Direito do Amazonas, e de sua passagem por essa Casa deixou profundos e lampejantes sulcos, chegando a escrever-lhe a História, quando das comemorações cinquentenárias dessa benemérita instituição, para a qual entrou com a suculenta e magistral tese “Do Mandato político na democracia representativa” (Tese de concurso à Cátedra de Teoria Geral do Estado, na Faculdade de Direito do Amazonas), para cuja feitura consultou um elenco de obras notáveis, o que positivou os altos quilates de sua erudição. Catedrático de Teoria Geral do Estado, deu à estampa um precioso manual da matéria, que o revelou contubernal dos mais insignes mestres do Direito (...)


Que direi dos cargos que ocupou? Em todos se houve com brilho e elegância: diretor da Faculdade de Direito; diretor da Penitenciária Central; Chefe de Polícia; diretor da Faculdade de Ciências Econômicas; juiz substituto da Capital; secretário de Educação e Cultura e magnífico Reitor da Universidade do Amazonas.


No exercício de alguns desses cargos manifestou extremos de renúncia, tolerância e generosidade. A mim me confiou, em sigilo, que apurou graves irregularidades administrativas de um antecessor seu, num desses cargos. Exibiu-me documentos, ajuntando de logo: “Creia-me, padre Nonato, que não será molestado. Ficarei apenas com a documentação no meu arquivo.”


Como jornalista, Aderson brilhou com impressionante claridade. Recordo-me de uma coluna diária, que ele manteve longo tempo no Diário da Tarde. Eram comentários cintilantes, que de pronto refletiam a inteligência do autor. Um dia não me contive, e perguntei ao amigo Almir Correia, esposo de Amélia Archer Pinto Correia, quem era o redator da coluna. Almir logo me matou a curiosidade: era o Aderson!


Não posso esquecer o orador. Tive ocasião de ouvir grandes discursos de Aderson Andrade de Menezes. Foi orador oficial do Atlético Rio Negro Clube. Como conversador, foi dos mais notáveis que conheci. Sabia prender o interlocutor.


Transferido para Brasília, não morreu sem primeiro cumprir uma destinação que se impusera: biografar o ministro Waldemar Pedrosa, que o amava como a filho. Foi o seu canto de cisne. (...) Meu amigo Satyro Barbosa cedeu-me o seu exemplar para uma leitura, a um termo remansada e emocionante, porque o autor já não se encontrava entre os vivos. Teve a amabilidade de citar um trecho de meu discurso, proferido na Academia na sessão de saudade, realizada no trigésimo dia do falecimento do preexcelso amazonense, em cujo espírito Deus acendeu as estrelas de todas as nobrezas.

Grande Aderson! Só me falta falar do excelente irmão e filho que soubeste ser, e só não o faço, para não ensopar meu artigo com as lágrimas de tua extremosa mãe, cuja dor só não é infinita porque é infinita a consolação filial de teus grandes irmãos!...






Os Clássicos da Língua


Cada vez mais me convenço, e não cesso de o repetir aos que me interpelam, que o mais excelente para aprender um idioma é o contubérnio com os seus melhores escritores, os que chegaram a tal apuro de correção vernacular, que se apresentam como guapos e cadimos padrões de boa linguagem. São os clássicos de língua. Impede que não confundamos alhos com bugalhos. Há autores que se reputam clássicos em determinado ramo do saber humano, mas que o não são quanto à linguagem, por falta da necessária correção. Euclides da Cunha, por exemplo, é clássico da amazonologia, mas não é clássico da língua portuguesa. Péricles Moraes com muita razão declarou, no seu admirável estudo acerca dos intérpretes da Amazônia, que todos são “caudatários de Euclides”. No que tange, porém, ao apuro da linguagem, pela correção gramatical, o autor de “Os Sertões” e de “A margem da história” não atingiu as alturas em que brilharam Rui Barbosa, Gonçalves Dias e Machado de Assis, três notáveis brasileiros que se tornaram padrões de legítima linguagem portuguesa.
Que são clássicos? Podemos aceitar o conceito de José de Sá Nunes, em sua “língua vernácula”( 1.ª e 2.ª séries, pág. 105 da segunda edição ): “Escritores de grande autoridade, que servem de modelo no uso da língua vernácula”. Agrupamo-los em duas categorias: Clássicos antigos e modernos, aceitando-se ainda a classificação entre brasileiros e portugueses.
De entrada desfaço a ilusão em que laboram não poucos estudiosos da língua, supondo que os clássicos sejam necessariamente escritores antigos, mais ou menos como os santos padres da Igreja, que integram e preenchem determinada época da historia. Nada mais falso. A razão está com Francisco Barata, autor de um precioso livrinho, já raro no tempo de Rui Barbosa, e, pelo mesmo elogiado, em termos enaltecedores, titulado “Estudos da língua portuguesa”, onde ensinou: “Clássico é o que melhor e mais primorosamente escreve numa certa época”. (Cfr. “Replica”, nº 193). Segue-se daí, evidentemente, que sempre haverá clássicos, uma vez que em todas as épocas brilharão modelos de boa linguagem, de acordo com o estilo do tempo. Daí também se deduz a infantilidade de muitos, que identificam as obras clássicas com coisas borolentas, como se a correção gramatical fosse apanágio do passado.



São muitos os clássicos antigos, à frente o culminante Camões, autoridade que sobreexcede todas, no dizer de Sá Nunes. Para Rui Barbosa, era “o maior dos maiores”, como se lê na famosa “Réplica”, n.º 222, livro admirável que não pode faltar numa estante de língua portuguesa. “Os Lusíadas”, poema imortal que se inclui entre as melhores obras da literatura universal, é a Bíblia da língua portuguesa. Nenhum estudioso do idioma tem o direito de ignorar as páginas eternas de Camões. O preexcelso vate abre necessariamente a litania dos clássicos da língua.


Entre os clássicos antigos, distinguimos: Frei Luiz de Sousa, Padre Antônio Vieira, Padre Manuel Bernardes, Gil Vicente, Fernão Lopes, Damião de Góis, João de Barros, Bernardim Ribeiro, D. Francisco Manuel de Melo, Jacinto Freire de Andrade, Frei Heitor pinto, Padre João de Lucena, Duarte Nunes, Filinto Elísio, Frei Tomé de Jesus e muitos outros.


Rui Barbosa, na “Réplica”, cita freqüentemente os clássicos antigos, revelando conhecimento profundo de todos. Creio, porém, que poderei dar um conselho aos novos. O importante não é conhecer todos os clássicos antigos, mesmo porque muitas de suas obras se esgotaram. Conhecemo-los através das antologias. Eu recomendaria o estudo de quatro que me parecem sobreexcelentes: Camões, Vieira, Bernardes e Luís de Sousa.


De Camões, nada mais tenho que dizer: é o primeiro!
O padre Antonio Vieira é um dos principais clássicos antigos. Era um dos prediletos de Rui Barbosa, que lhe chamava “um dos três ou quatros grandes cimos clássicos do nosso idioma” (“Réplica”, nº 232). É ainda nesse livro, que consulto quase diariamente, que topamos esta passagem do mestre a respeito do egrégio jesuíta: “No meu longo trato com os livros do exímio escritor português, etc.” (nº 453). São célebres os “Sermões” de Vieira, em número aproximado de duzentos. Aí está a opulência da língua, nas variedades de seus modismos, das suas construções, e na imponência da sua majestade. Aí esta também a assombrosa erudição do padre, em cuja cabeça faiscavam centelhas de genialidade. Além dos “Sermões”, temos as “Cartas” do jesuíta, também numerosas. A “Arte de Furtar” provavelmente não é da autoria do eminente sacerdote. Vieira, entre os clássicos antigos, talvez seja o que mais se aproxime da nossa linguagem de hoje. Há trechos que nenhum português ou brasileiro da atualidade ousaria alterar, tão modernos nos parecem.


O Padre Manuel Bernardes é outro clássico antigo de nomeada. Seu estilo, porém, difere muito do estilo do Padre Vieira. Todos conhecem o célebre paralelo entre Vieira e Bernardes, da lavra do insigne Castilho. Vieira é a tempestade; Bernardes é a bonança. Vieira é o mar encapelado; Bernardes é o lago sereno, a refletir as lucilações das estrelas. Vieira é a força; Bernardes é a doçura. Entre as obras mais excelentes do oratoriano, cito “Nova Floresta” e “Luz e Calor”, modelos de melhor prosa portuguesa.


Frei Luís de Sousa é outra sumidade. Para João Ribeiro era “o mais melodioso, e acaso o mais puro de todos os prosadores de nossa língua”. Para Herculano, era “o maior dos nossos clássicos”, conceito que arpoei na “Réplica” (nº 197). É autor da famosa “Vida de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires”, célebre Arcebispo de Braga, que muito se distinguiu no Concílio de Trento.


Quem conhecer esses quatro clássicos, dentre os antigos, pode ficar tranqüilo.

Passemos agora aos modernos que podemos classificar em duas categorias: portugueses e brasileiros.

Dos portugueses, parece-me que o mais insigne é Antônio Feliciano de Castilho. Sá Nunes o tinha na conta de “o mais puro dos clássicos modernos”, como se lê em sua “Língua Vernácula”, terceira série, pág.201. Pedro Pinto afirma, em seu livro “Locuções e Expressões na Réplica de Rui Barbosa” ( pág. 11 ), que o lê desde menino. Rui Barbosa sempre o colocou nas alturas. Citarei alguns tópicos da “Réplica”, em que o grande brasileiro canoniza o glorioso clássico: “Subamos, porém, ainda. Vamos, dentre os mestres da língua, ao maior: a Castilho Antônio”, (nº 74)
“De todas as autoridades, porém, há um, que por cima de todas sobreleva: a daquele, que Silva Túlio aclamava o nosso pontífice contemporâneo em pontos de fé gramatical, a de Castilho Antônio. Filólogo, poeta e prosador insigne entre os mais insignes, esse clássico, o maior dos da nossa língua no século dezenove”. (nº 201)


Além de Castilho, é de justiça citar outros clássicos portugueses de fama: Camilo Castelo Branco, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Latino Coelho e Rebelo da Silva.


Camilo é o fabuloso romancista português, um dos melhores clássicos da língua, em cujas obras se ostentam a opulência e o colorido do nosso vocabulário. É o escritor mais fecundo da língua. Parece que a cegueira foi a causa do seu lamentável suicídio. Era um dos clássicos prediletos do nosso João Leda, que escreveu “Os Áureos Filões de Camilo”. Aliás, é vastíssima a bibliografia acerca do iminente e donairoso prosador. O próprio Castilho lhe chamou “o mais opulento dos nossos clássicos”, depoimento que Rui transcreveu na “Réplica” (nº 205).


Alexandre Herculano recomenda-se pela grandiosidade do seu estilo. Em Latino Coelho admiramos a eloquência da linguagem. Seus escritos dão-nos a ilusão da tribuna.


O Brasil apresenta também clássicos de nomeada, verdadeiros padrões de boa linguagem, que ombrearam com os melhores clássicos de Portugal: Rui Barbosa, Machado de Assis, Gonçalves Dias, João Francisco Lisboa, Sotero dos Reis, Carlos de Laet, Francisco de Castro e outros. Lisboa escreveu a vida do padre Vieira. Sotero dos Reis conhecia a língua profundamente. Chamou-lhe Rui “mestre de mestres”. O maior clássico brasileiro é incontestavelmente Rui Barbosa, o grande, o fabuloso Rui. Entre suas obras, sob o aspecto de linguagem, recomendo “A Réplica” e as “Cartas de Inglaterra”. O primeiro livro prende-se á famosa polêmica que manteve com o velho Carneiro Ribeiro. O segundo exibe uma linguagem excelente e foi revisto escrupulosamente pelo autor.



Aí estão alguns clássicos da língua, modelos perfeitos de boa linguagem. Devemos compulsar-lhes as obras como recomendava o mestre João Ribeiro, em suas “Páginas de Estética”: “Os nossos clássicos escreviam com lenteza e com vagar é que compunham. Não podem, pois, ser devorados dum trago como os livros de hoje improvisados num lanço”.

Mais do que nas regras gramaticais, aprendemos a língua nas páginas culminantes dos seus mais excelsos artistas e prosadores, que detinham em suas penas o senso profundo da vernaculidade.

A MISSÃO DOS INSTITUTOS HISTÓRICOS  


Grande e benemérita tem sido no país a missão dos Institutos Históricos e Geográficos, como alavancas, da cultura nacional, tranquilas mansões de apaixonados estudiosos, para servir-me de significativa expressão do barão de Ramiz Galvão, recebendo no Instituto Histórico  Brasileiro o notável espírito do Cardeal Cerejeira, proeminente Patriarca de Lisboa, prelado em que se deviam mirar, como em espelho de cristal, os prelados de todos os quadrantes, o qual, sem embargo de sua proceta, mas luminosa senectude, ainda traz o espírito primaveril iluminado aos clarões de arrebóis purpurinos. 

Disseminados pelo país e contando com parcos recursos em assunto de ajuda financeira, realizam obras de estudos, pesquisas e promoção cultural, divulgando documentos e salvando para a posteridades o legado de inteligência e cultura que nos transmitiram a paciência e o zelo patriótico dos nossos antepassados.

Com júbilo espiritual hoje vos recebemos nesta hora de encantamentos, estrelada de todas as resplandecências, a que não faltou o principado do mundo oficial nem o cardinalato das mentalidades mais lúcidas e pujantes de minha terra, para vos colocarmos com a pompa do estilo e a magnificência das horas triunfais, na cadeira austera do historiador beneditino Frei Gaspar da Madre de Deus, cujo elogio tão elegantemente compusestes; nome que sem dúvida vos acordou ao espírito a veneranda cocatedral da Madre de Deus, da capital pernambucana, que prolonga no Recife as gloriosas tradições da velha Catedral de Olinda, mãe e madrinha de tantas igrejas do Nordeste, como já proclamou o eminente sociólogo e nosso sócio correspondente Gilberto Freyre, vosso preexcelso conterrâneo, que acaba de irradiar clarões nessa mesma tribuna em que vindes de proferir vosso admirável discurso de posse.


O SÓLIO DA NOITE  


Nesta festa sumamente suntuosa, de comemorações históricas e de vossa solene recepção, sois figura central, objeto do nosso respeitoso culto e fervorosa admiração. Como nos conclaves dos cardeais, reunidos para a eleição do Papa, caem os dosséis de todos os baldaquinos, aurifulgindo apenas o vosso, o eleito dos príncipes desta Casa, num conclave memorável, em que se prestou justiça ao mérito e ao talento de um prelado ilustre, cuja modéstia, num mundo de repelentes cabotinismos, ainda é um esmalte precioso, e até diria, a verdadeira pedra de toque das grandes inteligências e altivolantes espíritos! Ante o esplendor desta noite memorável, que rivaliza com o dia pelo fulgor de tanta claridade, pela eventual circunstância de ser o orador oficial da Casa, coube-me a grata e honrosa tarefa de dar-vos as boas-vindas em nome de tão ilustres confrades, que se honram em serem presididos por um embaixador da Justiça, que encaneceu no exercício dignificante da magistratura.

vendo-vos os dois -- um, embaixador da Justiça; outro, embaixador da Paz, só me cabe proferir jubiloso as palavras jucundas que o salmista pronunciou ao som harmonioso das citaras: "Justitia et pax osculata sunt"! A Justiça e a Paz se oscularam, para grandeza desta Casa, que toda se ilumina com o vosso ingresso, como o raiar das pompas matinais do meu Amazonas, que é vosso pelo coração e pelos labores apostólicos, pompas matinais que explodem em claridade e se desatam em policromias deslumbrantes, num luxo oriental de galas e esplendores, de gorjeios e aleluias, de flores e arômatas; noite fúlgida e gloriosa, que me obriga mais uma vez a fazer reboar nas arcadas dos lábios a expressão elegante do profeta e rei Davi: "Et r.. no sicut dies illuminabitur!" (E a noite será clara como o dia!)

No esplendor dessa claridade triunfante, eu vos saúdo, senhor Dom João de Sousa Lima, ufano com meus confrades de arregaçar as infulas de vossa mitra neste como pontifical solene, que nada fica a dever, em grandeza e brilho aos pontificais de vossa Catedral Metropolitana, nos dias supremos de Ressurreição e Pentecostes, em que reafirmais, ao bimbalhar dos sinos, a perenidade do Cristo, Centro, Rei, Centro e Divisor da História, a quem Paulo, o Apostolo, se aprazia em chamar o homem-eterno, porque Deus humanado, o Cristo que é sempre o mesmo -- "heri, hodie, ipse et in saecula!" -- o Cristo de ontem, de hoje que há de ser o mesmo de amanhã no cortejo e na perpetuidade de todos os séculos!


Estranho Pensamento

Padre Nonato Pinheiro

Estranho pensamento me assedia:
de saber em que sítio, em que floresta,
vive a árvore que, na extrema sesta,
ao meu corpo o caixão dará um dia!

E me assaltou atroz melancolia:
sentindo a imolação da árvore honesta,
abandonando os pássaros em festa
para levar meu corpo à cova fria...

Se Deus, que é poderoso e onisciente,
me indicasse o local, com exatidão,
onde se encontra a árvore silente

que a madeira dará pra meu caixão,
partiria pra selva incontinenti,
para beijar-lhe o tronco com emoção!...


A mensagem do Natal


O Natal traz à humanidade, todos os anos, uma mensagem venturosa de luz, de amor e de paz. Estrela dos Magos, que há quase dois mil anos refulgiu sobre o humilde presépio do Salvador, em borbotões de intensa claridade, parece que uma vez por ano, na quadra natalina retornar à terra com o mesmo faiscante esplendor, para repetir aos homens, na eloquência do seu clarão, que só Jesus é o Salvador, que só Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida, que só Ele é a Luz que ilumina todo homem que vem a este mundo, na frase cintilante do evangelista São João.
Sem o fulgor daquele célebre astro, os Magos não teriam encontrado o caminho de Belém. Também a humanidade, mormente nesta encruzilhada tremenda de caminhos do século XX, em que já se sondam novos caminhos para as viagens interplanetárias, e em que a energia nuclear é uma ameaça constante, geradora de pesadelos sinistros, necessita de brilho de um astro, para não perder o roteiro dos seus excelsos destinos.

O Natal, com a sua sublime poesia e a sua divina claridade, como se fosse a radiação de uma Estrela Magnífica, desperta os homens do letargo da sua indiferença, e do crime das suas negações e apostasias, recapitulando-lhes as verdades eternas que transbordam do Evangelho, o mais alto código de santidade que já se escreveu sobre a terra, cujas palavras brotaram da fonte inestancável daqueles lábios divinos, que um dia se descerraram para a proclamação desta verdade inatingível: “Eu sou a Luz do mundo; quem me segue não anda nas trevas”.

Manaus Magazine, dez. 1958



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NATAL de 1958! Neste Natal já iremos sentir uma grande ausência: a ausência de Pio XII, que todos os anos nos trazia uma mensagem radiosa, que arrebatava os corações para o alto. Em dezenove anos já nos acostumáramos aos acordes e aos acentos daquela palavra augusta, toda feita de beleza e claridade, que nos fazia sentir a quase apalpar o mistério profundo do Natal de Jesus.
Neste ano, outra figura, vestida de branco, habita a colina do Vaticano: o Papa João XXIII, o qual também nos transmitirá sua palavra de salvação e de vida, de luz e de sabedoria, insistindo na mesma necessidade da justiça como condição para usufruirmos os benéficos supremos da Paz, que os anjos anunciam na noite fulgurante e santa do nascimento de Jesus: “Glória a Deus nas alturas, paz na terra aos homens de boa vontade”! (...)

“Lux fulgebit hodie super nos! Uma luz brilhará hoje sobre nós – reza a Igreja no intróito da segunda missa de Natal, celebrada ao romper da aurora. Todo o Natal se impregna do clarão dessa luz divina, que nos ilumina e nos arranca das trevas das iniquidades terrenas, elevando os nossos corações para as alturas da vida crista e sobrenatural, lembrando-nos que há uma vida celeste onde a felicidade não se acaba, e onde ouviremos as vozes harmoniosas daqueles mesmos anjos que na venturosa noite do nascimento de Jesus cantaram o mais belo cântico que já se ouviu sobre a terra: Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade!”.






CLUBE DA MADRUGADA
Pe. Nonato Pinheiro

( Da Academia Amazonense de Letras )
Há mais de um decênio que o Clube da Madrugada vem se firmando e afirmando como expressão de tenacidade e pujança no campo das artes e das letras, movimento de vitalidade e renovação, dirigido por uma plêiade de talentosos moços, que encaram o problema da cultura com dignificante espírito de seriedade.
Quando surgiu o movimento, inspirado em manifestações similares noutras áreas literárias e artísticas do país, no espírito que animou a “Semana de Arte Moderna”, promovida em 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, com palestras, conferências, declamações e exibição de artes plásticas, já era eu acadêmico, e senti, no dealbar ou na floração daqueles primeiros impulsos renovadores, certa descrença da parte de alguns vultos de nossas letras planiciárias. Desde o início, entretanto, observei nos rapazes acentuada posição para levarem a coisa a sério. Liam, estudavam, produziam, trocavam idéias e comentavam os últimos lançamentos do país, no mundo livresco. Acompanhavam o movimento artístico e literário, aqui e alhures, com vivo interesse. Não dispunham de uma sala, sequer, para seus encontros. Que importaava? Qualquer porão ou nesga de jardim bastava aos seus intercâmbios culturais. A praça de Heliodoro Balbi foi palco das primeiras tértúlias e continua a ser teatro dos encontros dos clubistas, aos lampejos do sol, se é dia; sob o pálio das estrêlas, quando é noite.
Crescia o movimento. Novos sócios vinham unir-se aos pioneiros. Alguns tranferiram-se para a metrópole tentacular, sonhando comtros ainda retornaram, renovando-se no espírito primitivo que anim melhores vantagens e posições. Outros permaneceram, mantendo crepitante a chama do ideal. Ouou o Clube. Vieram os primeiros lançamentos. E ao editar-se a primeira seleta, a “pequena antologiamadrugada”, já o movimento estava consolidado. Cada nova manifestação dos clubistas era uma explosão e afirmação de pujança, de vigor, de vitalidade. Da fase sonhadora, mesclada talvez de certa indisciplina, compreensível nas instituições nascentes, passou-se à fase das definições, no encalço de uma disciplina e de um roteiro. As equipes movimentavam-se conscientemente, e a cidade tomou conhecimento de que os rapazes se decidiram a tomar posição, a despertar vocações nascentes, a incrementar o movimento artístico e literário, servindo com devotamento à cultura. O Clube da Madrugada era uma realidade seivosa.
Tenho consciência nítida da que sempre estimulei êsses moços, que surgiam diante de minhas pupilas tocados pela centelha eletrizante de um ideal superior. É só consultarem minha colaboração na imprensa amazonense, que já se avoluma de vinte anos, e terão a prova convincente. Cheguei a sugerir ao escritor Péricles de Moraes, presidente da Academia Amazonense de Letras, ao tempo da fundação do Clube da Madrugada, de quem fui colaborador imediato nos movimentos culturais que entendiam com a Casa de Adriano Jorge, que observasse os rapazes, que lhes acompanhasse os passos na seara das letras. Avancei a idéia do aproveitamento de alguns para a Academia, no intuito de uma revitalização do sodalício. Os clubistas têm consciência dessa posição. Outros confrades, como Aristófhano Antony também assim pensavam.
Como quer que seja, entendo que a linha do Clube da Madrugada não deve ser a de oposição à Academia de Letras. Ambas as entidades devem visar ao incremento literário e artístico, tendo em mira o progresso cultural do Amazonas. Não devem ser fôrças antagônicas, mas fôrças vivas, formando uma mesma dinâmica pelo soerguimento pensamental, pelo explendor das letras e das artes, pelo culto do idioma e da literatura nacional.
O Clube da Madrugada possui nomes expressivos em seus quadros: Aluísio Sampaio, Alencar e Silva, Edson Farias, João Bosco Evangelista, Álvaro Páscoa, Carlos Gomes, Farias de Carvalho, Jorge Tufic, Artur Engrácio, Pedro Amorim, Ivens Lima, Jefferson Peres, Afrânio Castro, Evandro Carreira, Miguel Barrela, João Bosco Araújo, Saul Benchimol, Antonio Gurgel do Amaral, J. Maciel, Hanneman Bacelar, Luís Bezerra, Padre L. Ruas, Sebastião Norões, Getúlio Alho, Ernesto Pinho, Ernesto Penafort, Antístenes Pinto, Oscar Ramos Filho, Pedro Santos, Cosme Alves Neto, Guimarães de Paula, Nauro Machado, Nazareno Tourinho, Assis Brasil, Astrid Cabral, Nivaldo Santiago, Teodoro Botinelli de Assunção, Leopoldo Peres Sobrinho, Djalma Passos e Moacyr Couto. Servi-me de uma relação que me foi oferecida pelo clubista Jorge Tufic, cuja ordem ordem nominal mantive.
Já é volumosa a coleção dos livros lançados pelos clubistas. Farias de Carvalho brindou-nos com “Pássaro de Cinza”, bem festejado pela crítica. É sem favor um dos mais belos talentos poéticos da nova geração, refulgindo ainda como excelente declamador. Jorge Tufic, outro poeta de raça e intelectual de elevadas preferências mentais, deu à estampa “Varanda de Pássaros”, na qual, em verdade, só gorjeia uma ave: o pássaro de sua maviosa inspiração. Alencar e Silva, que já nos havia dado “Painéis”, voltou com melhor garbo e amadurecimento em “Lunamarga”, sua última conquista, saudada com desbordante entusiasmo. Padre Luís Ruas, um dos brasões mais refulgentes do Clube, é autor da “Aparição do Clown”, que revelou um poeta de impressivos e expressivos surtos e uma inteligência de radiosa claridade. “Poesia frequentemente” é de Sebastião Norões, discípulo fervoroso de Dario e Guillén, livro que patenteia um intelectual e poeta de muita sensibilidade e intui, ção. Antístenes Pinto, que estreara como inspirado poeta em “Sombra e Asfalto” e, m que há claridades de plenilúnios e olhares serenos de pupilas de sonhador, surge agora como novelista, sobraçando o seu “Chavascal”, núper-lançado. Na crítica literária a companho com interesse e aplausos a desenvoltura de Aluísio Sampaio e Artur Engrácio, cujas recensões refletem a agudeza e o faro de conspícuos analistas. Engrácio ainda brilha no conto e na novelística, e suas “Histórias de Submundo” dão-nos o fôlego e as dimensões do contista.
Na pintura, na escultura, na xilogravura, no campo fascinante das artes pláticas, o Clube da Madrugada apresenta uma plêiade de admiráveis artistas, alguns de renome nacional: Moacyr Couto, Hanneman Bacelar, Getúlio Alho, Afrânio Castro, Álvaro Páscoa e outros, que honrariam os melhores e mais exigentes salões de arte.
Na eloquência e oratória há um nome que se impõe vitorioso: Evandro Carreira, já consagrado num concurso nacional de oratória. No campo das ciências sociais e econômicas Jefferson Peres e Saul Benchimol são figuras de alto relêvo, que dignificam qualquer instituição de cultura. No mundo empolgante do canto e da música esplendem Nivaldo Santiago, Pedro Amorim e outros.
O Clube da Madrugada possui uma flor escarlate em seu jardim, que lhe dá realce e encanto: é Astrid Cabral, a mais talentosa de quantas alunas tive no Instituto de Educação. É a única mulher, a florir com seu formoso talento no sodalício presidido pelo meu amigo Aluísio Sampaio. Embora ausente, sei que Astrid não perde o contacto com o seu Clube, e sempre envia suas produções.
Soube com certo constrangimento que alguns clubistas se afastaram: Elson Farias, Luís Bacelar e Francisco Vasconcelos, todos três valôles positivos. Respeitando sua posição, com a qual nada tenho que ver, lamento que hajam desfalcado as fileiras do Clube, deixando de colaborar num movimento tão simpático de renovação e incremento nas letras e nas artes. Ficaria satisfeito com o seu retôrno. Estou certo de que seus irmãos os receberiam de braços abertos.
Muitos são os que me perguntaram e perguntam acêrca de minha posição em face do movimento do Clube da Madrugada. É de plena fraternidade e simpatia. Embora minha formação intelectual tenha sido eminentemente clássica e acadêmica, a verdade verdadeira é que nunca me prendi a escolas, pelo menos de um modo exclusivo. Sou como abelha industriosa, que vai de flor em flor, à cata do néctar para o fabrico do mel delicioso. Sempre me atraiu o princípio da variedade: “varietas delectat”. Tenho poetas de minha mais alta estima e preferência em tôdas as escolas e correntes literárias. Afinal, o que monta não é a escola, mas o talento do intelectual e do poeta. Só há uma realidade: é a POESIA. Como quer que seja, dou em letra de imprensa o meu abraço aos sócios do Clube da Madrugada, exortando-os à continuação da peleja em prol do progresso cultural de nossa terra. Ergamos bem alto o nome do Amazonas na comunhão nacional pela afirmação da nossa inteligência, no cultivo fascinante das boas letras e das belas artes!
(Jornal do Comércio, Manaus, 03.04.1966)


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O Clarão da Imprensa 
Padre NONATO PINHEIRO
(da Academia Amazonense de Letras) 


muito tempo que prometia ao meu amigo Umberto Calderaro, operoso e esclarecido diretor de "A Crítica", que dotou a imprensa amazonense de um órgão moderno, envolto num halo de fulgentes qualidades, enviar colaborações para o seu vitorioso jornal. Segundo acertamos, sua simpática folha estampará trabalhinhos de minha lavra nas edições de sábado. 



Para algum leitor novo, de poucos janeiros, mal saído da infância para a adolescência, parecerá que este trabalho é minha estreia neste jornal. Nada mais falso. Sou velho colaborador de "A Crítica". Querem a prova? Percorram as coleções do jornal. Mesmo nas instalações da rua Lobo d’Almada, "A Crítica" tem publicado artigos de minha forja. Parece-me que o último foi sôbre o grande Péricles Moraes, sob a epígrafe "Estilo de Clarões".


Minha colaboração frequente, contudo, foi na velha casa da avenida Eduardo Ribeiro. Ali colaborei com mais assiduidade. Fui eu que fiz a cobertura completa do SEGUNDO CONGRESSO EUCARÍSTICO REGIONAL, e os exemplares (permitam que fira a modéstia!) eram disputados pelos próprios prelados que compareceram àquele brilhantíssimo certame de fé. Os bispos tomavam seu desjejum na residência confortável do Sr. (Tales) Loureiro, na praça do Congresso, e ali mesmo devoravam "A Crítica".


Dom Helder Câmara e monsenhor João Ferrofino, que se hospedaram na residência do desembargador André Araújo, também não dispensavam a leitura diária do jornal. O noticiário era completo.


Como se vê, não se trata de estreia. Agora, porém, é com satisfação que registo o progresso sempre crescente do jornal de Umberto Calderaro, que há pouco festejou seu primeiro decênio de lutas incruentas e vitórias consagradoras. O jornal está bem instalado. A redação é das melhores. As oficinas bem montadas. Tudo isso é o prêmio que Deus deu a esse moço inteligente e dinâmico, que no mar azul de sua adolescência lançou as redes douradas de um sonho: dirigir um jornal moderno, que apresentasse os sintomas de uma imprensa sadia e progressista. Parece que o ideal foi atingido.


"A Crítica" nasceu. Primeiro era "onzerino". Circulava às onze horas, na primeira fase. Hoje é um matutino que entra em circulação logo cedo, como os demais. O diretor, ainda na primavera da mocidade, já colhe os frutos opimos da semeadura. As bençãos divinas jorraram a flux sôbre o jornal, que é hoje um patrimônio respeitável da família Umberto Calderaro e um justo orgulho da imprensa do Amazonas. 


Umberto Calderaro é um diretor esclarecido. De quando em quando vai ao Sul: examina, observa e assimila o que vê de novo e vantajoso para melhorar o seu jornal. Rasgam-se-lhe sempre novos e iluminados horizontes. Enviou seu secretário, o jornalista Gutemberg Omena, para fazer um curso de jornalismo.


Na redação e nas oficinas há sangue novo e gente competente. E mesmo os mais velhos, como o seu dileto genitor e o professor Glomyer, têm espírito de moços, que demonstram pela capacidade de trabalho.


Assinalo com júbilo a vitória do jornal. A imprensa é sempre um clarão. Mentora da opinião pública, é o grande facho que penetra nos lares, nas oficinas e nas instituições, levando o "plat du jour", a novidade do dia, e também o contingente da ilustração. Voltaire afirmou que os jornais são os arquivos das futilidades. Não é verdade. São os lustres que iluminam o povo. A imprensa é clarão. É a sagrada locomotiva do progresso, na frase lapidar de Victor Hugo!





Candidatos à Academia


Inscreveram-se como candidatos às vagas da Academia Amazonense de Letras, em ordem cronológica, os intelectuais Djalma Passos, Waldemar Batista de Sales, Lafayete Carneiro Vieira, Francisco Pereira da Silva e João Nogueira da Mata.


Djalma Passos é poeta. É candidato à cadeira nº 13, cujo patrono é Tobias Barreto. A cadeira teve primitivamente o patrocínio de Visconde de Taunay. Seu primeiro ocupante foi Gaspar Guimarães, jurista de soberba cultura, que deixou uma tradição flamejante, assim no Fórum como na Academia.


Sucedeu-lhe na cadeira o desembargador Arthur Virgílio do Carmo Ribeiro, que proferiu belo discurso de posse. Apesar de reverenciar a memória de Escragnolle, Arthur Virgílio não conseguia manter-se tranquilo. É que sentia falta de um lúmen em uma de nossas poltronas: o patrocínio de Tobias Barreto.


Sabe-se que o saudoso acadêmico, cujo segundo aniversário de falecimento comemoramos amanhã, tinha o culto do excelso sergipano, a quem chamava “o maior brasileiro de Sergipe e o maior sergipano do Brasil”. Conseguiu a troca de patrono, ficando extinto o patrocínio do visconde.
Tenente-coronel da PM Djalma Passos


O poeta Djalma Passos anexou ao seu requerimento as seguintes obras: Poemas do tempo perdido (edição do Centro Plácido Serrano); As vozes amargas (edição da Casa do Estudante do Brasil) e Tempo e distância (Tipografia Fênix). O autor tem ainda duas obras inéditas: Vidas paralelas (contos) e Feira de ideias (discursos, artigos, ensaios). E duas outras em preparo: Espírito das ideias republicanas no Brasil e História do Brasil.


Concorre como candidato à mesma cadeira de Tobias Barreto o senhor Lafayete Vieira, contista, poeta e cronista, que remeteu uma coletânea de trabalhos insertos na imprensa local.


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O "Remanso" de Anísio Mello


Capa do livro
Recebi, de São Paulo, o livro de poesia Remanso, da lavra do meu dileto amigo Anísio Mello, amazonense que abandonou a terra, como muitos outros, e fixou residência no grande estado de São Paulo quatrocentão. Anísio não é desconhecido entre nós. Publicou em Manaus Lira nascente e Minhas vitórias régias.
Além de poeta, é pintor e musicista, sendo, portanto, um artista na mais ata e completa acepção do termo. Em Manaus realizou com pleno êxito algumas exposições de pintura. Sua mãe, D. Ester Taumaturgo Soriano de Mello, exímia pintora, deve ter exercido notável influência na formação artística do filho.


Anísio Mello é um poeta que não se escravizou a nenhuma escola. Possui versos brancos, poemas livres e sonetos metrificados e rimados. O poeta recomenda-se por qualidades eminentes, sentindo-se sempre em seus versos um sopro de quente inspiração. Celebra em sua poesia o vento, as flores, as tardes, as noites, os matupás dos lagos e dos igapós, os plenilúnios, pirilampos, numa palavra, a natureza policrômica deste Amazonas colossal, que é o eterno paraíso dos sábios e dos poetas.



Anísio Mello, na aba do Remanso
O autor enfeixou no volume versos de beleza pagã e também, versos sacros, como o soneto Hóstia, dedicado ao inspirado poeta Padre Manuel Albuquerque em que ele celebra a “Majestade eucarística do pão divino dos nossos altares”.
Anísio Mello é um poeta acentuadamente introspectivo, desses poetas que não têm só alma para cantar a natureza, com os seus lustres e as suas galas, mas possuem o hábito do recolhimento para as reflexões profundas. Homem sem exuberâncias comunicativas, prefere o silêncio das solitudes, onde as grandes almas se sentem bem. Ele próprio o declara na poesia Alma de cipreste, que é um perfeito autoretrato:
Minha alma é como um cipreste ereto e soturno!
Sente-se bem quando só.
No silêncio dos túmulos
está a meditação profunda!
No silêncio está a pureza da hora!
A poesia é filha do silêncio
e da meditação.
Poesia de silêncio é pura e toma forma.
As visões da imaginação
se esboçam no cérebro e acariciam
na veludez dos gestos a alma do poeta.
O poeta sente-se bem
e vai conversar com a poesia,
virando poeta outra vez.
Retratou-se o autor nesse lanço de expressiva inspiração. Seu espírito meditativo mais se assemelha ao cipreste contemplativo do que a uma árvore garrida de flores, e trepidante de gorjeios. Tem alma de cipreste, porque lhe apraz o “silêncio dos túmulos”, gerador das meditações profundas.


Agradeço penhorado ao meu dileto amigo a remessa de um exemplar do livro, em excelente papel e nítida apresentação gráfica. Desejo-lhe novos triunfos nas letras e nas artes, de tal modo que afirme na trepidação de São Paulo o vigor da inteligência amazonense!


Padre Nonato Pinheiro, da Academia Amazonense de Letras.
Letras & Livros  (Jornal do Comércio, de 6 novembro 1958)


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Nossos Institutos Históricos

 Padre Nonato Pinheiro

(do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas)

O espaço de que disponho não me permite referências, ainda sumárias, aos demais Institutos. Devo coroar este trabalhinho com uma alusão ao nosso. Foi fundado a 25 de março de 1917, sendo seu primeiro presidente o coronel Bernardo de Azevedo da Silva Ramos, eminente arqulogo, egiptólogo e numismata. Governava o Amazonas o Dr. Pedro de Alcântara Bacelar.

Sede do IGHA, centro histórico

Em 53 anos vem o IGHA cumprindo sua missão cultural no Amazonas através de sua Revista, de seu Boletim, de suas magnas sessões com palestras e conferências culturais, das atividades de seus membros e de suas Comissões Permanentes e através de seu precioso acervo ou coleções. Ouvi Arthur Reis dizer, mais de uma vez, que foi o IGHA que lhe despertou a vocação para historiador. O jovem secretário do sodalício, que tanto pesquisou a biblioteca, as coleções dos jornais e dos documentos de nosso Instituto, é hoje vice-presidente do IHGB e o presidente do Conselho Federal de Cultura, com seu nome firmado dentro e fora da pátria como profundo conhecedor e mestre egrégio da História.

Dentre os mortos, muito deve o IGHA ao Dr. Vivaldo Lima, seu orador oficial. Dentre os sócios venerandos, pela idade e pelo saber, desejo por em especial relevo o professor Agnello Bittencourt, nosso Presidente de Honra Pertuo, e o desembargador Manuel Anísio Jobim, ambos da mesma idade, com as cãs alvíssimas coroadas de louros. São os dois preexcelsos beneméritos do Instituto.

Dr. Vivaldo Lima

Presidido hoje pelo eminente desembargador João Rebello Corrêa, seus membros vêm trabalhando com silenciosa operosidade ou com operoso sincio (sempre ouvi dizer que o bem não faz barulho!) para sua maior grandeza. Sessenta (sic) patronos estão a aclarar-nos os caminhos, já palmilhados por muitos obreiros da pesquisa e da cultura, que nos legaram um monumento. Vinte Comissões Permanentes estão em atividades incessantes. Nossa correspondência com as instituições culturais do país e do estrangeiro, e com sábios e estudiosos cresce dia a dia.

No dia 25 do fluente iremos festejar os 53 anos de existência do IGHA. O Sr. governador Danilo Duarte de Matos Areosa já nos autorizou a publicação de um novo número da Revista. Tudo faremos para maior grandeza e glória da Casa de Bernardo Ramos, que tanto nos inflama as fibras de homens cultos e de patriotas!

 



O INSTITUTO GLORIFICA A IGREJA

Em vossa eleição, guiou-nos o alto quilate que vos caracteriza a inteligência, aberta a todas as ondulações da luz, e a cultura, opulentada nas tradicionais e ubertosas tetas dos estudos clássicos, que, digam lá o que disserem, continuam a ser os alicerces insubstituíveis de toda grande e verdadeira cultura. Como quer que seja, com premiar-vos os talentos, quis o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas glorificar a Igreja, de que sois pontífice; essa Igreja-Mãe, essa Igreja maternal, que parturejou a civilização cristã, criadora e inspiradora de tantos e repetidos benefícios que a humanidade vem usufruindo há vinte séculos de História!

Glorificamos a Igreja caridosa, que criou os hospitais; e glorificamos igualmente, muito particularmente nesta Casa a Igreja sapientíssima, que criou as Universidades, muitas das quais trazem em seu diploma de origem a assinatura de um Papa; Igreja de Gregório XIII, que reformou o calendário, corrigindo um erro plurissecular pela criação dos anos bissextos; Igreja de Leão XIII, que assinou a maior Carta do Operário Cristão, a famosa "Rerum Novarum"; Igreja de Bento XIV, o famoso Lambertini, de quem se escreveu que teve duas almas, uma para a Igreja e outra para as ciências; Igreja criadora de escolas e de bibliotecas, que salvou nos mosteiros medievais, pela paciência dos monges letrados o tesouro das antiguidades; Igreja acoimada de obscurantismo tão somente pelos ignorantes de todas as castas, cuja miopia, amaurose ou cegueira lhes dá olhos imprestáveis para verem o milagre do esplendor do sol. 


Senhor Arcebispo
Dom João de Sousa Lima


O Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) pela segunda vez tem a honra insigne de acolher em seu grêmio um bispo da Santa Igreja. Logo no dealbar de sua inauguração, em 1917,outro antístite, também chamado João, abrigou-se à sombra dessa casa austera, como seu " primeiro vice-presidente, aqui deixando o esplendor de sua mitra fulgentíssima, o brilho meridiano de sua inteligência, a grandeza de sua cultura polimorfa, o colorido de sua palavra eloquente e o fascínio de sua forte e inconfundível personalidade: Dom João Irineu Joffily.
Paraibano de nascimento, sua fisionomia, iluminada pelo fulgor de dois grandes olhos penetrantes, revelava as cintilações de todos os talentos. Sacerdote da arquidiocese de João Pessoa (PB), teve a dita de ser o "baculum senectutis", o cajado da velhice do preclaro Dom Luís Raimundo da Silva Brito, arcebispo de Olinda e Recife, uma das mais soberbas culturas do Episcopado Nacional, maranhense ilustre, que tanto se constelara de glórias no Rio de Janeiro, como pregador da Capela Imperial.
Foi na escola de Dom Luís de Brito que vosso egrégio antecessor no sólio episcopal amazonense se preparou para as lides pastorais, assim na, então, Diocese do Amazonas como na Arquidiocese de Belém do Pará, cujo sólio também ilustrou com acendrado zelo e alto descortino.

Outro Dom João ingressa agora solenemente neste areópago de cultura, apercebido do mesmo caráter episcopal, das mesmas virtudes apostólicas e dos mesmos
pergaminhos de inteligência e erudição, que vossa reconhecida modéstia não logra ocultar, porque o passado, no dizer de elegante escritor, ainda quando anda, sente-se que tem asas...

Sacerdote secular da Diocese de Pesqueira, cedo manifestastes pendor para o magistério, lecionando, entre outras disciplinas, a ciência altíssima das Matemáticas, que na estimativa de grandes mestres, tanto contribui para disciplinar os talentos e comunicar aos espíritos particular cunho de exação e equilíbrio, dando a tudo a justa medida do comedimento e da proporção. Professor de renome da ciência dos números, haveis de ter experimentado a veracidade e o encanto daquela observação de Dom José Pereira Alves, Bispo de Niterói, em cujos lábios de ouro, ou em cujo cálamo de filigranas, encontrei esta pepita: "Em tudo sinto a poesia, até na austera Matemática, pelo menos no cálculo sublime!". Acredito que o estudo e domínio dessa disciplina tão exata haja influenciado poderosamente em vossa formação, dando-vos essa admirável exação que todos surpreendemos na administração da arquidiocese e no governo da vida, reflexo do longo trato de uma das ciências exatas, cujo magistério exercestes em Pesqueira (PE) com tanto proficiência e brilho.


UM DEPOIMENTO VALIOSO

    Tive a ventura de conhecer em São Luís do Maranhão vosso grande amigo, pai e protetor, o       saudoso arcebispo Dom Adalberto Acioly Sobral, bispo de Pesqueira (PE) e posteriormente arcebispo de São Luís do Maranhão, onde a irmã Morte o foi buscar para o repouso dos Justos, na mansão de Deus. Nunca me foi dado ver outro homem de tão singular personalidade, o qual, servindo-me de palavras de Camilo, aplicadas aos poetas, me dava a impressão de anular em si mesmo todas as leis da física ou da fisiologia, para viver de uma única entranha:
o coração! Homem de coração tão grande, que não sei como lhe cabia no peito! Teve-me a seu lado muitas vezes, quando lá estive em viagem de férias, no ano de 1950.


Ainda não éreis nosso arcebispo metropolitano, e mais de uma vez me falou dos vossos talentos e da vitória de vossos estudos no Seminário de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, para onde vos enviara emseminarista, dando-vos oportunidade de uma formação intelectual mais apurada, na forja dos grandes mestres que, sabem ser os filhos de Santo Inácio de Loyola, que reservam tanto devotamento ao estudo das ciências e ao trato das letras, tão em consonância com o oráculo das Letras Santas, a afirmar: "Labia sacerdotis custodiunt scientiam!" (Os lábios do sacerdote guardam a ciência!).
Aprimorados vossos conhecimentos no estudo e na leitura, sorvendo em torrente os lampejos mentais de preceptores preexcelsos, iniciastes vosso currículo sacerdotal na Diocese de Pesqueira (PE), onde mão poderosa de Pio XII vos foi buscar para colocar-vos entre os príncipes da cristandade, robustecendo com a plenitude do sacerdócio. Primeiro Diamantina, em Minas; depois, Nazaré da Mata, em vosso estado natal, vos receberam como Pastor das almas, respectivamente como Bispo e Bispo Diocesano. Naquela diocese sertaneja ouviste pela terceira vez a voz do Vigário de Cristo, promovendo-vos a Arcebispo Metropolitano de Manaus, onde tendes desenvolvido um fascinante programa pastoral, dedicando-vos com alma, inteligência, coração e vida ao anúncio da palavra de Deus, a transmissão da mensagem do Evangelho, pão e luz, que sustenta e ilumina as almas sequiosas dos orvalhos celestes!

O que realizastes na arquidiocese de Manaus é obra que vos enaltece e glorifica. Por vossa indústria e zelo, novas prelazias foram criadas, fundando-se na capital novas residências religiosas. Muito vos empenhastes na irradiação das escolas radiofônicas e na promoção de semanas de ruralismo, dando vosso incentivo à fixação do homem do campo em seu próprio meio, levando-o a não se empolgar pelas miragens mirabolantes da capital, onde o índice de desemprego desafia a acuidade de sociólogos e governantes.


Sintonizando com o espirito da época, tende-vos preocupado com o problema das lideranças, brotando de vosso zelo a fundação da Maromba, centro arquidiocesano para formação de líderes e promoção de cursos de superior cultura, religiosa, social e filosófica. Se é verdade o que proclamou Bacon, que são as ideias que governam o mundo, aprendestes que urge disciplinar nas mentes dos homens ideias fecundas e luminosas, para a floração primaveril de atos decisivos e decisões supremas no rumo de uma comunidade feliz, no clima e na luminosidade daquele MUNDO MELHOR, preconizado pela genialidade de Pio XII, e cujos horizontes azuis tão bem divisastes em memorável Carta Pastoral aos diocesanos de Nazaré da Mata (PE), dada a estampa pela Editora Vozes, de Petrópolis.





Saudação Ao Clube da Madrugada (*)

Padre Nonato Pinheiro


O Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas vive hoje uma de suas noites de mais rútilo esplendor, acolhendo em seu grêmio uma luzida caravana de intelectuais de Brasília, componentes do CLUBE DA MADRUGADA, que já constitui sem favor uma afirmação de pujança mental na vida literária, artística e cultural da capital da República. 
Conduzidos por esse DÍNAMO FEITO HOMEM que é o vosso operoso presidente, nosso confrade Miguel Lúcio Cruz e Silva, que nesta Casa mantém a poltrona de Bruno de Menezes nimbada de permanente claridade, vindes ao Amazonas, às terras lendárias das florestas virgens e das águas grandes, onde as árvores gigantescas rivalizam com as montanhas altaneiras, e os rios de águas negras ou barrentas desdenham dos mares verdes e dos oceanos azuis, vindes ao Amazonas para um amplexo de cativante simpatia entre a vossa e a nossa intelectualidade. 

Pe. Nonato (foto de 1958)
Se esta Casa dispusesse de sinos como as Catedrais góticas, opulentas de carrilhões e de vitrais multicoloridos, que aprisionam, no dizer de Edmond Joly, o azul do céu e o sangue do sol, estariam eles bimbalhando festivamente para receber tão ilustre comitiva, que nos traz a flor cultural da capital do país, portando sua mais nobre e requintada porção, já que o império da inteligência e do espírito inapelavelmente constitui a primazia dos povos! 
De há muito, senhores caravaneiros da cultura de Brasília, já tínhamos notícia da opulência de vosso grêmio, que reúne figuras as mais representativas nas letras, nas ciências e nas artes, brilhando com luz própria na poesia, no canto, na música, na pintura, no folclore na antropologia e demais ciências sociais, enfim, nos vários departamentos do pensamento e do espírito humano. 
Citar nomes seria incorrer no risco das omissões, que sempre ferem, ainda que involuntárias. Mas não seria inoportuno declinar nomes já consagrados em vossa agremiação literária e artística, entre os quais avultam o professor Emanuel Coelho, diretor de orquestra, e compositor, cantor e musicista Paulo Burgos, as poetisas Maria Valéria e Maria Aldina Furtado, a professora Magda França, o folclorista João Artur, o seresteiro Zezinho do Violão, os cantores Fernando Lopes e José Lourenço, a pintora e antropóloga Efy de Paula Moreira, conferencista desta noite, e esse admirável poeta Lenine Fiúza, cuja obra I Suma Poética, no próprio dia de vossa chegada, armou para mim um ágape das mais finas emoções, poeta admirável, que fez de Brasília o seu "convento azul' , e em cujas mãos em concha sua cabeça cismadora se demuda em pérola!... 
Ponto alto deste sarau de inteligência e cultura, será a conferência da professora Efy de Paula Moreira sobre a cultura maia, que floresceu no iucatão mexicano, na Guatemala e Honduras.  Não podia a douta conferencista escolher tema mais sugestivo do que os Malas, povos que habitaram a América Central na época pré-colombiana ou pré-hispânica, cuja cultura, graças à arqueologia e às investigações etnológicas e etnográficas realizadas pelos antropólogos, já nos brilha com luz mais intensa, deixando-nos ver e entrever os traços de sua inteligência nas suas inscrições lapidares, na cerâmica, na arquitetura, na medicina e na literatura, da qual fez valioso estudo Demétrio Sodi, estudando-a em três excelentes capítulos: literatura maia do iucatão; literatura maia de Chiapas e literatura maia da Guatemala. 
Lembro-me de ter lido em Morley que o culto dos ancestrais constituía entre os maias a característica básica de sua religião. As cabeças das pessoas ilustres e importantes eram preservadas para adoração. Esse culto dos ancestrais, senhora professora Efy de Paula Moreira, também é característico dos que compõem o cardinalato deste colendo templo cultural, que é o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, onde praticamos com os varões egrégios do passado e investigamos as civilizações que nos antecederam. 
Vinde dar-nos vossa preleção magnífica, com a qual dignificareis a um tempo vossa luzida embaixada e este sodalício, que faz timbre de receber em alto estilo, com as magnificências do mérito as inteligências privilegiadas e as culturas polimorfas, cujas fontes muita vez entram pelas madrugadas, debruçando-se sobre os livros, pendentes de sono e de fadiga!... 
O Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, senhores embaixadores e embaixatrizes da intelectualidade de Brasília, vos recebe em festa, trazendo cada sócio o coração no rosto. Homens e mulheres de espírito, não podeis restringir vossa excursão a Manaus aos passeios, aos banquetes e à contemplação da natureza extasiante, onde, no dizer de um amazonólogo, impera o deus da POLICROMIA, escapo da mitologia grega. Tínheis que procurar uma elevação, o cimo para uma ascensão, porque é nos alcantis que pousam as águias, cujo olhar de fogo, na formosa expressão de Victor Hugo, troca raios com os raios do sol!... 
Sentis que desceis do planalto de Brasília para a planície amazônica. E nós, em contrapartida, ao calor e à irradiação de vossa alta embaixada, sentimos que subimos da planície para um planalto: o planalto da inteligência, o altiplano da cultura, em cujos cimos aureolados de claridades comovidamente vos abraçamos para o ósculo da fraternidade, neste dia memorável, que não supúnhamos ser para os nossos dias, dia excepcional nunca dantes imaginado por Colombo, Gama, Cabral ou Santos Dumont, em que o homem zarpou do planeta pela primeira vez, com destino a plagas extraterrenas, numa incrível demonstração de superinteligência, como se tocado fora de uma força sobre-humana e divina! 

Saudando-vos com emoção, agradeço em nome do IGHA esta hora de claridade e encantamento!

(*) Transcrito de O  Jornal, de 20 de julho de 1969  

ULISSES BITTENCOURT





















Atualizado ULISSES BITTENCOURT

sábado, 27 de março de 2010

Estratégias para motivar os alunos




Estratégias para motivar os alunos


SAUL NEVES DE JESUS*

RESUMO – Neste artigo sintetizamos as principais implicações práticas decorrentes de algumas
investigações anteriores que desenvolvemos sobre estratégias que os professores podem utilizar no sentido
de uma maior motivação dos alunos para a aprendizagem e para apresentarem comportamentos mais
adequados na sala de aula.
Descritores – Motivação; aprendizagem; disciplina; alunos

ABSTRACT – In this paper are pointed out the main practical implications from some previous researches
about student motivation to learn and to more appropriate behaviours in the classroom.
Key words – Motivation; learning; discipline; students.
􀂗
* Professor Catedrático de Psicologia da Universidade do Algarve; Doutor em Psicologia da Educação; Director do Mestrado em Psicologia da Educação
e do Mestrado em Psicologia da Saúde. E-mail: .
Artigo recebido em: agosto/2007. Aprovado em: setembro/2007.
Este artigo foi escrito com um objectivo prático de
explicitar estratégias concretas que possam ser utilizadas
na prática pedagógica, ajudando os professores a encontrar
soluções para as situações de falta de motivação
dos seus alunos, as quais são cada vez mais frequentes e
com implicações por vezes graves, sobretudo ao nível
dos comportamentos de indisciplina na sala de aula.
No entanto, convém salientar que as estratégias
práticas aqui propostas não surgiram por acaso, sendo o
resultado de trabalhos de reflexão teórica e de investigação
empírica anteriores, os quais nos permitiram
formular um Modelo Integrativo da Motivação Humana
(JESUS, 1996a; JESUS e LENS, 2005), com base em
diversas teorias cognitivistas da motivação, nomeadamente
a Teoria Relacional de Nuttin (1980), a Teoria
da Atribuição Causal de Weiner (1985), a Teoria da
Auto-Eficácia de Bandura (1977), a Teoria do Locus de
Controlo de Rotter (1966) e a Teoria da Motivação
Intrínseca de Deci (1975).
Neste artigo, distinguimos uma parte que diz respeito
à apresentação de estratégias para motivar os alunos para
as aprendizagens escolares, de outra que se centra sobre
a problemática da indisciplina dos alunos na sala de aula,
uma das principais consequências da desmotivação dos
alunos, apresentando algumas estratégias que podem
ajudar o professor a resolver estas situações. Termina
com a apresentação de alguns aspectos de três filmes que
ilustram várias das estratégias que explicitamos.
Retomamos desta forma a dimensão mais prática de
trabalhos anteriores em que procurámos estudar este
tema da motivação dos alunos, em particular nos livros
“Influência do Professor sobre os Alunos” (JESUS,
1996), “Bem-Estar dos Professores” (JESUS, 1998),
“Motivação e formação de professores” (JESUS, 2000)
e “Psicologia da Educação” (JESUS, 2004).
1 ESTRATÉGIAS PARA MOTIVAR OS ALUNOS PARA
AS APRENDIZAGENS ESCOLARES
O professor na sala de aula é um líder, pois procura
influenciar os seus alunos para que estes se interessem
pelas aulas, estejam atentos, participem, apresentem
comportamentos adequados e obtenham bons resultados
escolares.
Neste contexto, importa analisar que factores podem
permitir aos professores influenciar os seus alunos ou,
no mesmo sentido, o que é que leva os alunos a deixarem-
se influenciar pelo professor.
Na linha de French e Raven (1967), podemos
distinguir quatro grandes factores de influência dos
professores sobre os alunos: o reconhecimento do
estatuto do professor pelos alunos; o reconhecimento
22 Saul Neves de Jesus
Educação, Porto Alegre, v. 31, n. 1, p. 21-29, jan./abr. 2008
pelos alunos da capacidade de recompensar ou de punir
do professor, através das avaliações e das estratégias de
gestão da indisciplina; o reconhecimento pelos alunos da
competência do professor nos conhecimentos que este
lhes pretende ensinar; o reconhecimento de certas qualidades
pessoais e interpessoais no professor, apreciadas
pelos alunos, desenvolvendo-se processos de identificação
(JESUS, 1996b).
No passado, os alunos deixavam-se influenciar pelo
professor por aceitarem pacificamente o seu estatuto, por
o considerarem competente na área de conhecimentos
que devia ensinar e também por lhe reconhecerem poder
para recompensar ou punir através das avaliações e das
estratégias de gestão da indisciplina, não sendo postas
em causa as decisões tomadas pelo professor a este nível.
Actualmente, devido a múltiplos factores (JESUS, 2002,
2003, 2007; LENS e JESUS, 1999), muitos alunos não
se deixam influenciar pelo professor apenas devido ao
facto de ser o “senhor doutor” ou “senhor professor” a
sugerir, desvalorizam a escola como fonte de acesso ao
saber ou conhecimento, colocando muitas vezes em
dúvida a competência do professor, para além deste
também ter vindo a perder poder no que diz respeito à
capacidade de gestão da aprendizagem e da disciplina
dos alunos. Inclusivamente, são freqüentemente contestadas
as suas decisões pelos próprios alunos e pelos pais
destes, para além de todo o trabalho burocrático exigido
ao professor nas situações em que pretende reprovar
algum aluno. Assim, dos quatro factores de influência
distinguidos, aquele que parece ter maior importância na
actualidade é a identificação do aluno com o professor.
Isto é, o sucesso do professor junto dos alunos passa
muito pelo reconhecimento de certas qualidades pessoais
e relacionais no primeiro que os últimos apreciam.
A identificação do aluno com o professor passa
muito pela satisfação obtida na relação estabelecida. No
entanto, muitas vezes há uma insatisfação recíproca na
relação entre os professores e os alunos. Esta conclusão
foi obtida por Gilly (1976) quando investigou as representações
recíprocas dos professores e dos alunos, ao
verificar que o docente previligia na sua representação
dos alunos os aspectos cognitivos, enquanto estes
previligiam na sua representação dos professores os
aspectos afectivos e relacionais. Neste sentido, parece
haver um “mal-entendido” na relação pedagógica, sendo
importante que os professores se aproximem das necessidades
relacionais e de desenvolvimento dos alunos,
no sentido de os conseguirem influenciar ou motivar para
o alcance dos objectivos da educação escolar no plano
cognitivo. No passado, os alunos tinham que se adaptar
aos métodos dos professores, mas actualmente o
professor deve procurar ir ao encontro dos interesses e
da linguagem dos alunos, sendo flexível (de acordo com
o provérbio “professor, se eu não aprendo como tu me
ensinas, ensina-me de forma que eu aprenda”) e dando o
exemplo (um líder não pode funcionar segundo o
princípio “faz o que eu digo e não o que eu faço”).
Para potencializar a criação de “laços” com os alunos
e a motivação destes, os professores devem evitar o
distanciamento, a “neutralidade afectiva” e o autoritarismo,
devendo, ao contrário, fomentar uma “relação
de agrado” (RIBEIRO, 1991), caracterizada pelo diálogo,
pela negociação e pelo respeito mútuo.
Embora os professores tenham perdido poder nos
últimos anos, dificultando a utilização de alguns factores
de influência sobre os alunos que no passado resultavam,
continuam a possuir um instrumento fundamental para
conseguirem criar laços de identificação com os alunos,
influenciando-os: a linguagem utilizada na relação
pedagógica, quer verbal, quer não verbal.
Algumas das frases que o professor pode utilizar
para uma “relação de agrado” são as seguintes: “devias
estar orgulhoso dos teus resultados”, em vez de “estou
orgulhoso de ti” (no sentido de responsabilizar o aluno
pelo seu comportamento, indo ao encontro da sua
necessidade de auto-determinação); “estás quase lá”, em
vez de “está quase tudo errado” ou “não fazes nada de
jeito” (no sentido de promover uma percepção de
aperfeiçoamento pessoal e o esforço do aluno); “estejam
à vontade para perguntar sempre que não compreenderem
alguma explicação ou queiram apresentar
algum comentário relevante”, em vez de “não me
interrompam, se tiverem dúvidas perguntem no fim” (no
sentido de promover a participação dos alunos e a
compreensão e o acompanhamento das explicações do
professor); “vez como hoje te estás a portar bem”, em
vez de “para brincar estás sempre pronto” ou “tinhas que
ser tu” (no sentido de evidenciar os comportamentos de
disciplina dos alunos e não apenas os de indisciplina).
Também a aprendizagem e a motivação dos alunos
depende da identificação destes com o professor. No
entanto, verifica-se que muitos alunos apresentam
insucesso funcional, isto é, a sua aprendizagem ou saber
não corresponde ao que seria de esperar dado o nível
de escolaridade, e muitos encontram-se desmotivados
relativamente às tarefas escolares. Esta situação constitui
um dos principais problemas para os professores. Numa
investigação conduzida por Lens (1994), verificou-se
que a maioria dos professores considera que mais de
metade dos seus alunos se encontram desmotivados para
o estudo, sentindo que, mesmo que queiram, não conseguem
resolver este problema.
Com base nestes resultados, não obstante deverem
ser tomadas medidas que permitam restituir o poder aos
professores, nomeadamente serem definidos objectivos
mínimos de aprendizagem necessários para que os
alunos possam transitar para o ano lectivo seguinte e
serem tidas em conta as notas obtidas desde o início do
Estratégias para motivar os alunos 23
Educação, Porto Alegre, v. 31, n. 1, p. 21-29, jan./abr. 2008
percurso escolar dos alunos para o ingresso no ensino
superior, tornando-os mais responsáveis e motivados
para aprender logo desde os primeiros anos de escolaridade,
parece fundamental analisar algumas estratégias
que o professor pode utilizar para se confrontar de
forma mais autoconfiante e com sucesso perante as
situações de desinteresse dos seus alunos.
Especificamente, existem diversas estratégias que
os professores podem utilizar para motivar os seus
alunos para as tarefas escolares (ABREU, 1996; CARRASCO
e BAIGNOL, 1993; JESUS, 1996B; LENS e
DECRUYENAERE, 1991):
• manifestar-se entusiasmado pelas actividades
realizadas com os alunos, constituindo um modelo
ou exemplo de motivação para eles;
• clarificar, logo no início do ano lectivo, o
“porquê?” da seqüência dos conteúdos programáticos
da disciplina que lecciona, levando os
alunos a aperceberem-se da coerência interna
entre as matérias a aprender e a adquirirem uma
perspectiva global dessas aprendizagens;
• explicitar o “para quê?” das matérias do programa
da disciplina que lecciona, em termos da sua
ligação à realidade fora da escola e da sua relevância
para o futuro dos alunos;
• alargar a perspectiva temporal de futuro dos
alunos, levando-os a valorizar certas metas para
cujo alcance a escola constitui um meio ou
instrumento, contribuindo para que eles não se
limitem a uma atitude imediatista e consumista
face às alternativas facultadas pela sociedade
actual;
• salientar as vantagens que poderão advir para a
vida futura dos alunos se estudarem, comparativamente
às desvantagens se não estudarem,
embora actualmente haja uma grande incerteza
quanto às possibilidades de concretização dos
projectos pessoais;
• procurar saber quais são os interesses dos alunos
e o nome próprio de cada um deles;
• utilizar recompensas exteriores ao gosto e à
competência que a realização das próprias tarefas
poderiam proporcionar, indo ao encontro dos
interesses dos alunos, apenas no início do processo
de ensino-aprendizagem e quando os alunos
apresentam uma motivação muito baixa;
• deixar os alunos participarem na escolha das
matérias e tarefas escolares, sempre que possível;
• criar situações em que os alunos tenham um papel
activo na construção do seu próprio saber (de
acordo com o provérbio “se ouço esqueço, se vejo
lembro, se faço aprendo”);
• aproveitar as diferenças individuais na sala de
aula, levando os alunos mais motivados, com mais
conhecimentos ou que já compreenderam as
explicações do professor a apresentarem os conteúdos
aos outros alunos com mais dificuldades,
contribuindo para uma maior compreensão e retenção
da matéria por parte dos primeiros e para a
modelação dos últimos;
• incentivar directamente a participação dos alunos
menos participativos, através de “pequenas” responsabilidades
que lhes possam permitir serem
bem sucedidos;
• fomentar o desenvolvimento pessoal e social dos
alunos, através de estratégias de trabalho autónomo
e de trabalho de grupo;
• utilizar metodologias de ensino diversificadas e
que tornem a explicação das matérias mais clara,
compreensível e interessante para os alunos;
• estabelecer as relações entre as novas matérias e
os conhecimentos anteriores;
• partir de situações ou acontecimentos da actualidade
ou da realidade circundante para ensinar as
matérias aos alunos;
• utilizar um ritmo de ensino adequado às capacidades
e conhecimentos anteriores dos alunos,
previligiando a qualidade à quantidade de matérias
expostas;
• criar situações de aprendizagem significativas
para os alunos, contribuindo para uma retenção
das aprendizagens a médio/longo prazo;
• evitar levar os alunos a estudar apenas na perspectiva
do curto prazo porque vão ser avaliados
sobre as matérias em causa;
• diminuir o significado ansiógeno dos testes de
avaliação, contribuindo para o potencializar das
qualidades dos alunos, para um maior empenhamento
destes noutras tarefas escolares e uma
menor ansiedade face às provas de avaliação;
• proporcionar vários momentos de avaliação formativa
aos alunos, levando-os a sentirem satisfação
por aquilo que já conseguiram aprender e
motivação para aprenderem as matérias seguintes;
• reconhecer o progresso escolar dos alunos, comparando
os seus conhecimentos actuais com os
seus conhecimentos anteriores, levando-os a percepcionar
as melhorias ocorridas e a acreditar na
possibilidade de ainda poderem melhorar mais os
seus desempenhos se se esforçarem;
• reconhecer e evidenciar tanto quanto possível o
esforço e a capacidade dos alunos, não salientando
sobretudo os erros cometidos por estes;
• ter confiança e optimismo nas capacidades dos
alunos para a realização das tarefas escolares,
explicitando-o verbalmente;
24 Saul Neves de Jesus
Educação, Porto Alegre, v. 31, n. 1, p. 21-29, jan./abr. 2008
• contribuir para que o aluno seja bem sucedido nas
tarefas escolares, aumentando a sua autoconfiança,
nível de excelência e “brio” na realização
escolar;
• promover a realização de tarefas de um nível de
dificuldade intermédio aos alunos, pois as tarefas
demasiado fáceis ou demasiado difíceis não fomentam
o envolvimento do aluno, nem a percepção
de competência pessoal na sua realização;
• levar os alunos a atribuir os seus fracassos a
causas instáveis (por exemplo, falta de esforço) e
não a causas estáveis (por exemplo, falta de
capacidade), de forma a que aumentem as expectativas
de sucesso e o empenhamento em
situações futuras;
• clarificar crenças inadequadas sobre os resultados
escolares que os alunos possuam e que possam
estar a contribuir para um menor esforço ou
empenhamento nas actividades de estudo (por
exemplo, “o professor não gosta de mim e, logo,
não vou conseguir obter boa nota”);
• ajudar os alunos a aproveitarem o esforço dispendido
nas tarefas de aprendizagem, através do
desenvolvimento de competências de estudo, pois
“mais vale estudar pouco e bem do que muito mas
mal”.
2 ESTRATÉGIAS PARA MOTIVAR OS ALUNOS PARA
A DISCIPLINA NA SALA DE AULA
A indisciplina dos alunos constitui, na actualidade,
o principal factor de mal-estar docente para muitos
professores, de acordo com os resultados obtidos em
diversas investigações (JESUS, 1996a).
Sobretudo nos últimos anos, tem-se verificado um
aumento da freqüência e da gravidade das situações de
violência nas escolas e de indisciplina dos alunos na sala
de aula, nomeadamente das agressões verbais e físicas
entre os alunos e destes aos professores e funcionários,
fomentando um clima de medo e insegurança entre os
alunos, sobretudo mais novos e disciplinados, os pais,
receando pelo que possa acontecer aos seus filhos na
escola, os professores e os funcionários, pela agressividade
que os alunos possam manifestar. Num estudo
recentemente realizado em Portugal, a pedido do Ministério
da Educação (Instituto de Inovação Educacional),
sobre “A violência nas escolas” (VALE e COSTA,
1998), em que participaram cerca de 5000 alunos dos 8º
e 11º anos de escolaridade, de 142 escolas, foram obtidos
resultados que traduzem as proporções que as situações
de indisciplina começam a ter no nosso país, nomeadamente
verificou-se que 42% dos alunos já ouviram
insultar um professor na escola.
Também numa outra investigação recentemente
realizada no nosso país (CURTO, 1998), com alunos do
7º ano de escolaridade, verificou-se que a maioria dos
alunos inquiridos consideram que as turmas de que
fazem parte são “pouco disciplinadas” (46%) ou “indisciplinadas”
(13.3%), comparativamente aqueles que
consideram as suas turmas “disciplinadas” (34.5%) ou
“muito disciplinadas” (3.5%).
Face a estas situações começam a ocorrer manifestações
de saudosismo relativamente às práticas utilizadas
no passado e, entretanto, criticadas e abandonadas
em países considerados dos mais desenvolvidos do
mundo e que constituem modelos de democracia, liberdade
e inovação. Nos EUA é onde estas manifestações
ocorrem de forma mais radical com a defesa do castigo
físico nas escolas por responsáveis políticos, a expulsão
da escola de uma criança de 6 anos por ter beijado na
face uma colega, e a oferta, por associações de professores,
de cursos de judô para que os professores se
defendam dos alunos. Também alguns responsáveis
políticos de países da Europa defendem a reintrodução
do castigo corporal, nomeadamente a Ministra da Educação
e do Emprego de Inglaterra. Em Portugal, embora
as situações de indisciplina (ainda) não tenham as proporções
que se verificam nestes países, já há manifestações
de saudosismo que apontam no mesmo sentido.
Nomeadamente, num estudo de opinião, metade dos
participantes defendem a reintrodução de reguadas pelos
professores (FERNANDES, 1996). Por seu turno, a
Confederação de Pais (CONFAP) considera que deveria
haver mais castigos nas escolas, afirmando que “as
estatísticas podem dar a ideia de que está tudo bem, o
que não é verdade” (LIMA, 1997, 20), pois em 1996, de
mais de um milhão de alunos das escolas públicas
portuguesas, houve apenas vinte e sete suspensões por
períodos iguais ou superiores a oito dias, quando a
frequência de situações de indisciplina graves, nomeadamente
a agressão aos professores, é muito superior.
Conforme já tivemos oportunidade de defender num
trabalho anterior (JESUS, 1996b), as estratégias punitivas,
aparentemente eficazes por provocarem medo nos
alunos, apenas apresentam efeitos a curto prazo, sendo
necessário aumentar a intensidade e a frequência da
punição para continuar a ter os mesmos efeitos sobre o
comportamento destes. Além disso, o professor funciona
como modelo agressivo quando deveria fornecer um
exemplo de estabilidade e serenidade aos seus alunos.
Por seu turno, as suspensões são entendidas por muitos
alunos indisciplinados como “uns dias de férias”, não
tendo as implicações correctivas que tinham no passado
ao nível do seu comportamento.
Tendo em conta que a realidade actual é completamente
diferente e que os problemas devem ser analisados
no contexto histórico-social em que ocorrem, não
Estratégias para motivar os alunos 25
Educação, Porto Alegre, v. 31, n. 1, p. 21-29, jan./abr. 2008
nos parece que o retorno às práticas de educação escolar
utilizadas no passado possa constituir a via mais adequada
para resolver os problemas que se colocam aos
professores na actualidade. Passámos de uma educação
escolar caracterizada por um elevado autoritarismo para
um sistema demasiado permissivo, sendo fundamental
encontrar um ponto de equilíbrio.
Especificamente, no que diz respeito à gestão da
indisciplina dos alunos, é necessária uma acção concertada
a vários níveis, em particular no plano sociopolítico,
no plano da organização e gestão das escolas, no
plano do trabalho dos professores em equipa e no plano
da colaboração entre professores e pais, para além das
estratégias que o professor pode utilizar na sala de aula.
De seguida, apresentamos algumas das estratégias
que os professores podem utilizar para prevenir e gerir
situações de indisciplina dos alunos:
• manter-se sempre calmo, sereno e seguro, no
sentido de modelar o comportamento dos alunos;
• ser flexível, desde que coerente e estável, na
forma de actuação, podendo alguma surpresa no
comportamento do professor em relação aos
alunos permitir uma maior eficácia na influência
sobre estes (por exemplo, o professor pode
aproveitar e manifestar humor nalgumas situações
inesperadas em vez de ficar perturbado com elas);
• evitar confrontos desnecessários, sendo mais
tolerante (por vezes, é preferível que o professor
faça que não percebe ou que deixe passar algumas
situações menos graves do que tentar controlar
todas as situações, pois pode perder a eficácia na
actuação quando realmente se justifica intervir);
• nunca se esquecer que também já foi aluno,
criança ou adolescente, e que também gostava de
brincar;
• evitar categorizar ou rotular os alunos indisciplinados,
pois pode estar a contribuir para a manutenção
do comportamento destes (por exemplo,
não dizer “tinhas que ser tu”);
• não se distanciar dos alunos indisciplinados,
apenas estabelecendo relação com eles quando
apresentam comportamentos de indisciplina, pois
nenhum aluno é sempre indisciplinado durante
todos os minutos em que decorrem as aulas;
• tendo em conta que os comportamentos de
disciplina também podem ser aprendidos, enfatizar
os aspectos positivos do comportamento e da
aprendizagem dos alunos, encorajando os seus
progressos e fomentando uma expectativa de autoconfiança
(por exemplo, dizer “sei que és capaz”),
não estabelecendo interacção apenas quando o
comportamento é incorrecto ou quando há insucesso
na aprendizagem;
• dialogar com os alunos indisciplinados, procurando
compreender os motivos que estiveram na
base dos comportamentos identificados e fazendo
com que estes alunos também compreendam o
papel do professor, mas sobretudo que o professor
também é uma pessoa (também é “de carne e
osso”) que deve ser respeitada;
• fazer com que os alunos voltem a acreditar que
podem vir a alcançar resultados escolares positivos;
• orientar a participação dos alunos para as matérias
em análise, valorizando e incentivando essa participação;
• delegar funções de “assistente” no líder informal
da turma, para a gestão da indisciplina na sala de
aula;
• separar os alunos que perturbam;
• repreender os alunos em particular e apenas
quando tal atitude é efectivamente necessária;
• identificar os casos de alunos com problemas
familiares (por exemplo, agressividade na família
ou alimentação deficiente) e tentar contribuir para
a resolução de tais situações;
• nos questionários feitos no início do ano lectivo, a
todos os alunos que entram no ensino básico ou
secundário, colocar questões sobre violência
escolar, nomeadamente sobre motivos e formas
de resolução que os alunos têm para propôr no
sentido de diminuir a ocorrência e gravidade
destas situações;
• estabelecer contratos (gestão de contingências)
que identifiquem os comportamentos a corrigir
pelos alunos, no sentido de os responsabilizar
e de os levar a desenvolver uma “disciplina
interior”.
• Aliás, o desenvolvimento da autodisciplina deve
ser o objectivo de qualquer estratégia para gerir
a indisciplina dos alunos (ARENDS, 1995;
ESTRELA, 1992).
• Os exercícios de simulação são fundamentais
para o desenvolvimento de competências profissionais
ao nível da formação inicial (ESTEVE e
FRANCCHIA, 1986). No entanto, ao nível da
formação contínua de professores parece-nos que
o desenvolvimento profissional passa sobretudo
pelo trabalho em equipa, envolvendo a troca de
experiências, num clima de autenticidade, empatia
e cooperação.
A existência de regras implica o trabalho em equipa
pelos professores de uma mesma escola, para troca de
experiências, definição de perspectivas de intervenção e
encontrar consensos quanto aos comportamentos que
devem ser considerados de indisciplina. A indisciplina
26 Saul Neves de Jesus
Educação, Porto Alegre, v. 31, n. 1, p. 21-29, jan./abr. 2008
integra todos os comportamentos que os alunos apresentam
na sala de aula que perturbam o trabalho que
o professor pretende realizar, podendo uns professores
considerar que certos comportamentos constituem
indisciplina e outros não (por exemplo, bocejar, mastigar
pastilhas elásticas, usar boné, participar sem pedir a
palavra ou distrair-se facilmente). É necessário que os
professores se reunam para encontrar consensos e definir
regras claras sobre os comportamentos aceitáveis e os
não aceitáveis, evitando que os alunos possam argumentar
“mas o professor X deixa fazer”. Estas regras
devem ser apresentadas pelo Directores de Turma aos
alunos logo na primeira aula e explicar-lhes porquê que
são necessárias, podendo também, inclusivamente, ser
afixadas nas salas de aula.
Tivemos oportunidade de verificar na Escola EB 2+3
de Santa Iria em Tomar, em que estava afixado um
documento, elaborado pelo Conselho Pedagógico, que
definia as regras de actuação do aluno na sala de aula,
sendo distinguido o que ele deve fazer (por exemplo,
“entrar/sair ordenadamente”, “ser pontual”, “sentar-se
correctamente” e “aguardar a sua vez de falar”) e o
que ele não deve fazer (por exemplo, “trazer pastilhas
elásticas”, “levantar-se sem autorização” e “danificar o
material escolar”).
Também numa outra escola, a Escola C+S Dr. João
Rocha-Pai de Vagos, havíamos verificado que havia um
documento afixado nas diversas salas de aula sobre
“Aprender a aprender”, no sentido de ajudar os alunos
a identificar e a desenvolver competências de métodos
de estudo que lhes permitissem aproveitar as suas
capacidades e obter melhores resultados escolares. Esta
metodologia de afixar e distribuir documentos, com
indicações que podem ajudar o aluno a orientar o seu
comportamento, parece-nos ser um exemplo a seguir
pelas diversas escolas.
Na elaboração do regulamento de disciplina interno
também poderiam participar os próprios alunos, bem
como os funcionários da escola e os encarregados de
educação, tornando o estabelecimento de regras mais
participado, permitindo aumentar a responsabilização
pela sua concretização por todos os intervenientes.
Muitos professores, quando os alunos apresentam comportamentos
de indisciplina, por vezes, questionam-os
sobre as consequências esperadas (por exemplo, perguntam
ao aluno “o que é que tu merecias?”), ficando
surpreendidos com o nível de exigência que eles apresentam
relativamente às consequências que deveriam
decorrer do seu próprio comportamento de indisciplina,
revelando que os alunos também poderiam ser envolvidos
neste processo de definição de regras de
disciplina.
Esta abertura dos professores ao feedback fornecido
pelos alunos pode ser um factor essencial do
desenvolvimento e da aprendizagem dos professores, no
sentido de regularem e aperfeiçoarem as suas próprias
práticas educativas. A investigação conduzida por Curto
(1998) permitiu verificar que os alunos consideram que
os professores têm muita influência no potencializar de
situações de indisciplina. Nomeadamente, a maioria
dos alunos considera que “a indisciplina depende do
professor” e que “a simpatia do professor diminui a
indisciplina dos alunos”.
No âmbito de um projecto de investigação que
coordenámos (JESUS e XAVIER, 1997) foram obtidos
resultados que evidenciam que o diálogo com os alunos
sobre estratégias para gerir a indisciplina destes últimos
pode ser factor de desenvolvimento, aprendizagem e
aperfeiçoamento profissional. Inclusivamente, começa a
ser proposta (CARITA e FERNANDES, 1997) que não
sejam apenas os professores a identificar os comportamentos
indesejáveis dos alunos e a formularem regras
no sentido de evitar a sua ocorrência, mas que também
sejam os alunos a identificar os comportamentos de
professores que perturbam o desenrolar de processos de
ensino e aprendizagem.
Em todo o caso, a adequação das estratégias utilizadas
pelos professores depende também do nível
de desenvolvimento psicossocial e moral dos alunos
(GOMEZ, MIR e SERRATS, 1993; SPRINTHALL e
SPRINTHALL, 1993). Por exemplo, enquanto na fase
em que a criança frequenta o jardim de infância pode
ter sentido a utilização da força física, não enquanto
agressividade, mas sim para restaurar o controlo da
situação pelo educador, no 1º Ciclo parece ser mais
relevante o uso de reforços materiais, sobretudo positivos,
e no 2º e 3º Ciclos pode ser utilizada a força do
grupo social, em termos de aprovação ou desaprovação.
A formulação de regras com a participação de todos os
intervenientes, no sentido de aumentar a responsabilização
pela sua concretização, requer que os participantes
se encontrem no nível pós-convencional do
desenvolvimento moral, o que ocorre durante o Ensino
Secundário. Assim, a análise da gestão da indisciplina
deve pressupor uma abordagem desenvolvimentista que
se traduza na sugestão de estratégias diferenciadas para
cada nível de ensino (JESUS e XAVIER, 1998).
As estratégias, atrás apresentadas, são algumas que
os professores podem utilizar no sentido de uma maior
facilidade na gestão da disciplina dos alunos na sala de
aula. No entanto, não há receitas universais e cada
professor deve procurar aprender a partir da própria
experiência, sendo coerente consigo próprio. Fundamentalmente,
se o professor quer ser respeitado pelos seus
alunos, tem que ele próprio respeitar-se e apreciar as suas
qualidades pessoais e profissionais. Assim, uma das
regras que o professor deve ter em conta é tentar analisar
o seu próprio comportamento face às situações de
Estratégias para motivar os alunos 27
Educação, Porto Alegre, v. 31, n. 1, p. 21-29, jan./abr. 2008
indisciplina dos alunos e procurar aprender com essas
experiências, no sentido de um maior autoconhecimento
e aperfeiçoamento progressivo.
3 ABORDAGEM DE FILMES QUE ILUSTRAM
ESTRATÉGIAS PARA MOTIVAR OS ALUNOS
Algumas das estratégias para motivar os alunos
referidas anteriormente encontram-se explicitadas em
três filmes (“Clube dos poetas mortos”, “O professor” e
“Mentes perigosas”), que ilustram possíveis formas
de estabelecer “laços” ou desenvolver processos de
identificação que possam contribuir para a motivação
dos alunos.
Tendo em conta que os professores têm poucas
oportunidades para serem confrontados com o desempenho
de colegas na sala de aula, os filmes em causa
podem constituir bons exemplos a reter, pelo que iriamos
passar a destacar alguns dos aspectos que, neste âmbito,
nos parecem mais relevantes.
No “Clube dos poetas mortos” é notória a diferença
entre Mr. Keeting e os professores que aparecem no
início do filme. Estes últimos, para além duma atitude
que traduz pouca motivação para ensinar, enfatizam a
avaliação dos conhecimentos como a finalidade do
processo de ensino-aprendizagem, devendo os alunos
estudar as matérias porque vão ser avaliados sobre elas.
Mr. Keeting apresenta uma postura de grande entusiasmo
e gosto pela docência, procurando contribuir para o
desenvolvimento pessoal e social dos seus alunos. Este é
um dos grandes objectivos da educação escolar na
actualidade pelo que, não obstante este filme procurar
retratar a realidade educativa dos anos 60 num colégio
tradicional dos EUA, a atitude do Mr. Keeting permanece
bastante actual, constituindo um bom exemplo
para muitos professores. Especificamente, este professor
procura desenvolver o espírito crítico dos alunos perguntando-
lhes constantemente “porque é que o autor diz
isto?”. Inclusivamente, a situação em que se coloca em
cima da secretária e convida os alunos a fazerem o
mesmo tem este objectivo: “Estou em cima da secretária
para me lembrar que devemos olhar constantemente as
coisas de forma diferente. Não tenham só em mente o
que o autor pensa. Pensem no que vocês pensam.
Esforçem-se por encontrar a vossa própria voz”. Mas a
parte do filme que parece melhor ilustrar o papel que o
professor pode desempenhar a este nível é a situação em
que no início da aula Mr. Keeting solicita a um aluno
(Mr. Anderson), cujo comportamento revela alguma
timidez e falta de confiança em si próprio, para apresentar
o poema que todos os alunos deveriam ter feito
como trabalho de casa e este aluno não o havia realizado.
Habitualmente, o que acontece nestas circunstâncias
é o professor passar a um aluno seguinte até encontrar
algum que tenha feito o “TPC” e a partir daí continuar a
sua aula. Este tipo de alunos são categorizados como
“calados”, mas até correspondem a alunos que os
professores gostam de ter nas suas turmas porque não
são indisciplinados e até estão com atenção e obtêm
positiva nos testes de avaliação. Só que, embora estes
alunos até adquiram alguns conhecimentos curriculares,
no plano do seu desenvolvimento pessoal e social pouco
acontece, continuando “calados” nos anos lectivos seguintes.
Mr. Keeting revela ter uma sensibilidade particular
para esta situação (“Mr. Anderson pensa que tudo
dentro de si é inútil e embaraçoso. Engana-se, tem algo
dentro de si com grande valor”), incentivando este aluno
para deixar emergir o seu potencial criativo ao levá-lo a
ser capaz de criar um poema espontaneamente na sala de
aula que surpreendeu o próprio aluno e os seus colegas.
Além disso, outra particularidade, nesta situação, é
o facto de Mr. Keeting no final ir junto deste aluno
dizendo-lhe ao ouvido “nunca te esqueças deste momento”.
Fundamentalmente, o que todas as pessoas
procuram são experiências de vida positivas. Também os
alunos apresentam este objectivo, devendo o professor
tentar proporcionar-lhes este tipo de vivências, pois estas
também representam experiências gratificantes para os
próprios professores.
O filme “O professor” apresenta a particularidade de
traduzir uma situação cada vez mais frequente, aquela
em que o professor inicia esta actividade profissional de
forma transitória e com pouca motivação. É o caso de
Mr. Holland que foi ser professor porque pensava que
esta actividade lhe permitia ter mais “tempo livre” para
escrever as suas músicas, conforme refere logo no início
a um colega professor. A desmotivação de Mr. Holland é
bem manifesta na relação distante que mantém com os
alunos, estando apenas preocupado em cumprir o
programa e manifestando-se “irritado” quando os alunos
apresentam baixos resultados nos testes. Inclusivamente,
refere à sua mulher que quando era aluno queria estar
noutro sítio qualquer, mas nunca pensou que os professores
sentissem o mesmo, acrescentando inclusivamente
o seguinte: “Odei-o ensinar. Ninguém consegue
ensinar aqueles alunos”. Até que resolve começar a ir ao
encontro dos interesses dos alunos, verificando que estes
e ele próprio gostaram mais desta aula do que das
anteriores. Faz então esta opção por tornar as aulas mais
interessantes para os alunos e para si próprio, constituindo
um bom exemplo de uma atitude fundamental a
tomar por qualquer professor, a de tentar tornar as
experiências ocorridas no âmbito do processo de ensinoaprendizagem
tão satisfatórias quanto possível e de as
vivenciar com alegria. E parece valer a pena, pois no
final do filme, quando lhe é feita uma festa surpresa de
despedida, são significativas as palavras de uma ex-aluna
sua: “Mr. Holland teve uma profunda influência na
28 Saul Neves de Jesus
Educação, Porto Alegre, v. 31, n. 1, p. 21-29, jan./abr. 2008
minha vida. Em muitas vidas. Contudo sinto que ele
considera grande parte da sua vida disperdiçada. Ele
estava sempre a trabalhar na sua sinfonia. Ela ia torná-lo
famoso, rico. Provavelmente as duas coisas. Mas Mr.
Holland não está rico. E não é famoso. Pelo menos fora
da nossa pequena cidade. Portanto seria natural ele
considerar-se um falhado. Mas estaria enganado. Porque
eu acho que ele alcançou um êxito muito superior à
riqueza e fama. Olhe à sua volta. Não há uma vida nesta
sala que não tenha influenciado. E cada um de nós é uma
pessoa melhor graças a si. Nós somos a sua sinfonia Mr.
Holland. Nós somos as melodias e as notas da sua obra.
Nós somos a música da sua vida”.
Por seu turno, o filme “Mentes perigosas” pretende
ilustrar a realidade cada vez mais actual das nossas
escolas, com turmas constituídas por alunos desinteressados
e indisciplinados. Esta situação provoca um
“choque com a realidade” da Mrs. Louene, professora
em início de carreira que nunca pensou vir a encontrar
uma turma com estas características. Face à situação
geral de indisciplina dos alunos evidenciada na primeira
aula, esta professora tenta utilizar uma estratégia que
havia lido num livro sobre formas de lidar com a
indisciplina, concretamente escrever o nome do aluno
mais indisciplinado no quadro. No entanto, esta estratégia
não resultou, ficando Mrs. Louene desesperada
com o facto de não conseguir controlar a situação.
Convém salientar que o problema não está nos livros,
mas no aproveitamento que deles é feito, pois as
sugestões apresentadas para a resolução de situaçõesproblema
devem ser encaradas como meras hipóteses de
solução e não como receitas universais. Isto é, qualquer
estratégia para resultar tem que ser integrada no estilo
pessoal do professor que a vai utilizar e na situação em
causa, tendo em conta os alunos envolvidos.
Nesse sentido, o aproveitamento da experiência e das
qualidades pessoais por cada professor é fundamental
para gerir situações de indisciplina. No caso de Mrs.
Louene ela tenta chamar a atenção dos alunos ou criar
laços de identificação com eles indo ao encontro dos seus
interesses, ao salientar o facto de já ter sido fuzileira e de
os alunos também poderem vir a ser bons fuzileiros,
sendo a partir daquele momento cada um deles um
aspirante. Inclusivamente, refere aos alunos que “a partir
deste momento todos têm 20 valores, só tendo que se
esforçar para manter a nota”. Este discurso vai levar estes
alunos a entender o sentido da escola de forma completamente
diferente, voltando a acreditar na possibilidade
de obter sucesso escolar e, logo, a apresentar
comportamentos mais adequados para que a aprendizagem
pudesse ocorrer.
A tentativa de ir ao encontro dos interesses, vivências
e linguagem dos alunos também é evidente nos
poemas que começa por analisar com eles. Esta é uma
estratégia que muitos professores, sobretudo de português,
poderiam utilizar na actualidade, aproveitando as
letras de algumas músicas de que os alunos gostam, em
vez de rejeitarem à partida o interesse destas músicas,
porque “é só barulho”. Este ir ao encontro dos interesses
dos alunos é fundamental para que o professor consiga
fazer com que os alunos se interessem pelas matérias que
efectivamente pretende que eles aprendam. Concretamente,
Mrs. Louene procura levar os alunos a fazerem
essa transferência de interesses através do concurso
“Dylan-Dylan”. Os vencedores deste concurso teriam
uma recompensa. Este é outro aspecto particularmente
relevante nas estratégias para motivação dos alunos
evidenciadas neste filme. Isto é, a utilização de recompensas
pode resultar numa fase inicial quando os alunos
apresentam uma motivação muito baixa para as actividades
escolares. No entanto, quando os alunos começam
a envolver-se nestas actividades, as estratégias
deverão ser diferentes, incentivando a sua motivação
intrínseca. Foi o que Mrs. Louene fez, pois numa situação
seguinte em que sugeriu aos alunos a realização de
uma tarefa escolar, quando um aluno lhe perguntou qual
era o prémio por realizarem essa actividade, ela respondeu:
“aprenderem a ler e compreenderem é o
prémio”. Depois fundamenta esta posição utilizando um
exemplo e uma linguagem compreensível para os alunos:
o cérebro é como um músculo e, tal como eles correrão
melhor e mais depressa se treinarem a corrida, também
poderão usar melhor o pensamento se aprenderem as
matérias escolares (“Cada nova ideia constrói um novo
músculo. São esses músculos que vos podem tornar
poderosos. São as vossas armas. E neste mundo inseguro
têm que andar armados”). Além disso, acentua o facto
de os alunos terem que ir à escola e já que assim é devem
aproveitar para aprender (“Tentem. De qualquer forma
já estão aqui. Se no fim do período não forem mais
rápidos, fortes e espertos não perderam nada. Mas se isso
acontecer vão ser mais díficeis de derrubar”). É também
particularmente interessante a forma como Mrs. Louene
contacta os pais de um aluno suspenso, procurando-os
para evidenciar o potencial e as qualidades positivas
do seu filho, contribuindo para a criação de “laços”
afectivos também com as famílias. Assim, também sobre
a forma de abordar e chamar as famílias a participar no
processo de educação e de desenvolvimento dos seus
filhos, pela positiva e em colaboração e sintonia com os
professores, Mrs. Louene constitui um bom exemplo.
Em conjunto, estes três filmes ilustram que as aulas
tanto podem ser “chatas” ou “uma perda de tempo”,
como interessantes, evidenciando a importância da motivação
dos professores para o seu próprio sucesso e
realização profissional e também para a motivação dos
alunos. No entanto, não há receitas, devendo cada professor
descobrir o seu caminho, tendo em conta as suas
Estratégias para motivar os alunos 29
Educação, Porto Alegre, v. 31, n. 1, p. 21-29, jan./abr. 2008
experiência e qualidades pessoais, “fazendo uso de si
mesmo como instrumento” (COMBS, BLUME, NEWMAN
e WASS, 1979).
Os professores são diferentes e devem aceitar essa
diferença com naturalidade, tentando aproveitá-la na sua
prática pedagógica. As diferenças manifestam-se na
própria interpretação dos acontecimentos, quanto mais
na forma de actuação. Por exemplo, face à mesma
situação, “um aluno ri na sala de aula”, diferentes
professores podem apresentar interpretações diferentes
como sejam: “aquele aluno está a gozar comigo, vou
repreendê-lo”; “aquele aluno está satisfeito, deve ter
entendido a explicação que estou a dar”; “alguém deve
ter-lhe contado alguma coisa engraçada”; “aquele aluno
ri sem razão, deve ter algum problema psicológico”.
Não há um perfil universal de “bom professor”, tal
como não há um perfil de “líder universal”. Por exemplo,
o Modelo Situacional de Liderança, de Blanchard,
Zigarmi e Zigarmi (1986), considera que o estilo de
liderança mais adequado depende do grau de competência
e de motivação dos sujeitos que o líder pretende
influenciar. Neste sentido, distingue entre quatro estilos
de liderança: direcção, orientação, apoio e delegação. Na
sala de aula, a adequação e eficácia do estilo a adoptar
pelo professor também depende muito dos alunos e,
inclusivamente, diferentes alunos preferem diferentes
estilos de professor. Numa investigação realizada por
Villa (1985), em que distinguiu sete tipos de professor –
o didáctico (pela clareza da explicação), o organizado
(pela metodologia utilizada), o dominante (pela exigência),
o fisico (pela aparência), o cordial (pelo humor),
o afectivo (pela atenção personalizada) e o entusiasta
(pela motivação expressa) – verificou-se que todos
os tipos são considerados importantes pelos alunos,
consoante o estilo do próprio aluno, o seu nível de ensino
e as situações concretas. Inclusivamente, o mesmo aluno
pode preferir um estilo de professor num dado momento
e outro estilo noutro momento do mesmo ano lectivo.
Por exemplo, os estilos cordial e afectivo podem ser mais
valorizados no início do ano lectivo, enquanto os estilos
didáctico e organizado podem ser preferidos mais no
final do ano lectivo ou na proximidade de situações de
avaliação de conhecimentos.
O que é importante é o professor ter uma perspectiva
global das hipóteses de trabalho ou estratégias possíveis
para poder decidir por aquela que considere mais adequada
num determinado momento, em sintonia com o
seu estilo pessoal e as situações com que se confronta.
REFERÊNCIAS
ABREU, M. V. Pais, professores e psicólogos. Coimbra:
Coimbra Editora, 1996.
ARENDS, R. Aprender a ensinar. Lisboa: McGraw-Hill,
1995.
BANDURA, A. Self-efficacy: Toward a Unifying Theory of
Behavioral Change. Psychological Review, n. 84, p. 191-215,
1977.
BLANCHARD, K.; ZIGARMI, P.; ZIGARMI, D. O líder “um
minuto”. Lisboa: Editorial Presença, 1986.
CARITA, A.; FERNANDES, G. Indisciplina na sala de aula:
Como prevenir? Como remediar? Lisboa: Editorial Presença,
1997.
CARRASCO, J.; BAIGNOL, J. Técnicas y recursos para
motivar a los alumnos. Madrid: Ediciones Rialp, 1993.
COMBS, A.; BLUME, R.; NEWMAN, A.; WASS, H. Claves
para la formación de los profesores. Un enfoque humanístico.
Madrid: Editorial Magisterio Español, 1979.
CURTO, P. A escola e a indisciplina. Porto: Porto Editora,
1998.
DECI, E. Intrinsic Motivation. New York: Plenum Press, 1975.
ESTEVE, J. M.; FRACCHIA, F. B. Inoculation against stress:
a technique for beginning teachers. European Journal of
Teacher Education, n. 9, p. 261-269, 1986.
ESTRELA, M. T. Relação pedagógica, disciplina e indisciplina
na escola. 3. ed. Porto: Porto Editora, 1992.
FRENCH, J.; RAVEN, B. As bases do poder social. In:
CARTWRIGHT, D.; ZANDER, A. (Ed.). Dinâmica de grupo:
pesquisa e teoria. São Paulo: Herder, 1967.
GILLY, M. A propos des rapports enseignant-enseigné: la
représentation réciproque maître-élève repose-t-elle sur un
malentendu? Congrès Lápport des sciences fundamentales aux
sciences de l’education. Actes... Paris: Ed. de L’Épi, 1976.
v. II, p. 453-459.
GOMEZ, M.; MIR, V.; SERRATS, M. Como criar uma boa
relação pedagógica. Porto: Porto Editora, 1993.
JESUS, S. N. A motivação para a profissão docente.
Contributo para a clarificação de situações de mal-estar e para
a fundamentação de estratégias de formação de professores.
Aveiro: Estante Editora, 1996a.
______. Influência do professor sobre os alunos. Porto:
Edições ASA, 1996b.
______. Bem-estar dos professores. Estratégias para realização
e desenvolvimento profissional. 2. ed. Porto: Porto Editora,
1998.
______. Motivação e formação de professores. Coimbra:
Quarteto Editora, 2000.
______. Perspectivas para o bem-estar docente. Porto: ASA
Editores II, 2002.
______. La motivación de los profesores. Revisión de la
literatura. In: GARCÍA-VILLAMISAR, D.; FREIXAS, T.
(Ed.). El estrés del profesorado. Valência: Promolibro, 2003.
p. 116-139.
______. Psicologia da Educação. Coimbra: Quarteto Editora,
2004.
______. Professor sem stress. Realização e bem-estar docente.
Porto Alegre: Editora Mediação, 2007.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Ernesto Penafort





















Ernesto Penafort

(Capa de Getulio Alho. Retrato do autor: Bico de pena de Edmilson Salgado)













SONETO

noutros tempos, olinda, eras futuro.
sob sol e silêncio se descia
ao vale, e o vale fértil pressentia
a intenção dos abraços, além-muro.
vieram ventos. choveu do intento puro
o desejo de ser, no qual se cria:
pronta a rosa entendida falecia
sob sol e silêncio no chão duro.
várias chuvas passaram, hoje banho
noutras águas a vida, pois, de antanho,
só a luz do teu rosto é que me ocorre,
entre silêncio e sol, mas como tudo,
se incorpora, no tempo, a um fruto mudo:
sob sol e silêncio nasce e morre.


enquanto a lua for calada e branca
eu serei sempre o mesmo, este esquisito,
este invisível vulto, apenas visto
quando o vento, de leve açoita as folhas.
enquanto a lua for calada e branca
eu serei sempre o mesmo, apenas visto
quando um raio de sol morre na lágrima
que se despede de uma folha verde.
eu serei sempre assim, apenas sombra,
apenas visto quando a voz de um gesto
colhe no bosque alguma flor azul.
apenas visto quando em fundo azul
voar a garça (o meu adeus ao mundo?),
enquanto a lua for calada e branca.


SONETO DO OLHAR AZUL

de azul, azul demais é a luz dos olhos
que espiam em constante claridade
o escorrer, como um rio, uma cidade
com seus becos e sombras - vãos mistérios.
estranhamente azul é a luz dos olhos
que se alçam como pássaros - aéreos
de azul e luz - suspensos de saudade;
e de onde escapa um rio (o rio outro)
cujo leito é de saI e de agonia,
por sobre cujas águas não flutua,
embora em desespero, a luz do dia.
é noturno esse olhar? quem sabe a imagem
daquilo que entre gritos se anuncia
e em silencio acontece - e se faz lua.



O TOURO

o louro cinza traz sobre o ocipício
estranha meia lua eclipsada
no turvo olhar das vacas do Cambixe.
é belo o touro. o olhar (lâmina e gelo)
passeia-nos as aImas decorando-as
como se fossem seus os nossos pastos.
de seu dorso escorrem-Ihe os desejos
que se fincam nas patas feito plantas
de onde brota-Ihe o viço das andanças.
um mugido de cores o ilumina
e a tarde se afugenta de seu lombo
sorvendo o que ha de luz pela ravina.
e silencio o curral. sobreflutua
eclipsada e estranha meia lua.

SONETO DO OBJETIVO MAIOR


tudo está por fazer e ja cansada
te encontras neste inicio de aventura.
tudo está por ser feito e sossegada
te fincas sobre gestos de impostura.
tudo está por cumprir nesta jornada
que agora nos propomos, e amargura
tu mostras antes mesmo a caminhada
que nos há de levar a essa futura
vida que nos aguarda em seus segredos.
por que deténs-me então por entre os dedos
que, antes, teceram tudo o que hoje somos?
não podemos ficar. partir é tudo.
e o que temos de bom sobre o chão mudo.
vamos, seremos mais do que já fomos.


SONETO DO AZUL IRREAL

o irreal azul engole O mundo, enquanto
da morte magra polipartem galhos
e o vento os faz dançar. a leve dança
confunde-se à das aves, negras aves
que alem das folhas verdes se entrevêem
em vôos circunféricos (ao bote
a postos?). Ja um canto ocupa o quadro
e o vento, esse abstrato, como a chuva,
borrifa as notas pelo incerto azul.
e permanece o azul, incerto e calmo.
sob sua pele semelhante a um lago,
em cujo fundo um mundo se agitasse,
existe o nosso (o que foi e é, será?)
agora, vê-se o azul sangrando nuvens.







O touro






o touro cinza traz sobre o ocipício
estranha meia lua eclipsada
no turvo olhar das vacas do Cambixe.
é belo o touro. o olhar (lâmina e gelo)
passeia-nos as almas decorando-as
como se fossem seus os nossos pastos.
de seu dorso escorrem-lhe os desejos
que se fincam nas patas feito plantas
de onde brota-lhe o viço das andanças.
um mugido de cores o ilumina
e a tarde se afugenta de seu lombo
sorvendo o que há de luz pela ravina.
é silêncio o curral. sobreflutua
eclipsada e estranha meia lua.





SONETO DO MURO AZUL




na tarde já passada ainda presente
está o vulto do amor inacabado.
uma lembrança de asa que pressente
um vôo de garça atravessar, molhando,
o olhar horizontal do poeta ausente
ao momento em que estava ali fincado.
era de fato amor. irreverente,
foi o seu gesto triste e tão lembrado.
ambos se olharam. desse olhar cruzado,
ergueu-se o muro azul e transparente
que pelos dois jamais fora pensado.
a musica é a culpada? e o olhar turvado?
na tarde já passada ainda presente
está o vulto do amor inacabado.




(Azul geral, Manaus, Edições Madrugada, 1973. Prefácio de Antísthenes Pinto. Posfácio de Farias de Carvalho).




A MEDIDA DO AZUL

A medida do azul é o estender-se
do olhar por sobre os seres. Esse arguto
perceber que se tem de não mover-se
o objeto - já por ser absoluto.
A medida do azul é ver um luto
contido em toda flor e o abster-se,
cada qual de assumir seu tom enxuto
e noutro que o não seu absorver-se.
A medida do azul, pelo contrário,
não é ver no horizonte o fim do olhar,
mas o ter desta vida aonde chegar,
pois ali tem o mundo o seu ovário:
e o retorno acontece, sempre estável,
eis que o azul é o início do infindável



%%%%%%%%%%%%%%%%



Do corpo, da memória


Ernesto Penafort (1936-1992)




eis que surges, noite morta.
nem te adivinhava antes,
já vagava em outras terras,
outros mares me banhavam.
entretanto, estás
presente, suor do corpo.
rastro de quem anda,
amor de quem partiu.

eis que surges, noite morta.
mesmo adivinhar-te
era um absurdo, noite morta.
principalmente agora
que vejo luz e longe,
estás presente, suor do corpo,
memória e tatuagem,
novamente suor do corpo,
estás presente,
memória de quem anda,
suor de quem partiu.




SONETO ULTIMO
DA REVELAÇÃO DERRADEIRA


eis que a tarde enfuna o lenço
gris de sua despedida.
quanto mais não me convenço
mais é noite - absorvida
hora a que já não pertenço.
pronto exsurge um corpo só
que embora pensa caminha
coberto do mesmo pó
que em si próprio remoinha
seja embora para o espanto,
daqueles cuja ferida
teimam tê-la recolhida
haja luz por sobre o manto
e ecloda em forma de canto.


OS POMBOS MORREM DE PÉ



Acaso não me tivessem chamado a atenção, eu jamais o teria notado. Era belo e se consumia na mais ampla serenidade.
De pé sobre o parapeito e suavemente encostado à parede da Academia Brasileira de Letras, o pombo da paz casava o frio de sua morte ao frio da tarde. Fria não somente por ser de julho, mas fria também e principalmente porque mais uma paz morrera nas ruas, como tantas outras que diariamente se esgotam pela indiferença dos homens.
Do baixo céu da tarde pendia um ar pesado trazendo a chuva fina que descia. Dessas frequentemente acontecidas durante o inverno no Rio, obrigando cada um a olhar para o chão e pensar nos seus problemas. 0 dia se abatia e machucava tudo - as árvores, as ruas, as pessoas. Era uma queda horizontal da tarde.
No parapeito - triste beiral sem vento - humilde como o chão, o pombo da paz era campo de aéreas gotas de chuva que mansamente Ihe pousavam nas penas sossegadas. E nos dava o exato motivo de pensar que ele lutara. De que aquela fora uma paz que suara para não deixar nunca de continuar se cumprindo.
De seus olhos imigrava um olhar gelado que perseguia o infinito e era puro como as alturas atingidas. Que alados caminhos espiavam agora os seus olhos de gelo? Teriam acaso outros telhados o seu tranquilo voejar, na intimidade serena das chaminés? Adejaria por quais lugares aquela paz, ali aos poucos se findando, de pé como uma estatua?
Os homens passavam embrulhados de espessa taciturnidade. Dirigiam-se todos de encontro à noite que os esperava quieta, escura sempre. Nos seus recessos talvez uma fuga ou alguma solução para os problemas da quotidiana angustia. A noite, os bares se enchem de nações que logo se desfazem quando os sonhos adormecem.
Morto, estranhamente em pé, continuava o pombo feito uma estátua da paz, que pela paz e sendo paz, em paz se consumia.



(A medida do azul. Manaus, Governo do Estado do Amazonas, 1982. Introdução de L. Ruas)






Da dor maior





líquida é esta noite
em que te encontras distante.
líquida, também,
é esta vontade minha
de te ter nos braços
e amar com toda a força
da minha existência de homem.

belo seria
o momento em que pudesse
de um só golpe sorver-te
mesmo através dos poros
deste corpo que pulsa por ti.

o cântico dos cânticos
não é mais belo do que tu.
e cantar-te, nesta hora,
é para mim o privilégio
que dilata meu coração,
que pulsa por tua vontade,

líquida é esta noite
em que também me umedeço,
orvalhecendo-me por ti,
como se fosse o produto
de um céu sem deuses,
como se fosse o único astro
de um firmamento fechado.



Rio de sono


este é um rio de sono,
senhora.
este é um rio sem barcos
e tem toda feita em arcos
sua submersa flora.

pois este mesmo rio,
senhora,
que além de ser de sono
e sentir-se inavegável
(como se fosse de outono
sua eterna bruma de cobre)
é também um rio nobre.

inobstante ser pobre
de qualquer navegação,
pulsa nele, quando cai,
o dia, no fim do olhar,
o sol – seu coração.






Ernesto Penafort nasceu em Manaus, Amazonas, em 27 de março de 1936 e faleceu na mesma cidade em 3 de junho de 1992. Fez seus estudos em Manaus, formando-se em advocacia pela Faculdade de Direito do Amazonas. Era jornalista, poeta, contista. Morou 11 anos no Rio de Janeiro e só não se formou em Ciências Sociais pela Universidade do Brasil porque se desentendeu com um professor faltando um ano para concluir o curso. Foi redator da Rádio Nacional do Rio de Janeiro e da Folha de São Paulo. Voltando para Manaus, trabalhou na Fundação Cultural do Amazonas. Pertenceu ao Clube da Madrugada.