quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Paulo Augusto: FALO (integral)

Paulo Augusto

FALO

Rio de Janeiro, 1976




AVANT-PREMIERE
Não foi medo que senti
quando você imenso
- era a primeira vez –
me rasgou a blusa
inebriado e tonto.
Eu era virgem
como todo mundo um dia foi
mas isto não vem ao caso. Fardos pesados,
no canto do muro, tu e eu.
Vislumbrei à luz murcha da tarde
tua fortaleza pontiaguda
e me recordo: meu coração
recuou.
Mas juntei minhas forças todas
e num relance lembrei-me
que mamãe sempre dizia:

- Homem é para-mulher,
e mulher é para-homem.

VAE VICTIS

Sensação de cão sem plumas
a máscara
a farsa - o medo
isto tudo nasceu comigo.
A primeira mentira dita,
a gente se documenta,
se habilita
se exercita - e acaba se acostumando.
A enfermeira é porta-voz.
Oficiosa, a víbora morde, sopra,
e cospe um verbete: Homem!
Meu pai acredita,
minha mãe se deleita
o povo festeja. Bandeiras, discursos,
charutos - bandas de música.
Beberam o mijo do menino
magricela - sem lhe perguntar
sem lhe auscultar - a sina.
Toda festa tem seu preço.

Etiquetado, recebo no berço
a humanidade
me olhando e rindo
um riso que eu não entendo
e que não me larga.

Só não ri o anjo. que me protege
assexuado, a-ético, aéreo,
sobrevoando o meu ser
e dizendo:
- Vai, Paulo, ser gay na vida!
No espaço geográfico do discurso há-sumo.
Nihil obstat.

INTIMIDADE

Flagro admirado e grave
no meio do teu corpo insone
sob a névoa que o encobre
teu cabeludo pecado.
Lanço nele mãos sedentas
de fomes transcendentais.
Rolas sob o cobertor
procurando na floresta
densa e quente do meu ventre
a árvore os frutos doces
os doces frutos do amor

NO COMEÇO VOCÊ FOI MAIS GENTE

No começo você foi mais quente.
Entrava batendo a porta
correndo - me entregava as flores
murchas que o trem secou.
Rondava o prato de leite,
bichano, terno, barbudo,
olhava o mundo por mim.

No começo você foi mais gente.
Andava a rua comigo,
o braço apoiado - e eu
podia ainda beijar
teu rosto e saber por que.

No começo você foi eterno.
Parecia feito em sal.
Eu levava os lábios sôfregos
e ungia o teu corpo todo.
Você não se desprendia,
vibrava em mim,
vivia em mim
trepava.

No começo foi somente amor.

E NO ENTANTO É PRECISO VIVER

Caminhões continuam saindo
do Nordeste
carregando gente
como gado. E eu choro.
o homem que amo viaja
na carne brasileira,
no sangue latino
- trazendo um punhal.
Às 8 horas da noite
o continente estremece
e o povo não atina
o que fazer com os órgãos
genitais da gente.
E, no entanto, mil crianças
de todos os sexos
acabam de nascer.
Amarro minha fome de amor
fortemente
com os cordões de miséria
da minha cidade.
Boto as tropas na rua.
Temo pelo futuro. Danação.
Você que não sabe o que fazer da vida
pegue-me pela mão
e me carregue para o vazio
do que há-de-vir.
Eu também profundamente
entediado com isto tudo.
E, no entanto, é preciso viver.
As gerações futuras nada têm com isto.

O MEU AMOR PELOS HOMENS

No fundo eu gosto dos homens,
todos os homens,
de todas as cores.
Apesar de suas horas odiosas,
de suas lâminas
e de suas balas.
Com as suas discrepâncias e acima delas.

No fundo eles não são tão maus.
Até que a gente entenda
que a necessidade patrocina
dores, medos, lágrimas,
tiros, greves, convulsões.
Para entender o motor dos homens
humano é necessário ser.

No fundo meu amor emana
e os cobre, engloba,
engole-os.
Esqueço a face má que tem vez
mascaram para me assombrar
e os amo um pouco.

No fundo meu amor almeja
ser entre eles
e realizar-se comunistamente
como solução.

Se pudessem receber, todos,
eu dava, salmista,
todos os peixes
que meus olhos guardam
nos lagos sombrios, distantes,
que eu nunca vi.
No fundo os homens me amam
na mudança mútua de nossos ódios,
na troca de todos os beijos
por todas as balas.

No fundo meu amor abunda.
Através dele há de ser salvo
o mundo.

A MULHER QUE MORA EM MIM

A mulher que mora em mim
de noite sacode a saia,
remexe e bebe,
intumescida e apaixonada.
Nas noites que eu não quero
ela me atira nos braços
de homens que eu nunca vi.
Pensa, nostálgica, canta,
e embeleza o rosto
como um girassol.
Anda todas as ruas,
beija todos os homens,
se procura.
Encarcerada em minhalma
faz de mim ofício.
Requebra quando não vejo,
canta quando lamento,
romântica, frenética, bêbada.
Não me infunde medo,
mas só me apavora
quando nas horas graves
do meu dia
quer sair para trottoir.
Feroz, voraz, insana,
quer amar a cidade inteira,
ser anel de toda mão,
chapéu de toda cabeça.
Aprendi a gostar dela
e dos sons arroubos
um pouco demoradamente.
Coexistimos equilibrados,
largos e satisfeitos
a maior parte do tempo.
Há dias que ela alucina:
quando eu durmo ela acorda,
quando canto ela cala,
silencia quando falo.
Me investe,
me explora,
me oprime - mas eu gosto.
Compreendi finalmente
que em mim está vivendo
a síntese crucial do mundo:
aqui os contrários se unem,
poderosa, apaixonada, eterna
e furiosamente.

SYSTEM-ATTICA

Porque sou fresco,
hábil, lépido,
a gerontocracia sente medo,
se arrepia
como um rato.
Cospe leis, editos, atos.
Se agasalha, modorrenta, rouca,
recua
na cadeira de balanço
botando graxa
na dobradiça das pernas.
A tosse, a vista cansada,
a velha despótica me espreita.

Quando exibo meu porte,
meu corte,
me chama de trans
viado
me cobra pedágio - a doida
quer me ver casado,
parindo mão-de-obra
para eternizá-la.
Para destruí-la, esterilizo-me.
Minha praxis.
Por puro capricho
me amedronta, me persegue, me degrada.
Nego, renego, faço ouvido mouco.
Se me encontra pela rua
madrugada
quer violentar-me,
ver meus documentos,
me revista e se delicia
apalpando minhas partes,
pensa em coito.
Nego, renego, abomino.
E ficamos eternamente
nessa cachorrada.

Quer me tributar,
me chupar – foder-me
porque sabe que é maravilhoso,
ser fresco
como um dia de Domingo
ensolarado e pendurado
no varal.

EU ERA O OUTRO

Cúmplice de teu medo,
assombrei-me com o mundo.
Calei, me deixei ficar, perdi-me.
Cúmplice da tua vontade,
existi para os teus ditames,
para os teus atos, farto, cupincha.
Cúmplice do teu ódio,
não apertei os gatilhos,
vi somente cair os corpos.
Cúmplice de tua hipocrisia,
emudeci, neguei-me, aceitei.
Cúmplice de tua fome,
fartei-me na tua mesa,
bebi do teu doce vinho,
gargalhei dos teus prazeres.

Hoje não penso nisto, não.
Bastam as dores do olho,
do meu visor, do meu ângulo.
Sofrer, não - esquecer...
O mundo é outro hoje,
há outras caras na sala,
mas não quero mais ser ninguém.

UM HOMEM LÁ DO NORDESTE?

Nordestino sim
com fome e com sede
de amor
e justiça - dinheiro,
no coldre, no Banco,
longe da mão e dos olhos.
Nordestino sim,
dos cabras da peste,
de esquistossomose,
do Bumba-rneu-boi,
um bamba,
uma bomba,
uma pomba,
da paz e do grito
- barriga vazia,
pregada no espinhaço.

Lampião jogava a criança
pra riba,
a criança sorria,
o céu era azul,
o vento bom.
A criança abundância,
a criança gorducha,
o povo espiava:
- Oh! quanta sustança!
Lampião recebia a criança
na ponta da faca.

HOMEM COME CARNE HUMANA NO CARIRI

Homens comendo homens,
com farinha e pinga,
comendo paçoca de carne
de bunda - mole e fresca.
Nordestino véio!
Eita... muié macho sim sinhô...
Das bandas da Borborema
nordestino no meio dos cabras,
com enxerimento,
a fome danada
- ô peste!
Come diabo,
o que é do homem o bicho não come.
Homo-sensual,
mulé, fulô
- um cabra da peste
que pinta os beiços.
Um frege da gota.

- Que friage é essa, bichim?
- Num é chuva, não, meu pai.
Padim Ciço vai matar nós tudo.

Come, Aderaldo, canta,
bebe,
espanta Belzebu.

Nordestino no meio do mato
alisando a batata
da perna, chupando
cana caiana.
- Tá cum a bixiga lixa!
Êta, Severino duma gota.
Gosta, se demora,
no meio, do verde
do cacto, sentado
na coroa avermelhada
de padre - a secura.
A frescura - o medo.
Esta seca é braba, ô xente!
Nós sofre, mas nós goza...
Come Severo, come...
Este mando todo é teu.

DECRETO EM CORDEL

Para democratizar
o amor
o decreto ora assinado
determina:
todo humano tem direito
de possuir uma fonte
de plena gratificação.
Principalmente no Norte,
no Nordeste
e em Mato Grosso
caravanas vão correr
distribuindo carinhos
afagos e beijos,
apertos de mão.
Onde houver necessidade,
onde houver irmão faminto
terá conforto no peito –
sossegarás coração!
Se faltar mulher ou homem,
pra fazer um par certinho –
atenção compatriotas:
Aqueles que apreciam
carinhos por outras rotas,
atenção, eu peço agora,
trabalhas pro teu irmão,
faz pra eles que em troca
tu terás compensação.
Abençôo e dou partida
Nessa comunicação.
Levem meu consentimento,
Colaborem com a nação.

ESTATUTO

Ser bicha é ser enquadrado
no inciso C
do parágrafo terceiro
do artigo 24
da lei de segurança inter
nacional.

É ter medo à flor da pele,
é ter a língua ferida,
a boca rubra,
o beijo fácil,
o amor saindo pelos poros.

Ser bicha é um estado de espírito,
de choque, de sítio,
de graça.

Como o artista pinta seu quadro,
como a luz que filtra
a janela do quarto
a lua bojuda no céu.

Ser bicha: ser inspecionado,
é ter revirado o passado
e investigado o medo –
subindo o cheiro saudoso
dos primeiros tempos.

É a polícia, acesa e trêmula
no encalço do baitola
amedrontado.

Ser bicha é ser metade gente,
a outra metade - o povo,
gargalha garganta a dentro
ri e galhofeiro.

É Ter parte com o demônio,
aprendiz de feiticeiro.
É estar entre, no meio, ser meta-de
Outros homens.

ATENTADO AO PUDOR

Para prender-me
a polícia
por a-tentar
- o pudico e ávido
público
termina por decifrar
a mensagem
dos órgãos de segurança
sexual
e mergulha
sob as cobertas
comigo.
Deliciosamente infratores
simultaneamente
gozamos
entre relinchos, unhadas,
beijos e coronhadas.

FELICIDADE

Procuro a felicidade
como quem cata uma agulha
às quatro horas da tarde
num matagal do arrabalde.

A polícia me vicia.
A-guarda, solícita, me guarda.
E permanece à distância
expectando fuxicos.

Duas mãos que me procuram
liames, cordas, arames,
se perdem - me perdem
no matagal de arrabalde
onde a felicidade
às quatro horas da tarde
é uma agulha
que a polícia aparvalhada cata
sem nunca achar - a gente
sempre perdendo.

O jogo.

PETIÇÃO TERRORISTA

Um dia que eu estava quieto
João revelou que me amava.
Incendiei.
Como se um jorro
de napalm me tivesse atingido.
Meu coração, desolada cratera,
vi João. Como uma pluma,
um B-52,
possante, rijo, sobrevoava minhalma.
Fui aos ares.
Desfraldei-me,
a ouvir bandas marciais.
Olhei atento seus olhos,
medi seu porte, senso
e falo:
- João, pense no que diz como se morresse.
A vida eu vejo
como um desdobramento de mortes.
Quero viver todas elas.
Ele me olha, nostálgico.
Seus cílios, arames farpados,
fecham-se comigo dentro.
Eu vejo:
mulheres batendo roupas,
as panelas vazias, um filho
repulsivo no colo,
os cabelo de azinhavre,
os dentes postiços,
a missa aos domingos
e a xepa no final da feira.
- Não, João. Mata-me três vezes,
para lavar tua honra
pois eu te trai - agora,
mesmo antes de dizer
que aceito.

POEMA PARA AS MÃOS DE ANTÔNIO

Essa mão que me segura
pelo pescoço,
me sacode
e me revista,
essa mão eu amo.

Toda vez que vai ao coldre
leva um beijo meu.

Se atira pedras
e arrebenta vidros,
assusta gente, cidades,
eu gozo - ela é minha.

Nas sombras de minhas colchas
desliza atrevida
em partes que eu não permito.

Silencia, vibra, fala
- abarca tudo que vê,
ambiçiosa e chula.

Se peço que pare,
avança - adoro!
Louca, impura, grossa,
entra aonde não deve,
cava, coça, atira e treme,
goza - banha-se
no meu torpor,
vive para acarinhar
meu rosto
e me bater
se grito
quando quer me amar.

NA PENSÃO A FLOR DE MINAS

O rapaz do quarto 14
é rebento, 24 anos,
da tradicional família mineira.
Olhou nos meus olhos
um dia
seu pecado feito carne
e viu meus cílios baterem.
Ele estremece,
foge o olhar - mas fala.
Disse-me que tem muito medo.
Nas noites frias de junho
ele atravessa a sala
e demora-se no banheiro.
Passa pela minha porta,
estou no leito,
mas não vejo, sinto.
O chão de táboas me diz
que ele foi para lá
ou que ele está de volta.
Me olha, estremece, tem medo.
Eu gosto de vê-lo assim
e ele me parece
feliz quando meus cílios batem
e descobre no meu olho
seu pecado feito gente.
Ouço tudo que acontece
dentro dele
no quarto 14.
Sua comunicação é na cama,
quando gira, tosse,
contorce seu medo - ela range,
ele ruge, mas não tem coragem.
Deitado, espero, seu pecado,
batendo os cílios e lembrando
a disciplinar Minas Gerais.
Seu pecado, a vontade, deitado
estou sempre,
esperando que na ida para o banheiro
a cupidez mineira
da família tradicional
permita o medo dele vir
pelo meu quarto
misturar na noite fria de junho
nossas humanidades
no pecado amplo,
fofo,
que deitado estou para isso...

RAÇÃO BALANCEADA

Pudibundo, aparatoso,
o homem togado,
convicto e obeso,
absolve o criminoso
de guerra – patriota,
festejando sua indômita
e voraz bravura.

Tem pressa, tamborila,
a voz, rouca, tange:
- O próximo!
As grades rangem,
Rebanhos pastam, aguardam
a vez.
Vadios, prostitutas,
bichas loucas,
estelionatários
que um camburão despejou lá fora.

Fedem.

O magistrado ri, balofo,
cego e balança a saia.
Protege a nação
da desregulada
e momentosa dissolução
dos costumes.
Grave e generoso,
grasna: - O próximo!
O código bordeja a corja
- a sala cheia, barganha.
Como reza a lei,
a salvo a tradição fica
de famílias quietas
a gerar mundanas, a
desovar foras-da-lei
inéditos e rechonchudos.

PESADELO

Pari chorando
horrivelmente
sonhos impossíveis.
Através o túnel da ilusão
flutuei, boiando no fog
e alcancei, nem mesmo lembro
como
o éter.
Terremoto, uma hecatombe linda.
Pluralista em cores.
Os bancários na rua,
Plaqueando remorsos,
Angústias – inutilmente...
No rol dos ratos
o chefe – Camundongo-Mestre,
liberalizando remessas
para o exterior
do sonho nacional.
Um filme pornográfico
no horário nobre,
um grito ensurdecendo
a gente no subway
e longe, muito longe
na Praia de Iracema
você sob uma palmeira.

VIDA-MEDO

Olho para ele embevecido.
Ânsia voraz de agarrá-lo.
AS BARREIRAS.
Busco seu olhar,
fugindo, fugindo, fugindo.
Nessas horas, persevero.
AS BARREIRAS.
Vou para o outro lado.
Mudo a tática.
Deixo me ver -à luz do sol.
Os olhos, fugindo.
- a chance, fugindo.
Sempre as barreiras, sempre.
É preciso ter consciência
de nossa profunda inutilidade
para suportar o estabelecido.

TEU CORPO

Deitado sobre o teu corpo
esqueço o quanto sou mau,
esqueço o quanto sofri,
esqueço a panela no fogo.

A maciez do teu corpo,
a gramínea, o preto
do pelo, o tecido da pele,
tudo me traz arrepios,
tudo me faz melancólico,
tudo me acende e me apaga.

Anúncio luminoso,
luz de vela,
encrespo-me nos teus braços,
perco-me pelas tuas portas
decoradas e indecorosas
e beijo a tua carcaça.

Teu olho preto, chupo,
longo tempo - tremo,
como se mamãe chegasse
de mansinho e eu pudesse
ver que ela me olha e me quer.
Pálida, quieta, cálida.

Redemoinhas meu cérebro,
e traz aflições ver-te assim,
inerte, frio, sabendo
que ainda há pouco
eras vida
minha
- e agora és morte.
Eternidade que vou aturar
a carregar pela vida inteira
teu féretro.
Morre, Antônio, morre e me esquece!

BALADA PARA MADAME SATÃ

Madame Satã,
acabaram de me contar
que você andou por aqui.
Não forneceram detalhes,
mas eu imagino.

Gostaria de saber de ti:
possuias algum cãozinho,
cativo, para alimentar?
Havia o teu, particular,
que afagavas e, modorrento,
botavas para dormir - cheiroso?...

Sim - madame divina!
eu penso.
Precursora, poderosa,
Lampião do asfalto.
A Lapa tremia contigo,
vibrava, amava contigo,
trepava.

Pelo menos ficou urna certeza:
vão demolir toda a Lapa,
mas teu nome vai ficar,
enorme - suspenso no ar.
Bojudo, grave,
prenhe de emoção e de glória.

Eu agora estou no palco,
Samuai,
que foi o teu viver.
Mas não tenho tua força
de expressão,
a ginga.
Ogum não quis me dar
- ele sabe...
o chapéu de Panamá, a voz,
as noites, o bordel.
Tudo isto era muito teu,
muito nosso.
Gostaria de te cochichar
as últimas que ouvi na Lapa.
O malandro aposentou-se,
Vive agora de welfare state,
a noite agora é outra,
poluída, massiva,
Lasciva, ainda, mas morta.
Levaste um pouco da Lapa,
ou tudo - a Lapa
não é mais aquela.
Trocaram muito de vez,
e a bunda dela agora é kitch,
sucesso, fora de ângulo, démodé
Ficou teu brinco, o charme,
a tônica, a perna no ar,
capoeira e pinga.
As paredes da Lapa, Satã,
são eternas,
e nelas você está definitivamente,
preto, feroz, uma pedra.

PORTARIA INTRUSA

Uma portaria caiu
de súbito
estrondosa
mente
sobre o meu desejo.
Para minha segurança,
vela, pontiaguda, e não
me sacia,
inquieta-me.
Faz renascer em meus
anos
sabores estupefacientes
de noctívagas buscas.
Arregalo os olhos
e vejo o inciso
perpetrando introduções
no meu ser –
insolente, arranhando
minhas paredes retais
em busca do meu centro.

AVISO
AOS NAVEGANTES

HOJE - AQUI - GRÁTIS

FARTA DISTRIBUIÇÃO DE AFAGOS E CARGAS ERÓ-
-TICAS. EXCLUSIVAMENTE PARA OS EXTRAVIADOS
E DESOCUPADOS DESTE BAIRRO. PEDIMOS AOS
NAMORADOS E PESSOAS EQUILIBRADAS ABANDO-
-NAREM O LOCAL

A sessão terá início às 15 horas, com meneio de
cabeça coletivo. Seguir-se-á, a entrega dos brindes
jubilosos.

ATENÇÃO

Como a porção de sentimentos para esta área é limitada, pedimos aos interessados chegarem à hora marcada, a fim de evitar traumas e carências
prematuras de afetividade.

BRINDES - BRINDES - BRINDES

Cafunés com mãos cheirosas de alecrim. Cantos
suaves ao ouvido. Declarações de amor e prazer
pelo contato. Pequeno fluxo de informes alcovitei-
-ros. Mão-na-mão entre demorados passeios. Me-
-lopéias cantadas por jovens virgens negras. Beijos
estalados. Beijos com sussurros. Olho no olho. Pis-
-cações de cílios e golpes de sorte no amor. Afabili-
-dades. Cestos de cortesia. Delicadezas em profusão.

Recomenda-se não abusar para
resguardar-se de enfados

Garantimos: a Polícia não foi convidada e possuí-
-mos esquema de cordão sanitário para mantê-la a
uma distância ponderada.

UNIÃO DAS SOLTEIRONAS DE IRAJÁ




ANGELINO DISTRIBUITORS & CO.
Trata casos de solidão crônica. Faz extração
de dores antigas. Anula recalques. Remove
rusgas amorosas. Elimina angústias. Telefo-
ne: 200.0000

DEUS ESTÁ EM TODA PARTE

Achei Deus na cesta do lixo,
no grito horrendo
e nos estertores da morte,
no pneu firestone do carro
que conduz e mata.
Na luz do sol
e nas sombras perigosas da noite.

Nos olhos avermelhados
de uma lambioia.
Ele hoje está de plantão
com a guarda costeira. Vi-O
no balançar suave da folha
do coqueiro,
no intestino delgado
do famélico,
na palidez do defunto,
na gargalhada estridente
e carente de amor da mundana
- nos céus,
no chão, na fossa
ouvindo Roberto Carlos.

Senta-se onipotente com o vendedor
magricela
oferecendo café
numa viela do Mangue.

Treme, no falo, vibra,
nas entranhas feminís,
no ânus.
Na mão ágil que segura a arma,
está no dedo
que aciona o gatilho
e - atingindo,
está na vítima que cai numa dança bonita.

Está louco, bêbado, trôpego
nos descaminhos da seca - migra.

Inocente sorri
nos cabelos claros da infância,
no pródigo frescor juvenil.

Estampa-se no sensacionalismo
barato e ôco
da manchete de jornal.

Está no fundo do mar -
cata conchas com os mergulhadores,
indonésios.
Na fila do INPS, desespera,
quer brigar.

Está na letra do livro,
viaja no trem da Central
agarrado com um pingente
para evitar os postes.

Viram-nO na Cidade Baixa
vendendo gordos pedaços
de muqueca e tapioca - os dentes
alvos, negro como fuligem.

Na boca do nordestino,
está no dente que falta,
na cusparada, nas rugas.
Em toda parte, Ele, em frenesi,
Aparece,
sem lugar e hora,
desde a nuvem que umedece
o sertão, fustigando a seca,
até à distribuição aérea
de napalm
sobre campôneos na Ásia

Mas agora está cansado, aporrinhado,
terminando este poema.

O MEU MAIOR DESEJO

Tudo, tudo eu te queria dar - um deus
eu queria ser,
para presentear-te o mundo.
Eu me faria então a mais bonita
- o mais doirado corpo de Ipanema:
dengosa, nega danada, pedaço de mau
[caminho,
toda tua, eternamente.
Conversaríamos, então, sofregamente,
acerca do sol e das flores.
Dos gerânios... (Examinaste já
os gerânios? Precisas!...)
E eu te diria, sibilina, que o mar é teu
- o meu presente primeiro.
Depois, ah! depois eu te faria ver:
são todos teus os germes
que lavrando a terra enobrecem
o trabalho do teu braço
generoso e bom que a cultiva.
E só então eu te faria ver
que eu sou também humana
como as outras escondidas
sob a pele bronzeada de Ipanema.
E que terra sou, também, fecunda
e boa para o teu arado.
E que não vês em mim hoje senão
um verme malcriado e arredio,
por ser Lúcia Ninguém,
bêbada e suja, dormitando sob as mil
letras de um jornal,
de uma rua sórdida da Lapa.

AS CRIANÇAS DO MUNDO

Como o orvalho que contém a noite
e a luz primeira da manhã,
sou uma possibilidade, uma promessa.
Para mim tudo é porvir. Tudo!
Tudo em mim e em torno de mim há por ser
[descoberto,
tocado, sentido, amado. Tudo.
Enigma transluzente da aurora,
beleza boreal, luxuosa e frouxa,
a força hidrelétrica dos rios,
o humo da terra. Tudo sou.
Fresco como a manhã cálida,
cheio de viço e de cheiro,
garboso, latente.
Virtualmente lato e frágil, prodigiosamente.
Contenho-me, componho-me, esperando e
[indo.
Sendo a cor luxuriante e louca da selva
e a fragrância inebriante da relva,
o que há de vir e o que está vindo.
Extensão, alcance, alvo,
ponto intermédio entre desejo e ato,
alço vôo, sendo asa.
Lânguida asa de pássaros selvagens,
o seu gorgeio e sua débil configuração.
Rumo, caminho, reta,
desembocam em mim todos os deltas,
as corredeiras todas -
a força do mar.
Todos os homens.
Os brancos e os insípidos e até
os azuis, que nem existem...
De você, sou o fim, que você perdeu,
e o seu recomeço.
Latente está em mim suscetível
a realização - e eu suporto,
de tudo que você não pôde
ou não quis, pois esqueceu.

Agitam-se em mim todos os ódios,
todos os medos e os desassombros,
os recuos todos e a intrepidez.
Força e querer,
poder e vontade,
a conspicuidade desse vir-a-ser.

E eu serei você decuplicado.
Recuperarei suas ânsias e os seus ângulos
extraviados, e
assumirei seus temores.

Por causa do que foi deixado,
em mim zunem mil ferros,
vocalizam em mim as dores contidas
cantam em mim os cantos,
doces e ternos, tristes e envergonhados.

Sou o futuro que você pensava,
o fim da linha que você deixou,
sou o recomeço.

Comigo está a liberdade, que embriaga,
está em mim o medo, que entorpece.
Sou acúmulo do mundo de todos vocês,
de todas as suas guerras e garras,
de todos os mortos.
Trago as cicatrizes todas, as mutilações
e as medalhas.

Assim, ininterrupto e limpo é o meu começo.
Vejo vocês e pergunto - os olhos presos no
[cosmos:
- Deverei mesmo, digam homens,
ser continuação de vocês?


O HETEROSSEXUAL
Elizeu tinha um comportamento francamente heterossexual. Costumava andar com mulheres, e as amava, sempre que oportunidades aparecessem. Não era normal este costume, na época, em sua cidade, mas ninguém jamais atinou em recriminá-lo por tais práticas.
Possuia um pênis normal, e, segundo entrevistas colhidas junto às suas amantes, ele alcançava o orgasmo quatro ou cinco minutos após deitar sobre elas, no intercurso sexual.
Em geral, fumava cigarros de filtro, com gestos estudados, meticulosos, como um homem faz. E pronunciava, ao meio do discurso, incontáveis palavrões, o que dava à sua conversa, um caráter másculo, viril.
Dizem que, no começo, chamou a atenção, no clube, no bar, e na quadra de tênis. Apesar de o mundo estar em paz, totalmente, e da explosão demográfica ter sido controlada há muito tempo, todos se acostumaram com o Elizeu, e ninguém mais o recriminava por esse ostensivo comportamento machista.
Havia associações entre o comportamento viril e a sociedade opressora, do passado, que levou o mundo à Terceira Guerra Mundial. Mas, ninguém supunha - ou mesmo poderia atribuir ao Elizeu, aspirações, ou que belicistas fossem suas pretensões comportamentais.
Apenas certas mães amedrontavam-se com ele, e o evitavam, além de repreender veementemente suas filhas, caso ouvissem falar que alguma delas simpatizara, mesmo em sonho, com o rapaz.
No mais, em meio à turma da escola, composta por homossexuais, passivos e ativos, Elizeu nunca arranjou intrigas. Costu-mava ser delicado com todos eles, ainda que nunca tivesse manifestado o mínimo interesse em andar com qualquer um.
Era sabido por todos, a atenção desmedida que os meninos de sua escola lhe dispensavam. Mas, hábil, educado, Elizeu a todos despistava, desconversava, evitando maiores aproximações.
Pelo que se sabe, apenas um, de todos os rapazes da escola, conseguira algo dele: um beijo, no rosto, no dia em que todos comemoraram o seu aniversário. Desde esse dia, no entanto, Elizeu se descontrolava, visivelmente, quando João Belizário, o felizardo do beijo, se aproximava ou estava por perto.
Um rapaz bem estranho, o Elizeu, mas muito benquisto.
Ameaça à paz e à prosperidade, para uns - espécime arqueológica, de um passado belicoso e esquecido da humanidade, para outros.


VIDA LATINA
A cidade adormece
entorpecida, semi-morta,
mas as chaminés não descansam.

Tufos de fuligem
encobrem meu sexo
e há uma criança sem futuro assaltando
uma velha operária.

Ai, América,
como tua voz está sumida!
Tomo algumas frutas nos pomares e vejo
teus contornos industriais.

A seiva, teu sangue,
desencadeiam violências diuturnas.

No entanto, sei da dor
que trazes no peito.

Serão precisos séculos
para teus homens virem a mim
anunciar que é chegada a hora?
Hoje há outro putsch ao meio dia
e a gente nem sabe que roupa usar.

O fardamento está roto
de tantas revoluções
mas o beijo da vitória
há de ser dado
na boca do homem
que chegar primeiro e arrebatar
o cetro.
Como eu amo este teu descontrole,
bêbada América!

A FERRUGEM QUE EXISTE EM NÓS

Homens e mulheres desta parte
do universo
estamos no mesmo barco,
sob a mira do ódio.
Pode ser para amanhã,
para hoje, para agora,
fiquemos alertas.
Eriça meus pelos a coberta
e teu beijo me sufoca.
Tanto amor será inútil?

Esta ferrugem que existe em nós
só matará os covardes.

A cada criança que nasce
meu coração se convence
da salvação irreversível.

Sacudam este meu mundo,
crianças! Atraiam-me!
Eu quero estar com vocês.

SOBRE O AUTOR – Paulo Augusto da Silva nasceu em Pau dos Ferros, Alto Oeste do Rio Grande do Norte, aos 3 de agosto de 1950. Formado em Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF/RJ), em 1976 trabalhou nos jornais O Fluminense (Niterói/RJ), Última Hora (RJ), Diário do Grande ABC (Santo André/SP), Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e Diário Comércio & Indústria (São Paulo/SP).

De volta ao RN, a partir de 1982, trabalhou nos jornais Diário de Natal, Tribuna do Norte e Jornal de Natal. Ex-editor do suplemento cultural Encartes, do Jornal de Natal (1995/1998), onde assinou as colunas “Balão de Ensaio” e “MidiAtica”. Assina, no mesmo suplemento, a coluna “Antena XXI” e a página cultural “Sacadas do Potengi e Refoles”.

É assessor de imprensa da Secretaria da Saúde Pública e editor do jornal Onda Alternativa, de distribuição dirigida na Zona Sul de Natal. Colaborador em jornais alternativos de distribuição gratuita, em Natal.


sábado, 28 de junho de 2008

Este romance foi inicialmente publicado em BLOCOS ON LINE:
http://www.blocosonline.com.br/home/index.php

A HISTÓRIA DOS AMANTES, 1


Nós nos despedimos na última luz de uma serena tarde do mês de maio de 1964 - vinte e um dias depois do golpe militar - e de lá partimos para Cabo Frio onde um barco alugado nos esperava no cais do canal - entretanto choveu persistentemente durante quase toda aquela nossa viagem de lua de mel ("onda de mel", contava Val; "luz de mel", corrigia eu) e Val relatava que naquelas vagas pelo resto de nossas vidas ouviríamos aquela música da ventania nos nossos ouvidos, a chuva, e nos afogaríamos naqueles golfões do sentimento mole e maciço do fundo do mar de nós mesmos, porque era aquela sensação de claridade no meio daquela chuva no espaço do mar, naquele espaço verde por onde o barco penetrava como num labirinto selvagem, e onde nos introduzíamos num horizonte desconhecido e invisível - Val nua no convés: e assim que ainda a vejo hoje cantar aquela canção de amor daqueles heróicos tempos de mar e de vendavais roqueiros que eu ouvia - tentando avançar com cautela por esta pormenorizada narração - e para tornar o rumo de mais seguro porto devo dizer que naquela época a situação nos colocava no pátio do paraíso que eu não divisava bem, um furo, algo significante e que tem força decisiva: porque aquela minha temporada com Val me deixava radiante, me empurrando para a glória de mim mesmo, a brisa corrente que nos trazia de volta como se lancha fosse um veleiro e nos conduzisse pelo mar - ficamos no hotel, o colo cheio dos jornais sobre o golpe, a beber um coquetel de frutas sobre as notícias, as notícias cada vez mais terríveis, mas os olhos de Val recolhiam os reflexos daquele mar com sua superioridade lunar e esmeralda, ela mais parecia uma Marilyn Monroe morena naquele tempo, dourada, a vida toda simulava ali estar em sua homenagem - e no dia seguinte de lá partimos para Búzios, a camisa branca, larga feito uma bandeira de sol luminosa, meio ávida, adejava, o tórax à mostra sobre a curva da anca suave, os homens se surpreendiam de vê-la tão loura, tão artificialmente loura e límpida que nem parecia que comigo estivera ressonando levíssima no seu leitoso perfume depois de se debater no gozo selvagem dos seus sonhos nos meus ombros durante a noite anterior: o veículo saía soprado pela mágica do vento e nós íamos para a casa de Búzios emprestada de um amigo meu - passamos velozes pela ponte do canal (Val dirigia) e ao longo da estrada litorânea se ouvia a areia da estrada de terra batida na fuselagem enquanto minha mão se introduzia por entre as suas coxas.

À tarde entramos naquele mar, completamente despidos como se vestíssemos um verde vivo e com alegria dei uns tiros com o revólver de Val que estava no porta-luvas, herança do pai dela, estourando uma garrafa de cerveja - mas logo tivemos de nos vestir, pois vinha chegando um garoto, quase criança, com um cão solto que corria.

Foi somente quando me deitei na areia que os vi: largos, na espuma da rebentação branca, o sol se rebelando nas gaivotas de vôo rasante como aviões em combate de bandos ruidosos: eram três jovens, e estavam na crista das ondas do horizonte provável.

Uma tarde, nela atravessávamos a luz, andávamos pela rua daquele subúrbio, o bairro, silenciosos, graves, gravemente subimos o aclive, os passos, resumimos nossas conversas a um leve contato, leve toque dos dedos, ocasionais, toque rápido, cheio de emoção e felicidade. Mas a vida não, mas a vida não é um brinquedo. Não consigo saber o que se passou, as recordações recortam imagens irrecuperáveis. Tento compreender. O que acontecia naquele momento, naquele passar de sua presença inteira, fixa, na minha frente - de uma existência - o passado como tela de cinema implantado no olho da memória. A vida não pára, não parou. Não chego ao desespero, ao estranho relacionamento que tenho, hoje, com o que hoje sou. O presente aqui não é nem alegre, nem triste. Tenho de começar devagar.

Certo dia, quando aciono, quando acordo, o teto do quarto com uma coloração rósea, a janela aberta dá para um labirinto em que o olhar ostenta mover-se, e que se vai desdobrando em abstrata claridade, a fragrância marinha emanando suave, fria, perfumada, vinda do horizonte, a janela respirava... Entrava, quase imperceptível, um som, aquele som, um murmúrio, doce, azulado, como o mar. As pessoas amigas me tinham recomendado calma. Mas eu não consigo. Lembro-me ainda das retas cruzes das ruas da cidade indiferente. Vista do alto prédio, a cidade. Foi naquela madrugada que a sentença me chegou, forte, perfeita, correta, aterradora como a de um assassino: Val. Era ela. Val me abandonava. As persianas batem, fortes, nervosas. As roupas por cima da cama, acordava do sonho do meu amor desfeito. O amor, como uma bala, passava de boca em boca. Se espalhava. Eu sofria a angústia, a queda. O amor é um mar. Cheiro familiar de café. Um pente um espelho. Eu penso. Matar o meu sonho. Não, Val. Eu tinha soluções. Alguns homens formavam grupo no ângulo da esquina, e ela... ah, súbita felicidade da totalidade!... agora nós estávamos na praça. Na orla da praia eu subia até um pedestal vazio, que chegava à cabeceira do tanque retangular, e no ar abria os braços, espalmava as mãos, feliz, e ainda me consigo ver. De lá dizia, de lá me recordava de mim mesmo, eu para mim agora, a um majestoso e largo mar que soava no ar com a clara voz de Val, com todas as claras vozes daquele tempo, a aragem crescendo no meio de tudo, infiltrando-se na camisa aberta, os seios nus.

Nada me prende mais, hoje, do que a demora do passado no momento presente, esse momento interior imensurável, onde às vezes a força dos instantes retardam os passos do passado para sempre. Às vezes, como num sonho, largo pesado sonho estirado, os momentos são assim inteiramente vivos, inesperados. Neles me movo, me reconstruo, me recomeço. Em frente. Naquela praia nós nos largávamos, era como se durante a vida toda estivéssemos ali. Na areia suave, como se as lembranças estivessem inteiramente nuas. Visto de hoje o mar, vedação alta e azul, as coisas vastas, as coisas em bloco, as coisas se dissolviam em explosões de brancas espumas, cristas, covas, límpidas cintilações coriscantes.

Ainda estou perdido, perplexo. Ainda me movo mal nesse espaço. Ela. Ela penteia os cabelos, diante do espelho, os ombros largos. Muitos anos se passaram diante da imagem de Val, naquele espelho. Era ali, a sua viagem, uma viagem de barco, ela, os cabelos muito soltos no convés, chovia quase todo tempo, interminável ruído da chuva, a chuva nascia da ondulação das dobras do lençol de chuva azul, ou verde, nós riamos, recebíamos de face as espetadelas gélidas das gotas do ar. Isso é tudo? Durante todo o tempo em que vivemos juntos, parece hoje, por uma misteriosa deformação mágica, que todas as tardes são sua presença, de seu mar, onde sempre se ouvem ondas, onde as luzes, os sóis se impunham, juvenis, um elemento, alto, magro, qual garça branca, andando atrás da pedra, do deserto, entre o carro e um adorno, uma corrente, ele se precipitava entre as coisas da memória, se encostava ao cimento do muro. Aqui, Val aqui, atrás o seu ciúme, conectando com o que se refere, com tudo o que... bombas (anos depois os soldados invadem o prédio, rebentam no meio da sala cruelmente as bombas, eu procurava Valquíria entre os acontecimentos tumultuosos, estávamos encurralados ali, não conseguimos sair daquilo, não há nenhum telefone funcionando). Esse amor. Tenho de deixar sossegado? Posso iludi-lo com amenidades? Eu sempre penso em matar minha lembrança, meu passado. Ele estaria morto finalmente se eu não o estivesse revirando agora.

Depois que eu me separei de Val penso que a vida está acabada. Não podia amar o amor, aquela doença, o relacionamento com Val, o fantasma. Tinha ido lá, ver o fantasma. Tinha ido até lá, a porta da cozinha estava em frente de onde eles se encontravam, passava a mão sobre sua cintura, mordendo-a suavemente no ventre, mas a porta ameaçou abrir, estava sendo arrombada, uma prosaica chave começou a ser introduzida na fresta, seria surpreendido ali, ele, um nome, uma legenda, ele, como ainda me lembro de tudo isso? estarei vitima de uma Val que estava em minha vida como uma alucinação, um convite ao prazer, ao mais louco prazer, em sua vida, fonte máxima, única, ela era um vivo convite à vida, a porta, os azulejos brancos, duas pias do lado da geladeira. A beleza, a beleza acompanha o tempo.

No barco, na lua de mel, ainda chove persistente, a voz era como sempre clara e dizia que ouviriam uma certa música, sim, para não nos afogarmos naqueles golfões de sentimento maciço, mole, gosmento. Não, não nos afogaremos nesse mar, não nos afogaremos dentro do fundo de nós mesmos.

Não no barco, esmagada, não, mas na cozinha, com Val, a eterna, a porta se abre, a polícia se apodera do que tinha sido aquela casa, eles estão fora, jogam o conteúdo fora, foram engolidos pelo silêncio? fugiram dali! Val, a política, a nova liberdade de viver é assim? Todo o meu empenho é vão, todo o meu empenho para que nada aconteça a ela, desde minha juventude eu assim jogo, tudo, joguei tudo na mesa verde da via do destino, a vida, a família, e era ela, fugimos dali, que valia tudo diante dela? De que valia tudo isso?

A revolução, a ditadura militar estava vitoriosa, nos colocava na clandestinidade. Fomos parar numa estação de trem do subúrbio, distante, onde ela morava, olhando a planície com desânimo, quase uma centena de pessoas esperava a vinda do trem. Ali mesmo, naquela zona, passavam soldados sem destino, rapazes distraídos entre gritos de vendedores de balas.

Palavras. Palavras entrecortadas. Curiosa angústia. Eu ponho tudo em jogo, eu não estou com ela. Que faço aqui? Novo grupo de policiais acaba de chegar, as imediações são um campo de guerra, um campo selvagem. Quando a porta se abriu, nós nos precipitamos pela saída dos fundos. Eu ainda pensei que a porta resistiria, mas cedeu de uma vez, uma invasão começou. Depois começa a lavrar o incêndio. Armários despencam aos tiros, granadas, rebentam estrondos. "Sim, fui uma juventude agredida", disse Val, anos depois. O silêncio aquece o inverno longo. Você coloca sua marca, a marca de seus dedos em tudo o que faz. Você traz no corpo o seu sinal.

Na estação, o garoto olha para trás, e corre, assustadíssimo. A fome passa. Estou bem disposto, a viagem de trem me reanima, a vida volta a seus trilhos, volta ao natural. Sinto-me de novo participante, cidadão, digo que isso é passageiro. Não sei dar linearidade a esta narrativa, ela vai-se desenrolando de dentro – a sua ordem é desordem, parece impossível, fico diante do que sai de minhas lembranças, fico impotente, sob flashes atordoantes. Os olhos dela me chegam, me abraçam. Às vezes, penso que é ela quem me reencontra, seu fantasma comigo — a minha morte — um salto surpreendente. Eu tenho de usar de muita habilidade para prosseguir o tema doloroso, o tema fundamental, o propósito verbal de minha existência devastada, não mais estando disposto à lastimação solitária de origem. Minha lembrança. Recebo minha lembrança no seio de sua vacuidade. A emancipação desaparece, por momentos. Mas nada pode ser dito. Vivo disto. Sobrevivo disto. Vivi com o principal de meus dias de paz. «Quem colhe o mel dos deuses», diz a voz, «não mais se cura». Sei que amanha acordo melhor. Bela sensação de claridade, de espaço, daquele espaço em que passamos nossos corpos e nos estabelecemos — quero abraçar este espaço — rematar o real nele contido - recortá-lo para o recriar. Hei de contar, de cantar a mais bela canção de amor aqui, mais bela que alguém já pode viver. Val me telefonou dizendo que Ricardo... Mas isso resiste à clareza de uma narração, de uma explicação, tenho de avançar a palmo. Com teimosia, mas com cautela. Estou perdido. Melhor seria se eu pudesse logo contar certos detalhes, tornar seguro o caminho. A situação está na reta final. Mas não, não há mais ninguém, senão você, vem você, você prossegue, sim. Todos se colocaram na ausência. Sinto-me ainda na ilha, mergulho para esquecer, deixar para trás o som de suas praias, sempre nos meus ouvidos. Não, devo clamar, duvidar. Naquele tempo vivia numa ilha. Lá estava Val, também. Tínhamos uma casa na ilha. O principal de mim estava lá. Eu amava ou não tinha outra escolha. Ali era um ser todo dissolvido — um ser úmido, onde os sentimentos mais estranhos assustavam, assaltavam, chegavam com seu trânsito nervoso, a violentação de suas multiplicidades — de não sei quantos desagradáveis motivos nervosos difíceis de aturar.

A tarde ia desaparecendo. Um calor brando, silencioso. Valquíria aparece. Jovem. Máxima. Ela aparece jovem. Reencontro a Valquíria adolescente na Valquíria de hoje. Estou decididamente envolvido na sua substância material. Desde sempre nos envolvemos, nos identificamos. Ela vive, dança no meu ser, à vontade. Tento compreender isso, tento a resposta. Sua voz vem de longe, do tempo. Sua voz. Quando se convive, durante toda uma vida, mesmo com intervalos, com essa voz, nunca se pode sobreviver sem ela. Pessoa que se ama sempre. Estou sempre prestes a procurá-la, de novo. Por isso nunca a liberto. Sempre fui a ela, onde ela estiver. Seu timbre sempre adquire o som de um fundo que conheço mas não sei dizer de onde. Agora é o tom do amor desfeito. Refaço. Tento. Nós corremos paralelos, juntos, nos unimos em tempos sucessivos. Eu sempre. Tenho-a em meus braços? Ou ela me domina? Agora, como depois. Como sempre antes de sempre, depois, depois de depois. Nós nos deitávamos, era a comunhão, ela tão presente, como se fosse ela o mais sólido e absurdo elo da vida. Sem ela, vivo em abstrato. Se pacifica. Eu sou agora Val. Ela cheira a floresta. Nós sempre corremos em vias paralelas, nos unimos no tempo. O bom contato de seu corpo, de sua materialidade, de seu cheiro de mato moreno, de seu calor algo que eu podia beber o insaciável. Estrada. Depois a estrada. As palmeiras, eucaliptos, rubor essencial que sempre a eterniza. E eu sei que posso ficar até o sangue correr de meus dedos, aqui, a falar e a repetir sobre ela, interminável, inesgotável, solitariamente.

A HISTÓRIA DOS AMANTES, 2

Sim, tenho de repetir: Nós nos casamos na última luz de uma serena tarde do mês de maio de 1964 - vinte e um dias depois do golpe militar - na presença de um padre, de minha avó Madalena (de preto, elegantíssima), da mãe de Val num discreto tailler, da minha cunhada e alguns amigos.

Já estávamos recebendo os cumprimentos de praxe quando foi chegando o pessoal da família de Val e, do primeiro degrau da escada da igreja - eram oito, ao todo - partimos no carro de Val diretamente para Cabo Frio, onde um barco alugado nos esperava num cais do Canal.

Entretanto choveu, persistentemente. Durante toda a nossa viagem de lua-de-mel - ou de onda-de-mel - Val dizia que ouviríamos pelo resto de nossas vidas aquela música de vento e chuva, nos afogaríamos naqueles golfões de um sentimento mole, maciço, do fundo do mar de nós mesmos.

Bela sensação de claridade no meio da chuva, espaço verde por onde o barco passava, onde nos estabelecemos no horizonte - Val nua.

Posso cantar hoje a mais bela canção de amor que li, mas tenho de avançar com cautela.

Tudo o que significa tem força. Por isso aquela minha temporada com Val me deixava radiante, me empurrando para a glória.

Por fim, a brisa da corrente nos trouxe de volta como se a lancha fosse um veleiro e ficamos no hotel, o colo cheio de jornais, a bebericar um coquetel de frutas sobre as notícias do golpe, os olhos de Val recolhendo os reflexos do mar com aquela sua superioridade de Marilyn Monroe morena e dourada, e como se a vida estivesse em sua homenagem.

E Val no dia seguinte desce do hotel onde nos hospedamos e parte comigo para Búzios, a blusa larga, meio ávida, os seios quase à mostra sobre a curva da anca suave, alguns homens se viravam súbitos ao vê-la - e nem parecia que comigo dormira, ressonando leve no seu cheiro de leite fresco, depois de se debater nos meus ombros na noite anterior.

O veículo soprado pelo vento, íamos ocupar a casa de Búzios que eu tinha alugado e que depois comprei.

Passamos velozes pelo canal.

Val dirigia - e ao longo da estrada litorânea se podia ouvir a areia da estrada de terra batendo na fuselagem, enquanto minha mão se introduzia por entre as suas coxas.

À tarde entramos no mar despidos, com alegria comovida.

Dei uns tiros com o revólver de Val, tirado do porta-luvas, estourando uma cerveja. Depois nos vestimos, pois vinha chegando um garoto com um cão.



Foi somente quando me deitei na areia da praia que os vi, largos, na branca espuma da rebentação, o sol esquentando e as gaivotas em vôo rasantes como aviões em bandos barulhentos. Três jovens estavam nas cristas das ondas do horizonte.

Fechei os olhos por algum tempo. De onde aquele ar familiar? Não me lembro o que pensei nos minutos seguintes, mas a imagem ressurgiu e esvaiu-se, ressaltada no seu fundo azul e era o perfil de alguém que eu conhecera há vários anos. Quando abri os olhos ele se aproximou de mim e eu o reconheci: era o Artur.

Alto, magro, já mais maduro (eu o conheci menino). Sofisticado, adamado. Com ele outros dois rapazes mais jovens. Numa fração de segundo fiquei parado, olhando-o - quase não o reconhecia. Ele ria-se para mim, apertou com força a minha mão e a de Val ao mesmo tempo. Val passou a conversar, animada, com eles.

Jorginho, o garoto mais jovem, teria uns dezoito anos. Carlos, o outro, cerca de vinte e dois, forte como um Apolo de academia e tinha os cabelos densos caídos sobre os olhos, como uma espécie de cão.

Artur, maneiroso, afetado. Minha naturalidade e cortesia com ele era falsa, eu tinha medo de o ferir. Desde aquele encontro ficamos juntos, os cinco, e no dia seguinte os três, que estavam acampados, foram hospedar-se na nossa casa.



No decorrer daqueles dias seguintes a imagem de Val com os rapazes começa a tumultuar minha cabeça.
Como um coice da memória a vejo, variada, dispersa, fumando, ouvindo o metal em fúria daquele rock desconhecido, todos drogados e bêbados.
Carlos, o Apolo, vivia nu pela casa.
Jorginho, surdo dentro de sua música.
Artur, a Potestade, conseguindo arrancar dos limites do viver o transgredir de todas as normas. Vingador, Artur, o irmão da morte na fatalidade de víboras bêbadas. Flagelo de Deus.
Os dois rapazes, seus convictos crentes, viviam às suas expensas.



Porque Artur era das situações limites o holocausto da instauração de um absurdo vivido ali sob os nossos olhos, com o itifálico Carlos sempre à mostra, nossa única vizinhança era a praia defronte, ninguém mais poderia nos ouvir ou ver.
Era o apogeu da era sessenta.
E seres rolavam pelo chão e por debaixo da mesa, sobre a qual restos de uma comida azeda e leite derramado, copos de vidro quebrados entre farelos de pão e esperma, aquilo penetrando no mais fundo do corpo como lâmina oculta e sangrenta.
Ali vivemos o prazer de algo infestado de um apocalíptico efeito, misteriosa deformação mágica, alcoólica, orgiástica.
Foi quando Carlos, atingindo o clímax, à noite arranjou duas meninas na praia e, erguendo o copo, propôs que ensaiássemos uma seção grupal, apagando as luzes da sala onde sobrevivíamos nós.
Mas, apesar dos contatos sentidos e das inesperadas variações de nossas multiplicidades, fomos ficando cada vez mais loucos e solitários - Val desapareceu com Carlos, Artur e Jorginho, não sei, e as duas meninas, ansiando por mim no escuro na respiração da besta de sete cabeças e dez cornos que me possuía com sua sangrenta boca.



No amanhecer ainda vivos relíquias de seres de uma vida que se esvai, livre ou imposta, mas vã e incompreensível.

Foi quando dou um murro, curto, seco, na boca de Val, que se cala e desequilibra sobre a pia do banheiro. Eu tinha caído na pior paranóia. Um botão de sangue brotou e começou a crescer de cada lado de seus lábios, como uma flor, vermelha, ácida.

E Val me olhava com espanto e horror enquanto erguia do chão um lencinho branco e começo a limpá-la, trêmulo, aqueles lábios amados, bati forte, de frente, reto, como um disparo incontrolável, e o fio de sangue se desfia da boca e não conseguia detê-lo, escorria da boca como se a vida se vampirisasse, delirasse. "Meu Deus, que fiz", ainda consegui balbuciar no caos, Val a despejar aquilo de dentro de si, se apoiando nas minhas mãos assassinas a expelir a vida, e abro a torneira e sai dali um jato de água gasosa que se transforma em sangue, escorre e pinta a louça branca, respinga pelos ladrilhos da parede e Val chora, seus soluços escorrem pelo mundo como o jato dágua da torneira aberta com efeito de ducha gasosa.



Foi então que consegui dar-lhe um beijo que cresceu entre nós como se anunciasse que não mais nos amávamos, a pingar o mel do líquido negro do amor como se estivesse pronto para jorrar dentro das nossas carnes daquela boca cheia de sangue.
Trituro o lencinho de sangue debaixo do jato e vou limpando aqueles lábios.
Todavia ela começa a chorar e continua a sangrar, reclinada sobre a pia do banheiro e abandonada, assustada, devastada por aquela violência - seus soluços escorrendo pela água da torneira aberta, por aquele jato único e forte, grosso e gasoso, como coca-cola sangrenta.

Tudo naquele momento parecia desabar.

Eu estava em tão agudo estado de morte que, naquele mesmo dia, introduzo o revólver de Val numa profunda fenda da poltrona da sala, lá onde a minha mão não conseguiria recuperá-lo, para não sucumbir ao forte e desesperador desejo de chacinar a todos.



Hoje nada sei. Tudo mudou. Pois o que me havia ferido foi vê-la, na área de luz de um automóvel distante, entre as pernas daquele homem, aberrante, imoral, desmesurado, em angústia descomunal... Careço de caridade. Alterno, com lealdade, o ódio e o amor. Aquilo em que gastei a vida aparece e desaparece. Desentendo-me, cada vez mais comigo mesmo.

Terei de renunciar a Val? Nunca. Pois se Val viveu aqueles espasmódicos momentos consentidos, invenções minhas. Afinal, nós somos meras máquinas de repetição. Máquinas doentes de alucinada vacuidade. Por eles os amantes saíam um de dentro do outro depois da luta, pegajosos de gosma de saliva e esperma e outros líquidos do corpo, nas situações do mais extremo limite. E não era a primeira vez. E Val não tinha culpa. Era eu quem impelia, inventava aquilo que estava em concordância com o meu caráter pornográfico. Era assim, vendo-a a agredir no orgasmo e na obscenidade que eu conseguia obter a imaginação da matéria, pois em viva ficção criava ali como em laboratório experimental as amostras biológicas e bestiais, eram personagens imaculados, inoculados vivos pelos meus demônios, nas forças da devastação da felicidade humana da minha criação. Eles saíam da minha fantasia concreta, se afogavam como instrumentos da bestialização com que os manipulava, com que eu brincava criá-los, cruelmente.
Pois o gigante que se movia entre as pernas daquele macho e sobre o ventre da minha mulher era o prolongamento da minha criação. Eu necessitava daquilo para viver e indispensável ao prolongamento do meu ser. Eu os amava. E me arrastava no gozo deles.


Mas aos poucos Val se recompunha mas nunca mais foi a mesma depois que Carlos, Jorge e Artur se foram de minha casa, todos com mil desculpas.
Val tentava reunir suas articulações retomando suas estruturas. Ela ainda parecia magoada, pois era como um ser extra-terrestre. Eu não me agüentava mais. Mas tinha de começar a ver a figura de minha mulher nua sobre um colchão negro e revolto.

A HISTÓRIA DOS AMANTES, 3

A primeira vez que a vi foi no cais, onde tudo começou.
Eu tinha ido ali para receber a lancha onde deveria vir o equipamento que havia comprado, e porque chegava um novo empregado de meu pai
A lancha revelou-se e aportou. Dela desceu um homem baixo, forte como touro selvagem, que era o novo empregado. Depois apareceu sua mulher e minha futura sogra, como uma lavradora sulista, maternal, pacifica.

E duas meninas.
Uma, menor e mais morena, Lia. A irmã.
A outra, maior, coberta por um chapéu de palha que lhe escondia toda a porção do cabelo. Teria uns quinze anos. Era Val. Parecia um rapaz.

Meu pai administrava o que sobrou da fazenda da família naquele fim de mundo - a Ilha Atlanta.
O que eu chamava de pai era um apático, calado e burocrático homem, viúvo, que nunca se importou com minha existência.
E o que eu chamava de mãe era a figura de retrato antigo e amarelo: minha mãe morreu cedo. Eu nada sabia dela.
Fui criado por minha avó Madalena.

- Não gosto do Rio, dizia meu pai, esta ilha me faz bem à saúde.
- O senhor não volta mais para o Flamengo? - eu perguntava. Eu tinha viajado muitos quilômetros para vê-lo.
- Não, respondeu.
- O senhor não sente saudades de vovó Madalena?
Meu pai ficou sério. Olhou para mim e disse:
- Você cuidará dela...

Grande figura burguesa, minha avó Madalena ficava sentada na cadeira de balanço da sua varanda no Flamengo, correndo pelos dedos que bordavam, sacudidos na talagarça.
Tinha sido rica e poderosa, contagiada de civilização européia. Mas simples na sua majestade de fim de vida.
Era mulher extremada e corajosa, atenciosa e política, sofisticada e prática.
Que força, aquela? Minha avó Madalena sabia com facilidade colocar todos no devido lugar, e falava com todos como se fizesse uma concessão.


Ela tinha arquivos inquietantes.
Eternamente intocadas, suas gavetas encerravam preciosos mistérios. Foi necessário muita coragem e audácia para, no ano de sua morte, penetrar e profanar aquilo.
Eram carícias de sedas mortas, velhas fazendas fora de moda, mas que haviam acariciado suas carnes imponentes.
Uma pistola - uma Beretta 1919 - nunca disparada.
E fotos.



À medida que envelhecia, minha avó ia ficando com a face pálida e enrugada - mas o olhar altivo se mantinha, de velha rainha, ainda que cansada.
As palavras então se arrastavam, pastosas, pesadas, pontuadas ainda pelo gesto elegante se bem que raro, nas pontuações de sua dicção educada, sobre a nobre fisionomia fidalga, hierática, que imprimia ao leque rendado pousado sobre o colo, sobre seu vestido de seda.



Nos últimos anos ela já não era a velha rainha na cadência sonolenta, nas remadas cada vez mais lentas da dança de seu leque, na soberana inação de seu gesto fixo no ar, nas mechas de seu cabelo todo branco.
E mesmo na coragem com que, com grande perigo, sozinha em casa, enfrentou o ladrão que invadira o jardim, pondo-o para fora aos gritos.
Sim, já não era o velho sol, mas uma espécie de lua que adormecia cada vez mais fraca na espuma de estrela de uma noite escura que se adensa, ia-se apagando, como luz de vela esquecida na solidão de uma desusada sala, mergulhava nos seus fantásticos sonhos, ia fechando as pálpebras de volta a um passado antigo, extinto, se diluindo numa memória fragmentária em busca do inatingível.
Morreu como as superfícies das águas estagnadas sobre as quais caem leves pétalas de glicínias maceradas...



Minha avó abriu consideravelmente sua bolsa para mim. Ela orgulhava-se de mim! Relia meus livros, achava-os bem escritos, recomendava-os às amigas e cobria-me de homenagem e dinheiro.
Como Ernesto Sábato, ela dizia "escrever para ganhar dinheiro é abominável" - e como eu não tinha outro recurso ela me deu o seu braço e o sua poupança.

Afinal me compreendia.
Aos 22 anos de idade eu era um desempregado, e antes de me ter como o gênio da família temia por mim de me ver cópia do vagabundo que tinha sido meu pai - e realmente: além de escrever nada há neste mundo que eu saiba fazer e com que pudesse ganhar a vida. A carreira literária me daria um sentido novo a seus olhos, eu me tornava confiável desde que aparecesse nos jornais como escritor da moda.
A fortuna de minha avó, que já fora grande, consistia então em alguns imóveis e ela não tinha renda, mas alguma coisa economizada. O patrimônio imobilizado ainda significava algo e a poupança bastante curiosa, pois minha avó tinha uma paixão: as moedas de ouro, libras principalmente, guardadas num cofre bancário.
Quando ela morreu, e como meu pai já havia falecido, foi tudo divido entre seus sete netos herdeiros.
Tia Clotildes, casada com um oficial norte-americano, herói da 2? Guerra, com quem teve duas filhas que nem conheço. Tia Anastácia, a mais velha, morta há muitos anos, eu menino, deixou Ricardo em São Paulo, Renato no Rio, bailarino e professor de balé, e Rachel, que mora em Salvador com o marido.
Com minha parte comprei um pequeno apartamento. No Flamengo.



Alguns anos antes, e por cruel coincidência, o tiro que abateu Vargas no Catete matou também a metade do que sobrava de meu pai. No mesmo dia 24 de agosto de 54 meu pai ficou hemiplégico.
Estava na Ilha.
A hemiplegia de meu pai paralisou todo o lado direito - a perna, o braço, a face e a língua, impedindo-o de falar. Sobreveio à uma hemorragia cerebral e como minha relação com ele sempre fora hemiplégica, atingida ou semi-destruída nos seus dois pontos, o do contato afetivo (que ele nunca teve comigo, nunca me falou) e o do contato físico (que ele nunca teve comigo, nunca me tocou e suas únicas duas carícias de que tenho recordação, o passar a mão sobre minha cabeça, me provocaram súbita reação defensiva), e como não conheci aquela que dizem que foi minha mãe, que desde cedo me deu plena autonomia dela com sua morte, e como minha avó Madalena era, à sua moda, altiva e independente, estive o tempo inteiro de minha formação e infância livre tanto daquele pai visível quanto daquele outro tipo de pai invisível, de que se pode fazer em projeções, como num imaginário Deus onipresente, ou a figura do Estado, que nem na Ilha, nem em casa de minha avó nenhuma autoridade existia, apesar da poderosa influência dela sobre mim, pois ela sempre dizia que criava os filhos e a mim para "mandar" e não para "obedecer", o que significava que eu cresci em pleno anarquismo.
O esmaecimento da figura paterna, ativa e operante, sempre deve ter caracterizado a minha para mim mesmo inexplicável personalidade. Minha avó assumiu a função de mãe como um tipo de pai de saias, mas invertendo todo o valor atribuído a essa figura, real ou imaginária, de pai ou pátria.
Sem culpa desde cedo esconjurei o meu parricídio simbólico num total desprezo pela idéia de autoridade, o que entretanto não me faz forte, e pelo desprezo a meu pai (e dele para comigo, que sempre fomos estranhos um ao outro, ou melhor: ele me odiava), rechaçando-o enquanto modelo, substituindo-o por minha avó.

Meu pai, na sua ausência, no seu hiato hemiplégico, nunca simbolizou os poderes constituídos, e eu só dispunha de meio-pai a partir da hemiplegia. A sua presença, se é que a senti algum dia, significava mais que um vazio, um pai entre parênteses naquela imprecisão em que ele se entredisseminara no seu exílio na Ilha e no estado de meio-morto, no seu esconderijo e na sua ruína, na sua indiferença e no seu estrago. Meu pai, eu me lembro, era um homem de desconversas, sobrevida da melancolia, contínua depressão, escondido na figura indecifrável de um rosto mudo e neutro, quase bestial. Mas o que mais o afastava de mim, e o neutralizava na comparação com minha avó, era sua completa afeição à mediocridade, algo assim como a de um funcionário público aposentado sempre com as mais intoleráveis frases-feitas de um senso-comum idiota.

Uma de suas mais familiares e favoritas expressões ("eu nunca vi ninguém fazer isso") me fazia que ele parecesse permanecer num estágio pré-lógico em que seria até capaz de retirar de sua família (que era eu) aquele tipo de fala em que se sustenta a ordem do simbólico da civilização, já que ele tomava como modelo de pensar e de comportamento aquelas que eu sempre considerei as mais medíocres pessoas existentes sobre a face da terra. Santo Deus! ele era capaz de banalizar a maior sublimidade...

Desta forma não lastimei a perda tardia da fala de meu pai, tardia mas castrante. Ele nunca a teve.



Entre o sol e o solo aquela menina como um reflexo de Deus e por entre a minha intransigência passava a soberania da recém-chegada, escandindo os passos na pedra - eu com dezenove anos, ela atravessando perto de mim como se pisasse numa toalha.

Eu não só me senti confiante naquilo que devia ter atraído e criado de meus profundos delírios com sua visão mágica, como também a sinceridade, a ressonância daquela menina, aparecida no nascer de um dia de verão, tocava o presságio de que minha relação com meu próprio corpo começava ali.

Quando aquela menina me olhou de frente, olhar reto, desafiante, o primeiro contato que com ela tive foi de sexualidade, imediata ligação, como se eu já a tivesse possuindo ali, no cais, pois vejo que ela estava impondo e ordenando a regra básica de sua lógica impiedosa comigo, a vida toda, que diz: "me aguarde", e porque aquela menina era um monstro. Eu poderia até ter chegado ao fim se continuasse a bebê-la com os olhos daquela maneira.

Ali logo o demônio do jogo do amor inventou mil venturas e perdições, incendiando de calor da força sexual que vinha dela o meu olhar - ela sob aquele vestido leve, pobre mas primaveril, palpitava de amor numa agudeza nada inocente: ela me fisgou, logo ali, com os olhos, aquele ato, ela sabia, eu era dela.

E me perdi.

A HISTÓRIA DOS AMANTES, 3

A primeira vez que a vi foi no cais, onde tudo começou.
Eu tinha ido ali para receber a lancha onde deveria vir o equipamento que havia comprado, e porque chegava um novo empregado de meu pai
A lancha revelou-se e aportou. Dela desceu um homem baixo, forte como touro selvagem, que era o novo empregado. Depois apareceu sua mulher e minha futura sogra, como uma lavradora sulista, maternal, pacifica.

E duas meninas.
Uma, menor e mais morena, Lia. A irmã.
A outra, maior, coberta por um chapéu de palha que lhe escondia toda a porção do cabelo. Teria uns quinze anos. Era Val. Parecia um rapaz.

Meu pai administrava o que sobrou da fazenda da família naquele fim de mundo - a Ilha Atlanta.
O que eu chamava de pai era um apático, calado e burocrático homem, viúvo, que nunca se importou com minha existência.
E o que eu chamava de mãe era a figura de retrato antigo e amarelo: minha mãe morreu cedo. Eu nada sabia dela.
Fui criado por minha avó Madalena.

- Não gosto do Rio, dizia meu pai, esta ilha me faz bem à saúde.
- O senhor não volta mais para o Flamengo? - eu perguntava. Eu tinha viajado muitos quilômetros para vê-lo.
- Não, respondeu.
- O senhor não sente saudades de vovó Madalena?
Meu pai ficou sério. Olhou para mim e disse:
- Você cuidará dela...

Grande figura burguesa, minha avó Madalena ficava sentada na cadeira de balanço da sua varanda no Flamengo, correndo pelos dedos que bordavam, sacudidos na talagarça.
Tinha sido rica e poderosa, contagiada de civilização européia. Mas simples na sua majestade de fim de vida.
Era mulher extremada e corajosa, atenciosa e política, sofisticada e prática.
Que força, aquela? Minha avó Madalena sabia com facilidade colocar todos no devido lugar, e falava com todos como se fizesse uma concessão.


Ela tinha arquivos inquietantes.
Eternamente intocadas, suas gavetas encerravam preciosos mistérios. Foi necessário muita coragem e audácia para, no ano de sua morte, penetrar e profanar aquilo.
Eram carícias de sedas mortas, velhas fazendas fora de moda, mas que haviam acariciado suas carnes imponentes.
Uma pistola - uma Beretta 1919 - nunca disparada.
E fotos.



À medida que envelhecia, minha avó ia ficando com a face pálida e enrugada - mas o olhar altivo se mantinha, de velha rainha, ainda que cansada.
As palavras então se arrastavam, pastosas, pesadas, pontuadas ainda pelo gesto elegante se bem que raro, nas pontuações de sua dicção educada, sobre a nobre fisionomia fidalga, hierática, que imprimia ao leque rendado pousado sobre o colo, sobre seu vestido de seda.



Nos últimos anos ela já não era a velha rainha na cadência sonolenta, nas remadas cada vez mais lentas da dança de seu leque, na soberana inação de seu gesto fixo no ar, nas mechas de seu cabelo todo branco.
E mesmo na coragem com que, com grande perigo, sozinha em casa, enfrentou o ladrão que invadira o jardim, pondo-o para fora aos gritos.
Sim, já não era o velho sol, mas uma espécie de lua que adormecia cada vez mais fraca na espuma de estrela de uma noite escura que se adensa, ia-se apagando, como luz de vela esquecida na solidão de uma desusada sala, mergulhava nos seus fantásticos sonhos, ia fechando as pálpebras de volta a um passado antigo, extinto, se diluindo numa memória fragmentária em busca do inatingível.
Morreu como as superfícies das águas estagnadas sobre as quais caem leves pétalas de glicínias maceradas...



Minha avó abriu consideravelmente sua bolsa para mim. Ela orgulhava-se de mim! Relia meus livros, achava-os bem escritos, recomendava-os às amigas e cobria-me de homenagem e dinheiro.
Como Ernesto Sábato, ela dizia "escrever para ganhar dinheiro é abominável" - e como eu não tinha outro recurso ela me deu o seu braço e o sua poupança.

Afinal me compreendia.
Aos 22 anos de idade eu era um desempregado, e antes de me ter como o gênio da família temia por mim de me ver cópia do vagabundo que tinha sido meu pai - e realmente: além de escrever nada há neste mundo que eu saiba fazer e com que pudesse ganhar a vida. A carreira literária me daria um sentido novo a seus olhos, eu me tornava confiável desde que aparecesse nos jornais como escritor da moda.
A fortuna de minha avó, que já fora grande, consistia então em alguns imóveis e ela não tinha renda, mas alguma coisa economizada. O patrimônio imobilizado ainda significava algo e a poupança bastante curiosa, pois minha avó tinha uma paixão: as moedas de ouro, libras principalmente, guardadas num cofre bancário.
Quando ela morreu, e como meu pai já havia falecido, foi tudo divido entre seus sete netos herdeiros.
Tia Clotildes, casada com um oficial norte-americano, herói da 2? Guerra, com quem teve duas filhas que nem conheço. Tia Anastácia, a mais velha, morta há muitos anos, eu menino, deixou Ricardo em São Paulo, Renato no Rio, bailarino e professor de balé, e Rachel, que mora em Salvador com o marido.
Com minha parte comprei um pequeno apartamento. No Flamengo.



Alguns anos antes, e por cruel coincidência, o tiro que abateu Vargas no Catete matou também a metade do que sobrava de meu pai. No mesmo dia 24 de agosto de 54 meu pai ficou hemiplégico.
Estava na Ilha.
A hemiplegia de meu pai paralisou todo o lado direito - a perna, o braço, a face e a língua, impedindo-o de falar. Sobreveio à uma hemorragia cerebral e como minha relação com ele sempre fora hemiplégica, atingida ou semi-destruída nos seus dois pontos, o do contato afetivo (que ele nunca teve comigo, nunca me falou) e o do contato físico (que ele nunca teve comigo, nunca me tocou e suas únicas duas carícias de que tenho recordação, o passar a mão sobre minha cabeça, me provocaram súbita reação defensiva), e como não conheci aquela que dizem que foi minha mãe, que desde cedo me deu plena autonomia dela com sua morte, e como minha avó Madalena era, à sua moda, altiva e independente, estive o tempo inteiro de minha formação e infância livre tanto daquele pai visível quanto daquele outro tipo de pai invisível, de que se pode fazer em projeções, como num imaginário Deus onipresente, ou a figura do Estado, que nem na Ilha, nem em casa de minha avó nenhuma autoridade existia, apesar da poderosa influência dela sobre mim, pois ela sempre dizia que criava os filhos e a mim para "mandar" e não para "obedecer", o que significava que eu cresci em pleno anarquismo.
O esmaecimento da figura paterna, ativa e operante, sempre deve ter caracterizado a minha para mim mesmo inexplicável personalidade. Minha avó assumiu a função de mãe como um tipo de pai de saias, mas invertendo todo o valor atribuído a essa figura, real ou imaginária, de pai ou pátria.
Sem culpa desde cedo esconjurei o meu parricídio simbólico num total desprezo pela idéia de autoridade, o que entretanto não me faz forte, e pelo desprezo a meu pai (e dele para comigo, que sempre fomos estranhos um ao outro, ou melhor: ele me odiava), rechaçando-o enquanto modelo, substituindo-o por minha avó.

Meu pai, na sua ausência, no seu hiato hemiplégico, nunca simbolizou os poderes constituídos, e eu só dispunha de meio-pai a partir da hemiplegia. A sua presença, se é que a senti algum dia, significava mais que um vazio, um pai entre parênteses naquela imprecisão em que ele se entredisseminara no seu exílio na Ilha e no estado de meio-morto, no seu esconderijo e na sua ruína, na sua indiferença e no seu estrago. Meu pai, eu me lembro, era um homem de desconversas, sobrevida da melancolia, contínua depressão, escondido na figura indecifrável de um rosto mudo e neutro, quase bestial. Mas o que mais o afastava de mim, e o neutralizava na comparação com minha avó, era sua completa afeição à mediocridade, algo assim como a de um funcionário público aposentado sempre com as mais intoleráveis frases-feitas de um senso-comum idiota.

Uma de suas mais familiares e favoritas expressões ("eu nunca vi ninguém fazer isso") me fazia que ele parecesse permanecer num estágio pré-lógico em que seria até capaz de retirar de sua família (que era eu) aquele tipo de fala em que se sustenta a ordem do simbólico da civilização, já que ele tomava como modelo de pensar e de comportamento aquelas que eu sempre considerei as mais medíocres pessoas existentes sobre a face da terra. Santo Deus! ele era capaz de banalizar a maior sublimidade...

Desta forma não lastimei a perda tardia da fala de meu pai, tardia mas castrante. Ele nunca a teve.



Entre o sol e o solo aquela menina como um reflexo de Deus e por entre a minha intransigência passava a soberania da recém-chegada, escandindo os passos na pedra - eu com dezenove anos, ela atravessando perto de mim como se pisasse numa toalha.

Eu não só me senti confiante naquilo que devia ter atraído e criado de meus profundos delírios com sua visão mágica, como também a sinceridade, a ressonância daquela menina, aparecida no nascer de um dia de verão, tocava o presságio de que minha relação com meu próprio corpo começava ali.

Quando aquela menina me olhou de frente, olhar reto, desafiante, o primeiro contato que com ela tive foi de sexualidade, imediata ligação, como se eu já a tivesse possuindo ali, no cais, pois vejo que ela estava impondo e ordenando a regra básica de sua lógica impiedosa comigo, a vida toda, que diz: "me aguarde", e porque aquela menina era um monstro. Eu poderia até ter chegado ao fim se continuasse a bebê-la com os olhos daquela maneira.

Ali logo o demônio do jogo do amor inventou mil venturas e perdições, incendiando de calor da força sexual que vinha dela o meu olhar - ela sob aquele vestido leve, pobre mas primaveril, palpitava de amor numa agudeza nada inocente: ela me fisgou, logo ali, com os olhos, aquele ato, ela sabia, eu era dela.

E me perdi.

A HISTÓRIA DOS AMANTES, 4

Porque ali estava Val.
Na soberba força de sua juventude, força que nunca deixaria de ter e, vigorosamente bela desde o primeiro dia, desde aquele primeiro instante arrancava do ambiente de sua aparição todos os pontos e ângulos competitivos para só nela se concentrarem, os cabelos ocultos num chapéu de palha que a travestiam num rapaz, num príncipe, ou na representação de amazona, que eu imaginava (tanto amava o cinema norte-americano, e me perdoem o exagero e o deslize) que ali tivesse descido dos espelhos das telas dos cinemas de Hollywood uma menina Marilyn Monroe morena, portanto um pouco queimada de sol, os cabelos e olhos negros e que ia atormentar-me o desejo.

A segunda mensagem de seu olhar que nada tinha de proibidas promessas, mas um traço explicito: "vou possuir-te!", e ali se revelava em mim toda a sua vocação, e ali se revelava nela toda sua propensão para a atividade, um macho dentro da delicadeza fêmea, na minha concepção machista de que, pegando ela o parceiro na cama, autoritária e com lascívia, sem entrega, sem baixeza, densa nas artes do amor, era ela quem dominava quem, sedento de seus amores, de seu sexo, se via nos sugadouros de seus prazeres ativos e sobrepostos, impressão tão duradoura quanto, ao arrepio de seus parâmetros, ela convidava como se dissesse: "vem, que vais experimentar o que eu poço fazer" (e que sei eu, depois disso?), o magnetismo oculto, depois provocante e incompreensivel. Só dela. Mas ela sempre dominou o parceiro.



Em novembro de 47, num almoço em casa de Amaro de Souza, Chefe de Polícia do Estado de Pernambuco, Antônio Rodrigues, pai de Rôni, conheceu aquele ex-sargento, chamado Manuel Pacheco, pai de Val, tido como excelente homem, preso e torturado em 35, quando teve todos os dentes posteriores arrancados com alicate; preso e torturado em outubro de 47, escapando de ser crestado com maçarico, ex-membro da LCI, a Liga Comunista Internacional, criado e protegido da família de Amaro, "senhores de engenho liberais", mas que, não sendo pessoalmente um homem perigoso, Amaro, conhecendo-o desde menino, que foram criados juntos, o tirara da prisão direto para sua casa, até que, em 49, quando a caça aos comunistas recrudesceu, Amaro pediu ao Doutor Antônio, pai de Rôni, que o levasse para a Ilha, para sua fazenda Paraná, pois o Chefe de Policia não queria que pensassem que ele dava proteção a comunista.

Manuel Pacheco, machista e ateu, era homem duro, gênio inflexível, irônico e perspicaz, dir-se-ia inteligente se tivesse alguma leitura. Baixo, grosso, forte, agressivo, olho de tigre: violência indiscriminada que às vezes atingindo os alvos errados de sua mulher Fernanda e suas filhas, Valquíria e Lia.

Mas Pacheco gostara de seu novo patrão, e este dele, da sua força física e moral, sua habilidade múltipla foram providenciais na fazenda, o patrão era um ausente, as coisas com Antônio não andavam, e o pulso de ferro de Manuel Pacheco se fez logo sentir.
Val, porém, era prisioneira em casa, não podia ir sozinha à escola do litoral, seu pai nada permitia, e censurava tudo. Ela era obrigada a passar as tardes costurando, como uma velha inválida, ou ouvindo o rádio, como numa prisão, a televisão ainda não tinha chegado.
A ilha era grande, mas ali não era. A casa de Val parecia uma ilha dentro da Ilha Atlanta. As outras meninas, soltas, indo e vindo de bicicleta, livres, nunca virgens.
Mas Val reage.
Desde cedo seu poder de resistência enfrenta o pai e ameaça fugir. O pai a agride, e Val o odeia. Quando o pai chega, ela sente uma pressão no peito, que a sufoca. O pai tendo um modo de a olhar que para ela era uma ofensa, pois à medida que ela ia tornando-se mulher o pai a observava como se a examinasse, ou como um fiscal, como algo, uma coisa, uma censura.
Ela se sentia só, a irmã e a mãe submissas ao pai. As colegas a subestimavam, julgando-a esnobe, metida a rica (seu pai tinha prestigio e poder na ilha). Val não participava da vida que elas viviam.
Val não tinha namorado, quieta e calada, magoada e bela. Toda a sua violência explodia em casa. Val não tinha medo. Desde cedo viverá na família um clima de guerra. Val declara guerra ao Pai. Val aprende a não temer a morte. O pai dizia: "esta menina é maluca". Ela o enfrenta. O pai dizendo sempre: "aqui não tem ambiente para uma menina decente". Ela pensando: "meu Deus, por que tenho de viver trancada, como uma doente? Que direito tem ele sobre minha liberdade?" O pai, que quisera um filho homem, de certo modo despreza as duas filhas.
"Mulher só dá trabalho", diz. E ele se horroriza com o fato de que, inexoravelmente, ela vinha transformando-se numa mulher desejável, sensual.
Ele sabia, e temia, todos os homens da ilha estavam desejando sua filha. A todo momento o corpo daquela menina dizia para ele: "preciso de um homem"'. Por que ela não era o ideal de mulher submissa que Pacheco esperava (uma camponesa forte e assexuada). Val era já mulher com substância, e Pacheco, apesar de suas doutrinas políticas, tinha um conservadorismo histérico quanto à sexualidade em geral, as piores palavras para ele sendo "puta" e "veado", e não "imperialista" ou "burguês".

........................



Abro a porta e sinto o murmúrio eclesiástico que tomava a casa no dia em que o pai morreu.
Ali jazia. Atmosfera mortal. Val me olha, e era como se dissesse: "O Rei está morto".
- É isso. Isso! - disse-me Val.
- Não sei o que dizer, fala Rôni, quase sussurrante, sentindo que ela permaneceria calada e que ele a esperaria, sozinho, naquela mesma noite, sentado no banco de pedra.
- As... - As outras... - Rôni segurava ansioso o braço de Val, e os dois pararam à porta do horizonte de um fato inevitável. No silêncio que se seguiu à morte do pai.
De repente, só os dois existiam, e ouvia-se o sombrio mar de rijo vento e a noite na expressão angustiada. Era uma transformação.
- Você tem coragem... - começou a dizer Val. Parecia que as suas palavras eram articuladas para sempre restarem incompletas, inúteis. Havia um esforço no dizer, um propósito em esconder o verdadeiro significado das mínimas silabas, e seu olhar assume um: "De que você me acusa?" Pois ela se voltou com violenta expressão, não tinha dito o que deveria ficar escondido, aquilo que principiava, o que devia iniciar-se, aquilo que era sagrado, a grande gafe, sua libertação! Olhou para frente, e era como se dissesse: "Você não me está vendo?"
Bastava.
- Não!
Rôni poderia perguntar: "Você o matou?" Rôni disfarça a indignação. E ela poderia responder: "Sim. Há muitos anos".



O vento.
- E então? disse Rôni.
- Que quer que eu diga? disse Val.
- Você o amava? pergunta Rôni.
Ela não respondeu. Chorava com o impacto da pergunta.
A presença é um grande afastamento. Um cadáver ocupa muito espaço. Um cadáver não tem forma, tem presença.
Val não dizia o que realmente deveria ser dito. Sua simulação não mentia. Poderia pensar: "Não digo o que sinto, o que é tão contrário. Só sei que ele acabou de morrer".
A viúva emergia, trágica. Rôni dispôs-se a sair.
- Não me vai dar os pêsames? pergunta Val, irônica.
- Lastimo, disse Rôni.
Realmente ele tinha lágrimas nos olhos.
- Sei disso, disse Val. E calou-se.
Quando Rôni subiu a rua, seu vulto escuro era uma sombra em que se envolvia a densa noite.