A primeira vez que a vi foi no cais, onde tudo começou.
Eu tinha ido ali para receber a lancha onde deveria vir o equipamento que havia comprado, e porque chegava um novo empregado de meu pai
A lancha revelou-se e aportou. Dela desceu um homem baixo, forte como touro selvagem, que era o novo empregado. Depois apareceu sua mulher e minha futura sogra, como uma lavradora sulista, maternal, pacifica.
E duas meninas.
Uma, menor e mais morena, Lia. A irmã.
A outra, maior, coberta por um chapéu de palha que lhe escondia toda a porção do cabelo. Teria uns quinze anos. Era Val. Parecia um rapaz.
Meu pai administrava o que sobrou da fazenda da família naquele fim de mundo - a Ilha Atlanta.
O que eu chamava de pai era um apático, calado e burocrático homem, viúvo, que nunca se importou com minha existência.
E o que eu chamava de mãe era a figura de retrato antigo e amarelo: minha mãe morreu cedo. Eu nada sabia dela.
Fui criado por minha avó Madalena.
- Não gosto do Rio, dizia meu pai, esta ilha me faz bem à saúde.
- O senhor não volta mais para o Flamengo? - eu perguntava. Eu tinha viajado muitos quilômetros para vê-lo.
- Não, respondeu.
- O senhor não sente saudades de vovó Madalena?
Meu pai ficou sério. Olhou para mim e disse:
- Você cuidará dela...
Grande figura burguesa, minha avó Madalena ficava sentada na cadeira de balanço da sua varanda no Flamengo, correndo pelos dedos que bordavam, sacudidos na talagarça.
Tinha sido rica e poderosa, contagiada de civilização européia. Mas simples na sua majestade de fim de vida.
Era mulher extremada e corajosa, atenciosa e política, sofisticada e prática.
Que força, aquela? Minha avó Madalena sabia com facilidade colocar todos no devido lugar, e falava com todos como se fizesse uma concessão.
Ela tinha arquivos inquietantes.
Eternamente intocadas, suas gavetas encerravam preciosos mistérios. Foi necessário muita coragem e audácia para, no ano de sua morte, penetrar e profanar aquilo.
Eram carícias de sedas mortas, velhas fazendas fora de moda, mas que haviam acariciado suas carnes imponentes.
Uma pistola - uma Beretta 1919 - nunca disparada.
E fotos.
À medida que envelhecia, minha avó ia ficando com a face pálida e enrugada - mas o olhar altivo se mantinha, de velha rainha, ainda que cansada.
As palavras então se arrastavam, pastosas, pesadas, pontuadas ainda pelo gesto elegante se bem que raro, nas pontuações de sua dicção educada, sobre a nobre fisionomia fidalga, hierática, que imprimia ao leque rendado pousado sobre o colo, sobre seu vestido de seda.
Nos últimos anos ela já não era a velha rainha na cadência sonolenta, nas remadas cada vez mais lentas da dança de seu leque, na soberana inação de seu gesto fixo no ar, nas mechas de seu cabelo todo branco.
E mesmo na coragem com que, com grande perigo, sozinha em casa, enfrentou o ladrão que invadira o jardim, pondo-o para fora aos gritos.
Sim, já não era o velho sol, mas uma espécie de lua que adormecia cada vez mais fraca na espuma de estrela de uma noite escura que se adensa, ia-se apagando, como luz de vela esquecida na solidão de uma desusada sala, mergulhava nos seus fantásticos sonhos, ia fechando as pálpebras de volta a um passado antigo, extinto, se diluindo numa memória fragmentária em busca do inatingível.
Morreu como as superfícies das águas estagnadas sobre as quais caem leves pétalas de glicínias maceradas...
Minha avó abriu consideravelmente sua bolsa para mim. Ela orgulhava-se de mim! Relia meus livros, achava-os bem escritos, recomendava-os às amigas e cobria-me de homenagem e dinheiro.
Como Ernesto Sábato, ela dizia "escrever para ganhar dinheiro é abominável" - e como eu não tinha outro recurso ela me deu o seu braço e o sua poupança.
Afinal me compreendia.
Aos 22 anos de idade eu era um desempregado, e antes de me ter como o gênio da família temia por mim de me ver cópia do vagabundo que tinha sido meu pai - e realmente: além de escrever nada há neste mundo que eu saiba fazer e com que pudesse ganhar a vida. A carreira literária me daria um sentido novo a seus olhos, eu me tornava confiável desde que aparecesse nos jornais como escritor da moda.
A fortuna de minha avó, que já fora grande, consistia então em alguns imóveis e ela não tinha renda, mas alguma coisa economizada. O patrimônio imobilizado ainda significava algo e a poupança bastante curiosa, pois minha avó tinha uma paixão: as moedas de ouro, libras principalmente, guardadas num cofre bancário.
Quando ela morreu, e como meu pai já havia falecido, foi tudo divido entre seus sete netos herdeiros.
Tia Clotildes, casada com um oficial norte-americano, herói da 2? Guerra, com quem teve duas filhas que nem conheço. Tia Anastácia, a mais velha, morta há muitos anos, eu menino, deixou Ricardo em São Paulo, Renato no Rio, bailarino e professor de balé, e Rachel, que mora em Salvador com o marido.
Com minha parte comprei um pequeno apartamento. No Flamengo.
Alguns anos antes, e por cruel coincidência, o tiro que abateu Vargas no Catete matou também a metade do que sobrava de meu pai. No mesmo dia 24 de agosto de 54 meu pai ficou hemiplégico.
Estava na Ilha.
A hemiplegia de meu pai paralisou todo o lado direito - a perna, o braço, a face e a língua, impedindo-o de falar. Sobreveio à uma hemorragia cerebral e como minha relação com ele sempre fora hemiplégica, atingida ou semi-destruída nos seus dois pontos, o do contato afetivo (que ele nunca teve comigo, nunca me falou) e o do contato físico (que ele nunca teve comigo, nunca me tocou e suas únicas duas carícias de que tenho recordação, o passar a mão sobre minha cabeça, me provocaram súbita reação defensiva), e como não conheci aquela que dizem que foi minha mãe, que desde cedo me deu plena autonomia dela com sua morte, e como minha avó Madalena era, à sua moda, altiva e independente, estive o tempo inteiro de minha formação e infância livre tanto daquele pai visível quanto daquele outro tipo de pai invisível, de que se pode fazer em projeções, como num imaginário Deus onipresente, ou a figura do Estado, que nem na Ilha, nem em casa de minha avó nenhuma autoridade existia, apesar da poderosa influência dela sobre mim, pois ela sempre dizia que criava os filhos e a mim para "mandar" e não para "obedecer", o que significava que eu cresci em pleno anarquismo.
O esmaecimento da figura paterna, ativa e operante, sempre deve ter caracterizado a minha para mim mesmo inexplicável personalidade. Minha avó assumiu a função de mãe como um tipo de pai de saias, mas invertendo todo o valor atribuído a essa figura, real ou imaginária, de pai ou pátria.
Sem culpa desde cedo esconjurei o meu parricídio simbólico num total desprezo pela idéia de autoridade, o que entretanto não me faz forte, e pelo desprezo a meu pai (e dele para comigo, que sempre fomos estranhos um ao outro, ou melhor: ele me odiava), rechaçando-o enquanto modelo, substituindo-o por minha avó.
Meu pai, na sua ausência, no seu hiato hemiplégico, nunca simbolizou os poderes constituídos, e eu só dispunha de meio-pai a partir da hemiplegia. A sua presença, se é que a senti algum dia, significava mais que um vazio, um pai entre parênteses naquela imprecisão em que ele se entredisseminara no seu exílio na Ilha e no estado de meio-morto, no seu esconderijo e na sua ruína, na sua indiferença e no seu estrago. Meu pai, eu me lembro, era um homem de desconversas, sobrevida da melancolia, contínua depressão, escondido na figura indecifrável de um rosto mudo e neutro, quase bestial. Mas o que mais o afastava de mim, e o neutralizava na comparação com minha avó, era sua completa afeição à mediocridade, algo assim como a de um funcionário público aposentado sempre com as mais intoleráveis frases-feitas de um senso-comum idiota.
Uma de suas mais familiares e favoritas expressões ("eu nunca vi ninguém fazer isso") me fazia que ele parecesse permanecer num estágio pré-lógico em que seria até capaz de retirar de sua família (que era eu) aquele tipo de fala em que se sustenta a ordem do simbólico da civilização, já que ele tomava como modelo de pensar e de comportamento aquelas que eu sempre considerei as mais medíocres pessoas existentes sobre a face da terra. Santo Deus! ele era capaz de banalizar a maior sublimidade...
Desta forma não lastimei a perda tardia da fala de meu pai, tardia mas castrante. Ele nunca a teve.
Entre o sol e o solo aquela menina como um reflexo de Deus e por entre a minha intransigência passava a soberania da recém-chegada, escandindo os passos na pedra - eu com dezenove anos, ela atravessando perto de mim como se pisasse numa toalha.
Eu não só me senti confiante naquilo que devia ter atraído e criado de meus profundos delírios com sua visão mágica, como também a sinceridade, a ressonância daquela menina, aparecida no nascer de um dia de verão, tocava o presságio de que minha relação com meu próprio corpo começava ali.
Quando aquela menina me olhou de frente, olhar reto, desafiante, o primeiro contato que com ela tive foi de sexualidade, imediata ligação, como se eu já a tivesse possuindo ali, no cais, pois vejo que ela estava impondo e ordenando a regra básica de sua lógica impiedosa comigo, a vida toda, que diz: "me aguarde", e porque aquela menina era um monstro. Eu poderia até ter chegado ao fim se continuasse a bebê-la com os olhos daquela maneira.
Ali logo o demônio do jogo do amor inventou mil venturas e perdições, incendiando de calor da força sexual que vinha dela o meu olhar - ela sob aquele vestido leve, pobre mas primaveril, palpitava de amor numa agudeza nada inocente: ela me fisgou, logo ali, com os olhos, aquele ato, ela sabia, eu era dela.
E me perdi.
sábado, 28 de junho de 2008
A HISTÓRIA DOS AMANTES, 3
A primeira vez que a vi foi no cais, onde tudo começou.
Eu tinha ido ali para receber a lancha onde deveria vir o equipamento que havia comprado, e porque chegava um novo empregado de meu pai
A lancha revelou-se e aportou. Dela desceu um homem baixo, forte como touro selvagem, que era o novo empregado. Depois apareceu sua mulher e minha futura sogra, como uma lavradora sulista, maternal, pacifica.
E duas meninas.
Uma, menor e mais morena, Lia. A irmã.
A outra, maior, coberta por um chapéu de palha que lhe escondia toda a porção do cabelo. Teria uns quinze anos. Era Val. Parecia um rapaz.
Meu pai administrava o que sobrou da fazenda da família naquele fim de mundo - a Ilha Atlanta.
O que eu chamava de pai era um apático, calado e burocrático homem, viúvo, que nunca se importou com minha existência.
E o que eu chamava de mãe era a figura de retrato antigo e amarelo: minha mãe morreu cedo. Eu nada sabia dela.
Fui criado por minha avó Madalena.
- Não gosto do Rio, dizia meu pai, esta ilha me faz bem à saúde.
- O senhor não volta mais para o Flamengo? - eu perguntava. Eu tinha viajado muitos quilômetros para vê-lo.
- Não, respondeu.
- O senhor não sente saudades de vovó Madalena?
Meu pai ficou sério. Olhou para mim e disse:
- Você cuidará dela...
Grande figura burguesa, minha avó Madalena ficava sentada na cadeira de balanço da sua varanda no Flamengo, correndo pelos dedos que bordavam, sacudidos na talagarça.
Tinha sido rica e poderosa, contagiada de civilização européia. Mas simples na sua majestade de fim de vida.
Era mulher extremada e corajosa, atenciosa e política, sofisticada e prática.
Que força, aquela? Minha avó Madalena sabia com facilidade colocar todos no devido lugar, e falava com todos como se fizesse uma concessão.
Ela tinha arquivos inquietantes.
Eternamente intocadas, suas gavetas encerravam preciosos mistérios. Foi necessário muita coragem e audácia para, no ano de sua morte, penetrar e profanar aquilo.
Eram carícias de sedas mortas, velhas fazendas fora de moda, mas que haviam acariciado suas carnes imponentes.
Uma pistola - uma Beretta 1919 - nunca disparada.
E fotos.
À medida que envelhecia, minha avó ia ficando com a face pálida e enrugada - mas o olhar altivo se mantinha, de velha rainha, ainda que cansada.
As palavras então se arrastavam, pastosas, pesadas, pontuadas ainda pelo gesto elegante se bem que raro, nas pontuações de sua dicção educada, sobre a nobre fisionomia fidalga, hierática, que imprimia ao leque rendado pousado sobre o colo, sobre seu vestido de seda.
Nos últimos anos ela já não era a velha rainha na cadência sonolenta, nas remadas cada vez mais lentas da dança de seu leque, na soberana inação de seu gesto fixo no ar, nas mechas de seu cabelo todo branco.
E mesmo na coragem com que, com grande perigo, sozinha em casa, enfrentou o ladrão que invadira o jardim, pondo-o para fora aos gritos.
Sim, já não era o velho sol, mas uma espécie de lua que adormecia cada vez mais fraca na espuma de estrela de uma noite escura que se adensa, ia-se apagando, como luz de vela esquecida na solidão de uma desusada sala, mergulhava nos seus fantásticos sonhos, ia fechando as pálpebras de volta a um passado antigo, extinto, se diluindo numa memória fragmentária em busca do inatingível.
Morreu como as superfícies das águas estagnadas sobre as quais caem leves pétalas de glicínias maceradas...
Minha avó abriu consideravelmente sua bolsa para mim. Ela orgulhava-se de mim! Relia meus livros, achava-os bem escritos, recomendava-os às amigas e cobria-me de homenagem e dinheiro.
Como Ernesto Sábato, ela dizia "escrever para ganhar dinheiro é abominável" - e como eu não tinha outro recurso ela me deu o seu braço e o sua poupança.
Afinal me compreendia.
Aos 22 anos de idade eu era um desempregado, e antes de me ter como o gênio da família temia por mim de me ver cópia do vagabundo que tinha sido meu pai - e realmente: além de escrever nada há neste mundo que eu saiba fazer e com que pudesse ganhar a vida. A carreira literária me daria um sentido novo a seus olhos, eu me tornava confiável desde que aparecesse nos jornais como escritor da moda.
A fortuna de minha avó, que já fora grande, consistia então em alguns imóveis e ela não tinha renda, mas alguma coisa economizada. O patrimônio imobilizado ainda significava algo e a poupança bastante curiosa, pois minha avó tinha uma paixão: as moedas de ouro, libras principalmente, guardadas num cofre bancário.
Quando ela morreu, e como meu pai já havia falecido, foi tudo divido entre seus sete netos herdeiros.
Tia Clotildes, casada com um oficial norte-americano, herói da 2? Guerra, com quem teve duas filhas que nem conheço. Tia Anastácia, a mais velha, morta há muitos anos, eu menino, deixou Ricardo em São Paulo, Renato no Rio, bailarino e professor de balé, e Rachel, que mora em Salvador com o marido.
Com minha parte comprei um pequeno apartamento. No Flamengo.
Alguns anos antes, e por cruel coincidência, o tiro que abateu Vargas no Catete matou também a metade do que sobrava de meu pai. No mesmo dia 24 de agosto de 54 meu pai ficou hemiplégico.
Estava na Ilha.
A hemiplegia de meu pai paralisou todo o lado direito - a perna, o braço, a face e a língua, impedindo-o de falar. Sobreveio à uma hemorragia cerebral e como minha relação com ele sempre fora hemiplégica, atingida ou semi-destruída nos seus dois pontos, o do contato afetivo (que ele nunca teve comigo, nunca me falou) e o do contato físico (que ele nunca teve comigo, nunca me tocou e suas únicas duas carícias de que tenho recordação, o passar a mão sobre minha cabeça, me provocaram súbita reação defensiva), e como não conheci aquela que dizem que foi minha mãe, que desde cedo me deu plena autonomia dela com sua morte, e como minha avó Madalena era, à sua moda, altiva e independente, estive o tempo inteiro de minha formação e infância livre tanto daquele pai visível quanto daquele outro tipo de pai invisível, de que se pode fazer em projeções, como num imaginário Deus onipresente, ou a figura do Estado, que nem na Ilha, nem em casa de minha avó nenhuma autoridade existia, apesar da poderosa influência dela sobre mim, pois ela sempre dizia que criava os filhos e a mim para "mandar" e não para "obedecer", o que significava que eu cresci em pleno anarquismo.
O esmaecimento da figura paterna, ativa e operante, sempre deve ter caracterizado a minha para mim mesmo inexplicável personalidade. Minha avó assumiu a função de mãe como um tipo de pai de saias, mas invertendo todo o valor atribuído a essa figura, real ou imaginária, de pai ou pátria.
Sem culpa desde cedo esconjurei o meu parricídio simbólico num total desprezo pela idéia de autoridade, o que entretanto não me faz forte, e pelo desprezo a meu pai (e dele para comigo, que sempre fomos estranhos um ao outro, ou melhor: ele me odiava), rechaçando-o enquanto modelo, substituindo-o por minha avó.
Meu pai, na sua ausência, no seu hiato hemiplégico, nunca simbolizou os poderes constituídos, e eu só dispunha de meio-pai a partir da hemiplegia. A sua presença, se é que a senti algum dia, significava mais que um vazio, um pai entre parênteses naquela imprecisão em que ele se entredisseminara no seu exílio na Ilha e no estado de meio-morto, no seu esconderijo e na sua ruína, na sua indiferença e no seu estrago. Meu pai, eu me lembro, era um homem de desconversas, sobrevida da melancolia, contínua depressão, escondido na figura indecifrável de um rosto mudo e neutro, quase bestial. Mas o que mais o afastava de mim, e o neutralizava na comparação com minha avó, era sua completa afeição à mediocridade, algo assim como a de um funcionário público aposentado sempre com as mais intoleráveis frases-feitas de um senso-comum idiota.
Uma de suas mais familiares e favoritas expressões ("eu nunca vi ninguém fazer isso") me fazia que ele parecesse permanecer num estágio pré-lógico em que seria até capaz de retirar de sua família (que era eu) aquele tipo de fala em que se sustenta a ordem do simbólico da civilização, já que ele tomava como modelo de pensar e de comportamento aquelas que eu sempre considerei as mais medíocres pessoas existentes sobre a face da terra. Santo Deus! ele era capaz de banalizar a maior sublimidade...
Desta forma não lastimei a perda tardia da fala de meu pai, tardia mas castrante. Ele nunca a teve.
Entre o sol e o solo aquela menina como um reflexo de Deus e por entre a minha intransigência passava a soberania da recém-chegada, escandindo os passos na pedra - eu com dezenove anos, ela atravessando perto de mim como se pisasse numa toalha.
Eu não só me senti confiante naquilo que devia ter atraído e criado de meus profundos delírios com sua visão mágica, como também a sinceridade, a ressonância daquela menina, aparecida no nascer de um dia de verão, tocava o presságio de que minha relação com meu próprio corpo começava ali.
Quando aquela menina me olhou de frente, olhar reto, desafiante, o primeiro contato que com ela tive foi de sexualidade, imediata ligação, como se eu já a tivesse possuindo ali, no cais, pois vejo que ela estava impondo e ordenando a regra básica de sua lógica impiedosa comigo, a vida toda, que diz: "me aguarde", e porque aquela menina era um monstro. Eu poderia até ter chegado ao fim se continuasse a bebê-la com os olhos daquela maneira.
Ali logo o demônio do jogo do amor inventou mil venturas e perdições, incendiando de calor da força sexual que vinha dela o meu olhar - ela sob aquele vestido leve, pobre mas primaveril, palpitava de amor numa agudeza nada inocente: ela me fisgou, logo ali, com os olhos, aquele ato, ela sabia, eu era dela.
E me perdi.
Eu tinha ido ali para receber a lancha onde deveria vir o equipamento que havia comprado, e porque chegava um novo empregado de meu pai
A lancha revelou-se e aportou. Dela desceu um homem baixo, forte como touro selvagem, que era o novo empregado. Depois apareceu sua mulher e minha futura sogra, como uma lavradora sulista, maternal, pacifica.
E duas meninas.
Uma, menor e mais morena, Lia. A irmã.
A outra, maior, coberta por um chapéu de palha que lhe escondia toda a porção do cabelo. Teria uns quinze anos. Era Val. Parecia um rapaz.
Meu pai administrava o que sobrou da fazenda da família naquele fim de mundo - a Ilha Atlanta.
O que eu chamava de pai era um apático, calado e burocrático homem, viúvo, que nunca se importou com minha existência.
E o que eu chamava de mãe era a figura de retrato antigo e amarelo: minha mãe morreu cedo. Eu nada sabia dela.
Fui criado por minha avó Madalena.
- Não gosto do Rio, dizia meu pai, esta ilha me faz bem à saúde.
- O senhor não volta mais para o Flamengo? - eu perguntava. Eu tinha viajado muitos quilômetros para vê-lo.
- Não, respondeu.
- O senhor não sente saudades de vovó Madalena?
Meu pai ficou sério. Olhou para mim e disse:
- Você cuidará dela...
Grande figura burguesa, minha avó Madalena ficava sentada na cadeira de balanço da sua varanda no Flamengo, correndo pelos dedos que bordavam, sacudidos na talagarça.
Tinha sido rica e poderosa, contagiada de civilização européia. Mas simples na sua majestade de fim de vida.
Era mulher extremada e corajosa, atenciosa e política, sofisticada e prática.
Que força, aquela? Minha avó Madalena sabia com facilidade colocar todos no devido lugar, e falava com todos como se fizesse uma concessão.
Ela tinha arquivos inquietantes.
Eternamente intocadas, suas gavetas encerravam preciosos mistérios. Foi necessário muita coragem e audácia para, no ano de sua morte, penetrar e profanar aquilo.
Eram carícias de sedas mortas, velhas fazendas fora de moda, mas que haviam acariciado suas carnes imponentes.
Uma pistola - uma Beretta 1919 - nunca disparada.
E fotos.
À medida que envelhecia, minha avó ia ficando com a face pálida e enrugada - mas o olhar altivo se mantinha, de velha rainha, ainda que cansada.
As palavras então se arrastavam, pastosas, pesadas, pontuadas ainda pelo gesto elegante se bem que raro, nas pontuações de sua dicção educada, sobre a nobre fisionomia fidalga, hierática, que imprimia ao leque rendado pousado sobre o colo, sobre seu vestido de seda.
Nos últimos anos ela já não era a velha rainha na cadência sonolenta, nas remadas cada vez mais lentas da dança de seu leque, na soberana inação de seu gesto fixo no ar, nas mechas de seu cabelo todo branco.
E mesmo na coragem com que, com grande perigo, sozinha em casa, enfrentou o ladrão que invadira o jardim, pondo-o para fora aos gritos.
Sim, já não era o velho sol, mas uma espécie de lua que adormecia cada vez mais fraca na espuma de estrela de uma noite escura que se adensa, ia-se apagando, como luz de vela esquecida na solidão de uma desusada sala, mergulhava nos seus fantásticos sonhos, ia fechando as pálpebras de volta a um passado antigo, extinto, se diluindo numa memória fragmentária em busca do inatingível.
Morreu como as superfícies das águas estagnadas sobre as quais caem leves pétalas de glicínias maceradas...
Minha avó abriu consideravelmente sua bolsa para mim. Ela orgulhava-se de mim! Relia meus livros, achava-os bem escritos, recomendava-os às amigas e cobria-me de homenagem e dinheiro.
Como Ernesto Sábato, ela dizia "escrever para ganhar dinheiro é abominável" - e como eu não tinha outro recurso ela me deu o seu braço e o sua poupança.
Afinal me compreendia.
Aos 22 anos de idade eu era um desempregado, e antes de me ter como o gênio da família temia por mim de me ver cópia do vagabundo que tinha sido meu pai - e realmente: além de escrever nada há neste mundo que eu saiba fazer e com que pudesse ganhar a vida. A carreira literária me daria um sentido novo a seus olhos, eu me tornava confiável desde que aparecesse nos jornais como escritor da moda.
A fortuna de minha avó, que já fora grande, consistia então em alguns imóveis e ela não tinha renda, mas alguma coisa economizada. O patrimônio imobilizado ainda significava algo e a poupança bastante curiosa, pois minha avó tinha uma paixão: as moedas de ouro, libras principalmente, guardadas num cofre bancário.
Quando ela morreu, e como meu pai já havia falecido, foi tudo divido entre seus sete netos herdeiros.
Tia Clotildes, casada com um oficial norte-americano, herói da 2? Guerra, com quem teve duas filhas que nem conheço. Tia Anastácia, a mais velha, morta há muitos anos, eu menino, deixou Ricardo em São Paulo, Renato no Rio, bailarino e professor de balé, e Rachel, que mora em Salvador com o marido.
Com minha parte comprei um pequeno apartamento. No Flamengo.
Alguns anos antes, e por cruel coincidência, o tiro que abateu Vargas no Catete matou também a metade do que sobrava de meu pai. No mesmo dia 24 de agosto de 54 meu pai ficou hemiplégico.
Estava na Ilha.
A hemiplegia de meu pai paralisou todo o lado direito - a perna, o braço, a face e a língua, impedindo-o de falar. Sobreveio à uma hemorragia cerebral e como minha relação com ele sempre fora hemiplégica, atingida ou semi-destruída nos seus dois pontos, o do contato afetivo (que ele nunca teve comigo, nunca me falou) e o do contato físico (que ele nunca teve comigo, nunca me tocou e suas únicas duas carícias de que tenho recordação, o passar a mão sobre minha cabeça, me provocaram súbita reação defensiva), e como não conheci aquela que dizem que foi minha mãe, que desde cedo me deu plena autonomia dela com sua morte, e como minha avó Madalena era, à sua moda, altiva e independente, estive o tempo inteiro de minha formação e infância livre tanto daquele pai visível quanto daquele outro tipo de pai invisível, de que se pode fazer em projeções, como num imaginário Deus onipresente, ou a figura do Estado, que nem na Ilha, nem em casa de minha avó nenhuma autoridade existia, apesar da poderosa influência dela sobre mim, pois ela sempre dizia que criava os filhos e a mim para "mandar" e não para "obedecer", o que significava que eu cresci em pleno anarquismo.
O esmaecimento da figura paterna, ativa e operante, sempre deve ter caracterizado a minha para mim mesmo inexplicável personalidade. Minha avó assumiu a função de mãe como um tipo de pai de saias, mas invertendo todo o valor atribuído a essa figura, real ou imaginária, de pai ou pátria.
Sem culpa desde cedo esconjurei o meu parricídio simbólico num total desprezo pela idéia de autoridade, o que entretanto não me faz forte, e pelo desprezo a meu pai (e dele para comigo, que sempre fomos estranhos um ao outro, ou melhor: ele me odiava), rechaçando-o enquanto modelo, substituindo-o por minha avó.
Meu pai, na sua ausência, no seu hiato hemiplégico, nunca simbolizou os poderes constituídos, e eu só dispunha de meio-pai a partir da hemiplegia. A sua presença, se é que a senti algum dia, significava mais que um vazio, um pai entre parênteses naquela imprecisão em que ele se entredisseminara no seu exílio na Ilha e no estado de meio-morto, no seu esconderijo e na sua ruína, na sua indiferença e no seu estrago. Meu pai, eu me lembro, era um homem de desconversas, sobrevida da melancolia, contínua depressão, escondido na figura indecifrável de um rosto mudo e neutro, quase bestial. Mas o que mais o afastava de mim, e o neutralizava na comparação com minha avó, era sua completa afeição à mediocridade, algo assim como a de um funcionário público aposentado sempre com as mais intoleráveis frases-feitas de um senso-comum idiota.
Uma de suas mais familiares e favoritas expressões ("eu nunca vi ninguém fazer isso") me fazia que ele parecesse permanecer num estágio pré-lógico em que seria até capaz de retirar de sua família (que era eu) aquele tipo de fala em que se sustenta a ordem do simbólico da civilização, já que ele tomava como modelo de pensar e de comportamento aquelas que eu sempre considerei as mais medíocres pessoas existentes sobre a face da terra. Santo Deus! ele era capaz de banalizar a maior sublimidade...
Desta forma não lastimei a perda tardia da fala de meu pai, tardia mas castrante. Ele nunca a teve.
Entre o sol e o solo aquela menina como um reflexo de Deus e por entre a minha intransigência passava a soberania da recém-chegada, escandindo os passos na pedra - eu com dezenove anos, ela atravessando perto de mim como se pisasse numa toalha.
Eu não só me senti confiante naquilo que devia ter atraído e criado de meus profundos delírios com sua visão mágica, como também a sinceridade, a ressonância daquela menina, aparecida no nascer de um dia de verão, tocava o presságio de que minha relação com meu próprio corpo começava ali.
Quando aquela menina me olhou de frente, olhar reto, desafiante, o primeiro contato que com ela tive foi de sexualidade, imediata ligação, como se eu já a tivesse possuindo ali, no cais, pois vejo que ela estava impondo e ordenando a regra básica de sua lógica impiedosa comigo, a vida toda, que diz: "me aguarde", e porque aquela menina era um monstro. Eu poderia até ter chegado ao fim se continuasse a bebê-la com os olhos daquela maneira.
Ali logo o demônio do jogo do amor inventou mil venturas e perdições, incendiando de calor da força sexual que vinha dela o meu olhar - ela sob aquele vestido leve, pobre mas primaveril, palpitava de amor numa agudeza nada inocente: ela me fisgou, logo ali, com os olhos, aquele ato, ela sabia, eu era dela.
E me perdi.
A HISTÓRIA DOS AMANTES, 4
Porque ali estava Val.
Na soberba força de sua juventude, força que nunca deixaria de ter e, vigorosamente bela desde o primeiro dia, desde aquele primeiro instante arrancava do ambiente de sua aparição todos os pontos e ângulos competitivos para só nela se concentrarem, os cabelos ocultos num chapéu de palha que a travestiam num rapaz, num príncipe, ou na representação de amazona, que eu imaginava (tanto amava o cinema norte-americano, e me perdoem o exagero e o deslize) que ali tivesse descido dos espelhos das telas dos cinemas de Hollywood uma menina Marilyn Monroe morena, portanto um pouco queimada de sol, os cabelos e olhos negros e que ia atormentar-me o desejo.
A segunda mensagem de seu olhar que nada tinha de proibidas promessas, mas um traço explicito: "vou possuir-te!", e ali se revelava em mim toda a sua vocação, e ali se revelava nela toda sua propensão para a atividade, um macho dentro da delicadeza fêmea, na minha concepção machista de que, pegando ela o parceiro na cama, autoritária e com lascívia, sem entrega, sem baixeza, densa nas artes do amor, era ela quem dominava quem, sedento de seus amores, de seu sexo, se via nos sugadouros de seus prazeres ativos e sobrepostos, impressão tão duradoura quanto, ao arrepio de seus parâmetros, ela convidava como se dissesse: "vem, que vais experimentar o que eu poço fazer" (e que sei eu, depois disso?), o magnetismo oculto, depois provocante e incompreensivel. Só dela. Mas ela sempre dominou o parceiro.
Em novembro de 47, num almoço em casa de Amaro de Souza, Chefe de Polícia do Estado de Pernambuco, Antônio Rodrigues, pai de Rôni, conheceu aquele ex-sargento, chamado Manuel Pacheco, pai de Val, tido como excelente homem, preso e torturado em 35, quando teve todos os dentes posteriores arrancados com alicate; preso e torturado em outubro de 47, escapando de ser crestado com maçarico, ex-membro da LCI, a Liga Comunista Internacional, criado e protegido da família de Amaro, "senhores de engenho liberais", mas que, não sendo pessoalmente um homem perigoso, Amaro, conhecendo-o desde menino, que foram criados juntos, o tirara da prisão direto para sua casa, até que, em 49, quando a caça aos comunistas recrudesceu, Amaro pediu ao Doutor Antônio, pai de Rôni, que o levasse para a Ilha, para sua fazenda Paraná, pois o Chefe de Policia não queria que pensassem que ele dava proteção a comunista.
Manuel Pacheco, machista e ateu, era homem duro, gênio inflexível, irônico e perspicaz, dir-se-ia inteligente se tivesse alguma leitura. Baixo, grosso, forte, agressivo, olho de tigre: violência indiscriminada que às vezes atingindo os alvos errados de sua mulher Fernanda e suas filhas, Valquíria e Lia.
Mas Pacheco gostara de seu novo patrão, e este dele, da sua força física e moral, sua habilidade múltipla foram providenciais na fazenda, o patrão era um ausente, as coisas com Antônio não andavam, e o pulso de ferro de Manuel Pacheco se fez logo sentir.
Val, porém, era prisioneira em casa, não podia ir sozinha à escola do litoral, seu pai nada permitia, e censurava tudo. Ela era obrigada a passar as tardes costurando, como uma velha inválida, ou ouvindo o rádio, como numa prisão, a televisão ainda não tinha chegado.
A ilha era grande, mas ali não era. A casa de Val parecia uma ilha dentro da Ilha Atlanta. As outras meninas, soltas, indo e vindo de bicicleta, livres, nunca virgens.
Mas Val reage.
Desde cedo seu poder de resistência enfrenta o pai e ameaça fugir. O pai a agride, e Val o odeia. Quando o pai chega, ela sente uma pressão no peito, que a sufoca. O pai tendo um modo de a olhar que para ela era uma ofensa, pois à medida que ela ia tornando-se mulher o pai a observava como se a examinasse, ou como um fiscal, como algo, uma coisa, uma censura.
Ela se sentia só, a irmã e a mãe submissas ao pai. As colegas a subestimavam, julgando-a esnobe, metida a rica (seu pai tinha prestigio e poder na ilha). Val não participava da vida que elas viviam.
Val não tinha namorado, quieta e calada, magoada e bela. Toda a sua violência explodia em casa. Val não tinha medo. Desde cedo viverá na família um clima de guerra. Val declara guerra ao Pai. Val aprende a não temer a morte. O pai dizia: "esta menina é maluca". Ela o enfrenta. O pai dizendo sempre: "aqui não tem ambiente para uma menina decente". Ela pensando: "meu Deus, por que tenho de viver trancada, como uma doente? Que direito tem ele sobre minha liberdade?" O pai, que quisera um filho homem, de certo modo despreza as duas filhas.
"Mulher só dá trabalho", diz. E ele se horroriza com o fato de que, inexoravelmente, ela vinha transformando-se numa mulher desejável, sensual.
Ele sabia, e temia, todos os homens da ilha estavam desejando sua filha. A todo momento o corpo daquela menina dizia para ele: "preciso de um homem"'. Por que ela não era o ideal de mulher submissa que Pacheco esperava (uma camponesa forte e assexuada). Val era já mulher com substância, e Pacheco, apesar de suas doutrinas políticas, tinha um conservadorismo histérico quanto à sexualidade em geral, as piores palavras para ele sendo "puta" e "veado", e não "imperialista" ou "burguês".
........................
Abro a porta e sinto o murmúrio eclesiástico que tomava a casa no dia em que o pai morreu.
Ali jazia. Atmosfera mortal. Val me olha, e era como se dissesse: "O Rei está morto".
- É isso. Isso! - disse-me Val.
- Não sei o que dizer, fala Rôni, quase sussurrante, sentindo que ela permaneceria calada e que ele a esperaria, sozinho, naquela mesma noite, sentado no banco de pedra.
- As... - As outras... - Rôni segurava ansioso o braço de Val, e os dois pararam à porta do horizonte de um fato inevitável. No silêncio que se seguiu à morte do pai.
De repente, só os dois existiam, e ouvia-se o sombrio mar de rijo vento e a noite na expressão angustiada. Era uma transformação.
- Você tem coragem... - começou a dizer Val. Parecia que as suas palavras eram articuladas para sempre restarem incompletas, inúteis. Havia um esforço no dizer, um propósito em esconder o verdadeiro significado das mínimas silabas, e seu olhar assume um: "De que você me acusa?" Pois ela se voltou com violenta expressão, não tinha dito o que deveria ficar escondido, aquilo que principiava, o que devia iniciar-se, aquilo que era sagrado, a grande gafe, sua libertação! Olhou para frente, e era como se dissesse: "Você não me está vendo?"
Bastava.
- Não!
Rôni poderia perguntar: "Você o matou?" Rôni disfarça a indignação. E ela poderia responder: "Sim. Há muitos anos".
O vento.
- E então? disse Rôni.
- Que quer que eu diga? disse Val.
- Você o amava? pergunta Rôni.
Ela não respondeu. Chorava com o impacto da pergunta.
A presença é um grande afastamento. Um cadáver ocupa muito espaço. Um cadáver não tem forma, tem presença.
Val não dizia o que realmente deveria ser dito. Sua simulação não mentia. Poderia pensar: "Não digo o que sinto, o que é tão contrário. Só sei que ele acabou de morrer".
A viúva emergia, trágica. Rôni dispôs-se a sair.
- Não me vai dar os pêsames? pergunta Val, irônica.
- Lastimo, disse Rôni.
Realmente ele tinha lágrimas nos olhos.
- Sei disso, disse Val. E calou-se.
Quando Rôni subiu a rua, seu vulto escuro era uma sombra em que se envolvia a densa noite.
Na soberba força de sua juventude, força que nunca deixaria de ter e, vigorosamente bela desde o primeiro dia, desde aquele primeiro instante arrancava do ambiente de sua aparição todos os pontos e ângulos competitivos para só nela se concentrarem, os cabelos ocultos num chapéu de palha que a travestiam num rapaz, num príncipe, ou na representação de amazona, que eu imaginava (tanto amava o cinema norte-americano, e me perdoem o exagero e o deslize) que ali tivesse descido dos espelhos das telas dos cinemas de Hollywood uma menina Marilyn Monroe morena, portanto um pouco queimada de sol, os cabelos e olhos negros e que ia atormentar-me o desejo.
A segunda mensagem de seu olhar que nada tinha de proibidas promessas, mas um traço explicito: "vou possuir-te!", e ali se revelava em mim toda a sua vocação, e ali se revelava nela toda sua propensão para a atividade, um macho dentro da delicadeza fêmea, na minha concepção machista de que, pegando ela o parceiro na cama, autoritária e com lascívia, sem entrega, sem baixeza, densa nas artes do amor, era ela quem dominava quem, sedento de seus amores, de seu sexo, se via nos sugadouros de seus prazeres ativos e sobrepostos, impressão tão duradoura quanto, ao arrepio de seus parâmetros, ela convidava como se dissesse: "vem, que vais experimentar o que eu poço fazer" (e que sei eu, depois disso?), o magnetismo oculto, depois provocante e incompreensivel. Só dela. Mas ela sempre dominou o parceiro.
Em novembro de 47, num almoço em casa de Amaro de Souza, Chefe de Polícia do Estado de Pernambuco, Antônio Rodrigues, pai de Rôni, conheceu aquele ex-sargento, chamado Manuel Pacheco, pai de Val, tido como excelente homem, preso e torturado em 35, quando teve todos os dentes posteriores arrancados com alicate; preso e torturado em outubro de 47, escapando de ser crestado com maçarico, ex-membro da LCI, a Liga Comunista Internacional, criado e protegido da família de Amaro, "senhores de engenho liberais", mas que, não sendo pessoalmente um homem perigoso, Amaro, conhecendo-o desde menino, que foram criados juntos, o tirara da prisão direto para sua casa, até que, em 49, quando a caça aos comunistas recrudesceu, Amaro pediu ao Doutor Antônio, pai de Rôni, que o levasse para a Ilha, para sua fazenda Paraná, pois o Chefe de Policia não queria que pensassem que ele dava proteção a comunista.
Manuel Pacheco, machista e ateu, era homem duro, gênio inflexível, irônico e perspicaz, dir-se-ia inteligente se tivesse alguma leitura. Baixo, grosso, forte, agressivo, olho de tigre: violência indiscriminada que às vezes atingindo os alvos errados de sua mulher Fernanda e suas filhas, Valquíria e Lia.
Mas Pacheco gostara de seu novo patrão, e este dele, da sua força física e moral, sua habilidade múltipla foram providenciais na fazenda, o patrão era um ausente, as coisas com Antônio não andavam, e o pulso de ferro de Manuel Pacheco se fez logo sentir.
Val, porém, era prisioneira em casa, não podia ir sozinha à escola do litoral, seu pai nada permitia, e censurava tudo. Ela era obrigada a passar as tardes costurando, como uma velha inválida, ou ouvindo o rádio, como numa prisão, a televisão ainda não tinha chegado.
A ilha era grande, mas ali não era. A casa de Val parecia uma ilha dentro da Ilha Atlanta. As outras meninas, soltas, indo e vindo de bicicleta, livres, nunca virgens.
Mas Val reage.
Desde cedo seu poder de resistência enfrenta o pai e ameaça fugir. O pai a agride, e Val o odeia. Quando o pai chega, ela sente uma pressão no peito, que a sufoca. O pai tendo um modo de a olhar que para ela era uma ofensa, pois à medida que ela ia tornando-se mulher o pai a observava como se a examinasse, ou como um fiscal, como algo, uma coisa, uma censura.
Ela se sentia só, a irmã e a mãe submissas ao pai. As colegas a subestimavam, julgando-a esnobe, metida a rica (seu pai tinha prestigio e poder na ilha). Val não participava da vida que elas viviam.
Val não tinha namorado, quieta e calada, magoada e bela. Toda a sua violência explodia em casa. Val não tinha medo. Desde cedo viverá na família um clima de guerra. Val declara guerra ao Pai. Val aprende a não temer a morte. O pai dizia: "esta menina é maluca". Ela o enfrenta. O pai dizendo sempre: "aqui não tem ambiente para uma menina decente". Ela pensando: "meu Deus, por que tenho de viver trancada, como uma doente? Que direito tem ele sobre minha liberdade?" O pai, que quisera um filho homem, de certo modo despreza as duas filhas.
"Mulher só dá trabalho", diz. E ele se horroriza com o fato de que, inexoravelmente, ela vinha transformando-se numa mulher desejável, sensual.
Ele sabia, e temia, todos os homens da ilha estavam desejando sua filha. A todo momento o corpo daquela menina dizia para ele: "preciso de um homem"'. Por que ela não era o ideal de mulher submissa que Pacheco esperava (uma camponesa forte e assexuada). Val era já mulher com substância, e Pacheco, apesar de suas doutrinas políticas, tinha um conservadorismo histérico quanto à sexualidade em geral, as piores palavras para ele sendo "puta" e "veado", e não "imperialista" ou "burguês".
........................
Abro a porta e sinto o murmúrio eclesiástico que tomava a casa no dia em que o pai morreu.
Ali jazia. Atmosfera mortal. Val me olha, e era como se dissesse: "O Rei está morto".
- É isso. Isso! - disse-me Val.
- Não sei o que dizer, fala Rôni, quase sussurrante, sentindo que ela permaneceria calada e que ele a esperaria, sozinho, naquela mesma noite, sentado no banco de pedra.
- As... - As outras... - Rôni segurava ansioso o braço de Val, e os dois pararam à porta do horizonte de um fato inevitável. No silêncio que se seguiu à morte do pai.
De repente, só os dois existiam, e ouvia-se o sombrio mar de rijo vento e a noite na expressão angustiada. Era uma transformação.
- Você tem coragem... - começou a dizer Val. Parecia que as suas palavras eram articuladas para sempre restarem incompletas, inúteis. Havia um esforço no dizer, um propósito em esconder o verdadeiro significado das mínimas silabas, e seu olhar assume um: "De que você me acusa?" Pois ela se voltou com violenta expressão, não tinha dito o que deveria ficar escondido, aquilo que principiava, o que devia iniciar-se, aquilo que era sagrado, a grande gafe, sua libertação! Olhou para frente, e era como se dissesse: "Você não me está vendo?"
Bastava.
- Não!
Rôni poderia perguntar: "Você o matou?" Rôni disfarça a indignação. E ela poderia responder: "Sim. Há muitos anos".
O vento.
- E então? disse Rôni.
- Que quer que eu diga? disse Val.
- Você o amava? pergunta Rôni.
Ela não respondeu. Chorava com o impacto da pergunta.
A presença é um grande afastamento. Um cadáver ocupa muito espaço. Um cadáver não tem forma, tem presença.
Val não dizia o que realmente deveria ser dito. Sua simulação não mentia. Poderia pensar: "Não digo o que sinto, o que é tão contrário. Só sei que ele acabou de morrer".
A viúva emergia, trágica. Rôni dispôs-se a sair.
- Não me vai dar os pêsames? pergunta Val, irônica.
- Lastimo, disse Rôni.
Realmente ele tinha lágrimas nos olhos.
- Sei disso, disse Val. E calou-se.
Quando Rôni subiu a rua, seu vulto escuro era uma sombra em que se envolvia a densa noite.
A HISTÓRIA DOS AMANTES, 5
Quando cheguei ao Rio, e no decorrer dos quatro anos seguintes, considerei definitivo o meu afastamento da Ilha e dos seus dons de juventude que ali nos habilitava a manipular e a manifestar, sem constrangimento, o magnífico patrimônio autárquico e anárquico dos humores das nossas relações.
E Val comigo.
Que de lá também saíra. Aquilo que só se observa com justeza estava comigo. Mas o fio obscuro daquele lugar primitivo afinal se rompia.
Foi quando minha avó, com sua súbita morte, me abandona talvez para que eu me tornasse independente dela e me considerasse a mim mesmo finalmente um homem.
Ela havia abrigado em sua chácara o que sobrava da carcaça morta em que meu pai se transformara, arrendou a fazenda e me fez, através de seu banco, uma mesada que daria para o sustento de uma pequena família de classe média. Minha avó queria assim que eu me tornasse senhor de meu próprio destino e aprendesse a viver só, dono de meu nariz, como ela sempre fora.
Estaria eu na Europa estudando se não tivesse Val a meu lado. Se obedecesse aos desígnios de minha avó. Altiva e orgulhosa, tinha ela do homem superior uma idéia toda sua. Sua mesada poderia, na sua concepção, e à minha revelia, me converter num respeitável, importante e distinto cavalheiro - "ser alguém", dizia ela, o que para minha avó significava ser de boa família e ter acatamento público - bastava ter o curso superior concluído e algum dinheiro para que alguém ganhasse sua deferência e apreço.
Queria que eu fosse advogado. Talvez para não ser nada, ou nada fazer. Ser advogado era, para ela, uma mera honorabilidade. Inútil, portanto nobre. E, embora não fosse de seu feitio preocupar-se com nada desse mundo, creio que ela já suspeitava de mim que eu seria como meu pai um incapaz, irresoluto sem dúvida débil e insubsistente, e decidiu nada fazer por mim, experimentar-me e ver se eu tomava jeito na vida - quando "nada fazer", na sua modalidade, incluía dar-me uma pensão - "de estudante", dizia ela (embora eu já estivesse com 26 anos) - e não, como se pensaria ou se esperava, deixar-me morrer à mingua, de miséria e fome.
Ela queria que eu competisse por mim - seu sonho seria saber-me famoso na política ou "nos negócios" - e nada disso eu ainda decidira, e creio que, no fim, isso certamente a magoava, embora não revelasse os seus sentimentos a ninguém, e parecesse esperar que eu estivesse apenas afiando o gume para uma posterior arrancada triunfal nalguma profissão conveniente, ou burocrática, mas de geral e grande repercussão.
Nas associações de suas idéias ela me comparava e se lembrava dos nossos antepassados, dois que foram Ministros de Estado, um Juiz de Direito, bem sucedidos negociantes, tios, irmãos e primos dela, mas todos de sua época.
- Tivemos dois bispos na família, dizia ela.
A nova geração, filhos, netos e sobrinhos, tinha-se revelado a seus olhos lastimável e incompreensível fracasso, na vulgaridade e no anonimato de uma família decadente que dissolvida em sufocantes e inaceitáveis princípios de idéias modernas que ela desprezava com um muxoxo, um abanar do leque ou da cabeça, e um erguer das sobrancelhas arqueadas em lástima e resignação, desde a maneira de trajar (homens sem paletó, em mangas de camisa; mulheres mal-vestidas), até a fala coloquial, inculta, rotineira da conversação, democrática mas vulgar, que sem citações elegantes soava a seus afinados ouvidos cultos como baixeza e obscenidade.
- Falávamos francês à mesa, lembrava ela.
Sua mesada substituiu-me, na consciência, o fantasma infantil de uma provedora mãe que me acompanhava e que nunca perdi.
Eu trocava minha mãe pela boca indiferente de uma caixa bancária.
Minha mãe era agora o seu talão de cheques.
Não lastimo, pois sempre fui "livre" (ou desamparado) desde menino, e o fato de não ter tido nunca reais dificuldades financeiras (nem luxo, simplesmente) funcionava em mim como se eu fosse sempre perseguido pelo abandono daquele fantasma de minha mãe, impalpável mas providencial, como um espírito invisível sempre me negando sua face e nunca me negando concretamente o seu regaço acolhedor.
Eu entrava tardiamente na Universidade, atrasado pelos anos que me demorei e me deixei ficar na Ilha sem estudar. E com o dinheiro de minha avó aluguei um apartamento no Flamengo, onde depois comprei, não excessivamente longe de sua casa, aonde eu ia a pé, mas de onde, eu sabia, ela jamais teria a indiscrição de espionar-me ou controlar-me dentro de minha própria casa. Não minha avó. Só liberta quem é livre. Ela mesma independente. Orgulhava-se disso, indômita desde menina, nunca procurou ninguém, nunca visitando ninguém sem ser convidada antes e mandar avisar por um menino (que não usava o telefone para isso: o telefone era considerado por ela um instrumento mexeriqueiro, inconfidente e leviano).
Insubmissa: aos 75 anos viajou sozinha por toda a Europa durante quase três meses.
Sempre gostava de viajar só, e quando acompanhada, enquanto suas amigas iam às compras, ela seguia para o museu de Antropologia.
Minha avó Madalena era o marco da independência (burguesa, é claro, pois só a sua independência financeira lhe poderia moldar o caráter), marco em que eu sempre me agarrei para não soçobrar nos momentos de depressão, como a um símbolo, ou para neutralizar e combater em mim a minha natural tendência à dissipação e dissolução psicológica em que, se mergulhasse ali, eu sei que me teria feito em pedaços.
Naquele apartamento vivi com Val sem que minha avó soubesse, ou sem que eu soubesse que ela sabia, e era como se estivéssemos casados.
Foi um período que me deu alguma significação, e ainda hoje vivo os grandes, pesados e insubstituíveis momentos recordados ali, que ali se deu a minha primeira imersão naquilo que se poderia chamar de experiência da felicidade amorosa e sexual, nunca esgotada, que ainda hoje me acena com suas cicatrizes e determinações.
Coincidiram com os anos da Faculdade de Letras da Universidade do Brasil, de que eu hoje sempre recordo e imagino de maneira desigual e diferente, período mutável na minha criação como um caleidoscópio ao sabor de cada emoção passageira, ou como se não fosse senão algo móvel e nunca sedimentado, e lacrimoso, obsceno, removível na sua efemeridade abjeta, tempo que depois se transformou em tragédia, na ditadura militar, tempo em que se atravessa de viés, na minha vida e em tudo aquilo que se passou e que para mim ficou, de repente, velho e secreto.
E Val comigo.
Que de lá também saíra. Aquilo que só se observa com justeza estava comigo. Mas o fio obscuro daquele lugar primitivo afinal se rompia.
Foi quando minha avó, com sua súbita morte, me abandona talvez para que eu me tornasse independente dela e me considerasse a mim mesmo finalmente um homem.
Ela havia abrigado em sua chácara o que sobrava da carcaça morta em que meu pai se transformara, arrendou a fazenda e me fez, através de seu banco, uma mesada que daria para o sustento de uma pequena família de classe média. Minha avó queria assim que eu me tornasse senhor de meu próprio destino e aprendesse a viver só, dono de meu nariz, como ela sempre fora.
Estaria eu na Europa estudando se não tivesse Val a meu lado. Se obedecesse aos desígnios de minha avó. Altiva e orgulhosa, tinha ela do homem superior uma idéia toda sua. Sua mesada poderia, na sua concepção, e à minha revelia, me converter num respeitável, importante e distinto cavalheiro - "ser alguém", dizia ela, o que para minha avó significava ser de boa família e ter acatamento público - bastava ter o curso superior concluído e algum dinheiro para que alguém ganhasse sua deferência e apreço.
Queria que eu fosse advogado. Talvez para não ser nada, ou nada fazer. Ser advogado era, para ela, uma mera honorabilidade. Inútil, portanto nobre. E, embora não fosse de seu feitio preocupar-se com nada desse mundo, creio que ela já suspeitava de mim que eu seria como meu pai um incapaz, irresoluto sem dúvida débil e insubsistente, e decidiu nada fazer por mim, experimentar-me e ver se eu tomava jeito na vida - quando "nada fazer", na sua modalidade, incluía dar-me uma pensão - "de estudante", dizia ela (embora eu já estivesse com 26 anos) - e não, como se pensaria ou se esperava, deixar-me morrer à mingua, de miséria e fome.
Ela queria que eu competisse por mim - seu sonho seria saber-me famoso na política ou "nos negócios" - e nada disso eu ainda decidira, e creio que, no fim, isso certamente a magoava, embora não revelasse os seus sentimentos a ninguém, e parecesse esperar que eu estivesse apenas afiando o gume para uma posterior arrancada triunfal nalguma profissão conveniente, ou burocrática, mas de geral e grande repercussão.
Nas associações de suas idéias ela me comparava e se lembrava dos nossos antepassados, dois que foram Ministros de Estado, um Juiz de Direito, bem sucedidos negociantes, tios, irmãos e primos dela, mas todos de sua época.
- Tivemos dois bispos na família, dizia ela.
A nova geração, filhos, netos e sobrinhos, tinha-se revelado a seus olhos lastimável e incompreensível fracasso, na vulgaridade e no anonimato de uma família decadente que dissolvida em sufocantes e inaceitáveis princípios de idéias modernas que ela desprezava com um muxoxo, um abanar do leque ou da cabeça, e um erguer das sobrancelhas arqueadas em lástima e resignação, desde a maneira de trajar (homens sem paletó, em mangas de camisa; mulheres mal-vestidas), até a fala coloquial, inculta, rotineira da conversação, democrática mas vulgar, que sem citações elegantes soava a seus afinados ouvidos cultos como baixeza e obscenidade.
- Falávamos francês à mesa, lembrava ela.
Sua mesada substituiu-me, na consciência, o fantasma infantil de uma provedora mãe que me acompanhava e que nunca perdi.
Eu trocava minha mãe pela boca indiferente de uma caixa bancária.
Minha mãe era agora o seu talão de cheques.
Não lastimo, pois sempre fui "livre" (ou desamparado) desde menino, e o fato de não ter tido nunca reais dificuldades financeiras (nem luxo, simplesmente) funcionava em mim como se eu fosse sempre perseguido pelo abandono daquele fantasma de minha mãe, impalpável mas providencial, como um espírito invisível sempre me negando sua face e nunca me negando concretamente o seu regaço acolhedor.
Eu entrava tardiamente na Universidade, atrasado pelos anos que me demorei e me deixei ficar na Ilha sem estudar. E com o dinheiro de minha avó aluguei um apartamento no Flamengo, onde depois comprei, não excessivamente longe de sua casa, aonde eu ia a pé, mas de onde, eu sabia, ela jamais teria a indiscrição de espionar-me ou controlar-me dentro de minha própria casa. Não minha avó. Só liberta quem é livre. Ela mesma independente. Orgulhava-se disso, indômita desde menina, nunca procurou ninguém, nunca visitando ninguém sem ser convidada antes e mandar avisar por um menino (que não usava o telefone para isso: o telefone era considerado por ela um instrumento mexeriqueiro, inconfidente e leviano).
Insubmissa: aos 75 anos viajou sozinha por toda a Europa durante quase três meses.
Sempre gostava de viajar só, e quando acompanhada, enquanto suas amigas iam às compras, ela seguia para o museu de Antropologia.
Minha avó Madalena era o marco da independência (burguesa, é claro, pois só a sua independência financeira lhe poderia moldar o caráter), marco em que eu sempre me agarrei para não soçobrar nos momentos de depressão, como a um símbolo, ou para neutralizar e combater em mim a minha natural tendência à dissipação e dissolução psicológica em que, se mergulhasse ali, eu sei que me teria feito em pedaços.
Naquele apartamento vivi com Val sem que minha avó soubesse, ou sem que eu soubesse que ela sabia, e era como se estivéssemos casados.
Foi um período que me deu alguma significação, e ainda hoje vivo os grandes, pesados e insubstituíveis momentos recordados ali, que ali se deu a minha primeira imersão naquilo que se poderia chamar de experiência da felicidade amorosa e sexual, nunca esgotada, que ainda hoje me acena com suas cicatrizes e determinações.
Coincidiram com os anos da Faculdade de Letras da Universidade do Brasil, de que eu hoje sempre recordo e imagino de maneira desigual e diferente, período mutável na minha criação como um caleidoscópio ao sabor de cada emoção passageira, ou como se não fosse senão algo móvel e nunca sedimentado, e lacrimoso, obsceno, removível na sua efemeridade abjeta, tempo que depois se transformou em tragédia, na ditadura militar, tempo em que se atravessa de viés, na minha vida e em tudo aquilo que se passou e que para mim ficou, de repente, velho e secreto.
A HISTÓRIA DOS AMANTES, 6
Na primeira vez que a recebi no Flamengo o contato de nossos corpos e o fato de estarmos juntos novamente descobriu na nossa relação um desconhecido ódio que explodiu com tal intensidade que me pergunto se Val não transferia para o espaço da cama as dimensões da sua luta de classes.
Eu tinha ido à casa de seus tios em Caxias, naquele anexo ao Bairro 25 de Agosto que era quase uma favela, lá onde me tornei amigo daquele jovem que depois se tornou em perigoso traficante, e onde, como eu insistisse e necessitasse muito, fomos primeiro a um cinema na Praça do Pacificador, e de lá para a deliciosa experiência sexual num hotel. Completamos nossa aventura saindo do hotel para o Flamengo, ao que ela inicialmente se opôs e onde ela terminou morando, a princípio indo lá algumas vezes, quando permanecia ali somente algumas horas, para depois pernoitar comigo, tomando juntos o nosso café da manhã com leite condensado e pão fresco, até chegar à época dos seus fins à praia de Copacabana e à tarde vermos o pôr-do-sol no Arpoador, e daí em diante, como eu a prendesse cada vez mais, convertendo-me em indispensável por um processo de sedução consciente e por artimanhas de que a fiz economicamente subordinada a mim, como a toda a sua família, seu pai não lhes deixara a mísera pensão, exonerado, perseguido e torturado que foi pelo sistema de repressão estatal, e ela viera para o Rio em companhia de sua mãe e sua irmã, ela não mais se libertou de meus laços e da sutil tessitura com que a envolvi totalmente. Eu precisava dela. Fi-la dependente economicamente de mim.
Logo no caminho da primeira vez que com ela vinha ao Flamengo, eu começando a me sentir completo com Val a meu lado, sem o medo devoluto de meu amor próprio acerca de tudo o que sou e tenho, contra tudo o que ela era e lutava, porque agora no Rio de Janeiro a nossa separação, urgente, aguda, vulnerável, vindicativa, seria humilhante: Val pela primeira vez se sentia, queimando-lhe a pele, na experiência concreta da sua classe, com cinco pessoas morava numa casa de quarto e sala num subúrbio cujo melhor e mais eufêmico adjetivo seria sujo (pois ao lado de sua casa começava uma grande depressão no terreno e uma área baldia que culminava num lago formado pelas chuvas e num posterior monturo de lixo, as pessoas despejavam o lixo de suas casas pela ribanceira onde muitos anos mais tarde surgiu uma Universidade), e o dinheiro começava a fazer falta a ela, que nunca, apesar da vida atribulada que vivera com seu pai perseguido, passara as privações da grande cidade, e via-se agora sem poder fazer, nalguns dias, todas as refeições, modestas que fossem, e se deu conta finalmente de que entre mim e ela havia uma separação bem delimitada de classe social, ela oriunda de uma classe média pobre que se proletarizara ainda mais, e eu vindo da alta burguesia decadente desde as fazendas de café de meu avô no Estado do Rio até a semiparalisia de meu pai, nós dois tínhamos empobrecido, mas eu ainda continuava membro de um respeitável sobrenome, que era da burguesia antiga, do campo, que resistia, classe residual e nunca totalmente extinta neste pais.
Por isso aquele amor lírico e louco que nos unia desde o fundo de nossas vozes juvenis, cantos, frases soltas e idílicas, deixava de existir e caíamos na nova realidade e com esforço eu ia ter de juntar os seus pedaços para ligá-los de novo, e o de que eu participava perto de Val eram dos estampidos noturnos dos tiros que se ouviam de sua casa quando quadrilhas disputavam o espaço de Caxias a palmo.
Meu esforço para que não se rompesse a declaração, tão bela, até então, de meu amor por Val se esbarrava nas experiências mais comezinhas, para mim inéditas; para ela fundamentais (como a de eu ter de dar o dinheiro para a sua subsistência e de sua mãe e irmã, que era como se eu a tivesse pagando, como a uma prostituta), fatos descosidos de que só sei o meu lado, que Val se encontrava naquele tempo no mais crítico estado de necessidade e oh, nunca pulei o muro e o rio de sangue, e de Val só sabia o que ela me outorgou o direito de saber, Val minha princesa, dona de meu corpo, ela deveria passar imediatamente para minhas definitivas mãos, ou eu corria o risco de a perder e de que ela se tornasse minha inimiga irrecuperável.
Pois ela, aparentemente frágil, bela, fácil mas diferente, na cândida aparência de menina humilhada, magoada, na feminina figura de uma Marilyn dos trópicos, começava a militar em não sei qual ala de um partido clandestino de esquerda que tinha, no Nordeste, na multiplicidade das Ligas Camponesas, a sua mais altiva voz, e quando ficávamos a sós nada revelava do que fazia no outro lado oculto da sua vida e abandonada, isolada, descontrolada se fechava em silêncio sem remédio acerca daquele seu lado obscuro, a tal ponto que, por certas manchas roxas em sua coxa um dia, eu comecei a desconfiar, e disso tenho quase certeza hoje, a tal ponto a conheço agora, de que ela em certas noites que não estava comigo ia fazer trabalho como prostituta profissional, perto de um hotel na Avenida Brasil, cuja freqüência deveria ser das mais perigosas, tudo isso para se ver livre de mim e de minhas custas.
Finalmente, como se não bastasse, e para aumento de minhas suspeitas e dúvidas, um dia, depois de comigo fazer amor, tendo ela ido para o banho e como eu procurasse um cigarro na sua bolsa, ali encontrei, negro, pesado, municiado, um 38 de cano curto que fiquei detidamente examinando, como a um monstro, sentado na beira da cama enquanto ouvia correr a água do chuveiro que caía da sua ducha fria sobre a cerâmica do piso.
Com apenas 23 anos, ou por causa disso, Val lutava pela mobilização das lutas operárias que explodiam no Nordeste. Sua vida não combinava com a de um Rôni então amante de motocicletas, de rock, enquanto concluía com certo brilhantismo o curso de Letras Clássicas e mergulhava na primeira redação das primeiras páginas de seu primeiro livro.
Mas, apesar das discordâncias e diferenças, acabamos nos entendendo, ela como ídolo vivo no ar vazio de minha imprecisa vida, como ideóloga de meu amor, pois eu era mais frágil do que reacionário. Ela me humilhou? Nunca me humilhou ideologicamente, mas eu sabia que, se quisesse, poderia me ferir. Me dominava, como durante o ato de amar. Eu a temia. Não. Não consigo me libertar da liberdade dela.
Ela era livre demais para mim. Mas sempre voltava. Como para um lugar sossegado após a tempestade. Ela me mantinha na ilusão de que eu não estava só. Mas em algo que não sei explicar com clareza, ela se parecia com minha avó Madalena.
Eu tinha ido à casa de seus tios em Caxias, naquele anexo ao Bairro 25 de Agosto que era quase uma favela, lá onde me tornei amigo daquele jovem que depois se tornou em perigoso traficante, e onde, como eu insistisse e necessitasse muito, fomos primeiro a um cinema na Praça do Pacificador, e de lá para a deliciosa experiência sexual num hotel. Completamos nossa aventura saindo do hotel para o Flamengo, ao que ela inicialmente se opôs e onde ela terminou morando, a princípio indo lá algumas vezes, quando permanecia ali somente algumas horas, para depois pernoitar comigo, tomando juntos o nosso café da manhã com leite condensado e pão fresco, até chegar à época dos seus fins à praia de Copacabana e à tarde vermos o pôr-do-sol no Arpoador, e daí em diante, como eu a prendesse cada vez mais, convertendo-me em indispensável por um processo de sedução consciente e por artimanhas de que a fiz economicamente subordinada a mim, como a toda a sua família, seu pai não lhes deixara a mísera pensão, exonerado, perseguido e torturado que foi pelo sistema de repressão estatal, e ela viera para o Rio em companhia de sua mãe e sua irmã, ela não mais se libertou de meus laços e da sutil tessitura com que a envolvi totalmente. Eu precisava dela. Fi-la dependente economicamente de mim.
Logo no caminho da primeira vez que com ela vinha ao Flamengo, eu começando a me sentir completo com Val a meu lado, sem o medo devoluto de meu amor próprio acerca de tudo o que sou e tenho, contra tudo o que ela era e lutava, porque agora no Rio de Janeiro a nossa separação, urgente, aguda, vulnerável, vindicativa, seria humilhante: Val pela primeira vez se sentia, queimando-lhe a pele, na experiência concreta da sua classe, com cinco pessoas morava numa casa de quarto e sala num subúrbio cujo melhor e mais eufêmico adjetivo seria sujo (pois ao lado de sua casa começava uma grande depressão no terreno e uma área baldia que culminava num lago formado pelas chuvas e num posterior monturo de lixo, as pessoas despejavam o lixo de suas casas pela ribanceira onde muitos anos mais tarde surgiu uma Universidade), e o dinheiro começava a fazer falta a ela, que nunca, apesar da vida atribulada que vivera com seu pai perseguido, passara as privações da grande cidade, e via-se agora sem poder fazer, nalguns dias, todas as refeições, modestas que fossem, e se deu conta finalmente de que entre mim e ela havia uma separação bem delimitada de classe social, ela oriunda de uma classe média pobre que se proletarizara ainda mais, e eu vindo da alta burguesia decadente desde as fazendas de café de meu avô no Estado do Rio até a semiparalisia de meu pai, nós dois tínhamos empobrecido, mas eu ainda continuava membro de um respeitável sobrenome, que era da burguesia antiga, do campo, que resistia, classe residual e nunca totalmente extinta neste pais.
Por isso aquele amor lírico e louco que nos unia desde o fundo de nossas vozes juvenis, cantos, frases soltas e idílicas, deixava de existir e caíamos na nova realidade e com esforço eu ia ter de juntar os seus pedaços para ligá-los de novo, e o de que eu participava perto de Val eram dos estampidos noturnos dos tiros que se ouviam de sua casa quando quadrilhas disputavam o espaço de Caxias a palmo.
Meu esforço para que não se rompesse a declaração, tão bela, até então, de meu amor por Val se esbarrava nas experiências mais comezinhas, para mim inéditas; para ela fundamentais (como a de eu ter de dar o dinheiro para a sua subsistência e de sua mãe e irmã, que era como se eu a tivesse pagando, como a uma prostituta), fatos descosidos de que só sei o meu lado, que Val se encontrava naquele tempo no mais crítico estado de necessidade e oh, nunca pulei o muro e o rio de sangue, e de Val só sabia o que ela me outorgou o direito de saber, Val minha princesa, dona de meu corpo, ela deveria passar imediatamente para minhas definitivas mãos, ou eu corria o risco de a perder e de que ela se tornasse minha inimiga irrecuperável.
Pois ela, aparentemente frágil, bela, fácil mas diferente, na cândida aparência de menina humilhada, magoada, na feminina figura de uma Marilyn dos trópicos, começava a militar em não sei qual ala de um partido clandestino de esquerda que tinha, no Nordeste, na multiplicidade das Ligas Camponesas, a sua mais altiva voz, e quando ficávamos a sós nada revelava do que fazia no outro lado oculto da sua vida e abandonada, isolada, descontrolada se fechava em silêncio sem remédio acerca daquele seu lado obscuro, a tal ponto que, por certas manchas roxas em sua coxa um dia, eu comecei a desconfiar, e disso tenho quase certeza hoje, a tal ponto a conheço agora, de que ela em certas noites que não estava comigo ia fazer trabalho como prostituta profissional, perto de um hotel na Avenida Brasil, cuja freqüência deveria ser das mais perigosas, tudo isso para se ver livre de mim e de minhas custas.
Finalmente, como se não bastasse, e para aumento de minhas suspeitas e dúvidas, um dia, depois de comigo fazer amor, tendo ela ido para o banho e como eu procurasse um cigarro na sua bolsa, ali encontrei, negro, pesado, municiado, um 38 de cano curto que fiquei detidamente examinando, como a um monstro, sentado na beira da cama enquanto ouvia correr a água do chuveiro que caía da sua ducha fria sobre a cerâmica do piso.
Com apenas 23 anos, ou por causa disso, Val lutava pela mobilização das lutas operárias que explodiam no Nordeste. Sua vida não combinava com a de um Rôni então amante de motocicletas, de rock, enquanto concluía com certo brilhantismo o curso de Letras Clássicas e mergulhava na primeira redação das primeiras páginas de seu primeiro livro.
Mas, apesar das discordâncias e diferenças, acabamos nos entendendo, ela como ídolo vivo no ar vazio de minha imprecisa vida, como ideóloga de meu amor, pois eu era mais frágil do que reacionário. Ela me humilhou? Nunca me humilhou ideologicamente, mas eu sabia que, se quisesse, poderia me ferir. Me dominava, como durante o ato de amar. Eu a temia. Não. Não consigo me libertar da liberdade dela.
Ela era livre demais para mim. Mas sempre voltava. Como para um lugar sossegado após a tempestade. Ela me mantinha na ilusão de que eu não estava só. Mas em algo que não sei explicar com clareza, ela se parecia com minha avó Madalena.
A HISTÓRIA DOS AMANTES, 7
Val trabalhou comigo durante cinco meses na segunda redação de minha novela. Ditava modificações no texto e no enredo, atuava na simplificação do meu estilo (sempre tendendo a ser empolado), me indicava pontos fracos.
Devo tudo a ela.
Graças a ela meu primeiro livro ficou razoavelmente bom.
Ela passou toda a sua experiência feminina para meu texto.
Por fim datilografou as duzentas e vinte e cinco páginas e o livro se transformou numa novela epistolar, em que o telefonema substituiu a carta, podendo-se dizer que era uma estória telefônica, e ali dois jovens se correspondiam, prometendo amor eterno, encontrando-se às escondidas para fazer amor. Todas as incertezas dos jovens estão ali. O diálogo está muito solto, belo, real, extraído de nossas próprias conversações.
Mas foi difícil de vender.
A Editora Prometeu, de São Paulo, o publicou às minhas custas, sem muito alarde, mas com aquela capa colorida em que um jovem motociclista tomava nos braços a exuberante e sensual loura. O rapaz parecia dizer algo que ela quase já não ouvia, inebriada.
A primeira edição custou, mas se esgotou. Era pequena. Não foi um sucesso, mas uma única referência critica que ganhei valeu uma consagração: a do Mestre Alceu Amoroso Lima, meu professor de Literatura Brasileira, amigo de minha avó, que escreveu pequena carta sobre as relações entre o amor divino e o amor profano, provocado pela leitura de meu livro, que ele elogiava em duas breves linhas como um "romance sentimental bem escrito". O pequeno texto dele era uma de suas obras-primas. Aquelas duas linhas, publicadas quando a primeira edição do livro já estava quase esgotando, para mim, eram como se me lançassem no panorama das letras nacionais como um jovem promissor.
Depois, publiquei alguns contos no Correio da Manhã.
A grande intelectualidade, porém, não me reconhecia. Nem poderia. O meu trabalho literário saía numa época em que, alem do Concretismo, havia escritores como Cabral e João Guimarães Rosa (com quem longamente conversei, acerca de "Grande sertão: veredas", na porta da Academia). Havia um apogeu cultural até hoje insuperável. De certo modo eu era escritor desconhecido e sem sucesso de crítica e de venda.
Assim comecei a vida literária e me tornei um profissional dessa rara profissão, ainda que vivesse mesmo dos aluguéis dos imóveis que vinha avó me deixou.
Formei-me em Letras Clássicas e sonhava casar-me com Valquíria numa igreja engrinaldada, saindo no dia seguinte para Cabo Frio. Eu era feliz.
Mesmo a essa altura ainda me sinto desnorteado para encontrar a via segura que me contará os passos dessa história. Val se transforma cada vez que a penso.
No inicio da década de 60 ela começou a estudar inglês, a ler muito, a fazer psico-análise. Cuidava tardiamente de sua educação, com 29 anos. Acabou dominando razoavelmente o idioma, passou depois para a terapia grupal, escreveu poemas, lia os principais jornais e dois livros por semana. Ia ao cinema, ao teatro, mas continuava reticente quanto à música erudita, de que eu gostava. Dizia que eu era colonizado culturalmente e desligado do real. Quando estávamos juntos púnhamos no toca-disco a bossa-nova, Baden Powell, Tom.
Seus prediletos.
Mas nossos problemas sempre recomeçavam, nunca resolvidos, indenes.
Houve um período, entretanto, em que ela se demorou seguidamente, quase um mês, em minha casa: estava eu escrevendo o roteiro do meu próximo livro.
Val ideal, cuidando da casa, conforme meus padrões machistas, cuidando de mim, eu não me sentia só, era tratado e amado por ela. Foi uma época sem grandes ciúmes, Val me empurrando. Na carreira de escritor.
Numa noite de dezembro de 63 Val chegou tarde excessivamente agitada. Gritava, incompreensível e apavorada. Tinha os cabelos amarrados na nuca, como uma camponesa, e vinha de uma reunião política.
Eu estivera relendo "Crime e castigo" e já começava a adormecer quando ela me acordou, chegando.
- Que aconteceu? perguntei, vendo o seu estado.
- Tive um atrito, provoquei um tumulto, mandei todos à merda. Mas eles não me levam a sério porque sou mulher...
E foi falando, falando, enquanto tirava a roupa, procurava um cigarro, dirigindo-se para o banho. Não encontrava um copo, bebia com a garrafa na mão.
- O quê? perguntei, acompanhando-a.
- Uns merda! Rôni, uns merdas. E burros! - gritava, como se quisesse acordar todo o bairro.
- Quem? perguntei.
- Todos! Todos eles!... Não vêem o que está na cara de todos! Pensam que reforma de base é revolução socialista, forçam a barra, tumultuam o país e vão provocar uma reação armada da direita. Uns merdas! Tumultuam o país para provocar uma reação de direita!
- Mas você não é a favor das reformas de Jango? perguntei.
- Sim, Roninho, respondeu ela com a paciência inesperada com que falaria a uma criança: Mas é preciso compreender as reformas de base. O país é enorme, e as bases estão longe de serem amadurecidas... Há poucos anos, na época de Getúlio, ainda vivíamos nas cavernas... O povo é muito conservador, a sua consciência ainda está em formação, tanto a massa proletária, quanto a classe média. Não é fazendo greve todo dia que se vai amadurecer a consciência nacional, a consciência de classe. O pais está à beira do abismo, do caos, mas não da revolução, entenda, mas não da revolução!
Ela gritava:
- Filhos da puta! A esquerda está empurrando o pais para o caos. A direita vai jantar! As reformas de base, tal como propostas por Jango, de cima para baixo, servem apenas para neutralizar a revolução, uma proposta social-democrata.
- Mas não desenvolvem o país? perguntei.
- Sim, disse ela, já nua, já dentro da ducha do banheiro. Mas o pessoal tá fazendo greve contra o próprio Jango. Tomaram dele a liderança das reformas de base, da pseudo-revolução, querem radicalizar. Jango perdeu o controle, está forçado a reagir, empurram-no para o lado conservador. Jango é um palerma, está acuado, terá de renunciar, vai cair, e eu "sei" que não virá um governo popular, porque não pode vir, porque não temos nenhuma base política no país. A esquerda e a direita se encarregarão de derrubá-lo. A serviço de quem, meu Deus? A quem interessa? As reformas de base fazem parte de uma conjuntura ocidental para evitar outra revolução cubana no Terceiro Mundo. Esse pessoal é louco, querem agora forçar o presidente a uma reforma agrária, quando o próprio presidente é um latifundiário. Pensam que Jango vai lutar contra seus interesses.
- E o que você acha que se devia fazer?
- Aproveitar o que for possível das reformas de base sem tumultuar o cenário, fortalecer o governo de Jango, apoiá-lo para conseguir o que for possível, pacificamente. E tocar o bonde! Não podemos forçar o governo à uma reação contra as reformas, a dar um passo atrás, empurrá-lo para os braços da reação. Estão querendo demais dele. Ele não tem essa força política, Rôni. Não tem! Essa estória de mobilização popular é um perigo, não se fabrica uma revolução num país como o nosso, há mais líderes de esquerda à serviço da direita do que você pensa... Eu vou cair fora! Filhos da puta! Eles não me levam a sério porque sou mulher!
- Não entendo uma coisa... - comecei a dizer. Mas ela me interrompeu:
- Você vai ver, Rôni. Jango vai cair, as forças que o apóiam se radicalizaram e estão desvairadas, se afastaram dele, o deixaram nu e acossado. Suas reformas são vistas como uma revolução pelos Estados Unidos, ele não pode ficar mais à esquerda do que já está. Ele está só. Não pode radicalizar, pois é apenas um reformista... Há um erro, Rôni, um grande erro... Esse pessoal não segue nem o Manifesto de Marx. Estão a serviço da direita? Hem? Responda-me?
Seus olhos fuzilavam.
- Acalme-se, disse-lhe eu. Beba.
Eu lhe passava um copo de uísque para dentro do boxe. Val estendeu a mão cheia de espuma. Bebeu um grande gole.
- Obrigada, disse-me.
Devo tudo a ela.
Graças a ela meu primeiro livro ficou razoavelmente bom.
Ela passou toda a sua experiência feminina para meu texto.
Por fim datilografou as duzentas e vinte e cinco páginas e o livro se transformou numa novela epistolar, em que o telefonema substituiu a carta, podendo-se dizer que era uma estória telefônica, e ali dois jovens se correspondiam, prometendo amor eterno, encontrando-se às escondidas para fazer amor. Todas as incertezas dos jovens estão ali. O diálogo está muito solto, belo, real, extraído de nossas próprias conversações.
Mas foi difícil de vender.
A Editora Prometeu, de São Paulo, o publicou às minhas custas, sem muito alarde, mas com aquela capa colorida em que um jovem motociclista tomava nos braços a exuberante e sensual loura. O rapaz parecia dizer algo que ela quase já não ouvia, inebriada.
A primeira edição custou, mas se esgotou. Era pequena. Não foi um sucesso, mas uma única referência critica que ganhei valeu uma consagração: a do Mestre Alceu Amoroso Lima, meu professor de Literatura Brasileira, amigo de minha avó, que escreveu pequena carta sobre as relações entre o amor divino e o amor profano, provocado pela leitura de meu livro, que ele elogiava em duas breves linhas como um "romance sentimental bem escrito". O pequeno texto dele era uma de suas obras-primas. Aquelas duas linhas, publicadas quando a primeira edição do livro já estava quase esgotando, para mim, eram como se me lançassem no panorama das letras nacionais como um jovem promissor.
Depois, publiquei alguns contos no Correio da Manhã.
A grande intelectualidade, porém, não me reconhecia. Nem poderia. O meu trabalho literário saía numa época em que, alem do Concretismo, havia escritores como Cabral e João Guimarães Rosa (com quem longamente conversei, acerca de "Grande sertão: veredas", na porta da Academia). Havia um apogeu cultural até hoje insuperável. De certo modo eu era escritor desconhecido e sem sucesso de crítica e de venda.
Assim comecei a vida literária e me tornei um profissional dessa rara profissão, ainda que vivesse mesmo dos aluguéis dos imóveis que vinha avó me deixou.
Formei-me em Letras Clássicas e sonhava casar-me com Valquíria numa igreja engrinaldada, saindo no dia seguinte para Cabo Frio. Eu era feliz.
Mesmo a essa altura ainda me sinto desnorteado para encontrar a via segura que me contará os passos dessa história. Val se transforma cada vez que a penso.
No inicio da década de 60 ela começou a estudar inglês, a ler muito, a fazer psico-análise. Cuidava tardiamente de sua educação, com 29 anos. Acabou dominando razoavelmente o idioma, passou depois para a terapia grupal, escreveu poemas, lia os principais jornais e dois livros por semana. Ia ao cinema, ao teatro, mas continuava reticente quanto à música erudita, de que eu gostava. Dizia que eu era colonizado culturalmente e desligado do real. Quando estávamos juntos púnhamos no toca-disco a bossa-nova, Baden Powell, Tom.
Seus prediletos.
Mas nossos problemas sempre recomeçavam, nunca resolvidos, indenes.
Houve um período, entretanto, em que ela se demorou seguidamente, quase um mês, em minha casa: estava eu escrevendo o roteiro do meu próximo livro.
Val ideal, cuidando da casa, conforme meus padrões machistas, cuidando de mim, eu não me sentia só, era tratado e amado por ela. Foi uma época sem grandes ciúmes, Val me empurrando. Na carreira de escritor.
Numa noite de dezembro de 63 Val chegou tarde excessivamente agitada. Gritava, incompreensível e apavorada. Tinha os cabelos amarrados na nuca, como uma camponesa, e vinha de uma reunião política.
Eu estivera relendo "Crime e castigo" e já começava a adormecer quando ela me acordou, chegando.
- Que aconteceu? perguntei, vendo o seu estado.
- Tive um atrito, provoquei um tumulto, mandei todos à merda. Mas eles não me levam a sério porque sou mulher...
E foi falando, falando, enquanto tirava a roupa, procurava um cigarro, dirigindo-se para o banho. Não encontrava um copo, bebia com a garrafa na mão.
- O quê? perguntei, acompanhando-a.
- Uns merda! Rôni, uns merdas. E burros! - gritava, como se quisesse acordar todo o bairro.
- Quem? perguntei.
- Todos! Todos eles!... Não vêem o que está na cara de todos! Pensam que reforma de base é revolução socialista, forçam a barra, tumultuam o país e vão provocar uma reação armada da direita. Uns merdas! Tumultuam o país para provocar uma reação de direita!
- Mas você não é a favor das reformas de Jango? perguntei.
- Sim, Roninho, respondeu ela com a paciência inesperada com que falaria a uma criança: Mas é preciso compreender as reformas de base. O país é enorme, e as bases estão longe de serem amadurecidas... Há poucos anos, na época de Getúlio, ainda vivíamos nas cavernas... O povo é muito conservador, a sua consciência ainda está em formação, tanto a massa proletária, quanto a classe média. Não é fazendo greve todo dia que se vai amadurecer a consciência nacional, a consciência de classe. O pais está à beira do abismo, do caos, mas não da revolução, entenda, mas não da revolução!
Ela gritava:
- Filhos da puta! A esquerda está empurrando o pais para o caos. A direita vai jantar! As reformas de base, tal como propostas por Jango, de cima para baixo, servem apenas para neutralizar a revolução, uma proposta social-democrata.
- Mas não desenvolvem o país? perguntei.
- Sim, disse ela, já nua, já dentro da ducha do banheiro. Mas o pessoal tá fazendo greve contra o próprio Jango. Tomaram dele a liderança das reformas de base, da pseudo-revolução, querem radicalizar. Jango perdeu o controle, está forçado a reagir, empurram-no para o lado conservador. Jango é um palerma, está acuado, terá de renunciar, vai cair, e eu "sei" que não virá um governo popular, porque não pode vir, porque não temos nenhuma base política no país. A esquerda e a direita se encarregarão de derrubá-lo. A serviço de quem, meu Deus? A quem interessa? As reformas de base fazem parte de uma conjuntura ocidental para evitar outra revolução cubana no Terceiro Mundo. Esse pessoal é louco, querem agora forçar o presidente a uma reforma agrária, quando o próprio presidente é um latifundiário. Pensam que Jango vai lutar contra seus interesses.
- E o que você acha que se devia fazer?
- Aproveitar o que for possível das reformas de base sem tumultuar o cenário, fortalecer o governo de Jango, apoiá-lo para conseguir o que for possível, pacificamente. E tocar o bonde! Não podemos forçar o governo à uma reação contra as reformas, a dar um passo atrás, empurrá-lo para os braços da reação. Estão querendo demais dele. Ele não tem essa força política, Rôni. Não tem! Essa estória de mobilização popular é um perigo, não se fabrica uma revolução num país como o nosso, há mais líderes de esquerda à serviço da direita do que você pensa... Eu vou cair fora! Filhos da puta! Eles não me levam a sério porque sou mulher!
- Não entendo uma coisa... - comecei a dizer. Mas ela me interrompeu:
- Você vai ver, Rôni. Jango vai cair, as forças que o apóiam se radicalizaram e estão desvairadas, se afastaram dele, o deixaram nu e acossado. Suas reformas são vistas como uma revolução pelos Estados Unidos, ele não pode ficar mais à esquerda do que já está. Ele está só. Não pode radicalizar, pois é apenas um reformista... Há um erro, Rôni, um grande erro... Esse pessoal não segue nem o Manifesto de Marx. Estão a serviço da direita? Hem? Responda-me?
Seus olhos fuzilavam.
- Acalme-se, disse-lhe eu. Beba.
Eu lhe passava um copo de uísque para dentro do boxe. Val estendeu a mão cheia de espuma. Bebeu um grande gole.
- Obrigada, disse-me.
A HISTÓRIA DOS AMANTES, 8
Fomos para Búzios.
Mas, apesar de tudo, algumas vezes eu sentia indisfarçável e indefinível aborrecimento. Era quando eu começava a pensar que ela só estaria comigo por pouco tempo. Ou a percebia no meio de um certo vazio em que ela nada tinha para me dizer.
Tudo resistia à clareza com que eu tentava explicá-la no meio do que vivia. Expor minhas teses. Que a vida dela em Búzios, eu inicialmente pensava, estava ficando monótona, desagradável, longe do cenário político.
Mas eu estava enganado, conforme depois vi.
Todavia ela nada revelava do que estava se passando.
Sim, Val se desarticulava e era em vão que eu tentava rearmá-la no curso de minha ficção, ela não agüentando mais, eu unindo as partes que se soltavam dela, não deixando que seus detalhes mais importantes se perdessem, se desarticulassem. Mas ela se afinava, se adelgaçava e enfraquecia progressivamente, e eu não lhe podia valer. Nada a reanimava, nem mesmo nossas idas ao Rio, como a em que fomos conhecer Nara Leão no show «Opinião», e quando fomos ver «Vidas secas» de Nelson Pereira dos Santos e «Deus e o diabo na terra do sol» de Gláuber.
Mas Val não quis mais ir naqueles meses ao Rio com freqüência, pois seus amigos da CGT estavam presos, a UNE arrasada, os sindicatos sob intervenção militar.
Sim, começo a compreender que um dos meus fracassos com ela fora o casamento, que eu não devia nem podia ter casado, que tenho de viver na solidão somente para não desarticular o outro. Mas era um erro de que eu não me queria arrepender e de que não me arrependo até hoje, pois tinha sido uma necessária experiência.
Foi então que, inesperadamente, inexplicavelmente e de modo súbito e louco - Val disse que estava grávida.
Eu já devia ter notado que a nossa união se dava no meio de uma crise movida pela inexistência de outra motivação em minha vida, não sendo causa mas conseqüência vital.
O abismo onde sempre tenho a tentação de poder escorregar e cair como quem pisa cauteloso sobre uma ponte de tabuas podres se mostrava na minha frente. Mola do meu medo, castigo do meu casamento.
O fato de que Val nunca engravidava era para mim um permanente passaporte ao perigo da liberdade, que nada nos prendia se não tivéssemos filhos. A loucura básica do meu temperamento amante se dava na aparente e frágil solidez da nossa união, desde jovem, assegurada legalmente agora como eu sempre busquei nela, ela tão avessa à qualquer ligação duradoura. Mas a porta que ela deixava permanentemente aberta era um ponto de fuga que me ameaçava apunhalar pelas costas e a punha à salvo da desgraça de uma inevitável prisão - tese aliás de minha autoria - e o que eu poderia conseguir seria pedir que ela não me abandonasse em caráter definitivo, ou seja, nada a sério que viesse a me amedrontar ou corroer e desamparar. Ela podia sair - desde que voltasse!
Eu descobrira, então, que o fundamento de sua permanência, mesmo casada comigo, era só ilusória condição: ela poderia retirar-se a qualquer momento, cortando os laços frágeis da sua dependência com que se unira a mim, ela afetiva e emocionalmente para sempre emancipada.
Tudo isso eu considerava, explicando que era assim porque não tínhamos tido filhos - falta que fazia de nós um casal de certa maneira "errado".
Mas agora, pouco tempo depois de Carlos a possuir com aquela intensidade, o ter ela engravidado explodia em mim como uma bomba destruidora de tudo, como uma arrasadora arma que eu não podia assimilar de imediato.
Mas, apesar de tudo, algumas vezes eu sentia indisfarçável e indefinível aborrecimento. Era quando eu começava a pensar que ela só estaria comigo por pouco tempo. Ou a percebia no meio de um certo vazio em que ela nada tinha para me dizer.
Tudo resistia à clareza com que eu tentava explicá-la no meio do que vivia. Expor minhas teses. Que a vida dela em Búzios, eu inicialmente pensava, estava ficando monótona, desagradável, longe do cenário político.
Mas eu estava enganado, conforme depois vi.
Todavia ela nada revelava do que estava se passando.
Sim, Val se desarticulava e era em vão que eu tentava rearmá-la no curso de minha ficção, ela não agüentando mais, eu unindo as partes que se soltavam dela, não deixando que seus detalhes mais importantes se perdessem, se desarticulassem. Mas ela se afinava, se adelgaçava e enfraquecia progressivamente, e eu não lhe podia valer. Nada a reanimava, nem mesmo nossas idas ao Rio, como a em que fomos conhecer Nara Leão no show «Opinião», e quando fomos ver «Vidas secas» de Nelson Pereira dos Santos e «Deus e o diabo na terra do sol» de Gláuber.
Mas Val não quis mais ir naqueles meses ao Rio com freqüência, pois seus amigos da CGT estavam presos, a UNE arrasada, os sindicatos sob intervenção militar.
Sim, começo a compreender que um dos meus fracassos com ela fora o casamento, que eu não devia nem podia ter casado, que tenho de viver na solidão somente para não desarticular o outro. Mas era um erro de que eu não me queria arrepender e de que não me arrependo até hoje, pois tinha sido uma necessária experiência.
Foi então que, inesperadamente, inexplicavelmente e de modo súbito e louco - Val disse que estava grávida.
Eu já devia ter notado que a nossa união se dava no meio de uma crise movida pela inexistência de outra motivação em minha vida, não sendo causa mas conseqüência vital.
O abismo onde sempre tenho a tentação de poder escorregar e cair como quem pisa cauteloso sobre uma ponte de tabuas podres se mostrava na minha frente. Mola do meu medo, castigo do meu casamento.
O fato de que Val nunca engravidava era para mim um permanente passaporte ao perigo da liberdade, que nada nos prendia se não tivéssemos filhos. A loucura básica do meu temperamento amante se dava na aparente e frágil solidez da nossa união, desde jovem, assegurada legalmente agora como eu sempre busquei nela, ela tão avessa à qualquer ligação duradoura. Mas a porta que ela deixava permanentemente aberta era um ponto de fuga que me ameaçava apunhalar pelas costas e a punha à salvo da desgraça de uma inevitável prisão - tese aliás de minha autoria - e o que eu poderia conseguir seria pedir que ela não me abandonasse em caráter definitivo, ou seja, nada a sério que viesse a me amedrontar ou corroer e desamparar. Ela podia sair - desde que voltasse!
Eu descobrira, então, que o fundamento de sua permanência, mesmo casada comigo, era só ilusória condição: ela poderia retirar-se a qualquer momento, cortando os laços frágeis da sua dependência com que se unira a mim, ela afetiva e emocionalmente para sempre emancipada.
Tudo isso eu considerava, explicando que era assim porque não tínhamos tido filhos - falta que fazia de nós um casal de certa maneira "errado".
Mas agora, pouco tempo depois de Carlos a possuir com aquela intensidade, o ter ela engravidado explodia em mim como uma bomba destruidora de tudo, como uma arrasadora arma que eu não podia assimilar de imediato.
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