sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

AGNELLO BITTENCOURT: REMINISCÊNCIA DO AYAPUÁ





AGNELLO BITTENCOURT

REMINISCÊNCIA DO AYAPUÁ

(Foto da CASA GRANDE em 1928 com os netos de Lourenço Mello e ao fundo a âncora do navio Carolina. Carlos Araujo Lima, famoso jurista, aparece na foto, adolescente).




Rio de Janeiro

1966


CAPÍTULO III - A CONQUISTA E O PIONEIRO



Ninguem sabe quem foi o primeiro homem civilizado que visitou o lago do Aiapua. É bem possivel que o pernambucano Serafim Salgado e o mulato Manoel Urbano da Encarnagao nele penetrassem pelo meado do seculo XIX, quando subiram o Purus, em viagem de exploragao.

Consta a tradigao que Fleury da Silva Brabo, Caripuna Maues e o Capitao Thury, todos negociantes, estiveram nesse lago, procurando conhecer suas riquezas naturais. Mas lá nao permaneceram.

O Aiapuá recebeu, em 1850, a visita do Capitao Manoel Nicolau de Mello, natural de Pernambuco. Era, tambem, negociante, senhor de alguns escravos e casado com uma cabocla do Rio Negro, onde passara algum tempo, logo que viera de sua terra. Além dos servos, possuia credito na Capital da sua Provincia. Dizia pertencer a velha e reputada familia Bandeira de Mello.

Nao sei em que lugar do Rio Negro teria vivido Manoel Nicolau de Mello. Fui apenas informado que, ao chegar ao Aiapuá, entrara em contacto com os indios muras, dos quais gostara, certificando-se das vantagens que poderia auferir dos vastos castanhais e seringais daquelas florestas, como da abândancia de pirarucus daquelas aguas.

Resolvera ali fiGar, fixando sua tenda de trabalho e mandando buscar, da terra de sua mulher, fregueses e famulos.

Manoel Nicolau era mulato, de porte desenvolvido e de cultura intelectual variada, principalmente em medicina, 0 que pude inferir a vista de muitas notas e registros em um caderno que encontrei, em 1900, em uma estante de livros que the pertenceram e que, mais tarde, passaram ao seu filho Lourengo, de quem falarei adiante. Esses livros revelaram-me tambem a preferencia dessa cultura e seu gosto pela literatura classica. Entre outras obras que observei, lembro-me das seguintes: "Arquivo Pitoresco" (11 volumes), "Palmeirim de Inglaterra", obras de Victor Hugo e de Voltaire, os "Lusiadas", de Camoes, "Gil Blas de Santillane", de Lesage, 'Sermoes", de Montalverne (4 volumes), 0 "Piolho Viajante" (5 pequenos volumes), tratados de medicina etc.


Informaram-me que o pioneiro da civilizagao em Aiapuá repartia suas atividades entre os livros e os negócios.

A salga do pirarucu era, na epoca, o preduto mais vantajoso. A esse comercio se dedicara nos primeiros anos 49 seu estabelecimento, estendendo-o, conjuntamente, a extraçao da castanha para o que carecia de maior numero de braços trabalhadores. Fez publicar no jornal "Estrela do Amazonas", de Manaus, em 1856, um anuncio convidando quem quisesse se localizar em Aiapuá para se dedicar a agricultura e a colheita da castanha. Teria, para isso, passagens e auxilio economico.

Vi esse anuncio em um dos numeros daquele periódico apenso aos autos de legitimaçao de terras do lote "Perseveranga", do mesmo lago, lote legitimado anos depois pelo filho Lourengo Nicolau de Mello . Está no Arquivo Publico de Manaus. Contaram-me alguns contemporaneos de Manoel Nicolau que muita gente atendeu aquele convite e, realmente, se fixou nas terras marginais do lago.

Os indios muras, que viviam errantes, arrancharam-se em duas malocas: uma situada na enseada do Maues e a outra no igarape do Bacuri.

Por volta de 1889, o povoamento havia aumentado consideravelmente. 0 Governo provincial criou, em Aiapuá, uma subdelegacia de policia e uma Inspetoria de índios, nomeando para ambas aquele pioneiro. Criara tambem uma escola elementar que foi provida pelo professor Raymundo Nonato de Souza, escola de vida precaria, por ter, logo depois de instalada, adoecido e falecido o servidor. Essa escola ficou fechada por alguns anos.

Em 1889, Manoel Nicolau teve necessidade de ir a Lisboa para efetuar uma extração de catarata. Seguiu e foi feliz no tratamento. Regressando ao lago, pouco subsistiu, pois faleceu em 1890. Foi sua morte um grande abalo para os filhos que se estavam educando no Para e para os seus fregueses, que defendia com tanto ardor.

A esse tempo, a ilha do Cemiterio era um povoado, contendo nada menos de 15 casas, sendo a sede da vida local. Em 1896, quando fui, pela primeira vez ao Aiapuá, passar meu periodo de ferias, algumas dessas casas ja se encontravam vasias. Comegara a decadencia desse povoado, apesar de sua magnifica situação, da qual se descortina um lindo panorama.

Com o desaparecimento do chefe, tudo sofreu. 0 barco denominado "Carolina", que fazia viagem de Recife a Manaus e, dai, ao Aiapuá, de propriedade de Manoel Nicolau, paralisou e, velho e imprestavel, foi ao pego, em frente ao povoado da ilha do Cemiterio. Quis duvidar da existencia desse barco, mas diversas testemurihas de suas viagens, no oceano, a vela, e no Solimoes e Purus, a sirga e varejao, afirmaram-me o aparecimento do casco revestido de folhas de cobre, ao auge das grandes vazantes do lago. Comprova-o, ainda, ate agora, uma grande âncora de cinco garras retirada do local do afundamento e colocada sob um pedestal de cimento, ao meio do jardim da casa, hoje em ruinas; dos herdeiros do Coronel Lourengo Nicolau de Mello (falecido em 15 de setembro de 1905), o verdadeiro continuador da obra de seu pai, quer no comercio, quer nas relagoes sociais. A história de uma localidade gira, as vezes, em torno de um homem e de um dos seus descendentes. É o caso do Aiapua, em relação a Manoel Nicolau de Mello e de seu filho Lourengo, que foi, por circunstancias economicas, obrigado, a abandonar seus estudos, em Belem, a fim de assumir a responsabilidade da casa comercial de seu progenitor.


Manoel Nicolau deixou varios filhos; conheci os seguintes: Lourengo, Nuno, Leopoldino, Isabel, Benvinda, Raimunda, Mirandolina e Tereza, que ainda vive em Belem.


A nova sede da vida comercial de Aiapuá deslocou-se da ponta da ilha do Cemiterio para a foz, do igarape Santo, Antonio, na parte ocidental do lago. Foi aí que Lourengo Mello, após haver contraido nupcias com Felicidade Augusta Robert, filha do comerciante frances Sebastian Robert e de Felicia Barroso Robert (amazonense), construiu o seu barracao de neg6cio e de residencia.

Nesse local, ja existia um "sitio", ou melhor, uma casa de moradia do Italiano Ventillari, cuja posse Lourengo Mello comprou, procedendo, mais tarde à respectiva demarcagao e legalizagao a que atras aludi. Foi o agrimensor Silverio Jose Nery que fez a demarcação desse lote, embora seja outro, o Italiano Capriti, nome ostensivo do demarcador. Um grande campo de criagao bovina e cavalar aí foi aberto e apascentadas mais de 60 cabeças. Vi-o, de 1896 ate 1905, época da morte do seu proprietario, quando o rebanho, quase ao abandono, foi diminuindo, até extinguir-se.

Lourengo Mello era homem progressista e estimava o conforto. Não satisfeito com o seu barracão 'Santo Antonio", todo de palha e chão batido, mandou buscar em Manaus pedreiros e carpinteiros, fazendo construir, um pouco alem daquele barracão um vasto prédio, que o povo do lago passou a denominar Casa Grande.

Era, realmente, o maior e mais confortavel prédio de todo o baixo Purus, exclusivo para a residencia da familia, enquanto a Gerencia e a Loja continuavam no "Santo Antonio", que, pouco mais tarde, foi substituido por outro barracao todo de madeira, e coberto de telhas de barra, ainda hoje existente, mas em estado de ruinas.

Ate certo ponto, é verídico o brocardo: "Quando morre o dono, a casa cai". Falecido Lourengo Mello em 1905, a firma comercial de Aiapuá passou para a direção do Dr. Adelino Cabral da Costa, um dos genros daquele saudoso negociante. Adelino, que veio a falecer em 1937, nao obstante sua fulgurante inteligencia e sua bela cultura, nao tinha vocaçao para o comercio. As transagoes nao eram fiscalizadas. Nunca havia saldos positivos. Sempre o regime de "deficit", apesar dos progressivos preços da castanha e do pirarucu salgado, nas praças de Manaus e de Belem, para onde se enviavam os produtos das colheitas. A afamada castanha do Aiapuá, que se recomendava por sua limpeza, alcançando, por isso, as melhores vendas naquelas praças (Manaus e Belem), foi sendo relegada a um segundo plano. Os "regatoes" começaram a imiscuir-se na freguesia da casa. A l.a Grande Guerra, que quase paralisou a exportação da preciosa amendoa, concorreu para a "debacle". Comia-se muito mais do que se produzia.



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CAPÍTULO IV DESCENDÊNCIA DE MANOEL NICOLAU DE MELLO

LOURENÇO NICOLAU DE MELLO

Trata-se da figura principal da localidade, não só pela sua cultura, como pela sua ação. Filho do fundador da gleba, tinha o tipo do caboclo. Herdara, certamente, a compleição e os traços de sua mãe. Robusto, inteligência viva, fora mandado estudar preparatórios em Belém (Pará) com seu irmão Leopoldino. Internado no colégio do Padre Rocha, fez-se, desde logo, um dos primeiros alunos.


Lourenço contou-me que se conformara com todos os "trotes" dos colegas, menos com aqueles que feriam sua dignidade. Por vezes, teve de repelir as afrontas ou humilhações, estabelecendo reboliços que reclamaram a intervenção do Diretor. Uma delas, referiu-me, foi a seguinte: um grupo de estudantes dos mais alentados entendeu de amofiná-Io constantemente, imitando, com o braço direito, o gesto do pescador quando arpoa o pirarucu. Era mais uma ofensa que não devia ser suportada, assim o entendeu o caboclo do Amazonas, expressão com que o chasqueavam sempre. Uma explosão de raiva determinou que o provocado descalçasse um dos seus sapatos e, com ele, investisse no mais irritante do grupo. Lourenço virara uma fera, pondo o colégio em polvorosa. 0 estrago não foi pequeno. Por um pouco, Lourenço não é despedido, tendo-Ihe valido seu comportamento e aplicação aos estudos. Nunca mais o quiseram ridicularizar.


No colégio ficara por três anos, aproximadamente. Seus preparatórios (curso de humanidades) estavam quase a concluir, quando lhe falece o pai. Foi um transtorno. Teve de recolher-se, com seu irmão Leopoldino, ao Aiapua e começar a labuta comercial, assumindo, na sua responsabiIidade de adolescente, a manutenção e educação de seus irmãos menores, como de alguns sobrinhos órfãos. Fundou o barracão Santo Antonio a foz do igarapé deste nome, na parte mais ocidental do lago. D. Felicidade Augusta Robert de Mello, sua esposa, ajudou-o tenazmente, lidando com a freguesia, na safra da castanha e da borracha, como ainda na assistência do transporte de lenha (combustível) para os gaiolas, no porto de Novo Trombetas (no Purus). Lourenço Mello disse-me algumas vezes que foi esse o período mais
duro de sua vida. Mas, em compensação, o de maior prosperidade, pela segurança e alargamento dos seus negócios nas plagas de Manaus e Belém, para onde enviava os produtos de suas safras.


Na capital, entre seus amigos de infância, se achava meu saudoso pai, o Coronel Antonio Clemente Ribeiro Bittencourt, em cuja casa se hospedava, sempre que vinha a cidade ou em trânsito para o Pará. Eram dois amigos, como raros tenho visto. Quando meu pai se aposentou, no cargo de Oficial Maior (hoje Diretor) da Secretaria Geral do Estado, apenas com a vantagem de 250$000 por mês, para não se sujeitar a humilhações políticas, no governo de Eduardo Gonçalves Ribeiro, foi imediatamente convidado por Lourenço Mello para ajudá-lo no movimento comercial de sua casa de Aiapuá. Estava eu a esse tempo (1894/1896) concluindo o curso da Escola Normal do Estado .


0 grande amigo de meu pai mandara suas filhas mais velhas Tertunilla e Antonia (Luiza, em casa) educarem-se no Pará, sob os cuidados de Marques Valente, seu amigo e compadre, chefe da firma Marques Valente & Cia. Concluídos o curso primário e o de música, essas meninas retornaram a casa paterna. Em trânsito para Aiapuá, estiveram em nossa residência, em Manaus, onde a primeira prestou concurso para o provimento efetivo da cadeira de ensino elementar daquele lago, sendo nomeada.
Em outubro de 1896, tendo eu recebido o Diploma de Normalista, pleiteei o desdobramento da cadeira mista de Aiapuá, atendendo sua excessiva frequência. Fui nomeado para a do sexo masculino, que inaugurei a 19 daquele mês e ano. Em breve me tornei genro de Lourenço , que sempre me dispensou a maior consideração e encontrava em mim companheiro nas discussões literárias, como na apreciação de problemas científicos e sociais.


Uma boa biblioteca, sempre aumentada e de obras escolhidas era uma das nossas distrações. Escolhíamos temas para estudo e discussão. As vezes, assuntos literários; outras vezes, conceitos filosóficos. E escrevíamos para jornais de Manaus.


Lembro-me de uma serie de artigos que Lourenço Mello escreveu e publicou no jornal "Amazonas", assinado "Os seringueiros" e, ainda, de um trabalho que intitulou "Os pagés", lançando um formidável ridículo nos curandeiros do interior.
A propósito desse trabalho, ouvi do Dr. Henrique Álvares Pereira, médico ilustre e então redator-chefe daquele órgao da imprensa baré, o seguinte juízo, após haver lido "Os pagés": "se este matuto andasse há mais tempo treinando aqui, nos jornais, já seria um escritor de raça". Preciso dizer que o galeno não sabia que eu era genro do chefe do Aiapuá.

Outro passatempo de Lourenço Mello consistia em cultivar a música. A flauta era o seu instrumento predileto e executava-a com emoção. Em determinados dias da semana, reunia seus irmãos Leopoldino e Nuno, estes ao violão, e tocava alguns números do seu largo repertório, após o jantar. Vi-o algumas vezes fazendo transposições, no pentagrama, para determinados tons que mais conviessem ao diapasão da flauta. Nada de oitiva. Deixou álbuns de músicas, quase todas copiadas por sua letra. Ao executar uma partitura, conservava sempre ao ombro um lenço grande, vermelho, do Aveiro, o qual, de quando em quando, passava sobre o instrumento.


Era madrugador. Levantava-se às 4 horas e, logo sentado em uma cadeira de embalo, na sala de jantar (varanda), reclamava o café. D. Felicidade, sua esposa, jamais se conformou com esse regime. Algumas vezes, fez-me despertar para conversarmos e vermos o lindo despontar do sol por trás da floresta que, ao longe, limita as águas do Aiapuá. Quando não, chamava o curumi (menino) João Ituá, seu remador e, na canoa "Piolho", assim chamada por ser chata como uma tabua, rumava para a casa de um dos seus fregueses com quem ia palestrar, até o surgir d'alva.


Lourenço Mello gostava de obsequiar a quem Ihe batesse a porta, ou formular convites a pessoas de representação. Viajantes em trânsito, no seu porto, eram quase sempre solicitados a desembarcar. Um lauto almoço Ihes era servido. Dentre diversos, recordo o ágape oferecido aos Drs. Gaspar Guimarães, mais tarde Desembargador, e Thaumaturgo Vaz, poeta de fina sensibilidade. lam eles em comissão do Governo do Estado, no aviso de guerra "Juruá", ate a cidade de Lábrea, para abrir um inquérito judicial. Tinham entrado no lago, desviando-se, assim, de sua rota, no Purus, para comprarem um rancho, o que conseguiram fartamente, sem que tudo custasse um real. De outra feita, lá esteve o almirante Jose Carlos de Carvalho, em excursão oficial ao Território do Acre. Em impressões de sua viagem, insertas no "Jornal do Comercio", do Rio, referiu-se a Lourenço Mello e afirmou "ser muito estimado por sua caboclada".


Era espontâneo, nesse homem, o espírito de gentileza e obsequiosidade. Sua casa nunca deixou de ter hóspedes que, ao se retirarem, levavam numerosas ofertas, tais como: sacos de castanha, capoeira de galinhas, doces, farinha fresca, frutas, tudo sem bajulação, pelo único interesse de ser agradável. Esse traço liberal e altruísta do seu caráter fê-lo vítima, em várias ocasiões, no trato do comércio, pois aviados seus houve que não Ihe pagaram, por esperteza, as mercadorias compradas. Dizia ele: "Deus tem mais para dar que o diabo para levar".


Em dias de dezembro de 1899, a Casa Grande esteve repleta de gente de Manaus. Lá se reuniram as famílias dos Coronéis Antonio Bittencourt e seu irmão Francisco Bittencourt, Francisco Ferreira de Lima Bacury, Eusébio Caldas e Joaquim Rodrigues Teixeira. Que satisfação imensa para Lourenço Mello e sua esposa! Quando os hospedes tomaram o navio e regressaram aquela Capital (tendo eu ficado, no meu afã escolar), não se descreve a tristeza que deixaram na fisionomia daquele homem que parece ter nascido para os grandes convívios da inteligência e do coraçao.


A casa comercial do Aiapuá tinha organização. Seu chefe não perdia um papel. A escrituração feita por ele ou por seu guarda-livros andava em dia. Terminada cada safra de castanha, de borracha ou de peixe, os fregueses recebiam suas contas-correntes, que não eram entregues sem que Lourenço Mello as conferisse.


No fim de cada ano, reunia e mandava encadernar, em volumes
fortes, pela ordem cronológica, toda a correspondência recebida. Nos "Copiadores", estava tudo que se expedia. Arquivavam-se os "Caixas", os "Borradores" e os "Razões", que se iam enchendo de escrituração. Isso vinha de alguns anos, tudo em grande armário envidraçado, que se abria e limpava constantemente.


Falecido seu proprietário, esse valioso Arquivo foi retirado e posto em caixotes, num armazém-deposito fechado. Os ratos e cupins em pouco tempo deram cabo dele. Em 1921, quando estive em Aiapuá, fui ver esse depósito. Contristava verificar a destruição completa, daquilo que tanto custara. Livros e documentos estavam reduzidos a pó...


Lourenço Mello não era somente do comércio. Prestou também bons serviços na manutenção da ordem pública, na qualidade de subdelegado de polícia do respectivo Distrito. Nunca precisou valer-se do prestígio do seu cargo para se impor aos seus concidadãos, porque, acima de tudo, pairava a sua autoridade moral, a força que é a um só tempo respeito e disciplina.


Exerceu, igualmente, por um largo período, o mister de Inspetor de índios. E, nessa função, jamais consentiu que um mura fosse maltratado. Para a legislatura de 1904-1906, foi eleito Deputado ao Congresso Amazonense. Entre as medidas que conseguiu vitoriosas, naquela Casa, esteve a melhoria da navegação do Purus, com uma linha subvencionada pelo Estado.


Lourenço faleceu a 15 de setembro de 1905, em Lisboa, em presença de sua esposa, do seu filho Wenceslau e de vários amigos. Sentindo fugir seus últimos instantes, levantou os olhos, dirigindo-se para a sua fiel e boníssima companheira de tantos anos de lutas, D. Felicidade Mello, e pronunciou: "Manda dizer ao Antonio". E baixou acabeça... Referia-se ao meu pai, que se achava em Manaus. Era o derradeiro lampejo de um homem bom, que se voltava para o seu maior amigo, na ânsia de, ainda uma vez, estreitar seus espíritos que, seguindo o caminho da luz eterna, devem estar no seio do Todo Poderoso.


Pablo Cid: AS AMAZONAS AMERÍGENAS










Pablo Cid
(Moacyr Rosas)


As amazonas amerígenas

Rio de Janeiro, Bruno Buccini, 1971



Pablo Cid
(Moacyr Rosas)


As amazonas amerígenas
(Rio de Janeiro, Bruno Buccini, 1971)







A LENDA DAS AMAZONAS AMERIGENAS que está no fôro da inteligência humana paramentada de mirífica fantasia, tem fascinantemente empolgado sempre espíritos de formoso saber científico e literário, como o de Alexandre Von Humboldt e de Carlos Maria de La Condamine. A sua existência é um caso labirintado que não nos deixa tirar uma conclusão lógica, pois tôdas as tentativas nesse sentido oferecem ao nosso juízo a impressão de um pêndulo, que oscilasse entre duas poderosas opiniões, sendo fácil portanto, aceitar qualquer delas.

Esta peremptória afirmativa não nos inibe de tentar uma honesta investigação.

Bilac, o primoroso poeta patrício, numa página de deliciosa prosa sobejamente conhecida, comenta:

“Esta lenda é uma ressurreição de uma das velhas tradições helênicas. As Amazonas, segundo Heródoto e Plínio, eram mulheres guerreiras, fabulosas cavaleiras, que viviam em nação misteriosa, na Capadócia, às margens do rio Termodoonte. Hércules venceu-as e destroçou-as, e aprisionou a sua rainha, Antíopa ou Ripólita, dando-a em casamento a Teseu. Foi Francisco D’Orellana, aventureiro espanhol, companheiro de Pizarro, primeiro explorador do Amazonas, em 1541, quem encontrou ou sonhou encontrar nas margens do grande rio as Amazonas americanas. Pizarro incumbira Oreilana de descer até o mar a prodigiosa corrente, descoberta por Pinzon e então denominada Mar-dulce. O fim da expedição era o achamento da magnífica região do Eldorado. Essa viagem foi uma estupenda sortida de heroismo alto. Durante muitos meses de combates, de misérias, de fadigas, de fomes, procurando, cada dia ao alvorecer, avistar as tôrres e as armaduras de ouro do país fantástico, Orellana e a sua bandeira percorreram 1.700 léguas, até a foz do imenso curso. Ao chegar à Europa, Orellana narrou o seu encontro com as belicosas índias, cuja existência, ardentemente discutida, foi afirmada e negada, durante muito tempo, por viajantes e geógrafos. As Amazonas brasileiras eram, segundo uns, brancas louras; segundo outros, morenas e de cabelos negros; e eram fortes e belas, ágeis e valentes, zelosas da sua independência; e tinham costumes extraordinários. Ouvi, textualmente, o que delas disse o padre Simão de Vasconcelos, autor da “Crônica da Companhia de Jesus no Estado do Brasil”: há outra nação de mulheres monstruosas no modo de viver (são as que hoje chamamos Amazonas, semelhantes às da antigüidade, e de que tomou o nome o rio), porque são mulheres guerreiras, que vivem por si sós; habitam grandes povoações de uma província inteira, cultivando as terras, sustentando—se de seus próprios trabalhos ; vivem entre grandes montanhas; são mulheres de valor conhecido, que sempre se hão conservado sem consórcio ordinário de varões...”

Tal é a lenda das Amazonas brasileiras. “Não é possível que Orellana tenha inventado de todo esta fábula. É possível que o aventureiro espanhol tenha visto, entre os índios que o guerreavam, algumas índias, e tenha acreditado que a multidão dos combatentes fôsse exclusivamente composta de mulheres; ou, talvez, como acreditam alguns escritores, êle tenha combatido com tribos de Omáguas ou Cumurus, todos homens, mas que pelo seu aspecto ou vestuário lhe tenham parecido mulheres; ou, ainda, talvez, como acreditava o padre Ivo d’Evreux, existiram realmente no Amazonas tribos só de mulheres, da raça dos Tupinambás, que, fatigadas do cativeiro em que os seus maridos as retinham, dêles se separaram e viveram à parte das outras tribos. .

Outro, Karl Von Den Steinen, que se deixara maravilhar com a história destas guerreiras mulheres, tanto que não temeu abalar a reputação de seu nome, disse: —“Ainda quando nunca tivéssemos ouvido falar das Amazonas da antiguidade, eu acreditaria, sem hesitar, nas da América, cuja existência é a mais verossímil”.

Enquanto Barbosa Rodrigues, Alfredo Ladislau, Raimundo Morais e outros negam a veracidade dêsse mito famoso, atribuindo-o a caprichos de fantasia de cronistas primévos.
O primeiro, autor do famoso O Muyrakitã, afirma, naquelas páginas de real erudição histórica, que os índios, que auxiliaram como capitães de grupo (si é que existem entre êles) a horda de aborígenas que ofereceu combate aos espanhóis do bergantim, os quais Orellana e o bom frade Carvajal tomaram por mulheres, sendo os índios aupés, cujo porte, penteado e ar efeminado e o hábito de levarem consigo as suas mulheres ao combate, bem podem ser tomados por evas belicosas. E Raimundo Morais, nem isso admite. Partindo das lendas de terras estranhas conhecidas na Europa, formula assim a sua conclusão:

“Não admira pois que Orellana, quarenta anos mais tarde da descoberta assinalada pelos lusos, para amortecer e apagar talvez a deslealdade cometida ao abandonar Pizarro à fome e ao frio nos alcantis nevados do Peru, inventasse, como incidente teatral da sua descida ao sabor de uma caudalosa corrente, as tremendas Amazonas, que, de arco e flecha, o assaltaram e o escorraçaram rio abaixo. Se na Amazônia já refloriam as histórias do variado folk-lore atual, referto de iáras e botos, de veados e jabotis, de irapurus e curupiras, Orellana juntou-lhe mais esta, reminiscência lendária da Hellade”.

OS SONHOS DOS NAVEGADORES. No século XV, todos os intrépidos nautas tinham na vulcânica imaginação um estranho país, da qual faziam brotar sonhos fantásticos, que animados pela sua tão apregoada paixão das aventuras os impeliam a arrojar-se aos mares bravios, em busca, às vêzes, de ignoradas terras. Os caminhos marítimos seduziram as imaginações dos aventureiros cansados das trilhas áridas dos cavaleiros andantes, que tão sàbiamente o primoroso Cervantes soube aniquilar numa incomparável chacota. Pois as graças escudeirais enfeixadas em tôrno do cavaleiro da triste figura que é o Dom Quizote de la Mancha, fizeram os intrépidos sonhadores trocar o dorso das bêstas pela condução em barcos à vela. Era corrente, naqueles tempos, a imaginária narração do cavaleiro inglês João de Mendeville no Livro das Maravilhas, cuja autoria, na opinião hodierna, pertence ao astrólogo de Lião João de Borgonha. Outra obra que convulsionou a mente da inquieta família marítima, foi o Livro das Maravilhas do Mundo, ditado pelo famoso Marco Polo a Rusticiano de Pisa, que o passou ao idioma de Voltaire, acompanhada a versão, para não se pôr em dúvida o seu cunho verídico, da seguinte nota: “Marco Polo, prudente e nobre cidadão de Veneza, viu tudo isto com os seus próprios olhos, e o que não viu, ouviu-o da bôca de homens de muita verdade”. Marco Polo foi, no conceito do prodigioso romancista Júlio Verne, “o mais ilustre viajante de tôda essa época”.
Outros mais livros, não de tanta monta, que também corriam impressos, e ficaram conhecidos na história com o nome de incunábulos, contribuíram para incitar nos mareantes sua parcela de encorajamento para buscarem seus objetivos.

Voltando as nossas vistas ao descobridor do Nôvo Continente, sabemos que “Colombo e Pinzon, como bem o diz Blasco Ibañez, “Em busca do Grão Kan” eram simplesmente dois sócios com direitos iguais nos lucros da viagem, embora Pinzon tivesse gasto mais que o outro, e se um era almirante, Martin Afonso era o verdadeiro armador da esquadrilha”. Portanto, bem fundados podemos afirmar que para Colombo e seu sócio Pinzon, que ambicionavam o ouro do Grão Kan da China, tinham valor as notícias das curiosas ilhas Macho e Fêmea, das quais nos fala Marco Polo. A segunda era habitada por gente do sexo frágil exclusivamente, que recebia, nos meses de março, abril e maio, visitas dos seus vizinhos, que eram povoadores da outra ilha e viviam a sós. Aqui é fácil deduzir: pois, se tal era do conhecimento da família Pinzon também o podia ser do seu aparentado Francisco de Orellana que, como os demais da mesma lida, trazia o cérebro e o coração repletos de esperanças de realizarem feitos tão’ grandes como aquêles que consagraram Hércules.
E não ‘é ignorado por pessoa alguma afeita a labutar com livros históricos em tôrno da Quarta Orbis Pars, que o próprio Almirante don Cristóbal Colón (grafia pessoal dêle), morreu ignorando a terra que havia descoberto, se o Japão ou a China, ou, ainda, as índias. A respeito de Colombo ter sido influenciado pela obra do nobre viajante genovês, o historiador patrício Mário Ypiranga Monteiro, nega-o em seu precioso livro Quarta Orbis Parsr estribado na autoridade do insigne alemão Humboldt. “Humboldt afastou esta suposição, pondo em dúvida a influência do livro de Marco Polo na grandiosa emprêsa do genovês. Cf. Cristóbal Colón, I, 53.

Acreditamos no sábio investigador, porque entre os livros comentados por Colombo não foi encontrado nenhum exemplar das viagens do italiano. A tese de Vignaud caracteriza-se pelo espírito de individualidade que empresta ao descobrimento, dando o marinheiro como pai espiritual da famosa idéia de encontrar um continente, sem a ajuda de ninguém, fôsse de Marco Polo ou mesmo de Toscanelli (Sic)“

Com a transcrição dêstes conceitos do acatado membro da Academia Amazonense de Letras professor Mário Ypiranga Monteiro, queremos evidenciar o ecletismo, com que nos comportamos diante dos nossos leitores. Em trabalho desta ordem as afirmativas, mesmo cavilosas, atuam sugestivamente no juízo dos que nos lêem.



NOTICIAS DAS AMAZONAS AMERIGENAS NA EUROPA. A quem cabe o louro de ter, em primeira mão, levado noticias destas mulheres à Europa?

Segundo o repetido conceito da História, cabe o galardão triunfal a Francisco de Orellana. É uma glória espinhosa essa, pois, tem motivado verdadeiros panegíricos em sua honra, de par com as mais violentas verrinas incendiadas de ódio.
Cabe, em são espírito de justiça, a Colombo êsse privilégio. Porém mais uma vez o almirante Dom Cristóvão Colombo foi logrado. Ainda não passou um indivíduo na história, cujos feitos fôssem tão contestados como os dêsse homem que nem pátria tem, a ponto de se lhe darem duas, para negar a verdadeira. Até ao nôvo continente, sua descoberta, dão o apelido de um mareante embusteiro Américo Vespúcio. Cerra os olhos pensando que as terras encontradas eram complementos das índias. E até às pequenas coisas, a tradição cavilosa sonega-lhe o direito.

Na famosa epístola, cujo original é desconhecido, endereçada ao tesoureiro da monarquia espanhola, de então, Don Raphael Sanches, deu notícia das amazonas, e êsse, por sua vez afirmou: “Estas mulheres não se dedicam a trabalho algum próprio de seu sexo, pois usam arcos e frechas, segundo se disse das anteriores, e se colocam por defesa lâminas de cobre, de que têm em grande abundância”. Aqui, sem desmentir a ardente e imaginosa raça latina, o real tesoureiro deu largas à sua imaginação no que diz respeito aos apetrechos cuprinos.

No curioso Diário da Primeira Viagem de Colombo, Pedro Martin, pormenorizadamente, conta que os amerígenas disseram ao almirante que mulheres sem homens habitavam a ilha de Matityma (Martinica), as quais se defendiam com armas, sem receber comando do sexo forte, e sim, de si mesmas; e foi então que o almirante apelidou-as - amazonas. Eis como se refere a êste passo, na obra citada, Blasco Ibañez: “Além disso interessava a todos conhecerem a ilha de Matinino, tôda ela povoada de mulheres que anualmente recebiam a visita dos da vizinha ilha de Caribe. Se depois da entrevista anual davam a luz meninos, mandavam-nos para a ilha dos homens, se meninas, deixavam-nas ficar consigo para serem amazonas.

Afirma Hakluyts, citado pelo glorioso Gonçalves Dias, que disseram ao navegante florentino que a ilhota de Madanino (Monserrate), estava povoada exclusivamente por mulheres guerreiras, que passavam a maior parte do ano afastadas do comércio dos homens.

A Espanha, porém, só viera ficar inebriada com as coisas fantásticas do nôvo continente, após a chegada do homem que a história condecorou com péssimos adjetivos o capitão Francisco de Orellana. E quem descreveu esta cruciante e assombradora história foi o cronista Fernandez de Oviedo, que teve a oportunidade de ainda se encontrar em S. Domingos e ouvir a narração do próprio herói que, na sua opinião, foi uma das maiores coisas acontecidas a homens e que valia a pena fazê-la desde logo conhecida na Europa. Na relação apresentada ao cardeal Bembo — Pietro Bembo, um dos entusiásticos evangelizadores do neo-platonismo e favorito da estranha Lucrécia Borja, diz, entre muitas outras coisas imaginárias, que aquelas mulheres combatiam em guerra; que viviam a sós sob o comando de uma mulher; que possuiam ambos os peitos e não matavam os filhos, mas entregavam-nos aos pais. Foi aquêle seu depoimento apresentado no dia 20 de janeiro de 1543 e publicado no ano de 1555.

Outro que também muito contribuiu para a divulgação dêste fato lendário foi W. Raleigh, que na curiosa opinião do grande bardo maranhense G. Dias, dava “ao vulgo o maravilhoso, - para o govêrno o interêsse - e para a rainha a lisonja”.
Raleigh, nascido em 1552 e decapitado em Londres a 29 de outubro de 1618, dotado de incomum espírito aventureiro, figura galharda e insinuante que se tornou um dos mais ricos magnatas da côrte isabelina, foi favorito da rainha. Esta circunstância permitiu-lhe com a palavra eloqüente, sugestiva e colorida de que era dotado, dizer nos serões reais que havia ensinado as cunhãs guerreiras a pronunciar o sagrado nome de sua majestade. Aqui fica bem a sentença hugoana: “O cinismo vale tanto quanto a hipocrisia. Humboldt comentando a astúcia do pirata inglês, disse que isso, sem dúvida alguma, excitara a sensibilidade da vaidosa rainha. “Isabel, — comenta V. Hugo — é um tipo que em Inglaterra, dominou três séculos, o décimo-sexto, o décimo-sétimo e o décimo-oitavo. Isabel é mais que uma inglêsa, é uma anglicana... Isabel traduzia Horácio. Isabel, sendo feia, decretava que era formosa, gostava dos quartetos e dos acrósticos, fazia que as chaves da cidade lhe fôssem apresentadas por cupidos, mordia o beiço à italiana, e volteava as pupilas à espanhola, tinha no guarda-roupa três mil vestuários, entre os quais figuravam vários trajos de Minerva e de anfitrite, avaliava os irlandeses pela largura dos ombros, cobria de palhetas de ouro as anquinhas, adorava as rosas, jurava, praguejava, batia o pé, dava murros nas damas de honor, mandava Dudley para o diabo, batia no chanceler Burleigh que chorava como idiota já caduco, cuspia em Mathew, agarrava Hatton pelo pescoço, esbofeteava Essex, mostrava a coxa a Bassompierre, e era virgem”. Ora, numa côrte que tinha uma rainha desta têmpera a palavra de um cínico encantador como Raleigh só podia ser acatada festivamente. Dêsse modo, a notícia das amazonas amerígenas pronunciarem o nome real, constitui uma nota sensacional nos meios palacianos.

Até esta altura os dados advogam a favor de Orellana, como não sendo êle o criador do mito, do embuste ou coisa que o valha. Se o ter compartilhado é razão suficiente para o acoimarem de mentiroso como até aqui tem procedido a posteridade para com êle, é oportuno que nos precatemos com a sentença de Montesquieu: “Uma injustiça feita a um só é uma ameaça feita a todos”. Isto para evitar que continuem os historiadores a enxovalhar-lhe o nome, fundado neste motivo injusto.

Robertson Works, em uma das páginas de sua História da América, taxa aquela narração de artifício de um aventureiro Gómara, depois de aniquilar as suas marcantes qualidades, classifica-o, com seu terrível e convincente estilo, de infiel e de mentiroso. Sant’Anna Nery, no seu citadíssimo Le Pays des Amazones, no mesmo rítmo, também crimina-o de traiçoeiro e de desumano; “Orellana se débarrasse de ces braves gens qui n’étaient pas faits pour le comprendre”. “L’un de ces infortunés était un domificam, Gaspar de Carvajal l’autre, un hidalgo de Badajoz, Hernando Sanches de Vargas”. Hoje, porém, tal juízo é integralmente refutado pela leitura da Relação do frade dominicano Gaspar Carvajal. Referindo-se a êste documento, A. Santa Rosa em sua História do Rio Amazonas (Pará 1926), diz: “a luz se derramou sôbre fatos, e a memória de Orellana tem-se imposto à consideração mais condigna do renome da gloriosa aventura”.

Acuña, que viera a estas plagas um século após Orellana, defende-o, despido de qualquer paixão. Apreciêmo-lo na tradução do distinto escritor patrício C. de Mello Leitão: “não me persuado de sua nobreza, nem é crível que tendo êste rio tantas grandezas a que pudesse lançar mão, baixeza ordinária de quem, não podendo por seus braços alcançar a honra que deseja, procura mendigar a do vizinho”.


Em suma, se fôsse criação do cérebro de Orellana —a lenda das Amazonas amerígenas — seria caso para lhe consagrarmos admiração. Pois se há mentira construtora, esta foi uma feliz e maravilhosa mentira! Ela tem dado à mesopotâmia brasileira um comprovado prestígio nas esferas pensantes dos povos cultos. Para não apontar quantiosos nomes de talentos que se deixaram impressionar por ela, basta recordar: o citadíssimo La Condamine e Humboldt, cujo gênio está eternizado em suas obras como se fossem letras de ouro em páginas de bronze.


REGIÃO DO FAMOSO REINO — A grande senhora na língua dos naturais era Coniupuiara e a capital de seu império chamava-se Caranai, onde eram as “casas assoalhadas no solo até meia altura e que os tetos são forrados de pinturas de diversas côres, que nestas casas têm elas ídolos de ouro e prata para o serviço do sol” (Carvajal).

Por falar em reinado destas mulheres, não será desoportuno lembrar que os indianos denominavam o país, no qual elas habitavam, Striradjya.
Porventura em que paragens, na Hiléia Amazônica, se ergueu tão civilizado e tão rico império? Se penetrarmos’ em meticulosa pesquisa, deparar-se-nos-á alabirintada perplexidade. O livro do padre Cristobal de Acuña por exemplo, ao qual La Condamine dá excessivo crédito, assegura de modo convicto: “Os fundamentos que há para assegurar Província de Amazonas neste rio (o Amazonas) são tantos e tão fortes, que seria faltar à fé humana o não lhes dar crédito”.

Orellana informou sua localidade, entre a foz do Rio Negro e a do Rio Xingú. O padre Carvajal que o acompanhou, dá o senhorio das amazonas estendendo-se da foz do Yamundá a “umas sete jornadas da costa”, e escreveu apoiado na autoridade do natural Carauari. Nas mesmas imediaçôes, Acufia também o situa “entre grandes montes e altíssimos cerros, dos quais o que mais se alteia entre os outros, e que, como o mais soberbo, é combatido dos ventos com mais rigor, pelo que sempre se mostra descalvado e limpo de vegetação, se chama Ycamiaba”.

O autor do famoso Muyrakitã conta-nos: “Para mim, a tribo dos Uaupés é a célebre conhecida na história pelo das Amazonas, encontradas por Francisco Orellana. A tradição que existe entre uaupés, hoje habitantes do Alto Rio Negro, de que outrora habitaram as amazonas do Amazonas, que deixaram obrigadas por uma grande inundação, concorda com o lugar que descobri na costa do Peru entre os rios Yamundá e Trombetas, que denominei Tanakuera das Amazonas; por aí, segundo a história, Orellana viu as Amazonas”. E adiante conclui: “Se a história e a tradição não falham, aí foi a aldeia das Amazonas, porque lá encontrei os muyrakytãs e fragmentos da rocha de que são feitos, assim como também aí foi achado o ídolo amazônico
Raleigh informou que o reino das mulheres sem macho demorava próximo ao rio Tapajós, onde depois de quase dois centenários La Condamine encontrou os maravilhosos amuletos. Êsse mesmo diz também que os silvícolas de Caiena lhe informaram que elas moravam ao redor das formidáveis quedas do Oiapock.

O missionário padre Gili pretendeu que tal império ficava no rio Cuchivaro, razão por que, os descendentes delas — dos aikeambenamos (mulheres vivendo só), deram à sua nova habitação, um afluente do Rio Orenoco, o nome de Cuchivaro.

O renomado viajante Carlos Maria de La Condamine soube, por informação de um velho soldado da guarnição de Caiena, que havia, numa viagem de pesquisa, penetrado até os Amicouanes, nação de largas orelhas que vive acima das nascentes dos Oiapock, que as Cunhantainsecuima, eram mulheres “que não tinham marido, cujas terras demoravam a sete ou oito dias de jornada para o lado do Ocidente”.

Em face de tantas e variadas informações não podemos, de maneira alguma, firmar um juízo concludente e positivo. Nesta altura avanço: o contemporâneo que localizar o célebre reino, ainda que fundado nos recursos de sensata lógica, pode, após pequeno raciocínio, ser aniquilado. O material literário, embora um pouco raro, sôbre as amazonas ameríndias, é vastissimo. Dentro dêste, flagrantemente, se entrechocam abalizadas opiniões, das quais, não poucas pertencem a homens cujo áureo nimbo eviterno lhes circunda o nome.

Há escritores que, soltando rédea à imaginação, crêem que Ofir e Parvain estão localizados aqui no Brasil. “Kavila e Ophir são dois irmãos, comenta Ulysses de Pennafort, isto é, dois países vizinhos, situados um ao norte, e outro ao sul. Na região do Norte, que é Ophir, Souffa ou Separará, é onde habitavam as Amazonas. Estas Amiçuanas constituiam aquela célebre tribo composta de mulheres de orelhas compridas que demoravam no país dos Ycamiabas, nos montes Cunurêz além das cabeceiras do Oiapock, e junto às nascentes do Essequibo e Caciquiari, que comunica o rio Orenoco com o Amazonas”. E uma das razões do autor está apoiada no fato de Orellana haver chamado as aguerridas mulheres de amazonas, querendo só por isso explicar que elas são descendentes das~ antigas, e herdeiras legais da ousadia e riqueza.


AMAZONAS AMERÍGENAS E SEUS SINÔNIMOS. Têm sido também objeto de polêmica ou de pesquisa o vocábulo amazonas e os sinônimos por que são conhecidas as mulheres do famoso gineceu amerígeno. Antes de mais nada devemos salientar ser infundada a etimologia da palavra amazonas, como oriunda da língua de Homero: o privativo a e o substantivo mazôs — têta, mama, peito, ou seios, sem seio, isso porque supunham que elas sacrificavam o seio direito. Ou como querem os lexicógrafos helenistas: a priv sem e mazós — petite sem. Enquanto Chassango dá a tradução da raiz alterada: “femme privée d’un sem”. A origem e composição desta palavra é discutida por outros autores de nota. E. Littré, o notável erudito francês, é um dos que afirmam: ‘t. mot d’origine fort incertaine”. E diz mais: tôdas essas etimologias são incertas; e é possível que amazonas seja qualquer nome geográfico, ou qualquer têrmo mitológico, cuja etimologia é hoje desconhecida”. (Dictionnaire de La Langue Française).
Escutemos agora, a respeito, a opinião do notável cônego Raimundo U. Pennafort: — “Eu julgo também que êste nome vem do mesmo grego amaxon, amaxion, amacion, que significa: petit chariot (pequena berlinda) uma espécie de carro de quatro rodas de que se serviam as amazonas asiáticas” (Brasil Pré-Histórico). Vejamos agora a opinião de A. Lettere (Jesus e sua doutrina, Rio, 1934), que se apóia na autoridade ilustre de Fabre d’Olivet (Histoire Philosophique du Genre Humain) Amazonas (Ramas — Ohne) que significa — sem macho. Esta palavra compõe-se de raiz mãs em latim, maste em francês arcáico, — maschio em italiano, moth em irlandês. Ohne é a negativa de onde mas-ohne, ao que o fenício aplica o artigo ha, donde, portanto: sem macho


“A palavra Amazonas nem é de origem grega propriamente dita, nem tão pouco devêmo-la ao tal Orellana, que tudo falou de outiva. O vocábulo Amazonas, adulterado como se acha hoje, é originário das línguas americanas, que por seu turno promanam das línguas semitas ou arianas, como vamos demonstrando”. E em uma nota acrescenta o mesmo escritor: “Eu admito o fato histórico das Amazonas brasilenas, porém, com os seus nomes próprios e bem significativos de Ycamiabas, nome sânskrito, de gsamicaka, ‘ysamicábas, (de ay priv. e samikabo, sem união de sexos) ; os arianos dizem ayas-gant, ysctmodjana (sem união de sexo) donde a palavra indígena —amicuanes e Aykabeninos, do mesmo sânskrito manusa-y’akeneana, isto é, mulheres que não têm marido, que vivem sós”. (Pennafort).

Referente ao têrmo amazonas, como ficou dito em capítulo anterior, tal expressão não foi pronunciada por índio algum, como em lamentável equívoco, refere o nosso acreditado historiador Visconde de Porto Seguro ao anotar as Descrições de Maurício de Heriarte, em 1871. Aliás não fui eu o Colombo desta observação, e sim, a menos que me falhe a memória, o escritor Cândido de Mello Leitão.

É também muito vulgarizado o têrmo Icamiaba, e conjetura-se com possíveis razões, que tal têrmo foi dado a estas belicosas mulheres por motivo de seu reino estar situado à orla da Serra Itacamiaba, aliás Itacamiúua (grafia muito mais corrente) conhecida também pelo nome de Yaci-taperê (aldeia da lua), sita às margens do Rio Jamudá. Pode ser no rigor etimológico uma palavra composta de quatro desinências: ita caa meen anã (a pedra da mato sôbre a qual se entregam), a qual, sofrendo várias influências das figuras metaplásticas, se reduziu respectivamente: Itacamenaua, Itacamenaba, Itacamiaba, Icamiaba. Além daquele significado há mais o seguinte:
pedra peito de gente. Pode-se ainda decompô-la doutras. maneiras mais, a saber: Camby (icami) — leite, ana (aba) — quem, logo: leite de gente. Mas outra forma de decomposição se nos apresenta: Cama, peito (da mulher) iaba, o que se diz, logo: seio falado. O distinto naturalista patrício J. Barbosa Rodrigues (O Muyrakitã, 11 parte), que tentou provar que a civilização precolombiana descendia de outra de continente civilizado e até para o nosso discutido problema, ora à balha, encontrou uma significação idêntica a do propalado vocábulo helênico amazonas. Vejâmo-la: Ycamiaba, v-ela, cam-seio, ninão, aba-qua (pre’ posição verbal): a que não tem seio. Além destas, podemos trazer mais uma de duvidosa origem, como anteriormente vimos na transcrição que fizemos em linhas acima da autoria do cônego Pennafort.

Examinemos a outra expressão — Cunhátesecuyma (mulher sem marido), cog-mantain-secoima; ambas têm a mesma tradução e foram grafadas pelo célebre viajante e cientista francês La Condamine, na página 104 de sua monumental obra Relation d’un voyage fait dans l’interieur de l’Amerique Meridionale (Paris, 1745). Em torno do primeiro têrmo o sr. Ângelo Guido em seu livro editado pela Livraria do Globo, opina que aquêle escritor “não tenha grafado com segurança a denominação dada às amazonas pelos índios que ouviu. Talvez tivesse proferido cunhantãs-secó-imas (o grifo é meu), unia vez que secô, como recô é o mesmo que tecô, isto é, uso, costume.
É provável também que da fusão das três palavras que compõem a expressão com que eram designadas aquelas mulheres resultasse cunhãtesecuimas. Entretanto, decomposta a expressão, resultará, como já fizemos notar, mulheres-lei-sem, e não como interpretou La Condamine, mulheres sem marido, pois que marido, em nheengatú, é mena e menasaraima quem não é casado ou casada. Logo, “mulher sem marido” devia ser cuuhãs-menasara,-imas e não cunhãtesecuimas”. Aqui peço vênia ao apreciado escritor para uma pequena observação, e esta, aliás, devo ao saudoso e culto amazonólogo Dr. Octaviano de Mello, “Ita”, no fim das palavras daquele idioma é uma desinência que pluraliza; por conseguinte, aquela pluralização à portuguêsa é errônea. Bom momento para repetir aquela sentença do mestre Horácio: “Quandoque bonus dormitat Homerus”.
Coniupuiára, melhor seria cunhã-pujava ou cunhãpujara, cuja tradução é “Grandes Senhoras”. Êste têrmo foi ouvido e anotado pelo frade dominicano Gaspar de Carvajal.
Aikeambeno, na língua tamanaque, segundo afirma em Saggio di Storia Americana o abalisado padre Salvador Gili, é — mulheres que vivem sós.
Pelo visto, até aqui, a etimologia, sinceramente, não dá margem para conclusões.

MUIRAQUITÃ — Passagem embaraçosa em que os negadores da existência das amazonas americanas esbarram, como diante de um enigma, é a referente ao amuleto muiraquitã.
Esta lenda, colorida num fausto verbal, perturba os que lhe perquirem as origens. Começa por aí a história dos talismãs das amazonas. Na verdade, existem as pedras verdes. Essa côr verde tem um significado melancólico. Parece tomado às nostalgias por lhe faltar o calor que animava as robustas mulheres lendárias. Mas, o verde-pálido não será porventura a côr da saudade? A côr exata do amuleto é a côr da saudade.
No momento em que escrevo, estamos no segundo quartel do século XX, e é crença que o muiraquitã tem a virtude de dar sorte a quem o trás consigo em um estôjo de prata pura. Outra coisa curiosa a notar é a sua temperatura que lembra a do ouro, também possuidor de temperatura própria.

Em estudos dêste gênero, é imprescindível uma divagação etimológica, enfadonha sem dúvida, mas que nem por isso deixa de ter o seu interêsse.

Vejamos. A esta pedra opaca, côr de alface, chamou-se na Europa Beilestein (que é o resultado da união do silicato de magnésio, cálcio e ferro), variedade compacta branca-esverdeada de actinoto. Tem como sinônimo nefrito, pedra que nossos avoengos das margens do Mediterrâneo usavam como substância terapêutica infalivel na cura de suas cruciantes cólicas renais.

Lá, no velho continente europeu, se propõs e se usou por algum tempo o sonoro vocábulo composto — amazo-nen.stein, que traduz: pedra das amazonas. Aliás não é desoportuno, aqui, fazer uma ligeira referência às amazonas da antigüidade. Esta pedra de que ora se cogita. não tem nenhuma relação com o mineral que usavam as citas, aquêle curioso bando de mulheres que, deixando os maridos, assentou moradia nas ribas do sinuoso Termodonte, em Capadócia, e que era denominada por Plínio e Teofraste de — “esmeralda”. Era assim que geralmente apelidavam todo gênero de pedra verde, quer fôsse translúcida ou opaca. Isso apenas elucida que a ignorância não tem idade.

O conde Ermano Stradelli, cujo nascimento numa província italiana foi saudado com festejos populares, contrastando com sua morte ocasionada pelas torturas do mal de Hansen, taciturnamente enlapado na sua dor íntima, escreveu a palavra myrakytan, que não só foi aceita pelos estudiosos, como conquistou popularidade. Dá sua tradução assim: kytái, kytctn, nó de madeira; rnyrá, muyrá, ‘mbyra, árvore, pau, madeira. Já Maurício de Heriarte, acorde embora na tradução, grafa o vocábulo dêste modo: uuraquitan, dando-lhe o gênero masculino.

Outra particularidade digna de nota.

Muiraquitã é o legítimo nome dos amuletos manufaturados em madeira pelos indígenas da estepe verde do continente sul-americano, enquanto que, na realidade, itaquitan é o nome dos talismãs feitos de pedra, e que se têm encontrado com certa abundância. Faz-se-lhes um orifício em um dos extremos, o qual serve para atravessar um fio que é atado ao pescoço. O curioso diante de uma pedra adquirida das mãos dos selvagens pode fàcilmente confundir o itaquitan com o tembetá, que é um bodoque de pedra (artefato arqueológico verde), que os goitacás, tupinambás e tamoios usavam vaidosamente no lábio inferior. Afirma Heriarte que os índios do Maranhão compravam a noiva com pedras verdes denominadas: baraquitãs. Henry Wassen, em seu estudo, reportando-se às arqueológicas rãs verdes da Amazônia e fundando a sua opinião em Franz Heger, afirma que se deve restringir o têrmo muiraquitã, e sõmente aplicá-lo “aos pequenos, furados e, muitas vêzes, zoomórficas pendentes de nefrite achados numa área bastante definida ao redor de Óbidos”.

Nas lendas eruditas sôbre as amazonas é comum deparar-se-nos a palavra incáica — Yacumana, que é a mãe do muiraquitã e mora na parte mais íntima do ventre dos .lagos.

O talismã em questão é uma variedade de jade —.a sagrada pedra dos chinos, que Confúcio venerava como símbolo da virtude, O mito ameríndio é algo pitoresco.

Eis como J. Barbosa Rodrigues, em seu “Muiraicytã”, resumiu a fascinante lenda:
“Diz-se que outrora no lago Yacyuaruá (Yacy: lua; ~uaruá: espelho; o espelho da lua) reuniam-se as amazonas em certa época do ano, em determinada fase da lua, depois de dia de expiação faziam uma festa dedicada à lua e à mãe do muirakitã, que no fundo do lago habitava. Finda a festa, quando as águas estavam límpidas e nelas, como em um espêlho, a lua se refletia, tôdas as amazonas se lançavam no lago e iam ao fundo receber das mãos da mãe do muirakitã os mesmos, com as formas que desejavam. Saíam moles, mas em contacto com o ar endureciam. E esculpiam como desejavam.

Êste amuleto tem um tamanho padrão e nunca se viu, pelo menos que eu saiba, um que fuja a pouco mais ou menos de dois centímetros de comprido por um de grossura, e trazendo sempre em relêvo a escultura de um. animal da selva amazônica, que pode ser uma rã com suas. elásticas pernas encolhidas, veado em fogosa carreira, tartaruga em sonolento repouso, onça, jacaré, e outros bichos de nossa quase insuperável fauna.

Estranho, verdadeiramente inexplicável é o desenho de uma pedra que ainda deve dormir no famoso museu do Sumo Pontífice Benedito XIV, em Bolonha, representando uma perfeita cabeço de poldro. Ora, o caso é realmente de admirar, pois, como sabemos, tais herbívoros foram introduzidos nestes pagos sul-americanos por seus intrépidos colonizadores. O professor Water Spalding, num estudo moderno de demorada investigação sôbre a “Origem do cavalo atual”, na América, no Brasil, refutando alguns autores que querem comprovar existências de eqüinos na América, estribados em vocábulos de que os naturais se servem para denominar aquêle quadrúpede, argumenta:
“Isso, portanto, não prova reminiscência do Equus na América e tanto mais que entre várias tribos andinas, como brasileiras de Mato Grosso e do Amazonas, não há palavra que designe, ainda modernamente, o cavalo; entretanto, onde cêdo se fêz sentir a influência européia, o cavalo surgiu e, com êle, a designação indígena, adaptada”.

Heriarte acrescenta: “contas redondas e compridas,. vasos para beber, assentos, pássaros”, e o mais já citado.

“Saiam moles, mas em contacto com o ar endureciam”. A propósito desta frase, diremos que, em sua Histoire Naturelle, Mineraux Du Jade, Buffon afirma que a pedra das mulheres guerreiras do Norte da América do Sul não é um produto imediato e simples da Natureza. A Amazonenstein cuja dureza está entre o quartzo e a.mica, sofre, preliminarmente, o lavor de escultura e levada em seguida ao fogo. Só assim se explica a sua elevada dureza a ponto de não sofrer na superfície os atritos da lima e, unicamente, deixar-se riscar pelo diamante. Omalius supunha-a da hierarquia das sílicas e classificou-a de feldspato compacto. O glorioso Humboldt não lhe aceitou a classificação como uma variedade de jade e nem como sendo feldspato compacto, mas simplesmente feldspato. Num mais recente estudo, O. Derville encontrou neste minério ora estudado: nefrite, jadeite, yete,. esteatite e quartzo.

Muito se tem escrito sôbre a fonte dos famosos talismãs, sem, contudo, qualquer uma das suposições ter o mérito de ser concludente. Admite-se a forte hipótese de que sua jazida está no Turkestan chinês, sendo sua manufatura destinada a grandes colares que se acumulavam, enriquecendo o patrimônio dos antigos mandarins e do soberano do antiqüissimo império. O famoso etnólogo brasileiro Barbosa Rodrigues fundou sua teoria nesta conjectura que por sua vez é calcada nos trabalhos do conselheiro Fischer, que explica a vinda de tais amuleto dependurados aos pescoços dos componentes das grandes ondas humanas que desceram das frias escarpas do Tibet, dos gelados dorsos do Pamir e da acidentada Mandchúria e atravessaram a pé enxuto o lugar, hoje denominado estreito de Behring.

A maioria dos amazonólogos, porém, não crêem na sua descendência asiática, mas amazônica, estando ainda aberta a questão de saber verdadeiramente onde está o seu leito geológico. Este heróico mineral tem sido achado na América do Norte, em algumas paragens da América Central e em muitas regiões da América Latina. Os numerosos talismãs que apresentam a forma de rã tanto se têm encontrado na Venezuela como na América Central. Ora, se êstes amuletos eram presentes que as queridas filhas dos Trópicos davam como mimos, numa concludente prova de alegres afetos daquelas poucas noites passadas em comum, aos bravos selvagens de determinadas tribos, como foi, todavia, possível, aos muiraquitãs locomoverem-se a paragens tão diversas? É certo que a resposta pode ser arquitetada fàcilmente, estribada no fator -tempo. Mas outros pretendem explicar a seu modo. Assim, Heriarte, reportando-se aos contos mitológicos dos Xágaba, explica que a rã verde corria à semelhança de moeda para comprar mulheres. Em Forschungsreise zu den Kágaba, Konrad Theodor Preuss descreve uma interessante lenda da tribo chibcha da Serra Nevada de Santa Marta (Colômbia) em que depois do colorido prelúdio o sol pede em casamento a filha do pajé, e êste, por sua vez exige que lhe pague uma rã de pedra verde e outra de pedra vermelha.

Outros ainda dizem que os chefes dos Tainan usavam-nas para minorar as dores das espôsas durante o parto.

Se estas coisas têm algo no fundo de veracidade, por que não acreditar na sua perambulação? Eu, pelo menos, não me recuso a acreditar. Nem sempre os Tomés são os mais sensatos. O local da origem do artefato, afirma Franz Heger, é completamente desconhecido. No baixo Amazonas, nas proximidades de Óbidos, entre as fozes ~dos rios Nhamundá e Tapajós, perdidos nas alvas e rebulhantes areias das praias do soberbo Amazonas, tem-se descoberto êsse mineral. Eis a razão por que: C. H. de Goeje (Oudheden uit Suriname) acredita: ‘parece bastante seguro que na região do Amazonas, entre o rio Yamundá e o rio Tapajós, havia um centro de distribuição dêsses objetos”.

Fiquemos, pois, com a crença, uma vez que não nos foi possível descobrir a realidade confortadora.


AS MULHERES PRIMITIVAS. Aqui, não será extemporâneo dizer algo sôbre as amazonas primitivas.

Justino, baseado nos documentos de Trogno Pompeu (Hist. L. 2 e 4), conta que Scolopito e Ylinos, príncipes citas, expulsos de sua pátria, foram habitar a Capadócia, à margem do rio Termodonte, com um grande número de jovens que levavam consigo. Constituíram família e foram, um dia, vítimas de uma emboscada preparada pelos seus inimigos. As infelizes viúvas - aqui se iniciam os primeiros dias das amazonas - mataram os poucos homens que lhes restaram, maridos de suas companheiras, as quais a desgraça não havia ferido, para que fôsse a dor igual no coração de tôdas. Então ofereceram combate aos inimigos, a princípio em defesa das fronteiras de suas terras e logo mais para estabelecer a paz. Repudiaram por completo o matrimônio, mas uma vez ou outra permitiam aos vizinhos compartilhar de seu leito. Os filhos, frutos destas aventuras, vinham à luz sob um triste signo: tiravam-lhes a vida logo ao nascer, enquanto as filhas eram educadas para a equitação, para a caça e mormente para as armas. Todavia antes de as entregarem a êste escabroso mister, queimavam-lhes o peito direito para não causar obstáculo algum ao lançamento da seta. Existe também outra versão, segundo a qual os seios das amazonas eram atrofiados através do uso contínuo de um aparelho de cobre, fabricado especialmente para .êste fim. Ângelo Guido, já citado neste trabalho, contraria êste fato, argumentando assim: “Para se ter uma impressão de como os gregos representavam as Amazonas, sem a mutilação do seio, basta passar os olhos nas numerosas reproduções de frisos e estátuas sôbre o assunto, reproduzidas na obra de Salomon Reinach”.

Prosseguindo, todavia, dentro da narração de Justino. As Amazonas fizeram várias rainhas; concluindo a dinastia com Talestris, a qual conseguiu a presença do próprio Alexandre Magno em seu leito durante treze noites, a fim de ter um filho. Foi porém frustrada ‘a esperança. Parca lhe tirou a vida pouco tempo depois. E com ela extinguiu-se o original e turbulento reino. Xenofonte, que viveu antes de Alexandre, fala nas terras em que se acredita que viveram as amazonas, mas não toca,. mesmo de passagem, na existência das mesmas. Será que em sua época eram já uma fábula ou ainda não existiam? Outro fato que milita contra a intimidade de Alexandre e as amazonas é Ptolomeu e Aristóbulo, que acompanharam o insuperável conquistador, não relatarem coisa alguma relacionada com as belicosas cavaleiras, e que consolide a suposição de haver Alexandre passado noitadas em orgia com Minithya, como também chamavam a última soberana das amazonas.

Deodoro de Sicília, historiador grego e coevo de Augusto, nos livros III e V, conta as façanhas dêste exército feminino em várias partes do mundo em que habitaram, enquanto Apolônio — C .1. — explica assim a razão de sua independência: “deusa irritada (Vênus) as tornou aborrecidas a seus maridos, que, abandonando-as, procuraram novos prazeres nos braços das escravas que cativaram; dissolvendo a Thrácia e ardendo de ódio e ciúme, assassinaram os seus próprios maridos e rivais, na mesma noite de infidelidade”. Em tôrno dêste poema, & imortal vate maranhense Gonçalves Dias escreveu que,
à falta de assunto original e empolgante, “Apolônio teve de recorrer ao maravilhoso e sobrecarregar o seu poema de episódios.., e valeu-se da tradição das amazonas, que na ilha Lenos aparece tão fora de caráter.., como as habitantes das ilhas dos Amôres aos companheiros de Gama”.

As amazonas da Líbia (L’Atlantide, de Otto Silbermann, pág. 71 — Cristóbal Colón y El Descubrimiento de América, Humboldt, pág. 163), segundo a tradição, surgiram à margem da Lagoa Tritonida, cuja primeira rainha foi Pallas, filha de Japeto Atlante.

Estas mulheres, um dia, comungando o desejo de sentir a sensação da liberdade, fugiram ao jugo do homem e conservaram a virgindade até certo tempo. Mas quando atingiam a idade padrão de se entregarem ao homem, arranjavam marido que também lhes servia de criado. Era o matriarcado por excelência. É uma aberração da natureza, mas da qual se tem notícia, uma vez ou outra, nestes milênios de história, e que contrasta paradoxalmente com a lenda de D. Juan, e com a existência de Casanova! Os frutos femininos daquelas uniões eram recebidos com indizível alegria: gozavam de todo cuidado materno e eram alimentados com leite de cabra, ao passo que aos do sexo forte lhes inutilizavam os membros, para mais tarde não se tornarem superiores, como era fado da natureza. Quem não se revolta ainda com aquelas cenas imortais do Homem que ri, que foi mutilado pela mão perversa de um anatomista mercenário? Mais dolorosa é esta cena, em que a própria mãe surge como protagonista.

Conta-se também que na Europa, em idade prehistórica, mulheres aboríginas, em grande número, entregues ao culto da Magia, isolaram-se dos homens, ocultando-se à sombra das densas florestas, ou nos antros dos montes lavados pelo dilúvio.

Escondido sob o pseudônimo de Eneas Silvius (*), o papa Pio II escreveu em sua História da Bohêntia (Capítulo VII), que outrora, no século VIII, existia naquele país uma forma de república idêntica à das amazonas, sob a direção da inteligente e ousada môça Valasca, uma das damas de tylissa, filha de Crocus, rei da Bohêmia. Estas, sob o ponto de vista materno, não ficaram aquém no plano de crueldade às suas antecessoras, pois também recebiam jubilosamente as filhas, e aos filhos lhes vasavam o olho direito e lhes cortavam o polegar da destra para os impossibilitar de entesar o arco. E, além disso, viviam organizadas militar e civilmente.
Agora, é o audacioso e celebérrimo Marco Polo quem vem à balha, informando o imaginoso Júlio Verne, o qual, em seu livro Descoberta da Terra, pág. 89; vol. 1, escreve:
S... da Arábia oxide arribou às ilhas Macho e Fêmea, assim chamadas porque uma é exclusivamente habitada pelos homens e a outra pelas suas mulheres, que êles só visitam nos meses de março, abril e maio.
Aqui, neste bosquejo, encontram-se quase tôdas as notícias que a História não esquece, referentes às mulheres de todos os tempos, que se alistaram nas milícias de Marte e sacrificaram ou afetaram sacrificar no culto a Vênus.
(*) Incido no êrro para não quebrar o ritmo histórico de vários séculos, pois o nome verdadeiro dêste historiador foi Enéas Silvio Piccolomini, que exerceu a chefia da Igreja cinco anos, onze meses e vinte e seis dias, com o nome de Pio II.


USOS E COSTUMES DAS AMAZONAS — Um perfume de sedutor mistério paira na história destas mulheres; para tôdas as conjecturas que se imaginam só há uma resposta: reticências e interrogações...

O tantas vêzes citado bergantim “Vitória”, construído à margem do Rio dos Omáguas, comandado por Orellana, desceu “O das águas gigante caudaloso, que pela terra alarga-se vastissimo”, — F. G. Magalhães.

O Mar Dulce, na expressão de Pinzon, que só vigora historicamente, vinha tripulado, além do comandante, por dois frades, um dos quais era Carvajal, e cinquenta soldados espanhóis. Navegavam em busca de alimento para os numerosos companheiros que ficaram à margem do Rio Omáguas, o qual, na valorosa opinião de Toribio de Medina, é “o Napo no ponto de sua confluência com o Aguarico”. O destino, porém, não quis que o bergantim tornasse ao ponto da partida como haviam combinado. Quanto mais dias se passavam, mais crescia a distância e a fome mais assolava a bordo com o seu horripilante aspecto, como afirma pungentemente o frade: chegamos a tal extremo que comíamos couro, cintas e solas de sapatos cozidos com algumas ervas”. É conhecido de todos que a fome não respeita o direito de propriedade, e mormente propriedade do selvagem. Razão por que vou extrair um trecho da Vida de Cristovam Colombo, de W Irving: “contra os quais tinha de empregar fôrça para obter provisões. Em alguns lugares as próprias mulheres carregavam contra os espanhóis; e esta circunstância deu lugar à fabulosa narração”. Esta foi fantasiada e cunhada como verídica pelo índio Apária (*), a quem Orellana deu grande e até demasiado crédito. Outrossim, não nos devemos olvidar que as perguntas eram formuladas pelos europeus ao seu próprio arbítrio. Tanto assim, que quando interrogaram ao índio trombeteiro, prêso na escaramuça dos brancos e naturais entre Iamundá e Trombeta, sobre as mulheres (* *) que supôs ter visto em terra oferecer combate aos seus; as perguntas eram formuladas a bel prazer e as respostas não se faziam esperar e sempre afirmativas. Destas perguntas houve algumas bem absurdas que foram afirmadas. Entre outras as seguintes: ‘a de andarem vestidas de finíssima (!!) lã; a de terem camelo.

(*) Apúria, também grafado Aparian ou Parian, segundo a observação de Toribio de Medina, assim chamava-se o selvagem que deu notícia das amazonas, o que fêz acordar a imaginação do aventureiro, cujo espírito errava em mirificantes sonhos de encontrar algo portentoso; era a cobiça de todos os nautas, era o que fazia crescer o número de alienígenas em todos os países. Não obstante, a inferioridade intelectual do índio podia, assim mesmo, sugestionar Orellana; pois a faculdade de sugestionar não é privilégio de raça. “A sugestividade — diz A. Austregésilo — é Laculdade humana predominante”. E acrescenta mais, os sugestionáveis são indivíduos de boa fé.” Orellana, hoje, está quase provado, era um homem bom. Mas os naturais são, em regra geral, uma corja de ladinos. Logo, não é estranho que Apária afirmasse que estivera em terras do gineceu das amerígenas.
(**) A respeito do caráter do indígena meridional eis o que diz Neri Tanfucio, citado por Lombroso em seu famoso El Delito:
“Astutos, mentirosos y timidos, su existencia es una serie de pequenas fraudes”. Na opinião de Gonçalves Dias: “como crianças, respondem muitas vêzes no sentido em que supõem que desejamos a resposta e prestam fàcilmente seu testemunho a cousas que nunca viram”. Blasco Ibaflez, historiando a descoberta da América diz:
“Êstes eram dados ao exagêro, a responderem afirmativamente a tôdas as perguntas, não mostrando estranheza em presença de qualquer objeto que lhes mostrassem, e assegurando que os havia iguais nas suas terras, mas longe, muito longe, numa região fantástica que, conforme o seu capricho, situavam em pontos diferentes do horizonte”.



E, no entanto as que êles viram andavam como nossa mãe Eva. Ei-las aqui, retratadas pelo frei Carvajal, que também foi testemunha ocular: “Estas. mulheres são muito alvas e altas, com cabelos muito compridos, entrançados e enrolados e andam nuas em pêlo tapadas em suas vergonhas...” Não são casadas, mas quando lhes vem aquêle desejo” vão buscar os vizinhos.. à fôrça (!!) ; e depois, se nascem filhas são bem recebidas e se, ao contrário, forem homens, matam-nos ou os devolvem aos pais (‘1)


A ARISTOCRACIA DAS AMAZONAS — “Trazem os cabelos soltos até o chão (*) e postas na cabeça coroas de ouro, da largura de dois dedos” — como pachorrentamente escreve o bom frade espanhol. Tinham bastante fôrça, tanto que causou admiração uma delas meter “um palmo de flecha em um dos bergantins”.

Sôbre o assunto Herrera escreveu que atirar flecha não é novidade nas índias, como se viu nas ilhas Barlavento, Cartagena, etc. (Hist. de La Decouverte et de La Conquête du Perú — Paris, 1742/4 Cap. II).

Quem primeiro especificou a natureza de sua raça foi Alonso Rojas, que disse serem elas raça superior e também foi o primeiro a afirmar que elas só tinham um seio. Em tôrno de tal assunto industriou-se muita literatura entulhada de fantasias, algumas das quais, descrendo do mito, derramam acusações ao nome de Orellana.


(*) ... cabelos soltos até o chão.., com esta informação poder-se-ia apurar um dos pontos sólidos para refutar os adversários de Orellana, firmando-se na autoridade do insígne Gregório Maraflon (A Evolução da Sexualidade e os Estados Interseccuais, p. 32): “A longa cabeleira foi sempre de fato um dos caracteres específicos da atração sexual da mulher”. E acrescenta em uma nota à mesma página: “Segundo Bucura os cabelos da mulher podem atingir a altura do corpo, enquanto que os do homem não ultrapassam nunca os ombros”. Segundo Rank, “o comprimento médio do cabelo feminino é de 75 cm, porém, freqüentemente atinge a 150 cm, e mesmo mais (Stratz)”. Sólida teoria; mas com calcanhares de Achiles. É sabido que existia na bacia amazônica uma tribo mais branca que as demais, assim conta Heriarte, e que os aventureiros lusitanos chamaram Encabelados, “por trazerem os cabelos mui compridos em demasia, que às vêzes lhes arrastam pelo chão, assim os homens como as mulheres...



La Condamine não identificou o seu criador, porém acreditava que fôsse criação de europeu o dar-se como hábito daquelas amazonas amputarem o seio direito às filhas. A respeito, um escritor de nomeada, como tivemos oportunidade de dizer em capitulo anterior, assevera que para usar aquêles instrumentos guerreiros não há absoluta necessidade do sacrifício daquele órgão.

Comentando a obra de La Condamine, o celebrado bardo de Caxias adverte: “A cauterização ou amputação do seio era operação cujos perigos mal podiam êles suspeitar, e o próprio Cunha a refere de um modo tão singelo e simples, como se tratasse de aparar unhas ou cortar o cabelo”.


SEUS AMORES — Dando folga à imaginação sôbre os amôres das Icamiabas, alentado volume poder-se-ia escrever. Aqui, todavia, nesta síntese, só pretendemos essencial.

E para tanto compulsemos obras que digam respeito a tal assunto. Carvajal, como se viu em outro capitulo, diz que tinham comércio com o sexo forte de tempo em tempo. Alonso de Rojas conta que recebiam visita, uma vez por ano, dos índios Omáguas, a qual durava dois meses. Acunã escreveu que tinham comércio com os varões uma vez por ano, e os ditosos favorecidos chamavam-se Guacarás, que em sua obra (Lettres Americaines, Boston, 1788), Caril observa esta curiosa coincidência: a denominação dêstes naturais se assemelha muito com a dos agraciados das antigas amazonas, que, segundo Strabão, era — Gargari.

Agora vejamos o seguinte: na hipótese de que haja veracidade nesta tradição, é absurdo crer-se no regime sexual destas mulheres. Primeiramente, considerando o poderoso fator climático, devemos lembrar-nos que, mesmo em qualquer parte que se localize o reino feminino, está colocado na zona equatorial, cuja fôrça fenomenal é apta em desenvolver tudo com luxuriante beleza e precocidade, quer no reino vegetal, quer no reino animal. As mulheres alcançam a puberdade, nesta região, com menos idade que as outras noutros climas. Depois de algumas considerações, Mantegazza, em seu incansável labor de pesquisar a fisiologia da mulher, expende: “entre todos êstes fatôres o mais eficaz é o clima; pois é certo que, nos países quentes a puberdade se desenvolve primeiro que nos países frios”.


Isso, todavia, de se tornarem mulheres prematuramente, não quer dizer que fôsse impossível guardar castidade. Isso será talvez exato, porém depois das primeiras relações com o sexo oposto, pois o apetite genital ou libido, ou ainda tumescência só aparece com pronunciado vigor nas mulheres que praticaram o amor real. Porventura esta teoria vai de encontro ao paradoxal conceito do notável sexeólogo G. Marafion: — “O orgasmo é um luxo na mulher, uma necessidade no homem”. Se, na realidade, assim fôsse, muitas mulheres não deixariam periclitar a honra conjugal, para buscar alegria fora de sua alcova. Sabemos também da grande distinção que há entre aquelas e estas, que constituem o firmamento do nosso hemisfério social. Aquelas indubitàvelmente não conheciam muitas noções de higiene, enquanto as nossas se esmeram no culto da pele, o que faz lembrar a afirmação do filósofo irônico de Fèrney: “O zêlo da própria saúde faz mais sensíveis os órgãos da volúpia”. Isso, porém, não debilita o juízo formado em tôrno das amazonas. Aceitemos, agora, porém, ‘a palavra de Lombroso: “La estadística y la fisiologia humanas demuestran que la mayoria de nuestras funciones sufren la influencia del calor”. E mais adiante ‘acrescenta y, por consecuencia, al fanatismo religioso y despótico. De aquI un exceso de libertinaje”...; razão por que, dada a existência delas, não podemos de modo algum aceitar tão proverbial castidade.
A natureza tem leis irrevogáveis.

Agora escutemos a espirituosa conclusão que delas tira o grande Montesquieu (Esprit des Lois, L. 14 Cap. 1): “O certo é que o alvorôço com que elas recebiam os hóspedes, e que Acuiña nos relata, mostra que lhes não era indiferente aquela união”.


Lopez de Gomora, ainda que não fôsse um cientista, era um homem instruído e descrente de muitas coisas atribuidas às Amazonas, como se vê no seguinte período:

“Nem creio que nenhuma mulher queime e corte a mama direita para atirar com o arco, pois com ela o fazem à maravilha, nem creio que matem ou desterrem seus próprios filhos, nem que vivam sem marido, sendo luxuriosíssimas.”

Havelock Ellis, o egrégio sexólogo, em um dos seus eruditos livros, defende os ameríndios com invulgar brilho e cultura. Diz que, para ser estudado o selvagem, não deve êste ter tido contacto com o civilizado — o semeador de libertinagem. E considera-os mais moderados em suas relações que os civilizados. “A raça é menos lasciva que as raças negras e brancas”. E explica a razão, atribuindo-a em grande parte “às duras condições da vida, assim como a uma qualidade insensível do tecido nervoso”. Não poderemos negar o precioso senso científico que encerra sua teoria, porém não nos satisfaz ao pensarmos em aplicá-la às Icamiabas, cuja riqueza tinha proverbial fama. As da alta estirpe serviam-se em baixeIas de ouro! A construção de suas casas era de pedra. Suas roupas de finíssima lã! E, mais ainda, possuíam escravas; logo, essa gente tinha boa vida e do seu extensíssimo reino, com dezenas de tribos recebia a senhoriagem.

Enfim, mais coerente foi o imortal sábio Humboldt (Voyage aux Régions equinoxiales, Paris 1816, T 8.0) quando, após uma análise do tema, disse: “recebiam depois visitas de algumas tribos vizinhas e amigas, quiçá menos metodicamente do que confessa a tradição”.


Agora, concluindo o presente capítulo, vejamos as palavras do abalizado dr. Alexis Carrel em sua magistral obra O homem, êsse desconhecido: — “A mulher é na realidade, profundamente diversa do homem. Cada célula do seu corpo tem o sinal do seu sexo. O mesmo acontece com os seus sistemas orgânicos, e sobretudo com o sistema nervoso. As leis fisiológicas são tão inexoráveis como as do mundo sideral, e é impossível substituí-las pelos desejos humanos; temos de as aceitar tais quais são.

LA CONDAMINE (Relation abrégée d’un vayage fait dans l’interieur de l’Amérique Méridionaie, Paris 1745), o defensor galhardo do sonho de Orellana, buscou em todos os lados abundante documentação, que é, até certa altura, incontraditável. Todavia, Gonçalves Dias, em seu trabalho, “Amazonas”, que, sem favor algum, é o melhor trabalho sôbre tal assunto escrito por brasileiro, contradiz muitos passos da obra do francês; aliás, muitas destas contradições têm sido usadas por escritores nacionais como de primeira mão.


Suponhamos, porém, que as Amazonas tenham existido, para considerar certas originalidades suas, que, não resta dúvida, são genuínas aberrações da natureza.


Exemplos: Oferecer combate aos homens por instinto, sabendo nós que “é sempre o macho — afirma Voltaire — que ataca a fêmea e com maior particularidade comenta Marafión. “Esta lei não varia dos animais inferiores ao homem: Desde a origem celular da vida — o espermatozóide procura o óvulo”.

Não é fácil também de compreender o motivo delas atrofiarem, ou cauterizarem, ou ainda mutilarem o seio direito, visto que êste em nada lhes obstava o uso das suas rudes armas.


Quanto aos filhos que, segundo uns, elas matavam, observa Gonçalves Dias: o infanticídio é um ato que repugna à natureza. E no caso de entregá-los aos pais, só o faziam no ano seguinte; tinham, então, três meses. E como se explica o resto, se êles não possuíam mulheres para cuidar dos recém-nascidos?


Pergunta Gonçalves Dias: se fôssem elas fecundadas no mesmo período do ano, caso aliás possível, como poder-se-iam defender de uma agressão dos seus inimigos nos últimos meses de gravidez?

Conversando certa vez com um etnólogo ilustre, Professor Harald Schultz, a respeito destas mulheres, êle, a dado momento, ex-abrupto inquiriu:
- Voce crê na existência das Amazonas?
Vacilei e demorei um pouco a resposta. Ora, eu tinha escrito êste trabalho, justamente para provar que foi uma realidade a existência das amazonas amerindias. Moveu-me o desejo, antes de encetá-lo, de apresentar provas irrefutáveis, não arquitetadas por mim, mas fundadas em fatos. Que encontrei? Sábios e escritores com opiniões divididas: muitos dando crédito e alguns negando. Como história, todavia, não é dogma que se fundamenta na crença para aceitar ou não, minha opinião, depois desta cansativa pesquisa sôbre as amazonas, nada pode significar. E noto ainda: quanto maior é a distância da época em que a notícia de seu reinado adveio ao conhecimento da cultura européia, tanto mais os perquiridores vão tornando-se indecisos. Humboldt, La Condamine, Steinen não encontraram provas concludentes, mas se declararam inclinados a aceitá-las. Já não se deu o mesmo com os poetas de raça, tais como Gonçalves Dias e Olavo Bilac, que trataram o assunto como lenda. E eu que estou mais distante ainda, devendo por isso mesmo ser mais cauteloso, respondi, então, ao Dr. Harald Schultz:
- Não.
- Pois eu creio. Afirmou o ilustre etnólogo.
E explicou-me que a região, onde se acredita tenha existido o império das amazonas, é desconhecida e ainda não explorada. Vinte anos na selva, em completo abandono, seriam bastante para sepultar qualquer cidade. Um silvícola disse-lhe uma vez que sabia onde estavam as ruínas de tal reinado. Mas, como êle estava de regresso a São Paulo, não pôde verificar a região apontada pelo amerígina. Tempos depois, procurou o aborígina e não o encontrou. Assim, o etnólogo ficou com a crença de que existiram as Amazonas ameríginas, e nós com a convicção de que elas constituem apenas uma fábula encantadora.





terça-feira, 6 de janeiro de 2009

ROGEL SAMUEL - O DOMADOR DA MONTANHA: a vida da Guru Rinpochê



ROGEL SAMUEL - O DOMADOR DA MONTANHA: a vida da Guru Rinpochê




Capítulo 1: O AJUSTE DO PARAFUSO


Não no passado, isso se passará num futuro muito distante.
ANL tentava ajustar o parafuso ou aquela lingüeta que, para nós, seria um parafuso. Pressionava com a unha a fenda, procurando mover o parafuso. Mas o parafuso resistia, imóvel. Como insistisse, quebrou uma pequena lasca da unha e dali jorrou, de seu dedo (ou do que seria um dedo), um líquido gomoso e grosso. Uma grossa gota espessa, branca.
ANL limpou a ponta do dedo com a língua (se é que podemos chamar de língua aquela extremidade de seu corpo), como se estivesse comendo o dedo.
Inteiramente só, deixava brilhar ao sol o belo corpo dourado e nu. Ele parecia feito, construído em metal, ou em ouro puro (se é que não o era).
ANL estava sentado naquela laje, no alto da Montanha, na entrada da gruta de onde a pedra saía como uma língua sai da boca aberta, projetada sobre a garganta daquele profundo abismo, na solidão das montanhas de Yanglesho, ou Pharping, as montanhas sagradas, altíssimas.
Mas isso se passou ou passará não no nosso tempo não, nem no passado: acontecerá, num futuro muito distante.

Já fazia algum tempo que ele morava naquelas montanhas, em solidão. Procurava um lugar onde pudesse estar quieto, meditar, em segurança. Mas não havia calma continuada, não havia segurança completa em lugar algum. Os inimigos estavam em toda parte, podiam chegar a qualquer hora. Ele sabia. Por isso, precisava ajustar aquela luneta para ver quem eram aqueles longínquos seres que se aproximavam, à distância.
Sim, uma pequena caravana se aproximava, bem longe. Através de sua luneta agora podia vê-los: eram cavaleiros, guerreiros, desconhecidos. Ainda iam levar algum tempo para achá-lo, ali. Mas certamente acabariam encontrando-o.
ANL começou a considerar sobre o que faria. Poderia fugir. Porém não mais agüentava a idéia de viver fugindo para sempre. Ele já tinha vindo das longínquas regiões do Sul, onde nascera. Nascer não é bem o termo: onde “apareceu”. Estava disposto a se isolar, por um tempo, para afinar o ritmo de sua mente, entrar em comunhão consigo mesmo. E aquela gruta era boa, apesar do túnel. Sim, havia aquele túnel, no fim da gruta: um buraco estreito que, como um túnel, descia por toda a cavidade da montanha, percorrendo-a por dentro, até o vale. Aquele túnel fora sempre motivo de preocupação para ele, porque às vezes dali saía e aparecia um pequeno dragão venenoso, uma espécie de serpente, que ali vivia, e ameaçava atacá-lo. Mas ANL sabia que em nenhum lugar do planeta havia a mais completa paz naquela era degenerada. A época estava terrível. Ele por isso já tinha planos de viajar mais para o Norte, mais para o alto, até as elevações geladas das grandes montanhas, os Himalayas, as rainhas das montanhas. Para o monte Khailás, talvez, onde nasce o rio Sindhu. Sim, talvez lá pudesse permanecer em paz, em meditação, sem preocupar-se com sua própria defesa e segurança, sempre ameaçada.

* * *

O jardineiro do palácio acordava muito antes do sol nascer para ver as flores do rei.
O rei era Indrabodhi, o segundo, rei de Odiyana, que tinha muito ciúme de suas flores e do seu lago de lótus, chamado Danakosha, formado pelas águas do rio Sindhu, que nasce no monte Khailás, nos Himalayas.

O jardineiro trabalhava num jardim privativo da família real, embora gigantesco, que tinha florestas e canteiros em disposição retangular de diferentes plantas. Mas isso se passou num tempo muito diferente do nosso, e não no passado, mas no futuro. Sim, não estamos nem no passado nem no presente, mas no futuro.

O jardineiro velho se arrastou até as mais novas glicínias das margens do lago, o Danakosha, que tinha o apelido de “oceano de leite”, porque os caules dos lótus produziam um suco branco, lácteo, bem doce.

Amanhecia.

De repente, um som apareceu no céu, um som de “Shriiii!”, e alguma coisa despencou de lá sobre um daqueles lótus, através de uma luz vermelha e brilhante, e o lótus se acendeu como se fosse uma luminária de luz vermelha, e foi assim que lá apareceu uma criança de cerca de oito anos, segurando um lótus e um vajra nas mãos.

Essa criança era ANL.

O velho parou por um instante imóvel e pasmo, e aterrorizado, mas como viu que era um menino novo e que o menino falava como gente grande e como que fazia um discurso, dirigindo-se talvez para os seres invisíveis do lago, discurso esse que para o velho era completamente ininteligível, o velho perdeu o medo e decidiu averiguar.
Mas o menino era muito bonito e sorria, e assim o velho tomou o barco e foi buscar o menino, no meio do lago.

Logo apareceram jardineiros e soldados, atraídos pelo estrondo, e ficaram animados com aquela aparição.

O menino foi levado ao palácio.

Mas o rei não estava.

O rei Indrabodhi estava em viagem.





Capítulo 2: O FILHO DE ODIYANA


Naquele tempo, no reino de Odiyana, o Segundo Rei Indrabodhi, residia no seu palácio com sua rainha e uma centena de ministros.
Na realidade tinha o rei cento e oito esposas, mas somente uma rainha.
Porém o rei não tinha nenhum filho.

Por causa disso, e como o rei não tinha nenh um filho, ele fez grandes oferecimentos para os deuses de sua religião com muitas recitações sagradas do livro sagrado jainista, no intuito de conseguir um filho.
Por fim, a conselho de seus sacerdotes e de seu mestre espiritual, abriu a porta de seus três grandes tesouros e distribuiu generosas esmolas para todos os pobres e necessitados.

Aquela notícia se espalhou por toda terra: “O rei Indrabodhi está distribuindo sua riqueza!”

Multidões de mendigos, pobres e falsos pobres vieram de toda parte.
Todos os dias as filas cresciam, intermináveis, e o rei lhes dava alimentação e moedas de ouro, de sorte que a multidão não parava nunca de crescer, e tanto cresceu a fila que a riqueza do rei Indrabodhi acabou.

Um dia o tesoureiro do rei veio à sala do trono e lhe disse:
— Os cofres do palácio estão vazios.

Depois que toda a sua riqueza acabou, ele exclamou:
— Eu não tenho mais a oferecer, e mesmo assim não se acabaram os mendigos e necessitados!

E o rei Indrabodhi chorou copiosamente, porque era um homem bom e compassivo, e não tinha podido acabar com a pobreza da face da terra.

Mas os mendigos só aumentavam e permaneciam na porta do seu palácio, à espera.

Então, disseram os mendigos ao Rei Indrabodhi:

— Ó glorioso Rei, se você não proporcionar esmolas para todos nós que viemos e que esperamos receber, todo mérito anteriormente recolhido por você não terá nenhum resultado ou valor, e terá sido completamente em vão. Porque assim é que devem ser os oferecimentos: se começar para todos, todos é que se beneficiem!

E até hoje é assim que se fazem essas coisas: ou para todos, ou para apenas um.

O Rei escutou aquelas palavras com tristeza e pesar no seu coração e resolveu adquirir uma riqueza imensa, abundante, inesgotável, que pudesse beneficiar a todos os pobres deste mundo.

E para conseguir, apesar dos conselhos dos ministros, sacerdotes, de seus próprios conselheiros e da dúvida do seu mestre espiritual, ele decidiu viajar ao grande oceano a fim de trazer a “jóia-que-realiza-todos-os-desejos”, que era uma surpreendente jóia que existia no cimo da coroa da poderosa deidade marítima chamada Charumati, filha do Rei dos Nagas, e cujo reino existia no fundo do mar.

O rei viajou com sua frota.

Mas o Rei, surpreendentemente, o grande Rei Indrabodhi, obteve a jóia com facilidade e sem infortúnio, pois Charumati, filha do Rei dos Nagas, a ofereceu com prazer, conseguindo assim o rei usá-la para seu reino.

O modo como conseguiu a mágica jóia eu nunca consegui saber.

E como aquele que possuísse a jóia satisfazia a todos os desejos mundanos, ele, o grande Rei Indrabodhi, já no caminho de volta para casa, carregou seu imenso barco de tesouros, e toda a sua frota, com as sete variedades de jóias, até que o peso das gemas preciosas e moedas de ouro ameaçou afundar os barcos.

E parece que, depois de realizado seu intento, o grande Rei Indrabodhi devolveu a jóia ao seu lugar de origem, o que nunca pude saber.

E estando assim, em plena viagem de volta para casa, encontrou um membro da sua corte, o seu orientador espiritual, chamado Na Dzin, que vinha apressado à sua procura para lhe contar a notícia do aparecimento milagroso daquela criança nascida sobre um lótus no lago Danakosha.

Aquele menino era ANL.

O Rei disse maravilhosas preces aos deuses ao ouvir tal extraordinária novidade e logo ao chegar quis conhecer ANL.

Quando em sua presença, perguntou o Rei ao menino:

— Quem é seu pai, sua mãe? Qual a sua casta? A que país você pertence?

ANL respondeu:

“Meu pai é o auto-desperto Samantabhadra.
Minha mãe é a esfera da realidade, Samantabhadri.
Minha casta é a união da sabedoria essencial e o Dharmadhatu, o espaço que tudo permeia.
E meu nome é o glorioso Padmasambhava, o nascido no lótus”.

A ouvir isso, o rei Indrabodhi ficou ainda muito mais apaixonado e aceitou o menino como se seu verdadeiro filho fosse e o nomeou seu príncipe herdeiro.

— Este menino, disse o rei, deve ser o Nirmanakaya de um Buda e a partir de agora passa a ser meu único príncipe.

Então uma grande cerimônia foi realizada naquela época para a entronização de ANL, e houve grande distribuição de esmolas que se fez de tal modo abundante que pôde satisfazer a toda a fila sem exceção (embora se diga que ANL reservadamente e sem que ninguém soubesse teve de multiplicar as moedas de ouro até que pudessem satisfazer a todos).

Mas naquela mesma cerimônia o rei Indrabodhi nomeou ANL seu orientador espiritual, ainda que ANL fosse ainda uma criança de cerca de oito anos de idade: E isso despertou a admiração e surpresa de alguns e a venenosa inveja por parte de seus ministros, porque o orientador tinha sempre muito poder junto ao Rei, e logo se iniciou uma conspiração para eliminar ANL, ou neutralizar o seu prestígio dentro da corte.

O menino foi chamado "Padmasambhava", o que significa "nascido no lótus", tal como nós o chamamos aqui: ANL (aquele que nasceu no lótus).






Capítulo 3: O EXÍLIO

ANL era o detentor do poder de seu adotivo pai.
Mas ele tinha um comportamento estranho, criticado na corte: suas roupas e atitudes causavam escândalo, ele andava nu com ornamentos de ossos humanos, usava um damaru e uma lança katvanga nas mãos e costumava dançar sem roupas no telhado do palácio.
O damaru era um tambor feito de duas metades de crânios humanos.
Quando ele dançava no telhado, muitos expectadores apareciam para olhá-lo.

Um dia, ele deixou cair sua lança do telhado, o que matou o filho do Primeiro Ministro Kamalatey, que estava em baixo.

O conselho de ministros, que o odiava, reuniu-se e decidiu puni-lo severamente com tortura e morte, como determinava a lei.

Os ministros foram ao rei e disseram:

— Ainda que este jovem tenha sido entronizado príncipe, seu comportamento é completamente impróprio para um monarca e ele matou o filho do Primeiro Ministro. Todos são iguais perante a lei, por isso nós o condenamos à morte, vai ser empalado.

O rei Indrabodhi, usando um dos artigos da lei, suplicou:

- Ainda não sei, ó Suprema Corte, se o príncipe é uma criança ou um não-humano, ou mesmo se ele é uma miraculosa aparição. Por isso, acho impróprio querer matá-lo: ele deve ser banido! Se fosse humano sim, seria condenado à morte.

Os ministros comutaram a pena de morte em exílio.

O rei Indrabodhi ficou arrasado.
Constantemente chorava e entrou na mais aguda depressão de se ver privado de seu único e amado filho. Mesmo adotivo, ANL era muito amado pelo rei. Com o passar dos anos, esse amor se consolidou de tal forma que o rei Indrabodhi nem se lembrava que ANL não era realmente seu filho.

Mas a lei em Uddiyana, criada pelo monarca, era clara: todos eram iguais perante a lei, mesmo o próprio rei. Mas ele tinha conseguido livrar ANL da tortura e morte, mas era impossível salvá-lo do exílio.

Nos últimos dias, o rei fez tudo o que pôde por seu jovem príncipe, tratando-o com todas as regalias, e compôs para ele um poema, que dizia:

Da flor do lótus, dentro de preciosa água,
Você apareceu, sem pai e mãe, ó criança miraculosa!
Carente de um filho eu te fiz rei do meu reino,
E por sua ação, ó meu príncipe, está sentenciado ao exílio!
Vá, agora, para seu destino!

ANL respondeu dizendo que pai e mãe, neste mundo, são muito preciosos:

- Você foi meu pai e minha mãe, e deu-me um trono, disse ANL. O filho do ministro foi morto por seu próprio carma. É correto que eu seja exilado de acordo com a própria lei de meu pai.

- Veja, acrescentou ANL, eu não estou chorando!

E continuou:

- Não existe alegria nem tristeza, pois a mente não tem nem nascimento nem morte!

E olhando firmemente para seu pai, acrescentou:

- Como eu não tenho apego a nada, nem à pátria nem à casa de meu pai, não estou triste, nem intimidado.

E, sorrindo, continuou, afagando os brancos cabelos do velho e bondoso rei:

- Continue feliz! Continue feliz! ó meu pai e mãe, pois, através de nossa conexão cármica, nós vamos encontrar-nos outra vez no futuro!

E o rei desmaiou.



Os algozes ministros conduziram ANL para um ossuário sepulcral, conhecido como Gruta do Gélido Horror, no Leste de Uddiyana. Aquele era um lugar apavorante, coberto de cadáveres, espíritos, abutres e ferozes predadores.

Naquela época, os cadáveres eram enrolados em pedaços de algodão e perto deles eram deixadas algumas comidas rituais, feitas de papas de arroz.

Como ANL era um perfeito iogue do mantra secreto, e como ali fora deixado despido de suas vestes imperiais, ele passou a vestiu-se com os panos tirados dos cadáveres, e comia as comidas deles.

Ali, no meio daquele terrível cemitério, ANL entrou em meditação e permaneceu no profundo samadhi chamado Inamovível.

Ele encontrou ali um estado de grande felicidade!

Depois de algum tempo, sobreveio uma epidemia e fome que dizimou a população de toda aquela terra. Muitas pessoas morriam. Numerosos cadáveres eram jogados ali, sem as faixas de algodão que os envolviam, sem as provisões de comida a que tinham direito de acordo com os rituais de suas religiões.

Por causa disso, o Príncipe ANL passou a vestir-se de pele humana, e passou a alimentar-se da carne dos cadáveres humanos. Por causa disto, ele subjugou todas as dakinis mamo e as manteve sob seu poder. E continuou sua meditação.






Capítulo 4: O PODEROSO VAJRA IRADO

Naquela época, no distrito de Gausho, vivia o rei de demônios chamado Shakraraja, que tinha forçado o povo do lugar a errôneas práticas que iriam levá-los no futuro a um renascimento infeliz, no reino dos infernos.

ANL viu que aquilo não deveria continuar. Mas não havia meios de acabar senão por um ato de força.
Então ele amarrou seus longos cabelos com uma serpente, vestiu-se de uma camisa de pele humana e de uma saia de pele de tigre. Com cinco flechas de ferro e um arco nas mãos ele foi até aquele lugar demoníaco.

Mas quando ANL chegou perto de Gausho, viu ao longe que se armava contra ele um grande exército do rei de demônios Shakraraja.
Era uma legião de humanos e não-humanos. Alguns visíveis, outros invisíveis. Os visíveis vinham com armaduras, chuços, lanças e pesadas espadas.

Mas sabia ANL que também chegavam guerreiros invisíveis, espíritos demoníacos e demônios furiosos.

ANL olhou concentrado para aquela planície de inimigos.

Quando o grande exército de demônios se aproximou, ele fez um gesto e uma armadura de deidades protetoras se projetou sobre ele como uma capa de medalhas luminosas protetoras. E exteriormente ele foi circundado por uma legião de poderosas dakinis que faziam um círculo protetor. Nenhuma arma poderia atingi-lo, pois estava ele blindado e protegido como por uma bolha sagrada.

ANL avançou em direção ao inimigo, assim protegido por todos os lados.

Mas a luta foi ferocíssima e demorada.
No fim os inimigos viram que nenhuma arma poderia atingi-lo, pois seu corpo estava bem guardado, mas o exército do rei de demônios chamado Shakraraja não desistia de atacar e lutaram até o pôr do sol.

Ao anoitecer não restava nenhum dos guerreiros demoníacos vivos. Todos estavam no chão. Era uma inimaginável carnificina.
O próprio rei de demônios chamado Shakraraja fugiu. Todos os machos estavam mortos.

Então ANL viu só sobraram vivas as fêmeas humanas e que aquela raça humana era condenada à extinção.

Então ANL começou ali mesmo a copular com todas as fêmeas.

Depois daquilo, ANL se foi para a Gruta do Gélido Horror.

Mas o rei de demônios Shakraraja reuniu um novo exército e resolveu caçar ANL secretamente no cemitério da Gruta do Gélido Horror onde ele se tinha recolhido em meditação.
O próprio rei de demônios Shakraraja veio na frente de seu novo exército com uma espada mágica.
Um arqueiro infalível foi colocado no alto de um monte para vigiar ANL, enquanto um exército de arqueiros cercou o local, pesadamente armado de armaduras e chuços. E começaram a buscar ANL no cemitério da Gruta do Gélido Horror.

Vendo isso, ANL matou a sentinela do alto do morro com uma flechada e escapou.

Então partiu para o país de Sahor, onde fez um retiro de meditação no grande ossuário do cemitério da Gruta Jubilosa.
Ali, alimentava-se de cadáveres.
E lá ele foi abençoado pelas dakinis, e autorizado pela transmissão da Dakini Subjugadora de Mara.

Depois disso, partiu para o ossuário do cemitério de Sosaling, no Sul de Uddiyana, onde praticou a ioga da disciplina e foi entronizado e abençoado pela Dakini Sustentadora da Paz.
Mais tarde, voltou para onde tinha nascido numa flor de lótus.
E pela prática da linguagem do signo da dakini do Mantra Secreto ele se incorporou e magnetizou nas quatro espécies de dakinis que moravam na ilha.
E todos os nagas do Oceano e espíritos planetários dos céus se comprometeram a servi-lo e foram dominados sob seu juramento.
Tempos depois encontramo-nos no ossuário do cemitério da Áspera Gruta, em Uddiyana, onde teve a visão de Vrajra Varahi, que o consagrou.
E as quatro classes de dakinis e dakas, e as dakinis dos três níveis lhe concederam realizações, transmissões e consagrações. Todas as dakinis o abençoaram e lhe concederam ensinamentos.
Foi então que ele se transformou no poderoso iogue.
As dakinis lhe deram o nome de Dorje Drakpo Tsal.
Que significa “O Poderoso Vajra Irado”.

ANL era um homem forte, alto, moreno, de idade indefinida.
Alguns diziam que ele tinha uns trinta anos, naquela época. Outros diziam que ele tinha quase mil.
Ele era moreno, tinha um bigode e um cavanhaque pequenos. Usava um chapéu de lã vermelha, cujas duas pontas se dobravam para o alto, encimado por um meio dorge e um lenço amarrado. Não era pessoa completamente pacífica. Ele era um pouco sério, meio irado. Vestia uma longa capa real de três etapas, toda debruada de ouro, que cobria suas vestes de seda e lã. Calçava uma bota estilo montanhês. Seus longos braços normalmente mantinham um porte sereno.
Na sua mão direita geralmente se via um dorge, seguro no “gesto do escorpião”, isto é, os dedos indicador e mínimo curvados para frente e os outros dedos fechados. Aquilo era o mudra ameaçador. Na mão esquerda estava uma cuia feita de crânio humano, chamada kapala.
Mas o que o caracterizaria melhor seria a lança com tridente que sempre portava. Era uma lança encimada por um pequeno tridente na forma de uma pequena lira. Os dentes superiores do tridente eram fechados, e tinham ornamentos de ossos, flâmulas, lenços de seda, pequenos sinos que soavam quando ele andava. A lança possuía todos os ornamentos de uma completa mandala. Era na realidade uma “khatwanga”, ou bastão tântrico ritual e mágico, com algumas caveiras humanas ali espetadas e incrustadas. Ninguém poderia exatamente saber o que aquilo significava, ninguém nunca ousara perguntar-lhe, tal o respeito que ele sempre inspirava.
Curiosamente, do seu corpo exalava uma estranha luz meio azulada, como a luz da lua cheia de outono, e às vezes tão forte que ele podia viajar à noite sem se perder. Mas essa luz, entretanto, não era exterior a ele, aquela luz como que vinha de dentro dele mesmo, como se sua forma e corpo fossem mesmo feito de luz, e não de carne.
Além disso, usava ele todos os ornamentos de um rei: brincos, colares, pulseiras e tornozeleiras.
Algo no seu corpo fazia com que ele como que flutuasse no ar. E nem creio que seus pés precisassem exatamente pisar o chão.
Perto dele tudo estava eternamente em paz.

ANL foi para o Assento Vajra, na Índia.
Ele começou a multiplicar o seu corpo. Às vezes ele aparecia como vários monges orando num templo, outras vezes aparecia como vários iogues praticando.
Quando algumas pessoas perguntaram quem era seu mestre ele respondia: “Não tive pai ou mãe, não tive professor ou mestre, não tenho casta nem nome, eu sou o que apareceu de si próprio!”
Todos duvidavam disto.
Então disseram:
— Alguém que faz esses milagres sem ter tido um mestre deve ser um demônio!
Por isso, refletiu ANL:
— Eu sou o aparecimento de um Buda, mas apesar disso, e para mostrar às futuras gerações da necessidade de ter um mestre, eu vou procurar os mestres do Mantra Secreto da Índia. Além disso, não serei de nenhuma ajuda se pensarem que sou um demônio.
E assim ele foi à morada do mestre Prabhahasti. No caminho, encontrou dois monges que também iam para o mesmo mestre.
ANL reverenciou os monges e lhes pediu ensinamento. Mas os monges ficaram amedrontados com ele, pensando: “o demônio rakshasa voltou”.
Sabendo disso, ANL lhes falou:
— Veneráveis monges, eu já não estou realizando ações más. Por favor, me aceitem”.
Ao que os monges replicaram:
— Se você fala a verdade, então nos dê suas armas.
ANL lhes deu o arco e as flechas de aço. E os monges lhe disseram:
— Nós ainda não estamos preparados, portanto não podemos dar ensinamento. Vá à, onde o Mestre Prabhahasti mora.
Quando ANL na Rocha Garuda Vermelho veio até Prabhahasti e lhe pediu e recebeu ordenação como monge. Recebeu o nome de Shakya Senge. De Prabhahasti ele recebeu três ensinamentos. Ainda que os compreendesse logo no momento em que os ouvia, ele os estudou dezoito vezes para purificar os obscurecimentos. Naquele tempo, mesmo sem praticar, ele teve a visão das trinta e sete deidades do Yoga Tantra.




Capítulo 5: ANL, O IMORTAL

ANL, chamado agora Shakya Senge, pensou:
— Vou praticar o Mahayoga e realizar o nível de vidyadhara da longevidade. Vou atingir o supremo nível de vidyadhara de mahamudra.
Por isso ele foi em busca do grande mestre Manjushrimitra, que morava no monte Malaya.
Chegando lá, pediu ao mestre Manjushrimitra a transmissão de Mahayoga, mas o mestre Manjushrimitra lhe disse:
— Ainda não estou preparado para ensinar você. Você deve ir ao ossuário chamado Gruta do Sândalo, onde mora a monja Kungamo. Ela é uma dakini de sabedoria detentora da grande bênção e capaz de conferir a transmissão externa, interna e secreta. Vá até lá e peça a transmissão.

Assim ANL foi ao ossuário da Gruta do Sândalo. Lá, ele encontrou uma serva Jovem Dasmsel, que era uma encantadora das águas. Ela estava trabalhando.
ANL aproximou-se e lhe deu uma carta em que pedia a concessão da transmissão externa, interna e secreta de Mahayoga.
ANL esperou, esperou, mas não obteve resposta.
Então ele foi de novo à encantadora de águas e perguntou:
— Você se esqueceu de minha mensagem?
Outra vez, aquela mulher não disse nenhuma palavra.
Diante do silêncio, aplicou ANL seu poder de concentração na expiração.
Sim, ele estava esperando. Mas aquela jovem nada dizia.

Então a jovem pegou uma faca de cristal e abriu um grande golpe no seu próprio peito, e lá dentro ANL pôde ver os 42 deuses pacíficos na parte superior e os 58 deuses irados na parte inferior: aquela jovem mal-vestida e desdentada vividamente exibiu as 100 deidades dentro de si.
— Esta deve ser a monja, pensou ANL.
Então ele começou a prosternar-se para ela e a fazer circum-ambulações em torno dela.
A velha então lhe disse:
— Eu sou apenas uma serva. Entre.
ANL entrou na Gruta do Sândalo e lá encontrou a monja Kungamo.
Ela estava sentada num trono. Ao seu redor dispunham-se os dakas. Ela se ornava de jóias feitas de ossos e nas mãos segurava uma cuia de crânio humano e um tambor de madeira. Ao seu redor havia 32 servas.
Ela estava realizando um festim de oferendas.

ANL lhe fez um oferecimento de mandala, prosternou-se e circum-ambulou a monja Kungamo.
Depois lhe pediu as transmissões secretas.
Ela então transformou ANL na sílaba HUNG e o engoliu.
Ali dentro, ela conferiu-lhe as transmissões na mandala de seu corpo. Depois, expelindo-o através de lótus secreto, purificou-o de corpo, fala e mente.
Kungamo lhe outorgou a bênção da longevidade e vários outros poderes.
Depois disto, ANL recebeu transmissões e ensinamentos de vários mestres.
Inclusive de Nagarjuna.

ANL então pensou: “Eu realizei o nível de vidyadhara da imortalidade. Tenho de levar todo o povo da Udddiyana e da Índia para o Buddhadharma”.
Assim pensou.
Mas para praticar apropriadamente o mantra secreto ele tinha de ter uma consorte.
Por isso ele partiu para Sahor, onde o rei de Sahor tinha uma filha chamada Flor Mandarava que era belíssima, de dezesseis anos, dotada de todas as marcas.
ANL tomou-a como consorte.

Ao Sul do Monte Potala, onde fica o palácio de Avalokiteshvara, ficava a gruta de Maratika, de frente para o Sul.
Ali caíam chuvas de flores, e os arco-íris a envolviam de cores. Um perfume de incenso subia para o ar. Era uma gruta de sândalo, abençoada pelos detentores das três famílias.

ANL e sua consorte foram para esta gruta. Ali abriram a mandala de Amitayus e realizaram a prática de vidyadhara de longa vida.
Após três meses, tiveram a visão de Amitayus, que colocou seu vaso de longa vida sobre a cabeça do casal, e o fez beber do néctar de longa vida, e assim transformou seus corpos em corpos-vajra, ou seja, além do nascimento e da morte.

Depois disso, o casal, transformado em mendigos, foi esmolar na cidade.
Mas o povo da cidade reconheceu ANL e ficou enfurecido:
— Este é o homem que matou os machos e possuiu as mulheres, e depois seduziu a filha do rei, adulterando a casta real. Vamos castigá-lo!

Dizendo isso, o povo amarrou o casal e o queimou, numa fogueira de sândalo, em praça pública.
Aquela fogueira ardeu mais de nove dias e noites sem parar, aumentando suas brasas, até que se agigantou de tal forma que incendiou tudo, até o palácio real.
O óleo derretido pela fogueira se transformou num lago de flores lótus, e sobre uma bela e grande flor de lótus apareceram ANL e sua consorte, que permaneciam limpos e frescos.
Diante de tal milagre, o rei e seus ministros começaram a rezar, e as chamas se acalmaram, e todas as casas e o palácio real reapareceram, belos mais que nunca.

* * *

Voltemos ao início dessa narrativa. ANL estava na sua gruta e aquela cavalgada se aproximava. Já fazia algum tempo que ele morava naquelas montanhas, em solidão. Procurava um lugar onde pudesse estar quieto, meditar, em segurança. Mas não havia calma continuada, não havia segurança completa em lugar algum. Os inimigos estavam em toda parte, podiam chegar a qualquer hora. Ele sabia. Por isso, precisava ajustar aquela luneta para ver quem eram aqueles longínquos seres que se aproximavam, à distância.
Sim, uma pequena caravana se aproximava, bem longe. Através de sua luneta agora podia vê-los: eram cavaleiros, guerreiros, desconhecidos. Ainda iam levar algum tempo para achá-lo, ali. Mas certamente acabariam encontrando-o.
ANL começou a considerar sobre o que faria. Poderia fugir. Porém não mais agüentava a idéia de viver fugindo para sempre. Ele já tinha vindo das longínquas regiões do Sul, onde nascera.
Mas ANL sabia que em nenhum lugar do planeta havia a mais completa paz naquela era degenerada. A época estava terrível. Ele por isso já tinha planos de viajar mais para o Norte, mais para o alto, até as elevações geladas das grandes montanhas, os Himalayas, as rainhas das montanhas. Para o monte Khailás, talvez, onde nasce o rio Sindhu. Sim, talvez lá pudesse permanecer em paz, em meditação, sem preocupar-se com sua própria defesa e segurança, sempre ameaçada.
Eram cerca de trinta cavaleiros pesadamente armados com chuços, espadas, lanças e escudos.
ANL agora os via claramente.
Eles pareciam saber exatamente onde ele se encontrava, pois marchavam em sua direção, já subindo os flancos da montanha.
ANL resolveu esperá-los, armado de sua lança. Não demorariam a encontrá-lo, ou mesmo já o tinham visto.

O vento do fim da tarde vinha chegando, frio e fino, vindo das geleiras do sul. As nuvens eram raras, ao por do sol. As grandes aves arribavam para seus lares, em raros e altíssimos grupos. Um estranho silêncio permeava a solidão dos altos picos nevados, dali vistos.

ANL sentou-se na entrada da gruta, em vajra ashana, e meditava.

Na sua meditação, entretanto, ele não pressentia nenhuma agressividade, nenhum ódio ou perigo por parte daqueles homens que subiam a montanha. Sabia que eles o estavam procurando, via-se em contato com eles, e lembrou-se da porqueira sua mãe, e de seus irmãos, em vida passada.

Sabia que ali se cumpriria a sua promessa feita anteriormente.

* * *

ANL passou a noite toda em meditação.

Quando o dia nascia, os cavaleiros estavam em sua frente.
Eram guerreiros tibetanos, que tinham vindo à sua procura, a mando do rei Trisong Detsen.

Estavam todos pesadamente armados e desceram dos seus cavalos em sua frente.

Mas ANL não saiu de sua meditação.

Então aqueles homens se sentaram, à espera e em silêncio.
O cozinheiro deles foi até uma pedra onde acendeu a pequena fogueira e preparou o chá. O fogo, naquela época, era feito com o uso de uma espécie de lente.
Quando o chá estava pronto e quente, serviu ele numa chávena de madeira que trazia, com base de prata e ouro, presente enviado pelo rei do Tibet.
O chá quente foi posto em frente a ANL, que meditava, os olhos semi-cerrados.

Quando, saindo de sua meditação, ANL fez uma reverência ao chá e empalmando a chávena bebeu um pouco, perguntou:

— O que desejam vocês, jovens guerreiros tibetanos?

Tendo feito três prosternações, respondeu o comandante tibetano:
— Nosso rei nos manda a você, ó Nascido do Lótus, para pedir que venha ao Tibet a fim de implantar e firmar a religião.
— Por que isso? quis saber ANL.
— O Tibet, começou o guerreiro a contar, é dominado por demônios. Nenhum monge ou sacerdote conseguiu difundir a religião nas terras nevadas. Nosso rei convidou o venerável monge indiano Shantarakshita para trazer a religião para nossa bárbara terra, mas seis meses depois de ter o venerável monge indiano Shantarakshita ter chegado ao Tibet os deuses e demônios se revoltaram e grandes relâmpagos vieram do monte Marpori destruindo as colheitas, e começaram os desastres, doença, fomes, seca e tempestades de granizo em todo o país. Por isso os ministros exigiram que o venerável monge indiano Shantarakshita fosse expulso do Tibet, o que aconteceu. O venerável monge indiano Shantarakshita voltou para essas terras, mas antes de partir aconselhou ao nosso rei Trisong Detsen que mandasse convidar o senhor para subjugar os demônios e implantar a religião na Terra das Neves.







Capítulo 6: A ESTUPA DE JARUNGKHASOR.

Então ANL se dirigiu aos tibetanos nesses termos:
— Jovens tibetanos, há uma estória que vocês desconhecem, ó jovens tibetanos, que necessitam saber. E é por isso que vocês estão aqui.

Os tibetanos permaneceram em silêncio.

— Querem vocês conhecer parte da minha extraordinária estória?

Os tibetanos pediram que ANL lhes contasse.

E assim falou ANL:

— Isso se passou há muito tempo, no tempo do Buda Mahakashyapa. Minha mãe daquela época se chamava Shamvara, e tinha 4 filhos. Ela construiu a Estupa de Jarungkhasor, no distrito de Maguta, no reino do Nepal.

ANL puxou sua capa para proteger-se do vento e prosseguiu: “Na vida anterior àquela, minha mãe se chamava Apurna, e residia no Reino dos 33 deuses. Lá, ela tirou uma flor do jardim. Áquila era um crime e por isso ela adquiriu o carma de nascer no reino dos humanos, como uma simples porqueira de nome Shamvara”.

“Shamvara teve quatro filhos de quatro diferentes homens. Como ficou quase rica com sua criação de porcos, e para o benefício de seus filhos, ela resolveu construir uma estupa para servir de receptáculo da mente de todos os Budas”.
“Para isso Shamvara pediu permissão do rei. E o rei autorizou”.
“Então ela começou a construir a estupa com ajuda de seus 4 filhos. Mas à medida que a estupa crescia e ficava bela, os ministros e o povo do Nepal desenvolvia inveja e raiva contra aquela reles porqueira. Eles se consideravam insultados, pois uma simples criadora de porcos, junto de seus quatro filhos ilegítimos, estavam construindo um tão grande e belo monumento”.
“Por isso, foram ao rei e lhe pediram que o monarca obstruísse aquela construção, porque aquilo constituía uma humilhação para todos os nobres”.
“O rei, porém, respondeu que aquela mulher era pobre, e que através de seu trabalho conseguiu economizar bastante dinheiro para, junto com seus quatro ilegítimos filhos, construir aquela estupa, e que ele já tinha autorizado a construção. Portanto a autorização estava valendo, ele não podia mudar”.
— Eu, como rei, só falo uma vez, concluiu. Por isso a grande estupa passou a se chamar de Jarungkhasor, o que quer dizer: uma vez autorizada, nenhum obstáculo deve haver à sua construção.
Quando a grande estupa estava prestes a ser concluída, a porqueira previu a sua morte antes da conclusão. Então ela reuniu seus quatro filhos e lhes pediu:
— Depois de minha morte, ó filhos, vocês devem concluir a obra, que é a finalidade de minha vida.

E depois que aquelas palavras foram ditas, ela morreu.

Ouviram-se sinos e os deuses enviaram uma chuva de flores. Diversos arco-íris iluminaram os céus. A natureza homenageava minha mãe, pela generosidade de ter construído a bela estupa.

Minha mãe atingiu o estado de Buda.

Nós trabalhamos mais três anos, sete ao todo, e concluímos a obra.
No fim, o Buda Mahakashyapa, acompanhado por seus filhos bodhissattvas, apareceu sobre o espaço, em cima da estupa. Também ali estavam todos os Budas e Bodissatvas das dez direções, com numerosos Arahants e os senhores dos três mundos, assim como divindades pacíficas e iradas, todos apareceram na mais auspiciosa presença com grandes sons e flores e nuvens de incenso.
Então a terra tremeu três vezes.
E uma ilimitada luz da divina sabedoria se difundiu do corpo da assembléia dos Budas ali presentes, eclipsando a luz do sol, e irradiando mesmo de noite por mais cinco dias.

ANL ajeitou a capa, bebeu um gole de chá, sorriu como se lembrasse de tudo aquilo, e continuou:

— Naquela hora eu fiz um pedido. Por causa desse pedido vocês estão aqui.

Os tibetanos se entreolharam. Uma águia voejou no espaço, sobre a cabeça da gruta. Um vento novo varreu o vazio entre as grandes montanhas do Nepal.

ANL prosseguiu:

— Naquela hora eu fiz o seguinte pedido aos budas e bodissatvas: que, pelo mérito de ter construído a estupa de minha mãe, que eu pudesse leva o ensinamento para as grandes montanhas geladas do Tibet.

Todos se calaram. A noite caiu. Um grande vento frio baixou pelo vale, vindo das mais altas montanhas. O pesado silêncio pacificou a todos.



Assim falou ANL e os guerreiros tibetanos escutaram em silêncio.

— Voltem para o seu reino, disse ANL. Transmitam ao rei Trisong Detsen minhas saudações de agradecimento. Digam-lhe que aceito o convite. Irei para o Tibet quando concluir o meu retiro.
Mas os guerreiros insistiram:

— Mas você não compreendeu: viemos aqui não só para convidá-lo. Nossa missão é levá-lo protegido ao Tibet.

— Voltem sem mim, jovens, disse ANL. Se vocês estiverem comigo, serão mortos pelos demônios do caminho. Eu tenho de voltar só, e enfrentá-los. Não se preocupem, estarei preparado. Chegarei lá, quando for o tempo.

Partiram os guerreiros tibetanos para a Terra das Neves.
Tinham de apressar-se.
Ia chegar o Inverno.

* * *


ANL mergulhou em profunda meditação naquela noite.

Os tibetanos queriam deixar todo o ouro trazido para oferecimento, mas ANL recusou. Aceitou algumas provisões.

Dias se passaram.

Uma noite, uma gigantesca configuração apareceu no espaço em frente à gruta de ANL.

Era um imenso ser alado, de três faces, quatro pernas, seis mãos, com muitos aparatos e séqüito. Sua face central era azul e feroz. Sua face da direita, branca e sorridente. Sua face da esquerda vermelha e sedutora. Nas seis mãos ele segurava vajras, fogo, tridente e uma adaga chamada purba. Estava cheio de ornamentos sinistros: roda, brincos, ossos, cinzas, sangue, gordura, pele de elefante, pele de humanos, pele de tigre. Tinha um colar de 50 cabeças cadavéricas, algumas frescas, recém-mortas, outras em decomposição. Algumas só tinha o crânio. Possuía uma coroa de crânios ressecados que o adornava como jóias. Trazia uma armadura. Estava cercado de protetores, guerreiros, matadores, filhos, cães e pássaros.

Certamente um exército fugiria, apavorado, ao ver a deidade Kila.

Então sua voz se fez ouvir em todo o vale de Parping:

— ANL, você vai para o Tibet?

Ele disse: “Sim”.

— Pois bem, disse Vajrakilaya. Lá você vai ter muitos problemas, mas vou dar-lhe proteção e esta minha adaga Phurba, que vai guiá-lo. Mantenha-se firme e puro.

O Phurba foi lançado e se cravou na pedra em frente onde ANL estava.

A deidade desapareceu.

***

Longo tempo ANL meditou sobre o significado daquela aparição.
Avaliava os perigos que iam ocorrer, as dificuldades por que tinha de passar. Mas logo entrou em Plena Atenção e um estado de Atenção Plena sobreveio, que durou vários dias, durante os quais nem o vento por ali passou para não perturbá-lo.
Depois ANL saiu daquele estado de Atenção como se nada tivesse ocorrido. Fez um pouco de chá com cevada que os tibetanos ali tinham deixado, tomou a phurba em sua mão e resolveu partir para o Norte.
Colocou mantimentos na sacola, tomou a lança kathuanga, pôs a phurba na cintura, partiu dali, envolto na capa vermelha e azul. Usava um chapéu de lã, que lhe envolvia a cabeça.
O sol despontava no horizonte. Era um sol dourado, luminosamente dourado.







Capítulo 7: A PARTIDA

ANL partiu.
Ao sair da gruta, um pássaro voou, uma águia, em direção ao Norte.
ANL desceu a montanha, caminhou, sereno.

Alguns pequenos animais acompanharam seus passos, por algum tempo. Uma revoada de pássaros agitou o céu, sobre sua cabeça. Durante algum tempo, as árvores se agitaram e com isso lançaram um tapete de flores sobre seu caminho no vale perfumado.

O dia vinha nascendo, glorioso.

Ele parou diante de um riozinho, bebeu um pouco de água. Do brilho das árvores ao sol se exalava pelo ar um apelo silvestre.

Não havia ninguém naquelas terras. Não havia ninguém, naqueles vales e florestas. Os ares respiravam as primeiras flores do dia. Os córregos, límpidos, frios, deixavam correr suas águas cristalinas, vindas das montanhas, vindas do Himalaia.

ANJ caminhava entre a ramagem.

Em nada pensava, sua mente era calma, luminosamente vazia, como de costume. Ele era pura atenção luminosa, pura concentração compassiva, por isso sua mente como que aparecia, luminosa, abrindo-se no espaço, como uma aura de cinco cores.

O mundo se exibia, extremamente belo, aos raios da luz do sol. Nunca os pássaros estiveram tão alegres, no céu. Alegres, mas respeitosos.

Mas ANL caminhava rapidamente. Atravessou completamente o vale e, à tarde, começou a subir as primeiras montanhas. Quando anoiteceu, procurou e encontrou uma gruta, onde fez fogo, chá com cevada, e sentou-se em meditação.


***

No dia seguinte, porém, o tempo mudou. O amanhecer custou a aparecer, o inverno chegava. O céu pintou-se de um cinza escuro, metálico, ameaçador.
Mas, alheio àquela transformação do clima, ANL caminhou o dia todo até que, à tarde, quando já estava no alto da montanha, uma grande tempestade desabou sobre o mundo.

Caiu a temperatura abaixo de zero. Anoiteceu logo. Sobreveio uma grande nevasca, um forte vento que uivava, horripilante, como saído da garganta do dragão.
Então, sorrindo, ANL procurou o abrigo de uma gruta.
Depois de certo tempo, encontrou uma fenda na montanha. Por ali entrou. Subiu uma vereda, encontrou uma profunda caverna.
ANL entrou ali, mas logo que entrou percebeu que lá morava um felino que estava ausente. Mas, no momento, o lugar era apropriado.
ANL fez uma pequena fogueira. Aqueceu-se, comeu uma papa de farinha de cevada, chá e um tipo de biscoito.
O frio era intenso. A temperatura caiu e rapidamente alcançaria níveis quase insuportáveis: por isso ele entrou em meditação profunda, desenvolvendo e aumentando o calor interno do corpo.

***

No meio da noite, chegou ali um enorme tigre.
Era um gigantesco animal da montanha, um tigre de Bengala, e deveria ser o morador daquele lugar. Tinha quase três metros de comprimento, dourado sobre rajado negro, uns trezentos quilos.

ANL não saiu de sua meditação.

Mas de dentro de sua meditação, mentalmente, falou ao animal que o contemplava, os olhos terríveis, abertos: “Eu sei que esta é sua casa, mas amanhã saio daqui. Fique calmo que não vou atacá-lo. Aproveite o calor desta fogueira. Infelizmente, nada mais tenho a oferecer”.

O tigre, na entrada da caverna, continuava olhando-o, assombroso, mas em silêncio.

Então o que se passou foi o seguinte: o animal se aproximou, andando ao redor da sua gruta e da fogueira acesa, e veio até onde ANL estava.

O grande tigre ali se aninhou, aos pés de ANL, aquecendo com seu imenso corpo as pernas do iogue.

E começou a dormir, tranqüilo.

No dia seguinte, quando ANL saiu da meditação, viu que o tigre estava a seus pés, e o adorava.

ANL a princípio temeu assustá-lo, mas o tigre, extremamente sensível, logo percebeu que ANL abria os olhos.

ANL fez chá com cevada e viu que sua alimentação não era suficiente para alimentar o tigre. Ofereceu-lhe biscoitos, que o tigre aceitou e comeu.

ANL partiu. O tigre o seguia.

Durante toda a manhã andaram juntos até que, em certo momento, o tigre se afastou e sumiu.

Já era quase noite quando ANL sentiu que uma grande fera o perseguia. Preparou-se para defender-se ou fugir, mas aquilo ia rápido e atravessou o seu caminho: era o mesmo tigre que ali estava, e em sua boca trazia uma pequena gazela morta.

ANL parou, imóvel. O tigre depositou a gazela a seus pés. Um oferecimento.

Depois, o animal o guiou para uma gruta, antes que a noite caísse completamente.

ANL acendeu uma fogueira ali e assou a gazela.
Quando o jantar ficou pronto, cortou em pedaços e ia dando para o tigre. Mas compreendeu que devia também comer, para recompor suas forças. Não podia recusar o presente recebido. E comeu um pedaço.

Depois ele fez chá, com cevada e mel.
E dormiu. Dormiu profundamente. Mas mesmo em seu sono profundo, ele meditava.
Profundamente.

Aquela foi uma noite suave. ANL se alimentara bem, dormira bem. E sentia-se protegido. Seu amigo tigre, muito sensível, estava muito alerta à qualquer aproximação.

E naquele mesmo dia ANL teve de atravessar um rio. O tigre se ofereceu, como montaria.

E a partir de então ANL viajou montado num tigre. Em direção ao Tibet.


Assim se passaram vários dias de caminhada.

ANL viajava somente quando seu amigo tigre o levava. Quando o animal se recusava a partir significava que estava vindo uma tempestade, ou que algum perigoso animal estava próximo.
Já tão próximo do tigre como amigo, algumas vezes ANL brincava com ele. Chegava a dormir fazendo-o de travesseiro.
Mas dia a dia se aproximavam do Tibet, e cada vez eles estavam mais alto, mais para o Sul.

Um dia, ANL disse para o tigre:
– Até agora você me seguiu e protegeu, até agora você me auxiliou. Eu agradeço. Mas de hoje em diante tenho de seguir só. Estou perto das terras do País das Neves, e terra dos demônios, que estão esperando por mim. Cabe a mim enfrentá-los, ou morrer. Mas não posso morrer, antes de cumprir minha missão. Não posso morrer, porque nada pode matar-me. Se você for comigo não poderá socorrer-me desse novo perigo, mas pode ser atingido. Esta luta é só minha. Volte para a sua terra. Eu não o esquecerei.

Assim disse.
Tendo dito isso, ordenou que o animal se retirasse. O imenso tigre veio até ele, fez três circum-ambulações em torno dele, e partiu.

Naquela noite ANL pernoitou na fronteira do Tibet, em meditação, empunhando a lança.
No meio da noite uma sinistra presença se fez sentir. As árvores se curvavam, abatidas por um vento feroz. Um gigantesco e sinistro uivo se ouviu, como de uma loba no cio. Depois, o som ameaçador de uma gargalhada feminina, como se a noite se personificasse numa arrogante feiticeira, que perto dali estava, como um gigantesco demônio.
Era uma entidade feminina, violenta, cruel, terrível. Do seu corpo saía um terrível elemento escuro e ameaçador. Ele estava na encruzilhada, e com os braços impedia o caminhar. Como uma voz rascante, sibilina, disse para ANL:

– Daqui você não passa!

– Quem é você, ó poderosa deidade? – perguntou ANL.

– Eu sou Mutsamey, ah, ah, ah. Ninguém ousa desafiar-me. Saiba que esta terra me pertence. A mim! A mim! Eu sou a poderosa deidade dessas montanhas. Sou a Protetora da religião Bom. E se ria, e gritava.

E desapareceu.




Capítulo 8: A PRIMEIRA LUTA



No dia seguinte o tigre reapareceu.
Trazia uma caça na boca, mas ANL nada queria comer.
Mas o tigre insistiu tanto que ele aceitou.
Depois, enquanto o tigre comia, ANL entrou em meditação.
Depois do almoço, o tigre voltou para suas terras.
Depois que o tigre desapareceu, subitamente a terra estremeceu e as pedras da montanha começaram a cair. Uma grande fenda se abriu no chão.

As pedras fecharam ANL numa lapa onde ele se abrigara durante o almoço com seu amigo tigre.
Mas ANL fez um gesto e apareceu um túnel e ele pôde sair dali.

Quando saiu, encontrou Mutsamey muito irada, furiosa mas perplexa e quase aterrorizada com o poder de ANL que ela tentara soterrar.

ANL lhe um gesto ameaçador, mas então Mutsamey se posternou diante dele e se ofereceu para conceder proteção.

ANL aceitou, abençoou-a e lhe deu o nome secreto de “A grande e graciosa senhora da invencível turquesa”.



***

Saindo dali, ele cortou o vale de Mang-Yul.
Como Mutsamey continuasse a rondar, embora invisível, ANL em dado momento, no meio de uma série de montanhas iguais, invocou aquela deidade e lhe falou da seguinte forma:

— Graciosa Dama, diga-me qual é o meu caminho.
— O seu caminho não consigo saber. Para onde você vai?
— Eu vou para onde possa encontrar Samyé.
Então a Graciosa Dama indicou a correta direção e desapareceu silenciosamente.

Quando ANL chegou ao Planalto Celestial, subitamente o céu se escureceu e grandes nuvens negras se formaram.
Uma gigantesca trovoada rasgou os ares de ponta a ponta, como se quisesse destruir o universo inteiro. Quanto mais ANL avançava, mais o tempo ficava estranho, o céu escurecia e se tornava ameaçador.
Então um relâmpago partiu do céu e quase atingiu o lugar onde ele passava.

Vendo isso, ele parou.

Então ANL retirou um pequeno espelho do bolso, sentou-se na grama, esperou.

Quando novo relâmpago apareceu, ANL apontou para ele o pequeno espelho, aquilo foi refletido, voltou para o céu, eletrizando todo espaço celestial. Aquilo se espalhou por toda a cúpula celeste.

Um novo relâmpago se armou, muito mais fraco, e um terceiro mais parecia uma pequena faísca de pedra de isqueiro.

Depois disso, Nammen Karmo apareceu no céu em sua frente e mergulhou no Lago do Esplendor.

Mas ANL sabia que fora ela quem provocou toda aquela tempestade, e por isso fez o gesto do escorpião em direção ao lago, transformando-o numa gigantesca massa de fogo.

O Lago do Esplendor realmente se incendiou como se fosse feito de gasolina atingida pelo fogo, e depois o lago começou a incendiar e ferver.
Eram tão altas as chamas e a temperatura que a carne da deidade ficou separada dos ossos.

Nammen Karmo logo procurou escapar dali.

Mas ANL, tomando o vajra em sua mão, desferiu-lhe um golpe, fazendo-a recuar.

Então Nammen Karmo gritou:

— Eu não mais criarei problemas para você, por favor, me perdoe! – e ela estava submissa, mas como seu corpo já estava muito deformado e ela tinha perdido um olho, ANL a nomeou “Senhora invencível de um olho só”.

Nammen Karmo se transformou em protetora do Dharma.

Quando ANL chegou em O-Yuk, entrou pelo profundo desfiladeiro em caminhada serena, compassada.

Lá, uma deusa tenma tentou matá-lo.

Ele vinha pelo desfiladeiro, entre as duas elevações majestosas que se abrem para o Tibet, quando a deusa quis esmagá-lo entre as duas montanhas.

Vendo isso, ANL fez o mudra do escorpião em direção aquelas montanhas. E prosseguiu.
Na realidade a deusa tenma era incapaz de mover as montanhas.
Mas no final de O-Yuk ela conseguiu desmoronar algumas rochas pesadas e provocou uma avalanche com que pretendia soterrá-lo.
Então ANL, com o gesto do escorpião apontado para as rochas que caíam, e continuou o seu caminho. Todas as rochas vieram abaixo destruindo os lugares e bloqueando o caminho.
O mudra do escorpião, entretanto, estragou as residências das deusas tenma, os lugares onde elas viviam, nas montanhas.
Por causa disso, doze deusas tenma e mais doze deusas kyongma, e doze deusas yama com sua corte apareceram diante de ANL e se prosternaram.
— Nós prometendo não mais prejudicar, disseram as deusas, em coro.
E todas se transformaram em guardiãs do Dharma.

Quando ANL atravessava o vale de Chephu Shampo, uma terrível deidade chamada Yarlha Shampo apareceu, manifestando-se como um animal gigantesco, da altura de uma montanha.
Era um yak, de cujo nariz saía uma estranha fumaça irada, e a sua respiração tonitruante era terrível de ouvir.
Aquele animal gigantesco emitia relâmpagos como uma tempestade e ocupava uma grande área do céu.

Mas ANL domou o yak, tomando-o pelo nariz com o gesto do gancho, laçando seu imenso corpo com o gesto do laço, derrubando-o ao chão, amarrando-o pelas pernas com o gesto da corrente. E o golpeou com o gesto do sino.

Então o que aconteceu foi o seguinte: O imenso Yarlha Shampo se transformou num pequenino menino, vestido de seda branca, que logo se prosternou para ANL, submisso, devoto.



Mas quando ANL passou pelo planalto de Lhaitsa, o poderoso Thanlha apareceu diante dele na forma de um grande yak.

O yak tentou engolir ANL, que fez contra ele o gesto do escorpião. O yak se transformou em um pequeno menino com uma turquesa. E desapareceu.

Assim ANL continuou o seu caminho até ao meio-dia, quando o menino reapareceu diante dele, trazendo-lhe várias iguarias, que ofereceu a ele e se foi.

ANL aceitou e ali mesmo, sentado sobre a elevação de uma pedra, almoçou.

Mas ao longe, na direção do Norte, as montanhas apareciam ameaçadoramente escuras.

Sim, ele sabia que encontraria novos obstáculos no caminho. Mas calmamente almoçou, deitou-se na relva e dormiu por uns instantes, durante o qual sonhou com seu guru Ananda, que lhe apareceu sorrindo, aspergindo-lhe umas gotas de água perfumada sobre sua cabeça e depois desapareceu.

Quando acordou, algumas gotas de água da chuva estavam sobre seu rosto.

Reanimado, ANL voltou a andar.

Uma chuva fina começou a cair sobre toda a extensão do vale Lhaitsa, colocando brilhos adamantinos em todas as folhas de ervas.

ANL, abrigado sob sua capa, avançava na direção Norte.


* * *


A seguir vem uma passagem não se encontra na escrituras da época, mas vem da tradição oral. Foi-me relatada por um lama, num dia em que estávamos perto da grande estupa de Jarungkhasor.

Estava ANL então atravessando o Vale da Morte, perto do lago do mesmo nome, quando a noite caiu e ele se abrigou numa reentrância da montanha.

Mal tinha chegado lá, quando começava a meditar, uma bela jovenzinha apareceu, saída da ramagem. Estava quase nua, apesar do frio, e exalava o perfume de almíscar da montanha. Seus lábios eram grandes e carnudos. Seus seios, quase à mostra, estavam cheios de desejo, apontando o ar. O corpo seria de uma jovem de dezesseis anos, mas já completamente desenvolvido.

Aquela menina tentou seduzi-lo.

ANL não era um monge celibatário. Tinha, inclusive, casado, conforme se sabe. Mas ele não se interessou.

Vendo o desinteresse do iogue, a menina então lhe disse que tinha de partir, mas antes comentou de como ele podia estar viajando assim, daquela maneira, sozinho, naquela terra de tantos perigos.

— Você não tem medo de nada? – perguntou ela.

Ele refletiu um momento e respondeu:

— Sim, disse. Tenho medo de escorpiões.

ANL, que sempre habitava grutas em montanhas, tinha tido sempre problemas com os escorpiões que encontrava nas pedras.

Naquele momento a jovem se transformou num gigantesco escorpião, do tamanho de um cavalo.

O animal, irritado e terrível, veio atacar ANL. Seus membros eram fortes como colunas de aço, suas duas garras armadas pareciam invencíveis. Na extremidade da calda ele exibia um ferrão para fora, gotejante de veneno mortal. Era um animal muito ágil, rápido, apesar do peso. Parecia invencível.

Então naquele instante ANL se mostrou como Gurtak: Sua forma era gigantesca e terrível e tão alta quanto uma montanha. Rugia como um trovão. É mesmo difícil descrever: pois ele estava envolto em violentas labaredas de um fogo abrasador. Seu rosto tinha três olhos esbugalhados. Seus dentes eram de leão. A cabeça, adornada de crânios humanos, tinha os cabelos eriçados para cima. Um colar de cinqüenta cabeças de cadáveres estava pendurada no seu pescoço. Havia várias grandes cobras venenosas enroscadas por todo o seu corpo. Ele vestia uma saia feita de peles de tigres. Com a mão direita, ele empunhava um dorge e com a mão esquerda ele segurou aquele escorpião pelo meio que todo o corpo do animal se quebrou em pedaços.
Tendo erguido o escorpião no ar, atirou-o nas águas geladas do Lago da Morte, e no qual lançou o seu dorge. Quando o dorge caiu na água, o lago se incendiou como se fosse um vulcão.
Naquele momento o escorpião começou a gritar de horror.
Então ANL voltou calmamente à sua forma normal e o retirou do lago com o gesto do gancho, voltando o terrível animal a aparecer como uma bonita jovem, que se prosternou e prometeu servi-lo. Mas ANL a deixou partir e, como se nada tivesse acontecido, voltou a meditar tranqüilamente.





Capítulo 9 (último): O EXÉRCITO DOS YAKSHAS


ANL continuava na direção Norte. Aproximava-se de Phen.
Acontece que os yakshas machos e fêmeas, comandados por vários chefes yakshas, se reuniram vindos em grande exército nos ventos das montanhas glaciais dos três platôs do Norte, e se juntaram os três exércitos em um só para atacar ANL ali mesmo.

Um oceano de combatentes humanos ficaria paralisado e trêmulo de pavor diante de tal situação, pois cada um dos yakshas era por si só um poderoso e perigoso demônio.

Assim ANL teve um momento de indecisão e abatimento.

Mas o que sucedeu foi que ANL fez girar uma roda de fogo na ponta de seus dedos no gesto ameaçador. E toda a camada de gelo e neve das montanhas glaciais onde aqueles yakshas moravam se derreteu como manteiga tocada por uma ponta de ferro em brasa.

Só com isso o gigantesco exército de yakshas se rendeu ao poder de ANL. E seus chefes vieram oferecer paz e proteção.



Mais tarde, quando ANL entrou na Floresta Trambu, que fica no vale Tolung, encontrou um grupo de 21 tibetanos que vieram até ele a fim de dar-lhe boas vindas.
Eles trouxeram comida para o almoço, mas não havia água.
Para resolver isso, ANL especou a rocha com sua lança e a pura água dali brotou como uma fonte. Aquela água jorra até hoje lá e ficou conhecida como Fonte Divina do Vale.
Depois, pernoitando em Khala Cliff, ANL submeteu todos os espíritos tsen sob o juramento de não perturbar. E no dia em que ANL e sua comitiva passaram por Sulphuk todos os demônios foram dominados sob juramento.

Na chapada da Montanha Ridge eles permaneceram um dia, e ANL impôs a todos os espíritos gyalpo e os gongpo a submissão e o juramento de não mais atacar.

Essas foram as ações feitas por ANL, e muitos acreditam que tenham sido conseguidas por que ele era um mestre na prática da Deidade chamada Vajrakilaya.

Esse Vajrakilaya era conhecido por ANL desde quando ele ainda estava em Pharping, no Nepal, que na época se chamava Yanglesho.

Naquele tempo, quando ANL era professor da filha do rei do Nepal, Shakyadevi, possantes espíritos provocaram uma terrível seca de três anos, que veio acompanhada de epidemia e fome.

Então, ANL mandou perguntar de seus mestres indianos qual o ensinamento que pudesse remediar aquela situação de crise no Nepal.
Os enviados voltaram trazendo para ele o Tantra e os comentários de Vajrakilaya, e mesmo no momento em que os emissários foram chegando na região aquela praga foi sendo pacificada.

ANL e sua aluna Shakyadevi atingiram os dois o terceiro nível de vidyadhara, o “vidyadhara do grande selo, ou mahamudra” e ANL reconheceu a prática de Vajrakilaya como uma escolta armada que é necessário para se proteger dos obstáculos e os superar.

ANL compôs então a sadhana de Vajrakilaya e indicou como seu principal uso o guardar os ensinamentos.


* * *


Em Hepori, ANL encontrou o rei do Tibet e sua comitiva que vinha recebê-lo.
Após encontrá-lo, o Rei se irritou porque ANL não se prosternou perante ele. ANL fez apenas um gesto de homenagem com a mão.

O rei do Tibet se irritou com o atrevimento, mas assim que raios de terríveis luzes saíram da mão de ANL e rasgaram o manto real, o rei se intimidou. Os ministros ficaram terrificados, mas o rei compreendeu e se prosternou diante de ANL.
ANL então foi conduzido em cerimonial até o palácio, onde foi colocado num trono de ouro. Foi-lhe servido um pequeno banquete com vários tipos de bebidas, comidas e bolos. ANL quase nada provou. A seguir lhe foi oferecida uma capa de brocado marrom. O próprio rei lhe fez o oferecimento da mandala de ouro e turquesas.

ANL recebeu várias homenagens.

— Estou construindo um altar, disse-lhe o rei. Quero que o consagre.

— Majestade, esta terra é a pátria dos demônios. No meu caminho tive muitos problemas com eles. Mas, na montanha ali distante, mora o rei dos Nagas. Ele controla todo o Tibet e o Kham, disse ANL.
E acrescentou:
— Devo estabelecer ali um tesouro de naga.

Dias depois foi ANL para aquela montanha. Lá, realizou vários rituais para pacificar aquele e outros obstáculos. A seguir foi ao fim do vale Maldro, onde realizou vários rituais para o rei e seus súditos.

Dias depois, indo até o alto do Vale Maldro, ele realizou o ritual de estabelecer um tesouro para o rei dos Nagas. A seguir, em Hepori, ANL concentrou-se em magnificar uma torma numa vasilha de ônis. Na sua meditação, ele tomava todos os espíritos e demônios sob seu comando.

Mas o espírito Machen Pomra não o obedecia, e por isso ANL teve de dominá-lo com o gesto do gancho. Tendo feito isso, aconteceu que o espírito apareceu diante dele, vestido de uma capa de lã.

Machen Pomra era grande como uma montanha e dessa forma falou:

— Jovem monge, eu não posso desobedecer. Aqui estou. Dê as suas ordens.

ANL replicou:

— Aceite essas oferendas e atenda aos desejos do rei.

Machen Pomra respondeu:

— Vou fazer como você me ordena. Mas eu gosto muito de coisas de valor: essa torma feita de água não me satisfaz. Dê-me coisas mais valiosas!

Então ANL preparou oferecimentos com as cinco preciosas substâncias num prato de prata, abençoou tudo e ofereceu.

Machen Pomra se deu por satisfeito e desapareceu.

ANL continuou o seu trabalho de submeter os deuses e espíritos que impediam a implantação do seu trabalho de Dharma no Tibet.

Portanto começa aí o vasto império espiritual do Tibet.