quarta-feira, 29 de outubro de 2008

GENESINO BRAGA, crônicas






GENESINO BRAGA por ROGEL SAMUEL


Nas mais antigas lembranças que guardo de G. B. eu era criança e ouvia a voz e suas sonoras gargalhadas já deitado no meu quarto no meio da noite: ele e sua esposa Dinoralva iam jogar cartas na casa de meus pais até tarde da noite – algumas vezes eles vinham, outras vezes eram meus pais que iam na casa dos Bragas.
Ainda hoje guardo (e uso) a caneta Parker 51 que me deu como padrinho de crismas. No meu aniversário ele não trazia brinquedos como todo mundo, mas livros de Monteiro Lobato e mais tarde a antologia que prezo ate hoje – “Obras primas da poesia universal”, de Sergio Milliet da Editora Martins.    
Fui um dos revisores tipográficos da primeira edição do seu “Fastigio e sensibilidade do Amazonas de ontem”. 
Ele era um homem extraordinário, tocava cavaquinho e gostava dos amigos. Dava grandes festas, a que acorria muita gente e era um anfitrião animado. Foi diretor do Rio Negro. 
Escreveu muito, mais de 1100 crônicas que ainda estão nos jornais de Manaus e correm o risco de se perder. Principalmente no “Jornal do Comércio”. Algumas são pura poesia. 
Ele era um homem que abria um vasto sorriso com facilidade. Era meu pai espiritual e eu o acompanhei durante sua vida literária e jornalística. Com 18 anos vim para o Rio de Janeiro, mas sempre o visitava quando ia a Manaus.  Estive presente no Rio de Janeiro quando ele recebeu a Medalha de Mérito da Ordem dos Velhos Jornalistas; estive no hospital em Belo Horizonte quando operou os olhos; e o visitei perto do fim de sua vida, quando já não falava, vítima de um AVC. Ele nasceu em 6 de dezembro de 1906 em Santarém, no Pará; e faleceu com 81 anos de idade em Manaus, em 19 de junho de 1988.
Foi jornalista, cronista, professor universitário, bibliotecário, diretor da Biblioteca Pública do Estado por muitos anos, membro do Conselho Estadual de Cultura e da Comissão Permanente de Defesa do Patrimônio Histórico e Artístico do Amazonas, redator oficial do Gabinete do Governador do Estado e integrante do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - Inpa. 
Curiosamente, em 1935 elegeu-se Deputado à Assembléia Legislativa do Estado. 
É nome de rua, desde aquela época, no Japiim, em Manaus; membro da Academia Amazonense de Letras (desde 1951/1952); membro da  comissão de reforma do Teatro Amazonas no  governo João Walter de Andrade (1971-1974), de cujo gabinete era redator especial. 
Como jornalista começou em 1927, no Jornal do Comércio, onde escreveu por mais de vinte anos. Recebeu a Medalha do Mérito Jornalístico (1971), participou da fundação da Associação Amazonense de Imprensa (1937), e foi escolhido jornalista do ano em 1965 e 1973, em eleição pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Amazonas. 
Recebeu está a Medalha Machado de Assis da  Academia Brasileira de Letras. Sua biblioteca pessoal tinha livros autografados por grandes nomes da literatura brasileira e ele era amigo de Álvaro Maia. 
Escreveu: “Nascença e vivência da Biblioteca do Amazonas”, (1957), que eu digitalizei e está integralmente online no nosso LIVROS ON-LINE e no nosso blog; “Fastígio e sensibilidade do Amazonas de ontem” (1960), editora Sérgio Cardoso; “Chão e graça de Manaus”, (1975) ; “Assim nasceu o Ideal Clube”; e “Lampejos de um cronista” (post-mortem), compilado pelo filho Carlos Genésio em 1992. 
Faleceu em Manaus em 19 de junho de 1988, aos 81 anos de idade.
Ele amava a vida. Quando vinha ao Rio, fazia questão de tomar um chopp no Amarelinho na Cinelândia com sua esposa, onde o acompanhei.


Danae e a chuva de oiro


Genesino Braga



Era uma vez linda princesa...
A lenda é meiga, ingênua e doce...
...e meiga ingênua e doce era melíflua Danae, filha única de Acrísiø, Rei de Argos, vivendo em sonhos a existência que os deuses bons lhe conferiam.
Num promontório sobre o Inacos, - o rio das fábulas dormidas — a virgem hauria os bens da vida, tinha a seus pés os rapsodos, tinha a suas mãos fadas benignas... Nobre e sensível castelã, de suas janelas ogivais olhava os pássaros alados, ouvia cítaras plangentes, ouvia épicos heróicos, que os ventos sísmicos das Cícladas traziam, em músicas vibráteis, a seus anímicos cismares...
Danae sorria e era feliz...
Seu negro olhar de noite flébil pousava brando nas paisagens que os nobres muros do castelo rispidamente circundavam. Seus lábios doces só se abriam a balbúcies pueris, Vênus de corpo escultural, sangue sem apelos nem desejos, não tinha ardor no coração. Não tinha Príncipe Encantado, não tinha anseios de noivado, não tinha dor, não tinha amor...
Danae era um sopro de blandície...
Danae era a paz da Criação...


Um dia, oráculo ardiloso, — prossegue o lúcido raconto — ao Rei prediz: morte inopina, às mãos de um neto, ele teria, em dia infausto do porvir.
O Rei medita e pensa em Danae, a linda e fúlgire princesa, a virgem e casta flor do Reino, a filha amada...
Mas, - rei é rei e a vida augusta, a realeza e o trono invicto devem ser logo preservados...

Toda de bronze, exposta aos ventos, ereta, altíssima, imponente, a torre-cárcere se ergueu no promontório sobre o golfo de ondas mansas, fugidias... Mandara o Rei edificá-la para encofrar a castidade da meiga e cândida princesa... Bem alto, em cela luxuosa, entre janelas gradeadas, no extremo andar da torre heril, a moça penitenciava a inibição de amor provável e de pecado original...
O velho eunuco-carcereiro trazia-lhe flores e frugais, contava lendas melancólicas de rapsodos passionais...
Danae, em seus pérfidos desígnios, - flor de inocência e de indulgência! – cumpria sem mágoas seu fadário...

Danae, em silêncio, meditava, fitava o muito azul do céu, errando em sonhos e quimeras, pedindo aos deuses proteção... Recorda Zeus em seus noivados, pensa em Semele fecundada, pensa em
Latona, mãe de Apolo, pensa Diana, Ceres, Io, em Mnemosina, em Alemena...
Virá do Olimpo a redenção!...

Eis que, em noite silenciosa, de ventos calmos, sem fragor, de pulcra ronda sideral, estranha chuva a torre envolve...
E chuva de oiro, luzidia, de fios aurifulgentes, joiando o âmago da noite, doirando o céu, doirando o ar...
Os fios luzentes, insolentes, penetram as grades da prisão e caem em volúpia sobre a virgem noite, explêndida, a dormir...

Compreensão... Revelação...

É Zeus, na sua metamorfose, divinamente enamorado, que, em seu poder de encantação, em oiro todo transformado, a bela moça enlaça e ameiga, em posse olímpica e sensual!...
Danae é o abandono sensorial, em seu estado de doçura, entregue ao ímpeto do deus, na graça íntima do amor...
Consumação... Concepção...
...e a lenda fúlgure prossegue: nasce Perceu e o Rei, irado, Danae e o filho atira ao mar ...
As ondas levam os renegados a terras outras do sem—fim, aonde se salvam e são felizes e vivem muito até que, um dia, os vaticínios do advinho se cumpram em fórmulas fatais...
A história mítica de Danae define símbolos morais. Transportam as ânsia dos milênios, esquemam lúgubres desígnios rememorados na consciência do fabulário emocional.
Danae reclusa e a chuva de oiro...
Danae passiva em doce oferenda de amor aos deuses vontadosos, para que, assim, de suas entranhas, surjam outros deuses protetores, ou nasçam ídolos e heróis.

Seiva do céu é a chuva de oiro em solo virgem, fecumdante, gerando safras e plantéis...
Pluviável bênção aurifulgente, que acorda os gênios e inspira os poetas, na enunciação da voz de Deus...
A chuva de oiro é a emanação da graça lírica do amor, essenciada de poesia, na ingênua lenda original...

Danae é o esplendor das germinais, nas férteis dádivas do amor, a reflorir pelas idades em mudas ânsias sublimadas nas espirais dos sonhos vãos.

Dai chuvas de oiro a Danaes outras, na torre altíssima dos sonhos, - e eis triunfal o ardil dos homens na trama poética das lendas, que se renovam pelos tempos e multiplicam-se no mundo, em tempestades hibernais de trovas, crônicas e cânticos de amor, de sonho e poesia...


SE TU PERDESSES A BELEZA...

Genesino Braga




Se tu perdesses a beleza... e o olhar intenso e a fala musicalizada, - ficarias sendo, não a mutilação da Obra Perfeita, mas a transfiguração da Obra Perfeita.
A pacificação da carne ansiosa, a sombra de êxtase nos olhos áridos, a suave tristura de uma boca sem canções, - tudo acordaria em ti uma alma sensorial de superfícies brandas, com a reprodução calada dos ecos todos que afirmam a força e a energia da Criação.
Irias gravar, nas cicatrizes dos pensamentos apaziguados, a doçura das noites de veludo que abrandaram as tuas ânsias. Afloraria, na tua saudade, a memória das imagens recalcadas no clamor dos apelos, para que as sombras dos instantes imperecíveis se transfundissem no respeito humano que a integridade de teus desígnios obrigaria.
Então, feito milagre de transmigração, a singeleza de tua nova consciência daria à vida a excelsa explicação do teu amor. Seria a libertação da alma postiça que teu corpo vestia, ficando-lhe a delícia de poder absorver, para indulgência e redenção, as essências da beleza incorpórea.
Ascenderias à Perfeição! Decifrarias no perdão do teu corpo sem desejo, o imutável segredo da composição estética da vida. E o doloroso fundo da tua natureza melancólica teria a participação da felicidade imaterial.
... e uma outra espécie de formosura – a Harmonia Interior – surgiria em teu destino, como um fluxo de redenção espiritual...
Oh!, se tu perdesses a beleza...

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O SONHO DE ANO-BOM DA MOÇA LOIRA


Genesino Braga



A Moça-Loira entra na boite e os acordes do primeiro blue a arrebatam para a quintessência de seus doces devaneios...
A música é uma pasta melódica que escorre sons indolentes e sem pressa sobre o tablado da imaginação. Fermata infinita celebrando a suave tristura de algum recalque sem remédio... Sopro consolador da alma aflita, que suscita delitos impossíveis e gera o eflúvio dos pensamentos proibidos... Recado de todas as distâncias, no tempo, que a trompa emite e a alma capta no epitáfio dos ritmos desfalecentes... Solo exausto e sensual dos desesperos de sobreviver...
A Moça-Loira dança o blue no esvazamento da sua interioridade emocional. Dança e sonha... Uma espécie de êxtase votivo apazigua-lhe a carne ansiosa, em sua orgulhosa veemência de pecar. As sombras dos desejos insatisfeitos atropelam-se em fugas sensoriais, como imagens recalcadas da última tormenta. Sua alma é a paz; seu espírito é a indulgência dos apelos dilacerados; seu sangue a desmemória dos impulsos superados...
A Moça Loira sente, na nota elástica da música, a lenta filtração da mocidade. Os alaridos da entrada do Ano-Bom acordam-lhe os pensamentos sensatos na determinação do tempo. Há folhas de outono, já, moisacando paisagens à sua frente. A tênue penumbra ambiente traz-lhe a intimidade das vozes sentenciosas da vida... Mas, a Moça Loira é toda uma aceitação do irremediável, e seu fortuito pensamento de Ano-Bom. Dança e sonha... aos braços vigorosos que a enleiam, intencionais, outros mais sucederão, em líames táteis de volúpia, na impetuosa desintegração do plasma. Esquece, assim, os sopros rígidos do tempo e refugia-se na idéia vã de perpetuar o seu enternecido devaneio. As notas longas e lascivas daquele blue desapressado bem poderão suprimir todas as tintas da lembrança e deixarem-na parar naquele sonho, distanciada, em nostálgico recuo, dos festivos silvos e alaridos que saudavam, sim, a fuga de sua mocidade.
Ah!, o sonho de Ano Bom da Moça-Loira, no doce enlevo daquele lânguido blue de notas mansas...


A VALSA DAS DEBUTANTES



Genesino Braga



As debutantes dançam a sua primeira valsa....
A ronda alígera dos corpos harmoniosos acorda uma esperança ideal de vida nova...
As notas lentas debulham sonhos, desfiam rosários de carícias mansas, acendem as lâmpadas de oiro do primeiro amor...
Tudo refulge no deslumbramento desta noite maravilhosa!
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As luzes põem lampejos de cristal nos ornatos geométricos da pista...
Ágeis, frágeis, adejáveis, os pés mimosos descrevem a fuga das borboletas inebriadas pela fragrância dos nectários...
Parece que a alma da valsa se desagrega na tonteação dos pés em pontas; e à forma volta, donairosa, pelo ritmo das plásticas aladas...
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As debutantes dançam a sua primeira valsa...
Rodam, rodeiam, rodopiam, giro-girando em braços afetivos, na louçania dos movimentos graciosos...
A felicidade tem sorrisos de sol pelos seus olhos fulgurais...
Por suas cabecinhas inquietas passam procissões de sonhos em silêncio...
Nasce a primeira ilusão, em sua infinita pureza.
Brota o Enlevo!
Surge a Emoção!
... e eis o amor!...
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Todo o ambiente é de fascinação paradisíaca.
Na pauta das três essências do mundanismo – a Elegância, o Cavalheirismo, a Euforia – sobreexcele o espírito da Beleza.
A festa é uma divinização da “menina-moça”, glorificação pagã do “entreaberto botão e entrefechada rosa”. É o noivado da graça e do Amor!...
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Das cabecinhas tontas esvoaçam as painas dos pensamentos felizes...
A debutante dança... Dança e sonha... A dança é o sonho rítmico dos movimentos; o sonho é a dança azul dos devaneios...
Bailar é um vôo impossível que o corpo ensaia pelos rosais da Vida...
Sonhar é a suprema respiração da alma...
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A debutante dança... Deslumbrada, absorta, feliz...
Lá em casa ficara a última boneca; e a dormir sobre ela o último beijo de criança...
Agora, é a ditosa senhorinha de olhos ternos e coração aberto para os anelos do amor...
Sobrevoa-lhe o espírito ingênuo, em seu enlevo sideral, a esperança de uma felicidade perene...
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Povoai de graça e bênçãos, meu Senhor e meu Deus, a valsa e o sonho bom da debutante!


O SAMBA



Genesino Braga




Tem toda a cadência das falas, dos modos, da alma e da vida do estrênuo Brasil!...
Tem todos os ecos que afirmam os anseios, as dores e as mágoas da raça caldeada no sangue tapuio, na alma dorida do negro cativo, na lusa saudade do desbravador!...
Tem todas as vozes da faina dos morros, o ar dos barracos, o gingo das “negas”, a gíria solerte dos “cabras” matreiros, a ingênua crendice das velhas mucamas!...
O samba é o Brasil!...

Brasil que gemeu nas torpes senzalas e agora nos canta os hinos de glória da sua liberdade!...
Brasil de arco e flecha, que impou nas “entradas” do branco insolente e hoje se alteia, domina e triunfa nos prélios olímpicos; e faz, nas ciências, nas letras, nas artes, robustas conquistas de nobres lauréis!...
Brasil das “Bandeiras”, dos “Fortes” invictos, das lutas sem tréguas ao guapo invasor, que hoje repete façanhas heróicas em Monte Cassino, Castelo e Suez!...
O samba é bem todo esse alçado Brasil dos nossos poetas, dos mártires nossos, dos nossos heróis, que, em líricos versos, em vero holocausto, em feitos audazes, fincaram alicerces de paz e progresso, de impávida força, de orgulho e riqueza da altiva Nação!...
Brasil de Fernão Dias e Castro Alves!...
Brasil de Paraguassu e Maria Quitéria!...
Brasil de Marcílio Dias e Tiradentes!...
... de Ajuricaba e Felipe Camarão!...
Brasil da Princesa Izabel!...
E todos os vultos, viris, altaneiros, e todos os feitos augustos da pátria resplendem no samba seus dias de glória, seu vivo esplendor, no cívico canto de brasilidade, que o samba engrandece, que o samba enriquece, que o samba traduz!...
O samba referve cadências mulatas no sangue, nos pés, na alma, nos braços, no sonho, nas veias e no coração da grei brasileira!...O samba é o Brasil!...

Brasil verdadeiro, que mora nos morros, que corre nas praias, que sua nos roçados, que laça nos pagos, que corta seringa, que tange boiadas, que rema no mar...
... que cata garimpos, que doma sertões, que sonda petróleo, que ordenha, que pesca, que colhe e canta poemas de imensa ternura, em anelos de amor!...
Cantando e dançando, mexendo e movendo, bolindo e tinindo, repondo e compondo, - o samba é o Brasil!...
Brasil na glorificação da liberdade!...
Brasil na exaltação da nacionalidade!...



LUZES DE NATAL



Genesino Braga





Sobre os róseos berços de Gisele e de Monique, divinizadas na ressonância das éclogas pacíficas, refulgem as luzes de Natal. Vêm de noites estelares, na ronda cósmica dos séculos, clareando tempos e distâncias, levando ao céu ânsias e dores, trazendo à terra bênção e paz. São graças fúlgidas de amor, mensagens fúlgures de Deus, que brilham em súplicas e preces, que argentam sonhos, que doiram anelos, que expõem revérberos candentes no chão brunido dos caminhos, que, - auspiciosos, luminosos – conduzem à graças do perdão.
Monique e Gisele dormem e sonham, em seu berço de idílica pureza. Dormem e sonham, nesta noite de cânticos e hosanas, - no ar o aroma das apoteoses. Dormem sorrindo o afeto da inconsciência, sonham habitando em céu de doce enlevo. São os sonhos frágeis da inocência, sonhos azuis da puerícia; sonhos que vagam em mundos transcendentes e buscam à vida rumos de lindeza, - rumos que ficam em nossas ânsias de divindade e perfeição, gratos refúgios na tormenta, suaves abrigos no infortúnio, nosso conforto e proteção.
Os cursos lépidos de vida, que, sobre os meses de Gisele e sobre os meses de Monique, contam o bater do coração, somam nirvânicos desvelos, falam das horas de vigília, dizem do amor que mais sublima, revelam angústias e paixões. São dias de cândida existência, horas alíferas, fugaces, que se defluem em bem de graça, entre rosais e madrigais, sob apanágios de candura, nutrindo ricos cabedais de segurança e de esperança, - horas de frágil existência, robustecidas nas canções de acalentar, purificadas no calor dos colos santos e dos regaços veneráveis, maternais.
Na noite mansa de Natal, na noite-paz da cristandade, as meigas primas dormem e sonham... Flores recentes, lâmpadas novas, ornatos últimos da velha árvore de Natal, deram-lhe seiva, deram-lhe força e exuberância...
Deram-lhe a luz da estrela-guia, de céus distantes, da noite avoenga, - a graça e o bem da virginal concepção... Trouxeram o fulgor do oiro de Baltazar, a fragrância do incenso de Gaspar e a untura da mirra de Melchior.
Ah!, mas, dentro em pouco, nesta noite de cânticos e hosanas, Monique e Gisele acordarão... Meigos sorrisos de criança unir-se-irão ao todo harmônico da noite, - e seus olhos brilharão como as estrelas, e a seus ouvidos chegarão os estribilhos das preces leais que saem do coração, pelos votivos cânticos de amor, pelas ingênuas éclogas erguidas nas ladainhas e nas pastorais, - e pelos salmos de louvor e glória, - balsâmicos, anímicos, sublimes, - que dão beleza, amor e poesia à contrição universal.


NO “DIA DAS MÃES”




Genesino Braga




Estas pompas, estas festas, estes risos, compõem poemas invioláveis nas cicatrizes de velhas ânsias mal saradas. Elegem toasts ao Amor Materno, - manancial dos bens da vida, árvore de fronde rica pródiga em abrigo, jardim que a Mão Divina procriou para a germinação do afeto e da bondade!
Estas pompas, estas festas, estes risos, salmam e saúdam o Coração Materno, - emanação das bem-aventuranças que pacificam os conflitos da razão... veio do perdão e da doçura, em ricas dádivas, nas entranhas dos séculos... voz de renúncia e desistência, que aconselha e define com as sentenças de todos os instintos e as vozes sábias do pressentimento...
Mãe-Afeto!
Mãe-Ternura!
Mãe-Amor!
É em teus seios de veludo morno que se dissipam os pensamentos sem pureza e se refrescam as frontes fatigadas, batidas por cruéis desesperanças. É de teus olhos de perenes preces, úmidos, mansos, compassivos, que emanam os ungüentos lenientes para as horas de angústia e depressão... Tuas mãos são as asas do perdão supremo! Teus lábios soltam a música da vida e a poesia maior da criação!
Tu és Arrimo!
Tu és Consolo!
Tu és Amor!


O INSTANTE DIVINO



Genesino Braga



Daquela púcara de água fresca, que era a boca ansiosa de Danielle, rolavam as bagas da última carícia. Na sôfrega mitigação de mórbida sede de ternura, que a envolvia em posse extrema, todos os instintos se refinavam para a consumação do grande momento.
Na madrugada clara, da varanda de bambus debruçada sobre a praia, sombras de palmeiras esguias decalcavam as vozes do silêncio na paisagem fria. As ondas acordavam velhas canções dolentes que as saudades marujas eternizaram em fermatas sem fim... E o luar punha brunidos de faiança num céu antigo, sempre presente.
Vinha do dancing, pela preguiça elástica do último bolero, uma sensação de inércia e de fadiga, que lá fora os ventos refrescavam. A música parecia fixar a imagem daquele instante, sob a incitação reticente de seu nome: “O momento do amor...” Havia nela um sonoro desejo de explicar os ímpetos da carne pelo conflito dos graves e agudos que se intercontundiam nos sopros metalizados. Notável de epigramas estéreis, fastidiosa e vazia de comunicação, saturada de moleza e indolência, - elucidava, entretanto, a objetividade daquela misteriosa fascinação dos sentidos.
Danielle vivia todos os fragmentos de seu próprio devaneio na imobilidade do transporte interior. Em estado langue de graça e consentimento, deixava repousar, ao colo pando, a cabeça em abandono do Bem-Amado. Fruía a posse plástica da sua #andolatria, na capacidade integral de todos os sentidos, com os grandes bens da sensibilidade. Aquele instante de onírica ternura, hauria-o em gotas, a jovem enternecida, como se protraísse de si própria, para a perpetuação daquele anelo, a filtração de seus gratos anseios.
A doce interpretação daquele idílio oferecia alguma coisa de místico e profundo para o cansaço imenso de sua alma. Eram fusões de gravidade imperativa integrada no contacto poroso, com a adesão da matéria, para o curso livre das imagens sem percussão. A expansão dionisíaca do amor surgia e oscilava entre o espírito ferido pelo efêmero e a idéia misteriosa da eternidade.
O fundo lírico da paisagem – o mar, as sombras vãs, o luar, o vento e a música lasciva – tudo ainda conspirava a precipitação do choque definitivo das revelações quando ocorreu o desmoronamento da resistência física que o retardava.
- Danielle...
E houve, então, no Espaço, no Tempo e na Forma, o colapso fatal do macrocosmo no microcosmo do amor...



TUDO ISTO É DEZEMBRO...


Genesino Braga





Se nada mais restasse do que essa música sem memória, que anda nas falas, nos baques e nos toques de todas as coisas, neste multíssono Dezembro, - só isso bastaria para compensação de nossos íntimos conflitos, de nossas dores sem remédio, de nossas lutas sem grandeza.
A lírica ressonância que sobrevoa o mês último do ano, acomoda-nos em um álveo de ingênua beleza, sem resposta e sem eco para as vozes perdidas, sem imagens ajustadas para os gestos de aflição.
Esse alarido de cores, que veste a estatuária feminina; essas vozes, que estridulam cristais de preço nos votos de felicidade; esses ritmos santos, que emanam, ingênuos, das pastorais, essa fragrância, que vem das árvores e da terra, ao nupcial das chuvas de verão, - tudo isto é Dezembro!...
É Dezembro o riso da criança pobre a mirar o triciclo do menino rico; é Dezembro uma estrela caudata fulgindo sobre o mundo; é Dezembro o olhar sem brilho do homem-sem-pão frente as vitrinas das confeitarias...
Dezembro está na soma do mundo, no cômputo, da vida, na integral de todos os movimentos. Está na gris saudade do ancião e no sonho jovial do adolescente; está nos ganhos do mercador de brinquedos e na súplica fatigada dos mendigos; está no frêmito apressado das ruas e na doçura ambiente dos lares mansos.
Dezembro canta nos anelos dos moços, sorri no contentamento das crianças, revive sonhos nos pensamentos exaustos, murmura preces no entre-lábios dos ascetas; e grita, brada, zune, tine, rufla e soa, perene e alegórico, na ronda lírica e orquestral de todos os ruídos da faina universal.
Tudo isto, agora, é Dezembro! Depois... será Janeiro...



DO ROMANCE DE GLAURA...



Genesino Braga



Certa vez, encontrei-a em depressão de ares sombrios, como se estivesse a declamar, em compunção, a “oração sobre a Acrópole”, de Renan.
Confrangia ouvir-lhe a voz de cantochão, naquele infinito clamor de dolorosa contingência humana, celebrando, talvez, o rapto de sua alma, em tarde gris, numa curva do mundo.
Olhar manso e parado, expressão anêmica da Forma e da Emoção, imagem fixa de um instante da extese, - Glaura gerava uma geometria de ângulos místicos, em pura harmonia com a Obra Criada.
Levara-o o Amor a esse refinamento lírico da sensibilidade. Mas, o orgulho do seu último pecado incapacitara-a para o exangue estado de doçura; e o travo insidioso do primeiro consentimento abrira-lhe as cortinas do seu mundo interior, bem antes de se lhe extinguir o fulgor da adolescência.
Na sábia justa do coração, a ingênua amorosa turificara os altares das mercês com os incensos da volúpia acolhedora. A renúncia, a confiança, a compreensão, - todas as vestes níveas da anuência fizeram ao alto os sopros do íntimo recato, naquela doce e purificada oferenda de ternura.
Mas, Glaura esquecera as dádivas sagradas que atendem aos apelos do instinto. Seu corpo moço, de suscitáveis linhas harmoniosas, não participara daquela oblata; e os deuses mais justos lhe recusavam as bem-aventuranças do Amor.
O sonho morto, a alma inundada de aflição, Glaura sentira o peso do ideal insatisfeito, naquela paisagem viva do seu dilaceramento de solitária.
Não chorou.
Não clamou.
Por que chorar e clamar dentro da angústia e do tormento com que assistira à negação da sua lúbrica osmose?...
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Agora que Glaura está morta e que, da sua lembrança, resta apenas esse desdém, esse fastio indisfarçável para todas as formas de redenção, - tudo se conclui daquela completa desistência de Deus que o ricto amargo de sua boca oferecia, diante da Vida, diante do Amor, diante da morte...



DO CANCIONEIRO DA ETERNA SAUDADE



Genesino Braga






Lembro-me bem de suas cantigas... Ainda marulham, rente à saudade dos meus ouvidos, muitas canções que ela cantava e se infiltravam docemente nos sentimentos da minha adolescência. Algumas, ternas, de comovente evocação; outras, alegres, de glosas ricas de facécia, - de quase todos esses ritmos do velho cancioneiro ficaram trechos esquecidos esvoaçando nas paisagens da minha recordação. Dessas canções, porém, uma penetrou fundo em meu espírito e veio comigo, pelos tempos, com a imagem mais viva que conservo no sacrário do afeto filial. Foi a que ouvi, certo dia, ao fim suave de uma tarde sem recalques, a escapar-se em tom estranho dos lábios santos de minha mãe. Passeava, ela, pela praia, eu a seu lado, no espairecimento das suas lides rotineiras. Soprava da baía de fundo glauco um vento lépido, que segredava mensagens de carícia às ondas mansas; e a paisagem se estendia para outros céus, como a encampar mais amplos horizontes para a ilimitação dos seus deslumbramentos.
Naquele painel de tintas variegadas, edênico em sua grandeza primitiva, minha mãe pôs-se a cantar. Começou baixinho, em tom de prece, quase em sussurro, batendo os lábios fartos como em leves contatos de asas malferidas, o olhar perdido nos longes das distâncias. Depois, ergueu a voz em escala ascencional, alheiou-se das formas de vida que a cercavam e saiu a caminhar na areia úmida, rente à água, livre e leve, como se alçasse um vôo para o Infinito, em busca de algo que dela houvesse em algum tempo se escapado com o alar das suas últimas quimeras.
Minha mãe cantava alto, com um travo de mágoa e de ternura na voz sentida. As palavras saíam-lhe da garganta como gemidos de gaivota ferida, arrancados do fundo de alguma frustração, que só ela conhecia. Não eram de pranto, porque traziam a secura dos desencantos cicatrizados; não tinham lágrimas, porque se desprendiam enxutas das gotas de desengano que haviam banhado o seu exausto coração. Eram mais, talvez, a libertação de velhas ânsias nos cofres da alma acumuladas como reservas de anelos e esperanças, em auspícios bons dos bens da vida.
Adolescente, ainda, no gosto de vê-la sempre afável e prazenteira, fiquei a contemplá-la, meio aturdido, naquele instante de arrebatamento de sua alma. Era de seu natural uma alegre conceituação da vida, que ela prodigalizava no jovial amor aos filhos. Amava as plantas e cultivava os roseirais com a orgulhosa paixão de uma deusa inexorável Muitas madrugadas de verão surgiram de seus olhos de tâmara seca, entre alaridos e canções, para o afã das regas no jardim. Exultava no contentamento de ver se abrirem as rosas nas roseiras que sua mãos boníssimas cuidavam; e o mais desgracioso dos enfados, que lhe pungiam o coração, vinha de ver colhida uma, sequer, das flores de suas plantas, que nestas deveriam cumprir seus ciclos de beleza.
Naquele fim de tarde, porém, minha mãe surgia para mim como uma estranha revelação. Como me parecera extraordinária em seu enlevo! Que fronte pura! Que olhos cheios de enigmas! Que traços nobres e altivos! Seus cabelos volumosos e espessos cobriam-lhe a cabeça em novelos assimétricos como os das estátuas de atletas da escola florentina. Seu passo era o de uma Ninfa que saísse a cantar na areia das praias do Tirreno. Do seu todo emanava alguma coisa que era como a respiração da alma através das linhas austeras de seu corpo.
Com aquele canto secreto do seu coração, a sua efêmera evasão do mundo palpável, o encanto de mistério que se adivinhava em sua expressão emocional, - guardei para sempre a sua imagem daquele instante no meu coração. Por muito que eu viva, nunca poderei esquecer aquela expressão helênica de seu rosto, a um tempo forte e terna, em recorte de camafeu na amplidão da paisagem crepuscular. Mas, nunca também poderei compreender a sua linguagem daquele momento, o grito dilacerado que a sua doce alma de santa soltara naquela tarde, não sei para quais rumos do Nirvana, através daquela dolorida melodia, que ficou perene, com a sua imagem, na minha eterna saudade.




CANTIGAS DE FRANÇA



Genesino Braga




Venho de ouvir canções de França, que um chansonnier do mundo alto deixou escapar pela filtração de sua garganta de musgos brandos. Agora, eu trago mais um pouco daquela espiritualidade que iluminou Sarah Bernhardt e Mounet-Sully, que sublimou Musset e Flaubert e que deu a euforia das cores a Renoir e o segredo dos sons a Massenet. Agora, eu sinto mais soberba a força espiritual daquele “Allons enfants de la patrie” que o cântico heróico universalizou em compassos imortais.
O cantor nos transmite, pelos vitrais da sua voz, a luz coada de uma França povoada de imagens felizes. Suas canções estão cheias da ternura e da ironia daqueles vetustos recantos de chão querido, por onde vagaram santos e poetas, distribuindo, entre os homens e as coisas, muito vidro translúcido de Evangelho e os mosaicos de sol da Poesia. Falam-nos de paisagens singelas da campanha, do espírito de um provérbio cheio de bom senso, de algum cenário de porcelana rente ao Loire, de velhas fábulas e canções na boca dos paysannes – e tudo isso num modo de contar e de cantar que é o mais doce e o mais ático do mundo.
Porque, no repertório outado do chansonnier, desfilam as coisas belas, as coisas boas e as coisas amadas da amada França: desde o donaire dos figurinos de Lanvin e de Patou ao cosmopolitismo da Praça Pigalle; desde a suavidade dos perfumes de Guerlain e de Chanel ao formigamento das midinettes descendo das praças para o métro; desde o bouquet dos vinhos de Bourgogne – o Chambertim, o Pommard, os Rosés, o Chablis – ao intrincado das vielas do Templo ou das rampas de Montmartre. Paris está presente naquelas blagues, naquelas estrofes, naquelas boutades do “Ce Soir”, do “C’est si bon”, do “Pigalle”. Toda Paris, absorvente e seducente, com seus teatros, seus cafés, seus cabarés, seus boulevards; a Paris das perspectivas, dos cais do Sena, dos jardins, dos bois, dos museus, da mocidade alegre da Sorbonne e das modas femininas em linhas gráceis e volúveis; a jovem Paris eterna, Paris do amor, do espírito, do trabalho, do gênio, da poesia, da arte, da ciência, da razão de viver; a Paris das mulheres caindo como andorinhas e pétalas sobre a Praça Vendôme e a Concórdia; a Paris das noites feéricas alteando as letras lucifúlgures do “Moulin Rouge”, do “Bal Tabarim”, do “Shéhérazade”, com coristas e vedettes de todas as pátrias, suas cançonetas maliciosas, suas folias...
Toda a França, que tanto amamos e cultuamos, escorre e transborda nas canções que venho de ouvir. A teia de encanto e de afeto, que envolve de longe a saudade do cantor, é a líquida encarnação do mais puro e do mais alto lirismo que emana e esvaza daquelas estrofes sensitivas, plasmando a graça e a verve do encantador espírito de França.
Cantigas de França sempre me embalam e acalentam o coração...




O VIAGEIRO DA BELEZA

Genesino Braga




Na caminhada para o Adiante, perdeu-se o Apóstolo, na busca ansiosa da Perfeição.
Andou, andou, andou... como nos falam dos príncipes medievais, os racontos azuis dos irmãos Grimm.
Enamorado da forma harmoniosa, desejava a estesia artística da alma, para o refinamento do aspecto da vida,
Fez-se Bom. Cobriu de graça o mundo para a passagem das sombras inquietas... Minorou as dores do sofrimento humano com os ungüentos da Sua misericórdia... Derramou lindezas no Seu rumo e esparziu esperanças por todos os caminhos, objetivando aformosear os dias da humanidade...
Fez-se Poeta. E, Poeta, cantou, em parábolas sensíveis, por vales e montanhas, os poemas sos sentimentos generosos transfundidos no Amor... Amou as crianças, os pássaros, a natureza... Semeou alentos e otimismos entre os enfermos, os de alma triste e os sem fé... E o pugilo de iniciados, que agremiu ou em torno de Sua irradiação luminosa, transformou-os em argonautas de um ideal...
Fez-se santo e obrou milagres: deu aos cegos o variegado das paisagens, aos surdos a orquestração multíssona do Universo, aos mortos a eurritmia da vida. As vozes divinas, que emanaram de Sua boca, santificaram todas as áreas da Terra, séculos a forma, numa perene propagação da Felicidade...
Então, proclamaram-no Deus!
... e crucificaram-no...



EX-LIBRIS PARA POETA



Genesino Braga




Mirna joga basquete e impele a esfera com a agilidade de um felídeo. Salta, enrija as espáduas queimadas, empina o busto escultóreo e ergue a fronte para o céu, como a atirar uma oferenda de ritmos elásticos contra o sol. A cabeça é um pênsil cinzelado no sentido da energia criadora. Seus braços ágeis lembram “rowers” e dançarinos, malabaristas e arlequins, correndo um páreo de números destros; e os pés, alígeros, insubmissos, descrevem polioramas esquisitos na tonteação dos movimentos.
No acaso dos prélios decisivos, Mirna sente que suas mãos são fortes, que seus músculos são de ferro e poderiam, se ela quisesse, cortar o mármore duro, quebrar e percutir com violência, empurrar montanhas e deter o mar. Mas, a sua delícia estética está na maleabilidade da técnica de impelir a substância palpável, na exatidão do golpe, que a força bruta anula e só a inteligência precisa. Aqui, o impulso é certo, o passe é medido, e bem calculada é a impulsão da bola. Há um apuro consciente na economia dos movimentos, como se quisesse afirmar a tese da força educada e da coragem equilibrada.
Mirna joga basquete inaugurando regras básicas no código da estatuária. Lesto e vivo, seu corpo é o corte rápido e incisivo de um golpe de florete, na pleniposse do espaço. Nas linhas suaves de sua forma, tudo é equilíbrio e harmonia: equilíbrio de energia e propulsão, harmonia de movimento e destreza. Inato à estrutura de seu físico, há uma correta declinação de curvas, que se alongam em seqüências donairosas, com a consciência e o sentido da agilidade retrátil.
Mirna é uma festa de movimentos corpóreos ao ar livre. Seu riso é alegre e matinal, seus olhos refletem as imagens de um cenário de brinquedo, sua presença insinua um plano interior de ímpetos felizes. O busto ereto, as coxas lisas, os seios em pontas, a cabeça em postura viril, o perfil de acentuado recorte, poderiam sugerir uma criação da estatuária grega, talvez o Apolo de Belvedere, se no olhar de Mirna não houvesse uma chama viva, ora doce, ora meiga, denunciando a presença de um coração ferido.
Bonita idéia, toda ela, no recorte da silhueta impetuosa, para o ex-libris de um poeta surrealista.




CONDESSA


Genesino Braga





Só se pode imaginá-la, coerentemente, na figura daquela estela do Cerâmico, tão ressumante de vitalidade. Seu busto heril, de aristocráticos contornos, impõe o trato de reverências bem cuidadas, como se um brasão de velha estirpe se insinuasse naquele olhar de graciosa austeridade.
Chamemo-la Condessa!... Senhora Condessa!... Porque o seu porte, seu busto e seu orgulho são de Condessa. Por sortilégio da formosura e da coerência, o clima de emoção que ela suscita, banha-o o hálito longínquo de austeras cortes, prisioneiras de regras e etiquetas.
Condessa é bem uma imagem senhoril numa balada nobre de Rostand. Beleza altiva, mas de olhar suavemente faisandé, seus traços, sua estatura, condizem com as linhas áticas do espírito, na expressão forte da personalidade. É toda graça e dignidade, sem discrepância do que lhe vem da alma romântica, nas justas hábeis do amor.
Toda a sua vida tem a beleza heróica de um romance. E, com o desencanto das borboletas sem horizontes, anseia pelo retorno à crisálida. Por muito alto sonhar, solteira permanece, aceitando sem tristeza que se dissipem, no tumulto das emoções, as tintas vivas da primeira mocidade.
No Amor, como na Arte e na Vida, Condessa apostoliza a interpretação lírica do silêncio. Mantendo o sentimento singularmente impassível, - sem derrame, sem sensualidade, - deixa que os arroubos de volúpia se deformem em imagens abstratas, dando a impressão de haver amordaçado os próprios nervos para reter a felicidade dentro de si mesma.
O raconto de Narciso ainda é a mais humana das concepções lendárias... Pegai Condessa, salpicai-a de amor e ansiedade, deixai-a mirar-se, oculta, ao espelho de um lago sossegado, - e eis Narciso!, enamorado de seus sonhos, de sua beleza, de seu orgulho...




NO CAMINHO DAS ESTRELAS


GENESINO BRAGA


No chão reflexo, sob o cone de luz pênsil do teto, salta das trevas a silhueta da bailarina. Não é mais que a tênue pluma de Verlaine, vestindo a imagem da fragilidade; nem menos que a emoção plástica palpável gerada em seiva de cristal. É o jogo rítmico da Forma, a geometria sensorial dos movimentos, com que a etérea figurinha de Tánagra coreografa, na pista luzidia, o sentido escultório do equilíbrio.
Graça volátil, envolta em fúmeu véu de bisso, virgem e leve como um lírio, a lesta wilis meneia alíferos anseios, doma o espaço e se espirala em airoso voluteios, na argêntea faixa luminosa. Baila em oração: a expressão doce, os olhos súplices, nos lábios rictos a flor de um beijo de perdão. Suas mãos têm frêmitos de prece: flaflam tremuras de misericórdia, adejam acenos de mea-culpa, grafam sinais de contrição. Os pés deslizam, giram e correm, - flexíveis, alígeros, fluidais, - pétalos destros da cadência, plantas macias em tatos de veludo. Duas serpentes de carne rósea e elástica são seus braços, em harmônicos volteios pelo ar, como raízes de um caule teso e fléxil buscando os sumos da sobrevivência. De ventre esguio, de busto ereto, de coxas lisas, todo o seu corpo, esbelto e lépido, inspira o ideal da estatuária. Dança! e, na dança, ao som dos ritmos sensíveis do ballet, tem toda a movimentação da natureza: nada e voa, salta e coleia, rebenta e excita; é peixe e pássaro, gato e serpente, arbusto e mulher. Seus músculos se enrijam à flor da cútis nívea, suas veias refervem o plasma árdego e infrene da emoção. Toda ela é a voragem da posse exclusiva da matéria, a alma inflamada de êxtases e ardores veementes, em decalque na sua plástica harmoniosa.
Súbito, a música finda, a bailarina se imobiliza, a luz se esvai. Da mensagem de beleza que ela nos trouxe ficaram esvoaçando em nosso pensamento, como uma ave cativa, os fragmentos daquele prisma de faces multivárias que o bailado refletia, - fascinante painel de arte emocional, imperecível de genialidade na razão estética do eterno espetáculo.
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Agora, a bailarina está prostrada. Na quietação do camarim, fechada e só, dorme em hipnose. É toda o abandono da força irrefreável que lhe agitara o corpo e o sangue; é toda o silêncio do tumulto em que, momentos antes, se fundiam os grandes apelos de seus músculos elásticos. O doce apaziguamento de sua carne marca limites entre a concepção reflexa da vida e o gosto exótico da morte.
Mas, o espírito da bailarina não repousa. No imenso dulçor da queda física, desvia-se para o efêmero. Tem sede de infinito e adeja, em ronda insatisfeita, pelos caminhos das estrelas. Liberto do corpo em letargia, continua a dança que este interrompera. Desloca-se para os prados e, colibri sôfrego, vai, de corola em corola, haurindo néctares acídulos. Oscula as relvas, afaga as fontes, vence as paisagens, beija as ramagens, dançando sempre, bailando tonta, em desvairada busca do Impossível, do Intangível, do Inatingível. Galga as montanhas, atinge os picos e pula para Via-Láctea; e vai, de estrela em estrela, em saltos rítmicos e doidos rodopios, bailando sempre, dançando sôfrega e alucinadamente, na ânsia de encontrar e de atingir, como na própria miragem de sua arte, talvez o fim do Infinito!
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No morno recesso do camarim, fechada e só, a bailarina desperta. Restituída dos cansaços que a extenuavam, retoma a posse da inteligência, - viçosa e esbelta flor de carne, nua e impalpável como no sonho de um fauno. E surge-lhe, então, do fundo espesso da penumbra, como em racontos de Grimm, o espectro fúmeo do Ballet. Já da orquestra, à distância, vinham os primeiros agoirais acordes da Dança Macabra, de Saint-Saens, sugerindo a impressão vertiginosa de um turbilhão aéreo em fuga da terra, para voltear, no espaço, como os planetas.
- Que queres mais de mim? – indaga, espavorida, a bailarina.
- A fluidificação do que, em ti, ainda é matéria apodrecível. Carne, sangue, pus e lágrimas são insidiosas degradações das graças sagradas que recebeste para os milagres da interpretação da vida. No que há, em ti, de luz e unidade interior vivificam as grandes concepções do ideal artístico. És o instante de uma retirada harmoniosa para o transcendentalismo puro, o misterioso refinamento de uma vocação que encontrou a sua outra face na luz da tua predestinação. Fonte cristalina e marulhenta da criação divina, só teu espírito perdurará no mundo da suprema e eterna claridade. Porque reténs, dentro de ti, o clarão privativo dos seres para os quais a dança é a mais pura expressão da beleza. Não há um fim na trajetória do sentimento artístico, nem limites, no sobrenatural, para as aspirais da genialidade. À inteligência humana é obscura a decifração dos pólos magnéticos da arte, onde sempre se confundem as perspectivas da imaginação.
- Vai e dança! Teu sonho foi panorâmico do curso infinito e luminoso em que se ampliam as razões estéticas da tua arte. Vai e dança!, - até que o teu espírito se acenda, pelos caminhos das estrelas, na paixão das potestades que te lançaram em seus desígnios! E terás, então, - luz e essência! – o milagre excelso da tua metempsicose em criatura sagrada, ungida com o íon divino que emana dos arcanos altíssimos e eternos do Nirvana.





Missa ao grande morto





Genesino Braga




Amanhecera o dia oitavo do pesar imenso. A enormidade daquele óbito ainda contundia o sentimento da cidade. Todos os ruídos, os mais sutis murmúrios perdidos no espaço, traziam a força harmonizadora da grande dor, -- dessa dor que não grita, que não vocifera, que não reclama, porque macerada pela brutalidade dos desfechos cruéis, porque esmagada pela violência dos desenlaces inesperados. Os lamentos lânguidos, os fundos vagidos sem remédio, a desolação quieta e - tudo se pronunciava discretamente através dos sons plangentes dos sinos da Catedral, ao amanhecer do dia 22 de outubro do ano primeiro deste Século.

Era a missa ao Grande Morto: Eduardo Ribeiro! A cidade muito o amava, muito o povo o admirava; e esse amor tinha raízes naquela espécie de comunicação secreta que se difundia no seio das massas como fluidos da uma natural compreensão entre o homem e o povo. A consciência dessa afinidade de pensamento brotara de uma aura de simpatia e solidariedade ao tenente que fora punido com a transferência para a guarnição do Amazonas, por seus arroubos republicanos; e já se manitestara em 1891, quando o povo amazonense, reunido em cívico pronunciamento, na Praça da República, o aclamara «Governador Efetivo do Estado do Amazonas», em altiva represália à sua demissão, «traiçoeiramente conseguida do Governo Geral pelos inimigos da República». O desprezo à vontade popular, de parte das autoridades da Nação, resultara no robustecimento de sua popularidade, consagrada naquele pleito de 1892, que o conduzira à governação do Estado, no período de julho desse ano a julho de 1896. Eduardo Ribeiro deixara de ser, aí, o tenente de Floriano. A missão conferida pelo «Marechal de Ferro» no sentido de restaurar a ordem no Estado, as relações estabelecidas com as necessidades públicas, e aquele insistente clamor de súplica, derredor ao seu nome, que ele bem compreendia ser mais o apelo a um porvir melhor, tudo isso contribuíra para amadurecer no idealista republicano a consciência da democracia. Ele era, agora, o eleito de um povo que se agigantara na hora amarga da reação, para entregar-lhe o comando de seu próprios destino. Cumpria-lhe, pois, tudo fazer pela felicidade dessa grei.


O «Pensador» - assim a gente do povo se referia, muito afetivamente, ao antigo diretor do jornal maranhense "O Pensador" executara um governo justo e de afirmativas reali - zadoras. A grandeza de sua obra ficara perpetuada na suntuosidade do Teatro Amazonas, na imponência do Palácio da Justiça, nas fidalgas linhas estruturais da ponte de ferro da Cachoeirinha. A cidade de Manaus teve a sua expansão urbana com a abertura e construção de novas ruas e nivelamento e calçamento das já existentes. Praças nuas e desertas receberam o adorno de jardins, fontes e monumentos.Construiu-se reservatório de imponência arquitetônica para a água do abastecimento geral, e novos bairros fizeram a cidade para as florestas que a circundavam.
Eduardo Ribeiro fez mais: reorganizou e levantou o nível da instrução pública; incrementou a navegação para o interior e para a Europa; deu impulso às indústrias incipientes; e, ele mesmo, toda a legislação estadual nas bases do novo regime. Uma idade de ouro foi inaugurada para os amazonenses, naquele quadriênio
fecundo, em cujo decurso as rendas se elevaram de cinco para dez mil contos de réis ("Não exagero em dizer-vos que as fontes de receita deste Estado são inesgotáveis"). Encerrado período de sua gestão, sentira-se à vontade para exclamar com ufania: «Encontrei uma grande aldeia e fiz dela uma cidade moderna!» E era esta cidade moderna que agora lhe chorava a morte (« em circunstâncias um tanto misteriosas»...), através dos sinos plangentes da Catedral, convocando-a para a missa ao Grande Morto, naquela manha de 22 de outubro de 1900. Havia oito dias que, aquela mesma hora, a notícia brutal entorpecera a cidade, deflagrando de porta em porta, em todos os lares, no centro, nos subúrbios, no litoral: «O Pensador morreu !» Lá, à margem da Estrada de Flores, em meio à desolação, ficara a aprazível chácara que abrigara o corpo fatigado do grande lidador. O renque de árvores frondosas, desde o portão até o edifício no alto da pequena colina, deixara passar, em procissão, a multidão pesarosa. Pelos jardins bem cuidados floriam as roseiras que ele plantara. Ao lado, o igarapé murmurava queixas brandas em sua corredeira interminável. Lá ficara o chalé com as bombas para a elevação da água e, mais adiante, o pequeno depósito do gazômetro. Ao fundo, as baias com o alazão predileto, o galinheiro e, sob arvoredo sombrio, aquele barracão de madeira, coberto de lona, tendo ao centro uma grande mesa em forma de U, para os repastos domingueiros, com os amigos. Lá ficara, em prantos, d. Isabel Maria de Sousa Leal, a fiel governanta de muitos anos; lá ficaram, consternados e chorosos, pelo muito que o amavam, a criada Manuela, o cozinheiro Alanco e os jardineiros Emilio e Joaquim.

Oito dias iam decorridos e a mágoa era intensa. Por isso, os sinos plangiam, ao amanhecer daquela segunda-feira, anunciando a missa ao Grande Morto.
A Catedral apresentava pomposa decoração interior, toda forrada de veludo negro, o chão totalmente atapetado, pendendo dos púlpitos cortinas pretas franjadas de prata. Austeros escudos, com o monograma EGR, fixavam-se nas paredes, entrelaçados de palmas, combinando com outro maior no arco principal do templo. Ao centro da nave ostentava-se o catafalco, do qual erguia imponente coluna, envolta em crepe, e, caído, ao lado, o pedaço quebrado. Nos quatro cantos do catafalco, ardiam lâmpadas comburentes, oferecendo o símbolo da purificação; e, derredor, estavam as armas ensarilhadas em funeral, clarins e tambores silenciosos, uma metralhadora, um canhão-revólver, um teodolito envolto de crepe, a mira-falante e outros apetrechos do engenheiro-militar.


Pouco antes das oito horas, a igreja não mais comportava a multidão, que se derramava pelas áreas circunvizinhas, enchendo ruas e jardins.O comércio fechara, permanecendo também sem funcionar as fábricas e as repartições. Os sinos não cessavam de emitir gemidos pungentes pelo ar. Ia, agora, começar a missa. Já o prebistério estava lotado de autoridades, cônsules, militares, sacerdotes, representantes de associações de classe, imprensa.

A banda de música do Regimento Policial tomara posição à porta de entrada e no coro, já se encontravam a orquestra «Carlos Gomes» e os componentes do Círculo Musical Religioso «Dom Antônio de Macedo Costa», ambos sob a regência do maestro Joaquim Franco. Compunham a orquestra os violinos Marsicano, Alípio, Salvador, Albano, Ildefonso, Turino e Granjeiro; a viola Belfort; o violoncelo Vesce; o contrabaixo Palácio; as flautas Campos e Sobreira; os pistões Rodrigues e Sarmento; os trombones Tenório e Lisímaco; o tímpano Antunes; o tambor Silva. O coro estava constituído das senhoras Lavor e Matilde Schiavinato e senhores Lavor, F. Fava, A. Soares, N. Tangerini e J. Bernardo.

Precisamente às oito horas, o governador Silvério Nery deu entrada no templo. Dez minutos após, monsenhor Benedito da Fonseca Coutinho, acolitado por monsenhor Hipólito e pelo padre Vicente Peres, deu início ao cerimonial. À porta, a banda de música rompeu em comovente marcha fúnebre e no coro, a seguir, a «mezzo-soprano» senhora Schiavinatto entoou a «Ária de Igreja» de Stradella, com acompanhamento de órgão e violoncelo. Prosseguiram os rituais da encomendação, e, em momento exato, a orquestra «Carlos Gomes» executou a «Marcha Fúnebre», de Petrella. Mais logo, foi o coro do Círculo Musical que ergueu o "Libera-me" de Cagliero, acompanhado pela orquestra, que finalizou a cerimônia com outra comovente marcha fúnebre.
Silenciosa e recolhida, a multidão deixou o templo. Havia uma espécie de atonia, de apatia moral, de desalento e indiferença nas atitudes de resignação daquela gente. O povo tinha a consciência exata da perda que sofrera com o desaparecimento de Eduardo Ribeiro; sabia que estava extinta a chama poderosa do grande visionário que lhe conduzira os destinos pelos caminhos da prosperidade. Aquele cérebro insatisfeito,que tantos pensamentos alimentara, que abrigara opulentos sonhos de grandeza para o Amazonas, que antevira o fastígio de uma civilização através das artes, das letras, do comércio, da navegação, servida por leis justas e magnânimas, liderada por homens de espírito sadio e intenções puras, - aquele cérebro estava agora dentro da terra, inerte, inútil, paralizado, extinto, morto! Mas, o nome de Eduardo Ribeiro, nunca ninguém o poderia arrancar, por todos os tempos, por todas as gerações, daquele monumento que para sempre ficara plantado no coração dos amazonenses: a Gratidão!





Artigo circulado no Jornal do Commercio, 7 novembro 1971
Tem o Amazonas, a rigor: o Estado do Amazonas, um dever de gratidão a cumprir com um homem que fora dos mais probos, dos mais operosos, dos mais progressistas e dos mais proeminentes de seus governantes: o saudoso político amazonense Dr. Efigênio Ferreira de Salles,  (...)É a esse saudoso governante que se deve a criação do "broadcasting" local e também a montagem da radiotelefonia em Manaus. E mais: construiu a Vila "Belisário Pena" e o Sanatório "Ephigênio de Salles"; construiu a antiga ponte de acesso aos Educandos e os prédios do "Broadcasting" na saudosa Praça do Pobre Diabo; deu luz elétrica ao bairro dos Educandos; levou a água potável e a ampliação da rede elétrica a São Raimundo e a Adrianópolis; reconstruiu o hospital da Santa Casa; restaurou e remodelou o Teatro Amazonas, o Instituto Benjamim Constant, o Hospício Eduardo Ribeiro, a Penitenciária, as pontes metálicas da Cachoeirinha e dos Bilhares, o Asilo de Mendicidade, o Hospital São Sebastião; e enriqueceu o patrimônio do Estado com importantes aquisições de prédios, terrenos, máquinas e embarcações.Obrou mais, ainda: estimulou a colonização e promoveu a vinda de imigrantes japoneses; fundou o Campo Experimental de Agricultura; instituiu o plantio das héveas, criando os seringais do Estado e distribuindo árvores ao longo das estradas de rodagem; levantou a carta geográfica e mandou imprimir o mapa do Estado; manteve ininterruptos os trabalhos da rodovia Manaus-Rio Branco.Em seu governo foram abertos 121.000 quilômetros de estradas de rodagem: para o Tarumã, para o Rio Branco, para a Raiz, para a Chapada, para a Ponta do Ismael, para Camanaus, para Campos Sales, tendo feito o levantamento das de Manaus-Itacoatiara, Lábrea-Humaitá, Lábrea-Acre e a que contornaria as cachoeiras do Aripuanã.

(...)Nascido nos altos de Minas Gerais, Efigênio Ferreira de Saltes fora aluno-interno do famoso Colégio do Caraça, berço de estadistas e de intelectuais. Viera para o Amazonas ainda adolescente, contando dezessete anos de idade; e aqui aprendera o ofício de tipógrafo, como aprendiz nas oficinas do Diário Oficial. (Contou-nos, a propósito, o seu ilustre filho, Dr. Alíneo de Salles, certa vez em conversa na Superintendência do Correio da Manhã, no Rio, que o Dr. Efigênio de Salles, quando Presidente do Estado (tinham esse título os governadores de então), exibia com orgulho, na parede de seu gabinete do Palácio Rio Negro, o antigo diploma de tipógrafo). E foi precisamente nas oficinas daquele velho órgão de publicidade do Governo, que tivera início a sua escalada de triunfos. (...)Nessa escalada árdua, mas gloriosa, Efigênio de Salles foi tipógrafo e foi repórter; foi soldado do exército de Plácido de Castro, na reação patriótica que deu o Acre ao Brasil; foi herói da resistência local no malsinado bombardeio de Manaus, em 1910. Depois, foi Partidor e Distribuidor Geral do Foro de Manaus, foi redator doAmazonas, foi diretor do Diário do Amazonas. 
Faleceu em 1939. Lembramo-nos bem do Dr. Efigênio de Salles, quando Presidente do Estado. E lembramo-nos bem, porque muito o admirávamos e respeitávamos. Homem simples e cordial, espírito balsamizado de religião e de bondade, a saúde moral de todos os seus atos, de sua vida e de suas lutas, tinha respiração intensa nos desvelos de sua santa esposa, Dona Alice de Salles, e nos carinhos de seus filhos, com reflexos de harmonia e sãos princípios de costumes e maneiras no comportamento de nossa sociedade.
Com esse nome honrado — Efigênio Ferreira de Salles — o Estado do Amazonas e a municipalidade de Manaus têm um dever de gratidão. Devem-lhe, sim, uma pública homenagem. Uma homenagem em que haja, nos seus sentimentos, na sua expressão e na sua espontaneidade, a exculpação do ato grosseiro de há 41 anos atrás, quando o nome do emérito estadista, num impulso demagógico de falsos líderes, foi retirado das placas da avenida Sete de Setembro. (...) E honrará Manaus, como há anos honra o Rio de Janeiro, no aristocrático bairro do Cosme Velho, a rua de Efigênio de Salles.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

ANTONIO NOBRE: Antologia


Antônio Nobre



ANTÔNIO NOBRE nasceu em 1867. Estudou um ano de Direito na Universidade de Coimbra, indo depois para Paris, onde cursou ciências políticas, e onde se familiarizou com as novas tendências da poesia. Voltando para Portugal, tomou parte num concurso para cônsul, mas não conseguiu obter a primeira classificação. Depois disso, começou a viajar com freqüência, procurando climas melhores para sua saúde. Publicou apenas um livro de poesias, "Só", cuja primeira edição apareceu em Paris, em 1892, mas a 2a, de 1898, é que é a definitiva. Depois de sua morte foram publicados mais dois volumes de versos: "Despedidas" e "Primeiros Versos". Morreu em 1900.



Ó virgens que passai, ao Sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente,
Que me transporte ao meu perdido Lar.

Cantai-me, nessa voz onipotente,
O Sol que tomba, aureolando o Mar,
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a Graça, a formosura, o luar!

Cantai! cantai as límpidas cantigas!
Das ruína do meu lar desaterrai
Todas aquelas ilusões antigas

Que eu vi morrer num sonho, como um ai...
Ó suaves e frescas raparigas,
Adormecei-me nessa voz... Cantai!



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MEMÓRIA
Ora isto, Senhores, deu-se em Trás-os-Montes,
Em terras de Borba, com tôrres e pontes.
Português antigo, do tempo da guerra,
Levou-o o Destino pra longe da terra.

Passaram os anos, a Borba voltou,
Que linda menina que, um dia, encontrou!

Que linhas fidalgas e que olhos castanhos!
E, um dia, na Igreja correram os banhos.

Mais tarde, debaixo dum signo mofino,
Pela lua-nova, nasceu um menino.

Ó mães dos Poetas! sorrindo em seu quarto,
Que são virgens antes e depois do parto!

Num berço de prata, dormia deitado,
Três moiras vieram dizer-lhe o seu fado.

(E abria o menino seus olhos tão doces) :
"Serás um Príncipe! mas antes. . . não fôsses."

Sucede, no entanto, que o Outono veio
E, um dia, ela resolve dar um passeio.

Calçou as sandálias, toucou-se de flôres,
Vestiu-se de Nossa Senhora das Dores:
"Vou ali adiante, à Cova, em berlinda,
Antônio, e já volto. . . " E não voltou ainda!

Vai o Espôso, vendo que ela não voltava,
Vai lá ter com ela, por lá se quedava.

Ó homem egrégio! de estirpe divina,
De alma de bronze e coração de menina!

Em vão corri mundos, não vos encontrei
Por vales que fôra, por êles voltei.

E assim se criou um anjo, o Diabo, o lua;
Ai corre o seu fado! a culpa não é sua!

Sempre é agradável ter um filho Virgílio,
Ouvi êstes carmes que eu compus no exílio,

Ouvi-os vós todos, meus bons Portuguêses!
Pelo cair das fôlhas, o melhor dos meses,

Mas, tende cautela, não vos faça mal. . .
Que é o livro mais triste que há em Portugal!



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ANTÔNIO

Que noite de inverno! Que frio, que frio!
Gelou meu carvão:
Mas boto-o à lareira, tal qual pelo estio,
Faz sol de verão!
Nasci, num reino d 'Oiro e amôres,
A beira-mar.
Ó velha Carlota! tivesse-te ao lado,
Contavas-me histórias:
Assim. . . desenterro, do Val do Passado,
As minhas Memórias.
Sou neto de Navegadores,
Heróis, Lôbos-d'água, Senhores
Da índia, d'Aquém e d'Além-mar!
Moreno coveiro, tocando viola,
A rir e a cantar!
Empresta, bom homem, a tua sachola,
Eu quero cavar:
E o Vento mia! e o Vento mia!
Que irá no Mar!
Erguei-vos, defuntas! da tumba que alveja
Qual Lua, a distância!
Visões enterradas no adro da Igreja
Branquinha, da Infância.
Que noite! ó minha Irmã Maria
Acende um círio à Virgem Pia,
Pelos que andam no alto Mar. . .
Lá vem a Carlota que embala uma aurora
Nos braços, e diz:
"Meu lindo Menino, que Nossa Senhora
O faça feliz!"
Ao Mundo vim, em têrça-feira
Um sino ouvia-se dobrar!
E Antônio crescendo, sãozinho
Feliz que vivia!
(E a Dor, que morava com êle no peito,
Com êle crescia. . . )
Vim a subir pela ladeira
E, numa certa têrça-feira,
Estive já pra me matar. . .
Mas foi a uma festa, vestido de anjinho,
Que fado cruel!
E a Antônio calhou-lhe levar coitadinho!
A Esponja do Fel...
Ides gelar, água das fontes
Ides gelar!
A tia Delfina, velhinha tão pura,
Dormia a meu lado
E sempre rezava por minha ventura. . .
E sou desgraçado!
Águas do rio! Águas dos montes!
Cantigas d'água pelos montes,
Que sois como amas a cantar.. .
E eu ia às novenas, em tardes de Maio,
Pedir ao Senhor:
E, ouvindo êsses cantos, tremia em desmaio,
Mudava de côr!
Passam na rua os estudantes
A vadrulhar...
E a Mãe-Madrinha, do tempo da guerra
A mailos Franceses,
Quando ia ao confesso, à ermida da serra,
Levava-me, às vêzes.
Assim como êles era eu dantes!
Meus camaradas! estudantes!
Deixai o Poeta trabalhar.
Santinho como ia, santinho voltava:
Pecados? Nem um!
E a instância do padre dizia (e chorava):
"Não tenho nenhum. .."
O Já, coberto de gangrenas,
Meu avatar!
As noites rezava, (e rezo inda agora)
Ao pé da lareira.
(A chuva gemente caía lá fora,
Fervia a chaleira. . .)
Conservo as mesmas tuas penas,
Mais tuas chagas e gangrenas,
Que não me farto de coçar!
- Que Deus se amercie das almas do Inferno!
- Amém! Oxalá...
E o moço rosnava, transido de inverno:
- Que bom lá está!
E a neve cai, como farinha,
Lá dêsse moinho a moer, no Ar.
O sino da Igreja tocava, à tardinha:
Que tristes seus dobres!
Era a hora em que eu ia provar, à cozinha,
O caldo dos Pobres. . .
O bom Moleiro, cautelinha!
Não desperdices a farinha
Que tanto custa a germinar. . .
Ó velhas criadas! na roca fiando,
Nos lentos serões:
Corujas piando, Farrusca ladrando
Com medo aos ladrões!
Andais, à neve, sem sapatos.
Vás que não tendes que calçar!
~
O Zé do Telhado morava, ali perto:
A triste Viúva
A nossa casa ia pedir, era certo,
Em noites de chuva. . .
Corpos ao léu, vesti meus fatos!
Pés nus! levai êsses sapatos...
Basta-me um par.
Ó feira das uvas! em tardes de calma.. .
(O tempo voou!)
Pediam-me os Pobres" esmola pela alma
Que Deus lhe levou!"
Quando eu morrer, hirto de mágoa,
Deitem-me ao Mar!
E havia-os com gôta, e havia-os herpéticos,
Mostrando a gangrena!
E mais, e ceguinhos, mas era dos éticos
Que eu tinha mais pena. . .
Irei indo de frágua em frágua,
Até que, enfim, desfeito em água,
Hei de fazer parte do Mar!
Chegou uma carta tarjada: a estampilha
Bastou-me enxergar...
Coitados daqueles que perdem a filha,
Sôbre águas do Mar!
No Panthéon, trágico, o sino
Dá meia-noite, devagar:
Ó tardes de outono, com fontes carpindo
Entre erva sedenta!
Os cravos a abrirem, a Lua aspergindo
Luar, água-benta...
É o Vítor, outra vez menino,
A compor um alexandrino,
Pelos seus dedos a contar!
Ao dar meia-noite no cuco da sala,
Batiam: "Truz! truz!"
E o Avô que dormia, quietinho na
Entrava, Jesus!
Que olhos tristes tem meu
Vê-me a comer e põe-se a ougar:
Nas sachas de Junho, ninguém se batia
Com o nosso caseiro:
Que espanto, pudera! se da freguesia
Êle era o coveiro. . .
Sobe ao meu quarto, bom velhinho!
Que eu dou-te um copo dêste vinho
E metade do meu jantar.
Morria o mais velho dos nossos criados,
Que pena! que dó!
Pedi-lhe, tremendo, fizesse recados
À alminha da Avó...
Bairro Latino! dorme um pouco;
Faze, meu Deus, por sossegar!
Ó banzas dos rios, gemendo descantes
E fados do Mundo!
Ó águas falantes! ó rios andantes,
Com eiras no fundo!
Cala-te, Georges! estás já rouco!
Deixa-me em paz! Cala-te, louco,
Ó boulevard!
Trepava às figueiras cheiinhas de figos
Como astros no Céu:
E em baixo, aparando-os, erguiam mendigos
O rôto chapéu.. .
Boas almas, vinde ao meu seio!
Espíritos errantes no Ar!
Ó Lua encantada no fundo do poço,
Moirinha da Mágoa!
O balde descia, quimeras de Moço!
Trazia só água. . .
Sou médio: evoco-os, noite em
Vós não acreditais, eu sei-o. . .
Deixá-lo não acreditar.
meio!
Meus versos primeiros estão no adro, ainda,
Escritos na cal:
Cantavam Aquela que é a rosa mais linda
Que tem Portugal!
Se eu vos pudesse dar a vista,
Ceguinhos que ides a tactear...
A Lua é ceifeira que, às noites, ensaia
Bailados na Terra!
Luar é celeiro que, pálido, caia
Ermidas na serra. . .
Quando essa sorte me contrista!
Mas ah! mais vale não ter vista
Que um mundo dêstes ter de olhar. . .
O Conde da Lixa sabia o Horácio,
Tintim por tintim!
E dava-me, à noite, passeando em palácio,
Lição de latim.
A Morte, agora, é a minha Ama
Que bem que sabe acalentar!
E entrei para a escola, meu Deus! quem me dera
Nessa hora da Vida!
Usava uma blusa, que linda que era!
E trança comprida...
À noite, quando estou na cama:
"Nana, nana, que a tua Ama
Vem já, não tarda! foi cavar. . . "
Os outros rapazes furtavam os ninhos
Com ovos a abrir;
Mas eu mercava-lhes os bons passarinhos,
Deixava-os fugir. . .
Camões! Ó Poeta do Mar-bravo!
Vem-me ajudar...
Os Presos, às grades da triste cadeia,
Olhavam-me em face!
E eu ia à pousada do guarda da aldeia
Pedir que os soltasse. . .
Tenho o nome do teu escravo:
Em nome dêle e do Mar-bravo
Vem-me ajudar!
E quando um malvado moía a chibata
Um filho, ou assim,
Corria a seus braços, gritando: "Não Bata!
Bata antes em mim. . . "
E o Vento geme! e o Vento geme!
Que irá no Mar!
E quando dobrava na terra algum sino
Por velho, ou donzela,
A meu Pai rogavam "deixasse o Menino
Pegar a uma vela..."
Lôbos-d'água, que ides ao leme
Tende cuidado! A lancha treme.
Orçar! orçar!
Enterros de anjinhos! O dores que trazem
Aos tristes casais!
Há doces, há vinho, senhores que fazem
Saúdes aos pais. . .
Meu velho Cão, meu grande amigo,
Por que me estás assim a olhar!
A Prima doidinha por montes andava,
A Lua, em vigília!
Olhai-me, Doutôres! Há doidos, há lava,
Na minha Família...
Quando eu choro, choras comigo
Meu velho Cão! és meu amigo. . .
Tu nunca me hás de abandonar.
E os anos correram, e os anos cresceram,
Com êles cresci:
Os sonhos que tinha, meus sonhos. . . morreram,
Só eu não morri. . .
Frades do Monte de Crestelo !
Abri-me as portas! quero entrar...
Fui vendo que as almas não eram no Mundo
Singelas e francas:
A minha, que o era, ficou num segundo
Cheiinha de brancas!
Cortai-me as barbas e o cabelo,
Vesti-me êsse hábito singelo. . .
Deixai-me entrar!
Fiquei pobrezinho, fiquei sem quimeras,
Tal qual Pedro-Sem,
Que teve fragatas, que teve galeras,
Que teve e não tem. . .
Moço Lusíada? criança!
Por que estás triste, a meditar'
Vieram as rugas, nevou-me o cabelo
Qual musgo na rocha. . .
Fiquei para sempre sequinho, amarelo,
Que nem uma tocha!
Vês teu país sem esperança
Que tudo alui, à semelhança
Dos castelos que ergueste no Ar'
E a velha Carlota, revendo-me agora
Tão pálido, diz:
Meu pobre Menino! que Nossa Senhora
Fêz tão infeliz. . ."



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SONETOS
1

Longe de ti, na cela do meu quarto,
Meu corpo cheio de agoirentas fezes,
Sinto que rezas do Outro-mundo, harto,
Pelo teu filho, Minha Mãe, não rezes!

Para falar, assim, vê tu! já farto,
Para me ouvires blasfemar, às vêzes,
Sofres por mim as dores cruéis do parto
E trazes-me no ventre nove meses!

Nunca me houvesses dado à luz, Senhora!
Nunca eu mamasse o leite aureolado
Que me fêz homem, mágica bebida!

Fôra melhor não ter nascido, fôra,
Do que andar, como eu ando, degredado
Por esta Costa d' África da Vida.


2

Altos pinheiros septuagenários
E ainda impertigados sôbre a serra!
Sois os Enviados-extraordinários,
E embaixadores del-Rei Pã, na Terra.

A noite, sob aquêles lampadários,
Conferenciais com êle... Há paz? Há guerra ?
E tomam notas vossos secretários,
Que o Livro Verde secular encerra.

Hirtos e altos, Tayllerands dos montes!
Tendes a linha, não vergais as frontes
Na exigência da Côrte, ou beija-mão!

Voltais aos Homens com desdém a face. . .
Ai oxalá! que Pã me despachasse
Adido à vossa estranha Legação!



3
Não repararam nunca? Pela aldeia,
Nos fios telegráficos da estrada,
Cantam as aves, desde que o Sol nada,
E, à noite, se faz sol a Lua-Cheia.
No entanto, pelo arame que as tenteia,
Quanta tortura vai, numa ânsia alada!
O Ministro que joga uma cartada,
Alma que, às vêzes, d' Além-Mar anseia:

- Revolução! - Inútil. - Cem feridos,
Setenta mortos;. - Beijo-te! - Perdidos!
- Enfim, feliz!?! - Desesperado. - Vem.

E as boas aves, bem se importam elas!
Continuam cantando, tagarelas:
Assim, Antônio, deves ser também.




ANTONIO NOBRE
A LISBOA DAS NAUS, CHEIA DE GLóRIA
Lisboa à beira-mar, cheia de vistas,
Ó Lisboa das meigas Procissões!
Ó Lisboa de Irmãs e de fadistas!
Ó Lisboa dos líricos pregões. . .
Lisboa com o Tejo das Conquistas,
Mais os ossos prováveis de Camões!
Ó Lisboa de mármore, Lisboa!
Quem nunca te viu, não viu coisa boa. ..
Ai canta, canta ao luar, minha guitarra,
A Lisboa dos Poetas Cavaleiros!
Galeras doidas por soltar a amarra,
Cidades de morenos marinheiros,
Com navios entrando e saindo a barra
De proa para países estrangeiros!
Uns pra França, acenando Adeus! Adeus!
Outros pras índias, outros.. . sabe-o Deus!

Ó Lisboa das ruas misteriosas!
Da Triste Feia, de João de Deus,
Beco da Índia, Rua das Fermosas,
Beco do Fala-Só (os versos meus...)
E outra rua que eu sei de duas Rosas,
Beco do Imaginário, dos Judeus,
Travessa (julgo eu) das Isabéis,
E outras mais que eu ignoro e vós sabeis.

Luar de Lisboa! aonde o há igual no Mundo?
Lembra leite a escorrer de têtas nuas!
Luar assim tão meigo, tão profundo,
Como a cair dum céu cheio de luas!
Não deixo de o beber nem um segundo,
Maio vejo apontar por essas ruas. . .
Pregoeiro gentil lá grita a espaços:
"Vai alta a lua!" de Soares de Passos.

Formosa Sintra,onde, alto, as águias pairam,
Sintra das solidões! beijo da terra!
Sintra dos noivos, que ao luar desvairam,
Que vão fazer o seu ninho na serra.
Sintra do Mar! Sintra de Lord Byron,
Meu nobre camarada de Inglaterra!
Sintra dos Moiros, com os seus adarves,
E, ao longe, em frente, o Rei dos Algarves!

Ó Lisboa vermelha das toiradas!
Nadam no Ar amôres e alegrias,
Vêde os Capinhas, os gentis Espadas,
Cavaleiros, fazendo cortesias.. .
Que graça ingênua! farpas enfeitadas!
O Povo, ao Sol, cheirando às maresias !
Vêde a alegria que lhe vai nas almas!
Vêde a branca Rainha, dando palmas!

Ó suaves mulheres do meu desejo,
Com mãos tãos brancas feitas pra carícias!
Ondinas dos Galeões! Ninfas do Tejo!
Animaizinhos cheios de delícias.. .
Vosso passado quão longínquo o vejo!
Vós sois Árabes, Celtas e Fenícias!
Lisboa das Varinas e Marquesas. . .
Que bonitas que são as Portuguêsas !

Senhoras! ainda sou menino e moço,
Mas amôres não tenho nem carinhos!
Vida tão triste suportar não posso.
Vós que ides à novena, aos Inglesinhos,
Senhoras, rezai por mim um Padre-Nosso,
Nessa voz que tem beijos e é de arminhos.

Rezai por mim. . . Vereis . . . Vossos pecados
(Se acaso os tendes) vos serão perdoados.
Rezai, rezai, Senhoras, por aquêle
Que no Mundo sofreu tôdas as dores!
Ódios, traições, torturas, - que sabe êle!
Perigos de água, e ferro e fogo, horrores!
E que, hoje, aqui está, só osso e pele,
A espera que o enterrem entre as flôres . . .
Ouvi: estão os sinos a tocar.
Senhoras de Lisboa! ide rezar.



SONÊTO No 25

Meu pobre amigo! Sempre silencioso!
Assim eu fui. Cismava, lia, lia. . .
Mudei no entanto de Filosofia,
Não creio em nada! e fui tão religioso!

Tomei parte no Exército glorioso
Que foi bater-se por Israel, um dia!
Cri no Amor, no Bem, na Virgem Maria,
Não creio em nada! tudo é mentiroso!
Não vale a pena amar e ser amado,
Nem ter filhos dum seio de mulher
Que ainda nos vem fazer mais desgraçado!

Não vale a pena um grande poeta ser,
Não vale a pena ser rei nem soldado,
E venha a Morte, quando Deus quiser!


AFIRMAÇÕES RELIGIOSAS

Ó meus queridos! Ó meus Stos. limoeiros!
Ó bons e simples padroeiros!
Santos de minha muita devoção!
Padres choupos! ó castanheiros!
Basta de livros, basta de livreiros!
Sinto-me farto de civilização!

Rezai por mim, ó minhas boas freiras,
Rezai por mim, escuras oliveiras
De Coimbra, em Sto. Antônio de Olivais;
Tornai-me simples como eu era d 'antes,
Sol de Junho, queima as minhas estantes,
Poupa-me a Bíblia, Antero... e pouco mais!
No mar da vida cheia de perigos
Mais monstros há, diziam os antigos,
Que lá nas águas dêsse outro mar.
O que pensais vós a respeito disto,
Ó navegantes dêsse mar de Cristo!
Heróis, que tanto tendes de contar

Chorai por mim, ó prantos dos salgueiros,
Pois entre os tristes eu sou dos primeiros!
Lamentos ao luar, dos pinheirais,
E vós, ó sombra triste das figueiras!
Chorai por mim, ó flor das amendoeiras
Chorai também, ó verdes canaviais!

E quando enfim, já tarde de sofrer
Eu um dia me fôr adormecer
Para onde há paz, maior que num convento,
Cobri-me de vestes, ó fôlhas d 'outono,
Ai não me deixeis no meu abandono!
Chorai-me ciprestes, batidos do vento...


O REGRESSO DE ANRIQUE A PORTUGAL
Vem entrando a barra a galera " Maria' ,
Que vem de tão longe, e tão linda que vem!
Toca em terra o sino pra missa do dia,
Em frente, em Santa Maria de Belém!
Mareantes trigueiros, no alto dos mastros,
Ai dobram as velas; não são mais precisas!
Ai que lindas eram, às luas e aos astros!
Que doidas, aos ventos! que meigas, às brisas!

Desdobra as amarras! apresta a fateixa!
Pois todos em breve a nau vão deixar;
Ó terra! que saudade a de quem te deixa,
Ó terra! pela aventura do alto mar!

Entra o pilôto e abraçam-se êstes e aquêles,
Abraçam-se e riem tanto à vontade. . .
Abraços que levam almas dentro dêles,
Sorrisos de bôcas que falam verdade!

Só as entende (capitães, não as sentis)
Quem, algum dia, passou as águas salgadas,
Quem, um dia, as passou numa hora infeliz,
Quem, um dia, as passou, com as frontes curvadas.

E "Maria" vai indo pelo Tejo acima,
E cisma Anrique: - Que lindo Portugal!
Vêm as Ninfas... Vai uma dá-lhe uma rima,
Vai outra (gostam dêle) e vai faz-lhe um sinal.

E Anrique cisma: - Quem te não viu ainda!
Ó minha Lisboa de mármore! Lisboa
De ruínas e de glórias! Tu és linda
Entre as cidades mais lindas, ó Lisboa!

Ó minha Lisboa, com oiros tão constantes
Pelas serras e céus e pelo rio! Com seus
Jerônimos dos Poetas e Mareantes!
Lisboa branca de João de Deus!


LISBOA DOS DESTINOS IMPERIAIS
(fragmento)

Côr do céu, a bandeira, e côr de neve,
Não a vejo na Tôrre a flutuar!
Senhor! Vós bem sabeis que o Rei não deve
Outras armas que a Vossa apresentar...
Se assim deixais que outro Povo a leve,
Por que a destes ao nosso pra guardar
Não é êle o mesmo que, em Ourique,
A aclamou nas mãos do teu Henrique?
Anda tudo tão triste em Portugal!
Que é dos sonhos de glória e de ambição?
Quantas flôres do nosso laranjal
Eu irei ver caídas pelo chão!
Meus irmãos Portuguêses, fazeis mal
De ter ainda no peito um coração.
Talvez só eu (Amor, ai, tu me entendes!)
Possa ainda ter a paz que já não tendes.
Esperai, esperai, ó Portuguêses!
Que êle há de vir, um dia. Esperai.
Para os mortos os séculos são meses,
Ou menos que isso, nem um dia, ai.
Tende paciência, findarão reveses;
E até lá, Portuguêses, trabalhai.
Que El-Rei Menino não tarda a surgir,
Que êle há de vir, "há de vir, há de vir!



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DA INFLUÊNCIA DA LUA

Outono. O Sol, qual brigue em chamas, morre
Nos longes d'água... Ó tardes de novena!
Tardes de sono em que a poesia escorre
E os bardos, a cismar, molham a pena!
Ao longe, os rios de águas prateadas,
Por entre os verdes canaviais, esguios,
São como estradas líquidas, e as estradas,
Ao luar, parecem verdadeiros rios!
Os choupos nus, tremendo, arrepiadinhos,
O xale pedem a quem vai passando...
E nos seus leitos nupciais, os ninhos,
As lavandiscas noivam, piando, piando!
O orvalho cai do Céu, como um unguento.
Abrem as bôcas, aparando-o, os goivos;
E a laranjeira, aos repelões do Vento,
Deixa cair por terra a flor dos noivos,
E o orvalho cai... E, à falta d'água, rega
O vale sem fruto, a terra árida e nua!
E o Padre-Oceano, lá de longe prega
O seu Sermão de Lágrimas, à Lua!
A Lua! Ela não tarda aí, espera!
O mágico poder que ela possui!
Sôbre as sementes, sôbre o Oceano impera,
Sôbre as mulheres grávidas influi...
Ai os meus nervos, quando a Lua é cheia!
Da Arte novas concepções descubro,
Todo me aflijo, fazem lá idéia!
Ai a ascensão da Lua, pelo Outubro!
Tardes de Outubro! ó tardes de novena!
Outono! Mês de Maio, na lareira!
Tardes.. Lá vem a Lua, gratiae plena,
Do convento dos Céus, a eterna freira!



LUSITÁNIA NO BAIRRO LATINO

.............................SÓ
Ai do Lusíada, coitado,
Que vem de tão longe, coberto de pó,
Que não ama, nem é amado,
Lúgubre Outono, no mês d' Abril !
Que triste foi o seu fado!
Antes fôsse pra soldado,
Antes fôsse pro Brasil. . .
Menino e moço, tive uma Tôrre de leite,
Tôrre sem par!
Oliveiras que davam azeite,
Searas que davam linho de fiar,
Moinhos de velas, como latinas,
Que São Lourenço fazia andar. . .
Formosas cabras, ainda pequeninas,
E loiras vacas de maternas ancas
Que me davam o leite de manhã,
Lindo rebanho de ovelhas brancas;
Meus bibes eram da sua lã.
Antônio era o Pastor dêsse rebanho:
Com elas ia para os Montes, a pastar.
E tinha pouco mais ou menos seu tamanho,
E o pasto delas era o meu jantar.. .
E a serra a toalha, o covilhete e a sala.
Passava a noite, passava o dia
Naquela doce companhia.
Eram minhas Irmãs e tôdas puras
E só lhes minguava a fala
Para serem perfeitas criaturas. . .
E quando na Igreja das Alvas Saudades
(Que era da minha Tôrre a freguesia)
Batiam as Trindades,
Com os seus olhos cristianíssimos olhavam-me,
Eu persignava-me, rezava Ave-Maria. . .
E as doces ovelhinhas imitavam-me.
Menino e moço, tive uma Tôrre de leite,
Tôrre sem par!
Oliveiras que davam azeite. . .
Um dia, os castelos caíram do Ar!
As oliveiras secaram,
Morreram as vacas, perdi as ovelhas,
Saíram-me os Ladrões, só me deixaram
As velas do moinho. . . mas rôtas e velhas!
Que triste fado!
Antes fôsse aleijadinho,
Antes doido, antes cego. . .
Ai do Lusíada, coitado!
Veio da terra, mailo seu moinho:
Lá, faziam-no andar as águas do Mondego,
Hoje, fazem-no andar águas do Sena . . .
É negra a sua farinha!
Orai por êle! Tende pena!
Pobre Moleiro da Saudade.. .
Ó minha
Terra encantada. cheia de Sol,
Ó campanários, ó Luas Cheias,
Lavadeira que lavas o lençol,
Ermidas, sinos das aldeias,
Ó ceifeira que segas cantando,
Ó moleiro das estradas,
Carros de bois, chiando. . .
Flôres dos campos, beiços de fadas,
Poentes de Julho, poentes minerais,
Ó choupos, ó luar, ó regas de verão!
Que é feito de vocês? Onde estais, onde estais?
Ó padeirinhas a amassar o pão,
Velhinhas na roca a fiar,
Cabelo todo em caracóis!
Pescadores a pescar
Com a linha cheia de anzóis!
Zumbidos das vespas, ferrões das abelhas,
Ó bandeiras! ó Sol! foguetes! ó tourada!
Ó boi negro entre as capas vermelhas!
Ó pregões d'água fresca e limonada!
Ó romaria do Senhor do Viandante!
Procissões com música e anjinhos!
Srs. Abades d'Amarante,
Com três ninhadas de sobrinhos!
Onde estais? Onde estais?
Ondas do Mar! Serras da Estrêla d'água,
Cheias de brigues como pinhais...
Morenos mareantes, trigueiros pastôres!
Onde estais? Onde estais?
Convento d'águas do Mar, ó verde Convento,
Cuja Abadêssa secular é a Lua
E cujo Padre-capelão é o Vento. . .
Água salgada dêsses verdes poços,
Que nenhum balde, por maior, escua!
Ó Mar jazigo de paquêtes, de ossos,
Que o Sul, às vêzes, arrola à praia:
Olhos em pedra, que ainda chispam brilhos!
Corpo de virgem, que ainda veste a saia,
Braços de mães, ainda a apertar braços de filhos!
Noiva cadáver ainda com véu.. .
Ossadas ainda com os mesmos fatos!
Cabeça roxa ainda de chapéu!
Pés de defunto que ainda traz sapatos!
Boquinha linda que já não canta.. .
Bôcas abertas que ainda soltam ais!
Noivos em núpcias, ainda, aos beijos, abraçados!
Corpo intacto, a boiar (talvez alguma Santa. . .)
Ó defuntos do Mar! ó roxos arrolados!
Onde estais? Onde estais?
Ó Boa Nova, ermida à beira-mar,
Única flor, nessa viv'alma de areais!
Na cal, meu nome ainda lá deve estar,
À chuva, ao Vento, aos vagalhões, aos raios!
Ó altar da Senhora, coberto de luzes!
Ó poentes da Barra, que fazem desmaios....
Ó Sant'Ana, ao luar, cheia de cruzes!
Ó lugar de Roldão! vila de Perafita!
Aldeia de Gonçalves! Mesticosa!
Engenheiros, medindo a estrada com a fita. . .
Água fresquinha da Amorosa!
Rebolos pela areia! Ó praia da Memória!
Onde o Sr. D. Pedro, Rei-soldado,
Atracou, diz a História,
No dia... não estou lembrado;
Ó capelinha do Senhor d'Areia,
Onde o Senhor apareceu a uma velhinha. . .
Algas! farrapos dos vestidos da Sereia!
Lanchas da Póvoa que ides à sardinha,
Poveiros, que ides para as vinte braças,
Sol-pôr, entre pinhais. . .
Capelas onde o Sol faz mortes, nas vidraças!
Onde estais?


2

Georges! anda ver meu país de Marinheiros,
O meu país das Naus, de esquadras e de frotas!
Oh as lanchas dos poveiros
A saírem a barra, entre ondas e gaivotas!
Que estranho é!
Fincam o remo na água, até que o remo torça,
À espera da maré,
Que não tarda aí, avista-se lá fora!
E quando a onda vem, fincando-a a tôda a fôrça,
Clamam todos à uma: Agôra! agôra! agôra!
E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
(Às vêzes, sabe Deus, para não mais entrar. . . )
Que vista admirável! Que lindo! Que lindo!
Içam a vela, quando já têm mar:
Dá-Ihes o Vento e tôdas, à porfia,
Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas,
Rosário de velas, que o vento desfia,
A rezar, a rezar a Ladainha das Lanchas:
Senhora Nagonia!
Olha acolá!
Que linda vai com seu êrro de ortografia. . .
Quem me dera ir lá.
Senhora da guarda!
(Ao leme vai o Mestre Zé da Leonor)
Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda
O caçador!
Senhora d'ajuda!
Ora pro nobis!
Caluda!
Sêmos probes!
Senhor dos ramos
Istrêla do mar!
Cá bamos!
Parecem Nossa, Senhora, a andar.
Senhora da Luz!
Parece o Farol. . .
Maim de Jesus!
É tal qual ela, se lhe dá o Sol!
Senhor dos Passos! Sinhora da Ora!
Águias a voar, pelo mar dentro dos espaços
Parecem ermidas caiadas por fora. . .
Senhor dos Navegantes! Senhor de Matozinhos!
Os mestres ainda são os mesmos dantes:
Lá vai o Bernardo da Silva do Mar,
À mailos quatro filhinhos,
Vascos da Gama, que andam a ensaiar. . .
Senhora dos aflitos! Mártir São Sebastião!
Ouvi os nossos gritos!
Deus nos leve pela mão!
Ramos em paz!
ó lanchas, Deus vos leve pela mão!
Ide em paz!
Ainda lá vejo Zé da Clara, os Remelgados,
O Jéques, o Pardal, na Nam te perdes,
E das vagas, aos ritmos cadenciados,
Às lanchas vão traçando, à flor das águas verdes
"As armas e os varões assinalados. . ."
Lá. sai a derradeira!
Ainda agarra as que vão na dianteira. . .
Como ela corre! com que fôrça o Vento a impele:
Bamos com Deus!
Lanchas, ide com Deus! Ide e voltai com êle
Por êsse mar de Cristo. . .
Adeus! Adeus! Adeus!


3

Georges! anda ver meu país de romarias
E procissões!
Olha essas moças, olha estas Marias !
Caramba! dá-lhes beliscões!
Os corpos delas, vê, são ourivesarias,
Gula e luxúria dos Manéis !
Têm nas orelhas grossas arrecadas,
Nas mãos (com luvas) trinta moedas, em anéis,
Ao pescoço serpentes de cordões,
E sôbre os seios entre cruzes, como espadas,
Além dos seus, mais trinta corações!
Vá! Georges, faze-te Manel! Viola ao peito,
Toca a bailar!
Dá-lhes beijos, aperta-as contra o peito,
Que hão de gostar!
Tira o chapéu, silêncio!
Passa a procissão.
Estralejam foguetes e morteiros.
Lá vem o Pálio e pegam ao cordão
Honestos e morenos cavalheiros.
Altos, tão altos e enfeitados, os andores,
Parecem Tôrres de Davi, na amplidão!
Que linda e asseada vem a Senhora das Dores!
Olha o Mordomo, à frente, o Sr. Conde.
Contempla! Que tristes os Nossos Senhores,
Olhos leais fitos no vago. .. não sei onde! Os anjinhos!
Vêm a suar:
Infantes de três anos, coitadinhos!
Mãos invisíveis levam-nos de rastos
Que êles mal sabem andar.
Esta que passa é a Noite, cheia de astros!
(Assim estava, em certo dia, na Judéia)
Aquêle é o Sol! (Que bom o Sol de olhos pintados!)
E aquela outra é a Lua Cheia!
Seus doces olhos fazem luar...
Essa, acolá, leva na mão os Dados,
Mas perde tudo se vai jogar.
E esta que passa, tôda de arminhos,
(Vê! d 'entre o povo em êxtase, olha-a a Mãe)
Leva, sorrindo, a Coroa dos Espinhos,
Crianças em flor que ainda nos não tem.
E que bonita vai a Esponja de Fel!
Mal sabe, a inocentinha,
Nas suas mãos, a Esponja deita mel;
Abelhas d 'oiro tomam-lhe a dianteira.
Lá vem a Lança! A bainha
Traz ainda o sangue da Sexta-feira. . .
Passa o último, o Sudário!
O Corpo de Jesus, Nosso Senhor. . .
Oh que vermelho extraordinário!
Parece o Sol-pôr...
Que pena faz vê-lo passar em Portugal!
Ai que feridas e não cheiram mal. . .
E a procissão passa. Preamar de povo!
Maré-cheia do Oceano Atlântico!
O bom povinho de fato novo,
Nas violas de arame soluça, romântico,
Fadinhos chorosos da su 'alma beata.
Trazem imagens da Função nos seus chapéus.
Poeira opaca. Abafa-se. E, no Céu ferro-e-oiro,
O sol em glória brilha olímpico, e de prata,
Como a velha cabeça aureolada de Deus!
Trombetas clamam. Vai correr-se o toiro.
Passam as chocas, boas mães! passam capinhas.
Pregões. Laranjas! Ricas cavaquinhas!
Pão-de-ló de Margaride!
Aguinha fresca da Moirama !
Vinho verde a escorrer da vide!
A porta dum casal, um tísico na cama,
Olha tudo isto com seus olhos de Outro-mundo,
E uma netinha com um ramo de loireiro
Enxota as môscas, do moribundo.
Dança de roda mailas moças o coveiro.
Clama um ceguinho:
“Não há maior desgraça nesta vida,
que ser ceguinho ! "
Outro moreno, mostra uma perna partida!
Mas fede tanto, coitadinho. . .
Este, sem braços, diz "que os deixou na pedreira. . . “
E, êsse, acolá, todo o corpinho numa chaga,
Labareda de cancros em fogueira,
Que o Sol atiça e que a gangrena apaga,
Ó Georges, vê! que excepcional cravina.. .
Que lindos cravos para pôr na botoeira!
Tísicos! Doidos! Nus ! Velhos a ler a sina!
Etnas de carne! Jobs! Flôres! Lázaros! Cristos!
Mártires! Cães! Dálias de pus! Olhos-fechados!
Reumáticos! Anões! Deliriums-tremens! Quistos!
Monstros, fenômenos, aflitos, aleijados,
Talvez lá dentro com perfeitos corações:
Todos, à uma, mugem roucas ladainhas,
Trágicos, uivam" uma esmola p'las alminhas
Das suas obrigações!"
Pelo nariz corre-lhes pus, gangrena, ranho!
E coitadinhos! fedem tanto: é de arrasar. . .
Qu'é dos Pintores do meu país estranho,
Onde estão êles que não vêm pintar?



Paulo Augusto: FALO (integral)

Paulo Augusto

FALO

Rio de Janeiro, 1976




AVANT-PREMIERE
Não foi medo que senti
quando você imenso
- era a primeira vez –
me rasgou a blusa
inebriado e tonto.
Eu era virgem
como todo mundo um dia foi
mas isto não vem ao caso. Fardos pesados,
no canto do muro, tu e eu.
Vislumbrei à luz murcha da tarde
tua fortaleza pontiaguda
e me recordo: meu coração
recuou.
Mas juntei minhas forças todas
e num relance lembrei-me
que mamãe sempre dizia:

- Homem é para-mulher,
e mulher é para-homem.

VAE VICTIS

Sensação de cão sem plumas
a máscara
a farsa - o medo
isto tudo nasceu comigo.
A primeira mentira dita,
a gente se documenta,
se habilita
se exercita - e acaba se acostumando.
A enfermeira é porta-voz.
Oficiosa, a víbora morde, sopra,
e cospe um verbete: Homem!
Meu pai acredita,
minha mãe se deleita
o povo festeja. Bandeiras, discursos,
charutos - bandas de música.
Beberam o mijo do menino
magricela - sem lhe perguntar
sem lhe auscultar - a sina.
Toda festa tem seu preço.

Etiquetado, recebo no berço
a humanidade
me olhando e rindo
um riso que eu não entendo
e que não me larga.

Só não ri o anjo. que me protege
assexuado, a-ético, aéreo,
sobrevoando o meu ser
e dizendo:
- Vai, Paulo, ser gay na vida!
No espaço geográfico do discurso há-sumo.
Nihil obstat.

INTIMIDADE

Flagro admirado e grave
no meio do teu corpo insone
sob a névoa que o encobre
teu cabeludo pecado.
Lanço nele mãos sedentas
de fomes transcendentais.
Rolas sob o cobertor
procurando na floresta
densa e quente do meu ventre
a árvore os frutos doces
os doces frutos do amor

NO COMEÇO VOCÊ FOI MAIS GENTE

No começo você foi mais quente.
Entrava batendo a porta
correndo - me entregava as flores
murchas que o trem secou.
Rondava o prato de leite,
bichano, terno, barbudo,
olhava o mundo por mim.

No começo você foi mais gente.
Andava a rua comigo,
o braço apoiado - e eu
podia ainda beijar
teu rosto e saber por que.

No começo você foi eterno.
Parecia feito em sal.
Eu levava os lábios sôfregos
e ungia o teu corpo todo.
Você não se desprendia,
vibrava em mim,
vivia em mim
trepava.

No começo foi somente amor.

E NO ENTANTO É PRECISO VIVER

Caminhões continuam saindo
do Nordeste
carregando gente
como gado. E eu choro.
o homem que amo viaja
na carne brasileira,
no sangue latino
- trazendo um punhal.
Às 8 horas da noite
o continente estremece
e o povo não atina
o que fazer com os órgãos
genitais da gente.
E, no entanto, mil crianças
de todos os sexos
acabam de nascer.
Amarro minha fome de amor
fortemente
com os cordões de miséria
da minha cidade.
Boto as tropas na rua.
Temo pelo futuro. Danação.
Você que não sabe o que fazer da vida
pegue-me pela mão
e me carregue para o vazio
do que há-de-vir.
Eu também profundamente
entediado com isto tudo.
E, no entanto, é preciso viver.
As gerações futuras nada têm com isto.

O MEU AMOR PELOS HOMENS

No fundo eu gosto dos homens,
todos os homens,
de todas as cores.
Apesar de suas horas odiosas,
de suas lâminas
e de suas balas.
Com as suas discrepâncias e acima delas.

No fundo eles não são tão maus.
Até que a gente entenda
que a necessidade patrocina
dores, medos, lágrimas,
tiros, greves, convulsões.
Para entender o motor dos homens
humano é necessário ser.

No fundo meu amor emana
e os cobre, engloba,
engole-os.
Esqueço a face má que tem vez
mascaram para me assombrar
e os amo um pouco.

No fundo meu amor almeja
ser entre eles
e realizar-se comunistamente
como solução.

Se pudessem receber, todos,
eu dava, salmista,
todos os peixes
que meus olhos guardam
nos lagos sombrios, distantes,
que eu nunca vi.
No fundo os homens me amam
na mudança mútua de nossos ódios,
na troca de todos os beijos
por todas as balas.

No fundo meu amor abunda.
Através dele há de ser salvo
o mundo.

A MULHER QUE MORA EM MIM

A mulher que mora em mim
de noite sacode a saia,
remexe e bebe,
intumescida e apaixonada.
Nas noites que eu não quero
ela me atira nos braços
de homens que eu nunca vi.
Pensa, nostálgica, canta,
e embeleza o rosto
como um girassol.
Anda todas as ruas,
beija todos os homens,
se procura.
Encarcerada em minhalma
faz de mim ofício.
Requebra quando não vejo,
canta quando lamento,
romântica, frenética, bêbada.
Não me infunde medo,
mas só me apavora
quando nas horas graves
do meu dia
quer sair para trottoir.
Feroz, voraz, insana,
quer amar a cidade inteira,
ser anel de toda mão,
chapéu de toda cabeça.
Aprendi a gostar dela
e dos sons arroubos
um pouco demoradamente.
Coexistimos equilibrados,
largos e satisfeitos
a maior parte do tempo.
Há dias que ela alucina:
quando eu durmo ela acorda,
quando canto ela cala,
silencia quando falo.
Me investe,
me explora,
me oprime - mas eu gosto.
Compreendi finalmente
que em mim está vivendo
a síntese crucial do mundo:
aqui os contrários se unem,
poderosa, apaixonada, eterna
e furiosamente.

SYSTEM-ATTICA

Porque sou fresco,
hábil, lépido,
a gerontocracia sente medo,
se arrepia
como um rato.
Cospe leis, editos, atos.
Se agasalha, modorrenta, rouca,
recua
na cadeira de balanço
botando graxa
na dobradiça das pernas.
A tosse, a vista cansada,
a velha despótica me espreita.

Quando exibo meu porte,
meu corte,
me chama de trans
viado
me cobra pedágio - a doida
quer me ver casado,
parindo mão-de-obra
para eternizá-la.
Para destruí-la, esterilizo-me.
Minha praxis.
Por puro capricho
me amedronta, me persegue, me degrada.
Nego, renego, faço ouvido mouco.
Se me encontra pela rua
madrugada
quer violentar-me,
ver meus documentos,
me revista e se delicia
apalpando minhas partes,
pensa em coito.
Nego, renego, abomino.
E ficamos eternamente
nessa cachorrada.

Quer me tributar,
me chupar – foder-me
porque sabe que é maravilhoso,
ser fresco
como um dia de Domingo
ensolarado e pendurado
no varal.

EU ERA O OUTRO

Cúmplice de teu medo,
assombrei-me com o mundo.
Calei, me deixei ficar, perdi-me.
Cúmplice da tua vontade,
existi para os teus ditames,
para os teus atos, farto, cupincha.
Cúmplice do teu ódio,
não apertei os gatilhos,
vi somente cair os corpos.
Cúmplice de tua hipocrisia,
emudeci, neguei-me, aceitei.
Cúmplice de tua fome,
fartei-me na tua mesa,
bebi do teu doce vinho,
gargalhei dos teus prazeres.

Hoje não penso nisto, não.
Bastam as dores do olho,
do meu visor, do meu ângulo.
Sofrer, não - esquecer...
O mundo é outro hoje,
há outras caras na sala,
mas não quero mais ser ninguém.

UM HOMEM LÁ DO NORDESTE?

Nordestino sim
com fome e com sede
de amor
e justiça - dinheiro,
no coldre, no Banco,
longe da mão e dos olhos.
Nordestino sim,
dos cabras da peste,
de esquistossomose,
do Bumba-rneu-boi,
um bamba,
uma bomba,
uma pomba,
da paz e do grito
- barriga vazia,
pregada no espinhaço.

Lampião jogava a criança
pra riba,
a criança sorria,
o céu era azul,
o vento bom.
A criança abundância,
a criança gorducha,
o povo espiava:
- Oh! quanta sustança!
Lampião recebia a criança
na ponta da faca.

HOMEM COME CARNE HUMANA NO CARIRI

Homens comendo homens,
com farinha e pinga,
comendo paçoca de carne
de bunda - mole e fresca.
Nordestino véio!
Eita... muié macho sim sinhô...
Das bandas da Borborema
nordestino no meio dos cabras,
com enxerimento,
a fome danada
- ô peste!
Come diabo,
o que é do homem o bicho não come.
Homo-sensual,
mulé, fulô
- um cabra da peste
que pinta os beiços.
Um frege da gota.

- Que friage é essa, bichim?
- Num é chuva, não, meu pai.
Padim Ciço vai matar nós tudo.

Come, Aderaldo, canta,
bebe,
espanta Belzebu.

Nordestino no meio do mato
alisando a batata
da perna, chupando
cana caiana.
- Tá cum a bixiga lixa!
Êta, Severino duma gota.
Gosta, se demora,
no meio, do verde
do cacto, sentado
na coroa avermelhada
de padre - a secura.
A frescura - o medo.
Esta seca é braba, ô xente!
Nós sofre, mas nós goza...
Come Severo, come...
Este mando todo é teu.

DECRETO EM CORDEL

Para democratizar
o amor
o decreto ora assinado
determina:
todo humano tem direito
de possuir uma fonte
de plena gratificação.
Principalmente no Norte,
no Nordeste
e em Mato Grosso
caravanas vão correr
distribuindo carinhos
afagos e beijos,
apertos de mão.
Onde houver necessidade,
onde houver irmão faminto
terá conforto no peito –
sossegarás coração!
Se faltar mulher ou homem,
pra fazer um par certinho –
atenção compatriotas:
Aqueles que apreciam
carinhos por outras rotas,
atenção, eu peço agora,
trabalhas pro teu irmão,
faz pra eles que em troca
tu terás compensação.
Abençôo e dou partida
Nessa comunicação.
Levem meu consentimento,
Colaborem com a nação.

ESTATUTO

Ser bicha é ser enquadrado
no inciso C
do parágrafo terceiro
do artigo 24
da lei de segurança inter
nacional.

É ter medo à flor da pele,
é ter a língua ferida,
a boca rubra,
o beijo fácil,
o amor saindo pelos poros.

Ser bicha é um estado de espírito,
de choque, de sítio,
de graça.

Como o artista pinta seu quadro,
como a luz que filtra
a janela do quarto
a lua bojuda no céu.

Ser bicha: ser inspecionado,
é ter revirado o passado
e investigado o medo –
subindo o cheiro saudoso
dos primeiros tempos.

É a polícia, acesa e trêmula
no encalço do baitola
amedrontado.

Ser bicha é ser metade gente,
a outra metade - o povo,
gargalha garganta a dentro
ri e galhofeiro.

É Ter parte com o demônio,
aprendiz de feiticeiro.
É estar entre, no meio, ser meta-de
Outros homens.

ATENTADO AO PUDOR

Para prender-me
a polícia
por a-tentar
- o pudico e ávido
público
termina por decifrar
a mensagem
dos órgãos de segurança
sexual
e mergulha
sob as cobertas
comigo.
Deliciosamente infratores
simultaneamente
gozamos
entre relinchos, unhadas,
beijos e coronhadas.

FELICIDADE

Procuro a felicidade
como quem cata uma agulha
às quatro horas da tarde
num matagal do arrabalde.

A polícia me vicia.
A-guarda, solícita, me guarda.
E permanece à distância
expectando fuxicos.

Duas mãos que me procuram
liames, cordas, arames,
se perdem - me perdem
no matagal de arrabalde
onde a felicidade
às quatro horas da tarde
é uma agulha
que a polícia aparvalhada cata
sem nunca achar - a gente
sempre perdendo.

O jogo.

PETIÇÃO TERRORISTA

Um dia que eu estava quieto
João revelou que me amava.
Incendiei.
Como se um jorro
de napalm me tivesse atingido.
Meu coração, desolada cratera,
vi João. Como uma pluma,
um B-52,
possante, rijo, sobrevoava minhalma.
Fui aos ares.
Desfraldei-me,
a ouvir bandas marciais.
Olhei atento seus olhos,
medi seu porte, senso
e falo:
- João, pense no que diz como se morresse.
A vida eu vejo
como um desdobramento de mortes.
Quero viver todas elas.
Ele me olha, nostálgico.
Seus cílios, arames farpados,
fecham-se comigo dentro.
Eu vejo:
mulheres batendo roupas,
as panelas vazias, um filho
repulsivo no colo,
os cabelo de azinhavre,
os dentes postiços,
a missa aos domingos
e a xepa no final da feira.
- Não, João. Mata-me três vezes,
para lavar tua honra
pois eu te trai - agora,
mesmo antes de dizer
que aceito.

POEMA PARA AS MÃOS DE ANTÔNIO

Essa mão que me segura
pelo pescoço,
me sacode
e me revista,
essa mão eu amo.

Toda vez que vai ao coldre
leva um beijo meu.

Se atira pedras
e arrebenta vidros,
assusta gente, cidades,
eu gozo - ela é minha.

Nas sombras de minhas colchas
desliza atrevida
em partes que eu não permito.

Silencia, vibra, fala
- abarca tudo que vê,
ambiçiosa e chula.

Se peço que pare,
avança - adoro!
Louca, impura, grossa,
entra aonde não deve,
cava, coça, atira e treme,
goza - banha-se
no meu torpor,
vive para acarinhar
meu rosto
e me bater
se grito
quando quer me amar.

NA PENSÃO A FLOR DE MINAS

O rapaz do quarto 14
é rebento, 24 anos,
da tradicional família mineira.
Olhou nos meus olhos
um dia
seu pecado feito carne
e viu meus cílios baterem.
Ele estremece,
foge o olhar - mas fala.
Disse-me que tem muito medo.
Nas noites frias de junho
ele atravessa a sala
e demora-se no banheiro.
Passa pela minha porta,
estou no leito,
mas não vejo, sinto.
O chão de táboas me diz
que ele foi para lá
ou que ele está de volta.
Me olha, estremece, tem medo.
Eu gosto de vê-lo assim
e ele me parece
feliz quando meus cílios batem
e descobre no meu olho
seu pecado feito gente.
Ouço tudo que acontece
dentro dele
no quarto 14.
Sua comunicação é na cama,
quando gira, tosse,
contorce seu medo - ela range,
ele ruge, mas não tem coragem.
Deitado, espero, seu pecado,
batendo os cílios e lembrando
a disciplinar Minas Gerais.
Seu pecado, a vontade, deitado
estou sempre,
esperando que na ida para o banheiro
a cupidez mineira
da família tradicional
permita o medo dele vir
pelo meu quarto
misturar na noite fria de junho
nossas humanidades
no pecado amplo,
fofo,
que deitado estou para isso...

RAÇÃO BALANCEADA

Pudibundo, aparatoso,
o homem togado,
convicto e obeso,
absolve o criminoso
de guerra – patriota,
festejando sua indômita
e voraz bravura.

Tem pressa, tamborila,
a voz, rouca, tange:
- O próximo!
As grades rangem,
Rebanhos pastam, aguardam
a vez.
Vadios, prostitutas,
bichas loucas,
estelionatários
que um camburão despejou lá fora.

Fedem.

O magistrado ri, balofo,
cego e balança a saia.
Protege a nação
da desregulada
e momentosa dissolução
dos costumes.
Grave e generoso,
grasna: - O próximo!
O código bordeja a corja
- a sala cheia, barganha.
Como reza a lei,
a salvo a tradição fica
de famílias quietas
a gerar mundanas, a
desovar foras-da-lei
inéditos e rechonchudos.

PESADELO

Pari chorando
horrivelmente
sonhos impossíveis.
Através o túnel da ilusão
flutuei, boiando no fog
e alcancei, nem mesmo lembro
como
o éter.
Terremoto, uma hecatombe linda.
Pluralista em cores.
Os bancários na rua,
Plaqueando remorsos,
Angústias – inutilmente...
No rol dos ratos
o chefe – Camundongo-Mestre,
liberalizando remessas
para o exterior
do sonho nacional.
Um filme pornográfico
no horário nobre,
um grito ensurdecendo
a gente no subway
e longe, muito longe
na Praia de Iracema
você sob uma palmeira.

VIDA-MEDO

Olho para ele embevecido.
Ânsia voraz de agarrá-lo.
AS BARREIRAS.
Busco seu olhar,
fugindo, fugindo, fugindo.
Nessas horas, persevero.
AS BARREIRAS.
Vou para o outro lado.
Mudo a tática.
Deixo me ver -à luz do sol.
Os olhos, fugindo.
- a chance, fugindo.
Sempre as barreiras, sempre.
É preciso ter consciência
de nossa profunda inutilidade
para suportar o estabelecido.

TEU CORPO

Deitado sobre o teu corpo
esqueço o quanto sou mau,
esqueço o quanto sofri,
esqueço a panela no fogo.

A maciez do teu corpo,
a gramínea, o preto
do pelo, o tecido da pele,
tudo me traz arrepios,
tudo me faz melancólico,
tudo me acende e me apaga.

Anúncio luminoso,
luz de vela,
encrespo-me nos teus braços,
perco-me pelas tuas portas
decoradas e indecorosas
e beijo a tua carcaça.

Teu olho preto, chupo,
longo tempo - tremo,
como se mamãe chegasse
de mansinho e eu pudesse
ver que ela me olha e me quer.
Pálida, quieta, cálida.

Redemoinhas meu cérebro,
e traz aflições ver-te assim,
inerte, frio, sabendo
que ainda há pouco
eras vida
minha
- e agora és morte.
Eternidade que vou aturar
a carregar pela vida inteira
teu féretro.
Morre, Antônio, morre e me esquece!

BALADA PARA MADAME SATÃ

Madame Satã,
acabaram de me contar
que você andou por aqui.
Não forneceram detalhes,
mas eu imagino.

Gostaria de saber de ti:
possuias algum cãozinho,
cativo, para alimentar?
Havia o teu, particular,
que afagavas e, modorrento,
botavas para dormir - cheiroso?...

Sim - madame divina!
eu penso.
Precursora, poderosa,
Lampião do asfalto.
A Lapa tremia contigo,
vibrava, amava contigo,
trepava.

Pelo menos ficou urna certeza:
vão demolir toda a Lapa,
mas teu nome vai ficar,
enorme - suspenso no ar.
Bojudo, grave,
prenhe de emoção e de glória.

Eu agora estou no palco,
Samuai,
que foi o teu viver.
Mas não tenho tua força
de expressão,
a ginga.
Ogum não quis me dar
- ele sabe...
o chapéu de Panamá, a voz,
as noites, o bordel.
Tudo isto era muito teu,
muito nosso.
Gostaria de te cochichar
as últimas que ouvi na Lapa.
O malandro aposentou-se,
Vive agora de welfare state,
a noite agora é outra,
poluída, massiva,
Lasciva, ainda, mas morta.
Levaste um pouco da Lapa,
ou tudo - a Lapa
não é mais aquela.
Trocaram muito de vez,
e a bunda dela agora é kitch,
sucesso, fora de ângulo, démodé
Ficou teu brinco, o charme,
a tônica, a perna no ar,
capoeira e pinga.
As paredes da Lapa, Satã,
são eternas,
e nelas você está definitivamente,
preto, feroz, uma pedra.

PORTARIA INTRUSA

Uma portaria caiu
de súbito
estrondosa
mente
sobre o meu desejo.
Para minha segurança,
vela, pontiaguda, e não
me sacia,
inquieta-me.
Faz renascer em meus
anos
sabores estupefacientes
de noctívagas buscas.
Arregalo os olhos
e vejo o inciso
perpetrando introduções
no meu ser –
insolente, arranhando
minhas paredes retais
em busca do meu centro.

AVISO
AOS NAVEGANTES

HOJE - AQUI - GRÁTIS

FARTA DISTRIBUIÇÃO DE AFAGOS E CARGAS ERÓ-
-TICAS. EXCLUSIVAMENTE PARA OS EXTRAVIADOS
E DESOCUPADOS DESTE BAIRRO. PEDIMOS AOS
NAMORADOS E PESSOAS EQUILIBRADAS ABANDO-
-NAREM O LOCAL

A sessão terá início às 15 horas, com meneio de
cabeça coletivo. Seguir-se-á, a entrega dos brindes
jubilosos.

ATENÇÃO

Como a porção de sentimentos para esta área é limitada, pedimos aos interessados chegarem à hora marcada, a fim de evitar traumas e carências
prematuras de afetividade.

BRINDES - BRINDES - BRINDES

Cafunés com mãos cheirosas de alecrim. Cantos
suaves ao ouvido. Declarações de amor e prazer
pelo contato. Pequeno fluxo de informes alcovitei-
-ros. Mão-na-mão entre demorados passeios. Me-
-lopéias cantadas por jovens virgens negras. Beijos
estalados. Beijos com sussurros. Olho no olho. Pis-
-cações de cílios e golpes de sorte no amor. Afabili-
-dades. Cestos de cortesia. Delicadezas em profusão.

Recomenda-se não abusar para
resguardar-se de enfados

Garantimos: a Polícia não foi convidada e possuí-
-mos esquema de cordão sanitário para mantê-la a
uma distância ponderada.

UNIÃO DAS SOLTEIRONAS DE IRAJÁ




ANGELINO DISTRIBUITORS & CO.
Trata casos de solidão crônica. Faz extração
de dores antigas. Anula recalques. Remove
rusgas amorosas. Elimina angústias. Telefo-
ne: 200.0000

DEUS ESTÁ EM TODA PARTE

Achei Deus na cesta do lixo,
no grito horrendo
e nos estertores da morte,
no pneu firestone do carro
que conduz e mata.
Na luz do sol
e nas sombras perigosas da noite.

Nos olhos avermelhados
de uma lambioia.
Ele hoje está de plantão
com a guarda costeira. Vi-O
no balançar suave da folha
do coqueiro,
no intestino delgado
do famélico,
na palidez do defunto,
na gargalhada estridente
e carente de amor da mundana
- nos céus,
no chão, na fossa
ouvindo Roberto Carlos.

Senta-se onipotente com o vendedor
magricela
oferecendo café
numa viela do Mangue.

Treme, no falo, vibra,
nas entranhas feminís,
no ânus.
Na mão ágil que segura a arma,
está no dedo
que aciona o gatilho
e - atingindo,
está na vítima que cai numa dança bonita.

Está louco, bêbado, trôpego
nos descaminhos da seca - migra.

Inocente sorri
nos cabelos claros da infância,
no pródigo frescor juvenil.

Estampa-se no sensacionalismo
barato e ôco
da manchete de jornal.

Está no fundo do mar -
cata conchas com os mergulhadores,
indonésios.
Na fila do INPS, desespera,
quer brigar.

Está na letra do livro,
viaja no trem da Central
agarrado com um pingente
para evitar os postes.

Viram-nO na Cidade Baixa
vendendo gordos pedaços
de muqueca e tapioca - os dentes
alvos, negro como fuligem.

Na boca do nordestino,
está no dente que falta,
na cusparada, nas rugas.
Em toda parte, Ele, em frenesi,
Aparece,
sem lugar e hora,
desde a nuvem que umedece
o sertão, fustigando a seca,
até à distribuição aérea
de napalm
sobre campôneos na Ásia

Mas agora está cansado, aporrinhado,
terminando este poema.

O MEU MAIOR DESEJO

Tudo, tudo eu te queria dar - um deus
eu queria ser,
para presentear-te o mundo.
Eu me faria então a mais bonita
- o mais doirado corpo de Ipanema:
dengosa, nega danada, pedaço de mau
[caminho,
toda tua, eternamente.
Conversaríamos, então, sofregamente,
acerca do sol e das flores.
Dos gerânios... (Examinaste já
os gerânios? Precisas!...)
E eu te diria, sibilina, que o mar é teu
- o meu presente primeiro.
Depois, ah! depois eu te faria ver:
são todos teus os germes
que lavrando a terra enobrecem
o trabalho do teu braço
generoso e bom que a cultiva.
E só então eu te faria ver
que eu sou também humana
como as outras escondidas
sob a pele bronzeada de Ipanema.
E que terra sou, também, fecunda
e boa para o teu arado.
E que não vês em mim hoje senão
um verme malcriado e arredio,
por ser Lúcia Ninguém,
bêbada e suja, dormitando sob as mil
letras de um jornal,
de uma rua sórdida da Lapa.

AS CRIANÇAS DO MUNDO

Como o orvalho que contém a noite
e a luz primeira da manhã,
sou uma possibilidade, uma promessa.
Para mim tudo é porvir. Tudo!
Tudo em mim e em torno de mim há por ser
[descoberto,
tocado, sentido, amado. Tudo.
Enigma transluzente da aurora,
beleza boreal, luxuosa e frouxa,
a força hidrelétrica dos rios,
o humo da terra. Tudo sou.
Fresco como a manhã cálida,
cheio de viço e de cheiro,
garboso, latente.
Virtualmente lato e frágil, prodigiosamente.
Contenho-me, componho-me, esperando e
[indo.
Sendo a cor luxuriante e louca da selva
e a fragrância inebriante da relva,
o que há de vir e o que está vindo.
Extensão, alcance, alvo,
ponto intermédio entre desejo e ato,
alço vôo, sendo asa.
Lânguida asa de pássaros selvagens,
o seu gorgeio e sua débil configuração.
Rumo, caminho, reta,
desembocam em mim todos os deltas,
as corredeiras todas -
a força do mar.
Todos os homens.
Os brancos e os insípidos e até
os azuis, que nem existem...
De você, sou o fim, que você perdeu,
e o seu recomeço.
Latente está em mim suscetível
a realização - e eu suporto,
de tudo que você não pôde
ou não quis, pois esqueceu.

Agitam-se em mim todos os ódios,
todos os medos e os desassombros,
os recuos todos e a intrepidez.
Força e querer,
poder e vontade,
a conspicuidade desse vir-a-ser.

E eu serei você decuplicado.
Recuperarei suas ânsias e os seus ângulos
extraviados, e
assumirei seus temores.

Por causa do que foi deixado,
em mim zunem mil ferros,
vocalizam em mim as dores contidas
cantam em mim os cantos,
doces e ternos, tristes e envergonhados.

Sou o futuro que você pensava,
o fim da linha que você deixou,
sou o recomeço.

Comigo está a liberdade, que embriaga,
está em mim o medo, que entorpece.
Sou acúmulo do mundo de todos vocês,
de todas as suas guerras e garras,
de todos os mortos.
Trago as cicatrizes todas, as mutilações
e as medalhas.

Assim, ininterrupto e limpo é o meu começo.
Vejo vocês e pergunto - os olhos presos no
[cosmos:
- Deverei mesmo, digam homens,
ser continuação de vocês?


O HETEROSSEXUAL
Elizeu tinha um comportamento francamente heterossexual. Costumava andar com mulheres, e as amava, sempre que oportunidades aparecessem. Não era normal este costume, na época, em sua cidade, mas ninguém jamais atinou em recriminá-lo por tais práticas.
Possuia um pênis normal, e, segundo entrevistas colhidas junto às suas amantes, ele alcançava o orgasmo quatro ou cinco minutos após deitar sobre elas, no intercurso sexual.
Em geral, fumava cigarros de filtro, com gestos estudados, meticulosos, como um homem faz. E pronunciava, ao meio do discurso, incontáveis palavrões, o que dava à sua conversa, um caráter másculo, viril.
Dizem que, no começo, chamou a atenção, no clube, no bar, e na quadra de tênis. Apesar de o mundo estar em paz, totalmente, e da explosão demográfica ter sido controlada há muito tempo, todos se acostumaram com o Elizeu, e ninguém mais o recriminava por esse ostensivo comportamento machista.
Havia associações entre o comportamento viril e a sociedade opressora, do passado, que levou o mundo à Terceira Guerra Mundial. Mas, ninguém supunha - ou mesmo poderia atribuir ao Elizeu, aspirações, ou que belicistas fossem suas pretensões comportamentais.
Apenas certas mães amedrontavam-se com ele, e o evitavam, além de repreender veementemente suas filhas, caso ouvissem falar que alguma delas simpatizara, mesmo em sonho, com o rapaz.
No mais, em meio à turma da escola, composta por homossexuais, passivos e ativos, Elizeu nunca arranjou intrigas. Costu-mava ser delicado com todos eles, ainda que nunca tivesse manifestado o mínimo interesse em andar com qualquer um.
Era sabido por todos, a atenção desmedida que os meninos de sua escola lhe dispensavam. Mas, hábil, educado, Elizeu a todos despistava, desconversava, evitando maiores aproximações.
Pelo que se sabe, apenas um, de todos os rapazes da escola, conseguira algo dele: um beijo, no rosto, no dia em que todos comemoraram o seu aniversário. Desde esse dia, no entanto, Elizeu se descontrolava, visivelmente, quando João Belizário, o felizardo do beijo, se aproximava ou estava por perto.
Um rapaz bem estranho, o Elizeu, mas muito benquisto.
Ameaça à paz e à prosperidade, para uns - espécime arqueológica, de um passado belicoso e esquecido da humanidade, para outros.


VIDA LATINA
A cidade adormece
entorpecida, semi-morta,
mas as chaminés não descansam.

Tufos de fuligem
encobrem meu sexo
e há uma criança sem futuro assaltando
uma velha operária.

Ai, América,
como tua voz está sumida!
Tomo algumas frutas nos pomares e vejo
teus contornos industriais.

A seiva, teu sangue,
desencadeiam violências diuturnas.

No entanto, sei da dor
que trazes no peito.

Serão precisos séculos
para teus homens virem a mim
anunciar que é chegada a hora?
Hoje há outro putsch ao meio dia
e a gente nem sabe que roupa usar.

O fardamento está roto
de tantas revoluções
mas o beijo da vitória
há de ser dado
na boca do homem
que chegar primeiro e arrebatar
o cetro.
Como eu amo este teu descontrole,
bêbada América!

A FERRUGEM QUE EXISTE EM NÓS

Homens e mulheres desta parte
do universo
estamos no mesmo barco,
sob a mira do ódio.
Pode ser para amanhã,
para hoje, para agora,
fiquemos alertas.
Eriça meus pelos a coberta
e teu beijo me sufoca.
Tanto amor será inútil?

Esta ferrugem que existe em nós
só matará os covardes.

A cada criança que nasce
meu coração se convence
da salvação irreversível.

Sacudam este meu mundo,
crianças! Atraiam-me!
Eu quero estar com vocês.

SOBRE O AUTOR – Paulo Augusto da Silva nasceu em Pau dos Ferros, Alto Oeste do Rio Grande do Norte, aos 3 de agosto de 1950. Formado em Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF/RJ), em 1976 trabalhou nos jornais O Fluminense (Niterói/RJ), Última Hora (RJ), Diário do Grande ABC (Santo André/SP), Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e Diário Comércio & Indústria (São Paulo/SP).

De volta ao RN, a partir de 1982, trabalhou nos jornais Diário de Natal, Tribuna do Norte e Jornal de Natal. Ex-editor do suplemento cultural Encartes, do Jornal de Natal (1995/1998), onde assinou as colunas “Balão de Ensaio” e “MidiAtica”. Assina, no mesmo suplemento, a coluna “Antena XXI” e a página cultural “Sacadas do Potengi e Refoles”.

É assessor de imprensa da Secretaria da Saúde Pública e editor do jornal Onda Alternativa, de distribuição dirigida na Zona Sul de Natal. Colaborador em jornais alternativos de distribuição gratuita, em Natal.


sábado, 28 de junho de 2008

Este romance foi inicialmente publicado em BLOCOS ON LINE:
http://www.blocosonline.com.br/home/index.php