terça-feira, 6 de janeiro de 2009

ROGEL SAMUEL - O DOMADOR DA MONTANHA: a vida da Guru Rinpochê



ROGEL SAMUEL - O DOMADOR DA MONTANHA: a vida da Guru Rinpochê




Capítulo 1: O AJUSTE DO PARAFUSO


Não no passado, isso se passará num futuro muito distante.
ANL tentava ajustar o parafuso ou aquela lingüeta que, para nós, seria um parafuso. Pressionava com a unha a fenda, procurando mover o parafuso. Mas o parafuso resistia, imóvel. Como insistisse, quebrou uma pequena lasca da unha e dali jorrou, de seu dedo (ou do que seria um dedo), um líquido gomoso e grosso. Uma grossa gota espessa, branca.
ANL limpou a ponta do dedo com a língua (se é que podemos chamar de língua aquela extremidade de seu corpo), como se estivesse comendo o dedo.
Inteiramente só, deixava brilhar ao sol o belo corpo dourado e nu. Ele parecia feito, construído em metal, ou em ouro puro (se é que não o era).
ANL estava sentado naquela laje, no alto da Montanha, na entrada da gruta de onde a pedra saía como uma língua sai da boca aberta, projetada sobre a garganta daquele profundo abismo, na solidão das montanhas de Yanglesho, ou Pharping, as montanhas sagradas, altíssimas.
Mas isso se passou ou passará não no nosso tempo não, nem no passado: acontecerá, num futuro muito distante.

Já fazia algum tempo que ele morava naquelas montanhas, em solidão. Procurava um lugar onde pudesse estar quieto, meditar, em segurança. Mas não havia calma continuada, não havia segurança completa em lugar algum. Os inimigos estavam em toda parte, podiam chegar a qualquer hora. Ele sabia. Por isso, precisava ajustar aquela luneta para ver quem eram aqueles longínquos seres que se aproximavam, à distância.
Sim, uma pequena caravana se aproximava, bem longe. Através de sua luneta agora podia vê-los: eram cavaleiros, guerreiros, desconhecidos. Ainda iam levar algum tempo para achá-lo, ali. Mas certamente acabariam encontrando-o.
ANL começou a considerar sobre o que faria. Poderia fugir. Porém não mais agüentava a idéia de viver fugindo para sempre. Ele já tinha vindo das longínquas regiões do Sul, onde nascera. Nascer não é bem o termo: onde “apareceu”. Estava disposto a se isolar, por um tempo, para afinar o ritmo de sua mente, entrar em comunhão consigo mesmo. E aquela gruta era boa, apesar do túnel. Sim, havia aquele túnel, no fim da gruta: um buraco estreito que, como um túnel, descia por toda a cavidade da montanha, percorrendo-a por dentro, até o vale. Aquele túnel fora sempre motivo de preocupação para ele, porque às vezes dali saía e aparecia um pequeno dragão venenoso, uma espécie de serpente, que ali vivia, e ameaçava atacá-lo. Mas ANL sabia que em nenhum lugar do planeta havia a mais completa paz naquela era degenerada. A época estava terrível. Ele por isso já tinha planos de viajar mais para o Norte, mais para o alto, até as elevações geladas das grandes montanhas, os Himalayas, as rainhas das montanhas. Para o monte Khailás, talvez, onde nasce o rio Sindhu. Sim, talvez lá pudesse permanecer em paz, em meditação, sem preocupar-se com sua própria defesa e segurança, sempre ameaçada.

* * *

O jardineiro do palácio acordava muito antes do sol nascer para ver as flores do rei.
O rei era Indrabodhi, o segundo, rei de Odiyana, que tinha muito ciúme de suas flores e do seu lago de lótus, chamado Danakosha, formado pelas águas do rio Sindhu, que nasce no monte Khailás, nos Himalayas.

O jardineiro trabalhava num jardim privativo da família real, embora gigantesco, que tinha florestas e canteiros em disposição retangular de diferentes plantas. Mas isso se passou num tempo muito diferente do nosso, e não no passado, mas no futuro. Sim, não estamos nem no passado nem no presente, mas no futuro.

O jardineiro velho se arrastou até as mais novas glicínias das margens do lago, o Danakosha, que tinha o apelido de “oceano de leite”, porque os caules dos lótus produziam um suco branco, lácteo, bem doce.

Amanhecia.

De repente, um som apareceu no céu, um som de “Shriiii!”, e alguma coisa despencou de lá sobre um daqueles lótus, através de uma luz vermelha e brilhante, e o lótus se acendeu como se fosse uma luminária de luz vermelha, e foi assim que lá apareceu uma criança de cerca de oito anos, segurando um lótus e um vajra nas mãos.

Essa criança era ANL.

O velho parou por um instante imóvel e pasmo, e aterrorizado, mas como viu que era um menino novo e que o menino falava como gente grande e como que fazia um discurso, dirigindo-se talvez para os seres invisíveis do lago, discurso esse que para o velho era completamente ininteligível, o velho perdeu o medo e decidiu averiguar.
Mas o menino era muito bonito e sorria, e assim o velho tomou o barco e foi buscar o menino, no meio do lago.

Logo apareceram jardineiros e soldados, atraídos pelo estrondo, e ficaram animados com aquela aparição.

O menino foi levado ao palácio.

Mas o rei não estava.

O rei Indrabodhi estava em viagem.





Capítulo 2: O FILHO DE ODIYANA


Naquele tempo, no reino de Odiyana, o Segundo Rei Indrabodhi, residia no seu palácio com sua rainha e uma centena de ministros.
Na realidade tinha o rei cento e oito esposas, mas somente uma rainha.
Porém o rei não tinha nenhum filho.

Por causa disso, e como o rei não tinha nenh um filho, ele fez grandes oferecimentos para os deuses de sua religião com muitas recitações sagradas do livro sagrado jainista, no intuito de conseguir um filho.
Por fim, a conselho de seus sacerdotes e de seu mestre espiritual, abriu a porta de seus três grandes tesouros e distribuiu generosas esmolas para todos os pobres e necessitados.

Aquela notícia se espalhou por toda terra: “O rei Indrabodhi está distribuindo sua riqueza!”

Multidões de mendigos, pobres e falsos pobres vieram de toda parte.
Todos os dias as filas cresciam, intermináveis, e o rei lhes dava alimentação e moedas de ouro, de sorte que a multidão não parava nunca de crescer, e tanto cresceu a fila que a riqueza do rei Indrabodhi acabou.

Um dia o tesoureiro do rei veio à sala do trono e lhe disse:
— Os cofres do palácio estão vazios.

Depois que toda a sua riqueza acabou, ele exclamou:
— Eu não tenho mais a oferecer, e mesmo assim não se acabaram os mendigos e necessitados!

E o rei Indrabodhi chorou copiosamente, porque era um homem bom e compassivo, e não tinha podido acabar com a pobreza da face da terra.

Mas os mendigos só aumentavam e permaneciam na porta do seu palácio, à espera.

Então, disseram os mendigos ao Rei Indrabodhi:

— Ó glorioso Rei, se você não proporcionar esmolas para todos nós que viemos e que esperamos receber, todo mérito anteriormente recolhido por você não terá nenhum resultado ou valor, e terá sido completamente em vão. Porque assim é que devem ser os oferecimentos: se começar para todos, todos é que se beneficiem!

E até hoje é assim que se fazem essas coisas: ou para todos, ou para apenas um.

O Rei escutou aquelas palavras com tristeza e pesar no seu coração e resolveu adquirir uma riqueza imensa, abundante, inesgotável, que pudesse beneficiar a todos os pobres deste mundo.

E para conseguir, apesar dos conselhos dos ministros, sacerdotes, de seus próprios conselheiros e da dúvida do seu mestre espiritual, ele decidiu viajar ao grande oceano a fim de trazer a “jóia-que-realiza-todos-os-desejos”, que era uma surpreendente jóia que existia no cimo da coroa da poderosa deidade marítima chamada Charumati, filha do Rei dos Nagas, e cujo reino existia no fundo do mar.

O rei viajou com sua frota.

Mas o Rei, surpreendentemente, o grande Rei Indrabodhi, obteve a jóia com facilidade e sem infortúnio, pois Charumati, filha do Rei dos Nagas, a ofereceu com prazer, conseguindo assim o rei usá-la para seu reino.

O modo como conseguiu a mágica jóia eu nunca consegui saber.

E como aquele que possuísse a jóia satisfazia a todos os desejos mundanos, ele, o grande Rei Indrabodhi, já no caminho de volta para casa, carregou seu imenso barco de tesouros, e toda a sua frota, com as sete variedades de jóias, até que o peso das gemas preciosas e moedas de ouro ameaçou afundar os barcos.

E parece que, depois de realizado seu intento, o grande Rei Indrabodhi devolveu a jóia ao seu lugar de origem, o que nunca pude saber.

E estando assim, em plena viagem de volta para casa, encontrou um membro da sua corte, o seu orientador espiritual, chamado Na Dzin, que vinha apressado à sua procura para lhe contar a notícia do aparecimento milagroso daquela criança nascida sobre um lótus no lago Danakosha.

Aquele menino era ANL.

O Rei disse maravilhosas preces aos deuses ao ouvir tal extraordinária novidade e logo ao chegar quis conhecer ANL.

Quando em sua presença, perguntou o Rei ao menino:

— Quem é seu pai, sua mãe? Qual a sua casta? A que país você pertence?

ANL respondeu:

“Meu pai é o auto-desperto Samantabhadra.
Minha mãe é a esfera da realidade, Samantabhadri.
Minha casta é a união da sabedoria essencial e o Dharmadhatu, o espaço que tudo permeia.
E meu nome é o glorioso Padmasambhava, o nascido no lótus”.

A ouvir isso, o rei Indrabodhi ficou ainda muito mais apaixonado e aceitou o menino como se seu verdadeiro filho fosse e o nomeou seu príncipe herdeiro.

— Este menino, disse o rei, deve ser o Nirmanakaya de um Buda e a partir de agora passa a ser meu único príncipe.

Então uma grande cerimônia foi realizada naquela época para a entronização de ANL, e houve grande distribuição de esmolas que se fez de tal modo abundante que pôde satisfazer a toda a fila sem exceção (embora se diga que ANL reservadamente e sem que ninguém soubesse teve de multiplicar as moedas de ouro até que pudessem satisfazer a todos).

Mas naquela mesma cerimônia o rei Indrabodhi nomeou ANL seu orientador espiritual, ainda que ANL fosse ainda uma criança de cerca de oito anos de idade: E isso despertou a admiração e surpresa de alguns e a venenosa inveja por parte de seus ministros, porque o orientador tinha sempre muito poder junto ao Rei, e logo se iniciou uma conspiração para eliminar ANL, ou neutralizar o seu prestígio dentro da corte.

O menino foi chamado "Padmasambhava", o que significa "nascido no lótus", tal como nós o chamamos aqui: ANL (aquele que nasceu no lótus).






Capítulo 3: O EXÍLIO

ANL era o detentor do poder de seu adotivo pai.
Mas ele tinha um comportamento estranho, criticado na corte: suas roupas e atitudes causavam escândalo, ele andava nu com ornamentos de ossos humanos, usava um damaru e uma lança katvanga nas mãos e costumava dançar sem roupas no telhado do palácio.
O damaru era um tambor feito de duas metades de crânios humanos.
Quando ele dançava no telhado, muitos expectadores apareciam para olhá-lo.

Um dia, ele deixou cair sua lança do telhado, o que matou o filho do Primeiro Ministro Kamalatey, que estava em baixo.

O conselho de ministros, que o odiava, reuniu-se e decidiu puni-lo severamente com tortura e morte, como determinava a lei.

Os ministros foram ao rei e disseram:

— Ainda que este jovem tenha sido entronizado príncipe, seu comportamento é completamente impróprio para um monarca e ele matou o filho do Primeiro Ministro. Todos são iguais perante a lei, por isso nós o condenamos à morte, vai ser empalado.

O rei Indrabodhi, usando um dos artigos da lei, suplicou:

- Ainda não sei, ó Suprema Corte, se o príncipe é uma criança ou um não-humano, ou mesmo se ele é uma miraculosa aparição. Por isso, acho impróprio querer matá-lo: ele deve ser banido! Se fosse humano sim, seria condenado à morte.

Os ministros comutaram a pena de morte em exílio.

O rei Indrabodhi ficou arrasado.
Constantemente chorava e entrou na mais aguda depressão de se ver privado de seu único e amado filho. Mesmo adotivo, ANL era muito amado pelo rei. Com o passar dos anos, esse amor se consolidou de tal forma que o rei Indrabodhi nem se lembrava que ANL não era realmente seu filho.

Mas a lei em Uddiyana, criada pelo monarca, era clara: todos eram iguais perante a lei, mesmo o próprio rei. Mas ele tinha conseguido livrar ANL da tortura e morte, mas era impossível salvá-lo do exílio.

Nos últimos dias, o rei fez tudo o que pôde por seu jovem príncipe, tratando-o com todas as regalias, e compôs para ele um poema, que dizia:

Da flor do lótus, dentro de preciosa água,
Você apareceu, sem pai e mãe, ó criança miraculosa!
Carente de um filho eu te fiz rei do meu reino,
E por sua ação, ó meu príncipe, está sentenciado ao exílio!
Vá, agora, para seu destino!

ANL respondeu dizendo que pai e mãe, neste mundo, são muito preciosos:

- Você foi meu pai e minha mãe, e deu-me um trono, disse ANL. O filho do ministro foi morto por seu próprio carma. É correto que eu seja exilado de acordo com a própria lei de meu pai.

- Veja, acrescentou ANL, eu não estou chorando!

E continuou:

- Não existe alegria nem tristeza, pois a mente não tem nem nascimento nem morte!

E olhando firmemente para seu pai, acrescentou:

- Como eu não tenho apego a nada, nem à pátria nem à casa de meu pai, não estou triste, nem intimidado.

E, sorrindo, continuou, afagando os brancos cabelos do velho e bondoso rei:

- Continue feliz! Continue feliz! ó meu pai e mãe, pois, através de nossa conexão cármica, nós vamos encontrar-nos outra vez no futuro!

E o rei desmaiou.



Os algozes ministros conduziram ANL para um ossuário sepulcral, conhecido como Gruta do Gélido Horror, no Leste de Uddiyana. Aquele era um lugar apavorante, coberto de cadáveres, espíritos, abutres e ferozes predadores.

Naquela época, os cadáveres eram enrolados em pedaços de algodão e perto deles eram deixadas algumas comidas rituais, feitas de papas de arroz.

Como ANL era um perfeito iogue do mantra secreto, e como ali fora deixado despido de suas vestes imperiais, ele passou a vestiu-se com os panos tirados dos cadáveres, e comia as comidas deles.

Ali, no meio daquele terrível cemitério, ANL entrou em meditação e permaneceu no profundo samadhi chamado Inamovível.

Ele encontrou ali um estado de grande felicidade!

Depois de algum tempo, sobreveio uma epidemia e fome que dizimou a população de toda aquela terra. Muitas pessoas morriam. Numerosos cadáveres eram jogados ali, sem as faixas de algodão que os envolviam, sem as provisões de comida a que tinham direito de acordo com os rituais de suas religiões.

Por causa disso, o Príncipe ANL passou a vestir-se de pele humana, e passou a alimentar-se da carne dos cadáveres humanos. Por causa disto, ele subjugou todas as dakinis mamo e as manteve sob seu poder. E continuou sua meditação.






Capítulo 4: O PODEROSO VAJRA IRADO

Naquela época, no distrito de Gausho, vivia o rei de demônios chamado Shakraraja, que tinha forçado o povo do lugar a errôneas práticas que iriam levá-los no futuro a um renascimento infeliz, no reino dos infernos.

ANL viu que aquilo não deveria continuar. Mas não havia meios de acabar senão por um ato de força.
Então ele amarrou seus longos cabelos com uma serpente, vestiu-se de uma camisa de pele humana e de uma saia de pele de tigre. Com cinco flechas de ferro e um arco nas mãos ele foi até aquele lugar demoníaco.

Mas quando ANL chegou perto de Gausho, viu ao longe que se armava contra ele um grande exército do rei de demônios Shakraraja.
Era uma legião de humanos e não-humanos. Alguns visíveis, outros invisíveis. Os visíveis vinham com armaduras, chuços, lanças e pesadas espadas.

Mas sabia ANL que também chegavam guerreiros invisíveis, espíritos demoníacos e demônios furiosos.

ANL olhou concentrado para aquela planície de inimigos.

Quando o grande exército de demônios se aproximou, ele fez um gesto e uma armadura de deidades protetoras se projetou sobre ele como uma capa de medalhas luminosas protetoras. E exteriormente ele foi circundado por uma legião de poderosas dakinis que faziam um círculo protetor. Nenhuma arma poderia atingi-lo, pois estava ele blindado e protegido como por uma bolha sagrada.

ANL avançou em direção ao inimigo, assim protegido por todos os lados.

Mas a luta foi ferocíssima e demorada.
No fim os inimigos viram que nenhuma arma poderia atingi-lo, pois seu corpo estava bem guardado, mas o exército do rei de demônios chamado Shakraraja não desistia de atacar e lutaram até o pôr do sol.

Ao anoitecer não restava nenhum dos guerreiros demoníacos vivos. Todos estavam no chão. Era uma inimaginável carnificina.
O próprio rei de demônios chamado Shakraraja fugiu. Todos os machos estavam mortos.

Então ANL viu só sobraram vivas as fêmeas humanas e que aquela raça humana era condenada à extinção.

Então ANL começou ali mesmo a copular com todas as fêmeas.

Depois daquilo, ANL se foi para a Gruta do Gélido Horror.

Mas o rei de demônios Shakraraja reuniu um novo exército e resolveu caçar ANL secretamente no cemitério da Gruta do Gélido Horror onde ele se tinha recolhido em meditação.
O próprio rei de demônios Shakraraja veio na frente de seu novo exército com uma espada mágica.
Um arqueiro infalível foi colocado no alto de um monte para vigiar ANL, enquanto um exército de arqueiros cercou o local, pesadamente armado de armaduras e chuços. E começaram a buscar ANL no cemitério da Gruta do Gélido Horror.

Vendo isso, ANL matou a sentinela do alto do morro com uma flechada e escapou.

Então partiu para o país de Sahor, onde fez um retiro de meditação no grande ossuário do cemitério da Gruta Jubilosa.
Ali, alimentava-se de cadáveres.
E lá ele foi abençoado pelas dakinis, e autorizado pela transmissão da Dakini Subjugadora de Mara.

Depois disso, partiu para o ossuário do cemitério de Sosaling, no Sul de Uddiyana, onde praticou a ioga da disciplina e foi entronizado e abençoado pela Dakini Sustentadora da Paz.
Mais tarde, voltou para onde tinha nascido numa flor de lótus.
E pela prática da linguagem do signo da dakini do Mantra Secreto ele se incorporou e magnetizou nas quatro espécies de dakinis que moravam na ilha.
E todos os nagas do Oceano e espíritos planetários dos céus se comprometeram a servi-lo e foram dominados sob seu juramento.
Tempos depois encontramo-nos no ossuário do cemitério da Áspera Gruta, em Uddiyana, onde teve a visão de Vrajra Varahi, que o consagrou.
E as quatro classes de dakinis e dakas, e as dakinis dos três níveis lhe concederam realizações, transmissões e consagrações. Todas as dakinis o abençoaram e lhe concederam ensinamentos.
Foi então que ele se transformou no poderoso iogue.
As dakinis lhe deram o nome de Dorje Drakpo Tsal.
Que significa “O Poderoso Vajra Irado”.

ANL era um homem forte, alto, moreno, de idade indefinida.
Alguns diziam que ele tinha uns trinta anos, naquela época. Outros diziam que ele tinha quase mil.
Ele era moreno, tinha um bigode e um cavanhaque pequenos. Usava um chapéu de lã vermelha, cujas duas pontas se dobravam para o alto, encimado por um meio dorge e um lenço amarrado. Não era pessoa completamente pacífica. Ele era um pouco sério, meio irado. Vestia uma longa capa real de três etapas, toda debruada de ouro, que cobria suas vestes de seda e lã. Calçava uma bota estilo montanhês. Seus longos braços normalmente mantinham um porte sereno.
Na sua mão direita geralmente se via um dorge, seguro no “gesto do escorpião”, isto é, os dedos indicador e mínimo curvados para frente e os outros dedos fechados. Aquilo era o mudra ameaçador. Na mão esquerda estava uma cuia feita de crânio humano, chamada kapala.
Mas o que o caracterizaria melhor seria a lança com tridente que sempre portava. Era uma lança encimada por um pequeno tridente na forma de uma pequena lira. Os dentes superiores do tridente eram fechados, e tinham ornamentos de ossos, flâmulas, lenços de seda, pequenos sinos que soavam quando ele andava. A lança possuía todos os ornamentos de uma completa mandala. Era na realidade uma “khatwanga”, ou bastão tântrico ritual e mágico, com algumas caveiras humanas ali espetadas e incrustadas. Ninguém poderia exatamente saber o que aquilo significava, ninguém nunca ousara perguntar-lhe, tal o respeito que ele sempre inspirava.
Curiosamente, do seu corpo exalava uma estranha luz meio azulada, como a luz da lua cheia de outono, e às vezes tão forte que ele podia viajar à noite sem se perder. Mas essa luz, entretanto, não era exterior a ele, aquela luz como que vinha de dentro dele mesmo, como se sua forma e corpo fossem mesmo feito de luz, e não de carne.
Além disso, usava ele todos os ornamentos de um rei: brincos, colares, pulseiras e tornozeleiras.
Algo no seu corpo fazia com que ele como que flutuasse no ar. E nem creio que seus pés precisassem exatamente pisar o chão.
Perto dele tudo estava eternamente em paz.

ANL foi para o Assento Vajra, na Índia.
Ele começou a multiplicar o seu corpo. Às vezes ele aparecia como vários monges orando num templo, outras vezes aparecia como vários iogues praticando.
Quando algumas pessoas perguntaram quem era seu mestre ele respondia: “Não tive pai ou mãe, não tive professor ou mestre, não tenho casta nem nome, eu sou o que apareceu de si próprio!”
Todos duvidavam disto.
Então disseram:
— Alguém que faz esses milagres sem ter tido um mestre deve ser um demônio!
Por isso, refletiu ANL:
— Eu sou o aparecimento de um Buda, mas apesar disso, e para mostrar às futuras gerações da necessidade de ter um mestre, eu vou procurar os mestres do Mantra Secreto da Índia. Além disso, não serei de nenhuma ajuda se pensarem que sou um demônio.
E assim ele foi à morada do mestre Prabhahasti. No caminho, encontrou dois monges que também iam para o mesmo mestre.
ANL reverenciou os monges e lhes pediu ensinamento. Mas os monges ficaram amedrontados com ele, pensando: “o demônio rakshasa voltou”.
Sabendo disso, ANL lhes falou:
— Veneráveis monges, eu já não estou realizando ações más. Por favor, me aceitem”.
Ao que os monges replicaram:
— Se você fala a verdade, então nos dê suas armas.
ANL lhes deu o arco e as flechas de aço. E os monges lhe disseram:
— Nós ainda não estamos preparados, portanto não podemos dar ensinamento. Vá à, onde o Mestre Prabhahasti mora.
Quando ANL na Rocha Garuda Vermelho veio até Prabhahasti e lhe pediu e recebeu ordenação como monge. Recebeu o nome de Shakya Senge. De Prabhahasti ele recebeu três ensinamentos. Ainda que os compreendesse logo no momento em que os ouvia, ele os estudou dezoito vezes para purificar os obscurecimentos. Naquele tempo, mesmo sem praticar, ele teve a visão das trinta e sete deidades do Yoga Tantra.




Capítulo 5: ANL, O IMORTAL

ANL, chamado agora Shakya Senge, pensou:
— Vou praticar o Mahayoga e realizar o nível de vidyadhara da longevidade. Vou atingir o supremo nível de vidyadhara de mahamudra.
Por isso ele foi em busca do grande mestre Manjushrimitra, que morava no monte Malaya.
Chegando lá, pediu ao mestre Manjushrimitra a transmissão de Mahayoga, mas o mestre Manjushrimitra lhe disse:
— Ainda não estou preparado para ensinar você. Você deve ir ao ossuário chamado Gruta do Sândalo, onde mora a monja Kungamo. Ela é uma dakini de sabedoria detentora da grande bênção e capaz de conferir a transmissão externa, interna e secreta. Vá até lá e peça a transmissão.

Assim ANL foi ao ossuário da Gruta do Sândalo. Lá, ele encontrou uma serva Jovem Dasmsel, que era uma encantadora das águas. Ela estava trabalhando.
ANL aproximou-se e lhe deu uma carta em que pedia a concessão da transmissão externa, interna e secreta de Mahayoga.
ANL esperou, esperou, mas não obteve resposta.
Então ele foi de novo à encantadora de águas e perguntou:
— Você se esqueceu de minha mensagem?
Outra vez, aquela mulher não disse nenhuma palavra.
Diante do silêncio, aplicou ANL seu poder de concentração na expiração.
Sim, ele estava esperando. Mas aquela jovem nada dizia.

Então a jovem pegou uma faca de cristal e abriu um grande golpe no seu próprio peito, e lá dentro ANL pôde ver os 42 deuses pacíficos na parte superior e os 58 deuses irados na parte inferior: aquela jovem mal-vestida e desdentada vividamente exibiu as 100 deidades dentro de si.
— Esta deve ser a monja, pensou ANL.
Então ele começou a prosternar-se para ela e a fazer circum-ambulações em torno dela.
A velha então lhe disse:
— Eu sou apenas uma serva. Entre.
ANL entrou na Gruta do Sândalo e lá encontrou a monja Kungamo.
Ela estava sentada num trono. Ao seu redor dispunham-se os dakas. Ela se ornava de jóias feitas de ossos e nas mãos segurava uma cuia de crânio humano e um tambor de madeira. Ao seu redor havia 32 servas.
Ela estava realizando um festim de oferendas.

ANL lhe fez um oferecimento de mandala, prosternou-se e circum-ambulou a monja Kungamo.
Depois lhe pediu as transmissões secretas.
Ela então transformou ANL na sílaba HUNG e o engoliu.
Ali dentro, ela conferiu-lhe as transmissões na mandala de seu corpo. Depois, expelindo-o através de lótus secreto, purificou-o de corpo, fala e mente.
Kungamo lhe outorgou a bênção da longevidade e vários outros poderes.
Depois disto, ANL recebeu transmissões e ensinamentos de vários mestres.
Inclusive de Nagarjuna.

ANL então pensou: “Eu realizei o nível de vidyadhara da imortalidade. Tenho de levar todo o povo da Udddiyana e da Índia para o Buddhadharma”.
Assim pensou.
Mas para praticar apropriadamente o mantra secreto ele tinha de ter uma consorte.
Por isso ele partiu para Sahor, onde o rei de Sahor tinha uma filha chamada Flor Mandarava que era belíssima, de dezesseis anos, dotada de todas as marcas.
ANL tomou-a como consorte.

Ao Sul do Monte Potala, onde fica o palácio de Avalokiteshvara, ficava a gruta de Maratika, de frente para o Sul.
Ali caíam chuvas de flores, e os arco-íris a envolviam de cores. Um perfume de incenso subia para o ar. Era uma gruta de sândalo, abençoada pelos detentores das três famílias.

ANL e sua consorte foram para esta gruta. Ali abriram a mandala de Amitayus e realizaram a prática de vidyadhara de longa vida.
Após três meses, tiveram a visão de Amitayus, que colocou seu vaso de longa vida sobre a cabeça do casal, e o fez beber do néctar de longa vida, e assim transformou seus corpos em corpos-vajra, ou seja, além do nascimento e da morte.

Depois disso, o casal, transformado em mendigos, foi esmolar na cidade.
Mas o povo da cidade reconheceu ANL e ficou enfurecido:
— Este é o homem que matou os machos e possuiu as mulheres, e depois seduziu a filha do rei, adulterando a casta real. Vamos castigá-lo!

Dizendo isso, o povo amarrou o casal e o queimou, numa fogueira de sândalo, em praça pública.
Aquela fogueira ardeu mais de nove dias e noites sem parar, aumentando suas brasas, até que se agigantou de tal forma que incendiou tudo, até o palácio real.
O óleo derretido pela fogueira se transformou num lago de flores lótus, e sobre uma bela e grande flor de lótus apareceram ANL e sua consorte, que permaneciam limpos e frescos.
Diante de tal milagre, o rei e seus ministros começaram a rezar, e as chamas se acalmaram, e todas as casas e o palácio real reapareceram, belos mais que nunca.

* * *

Voltemos ao início dessa narrativa. ANL estava na sua gruta e aquela cavalgada se aproximava. Já fazia algum tempo que ele morava naquelas montanhas, em solidão. Procurava um lugar onde pudesse estar quieto, meditar, em segurança. Mas não havia calma continuada, não havia segurança completa em lugar algum. Os inimigos estavam em toda parte, podiam chegar a qualquer hora. Ele sabia. Por isso, precisava ajustar aquela luneta para ver quem eram aqueles longínquos seres que se aproximavam, à distância.
Sim, uma pequena caravana se aproximava, bem longe. Através de sua luneta agora podia vê-los: eram cavaleiros, guerreiros, desconhecidos. Ainda iam levar algum tempo para achá-lo, ali. Mas certamente acabariam encontrando-o.
ANL começou a considerar sobre o que faria. Poderia fugir. Porém não mais agüentava a idéia de viver fugindo para sempre. Ele já tinha vindo das longínquas regiões do Sul, onde nascera.
Mas ANL sabia que em nenhum lugar do planeta havia a mais completa paz naquela era degenerada. A época estava terrível. Ele por isso já tinha planos de viajar mais para o Norte, mais para o alto, até as elevações geladas das grandes montanhas, os Himalayas, as rainhas das montanhas. Para o monte Khailás, talvez, onde nasce o rio Sindhu. Sim, talvez lá pudesse permanecer em paz, em meditação, sem preocupar-se com sua própria defesa e segurança, sempre ameaçada.
Eram cerca de trinta cavaleiros pesadamente armados com chuços, espadas, lanças e escudos.
ANL agora os via claramente.
Eles pareciam saber exatamente onde ele se encontrava, pois marchavam em sua direção, já subindo os flancos da montanha.
ANL resolveu esperá-los, armado de sua lança. Não demorariam a encontrá-lo, ou mesmo já o tinham visto.

O vento do fim da tarde vinha chegando, frio e fino, vindo das geleiras do sul. As nuvens eram raras, ao por do sol. As grandes aves arribavam para seus lares, em raros e altíssimos grupos. Um estranho silêncio permeava a solidão dos altos picos nevados, dali vistos.

ANL sentou-se na entrada da gruta, em vajra ashana, e meditava.

Na sua meditação, entretanto, ele não pressentia nenhuma agressividade, nenhum ódio ou perigo por parte daqueles homens que subiam a montanha. Sabia que eles o estavam procurando, via-se em contato com eles, e lembrou-se da porqueira sua mãe, e de seus irmãos, em vida passada.

Sabia que ali se cumpriria a sua promessa feita anteriormente.

* * *

ANL passou a noite toda em meditação.

Quando o dia nascia, os cavaleiros estavam em sua frente.
Eram guerreiros tibetanos, que tinham vindo à sua procura, a mando do rei Trisong Detsen.

Estavam todos pesadamente armados e desceram dos seus cavalos em sua frente.

Mas ANL não saiu de sua meditação.

Então aqueles homens se sentaram, à espera e em silêncio.
O cozinheiro deles foi até uma pedra onde acendeu a pequena fogueira e preparou o chá. O fogo, naquela época, era feito com o uso de uma espécie de lente.
Quando o chá estava pronto e quente, serviu ele numa chávena de madeira que trazia, com base de prata e ouro, presente enviado pelo rei do Tibet.
O chá quente foi posto em frente a ANL, que meditava, os olhos semi-cerrados.

Quando, saindo de sua meditação, ANL fez uma reverência ao chá e empalmando a chávena bebeu um pouco, perguntou:

— O que desejam vocês, jovens guerreiros tibetanos?

Tendo feito três prosternações, respondeu o comandante tibetano:
— Nosso rei nos manda a você, ó Nascido do Lótus, para pedir que venha ao Tibet a fim de implantar e firmar a religião.
— Por que isso? quis saber ANL.
— O Tibet, começou o guerreiro a contar, é dominado por demônios. Nenhum monge ou sacerdote conseguiu difundir a religião nas terras nevadas. Nosso rei convidou o venerável monge indiano Shantarakshita para trazer a religião para nossa bárbara terra, mas seis meses depois de ter o venerável monge indiano Shantarakshita ter chegado ao Tibet os deuses e demônios se revoltaram e grandes relâmpagos vieram do monte Marpori destruindo as colheitas, e começaram os desastres, doença, fomes, seca e tempestades de granizo em todo o país. Por isso os ministros exigiram que o venerável monge indiano Shantarakshita fosse expulso do Tibet, o que aconteceu. O venerável monge indiano Shantarakshita voltou para essas terras, mas antes de partir aconselhou ao nosso rei Trisong Detsen que mandasse convidar o senhor para subjugar os demônios e implantar a religião na Terra das Neves.







Capítulo 6: A ESTUPA DE JARUNGKHASOR.

Então ANL se dirigiu aos tibetanos nesses termos:
— Jovens tibetanos, há uma estória que vocês desconhecem, ó jovens tibetanos, que necessitam saber. E é por isso que vocês estão aqui.

Os tibetanos permaneceram em silêncio.

— Querem vocês conhecer parte da minha extraordinária estória?

Os tibetanos pediram que ANL lhes contasse.

E assim falou ANL:

— Isso se passou há muito tempo, no tempo do Buda Mahakashyapa. Minha mãe daquela época se chamava Shamvara, e tinha 4 filhos. Ela construiu a Estupa de Jarungkhasor, no distrito de Maguta, no reino do Nepal.

ANL puxou sua capa para proteger-se do vento e prosseguiu: “Na vida anterior àquela, minha mãe se chamava Apurna, e residia no Reino dos 33 deuses. Lá, ela tirou uma flor do jardim. Áquila era um crime e por isso ela adquiriu o carma de nascer no reino dos humanos, como uma simples porqueira de nome Shamvara”.

“Shamvara teve quatro filhos de quatro diferentes homens. Como ficou quase rica com sua criação de porcos, e para o benefício de seus filhos, ela resolveu construir uma estupa para servir de receptáculo da mente de todos os Budas”.
“Para isso Shamvara pediu permissão do rei. E o rei autorizou”.
“Então ela começou a construir a estupa com ajuda de seus 4 filhos. Mas à medida que a estupa crescia e ficava bela, os ministros e o povo do Nepal desenvolvia inveja e raiva contra aquela reles porqueira. Eles se consideravam insultados, pois uma simples criadora de porcos, junto de seus quatro filhos ilegítimos, estavam construindo um tão grande e belo monumento”.
“Por isso, foram ao rei e lhe pediram que o monarca obstruísse aquela construção, porque aquilo constituía uma humilhação para todos os nobres”.
“O rei, porém, respondeu que aquela mulher era pobre, e que através de seu trabalho conseguiu economizar bastante dinheiro para, junto com seus quatro ilegítimos filhos, construir aquela estupa, e que ele já tinha autorizado a construção. Portanto a autorização estava valendo, ele não podia mudar”.
— Eu, como rei, só falo uma vez, concluiu. Por isso a grande estupa passou a se chamar de Jarungkhasor, o que quer dizer: uma vez autorizada, nenhum obstáculo deve haver à sua construção.
Quando a grande estupa estava prestes a ser concluída, a porqueira previu a sua morte antes da conclusão. Então ela reuniu seus quatro filhos e lhes pediu:
— Depois de minha morte, ó filhos, vocês devem concluir a obra, que é a finalidade de minha vida.

E depois que aquelas palavras foram ditas, ela morreu.

Ouviram-se sinos e os deuses enviaram uma chuva de flores. Diversos arco-íris iluminaram os céus. A natureza homenageava minha mãe, pela generosidade de ter construído a bela estupa.

Minha mãe atingiu o estado de Buda.

Nós trabalhamos mais três anos, sete ao todo, e concluímos a obra.
No fim, o Buda Mahakashyapa, acompanhado por seus filhos bodhissattvas, apareceu sobre o espaço, em cima da estupa. Também ali estavam todos os Budas e Bodissatvas das dez direções, com numerosos Arahants e os senhores dos três mundos, assim como divindades pacíficas e iradas, todos apareceram na mais auspiciosa presença com grandes sons e flores e nuvens de incenso.
Então a terra tremeu três vezes.
E uma ilimitada luz da divina sabedoria se difundiu do corpo da assembléia dos Budas ali presentes, eclipsando a luz do sol, e irradiando mesmo de noite por mais cinco dias.

ANL ajeitou a capa, bebeu um gole de chá, sorriu como se lembrasse de tudo aquilo, e continuou:

— Naquela hora eu fiz um pedido. Por causa desse pedido vocês estão aqui.

Os tibetanos se entreolharam. Uma águia voejou no espaço, sobre a cabeça da gruta. Um vento novo varreu o vazio entre as grandes montanhas do Nepal.

ANL prosseguiu:

— Naquela hora eu fiz o seguinte pedido aos budas e bodissatvas: que, pelo mérito de ter construído a estupa de minha mãe, que eu pudesse leva o ensinamento para as grandes montanhas geladas do Tibet.

Todos se calaram. A noite caiu. Um grande vento frio baixou pelo vale, vindo das mais altas montanhas. O pesado silêncio pacificou a todos.



Assim falou ANL e os guerreiros tibetanos escutaram em silêncio.

— Voltem para o seu reino, disse ANL. Transmitam ao rei Trisong Detsen minhas saudações de agradecimento. Digam-lhe que aceito o convite. Irei para o Tibet quando concluir o meu retiro.
Mas os guerreiros insistiram:

— Mas você não compreendeu: viemos aqui não só para convidá-lo. Nossa missão é levá-lo protegido ao Tibet.

— Voltem sem mim, jovens, disse ANL. Se vocês estiverem comigo, serão mortos pelos demônios do caminho. Eu tenho de voltar só, e enfrentá-los. Não se preocupem, estarei preparado. Chegarei lá, quando for o tempo.

Partiram os guerreiros tibetanos para a Terra das Neves.
Tinham de apressar-se.
Ia chegar o Inverno.

* * *


ANL mergulhou em profunda meditação naquela noite.

Os tibetanos queriam deixar todo o ouro trazido para oferecimento, mas ANL recusou. Aceitou algumas provisões.

Dias se passaram.

Uma noite, uma gigantesca configuração apareceu no espaço em frente à gruta de ANL.

Era um imenso ser alado, de três faces, quatro pernas, seis mãos, com muitos aparatos e séqüito. Sua face central era azul e feroz. Sua face da direita, branca e sorridente. Sua face da esquerda vermelha e sedutora. Nas seis mãos ele segurava vajras, fogo, tridente e uma adaga chamada purba. Estava cheio de ornamentos sinistros: roda, brincos, ossos, cinzas, sangue, gordura, pele de elefante, pele de humanos, pele de tigre. Tinha um colar de 50 cabeças cadavéricas, algumas frescas, recém-mortas, outras em decomposição. Algumas só tinha o crânio. Possuía uma coroa de crânios ressecados que o adornava como jóias. Trazia uma armadura. Estava cercado de protetores, guerreiros, matadores, filhos, cães e pássaros.

Certamente um exército fugiria, apavorado, ao ver a deidade Kila.

Então sua voz se fez ouvir em todo o vale de Parping:

— ANL, você vai para o Tibet?

Ele disse: “Sim”.

— Pois bem, disse Vajrakilaya. Lá você vai ter muitos problemas, mas vou dar-lhe proteção e esta minha adaga Phurba, que vai guiá-lo. Mantenha-se firme e puro.

O Phurba foi lançado e se cravou na pedra em frente onde ANL estava.

A deidade desapareceu.

***

Longo tempo ANL meditou sobre o significado daquela aparição.
Avaliava os perigos que iam ocorrer, as dificuldades por que tinha de passar. Mas logo entrou em Plena Atenção e um estado de Atenção Plena sobreveio, que durou vários dias, durante os quais nem o vento por ali passou para não perturbá-lo.
Depois ANL saiu daquele estado de Atenção como se nada tivesse ocorrido. Fez um pouco de chá com cevada que os tibetanos ali tinham deixado, tomou a phurba em sua mão e resolveu partir para o Norte.
Colocou mantimentos na sacola, tomou a lança kathuanga, pôs a phurba na cintura, partiu dali, envolto na capa vermelha e azul. Usava um chapéu de lã, que lhe envolvia a cabeça.
O sol despontava no horizonte. Era um sol dourado, luminosamente dourado.







Capítulo 7: A PARTIDA

ANL partiu.
Ao sair da gruta, um pássaro voou, uma águia, em direção ao Norte.
ANL desceu a montanha, caminhou, sereno.

Alguns pequenos animais acompanharam seus passos, por algum tempo. Uma revoada de pássaros agitou o céu, sobre sua cabeça. Durante algum tempo, as árvores se agitaram e com isso lançaram um tapete de flores sobre seu caminho no vale perfumado.

O dia vinha nascendo, glorioso.

Ele parou diante de um riozinho, bebeu um pouco de água. Do brilho das árvores ao sol se exalava pelo ar um apelo silvestre.

Não havia ninguém naquelas terras. Não havia ninguém, naqueles vales e florestas. Os ares respiravam as primeiras flores do dia. Os córregos, límpidos, frios, deixavam correr suas águas cristalinas, vindas das montanhas, vindas do Himalaia.

ANJ caminhava entre a ramagem.

Em nada pensava, sua mente era calma, luminosamente vazia, como de costume. Ele era pura atenção luminosa, pura concentração compassiva, por isso sua mente como que aparecia, luminosa, abrindo-se no espaço, como uma aura de cinco cores.

O mundo se exibia, extremamente belo, aos raios da luz do sol. Nunca os pássaros estiveram tão alegres, no céu. Alegres, mas respeitosos.

Mas ANL caminhava rapidamente. Atravessou completamente o vale e, à tarde, começou a subir as primeiras montanhas. Quando anoiteceu, procurou e encontrou uma gruta, onde fez fogo, chá com cevada, e sentou-se em meditação.


***

No dia seguinte, porém, o tempo mudou. O amanhecer custou a aparecer, o inverno chegava. O céu pintou-se de um cinza escuro, metálico, ameaçador.
Mas, alheio àquela transformação do clima, ANL caminhou o dia todo até que, à tarde, quando já estava no alto da montanha, uma grande tempestade desabou sobre o mundo.

Caiu a temperatura abaixo de zero. Anoiteceu logo. Sobreveio uma grande nevasca, um forte vento que uivava, horripilante, como saído da garganta do dragão.
Então, sorrindo, ANL procurou o abrigo de uma gruta.
Depois de certo tempo, encontrou uma fenda na montanha. Por ali entrou. Subiu uma vereda, encontrou uma profunda caverna.
ANL entrou ali, mas logo que entrou percebeu que lá morava um felino que estava ausente. Mas, no momento, o lugar era apropriado.
ANL fez uma pequena fogueira. Aqueceu-se, comeu uma papa de farinha de cevada, chá e um tipo de biscoito.
O frio era intenso. A temperatura caiu e rapidamente alcançaria níveis quase insuportáveis: por isso ele entrou em meditação profunda, desenvolvendo e aumentando o calor interno do corpo.

***

No meio da noite, chegou ali um enorme tigre.
Era um gigantesco animal da montanha, um tigre de Bengala, e deveria ser o morador daquele lugar. Tinha quase três metros de comprimento, dourado sobre rajado negro, uns trezentos quilos.

ANL não saiu de sua meditação.

Mas de dentro de sua meditação, mentalmente, falou ao animal que o contemplava, os olhos terríveis, abertos: “Eu sei que esta é sua casa, mas amanhã saio daqui. Fique calmo que não vou atacá-lo. Aproveite o calor desta fogueira. Infelizmente, nada mais tenho a oferecer”.

O tigre, na entrada da caverna, continuava olhando-o, assombroso, mas em silêncio.

Então o que se passou foi o seguinte: o animal se aproximou, andando ao redor da sua gruta e da fogueira acesa, e veio até onde ANL estava.

O grande tigre ali se aninhou, aos pés de ANL, aquecendo com seu imenso corpo as pernas do iogue.

E começou a dormir, tranqüilo.

No dia seguinte, quando ANL saiu da meditação, viu que o tigre estava a seus pés, e o adorava.

ANL a princípio temeu assustá-lo, mas o tigre, extremamente sensível, logo percebeu que ANL abria os olhos.

ANL fez chá com cevada e viu que sua alimentação não era suficiente para alimentar o tigre. Ofereceu-lhe biscoitos, que o tigre aceitou e comeu.

ANL partiu. O tigre o seguia.

Durante toda a manhã andaram juntos até que, em certo momento, o tigre se afastou e sumiu.

Já era quase noite quando ANL sentiu que uma grande fera o perseguia. Preparou-se para defender-se ou fugir, mas aquilo ia rápido e atravessou o seu caminho: era o mesmo tigre que ali estava, e em sua boca trazia uma pequena gazela morta.

ANL parou, imóvel. O tigre depositou a gazela a seus pés. Um oferecimento.

Depois, o animal o guiou para uma gruta, antes que a noite caísse completamente.

ANL acendeu uma fogueira ali e assou a gazela.
Quando o jantar ficou pronto, cortou em pedaços e ia dando para o tigre. Mas compreendeu que devia também comer, para recompor suas forças. Não podia recusar o presente recebido. E comeu um pedaço.

Depois ele fez chá, com cevada e mel.
E dormiu. Dormiu profundamente. Mas mesmo em seu sono profundo, ele meditava.
Profundamente.

Aquela foi uma noite suave. ANL se alimentara bem, dormira bem. E sentia-se protegido. Seu amigo tigre, muito sensível, estava muito alerta à qualquer aproximação.

E naquele mesmo dia ANL teve de atravessar um rio. O tigre se ofereceu, como montaria.

E a partir de então ANL viajou montado num tigre. Em direção ao Tibet.


Assim se passaram vários dias de caminhada.

ANL viajava somente quando seu amigo tigre o levava. Quando o animal se recusava a partir significava que estava vindo uma tempestade, ou que algum perigoso animal estava próximo.
Já tão próximo do tigre como amigo, algumas vezes ANL brincava com ele. Chegava a dormir fazendo-o de travesseiro.
Mas dia a dia se aproximavam do Tibet, e cada vez eles estavam mais alto, mais para o Sul.

Um dia, ANL disse para o tigre:
– Até agora você me seguiu e protegeu, até agora você me auxiliou. Eu agradeço. Mas de hoje em diante tenho de seguir só. Estou perto das terras do País das Neves, e terra dos demônios, que estão esperando por mim. Cabe a mim enfrentá-los, ou morrer. Mas não posso morrer, antes de cumprir minha missão. Não posso morrer, porque nada pode matar-me. Se você for comigo não poderá socorrer-me desse novo perigo, mas pode ser atingido. Esta luta é só minha. Volte para a sua terra. Eu não o esquecerei.

Assim disse.
Tendo dito isso, ordenou que o animal se retirasse. O imenso tigre veio até ele, fez três circum-ambulações em torno dele, e partiu.

Naquela noite ANL pernoitou na fronteira do Tibet, em meditação, empunhando a lança.
No meio da noite uma sinistra presença se fez sentir. As árvores se curvavam, abatidas por um vento feroz. Um gigantesco e sinistro uivo se ouviu, como de uma loba no cio. Depois, o som ameaçador de uma gargalhada feminina, como se a noite se personificasse numa arrogante feiticeira, que perto dali estava, como um gigantesco demônio.
Era uma entidade feminina, violenta, cruel, terrível. Do seu corpo saía um terrível elemento escuro e ameaçador. Ele estava na encruzilhada, e com os braços impedia o caminhar. Como uma voz rascante, sibilina, disse para ANL:

– Daqui você não passa!

– Quem é você, ó poderosa deidade? – perguntou ANL.

– Eu sou Mutsamey, ah, ah, ah. Ninguém ousa desafiar-me. Saiba que esta terra me pertence. A mim! A mim! Eu sou a poderosa deidade dessas montanhas. Sou a Protetora da religião Bom. E se ria, e gritava.

E desapareceu.




Capítulo 8: A PRIMEIRA LUTA



No dia seguinte o tigre reapareceu.
Trazia uma caça na boca, mas ANL nada queria comer.
Mas o tigre insistiu tanto que ele aceitou.
Depois, enquanto o tigre comia, ANL entrou em meditação.
Depois do almoço, o tigre voltou para suas terras.
Depois que o tigre desapareceu, subitamente a terra estremeceu e as pedras da montanha começaram a cair. Uma grande fenda se abriu no chão.

As pedras fecharam ANL numa lapa onde ele se abrigara durante o almoço com seu amigo tigre.
Mas ANL fez um gesto e apareceu um túnel e ele pôde sair dali.

Quando saiu, encontrou Mutsamey muito irada, furiosa mas perplexa e quase aterrorizada com o poder de ANL que ela tentara soterrar.

ANL lhe um gesto ameaçador, mas então Mutsamey se posternou diante dele e se ofereceu para conceder proteção.

ANL aceitou, abençoou-a e lhe deu o nome secreto de “A grande e graciosa senhora da invencível turquesa”.



***

Saindo dali, ele cortou o vale de Mang-Yul.
Como Mutsamey continuasse a rondar, embora invisível, ANL em dado momento, no meio de uma série de montanhas iguais, invocou aquela deidade e lhe falou da seguinte forma:

— Graciosa Dama, diga-me qual é o meu caminho.
— O seu caminho não consigo saber. Para onde você vai?
— Eu vou para onde possa encontrar Samyé.
Então a Graciosa Dama indicou a correta direção e desapareceu silenciosamente.

Quando ANL chegou ao Planalto Celestial, subitamente o céu se escureceu e grandes nuvens negras se formaram.
Uma gigantesca trovoada rasgou os ares de ponta a ponta, como se quisesse destruir o universo inteiro. Quanto mais ANL avançava, mais o tempo ficava estranho, o céu escurecia e se tornava ameaçador.
Então um relâmpago partiu do céu e quase atingiu o lugar onde ele passava.

Vendo isso, ele parou.

Então ANL retirou um pequeno espelho do bolso, sentou-se na grama, esperou.

Quando novo relâmpago apareceu, ANL apontou para ele o pequeno espelho, aquilo foi refletido, voltou para o céu, eletrizando todo espaço celestial. Aquilo se espalhou por toda a cúpula celeste.

Um novo relâmpago se armou, muito mais fraco, e um terceiro mais parecia uma pequena faísca de pedra de isqueiro.

Depois disso, Nammen Karmo apareceu no céu em sua frente e mergulhou no Lago do Esplendor.

Mas ANL sabia que fora ela quem provocou toda aquela tempestade, e por isso fez o gesto do escorpião em direção ao lago, transformando-o numa gigantesca massa de fogo.

O Lago do Esplendor realmente se incendiou como se fosse feito de gasolina atingida pelo fogo, e depois o lago começou a incendiar e ferver.
Eram tão altas as chamas e a temperatura que a carne da deidade ficou separada dos ossos.

Nammen Karmo logo procurou escapar dali.

Mas ANL, tomando o vajra em sua mão, desferiu-lhe um golpe, fazendo-a recuar.

Então Nammen Karmo gritou:

— Eu não mais criarei problemas para você, por favor, me perdoe! – e ela estava submissa, mas como seu corpo já estava muito deformado e ela tinha perdido um olho, ANL a nomeou “Senhora invencível de um olho só”.

Nammen Karmo se transformou em protetora do Dharma.

Quando ANL chegou em O-Yuk, entrou pelo profundo desfiladeiro em caminhada serena, compassada.

Lá, uma deusa tenma tentou matá-lo.

Ele vinha pelo desfiladeiro, entre as duas elevações majestosas que se abrem para o Tibet, quando a deusa quis esmagá-lo entre as duas montanhas.

Vendo isso, ANL fez o mudra do escorpião em direção aquelas montanhas. E prosseguiu.
Na realidade a deusa tenma era incapaz de mover as montanhas.
Mas no final de O-Yuk ela conseguiu desmoronar algumas rochas pesadas e provocou uma avalanche com que pretendia soterrá-lo.
Então ANL, com o gesto do escorpião apontado para as rochas que caíam, e continuou o seu caminho. Todas as rochas vieram abaixo destruindo os lugares e bloqueando o caminho.
O mudra do escorpião, entretanto, estragou as residências das deusas tenma, os lugares onde elas viviam, nas montanhas.
Por causa disso, doze deusas tenma e mais doze deusas kyongma, e doze deusas yama com sua corte apareceram diante de ANL e se prosternaram.
— Nós prometendo não mais prejudicar, disseram as deusas, em coro.
E todas se transformaram em guardiãs do Dharma.

Quando ANL atravessava o vale de Chephu Shampo, uma terrível deidade chamada Yarlha Shampo apareceu, manifestando-se como um animal gigantesco, da altura de uma montanha.
Era um yak, de cujo nariz saía uma estranha fumaça irada, e a sua respiração tonitruante era terrível de ouvir.
Aquele animal gigantesco emitia relâmpagos como uma tempestade e ocupava uma grande área do céu.

Mas ANL domou o yak, tomando-o pelo nariz com o gesto do gancho, laçando seu imenso corpo com o gesto do laço, derrubando-o ao chão, amarrando-o pelas pernas com o gesto da corrente. E o golpeou com o gesto do sino.

Então o que aconteceu foi o seguinte: O imenso Yarlha Shampo se transformou num pequenino menino, vestido de seda branca, que logo se prosternou para ANL, submisso, devoto.



Mas quando ANL passou pelo planalto de Lhaitsa, o poderoso Thanlha apareceu diante dele na forma de um grande yak.

O yak tentou engolir ANL, que fez contra ele o gesto do escorpião. O yak se transformou em um pequeno menino com uma turquesa. E desapareceu.

Assim ANL continuou o seu caminho até ao meio-dia, quando o menino reapareceu diante dele, trazendo-lhe várias iguarias, que ofereceu a ele e se foi.

ANL aceitou e ali mesmo, sentado sobre a elevação de uma pedra, almoçou.

Mas ao longe, na direção do Norte, as montanhas apareciam ameaçadoramente escuras.

Sim, ele sabia que encontraria novos obstáculos no caminho. Mas calmamente almoçou, deitou-se na relva e dormiu por uns instantes, durante o qual sonhou com seu guru Ananda, que lhe apareceu sorrindo, aspergindo-lhe umas gotas de água perfumada sobre sua cabeça e depois desapareceu.

Quando acordou, algumas gotas de água da chuva estavam sobre seu rosto.

Reanimado, ANL voltou a andar.

Uma chuva fina começou a cair sobre toda a extensão do vale Lhaitsa, colocando brilhos adamantinos em todas as folhas de ervas.

ANL, abrigado sob sua capa, avançava na direção Norte.


* * *


A seguir vem uma passagem não se encontra na escrituras da época, mas vem da tradição oral. Foi-me relatada por um lama, num dia em que estávamos perto da grande estupa de Jarungkhasor.

Estava ANL então atravessando o Vale da Morte, perto do lago do mesmo nome, quando a noite caiu e ele se abrigou numa reentrância da montanha.

Mal tinha chegado lá, quando começava a meditar, uma bela jovenzinha apareceu, saída da ramagem. Estava quase nua, apesar do frio, e exalava o perfume de almíscar da montanha. Seus lábios eram grandes e carnudos. Seus seios, quase à mostra, estavam cheios de desejo, apontando o ar. O corpo seria de uma jovem de dezesseis anos, mas já completamente desenvolvido.

Aquela menina tentou seduzi-lo.

ANL não era um monge celibatário. Tinha, inclusive, casado, conforme se sabe. Mas ele não se interessou.

Vendo o desinteresse do iogue, a menina então lhe disse que tinha de partir, mas antes comentou de como ele podia estar viajando assim, daquela maneira, sozinho, naquela terra de tantos perigos.

— Você não tem medo de nada? – perguntou ela.

Ele refletiu um momento e respondeu:

— Sim, disse. Tenho medo de escorpiões.

ANL, que sempre habitava grutas em montanhas, tinha tido sempre problemas com os escorpiões que encontrava nas pedras.

Naquele momento a jovem se transformou num gigantesco escorpião, do tamanho de um cavalo.

O animal, irritado e terrível, veio atacar ANL. Seus membros eram fortes como colunas de aço, suas duas garras armadas pareciam invencíveis. Na extremidade da calda ele exibia um ferrão para fora, gotejante de veneno mortal. Era um animal muito ágil, rápido, apesar do peso. Parecia invencível.

Então naquele instante ANL se mostrou como Gurtak: Sua forma era gigantesca e terrível e tão alta quanto uma montanha. Rugia como um trovão. É mesmo difícil descrever: pois ele estava envolto em violentas labaredas de um fogo abrasador. Seu rosto tinha três olhos esbugalhados. Seus dentes eram de leão. A cabeça, adornada de crânios humanos, tinha os cabelos eriçados para cima. Um colar de cinqüenta cabeças de cadáveres estava pendurada no seu pescoço. Havia várias grandes cobras venenosas enroscadas por todo o seu corpo. Ele vestia uma saia feita de peles de tigres. Com a mão direita, ele empunhava um dorge e com a mão esquerda ele segurou aquele escorpião pelo meio que todo o corpo do animal se quebrou em pedaços.
Tendo erguido o escorpião no ar, atirou-o nas águas geladas do Lago da Morte, e no qual lançou o seu dorge. Quando o dorge caiu na água, o lago se incendiou como se fosse um vulcão.
Naquele momento o escorpião começou a gritar de horror.
Então ANL voltou calmamente à sua forma normal e o retirou do lago com o gesto do gancho, voltando o terrível animal a aparecer como uma bonita jovem, que se prosternou e prometeu servi-lo. Mas ANL a deixou partir e, como se nada tivesse acontecido, voltou a meditar tranqüilamente.





Capítulo 9 (último): O EXÉRCITO DOS YAKSHAS


ANL continuava na direção Norte. Aproximava-se de Phen.
Acontece que os yakshas machos e fêmeas, comandados por vários chefes yakshas, se reuniram vindos em grande exército nos ventos das montanhas glaciais dos três platôs do Norte, e se juntaram os três exércitos em um só para atacar ANL ali mesmo.

Um oceano de combatentes humanos ficaria paralisado e trêmulo de pavor diante de tal situação, pois cada um dos yakshas era por si só um poderoso e perigoso demônio.

Assim ANL teve um momento de indecisão e abatimento.

Mas o que sucedeu foi que ANL fez girar uma roda de fogo na ponta de seus dedos no gesto ameaçador. E toda a camada de gelo e neve das montanhas glaciais onde aqueles yakshas moravam se derreteu como manteiga tocada por uma ponta de ferro em brasa.

Só com isso o gigantesco exército de yakshas se rendeu ao poder de ANL. E seus chefes vieram oferecer paz e proteção.



Mais tarde, quando ANL entrou na Floresta Trambu, que fica no vale Tolung, encontrou um grupo de 21 tibetanos que vieram até ele a fim de dar-lhe boas vindas.
Eles trouxeram comida para o almoço, mas não havia água.
Para resolver isso, ANL especou a rocha com sua lança e a pura água dali brotou como uma fonte. Aquela água jorra até hoje lá e ficou conhecida como Fonte Divina do Vale.
Depois, pernoitando em Khala Cliff, ANL submeteu todos os espíritos tsen sob o juramento de não perturbar. E no dia em que ANL e sua comitiva passaram por Sulphuk todos os demônios foram dominados sob juramento.

Na chapada da Montanha Ridge eles permaneceram um dia, e ANL impôs a todos os espíritos gyalpo e os gongpo a submissão e o juramento de não mais atacar.

Essas foram as ações feitas por ANL, e muitos acreditam que tenham sido conseguidas por que ele era um mestre na prática da Deidade chamada Vajrakilaya.

Esse Vajrakilaya era conhecido por ANL desde quando ele ainda estava em Pharping, no Nepal, que na época se chamava Yanglesho.

Naquele tempo, quando ANL era professor da filha do rei do Nepal, Shakyadevi, possantes espíritos provocaram uma terrível seca de três anos, que veio acompanhada de epidemia e fome.

Então, ANL mandou perguntar de seus mestres indianos qual o ensinamento que pudesse remediar aquela situação de crise no Nepal.
Os enviados voltaram trazendo para ele o Tantra e os comentários de Vajrakilaya, e mesmo no momento em que os emissários foram chegando na região aquela praga foi sendo pacificada.

ANL e sua aluna Shakyadevi atingiram os dois o terceiro nível de vidyadhara, o “vidyadhara do grande selo, ou mahamudra” e ANL reconheceu a prática de Vajrakilaya como uma escolta armada que é necessário para se proteger dos obstáculos e os superar.

ANL compôs então a sadhana de Vajrakilaya e indicou como seu principal uso o guardar os ensinamentos.


* * *


Em Hepori, ANL encontrou o rei do Tibet e sua comitiva que vinha recebê-lo.
Após encontrá-lo, o Rei se irritou porque ANL não se prosternou perante ele. ANL fez apenas um gesto de homenagem com a mão.

O rei do Tibet se irritou com o atrevimento, mas assim que raios de terríveis luzes saíram da mão de ANL e rasgaram o manto real, o rei se intimidou. Os ministros ficaram terrificados, mas o rei compreendeu e se prosternou diante de ANL.
ANL então foi conduzido em cerimonial até o palácio, onde foi colocado num trono de ouro. Foi-lhe servido um pequeno banquete com vários tipos de bebidas, comidas e bolos. ANL quase nada provou. A seguir lhe foi oferecida uma capa de brocado marrom. O próprio rei lhe fez o oferecimento da mandala de ouro e turquesas.

ANL recebeu várias homenagens.

— Estou construindo um altar, disse-lhe o rei. Quero que o consagre.

— Majestade, esta terra é a pátria dos demônios. No meu caminho tive muitos problemas com eles. Mas, na montanha ali distante, mora o rei dos Nagas. Ele controla todo o Tibet e o Kham, disse ANL.
E acrescentou:
— Devo estabelecer ali um tesouro de naga.

Dias depois foi ANL para aquela montanha. Lá, realizou vários rituais para pacificar aquele e outros obstáculos. A seguir foi ao fim do vale Maldro, onde realizou vários rituais para o rei e seus súditos.

Dias depois, indo até o alto do Vale Maldro, ele realizou o ritual de estabelecer um tesouro para o rei dos Nagas. A seguir, em Hepori, ANL concentrou-se em magnificar uma torma numa vasilha de ônis. Na sua meditação, ele tomava todos os espíritos e demônios sob seu comando.

Mas o espírito Machen Pomra não o obedecia, e por isso ANL teve de dominá-lo com o gesto do gancho. Tendo feito isso, aconteceu que o espírito apareceu diante dele, vestido de uma capa de lã.

Machen Pomra era grande como uma montanha e dessa forma falou:

— Jovem monge, eu não posso desobedecer. Aqui estou. Dê as suas ordens.

ANL replicou:

— Aceite essas oferendas e atenda aos desejos do rei.

Machen Pomra respondeu:

— Vou fazer como você me ordena. Mas eu gosto muito de coisas de valor: essa torma feita de água não me satisfaz. Dê-me coisas mais valiosas!

Então ANL preparou oferecimentos com as cinco preciosas substâncias num prato de prata, abençoou tudo e ofereceu.

Machen Pomra se deu por satisfeito e desapareceu.

ANL continuou o seu trabalho de submeter os deuses e espíritos que impediam a implantação do seu trabalho de Dharma no Tibet.

Portanto começa aí o vasto império espiritual do Tibet.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

ALVARO VIEIRA PINTO






FUNDAMENTOS SOCIAIS DA CONSCIÊNCIA DO PESQUISADOR

ALVARO VIEIRA PINTO

UM dos progressos substanciais nas idéias atuais a respeito da pesquisa científica encontra-se no reconhecimento unânime de sua natureza social. De há muito se sabe que o pesquisador solitário, que trabalhava num improvisado laboratório, com o instrumental primitivo por ele mesmo construído, é uma figura histórica correspondente à fase pioneira na edificação das ciências naturais. A evolução do saber científico obriga-o hoje a ser um empreendimento coletivo, em que sem dúvida o pensamento individual continua sendo a fonte das idéias, das finalidades e dos projetos, bem como das interpretações dos resultados, porém essa atividade não se exerce mais no isolamento do laboratório ou do gabinete de estudo, e sim no meio de uma equipe de colaboradores, que operam em conjunto, segundo um plano que a todos liga em vista de um fim comum, embora havendo divisão, às vezes extremamente minuciosa, das funções de cada integrante do corpo de pesquisadores.

Há realmente uma situação nova, caracterizando a pesquisa atual. Importa-nos assinalar, entretanto, para conservar o fio do pensamento crítico, não devermos julgar que foi somente agora, por se haver tornado um trabalho de equipe, que a pesquisa científica adquiriu caráter social. Seria uma ingenuidade e uma infidelidade ao historicismo do pensar dialético. A pesquisa científica é e sempre foi social, porque possui esse atributo não por acidente, por circunstâncias de época, mas por essência, por natureza, e portanto já o manifestava, embora por aspectos diferentes dos atuais, mesmo quando se exercia em forma de trabalho ou de meditação solitária de um sábio, que se consagrava a indagar o segredo das propriedades dos corpos e a descobrir as leis que ligavam os fenômenos então conhecidos. Não é pelo fato de exigir agora um grupo de auxiliares e colaboradores, a distribuição de funções, a convergência de especialistas em diversos campos do saber para resolver qualquer problema definido,. que a pesquisa se veio a tomar social. Isto corresponde ao lado acidental, contemporâneo, de que se reveste atualmente a sua sociabilidade intrínseca, que sempre existiu, e se define não pela organização ou institucionalização do trabalho efetivo, mas pela fundamentação e motivações que a determinam.
A pesquisa é social porque o pesquisador, isolado ou em grupo, a empreende em razão de uma exigência; sem dúvida sentida subjetivamente, mas de origem e justificação objetivas, ou seja procedente de uma necessidade social. Deve distinguir-se entre o lado subjetivo, aquele que aparece à consciência do pesquisador com o caráter de motivação imediata, e o lado objetivo, que, embora quase sempre não sendo claramente apreendido, estabelece de fato a razão última que explica a dedicação do sábio ao trabalho, à especialidade a que se consagra, e mesmo o tipo de problema particular que lhe desperta a atenção. Não percebe de ordinário a insinuação, diríamos melhor, a imposição social, porque a sofre tão natural e insensivelmente que não chega a ter noção dela. A sociedade constitui o que se poderia, imitando a terminologia de certas filosofias idealistas, chamar de "sujeito transcendental" da pesquisa, na acepção de que envolve a pessoa do pesquisador e lhe propõe os temas do pensamento, que o estimulam a armar-se e partir para a aventura da investigação. Possivelmente o caráter permanentemente social da pesquisa só agora se tome evidente aos olhos de certos estudiosos em virtude da necessidade de organizar operações em escala tão ampla que não pode mais ser executadas por indivíduos isolados e sem colaboradores qualificados e igualmente especializados. O fundamento da pesquisa é necessariamente social por ser de base histórica. Em qualquer momento a exploração da realidade só se efetua com apoio nos conhecimentos verdadeiros existentes na época. A existência de tais conhecimentos, inclusive já compendiados em corpos de doutrina ou em ciências, com o desenvolvimento que a fase vivida no momento permite, sua conservação, o acesso a eles por parte do candidato a pesquisador, tudo isto são fatos sociais. A sociedade, enquanto sujeito histórico coletivo, perdurando ao longo do tempo, carrega em si os conhecimentos adquiridos em sucessivas épocas, vai constituindo-os em saber científico, racionalmente compendiados, e os transmite como herança cultural de uma geração a outra. O pesquisador de cada momento histórico, mesmo daqueles em que só era possível a ação individual, não faz mais do que incorporar-se a este movimento cultural, incorporando a si o conjunto das idéias que a sociedade do tempo lhe oferece.
A historicidade do saber tem por corolário a sociabilidade da pesquisa, no sentido em que o pesquisador deve à sociedade as possibilidades de tornar-se um descobridor de novos dados do saber. Mas deve-lhe isto não apenas porque conserva para ele o tesouro dos conhecimentos comprovados e sim também porque é ela a fonte das exigências, dos problemas objetivos que despertarão o interesse do estudioso e a que se dedicará. A sociedade funciona pois duplamente no papel de agente supra-individual da pesquisa científica: enquanto depositária do saber acumulado, que possibilita o estudo do assunto em dado momento; na qualidade de determinante do interesse na resolução de tal ou qual problema em uma situação definida. Este segundo conceito merece particular atenção. A pesquisa científica não constitui, segundo pensava Dewey, uma "situação", em virtude apenas do conjunto de dados e relações que configuram o problema em causa. Parte de uma "situação" em sentido muito mais amplo, desconhecido e inalcançável pelo modo de pensar pragmatista, sendo o oposto deste. A "situação" tem de entender-se aqui em sentido dialético, isto é, enquanto totalidade da realidade num momento histórico definido, envolvendo tanto um aspecto do mundo objetivo, que se revela origem de um obstáculo existencial, por isso conduzindo ao projeto humano de suprimi-lo ou saltá-lo, quanto a inclusão do próprio observador em tal mundo, pelas condições de caráter social que afetam a vida da comunidade, de que ele, como cientista, se sente chamado a ocupar-se. A sociologia do saber só encontra os verdadeiros alicerces, só escapa de cair nas insuficiências do pragmatismo, do subjetivismo ou do formalismo especulativo sob qualquer de suas variedades positivistas atuais, quando assenta em princípios dialéticos. Dois desses são fundamentais, e, diríamos, - traçam a linha de partida de todda reflexão progressista neste terreno: o da contradição original, definidora da realidade do homem, a que o opõe à natureza; e, em segundo lugar, o da interdependência entre o indivíduo e a comunidade. A importância deste último consiste em que explica o aspecto histórico do processo de acumulação do saber, e sua utilização a cada momento como base para a pesquisa científica possível na situação então presente.
Estes dois conceitos são de caráter principal, pois compõem o ângulo supremo de compreensão em que devemos abranger a teoria da sociologia. do saber. A respeito do primeiro aspecto em várias passagens anteriores tecemos considerações epistemológicas. Vale a pena acentuar agora a importância do segundo. Sabemos ser um traço existencial do ser humano o achar-se sempre em "situação". Com este conceito tem sido entendido o fato de só existir em certo lugar e em certo período do tempo. Mas, parece-nos não se reduzirem apenas a estas as coordenadas que lhe outorgam existencialmente uma "situação". Não se trata unicamente de dimensões de tempo e de espaço, mas de parâmetros históricos, isto é, a localização do homem no espaço e no tempo afeta-o principalmente pelo aspecto qualitativo. As qualidades de lugar e tempo que se manifestam mais sensivelmente pela noção de fase do desenvolvimento da comunidade nacional em que o homem existe, sintetizam-se no conceito de processo social, e encontram o traço distintivo na noção de historicidade. Dizer que o homem se define como um ser "em situação" significa dizer concretamente que é um ser "em situação social". Pertence a determinada comunidade nacional e dentro dela, a uma região particular, nela ocupa lugar definido na estrutura da sociedade, que o carrega de correlações concretas com os demais membros do grupo, de que resultam condicionamentos de conduta prática e de concepções ideológicas, das quais não pode deixar de tomar conhecimento. Esse lugar na comunidade, por outra parte é estabelecido igualmente em função do tempo histórico, pois o grupo a que pertence o indivíduo não forma um todo invariável, mas um processo, de modo que a mesma comunidade tem uma realidade em certo momento e outra em época diferente. O homem existe sempre em situação, mas esta é cambiante, o condicionamento entre o indivíduo e o ambiente varia constantemente em qualidade e intensidade. Faz-se mister acentuar o caráter de processo de que se reveste êsse condicionamento, e em particular a natureza da ação recíproca entre o indivíduo e o grupo, pois esta desempenha papel capital na correta teoria sociológica da pesquisa científica. O cientista é um trabalhador especializado, estando submetido às condições gerais que afetam o trabalho na sua comunidade. Nesse âmbito configura-se aquilo que será para êle a sua "situação". Como todo trabalhador, está em relação de reciprocidade com o grupo. Com efeito, de um lado pode ser apreciado enquanto elemento no qual o grupo atua, impondo-se a ele, funcionando por este aspecto como determinante do indivíduo; mas, por outro lado, em virtude do projeto da pesquisa científica e a conseqüente criação do saber terem de partir de uma consciência que só existe concretamente em condição individual, a ação do grupo se transmuta na reação livre partida da consciência pessoal, que recebe as influências da comunidade, não passiva mas ativa e criadoramente. Por este aspecto o indivíduo aparece como o fator determinante e o grupo o paciente. A situação compõe-se assim dessa contradição, desse jogo de pressões e influências opostas, a do indivíduo, que pode ser apreciado do ponto de vista da direção pelo meio social, porque nenhuma tarefa científica que concebesse teria cabimento nem racionalidade se não fosse recebida e sancionada pelo meio; e a do meio, que, inversamente, pode ser considerado influído pelo indivíduo, sobretudo pelo criador científico de alta competência que lhe oferece o projeto de ações transformadoras da realidade, que a consciência social, consubstanciada na elite que tem o comando dos interesses econômicos e políticos do grupo, julga meritória e oportuna. Uma sociologia do saber que não se funde na correlação recíproca entre o indivíduo e a coletividade, levando sempre em conta, no caso de sociedades como as nossas, o estado de divisão destas, será necessariamente formalista e ingênua. Terá de privilegiar um dos elementos opostos, o que conduz ao julgamento equivocado do papel de ambos. Somente a concepção dialética estabelece base sólida de compreensão, porque mostra a ação recíproca e a unidade desses termos opostos, e ademais interpreta tal correlação como processo histórico.

Há realmente uma situação nova, caracterizando a pesquisa atual. Importa-nos assinalar, entretanto, para conservar o fio do pensamento crítico, não devemos julgar que foi somente agora, por se haver tomado um trabalho de equipe, que a pesquisa científica adquiriu caráter social. Seria uma ingenuidade e uma infidelidade ao historicismo do pensar dialético. A pesquisa científica é e sempre foi social, porque possui esse atributo não por acidente, por circunstâncias de época, mas por essência, por natureza, e portanto já o manifestava, embora por aspectos diferentes dos atuais, mesmo quando se exercia em forma de trabalho ou de meditação solitária de um sábio, que se consagrava a indagar o segredo das propriedades dos corpos e a descobrir as leis que ligavam os fenômenos então conhecidos. Não é pelo fato de exigir agora um grupo de auxiliares e colaboradores, a distribuição de funções, a convergência de especialistas em diversos campos do saber para resolver qualquer problema definido,. que a pesquisa se veio a tomar social. Isto corresponde ao lado acidental, contemporâneo, de que se reveste atualmente a sua sociabilidade intrínseca, que sempre existiu, e se define não pela organização ou institucionalização do trabalho efetivo, mas pela fundamentação e motivações que a determinam.

A pesquisa é social porque o pesquisador, isolado ou em grupo, a empreende em razão de uma exigência; sem dúvida sentida subjetivamente, mas de origem e justificação objetivas, ou seja procedente de umà necessidade social. Deve distinguir-se entre o lado subjetivo, aquele que aparece à consciência do pesquisador com o caráter de motivação imediata, e o lado objetivo, que, embora quase sempre não sendo claramente apreendido, estabelece de fato a razão última que explica a dedicação do sábio ao trabalho, à especialidade a que se consagra, e mesmo o tipo de problema particular que lhe desperta a atenção. Não percebe de ordinário a insi. nuação, diríamos melhor, a imposição social, porque a sofre tão natural e insensivelmente que não chega a ter noção dela. A sociedade constitui o que se poderia, imitando a terminologia de certas filosofias idealistas, chamar de "sujeito transcendental" da pesquisa, na acepção de que envolve a pessoa do pesquisador e lhe propõe os temas do pensamento, que o estimulam a armar-se e partir para a aventura da investigação. Possivelmente o caráter permanentemente social da pesquisa só agora se tome evidente aos olhos de certos estudiosos em virtude da necessidade de organizar operações em escala tão ampla que não podem mais ser executadas por indivíduos isolados e sem colaboradores qualificados e igualmente especializados. O fundamento da pesquisa é necessariamente social por ser de base histórica. Em qualquer momento a exploração da realidade só se efetua com apoio nos conhecimentos verdadeiros existentes na época. A existência de tais conhecimentos, inclusive já compendiados em corpos de doutrina ou em ciências, com o desenvolvimento que a fase vivida no momento permite, sua conservação, o acesso a eles por parte do candidato a pesquisador, tudo isto são fatos sociais. A sociedade, enquanto sujeito histórico coletivo, perdurando ao longo do tempo, carrega em si os conhecimentos adquiridos em sucessivas épocas, vai constituindo-os em saber científico, racionalmente compendiados, e os transmite como herança cultural de uma geração a outra. O pesquisador de cada momento histórico, mesmo daqueles em que só era possível a ação individual, não faz mais do que incorporar-se a este movimento cultural, incorporando a si o conjunto das idéias que a sociedade do tempo lhe oferece.

A historicidade do saber tem por corolário a sociabilidade da pesquisa, no sentido em que o pesquisador deve à sociedade as possibilidades de tornar-se um descobridor de novos dados do saber. Mas deve-lhe isto não apenas porque conserva para ele o tesouro dos conhecimentos comprovados e sim também porque é ela a fonte das exigências, dos problemas objetivos que despertarão o interesse do estudioso e a que se dedicará. A sociedade funciona pois duplamente no papel de agente supra-individual da pesquisa científica: enquanto depositária do saber acumulado, que possibilita o estudo do assunto em dado momento; na qualidade de determinante do interesse na resolução de tal ou qual problema em uma situação definida. Este segundo conceito merece particular atenção. A pesquisa científica não constitui, segundo pensava Dewey, uma "situação", em virtude apenas do conjunto de dados e relações que configuram o problema em causa. Parte de uma "situação" em sentido muito mais amplo, desconhecido e inalcançável pelo modo de pensar pragmatista, sendo o oposto deste. A "situação" tem de entender-se aqui em sentido dialético, isto é, enquanto totalidade da realidade num momento histórico definido, envolvendo tanto um aspecto do mundo objetivo, que se revela origem de um obstáculo existencial, por isso conduzindo ao projeto humano de suprimi-lo ou saltá-lo, quanto a inclusão do próprio observador em tal mundo, pelas condições de caráter social que afetam a vida da comunidade, de que ele, como cientista, se sente (...) e sem colaboradores qualificados e igualmente especializados. O fundamento da pesquisa é necessariamente social por ser de base histórica. Em qualquer momento a exploração da realidade só se efetua com apoio nos conhecimentos verdadeiros existentes na época. A existência de tais conhecimentos, inclusive já compendiados em corpos de doutrina ou em ciências, com o desenvolvimento que a fase vivida no momento permite, sua conservação, o acesso a eles por parte do candidato a pesquisador, tudo isto são fatos sociais. A sociedade, enquanto sujeito histórico coletivo, perdurando ao longo do tempo, carrega em si os conhecimentos adquiridos em sucessivas épocas, vai constituindo-os em saber científico, racionalmente compendiados, e os transmite como herança cultural de uma geração a outra. O pesquisador de cada momento histórico, mesmo daqueles em que só era possível a ação individual, não faz mais do que incorporar-se a este movimento cultural, incorporando a si o conjunto das idéias que a sociedade do tempo lhe oferece.



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CONCEITO DE EDUCAÇÃO

Que é a educação?
Deixaremos de lado as numerosas definições eruditas, que não vamos
mencionar, nem podemos discutir e consideraremos a educação em seus
dois significados: restrito e amplo.
Em significado restrito, o da pedagogia clássica, convencional,
sistematizada, refere-se a educação às fases infantil e juvenil da vida do
ser humano. Não se deve, no entanto, reduzi-la a esses limites. Seria um
erro lógico, filosófico e sociológico.
Em sentido amplo (e autêntico) a educação diz respeito à existência
humana em toda a sua duração e em todos os seus aspectos. Desta maneira
deve-se justificar lógica e sociologicamente o problema da educação de
adultos. Daqui sai a verdadeira definição de educação.
A educação é o processo pelo qual a sociedade forma seus membros à sua
imagem e em função de seus interesses.
Por conseqüência, educação é formação (Bildung) do homem pela
sociedade, ou seja, o processo pelo qual a sociedade atua constantemente
sobre o desenvolvimento do ser humano no intento de integrá-lo no modo
de ser social vigente e de conduzi-lo a aceitar e buscar os fins coletivos.

Caráter histórico-antropológico da educação

Partindo da definição exposta, podemos explicitar os caracteres da
educação:
a) A educação é um processo, portanto é o decorrer de um fenômeno (a
formação do homem) no tempo, ou seja, é um fato histórico. Todavia,
é histórico em duplo sentido: primeiro, no sentido de que representa a
própria história individual de cada ser humano; segundo, no sentido de que
está vinculada à fase vivida pela comunidade em sua contínua evolução.
Sendo um processo, desde logo se vê que não pode ser racionalmente
interpretada com os instrumentos da lógica formal, mas somente com as
categorias da lógica dialética.
b) A educação é um fato existencial. Refere-se ao modo como (por si
mesmo e pelas ações exteriores que sofre) o homem se faz ser homem. A
educação configura o homem em toda sua realidade. Pode-se dizer (em

outra versão da definição) que é o processo pelo qual o homem adquire
sua essência (real, social, não metafísica). É o processo constitutivo do ser
humano.
c) A educação é um fato social. Refere-se à sociedade como um todo. É
determinada pelo interesse que move a comunidade a integrar todos os
seus membros â forma social vigente (relações econômicas, instituições,
usos, ciências, atividades, etc.). É o procedimento pelo qual a sociedade
se reproduz a si mesma ao longo de sua duração temporal. Contudo, neste
processo de auto-reprodução está contida, desde logo, uma contradição:
a sociedade desejaria fazer-se no tempo futuro o mais igual possível a si
mesma; porém, a dinâmica da educação atua em sentido oposto, uma vez
que engendra necessariamente o progresso social, isto é, a diferenciação
do futuro em relação ao presente. Daí deriva o duplo aspecto do fato social
da educação: incorporação dos indivíduos ao estado existente (a intenção
de perpetuidade, de conservação, de invariabilidade, inércia pedagógica,
estabilidade educacional) e progresso, isto é, necessidade de ruptura do
equilíbrio presente, de adiantamento, de criação do novo. Esta contradição
pertence à própria essência da educação dada sua natureza histórico-
antropológica. Por ser contraditória é que a educação é instrumental (no
sentido em que a consciência crítica emprega este qualificativo). Quando
se verifica a simultaneidade consciente de incorporação e progresso,
tem-se a educação em sua forma integrada, isto é, a plena realização da
natureza humana.
d) A educação é um fenômeno cultural. Não somente os conhecimentos,
experiências, usos, crenças, valores, etc. a transmitir ao indivíduo, mas
também os métodos utilizados pela totalidade social para exercer sua ação
educativa são parte do fundo cultural da comunidade e dependem do grau
de seu desenvolvimento. Em outras palavras, a educação é a transmissão
integrada da cultura em todos os seus aspectos, segundo os moldes e pelos
meios que a própria cultura existente possibilita. O método pedagógico
é função da cultura existente. O saber é o conjunto dos dados da cultura
que se têm tornado socialmente conscientes e que a sociedade é capaz
de expressar pela linguagem. Nas sociedades iletradas não existe saber
graficamente conservado pela escrita, contudo, há transmissão do saber
pela prática social, pela via oral e, portanto, há educação.
e) Nas sociedades altamente desenvolvidas, com divisões internas em

classes opostas, a educação não pode conectar na formação uniforme
de todos os seus membros, porque: por um lado, é excessivo o número
de dados a transmitir; e, por outro, não há interesse nem possibilidade
e formar indivíduos iguais, mas se busca manter a desigualdade social
presente. Por isso, em tais sociedades, a educação pelo saber letrado é
sempre privilégio de um grupo ou dá-se, no sentido que se segue:
— somente este grupo tem assegurado o direito (real, concreto) de saber
(p. ex., alfabetização);
— somente membros desse grupo se especializam na tarefa de educar;
— somente e se o grupo tem o direito e o poder de legislar sobre a
educação, ou seja, de definir aquilo em que deva consistir a educação
institucionalizada, escolarizada. É conseqüência, essa minoria unicamente
reconhecerá com educação a deste último tipo. Todo o restante do saber
não letrado, e as demais formas de cultura que a sociedade transmite a
seus outros membros, é considerado incultura e ausência de educação.
f) A educação se desenvolve sobre o fundamento do processo
econômico da sociedade. Porque é ele que:
— determina as possibilidades e as condições de cada fase cultural;
— determina a distribuição das probabilidades educacionais na
sociedade, em virtude do papel que atribui a cada indivíduo dentro da
comunidade;
— proporciona os meios materiais para a execução do trabalho
educacional, sua extensão e sua profundidade;
— dita os fins gerais da educação, que determina em uma dada
comunidade serão formados indivíduos de níveis culturais distintos, de
acordo com sua posição no trabalho comum (na sociedade fechada,
dividida) ou se todos devem ter as mesmas oportunidades e possibilidades
de aprender (sociedades democráticas).
g) A educação é uma atividade teleológica. A formação do indivíduo
sempre visa a um fim. Está sempre "dirigida para". No sentido geral
esse fim é a conversão do educando em membro útil da comunidade. No
sentido restrito, formar, escolar, é a preparação de diferentes tipos de
indivíduos para executar as tarefas específicas da vida comunitária (daí a
divisão da instrução em graus, em carreiras, etc.). O que determina os fins
da educação são os interesses do grupo que detêm o comando social.
h) A educação é uma modalidade de trabalho social. Para compreendê-la

é necessário utilizar as categorias histórico-antropológicas dialéticas, que
definem o conceito de "trabalho". A educação é parte do trabalho social
porque:
- trata de formar os membros da comunidade para o desempenho de uma
função de trabalho no âmbito da atividade total;
- o educador é um trabalhador (reconhecido como tal);
- no caso especial da educação de adultos, dirige-se a outro trabalhador, a
quem tenciona transmitir conhecimentos que lhe permitam elevar-se em
sua condição de trabalhador.
i) A educação é um fato de ordem consciente. É determinada pelo grau
alcançado pela consciência social e objetiva suscitar no educando a
consciência de si e do mundo. É a formação da autoconsciência social
ao longo do tempo em todos os indivíduos que compõem a comunidade.
Parte da inconsciência cultural (educação primitiva, iletrada) e atravessa
múltiplas etapas de consciência crescente de si e da realidade objetiva
(mediante o saber adquirido, a cultura, a ciência, etc.) até chegar à plena
autoconsciência. Esta será a etapa em que todos os indivíduos alcançam
igualmente o máximo de consciência crítica de si e de seu mundo
permitida pelo estado de adiantamento do processo da realidade (máxima
consciência historicamente possível).
j) A educação é um processo exponencial, isto é, multiplica-se por si
mesma com sua própria realização. Quanto mais educado, mais necessita
o homem educar-se e, portanto exige mais educação. Como esta não está
jamais acabada, uma vez adquirido o conhecimento existente (educação
transmissiva) ingressa-se na fase criadora do saber (educação inventiva).
k) A educação é por essência concreta. Pode ser concebida a priori,
mas o que a define é sua realização objetiva, concreta. Esta realização
depende das situações históricas objetivas, das forças sociais presentes,
de seu conflito, dos interesses em causa, da extensão das massas privadas
de conhecimento, etc. Por isso, toda discussão abstrata sobre educação
é inútil e prejudicial, trazendo em seu bojo sempre um estratagema da
consciência dominante para justificar-se e deixar de cumprir seus deveres
culturais para com o povo.
I) A educação é por natureza contraditória, pois implica simultaneamente
conservação (dos dados do saber adquirido) e criação, ou seja, crítica,
negação e substituição do saber existente. Somente desta maneira é
profícua, pois do contrário seria a repetição eterna do saber considerado
definitivo e a anulação de toda possibilidade de criação do novo e do
progresso da cultura.


in SETE LIÇÕES SOBRE EDUCAÇÃO DE ADULTOS (consulta na Internet)

ENTREVISTA

Dermeval Saviani São Paulo, abril de 1982


Segue, pois, a transcrição da entrevista que se desenrolou de maneira informal, sem questões prévias ou roteiro preestabelecido. Não se pretendeu discutir as idéias do autor; o objetivo foi reconstituir, na medida do possível, a sua trajetória intelectual.
Dermeval Saviani - O senhor poderia falar um pouco sobre sua vida, sua formação intelectual?
Álvaro Vieira Pinto - Minha origem é de um rapaz de classe média pobre, que teve necessidade de trabalhar logo cedo. Fui aluno do colégio dos jesuítas, o Santo Inácio no Rio de Janeiro. Naquele tempo, os exames eram feitos no Pedro II, para passar de um ano para outro no colégio. Quando terminei os estudos no Colégio Santo Inácio fiquei um ano disponível, sem poder entrar na faculdade, pois era muito jovem. Tinha decidido estudar medicina. Minha família morou algum tempo em São Paulo onde fiquei um ano, mas sem estudar nada de ciências. Foi um ano importante, porque foi um ano de formação literária e filosófica. Muito moço, com 14 anos, foi quando vim para o Rio de Janeiro, fazer o concurso vestibular para a Faculdade Nacional de Medicina. Passei em penúltimo lugar na turma e depois fui ser um dos primeiros alunos, porque eu não tinha formação nenhuma preparatória para aquele concurso: em São Paulo estudei muito e fiz relações com alguns intelectuais que naquele tempo estavam saindo da agitação do período da Semana de Arte Moderna. Eu já os peguei quando eles se reuniam todas as semanas, todas as noites, todos os dias quase, no café do Largo do Ouvidor, se não me engano, em São Paulo. Segui a carreira médica com muita dificuldade, porque logo depois meu pai teve um fracasso econômico e fiquei sem apoio, tendo que trabalhar para sustentar a família. Perdi minha mãe nesse período e ficamos quatro irmãos. Ficamos sem apoio e sem condições de fazer alguma coisa. Comecei a dar aulas num colégio de freiras, aulas de filosofia, de física, curso primário. Apesar disso ia fazendo aos poucos os meus estudos de medicina muito mal, para terminar o 5º. e 6º. anos e me formar. Quando me formei, tentei fazer Clínica, justamente em São Paulo, em Aparecida, mas não tive sucesso nenhum e não havia a menor condição para isso. Meu consultório era num quarto de hotel. Voltei para o Rio e aqui, com apoio de um amigo que me apresentou ao Álvaro Osório de Almeida, que naquele tempo estava com grande fama, porque estava fazendo pesquisas sobre o câncer, e trabalhos submetendo pacientes a pressões atmosféricas elevadas, com câmaras especiais. Fiquei trabalhando nisso, mas os resultados foram nulos. Assim trabalhei 16 anos, mas já nesse tempo com a minha inclinação filosófica, eu estava dando aulas também na Faculdade de Filosofia, que tinha sido fundada no Distrito Federal naquele tempo, mas logo depois essa faculdade fechou e criou-se a Faculdade Nacional de Filosofia, para onde eu passei na qualidade de professor adjunto. Comecei a dar cursos sobre lógica matemática, mas um ano depois veio a guerra, houve a vaga na cadeira de História da Filosofia por causa de uma mudança de professores que saíram porque eram alemães e eu era o único assistente na cadeira de Filosofia, sendo então nomeado professor substituto em História da Filosofia.
Saviani — Mas o senhor não tinha feito curso de Filosofia...
Vieira Pinto - Não tinha feito nenhum curso de Filosofia, tinha apenas estudado muito, em livros todos eles de orientação tomista evidentemente, porque fiz o curso que havia no Colégio Santo Inácio, com a duração de um ano de Filosofia, coisa que era uma novidade naquela época. Depois de quatro anos na Faculdade Nacional de Filosofia, pude então ir à Europa onde fui estudar na Sorbonne, o tempo suficiente para ver e sentir o ambiente filosófico de Paris.
Saviani — Isso foi em que época?
Vieira Pinto     Isso foi em 1949.
Saviani — O senhor ficou quantos anos na França?
Vieira Pinto — Na França fiquei quase um ano estudando; aí eu já tinha em mente o tema da minha tese, para defesa da cátedra na Faculdade de Filosofia na volta. Foi a tese sobre a cosmologia de Platão. Dei duas conferências sobre essa tese lá em Paris que foi discutida, muito comentada. Recolhi material e com isso fiz o meu trabalho aqui no Brasil para apresentá-lo na Faculdade. Afinal, fui aprovado e nomeado para a Faculdade de Filosofia. Logo depois terminou o meu trabalho no laboratório de Biologia, porque o laboratório foi transformado em instituição privada, com o que não concordei. Fiquei então na Faculdade como professor, mas aí não mais de Lógica e sim de História da Filosofia, onde permaneci vários anos.
Saviani - O seu estudo na Europa foi só na França ou em algum outro país mais?
Vieira Pinto Não. Visitei outros países: Itália, Espanha, Portugal, mas estudo só na França.
Saviani — E os seus conhecimentos de línguas?
Vieira Pinto - Bom, isso aí foi um pouco inclinação natural que eu tive sempre pelas línguas e fui aprendendo com a leitura, não tive professor particular, fui aprendendo quase que sozinho, decorando palavras e aprendendo textos, exceto o grego que aprendi com um rapaz ex-seminarista que sabia muito bem o grego e que me deu aulas, uma vez por semana, durante 2 anos.
Saviani - No Colégio Santo Inácio o senhor não estudava línguas?
Vieira Pinto - Só inglês e francês e foi mesmo a única base que tive, porque eu estudava seriamente e a prova está que só com aquele estudo pude me preparar para o trabalho de leitura e conversação em inglês e francês. O alemão foi por acaso. Estudei sozinho lendo gramáticas e livros de textos. O russo, eu tive por professor um começo de ensino com um velho oficial de marinha, refugiado, que me dava aulas gratuitamente e depois sozinho com dicionários e textos fui aos poucos me desenvolvendo.
Saviani — Mais uma coisa sobre as línguas. E o latim o senhor estudou no Colégio Santo Inácio?
Vieira Pinto — Sim, o latim estudei no Colégio Santo Inácio. Era um bom estudo.
Saviani — O senhor então domina o latim, o grego, o francês, o inglês, o alemão, o russo, o espanhol e o italiano?
Vieira Pinto — Sim. Tenho conhecimentos suficientes desses idiomas. Mais tarde aprendi um pouco de sérvio-croata, quando estive no exílio na Iugoslávia, mas isso foi uma coisa efêmera, pois sabia que não precisava mais daquele estudo. Estudei para ler o jornal daquele país para saber as, notícias da nossa terra.
Saviani — O senhor fez curso de Matemática?
Vieira Pinto - Sim. Fiz o curso de matemática superior, porque tinha um amigo, que depois foi meu colega de faculdade, hoje falecido, que me incentivou para fazer o curso de matemática. Era professor de mecânica superior. Fiz o curso na Universidade do Distrito Federal, que então existia. Mas o curso tinha dois alunos só, eu e um repetente. No meio do ano encerrou-se o curso, pois a escola fechou. As aulas eram dadas em um café. Mas com professores da melhor qualidade, homens de grande valor, 2 ou 3 só. Fiquei num dilema, pois precisava da matemática para entender o problema do raio-X. Como eu usava muito o raio-X no tratamento de doentes e de animais, eu precisava conhecer bem a física corpuscular e daí a necessidade que tive de me fazer competente também nessas questões.
Saviani - E a Física, o senhor chegou a fazer algum curso regular dentro da própria Medicina?
Vieira Pinto - Dentro da Medicina não. O curso de Física foi feito juntamente com o curso de Matemática.
Saviani — Então o senhor estudou Matemática e Física na época em que o senhor trabalhava no laboratório?
Vieira Pinto — Sim, no laboratório de Biologia.
Saviani — O laboratório pertencia ao hospital?
Vieira Pinto — Não, não pertencia ao hospital, apenas funcionava lá.
Saviani — O senhor era assistente no laboratório e também médico no hospital?
Vieira Pinto - O laboratório também era um hospital, porque tínhamos uma parte de pesquisa e outra de enfermaria.
Saviani - Paramos quando o senhor, voltando da Europa, assumiu a cadeira de História da Filosofia.
Vieira Pinto — Eu já era professor adjunto na Faculdade quando saí com uma licença especial para ir à Europa estudar. Fui, fiquei um tempo, voltei e reassumi a cadeira de História da Filosofia.
Saviani — Isto já era 1951?
Vieira Pinto — Sim, pois foi em 1951 que fiz o concurso e fui aprovado e nomeado professor catedrático.
Saviani — Como professor de História da Filosofia qual era a orientação filosófica que o senhor desenvolvia nos cursos?
Vieira Pinto — Era uma orientação exclusivamente pragmática, quer dizer, eu dava o curso seguindo os manuais da filosofia comum, idealista, mas sempre num nível superior e elevado, desenvolvia cronologicamente o pensamento. Porque eram 3 anos de filosofia grega, medieval, moderna e contemporânea. Isso tinha que ser dado em condições precárias, eu não tinha assistente algum. Mais tarde um ex-aluno tornou-se meu assistente, José Américo Pessanha, que dividiu comigo um pouco as atividades. Depois entra outro período, que é o do aparecimento do ISEB, e o convite casual que recebi de Roland Corbisier, para ser professor de Filosofia no ISEB. Isto em 1955. Com a entrada para o ISEB fui mudando aos poucos de orientação, fui tomando uma orientação mais objetivista, menos idealista e deixando de lado toda aquela forma clássica de ensinar História da Filosofia, que era puramente repetir o que o outro disse. Passei a fazer uma exposição sobre o autor e depois a crítica, o que me dava oportunidade de alargar mais o meu campo de pensamento, embora sem jamais ter chegado a impor a ninguém qualquer idéia extremista, ou qualquer idéia que julgava tal, que fosse considerada indevida num currículo de Filosofia. Na Faculdade de Filosofia jamais saí da linha puramente ortodoxa do ensino da Filosofia; o que fazia era seguir os autores, naturalmente que se o autor dissesse alguma coisa com a qual eu não concordava tinha que dizer o mesmo, porque a minha obrigação era ensinar, não o que eu pensava, mas o que os outros pensavam. Então eu tinha que repetir, resumir, repetir e depois fazer alguma crítica, mas muito pouco elaborada, porque senão eu perderia muito tempo na crítica e acabava não podendo adiantar a matéria.
Saviani — O senhor assumiu a perspectiva existencialista?
Vieira Pinto - Realmente, nessa época, como estava numa transição rápida, eu assumi muitas das posições existencialistas que não conhecia até então, e assim tive oportunidade de sentir o que havia de verdade nelas, não apenas no sistema que apresentavam, mas nos conceitos que se podiam aproveitar e procurava formular por mim novas maneiras de expor certas idéias de ordem humanista, de ordem historicista e nacionalista; e acabou sendo o oposto do próprio existencialismo, mas que tinha tirado do existencialismo, no sentido de que via a realidade do homem passando por aquela situação e chegando a outras conclusões. Depois, quando fecharam o ISEB, fui para o exílio.
Saviani - Sobre o ISEB, o senhor chegou a tomar conhecimento de alguns estudos posteriores a respeito do ISEB quando estava no exílio?
Vieira Pinto - Não, não cheguei.
Saviani -  Nem do Nelson Werneck Sodré?
Vieira Pinto — Não.
Saviani — E o exílio na Iugoslávia?
Vieira Pinto — Fui para a Iugoslávia e lá fiquei um ano totalmente inativo, sem poder dar aula, pois conhecia muito mal a língua. Depois de um ano fui para o Chile, por sugestão de Paulo Freire. Ele conseguiu arranjar alguma coisa que eu pudesse fazer e de fato recebi convite para fazer conferências, organizadas por professores do Ministério da Educação juntamente com o Paulo Freire.
Saviani - Esse curso de conferências que o senhor preparou sobre educação em 1966, o senhor se lembra dos itens?
Vieira Pinto - Educação, origem, base, finalidade, significado, técnicas, recursos, meios, como a realidade é modificada pela educação, todo problema geral da educação para adultos, para professores que educavam adultos, analfabetos, homens do campo geralmente. Dei conferências também para professores.  Eram cursos extras de verão.
 Saviani — O senhor ficou quanto tempo no Chile?
Vieira Pinto — Fiquei quase três anos no Chile, em fins de 68 voltei.
Saviani — O trabalho principal que o senhor fez no Chile, foram esses cursos?
Vieira Pinto — Esses cursos e ao mesmo tempo também tinha conseguido que um amigo brasileiro que trabalhava no CELADE (Centro Latino-Americano de Demografia) me apresentasse à Diretora que me deu trabalho de tradução de alguns pequenos panfletos. Depois a Diretora resolveu me contratar a fim de escrever um livro sobre Demografia para o CELADE. Eu não sabia o que fazer porque não sabia nada sobre Demografia, mas acabei estudando e escrevi um livro sobre o pensamento crítico em Demografia, que dois anos depois o CELADE mandou editar, mas que não teve entrada no Brasil. Está difundido na América toda, menos no Brasil.
Saviani — Foi editado só em espanhol?
Vieira Pinto — Sim, só em espanhol.
Saviani — E o senhor não tem exemplares desse livro?
Vieira Pinto — Tenho ainda dois exemplares. Você já viu o livro?
Saviani — Ainda não vi.
Vieira Pinto — Escrevi o livro em 8 meses. Considero um livro de grande importância para o meu pensamento; é um livro de grande significação.
Saviani - Gostaria de ler esse livro.
Vieira Pinto — Tenho apenas 2 exemplares. No CELADE talvez haja ainda outros, deve haver. No México foi muito lido, teve muita repercussão, foi muito procurado. Quando acabei esse livro, no ano seguinte a Diretora do CELADE me deu outro contrato para fazer outro livro. Aí é que eu escrevi o livro sobre Ciência e existência que não interessava ao CELADE publicar. Publiquei-o quando voltei ao Brasil, pela Editora Paz & Terra. E agora fico só com o que tenho guardado para publicar, mas é muita coisa! Tenho um livro sobre Tecnologia, que é muito grande, vários volumes para abranger a matéria toda. Tenho pronto um livro sobre a Filosofia Primeira; outro com o título A educação para um país oprimido. Tenho outro sobre os roteiros do curso de Educação de Adultos feito no Chile. Considerações éticas para um povo oprimido, livro sobre a ética que considero de grande valor no meu pensamento, porque não se dá à ética a importância que ela tem e centralizo um grande número de questões em torno de problemas éticos. Daí, desenvolvi um livro que trata exatamente da ética, mas da ética concreta, da ética real, de um País como o nosso, não é ética abstrata dos valores, das teorias, ou noções abstratas do dever, obediência, finalidade, nada disso. A ética real que funciona no mundo. A sociologia do povo subdesenvolvido é outro livro que tenho pronto. Cada livro tem 3 ou 4 volumes. A crítica da existência é outro livro que está guardado, um volume só, incompleto, pois não pude continuar escrevendo o que desejava porque estava cansado.
Saviani — Esse foi o último livro?
Vieira Pinto — É o último e talvez o primeiro, porque eu comecei escrevendo o texto quando estava na Iugoslávia. Nada de maior a dizer, nada de maior a esperar a não ser que não se percam, que vocês jovens professores cuidem de procurar um dia talvez publicar essas coisas se merecerem.
Saviani — Uma questão ainda que desperta alguma curiosidade é sobre aquele seu livro a respeito da Questão da Universidade.
Vieira Pinto — Sei, aquele livro foi uma conferência que fiz em Belo Horizonte e depois a diretoria da antiga UNE me pediu para publicar.
Como se vê, trata-se de um intelectual que se caracteriza, praticamente, pelo autodidatismo. Não nos apressemos, entretanto, a ver nesse fato um indicador de uma suposta pouca importância da escola na formação dos intelectuais. Lembremo-nos, conforme está registrado na entrevista, que V. Pinto estudou no Colégio Santo Inácio, dos jesuítas, que era, à época, um dos melhores do Rio de Janeiro, além de ter feito os exames no Colégio Pedro II. É, pois, pelo menos plausível a suposição de que o autodidatismo produziu bons frutos porque se desenvolveu sobre a base de uma sólida formação geral propiciada pela escolarização fundamental. De qualquer forma, não é possível ignorar a importância educacional de Álvaro Vieira Pinto. De um lado, porque é um testemunho do modo como eram formados os intelectuais brasileiros até início dos anos 50. De outro lado, porque exerceu importante influência na formação e no trabalho de outros intelectuais. Entretanto, é preciso registrar, além disso, que o professor Álvaro Vieira Pinto se preocupou explicitamente com a questão pedagógica. Essa preocupação fica evidenciada no depoimento obtido pela professora Betty Oliveira, em 13/03/82, cuja transcrição é reproduzida a seguir.
Betty — O senhor poderia resumir a sua visão sobre educação?
Vieira Pinto — O caminho que o professor escolheu para aprender foi ensinar. No ato do ensino ele se defronta com as verdadeiras dificuldades, obstáculos reais, concretos, que precisa superar. Nessa situação ele aprende. No meu livro sobre tecnologia trato da teoria da comunicação que contribui para a análise desse processo. Fiz a crítica da cibernética encontrando algumas noções que, se não são originais, precisam ser consideradas fundamentais. Por exemplo: é indispensável o caráter de encontro de consciências no ato da aprendizagem, porque a educação é uma transmissão de uma consciência a outra, de alguma coisa que um já possui e o outro ainda não. A teoria dialética do conhecimento é fundamentalmente cibernética, no sentido dialético da palavra. Não a cibernética empírica que é essa aí que se faz. Não se trata da entrega de um embrulho de uma pessoa para outra, mas de possibilitar uma modificação no modo como essa outra pessoa, que é o aluno, está capacitado para receber embrulhos. Na pedagogia, o princípio é a teoria da recepção do sabido, porque é preciso que se modifique a outra consciência. Isso tem muita importância porque permite estudar a educação do ponto de vista cibernético, não material, como se costuma fazer (quer dizer, só com dados estatísticos, com método e técnicas, etc.), mas avaliando o resultado pela transformação que a educação imprime à consciência do aluno. Se ela não fizer isso, de nada adianta seu esforço. Um dos graves erros na pedagogia alienada é esse. É avaliar o resultado da prática educacional pela devolução do embrulho, sem compreender que isso não é educação. A educação implica uma modificação de personalidade e é por isso que é difícil de se aprender, porque ela modifica a personalidade do educador ao mesmo tempo que vai modificando a do aluno. Desse modo, a educação é eminentemente ameaçadora. Ela consiste em abalar a segurança, a firmeza do professor, sua consciência professoral (que teme perder o estabelecido, que é o seu forte no plano da prática empírica) para se flexionar de acordo com as circunstâncias. A resistência do aluno ao aprendizado é um fator de modificação da consciência do educador, e não uma obstinação, uma incompetência. Mostrar e trazer a educação para o domínio da cibernética é uma imposição causada por duas ordens de fatores: 1) as massas educadas cada vez maiores; 2) e ao mesmo tempo a mecanização dos processos pedagógicos. Se o educador não se preparar, não terá condições para introduzir o verdadeiro fator, decisivo, no ato educativo, que é o papel da consciência. Fica prisioneiro do que a cibernética chama de hard-ware (todo o material, toda a parte mecânica, instrumental). É evidente que o professor não pode transmitir flexibilidade ao seu ensino se não a possui ele próprio na sua formação e na sua prática. Não escrevi nenhum livro de pedagogia, embora tenha muitas observações a fazer sobre ela.
Betty - Em outra ocasião o senhor falou sobre "pedagogia filosófica". Em que consiste?
Vieira Pinto — Para construção de uma pedagogia filosófica é preciso reunir dados ou elementos provenientes de quatro setores do saber: 1) da teoria do pensamento (dialética); 2) da organização dos atos do conhecimento em seus diversos pontos; 3) do estudo fisiológico ideal da psicologia; 4) da teoria do desenvolvimento humano, essencialmente histórico, marcado pelas diferentes culturas e civilizações. Esses aspectos que abordei fazem parte do material para um livro sobre pedagogia que pensei em escrever. A política, a técnica, a ciência, têm que ser consideradas na pedagogia, na teoria da pedagogia, para poder unificar e ao mesmo tempo inspirar a verdade pedagógica nos diversos campos em que ela se desdobra. O grande defeito que encontro nos educadores é principalmente o de procurar uma pedagogia pronta, quando não existe essa pedagogia pronta. E se existisse seria imprestável. A pedagogia nasce (aí teria que se dizer em grego paidos agogos, que é o ato, o verbo paida-gogen, isto é, como é preciso saber, como conduzir a criança à escola) no tempo da escravidão antiga, onde o escravo era o educador que tinha que ser educado com o próprio ato de tratar as crianças que lhe eram confiadas. Atualmente, de uma certa maneira, isso tem que ser feito, pelo educador, mas com uma consciência científica. É isso que falta compreender. A educação é um ato intransitive quer dizer, o educador não pode transformar a outrem que não esteja se transformando no próprio trabalho de ensinar. Por isso é que ele, ao ensinar, ele aprende.
Betty – O senhor poderia explicitar melhor a sua frase: "A resistência do aluno ao aprendizado é um fator de modificação da consciência do educador e não uma obstinação, uma incompetência"?
Vieira Pinto — O que quero dizer é que não há uma rigidez, não há um a priori em educação. É o caso de repetir com Leibniz, quando corrigiu Aristóteles, "exceto a própria educação". Este é o único a priori que existe. Isso serve de aforismo. (Isso corresponde a pequenos enunciados de verdade que o educador emite a propósito de um determinado ponto que serve para condensar o pensamento exposto, de maneira mais geral, na aula ou no livro. O aforismo é sempre uma verdade condensada. Ao mesmo tempo é simbólica. De modo que há o risco das interpretações errôneas. Isto é preciso evitar.)
A prática pedagógica é contraditória. É duplamente contraditória porque ela supõe que quem ensina sabe, quando não sabe e quem aprende não sabe, quando, na verdade, sabe. Essa é a contradição da pedagogia. Os erros que o educador comete só criticamente podem ser chamados de erros, e tem que se verificar até que ponto é ele o autor desses erros, É preciso entrar aí toda a teoria de Bacon sobre os eidola (tribus, specus, fori e teatri). Os ídolos são os erros que os homens fazem. Todas essas condições interferem no ato da educação. Têm que ser depuradas. Mas só a dialética consegue. É o que Bacon não podia fazer. Toda a minha idéia consiste em criar uma teoria da educação que não seja teórica, no sentido em que fica desfigurada como teoria, e sim corrigida pela prática da aula, pelo próprio ato de ensinar. E por outro lado que seja uma prática que não se confunda com um mero exercício, porque tem que valer como compreensão teórica. Dessa forma a teoria responde às dúvidas da prática. Sem essas dúvidas não haveria teoria. A teoria seria uma coisa sem maior significado, estéril. Essa relação entre teoria e prática é outro aforismo muito importante. O professor deve praticar a organização crítica de sua aula, em todos os aspectos. Por conseguinte, precisa buscar os fundamentos, os pressupostos para cada coisa que faz e também respostas para todas as objeções. É uma justificativa, um ato de buscar os fundamentos, continuamente, do seu fazer. Aí é que entra o papel da teoria da abstração. Um aluno traz consigo todos os problemas que só são dele (enquanto educando) porque ele está se formando. Quero mostrar aqui a identidade de educação e formação. Como ele está se formando, tem aqueles problemas que são dele; porque está se formando para ser ele mesmo e não outra pessoa. Logo, na fase de educação é que se dá a fase de formação. É um crescimento que tem dois aspectos: o aluno cresce como aluno porque aprende e com isso se forma. Quer dizer, o adulto educando é aquele que aprendeu o conjunto de conhecimentos que o formaram. É a noção de formação ligada à de educação.
Seria importante agora tratar do aforismo sobre o papel da escola que é uma coisa fundamental, muito complexa, para o qual a filosofia tem muito a contribuir. A escola é o meio que o aluno vai viver como aluno. É preciso aí estudar a relação entre os aspectos peculiares desse meio — a escola — com os demais. A escola representa a sociedade do aluno para o educador crítico, para o qual a sociedade representa a escola do educador. Quer dizer, a escola é um ambiente e, ao mesmo tempo, um processo. E como tal precisa ser entendida dinamicamente.
O ato de ensinar apresenta muitos obstáculos. Tudo vai depender de como se considera esses obstáculos. Podem ser de natureza material (falta de dinheiro, por exemplo) ou de outro tipo de natureza, como uma incompreensão de um colega para outro. Isso também são formas de obstáculos. Pode-se dizer que a pedagogia reproduz a sociologia; que não há problema pedagógico que não seja sociológico, e vice-versa. Toda transformação sociológica é fonte de modificações pedagógicas. Eu gostaria de tratar desse assunto unindo ao máximo a sociologia dialética com a pedagogia. É necessário levar também em conta a evolução do conteúdo da ciência.
A pedagogia não se torna científica por vontade do pesquisador ou do educador, mas quando as condições da prática social permitem uma determinada explicação do ensino tornar-se científica. A ciência tem sua evolução própria e a pedagogia tem que se adaptar a essa evolução, mas de uma perspectiva crítica que permita estabelecer o jogo de contradições.
Existe a ciência que também é uma forma de consciência e tem influência decisiva para construir a representação do objeto ou da atividade. É preciso também dar o máximo valor à noção de finalidade. Não há teoria da educação sem teoria da finalidade da educação.
É preciso que o êxito de uma determinada atitude pedagógica não se transforme em obstáculo ao prosseguimento do curso da própria educação. Os métodos bem sucedidos, como o do Paulo Freire, podem acabar se tornando um quisto, uma coisa que impede o prosseguimento do seu próprio desenvolvimento.
Penso que a afirmação de Vieira Pinto "não escrevi nenhum livro de pedagogia, embora tenha muitas observações a fazer sobre ela", decorre do fato de que as Sete lições sobre educação de adultos foram aulas-conferências que ele proferiu no Chile em 1966. Os textos que escreveu então, ele os redigiu como roteiros das aulas que ministrou. No seu entender, um livro exigiria maior desenvolvimento e aprofundamento. Entretanto, Betty e eu o convencemos a publicar os referidos roteiros na forma original. E isto não apenas pelas importantes contribuições que este pequeno livro contém, e que reputamos ser de grande utilidade para os educadores brasileiros de hoje, mas também como testemunho de um trabalho que vem se desenvolvendo já há muitos anos e que permanece vivo e atuante.
Hoje, quando diversos estudos já surgiram reconstituindo o momento histórico em que A. V. Pinto se configurou como um intelectual militante, pode-se fazer reparos a conceitos por ele emitidos e, mesmo, ao conjunto do seu pensamento filosófico. É impossível, porém, não reconhecer a sua importância e a envergadura intelectual de um trabalho desenvolvido em condições bastante adversas.
Após as considerações feitas, penso ter ficado claro o sentido da afirmação que fiz no início desta Introdução, quando disse que as vicissitudes da obra Ciência e existência espelham as vicissitudes pelas quais passou seu autor. Com efeito, assim como a referida obra correu o risco de cair no esquecimento, mas se impôs, tornando obrigatória a sua reedição, assim também seu autor, que parecia já ter-se retirado do cenário cultural brasileiro, resistiu e retorna agora através da presente obra.
A publicação deste livro é, pois, ao mesmo tempo uma contribuição à cultura brasileira e uma homenagem a um dos intelectuais que mais se empenhou na consolidação da referida cultura.
A presente Introdução pretendeu trazer alguns subsídios que facilitassem ao leitor situar as Sete lições sobre educação de adultos no contexto da vida e da obra do autor. Espero ter atingido esse objetivo.
Dermeval Saviani São Paulo, abril de 1982