segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

JORGE TUFIC





























RETRATO DE MÃE


Venham fios de luz, aromas vivos
misturar-se às palavras, à centelha
do louvor mais profundo deste filho
que se depura e sofre com tua ausência.
Venha o trigo do Líbano, a maçã
de que tanto falavas; venha a brisa
tecer mediterrânea esta saudade
que vem de ti quando por ti me alegro.
Que venha a primavera, saturando
vales, planícies, colorindo os montes,
noites de luar caiando os muros altos.
Venha a pedra da igreja onde ficaste
quando em febre te ardias. Venham lírios
rebrotados de ti, dos teus martírios


Teus cabelos castanhos, tuas tranças
fazem lembrar as madres de Cartago.
Doce mãe, sombra tépida, murmúrio
de sonâmbulas fontes; poucos sabem
teu nome, enquanto, fatigada embora,
dás-nos o pão e o leite, a flor e o fruto.
Poucos sabem te amar enquanto viva
e, quando morta, poucos também sabem
da fraqueza que em força transformavas.
Ai, retrato de mãe, quanto mistério
se converte na tímida lembrança
destes álbuns que lágrimas sulcaram.
Na verdade, Ramón, só de lembrá-la
um soluço arrebenta-nos a fala.


Lentilha, azeite doce, o acebolado
chia na frigideira de alumínio;
a casa está repleta de convites
para a janta frugal e acolhedora.
Nos arredores brinca o vento: a cerca
divisória, talvez, nada separa.
Vizinhando quintais vozes fraternas
cantam, mandam recados de ternura.
Assim te vejo, mãe, rosto suado
na lida da cozinha ou pondo a mesa.
Terrinas de coalhada, o pão redondo
a recender de ti, mais que do trigo.
Calendário sem datas, chão de outrora,
como tudo passou se tudo é agora?


Em tudo, minha mãe, te vejo e sinto.
Neste verniz antigo, neste cheiro
suavíssimo que vinha do teu corpo,
do pólen de tuas mãos, do hortelãzinho.
Em tudo, minha mãe, teu vulto amado
se desenha mais firme, e, lentamente,
vem dizer-me aos ouvidos qualquer coisa
desses anos que pesam sobre mim.
Em tudo, minha mãe, vejo este lenço
que à passagem da dor recolhe o traço
do sorriso que foste a vida inteira.
E, mesmo quando morta, entre açucenas,
ainda ressai de ti, poder divino,
a canção que adormece o teu menino.



Numa tarde opressiva de domingo,
o estrondo de tua queda: a irreversível
fratura que me dói quando te lembro
de olhos fixos em mim, quase a dizer-me
adeus, lágrimas ácidas rolando
sobre abismos drenados- tal o impacto
na dureza do chão, tal a dureza
do impacto na ossatura envelhecida.
Ninguém para colher-te o desamparo
desse tombo sem grito; apenas gestos
e vozes pressentidas me indicavam
zombeteiro demônio. Quem mais, Senhor,
de tão covarde, cínico e vilão,
faz da morte uma simples diversão?


Nossa infância era toda iluminada
pelas fontes da tua juventude.
Armadura que tínhamos freqüente
para afastar as sombras e o perigo.
Eram fartos os dias com teus peixes
mergulhados no arroz: postas de ouro
não largavam seus brilhos nem suas luas.
Na escassez, entretanto, te inquietavas.
Ainda te vejo, o porte esbelto indo
por aqueles baldios transparentes
onde a luz, de tão verde, pincelando
os ermos, quanta música expandia!
Voltavas quase noite ao doce abrigo,
e o mundo inteiro, mãe, vinha contigo.


Fui pedir ao canário que me desse
um raspão do seu canto fragmentário;
fui às nuvens do céu pedir mais nuvem
para o leve pedal que emite a voz;
debrucei-me, também, sobre os regatos
em busca de tua face; a brisa, enfim,
tentara descrever-te mas não pôde.
Andei, assim, por montes e calvários.
Ajoelhei-me ante o Cristo, bebi vinho.
Nada pude captar, nenhum remorso
fora maior que o meu nessa procura.
Somente agora, mãe, na tecelagem
destes versos que fiz para louvar-te,
em tudo posso ver-te e posso amar-te.



Estavas, posta no esquife, igual a todas
as defuntas convulsas, lapidadas.
Tão branca e tão distante companheira
destes ventos na pausa da agonia.
Quisera ter morrido quando foste,
nave de ti somente, abrindo rotas
na invisória partida, nesse coro
latente em nossas almas. Parecias
dormir, então, liberta como um trono.
Ó lágrimas de Orfeu, tempo escoado,
corpo de insones ânforas, mãezinha,
que sei de ti nos guantes da saudade?
Que sabemos de ti quando te vais,
se o teu vazio é feito de punhais?




Dormindo vinhas, mãe, já rente à brisa,
aos telhados de Sena, rente às asas
dos Derwiches que em sonho acorrentavas,
rente ao chão, rente à luz, à névoa rente
sobre a qual repousavas como em sonho.
Na música de um verso ou na toada
das cachoeiras, metáforas de ti
sobrevoam meus olhos consolados
pela visão dos seres que encarnaste.
A morte também veio, barulhenta,
mas galáxias cintilam nos teus passos,
vales de auroras curvas te embalsamam.
Por teres ido, fica mais sombria
a terra onde plantaste o nosso dia.




Que restara de ti, dos teus pertences?
Um vestido de linho desbotado,
um sapato comum, chinelo torto,
e nada mais, ó nuvem, se restara.
Tudo posto num saco humilde e roto.
Eu quis, então, medir esse legado,
mas limites não vi para a tristeza.
Davas a sensação de que o tesouro
se enterrara contigo. E era tão leve
quanto um sopro lilás, cantiga doce,
mansidão perdulária, água de fonte.
Como dizer-te verdadeiramente
numa sílaba só? Que eternidade
pode igualar-se à voz desta saudade?



Extravaso em rugidos carcerários
minha raiva de ser todo impotente,
barro de horas fantásticas, mas barro
solancado de escamas, quilhas, peito,
maremoto pulsar, refugo e tábua,
sobras, talvez, calungas e malárias
de um canto mais diuturno, menos frágil,
mais perene ou barroco, mais você
na inventação das ilhas, regelado
marujo, testemunha das nascentes,
dos dilúvios, da Cóchida e Gomorra;
em ti, Jorge de Lima, eu busco a vaca
resoluta dos pântanos enormes,
e louvo a minha mãe, enquanto dormes.



Ampulheta de ignotas ressonâncias,
me contas do teu mar, do teu navio;
mar e portos lavados pelo brilho
dos teus olhos cativos ao marulho
de outros mares guardados bem no fundo
das arcas de teu pai: este luarense
das tascas litorâneas e do vinho.
Que são lucandas, mãe? Que são topázios?
E a Tour d’ Eifel, que nuvens ela toca
ao se erguer entre os pássaros do orgulho?
E, te ouvindo contar destas viagens,
teu filho adormecia, tatuado,
ora pelo rigor de tua costura,
ora pelos encantos da aventura.




Volta comigo o trágico cenário,
e algo de inumerável me angustia.
Um cântico, talvez, de olhos miúdos,
cardume de fantasmas, trastes velhos.
Soma de nossos dias, ponte amarga
entre os bichos e a terra; pedras soltas,
navegantes do caos: roupas no tanque
onde o limo se avilta e se devora.
E o teu sangue, mãezinha? Que algazarra
no espaço vesperal de um plenilúnio
feito de nossas urzes cotidianas!
Deve ser esta a voz que me chamava,
o rosto que me quer. E a luz que fica
neste pátio me açoita e crucifica.





Nem maior nem menor do que ninguém,
me banho deste sol, bebo esta água
e sorvo a taça azul dessa manhã
num canto de quintal feito por ti.
Entre gato e cachorro as folhas verdes
de um jovem pé de frutas: me debruço
lendo as coisas e os seres pequeninos,
umas de tempo findo, outros em luta.
Em luta por um talo ou por um nada,
e na luta maior e mais profunda
dos monturos calados chão adentro.
Vou pedindo licença e vou entrando
nos buracos, nas fendas, neste cheiro
que um dia será rosa em meu canteiro




Foi lendo-te, Chalita, que no breve
mapa do nosso Líbano deparo
a infância de minha mãe: ouro e neve,
o monte, a vida, o sol e o clima raro.
Chat-il-baher, Batrun. Que tinta escreve
o som, a voz, a luz e este disparo
de asas que me escravizam? Tanto deve
ter sido ela feliz e o tempo claro.
Mas o fado, Chalita, esse outro mapa
que em suas mãos eu lia, é tão diverso
daquele em que se nasce e nos escapa.
Brisa mediterrânea, fêmea austera,
seu martírio, depois, lento e perverso,
ainda assim nos trazia a primavera.




RETRATO DE UMA OBRA-PRIMA

Rogel Samuel



É um tema banal, popular, mesmo vulgar. A mãe, já tão gasto motivo dos cadernos poéticos e saudades, pois todos nós tivemos ou temos a mãe a saudar, a lembrar, a louvar, a chorar.

Mas Jorge Tufic é um poeta excepcional: com que realizou sua obra-prima, sonetos pós-modernos em que ele traça o perfil, o “Retrato de mãe“, de sua verdadeira mãe, ou da personagem mãe.

O livro todo está no blog
http://jorge-tufic.blogspot.com/
O pequeno livro é uma obra-prima em quinze sonetos. Começa por uma invocação.
O que lemos aí é a invocação de um sabor (de um saber), de um elemento gustativo, a maçã, o trigo, me o visual, fios de luz, e o táctil elemento do vento, e os aromas, a paisagem, a planície, os montes e as noites, a pedra, a febre, o martírio.


Venham fios de luz, aromas vivos
misturar-se às palavras, à centelha
do louvor mais profundo deste filho
que se depura e sofre com tua ausência.
Venha o trigo do Líbano, a maçã
de que tanto falavas; venha a brisa
tecer mediterrânea esta saudade
que vem de ti quando por ti me alegro.
Que venha a primavera, saturando
vales, planícies, colorindo os montes,
noites de luar caiando os muros altos.
Venha a pedra da igreja onde ficaste
quando em febre te ardias. Venham lírios
rebrotados de ti, dos teus martírios


Invocada, a mãe começa a delinear-se, começa a aparecer, vem em fragmentos, pouco nítida, mas forte, sentida, ou pressentida, sim, começa ele a pintar o retrato interno da dulcíssima Mãe e que logo todos nós assumimos como nossa (quem consegue falar de sua mãe morta sem tornar-se piegas?), conjuntamente, nossa mãe síntese e simbólica, a Fonte, semente e nome de nossa vida, que tudo nos deu.

Tema freudiano, pois.
E no segundo soneto logo aparece um mistério: Quem será este desconhecido Ramón que aparece no penúltimo verso?

É D. Ramón Angel Jara, Bispo de La Serena, Chile, citado no pórtico do livro. No livro há citações, pós-modernidade. Ou seja, a obra se diz: “Calma, eu sou apenas uma obra literária”.
A descrição, o retrato começa pelos cabelos, as tranças, a voz, a lembrança. A fonte do pão, do leite, da flor, do fruto. Mãe que é para “amar depois de perder”, como no verso de Drummond. Na verdade, Tufic, só de lembrá-la um soluço arrebenta-nos a crítica.

Teus cabelos castanhos, tuas tranças
fazem lembrar as madres de Cartago.
Doce mãe, sombra tépida, murmúrio
de sonâmbulas fontes; poucos sabem
teu nome, enquanto, fatigada embora,
dás-nos o pão e o leite, a flor e o fruto.
Poucos sabem te amar enquanto viva
e, quando morta, poucos também sabem
da fraqueza que em força transformavas.
Ai, retrato de mãe, quanto mistério
se converte na tímida lembrança
destes álbuns que lágrimas sulcaram.
Na verdade, Ramón, só de lembrá-la
um soluço arrebenta-nos a fala.

Depois vem a casa, a cozinha, as comidas da culinária libanesa, a lentinha, o azeite, as cebolas fritas, a coalhada, o pão redondo, que a Mãe preparava... mas tudo isso passou. Onde estão as comidas, os pratos de lentilha, a terrina de azeite para as coalhadas, as cebolas fritas? Tudo passou... Como, ao redor da casa, o vento. Como passou o vento do tempo. Também passam a cerca do quintal, os vizinhos, as vozes cantantes, e passaram. E o que passa é aquele Calendário sem datas, o chão do passado, o que passa. A casa da mãe. O que passa. O chiar da frigideira. Os convites. O passado convida o leitor no seu chamado culinário: a mãe é aquela cozinheira das almas, das afetividades, da fraternidade, da ternura, o amor recende dessa mãe cozinheira, que ainda manda seus recados e canta, é assim que ela aparece, suada e infinitamente bela e luminosa, centro da vida familiar. Social.
A mãe é o corpo da “vida privada”.
O que significa vida familiar, vida privada?

A palavra “social” é de origem romana. Os gregos não a conheceram. Societas significava, para os romanos, uma aliança entre pessoas para um fim específico, “como quando os homens se organizavam para dominar outros ou para cometer um crime”.
O pensamento grego era diretamente oposto a esta organização “social”: essa associação natural cujo centro é constituído pela casa e pela família.
A pólis marcava a destruição de todas essas unidades organizadas à base do parentesco. A sociedade representa a família. O ser político, o viver na pólis “significava que tudo era decidido mediante palavras e persuasão, e não através da força ou violência” (ARENDT, Hanna. A condição humana. Rio de Janeiro, Forense/Rio de Janeiro, Salamandra/São Paulo, Ed. Universidade São Paulo. 1981. 339p.). Para os gregos, forçar alguém mediante a violência, ordenar ao invés de persuadir eram modos pré-políticos de lidar com as pessoas, típicos da vida fora da “pólis”, característica do lar e da família, na qual o chefe da família imperava com poderes despóticos; caracterizava a vida dos “bárbaros”, cuja organização era comparada à doméstica.
Toymbee analisou este estado de coisa no seu livro Helenismo (TOYNBEE, Arnold J. Helenismo. Rio de Janeiro, Zahar, 1963. 232p.), em que mostra como a vida familiar era considerada pelos gregos como um lugar onde os participantes estavam sujeitos à perda da liberdade, e à descaracterização de suas individualidades. A vida familiar, diz ele, mantém os homens presos a um elemento por que não optaram e a que não podiam renunciar sem uma violação à própria natureza.
Diz Toynbee:
A vida familiar mantém a humanidade como serva de uma Natureza não-humana. No seio da família, o ser humano não é personalidade independente, com um espírito e uma vontade próprios — é um rebento na arvore da família, que por sua vez e um ramo da árvore evolucionária da vida, cujas raízes mergulham nos abismos do subconsciente (p.55).

A tradução latina do homem como animal rationale é um erro de interpretação. Para Aristóteles (ver PETERS, F.E. Termos filosóficos gregos. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1977. 273p.), o que elevava o homem não era a razão, mas o nous (p.163), isto é, a capacidade de contemplação cujo conteúdo não pode ser expresso por palavras. Todos que viviam fora da pólis eram aneu logou, destituídos não da faculdade de falar, mas de um modo de vida no qual só o discurso tinha valor e sentido, e não a compulsão, não a violência, característica dos povos bárbaros.

Hoje o mundo ocidental vive a nostalgia do antigo mundo grego. Pois na pólis, a mais hábil arma era a capacidade de discorrer uns com os outros, e de argumentar com palavras e não com a ação violenta. Neste sentido vive o mundo moderno fora da pólis, num estado pré-político, em estranha regressão.
Da pólis para a sociedade opera-se uma mudança de pensamento político. Na sociedade, o pensamento político já não é arte política, mas economia, economia social. O que chamamos sociedade passa a ser um conjunto de famílias organizadas do ponto de vista hoje burguês, num ser estrutural chamado Estado. Para os gregos, tudo que fosse econômico não era político, mas estava relacionado à esfera do apolítico da vida privada (isto é, privada de liberdade) da família. A vida privada era o lugar doméstico, privado por definição do espaço público, onde o dialogo era franco. Não é sem razão que os textos de Platão se chamam diálogos, isto é, através do logos. Na vida pública estava o espaço da liberdade dos homens livres, não da dependência, da interdependência. E os escravos eram considerados seres desprezíveis não porque estivessem na condição escrava, mas porque se sujeitavam à escravidão, não preferindo a morte, o suicídio, e não tendo a necessária coragem para a vida de risco e de perigo que constituía a vida dos homens livres, onde o perigo apesar de tudo estava sempre presente: pois outro conceito grego eminente era de que a liberdade — supremo bem a atingir — não significava segurança (inferior condição de sujeição a que estavam sujeitas as crianças e as mulheres), mas perigo e aventura, característica dos heróis.

A literatura grega é uma longa série de batalhas e de mortes, uma ampla apologia da aventura do espaço, da não resignação do homem com qualquer restrição ao seu existir. Homero, pois, principalmente, foi o pai da ética grega. E um herói grego estava na antítese de um moderno burguês.
Portanto, na organização da moderna sociedade burguesa reina o domínio da necessidade, não o espaço da liberdade.
O moderno é, por definição, passivamente adaptável, resignado e satisfeito com a sociedade e bem-estar que esta pode proporcionar-lhe. Um ser descaracterizado. A política da pólis não se mostrava meio de segurança social. As sociedades que se seguiram à pólis grega representaram um conjunto de interesses; seja a sociedade feudal, seja a sociedade burguesa, seja a sociedade socialista.
A liberdade, até o avento da sociedade moderna, significa não a liberdade individual, mas a liberdade social, o que começa a mudar no comportamento pós-moderno.
A força da violência está desempenhada atualmente pelo Estado, encarregado de vigiar e punir.
A força e a violência nascem, portanto, universalidade, da raiz da sobrevivência.
Para os gregos, toda forma de governo, tal como o entendemos hoje, representava um estágio totalitário, pré-político, em que predominam a submissão e a falta de espaço, formas desprezíveis de viver.
A vida familiar centralizada ao redor da “mãe”, assim como a vida pública, o espaço público, se refere à vida fora de casa, no espaço da cidade, manifestada pela figura paterna.
A vida familiar é o regaço, materno. O colo, o abrigo. Nela somos todos infantes.



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As noites voadoras de Jorge Tufic

Rogel Samuel

Na poesia de Tufic tudo voa, são estrelas, cintilam caminham no céu daquela Amazônia mítica, luas várias luas que se contam com as mãos, narrativas dos nossos mitos, viagem dos Desâna, canoas de cristal, transformadoras, estórias e sabenças de quem vive sozinho no meio do mato, faro de onça, muirakitãs da lua nua, que se despe na entressafra do amor,

despenca uma folha
e o verão estremece

Passarinhos que ouvem nossas conversas, na terra macia escrevemos nossos textos (nunca se sabe, tampouco, - porque se chama de vazio – o espaço da natureza).

Que será de ti, Amazônia? Cavidades, rangidos

Subitamente sou árvore,
flor, pássaro e livro.
Um livro cujas páginas
tomaram a cor e o risco
da música e da pedra.

..........
cinzel que não fere,
da jaula inconsútil.

(Texto escrito com “Quando as noites voavam”, de Jorge Tufic – Fortaleza, 2011.
Ele é o grande cantor da Amazônia!)










Pacote poético



Rogel Samuel






Recebo um pacote pelo correio, um pacote amarelo que apalpo e que sinto, há objetos dentro, possivelmente livros: sim, são cinco novos livros de Jorge Tufic que eu lhe pedi pelo telefone e eu fico me lembrando que, há quarenta e três anos atrás, ele publicava o seu já clássico Varanda de pássaros.

Como pode Jorge Tufic manter 43 anos ininterruptos de poesia apesar da crise por que passa a produção cultural brasileira e a amazonense em particular? Porque depois daquele grupo do Clube da madrugada muito pouco produziu a poesia de Manaus.

Eu adolescente e Tufic já era dono de uma poderosa lira que se afirmava principalmente nos seus sonetos extraordinariamente inovadores. Na década de 80 nós nos correspondíamos, depois ele se foi para Fortaleza e o perdi de vista. Soube que foi homenageado no Rio de Janeiro, onde moro, mas não o vi porque estava viajando.

A última vez que o encontrei foi no ano passado, em Manaus, no Galo carijó, onde gosto de almoçar sempre que estou em Manaus (também deparei ali com o Thiago de Melo, donde se conclui ser aquele bar um ponto da poesia presente).

Agora, além de seus cinco livros, vieram várias pequenas publicações, entre as quais o belíssimo Agendário de sombras, uma coleção de sonetos dos quais cito, ao acaso:

Necessito do rio e da paisagem
que me vira partir quando menino.
da visão surpreendida ou desse quanto
pode haver em redor do meu destino.
eram coisas e seres do meu tempo,
partes de mim que a vida, em seu balanço,
foi deixando passar, nuvem sujeita
aos ventos, matéria sujeita ao ranço,
rubros sóis de verão, coleita breve
de azeitonas e ocasos, também contam.
Soldado entregue ao chumbo dos brinquedos,
ao som, talvez, das águas deste inverno,
quero sentir na pele evanescente
como eu seria agora, antigamente.

Ao poetas menores como eu, Tufic humilha, com a força da sua Linguagem: mas como pessoa ele tem a gentileza dos mais nobres corações e nos brindou com imerecidas dedicatórias.

Dentre sua produção recente, no ano passado ele publicou Sinos de papel, um delicioso livro de haikais que bastaria para o consagrar:

Paineira caiada
Por uma lua de espuma
Tão cheia de nada.

Jorge Alaúzo Tufic nasceu no dia 13 de agosto de 1930 e publicou seu primeiro livro aos 25 anos. A Amazônia dele se orgulha.


(Rio, 30 de setembro de 1999)





alguns dos "sinos de papel"





Jorge Tufic








oculto no dom
de não ser ninguém
o grilo é som...



pétalas de mim
cultivo num jarro velho
que já foi jardim



em tantra medito
o saber é uma pedra
a mulher, o seu grito



ah, delicadeza
a mosca, senhora tosca
baila sobre a mesa


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ODE À AMÉRICA DO SUL


Que o boné de Pablo Neruda
e a lágrima fluvial de Santos Chocano,
e o grito de Allende
(enquanto os fuzis do terror e do medo
repetiam o massacre da liberdade),
venham flocar este chão consagrado
por tantos modos e cantos diferentes,
oh América do Sul.
Os cravos de tuas noites mergulham
na plumagem das Cordilheiras,
e os ramos da paz que te ilumina
e o relincho das pedras que desenham
bisontes e tempestades,
pousam como fósseis alados
em tuas crinas de esmeralda.
De Santa Marta à Terra do Fogo
tuas espigas rebentam colares de jade
e cintilam nas máscaras de ouro
roubadas aos templos do sol
e às pirâmides da lua.
E ao sopro nativo da flauta
exilada entre colméias,
um tesouro de vasos, borboletas
e animais de uma fauna imaginária,
sacode o pó da argila e do granito
em suaves movimentos.
Atlantes e Laoccontes
vigiam tuas muralhas indormidas,
mas deixam livres as fronteiras do sonho.


















II

Com a espada de Bolívar
e a prosa rubra e latejante de Sarmiento;
com as vestes de Antonio Conselheiro
e a nervura semântica de Euclides da Cunha;
com a suavidade de um verso de Lugones
e os contos gauchescos de Simões Lopes Neto;
com os arcos e flechas dos incas e aimarás
e a clepsidra das ruínas de Zaculén;
com as cinzas do uirapuru do Amazonas
e os depurados muirakitãs do Espelho da Lua,
eu te louvo, América do Sul,
agora que revejo tua cerâmica do Marajó,
tuas matas e teus rios,
tuas cidades e tuas pontes,
teus barcos possantes, tuas fábricas
e tuas manchetes; e ouço a voz
dos teus regatos, as canções de teus povos
e vejo, deslumbrado,
que uma ciranda feita de arrulhos e girassóis
te enlaça, constantemente,
do Atlântico semeado de praias
ao Pacífico de pássaros
e fontes azuladas.

























III


Quantos martírios e sucessos
pontilham tuas manchas ocres
em cada solo ferido ou conquistado!
Lembras-te, por acaso, dos gestos em forma de dança
de teus ancestrais caribenhos?
Do milho cor de cereja dos Aruakes?
Dos artefatos barrancoides dos Walpés?
Dos dialetos tecidos com a envira do silêncio
e a toada dos riachos verdejando os caminhos?
Da antigüidade seletiva dos tucanos,
muras e cambebas?
Lembras-te, por acaso,
da bola de sernambi que estes últimos
te deram, ainda em pleno século XVII,
e do jogo que eles jogavam
num campo sem traves e sem torcidas?


Numa rede de dormir
os brancos degustam teu massacre
mas olvidam o teu legado,
esse imenso legado que sucedera ao jugo,
impiedoso e cruel,
daqueles teus primeiros habitantes,
plantadores de sombras,
raízes da terra.
Guitarras, malária, devastação e confisco,
eles trouxeram de tudo.
Mas tomam caxiri no delicado suporte
de uma cuia rústica ou pitinga;
alimentam-se de farinha de mandioca
e têm muito de si no caboclo que se espreguiça
para não ir ao trabalho;
e têm muito de si na mestiça que se vende
por las calles y los pueblos;
e têm muito de si, também,
nessa fusão de sons e melodias
que fizeram do nheengatu das águas pretas
a língua franca dos mitos
e do lendário esquecido.








IV

Imitas um coração populoso e tranqüilo.
Tens a forma de harpa ou alaúde
com doze cordas festivas.
E ainda podes ser vista como um rosto enigmático
voltado para si mesmo.
Desigualdades e semelhanças predominam
assim, de um lado e de outro,
entre vales, planícies e altiplanos.
Em qualquer Atlas se lê, por exemplo,
que há fome na Bolívia,
que há tango, festas e greves na Argentina,
que o Chile exporta minérios e vinhos,
que o Brasil é o maior destes países,
que o Equador tem reservas de prata e ouro,
que o Peru não se expande,
que o Paraguai continua bloqueado
sem saídas para o mar.
Em teu próprio nome, oh América do Sul,
e em nome da história que te deram,
hás de entender, no entanto,
que ninguém pode ser feliz
quando está cercado pela miséria,
seja a miséria do egoísmo,
seja a miséria das guerras;
que ninguém pode ter paz
quando há golpes e matanças
do outro lado de suas fronteiras.
Hás de saber entrementes que,
por cima da fala dos caudilhos,
paira a linguagem fluida ou tormentosa
daqueles que te celebram;
inclusive daqueles que apodrecem em tuas mansardas
ou se debruçam nas torres de vidro;
ou daqueles, ainda, que se confundem
com os traços das telas que azedam em teus sótãos
e em tuas águas-furtadas.
Estes homens de letras ou picassos anônimos
entregues à corrosão que desfigura
e ao abandono que mata.












V

Quantos equívocos te cercam
antes e após a descoberta, por ti,
do torno do oleiro, da roda e do arado?
Que simpáticas figuras transoceânicas
poderiam ter-te doado,
oh América do Sul,
carrinhos votivos de cerâmica,
travesseiros de barro
e selos em forma de bujarronas?
E as tuas escritas?
Terão sido trazidas por quem
- fenícios, gregos, romanos –
se colocam na origem de teus índios?
Fascina acreditar, em vez disso,
que provenhas, isto sim,
de alguma centelha que se fez Avalon,
Atlântida ou Atlas,
segundo escrevem as aves migratórias
quando te buscam nos pélagos,
e adivinham teus ecos profundos
nas cavidades do espanto.





























VI

A cidade perdida dos incas
são tantas cidades quanto as portadas
que levam à presença do sol;
e dali ao rio de espelhos e cardumes intactos,
e dali às cavernas talhadas a ouro,
e dali aos túmulos daqueles que sucumbiram
ao peso dos colossos que protegem a montanha
das patas ecoantes de Espanha.

Em cada milímetro quadrado
das alturas que saltaram de mares incalculáveis,
Amarus confundem a inteligência
dos homens de Pizarro.
Labirintos ficaram, boiunas coleiam
na ouriversaria das auroras.
E ninguém poderá decifrá-las.

Para Iucay se evadira Manco.
E uma das primeiras guerrilhas da história
consegue fazer das trilhas enganosas
o desgastante baralho das Cordilheiras.
A imagem de raios solares
com mais de cem toneladas,
em que leito de Vilcabamba
terá se consumido em miríades de estrelas?

Em Cajamarca, enfim, morrera Atahualpa.
Em Viticos, chega a vez de Manco Inca.
Sayri Tupã e Tito Cusi também foram imolados.
Tupac Amaru expira em Cuzco
levando no olhar a música do império.

















VII

Grande é o solar do tempo nesta aldeia
onde um galope nunca se interrompe.
Este chão de Pizarro em Guamachucho
de lavas contraídas pelo medo.
Escarpas traçam rápidas figuras,
pousam brilhos de séculos vencidos.
E um velho terremoto, agora fóssil,
arroja um tigre do alto de um penedo.
A noite é um vinho branco. Mas o sangue
que transborda do lago, não descansa:
quer vingar a cobiça, o fogo e a traição,
estes três assassinos de Atahualpa,
daquele em cujo peito o sol dos incas
despedaça o seu último clarão.


VIII

Nos porões soterrados debaixo
das cidades, deuses animais de terracota
aparecem ao lado da serpente,
e ao lado da serpente
paradigmas antropomórficos.
Foi assim que teus nativos,
pescadores de Valdívia,
dominaram os ornatos circulares:
perfis abstratos,
bizarras entidades híbridas
sobressaem nos relevos celestes;
e ao lado destes, ardósias cônicas,
traçados olmecas.

Um portal contendo símbolos xamãs
e sarcófagos dourados,
torna visível o silêncio dos mortos
na estática de teus músculos altivos
prateados de neve.

A Quinta Era, afirmam ali,
pertence a Tonatiú, o deus Sol,
habitante dos leques das palmeiras;
e há de ser confirmada por graves,
extensos abalos.
Pumas alertam para as ameaças que sobem
das Ilhas Arqueanas.





IX (a lição dos rios)

Tentando lavar este sangue
inutilmente derramado,
de cinco mil metros de altura despenca o Vilcanota;
ele vai mudando de nomes
até unir-se às águas revoltas
do lendário Urubamba.
Este, por sua vez, se socorre do Apurimac,
quando formam, juntos,
o Rio Amazonas.

Muito tarde, porém.
Um grande exemplo despercebido.

Esses rumores até hoje incessantes,
este chamado das vertentes comuns,
somente os poetas o sabem distinguir
na diversidade que amalgama
e na dor que ensina.
































X (balada enquanto seja)

Ao contrário de outras águas,
nosso rio é movimento,
serpe andina em debandada
vai ele em busca do mar;
desde que nasce de um fio
por ondas rola barrento,
vem à tona e vira vento,
é estirão que sai do nada.

Rio de lendas ficou,
matreiro, curvo e norato,
seu berço de concha e lua,
com três nomes de batismo,
três caminhos sete bocas
por onde bebe a tormenta;
mas tem mágicas, puçangas,
e a cada estória, se aumenta.

Pântano cósmico, diz-se
por quem o lê pelo avesso,
por quem ouve a queixa inata,
por quem adentra seus peixes,
por quem taboca faz beiço
e sopra o fogo da enchente,
pois este rio é começo
da febre que torra a gente.

Ao contrário de outras águas,
o Amazonas, como um todo,
pode tornar a seu fio
como náufrago do lodo.


















XI (Thiago de Mello)

Por caminhos de San Tiago,
volta o poeta das angras
a quem doara o seu canto
pela causa dos humildes.

Levara o corpo sadio,
como quem leva a esperança
marcada a fogo no brigue
que, novo, se lança ao mar.

Os Estatutos do Homem
riscando o teto da noite
com seus mastros decididos,
quantos vilões não cegaram!

Mas, igual à copa náutica
das sapopemas gigantes,
que pelas vias de Tiago
desprendem flocos de sonho,

retorna, depois da luta
para o feno das raízes:
a copa – rica de estrelas,
o tronco – de cicatrizes.


























XII (a Pedra do Reino)


Como então esquecer,
neste painel de teus milagres,
oh América do Sul,
a oficina armorial desse múltiplo Ariano Suassuna,
a poesia e a prosa que se deixam fundir
em seu romance d´A Pedra do Reino?
Assim também, igualmente,
como esquecer os poemas de Carlos Newton Júnior,
a cerâmica de Côca,
as lâminas e os palimpsestos de Virgílio Maia
ou a tenda agreste, mística e versátil de Audifax Rios?
E como esquecer as andanças dos ¨padeiros¨cearenses
em busca das cacimbas,
do aboio crepuscular,
do alpendre de seus avós e da espada
de algum rei com sua túnica de abelhas?
Pois é das artes desse Ariano vulcânico
e de seus valerosos cavaleiros,
as surpreendentes iluminogravuras,
diante das quais apenas o arco-íris, o novilúnio
e as doze talhas apócrifas da Via Dolorosa,
não são réplicas inúteis.

























XIII (entrefala e louvação)


Deixemos, portanto, as amoras,
o etéreo veludo celeste, o filme vazio,
a novela das oito
e as ruas por onde não passaram
bandeiras despedaçadas por um grito maior
que a esperança dos mortos.

Deixemos de lado as violetas
que ardem nos versos prematuros
daqueles que nunca percebem o gemido
das salamandras
nem a fuga dos girassóis alucinados.

Deixemos de lado o jarro de Matisse,
a gôndola que imita o cisne de Isolda,
as olheiras roxas das janelas caiadas
pelo terror dos massacres.

Louvemos Neruda que, em sorvos miúdos,
provara do vinho amassado com a terra,
o suor e as lágrimas de quantos,
no Chile, na Espanha e na Turquia,
conseguiram, em seus momentos finais,
erguer a face do entulho e da lama,
cuspir na bota dos tiranos.

Louvemos Neruda pelos gestos perenes
de salvar um carneiro da morte,
uma rosa da escuridão e muitos,
centenas de amigos,
do cárcere infecto e da bofetada humilhante.

Saudemos Neruda
com uma taça de beija-flores.














XIV (sursum corda habemus)


O giro vesperal das andorinhas
sobrevoa os transcursos das cordilheiras;
paira, depois, sobre os telhados gastos
pelo mofo dos armários vazios
e o esquecimento das chuvas.
Elas tomam as sereias de tuas falanges,
dedilham a ira dos terremotos.
Mais do que nunca teu coração vacila,
mas sente-se pleno em curtir a polêmica união
entre o Ocidente dos filósofos
e a pátria dos cardos ensolarados.
Terá sido esta a pausa dos monumentos,
o tremor que se estabiliza nos ossos,
a reflexão que se deixou cair das pálpebras de água
no enterro dos navios.

Uma sombra te acompanha desde que nasceste,
orográfico e triste,
de pais que vestiam a paisagem dos trens de ferro
com os andrajos da mulher de Bolívar,
a insepulta de Paita.
Teus versos são lições de uma geografia da alma,
rochedos floridos de ternura.
Soltos na madrugada,
eles rastreiam fragrâncias, matizes,
números e signos gravados na espuma
e no cansaço das festas.
São metáforas da hora incalculável,
a incrível marca do passageiro.

Depois das estradas, Neruda,
o amor te concedera uma pausa,
um silêncio neutro que irrompe dos tanques
cobertos pelo trigo;
uma pausa que pergunta a cada coisa
se tem algo mais. E a cada palavra
endereça uma rosa. Neruda épico, lírico,
e que tampouco deixa de seguir os passos noturnos
de Lautrèamont, de Pascal e dos Três Mosqueteiros.


Teus cantos são cantarias de luar,
pólens de ouro e neblina.
Oh América do Sul


(Publicado no jornal O PÃO de Fortaleza-CE, Ano V-No. 36-em 13-12-1996). Atualizado em 2008)..




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Guimarães e Tufic



O ilustre poeta e ensaísta Jorge Tufic, como membro do Clube da Madrugada, recepcionou e foi hostess do escritor Guimarães Rosa quando este esteve pela primeira e única vez em Manaus, em 15 de janeiro de 1967. É sobre esse encontro, ocorrido há 42 anos, que Tufic nos conta um pouco.



Revista Literária – O que Guimarães Rosa veio fazer em Manaus naquele ano de 1967?

Jorge Tufic: Guimarães Rosa esteve em Manaus de passagem para uma reunião diplomática, se não me engano, em Bogotá, na Colômbia. Questões lindeiras.



RL – De quais atividades, culturais ou não, ele participou na cidade?

JT: Não houve tempo para isso. GR nos dera a impressão de que estava querendo aproveitar os dois dias que passaria em Manaus, a) conhecendo o Clube da Madrugada e b) ultimando questões diplomáticas do Itamarati (ao mesmo tempo em que se empenhava em experimentar um suco de taperebá). Tentei ajudá-lo nesse último desejo, mas, lamentavelmente, ainda não era época da fruta.



RL – A vinda do escritor famoso mexeu com a comunidade literária de Manaus? Cite nomes de quem participou da estada dele na cidade.

JT: De fato, mexeu com a turma do Clube. O restante dos intelectuais e escritores da terra, visceralmente apegados à tradição acadêmica, ficara à distância. Tanto que não houve imprensa nem fotógrafo no jantar que lhe fora oferecido pelo Clube da Madrugada, ali na Peixaria do Balaio, ou do velho Francisco, ao lado fluvial da Igreja dos Educandos. O Clube em peso compareceu ao ágape: Aluisio Sampaio, Ernesto Pinho Filho, Afrânio Castro, Saul Benchimol, Francisco Batista, Sebastião Norões, Farias de Carvalho, todos, enfim, com algumas exceções. Vale informar que ele, o grande Guimarães Rosa, ficou na berlinda diante de seus mais aferrados leitores, como Ernesto Pinho e Aluisio Sampaio, dando respostas breves, contudo substanciais quanto às personagens realmente polêmicas de seus romances, a exemplo de Grande Sertão Veredas e Sagarana. Outro fato histórico nessa sua rápida passagem por Manaus: dali a uma semana o nosso ilustre visitante tomaria posse na Academia Brasileira de Letras. Logo a seguir, se “encantaria”.



RL – Que impressões, em você, ficaram dele?
JT: Impressões indefiníveis só comparáveis a um prêmio que eu tivesse recebido, ainda sem o merecer. GR era um ser todo afeto, carinho verbal, solicitude, companheirismo nas andanças por onde quer que o levássemos, talvez para demonstrar com isso a plenitude da criatura, antes do criador. Quanta saudade ainda hoje sinto dele, quase uma falta, apesar das poucas horas de nosso contato.



João Guimarães Rosa, mais conhecido como Guimarães Rosa, nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 27 de junho de 1908. Foi um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos, bem como médico e diplomata.

Os contos e romances escritos por Guimarães Rosa ambientam-se quase todos no chamado sertão brasileiro. A sua obra destaca-se, sobretudo, pelas inovações de linguagem, sendo marcada pela influência de falares populares e regionais. Tudo isso, somado a sua erudição, permitiu a criação de inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos e palavras populares, invenções e intervenções semânticas e sintáticas.

O escritor morreu de infarto, dez meses depois de ter vindo a Manaus, em 19 de novembro de 1967, no Rio de Janeiro.

Guimarães Rosa em Manaus

Jorge Tufic, jorgetufic@hotmail.com



Considero imperdoável a omissão de um fotógrafo no jantar, a céu aberto, que o Clube da Madrugada ofereceu ao romancista João Guimarães Rosa, em sua única visita a Manaus, ocorrida a 15 de janeiro de 1967. Vinha o escritor em missão diplomática, mas a primeira coisa lembrada por ele não foram os pontos turísticos nem os homens de letras. Foi um refresco de taperebá. Pronunciava o nome da fruta com a mesma ênfase, o mesmo carinho ácido, a mesma teimosia infantil com que dava ao buriti de seu lugar de nascimento o feitio acabado de uma personagem de suas novelas. Este episódio tipicamente roseano é aludido pelo ensaísta Ítalo Gurgel, no estudo admirável que publica sobre “João: Um Vaqueiro de Cartola”: “As alusões ao buriti tornam-se, às vezes, quase obsessivas, como neste trecho do conto “Cara-de-Bronze”: “... e água, e alegre relva arrozã, só nos transvales, cada qual, se refletem, orlantes, o cheiroso sassafrás, a buritirana espinhosa, e os buritis, os ramilhetes dos buritizais, os buritizais, os buritizais, os buritis bebentes”. E Carlos Drumond de Andrade, mineiro como o nosso ex-diplomata, indaga num poema dedicado ao conterrâneo: “Tinha pastos, buritis plantados/ no apartamento?/ no peito?”.



(Trecho de uma crônica de Jorge Tufic, no seu livro “Tio José”, sobre a primeira e única vinda de Guimarães Rosa a Manaus, há 42 anos).


AO FINGIDOR


Jorge Tufic

Revejo a praça, o bar, o teatro, a igreja.
A tarde deixa o dia ali na esquina.
Logo chega o Simão, e a noite ensina
que antes do papo venha uma cerveja.

Agora o bar do Armando é uma oficina.
Em cada peito um fingidor lateja...
Zemaria sussurra, alguém troveja,
mas tudo é festa, brinde, serpentina.

Que seria de nós ou da Poesia,
se além da “crise” bar virasse banco,
praça, estacionamento, o que seria

das estrelas, do nimbo e do luar,
se de repente um verso – azul ou branco –
já não tivesse mais onde pousar?

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QUASE TEATRO – PURO CINEMA




Almir Gomes de Castro lança um livro surpreendente –Kuriquiã --,biografia romanceada, de sopro épico. É a vida, na região acreana do Alto Purus, de imigrantes da família do brilhante poeta Jorge Tufic, que lá abriu os olhos para o mundo e viveu a infância e além dela, transferindo-se depois para Manaus. Vale-se Almir da primeira pessoa, como se o poeta contasse essa odisséia dos que vieram de longe, além mar, nordestinos e habitantes da selva, com os seus segredos, sustos, dura realidade e lendas, em amostragem um tanto teatral e cinematográfica. Surpreendente como o autor praticamente tudo transferiu para o campo das falas, exsurgindo disto uma visão bastante impressionista das personagens e da região. O narrativo, com isto, comanda a história, e o descritivo tornou-se quase elíptico, sem perder nenhuma qualidade criadora ou desvirtuamento da verdade. E o curioso vai mais longe: o poeta Jorge Tufic, personagem principal, narrador, pouco aparece, mas está presente nas entrelinhas como uma sombra quase palpável, e o drama e a trama da história fogem do caminho estreito e se ampliam na vida das personagens e da região.
Eu sabia palidamente das origens acreanas do grande poeta Jorge Tufic. E agora, neste livro, vi, palpitando, em que mundo ele nasceu ,cresceu e absorveu desse mundo real e encantado, sem perder os liames seculares dos seus. A ótica narrativa abre-se muito, com suas tramas difusas e ao mesmo tempo unas, trazendo ao vivo a vida das personagens, e ele, o poeta, parecendo se resguardar, não fica em segundo plano, eis que é um espelho acompanhando tudo de perto.
A ascensão do poeta na vida, em Manaus, e projetando-se nacionalmente, vem em fulguração rápida. O livro é um recado: este é o seu passado, estas as suas raízes, laboratório da sua caminhada. E aqui chegou com nova arte poética, respeitada e admirada no país inteiro.
Este livro é cinema. Daria um belo filme.
Almir Gomes de Castro soube treliçar e destreliçar os cordéis para escrevê-lo. E o poeta é mais do que merecedor desta quase prece.
É tão fácil tirar a prova... Bastará ler o livro.


Caio Porfírio Carneiro



sábado, 24 de janeiro de 2009

Ernesto Penafort












Ernesto Penafort

(Capa de Getulio Alho. Retrato do autor: Bico de pena de Edmilson Salgado)





SONETO

noutros tempos, olinda, eras futuro.
sob sol e silêncio se descia
ao vale, e o vale fértil pressentia
a intenção dos abraços, além-muro.
vieram ventos. choveu do intento puro
o desejo de ser, no qual se cria:
pronta a rosa entendida falecia
sob sol e silêncio no chão duro.
várias chuvas passaram, hoje banho
noutras águas a vida, pois, de antanho,
só a luz do teu rosto é que me ocorre,
entre silêncio e sol, mas como tudo,
se incorpora, no tempo, a um fruto mudo:
sob sol e silêncio nasce e morre.


enquanto a lua for calada e branca
eu serei sempre o mesmo, este esquisito,
este invisível vulto, apenas visto
quando o vento, de leve açoita as folhas.
enquanto a lua for calada e branca
eu serei sempre o mesmo, apenas visto
quando um raio de sol morre na lágrima
que se despede de uma folha verde.
eu serei sempre assim, apenas sombra,
apenas visto quando a voz de um gesto
colhe no bosque alguma flor azul.
apenas visto quando em fundo azul
voar a garça (o meu adeus ao mundo?),
enquanto a lua for calada e branca.


SONETO DO OLHAR AZUL

de azul, azul demais é a luz dos olhos
que espiam em constante claridade
o escorrer, como um rio, uma cidade
com seus becos e sombras - vãos mistérios.
estranhamente azul é a luz dos olhos
que se alçam como pássaros - aéreos
de azul e luz - suspensos de saudade;
e de onde escapa um rio (o rio outro)
cujo leito é de saI e de agonia,
por sobre cujas águas não flutua,
embora em desespero, a luz do dia.
é noturno esse olhar? quem sabe a imagem
daquilo que entre gritos se anuncia
e em silencio acontece - e se faz lua.



O TOURO

o louro cinza traz sobre o ocipício
estranha meia lua eclipsada
no turvo olhar das vacas do Cambixe.
é belo o touro. o olhar (lâmina e gelo)
passeia-nos as aImas decorando-as
como se fossem seus os nossos pastos.
de seu dorso escorrem-Ihe os desejos
que se fincam nas patas feito plantas
de onde brota-Ihe o viço das andanças.
um mugido de cores o ilumina
e a tarde se afugenta de seu lombo
sorvendo o que ha de luz pela ravina.
e silencio o curral. sobreflutua
eclipsada e estranha meia lua.



RIO DE SONO






este é um rio de sono,
senhora.
este é um rio sem barcos
e tem toda feita em arcos
sua submersa flora.

pois este mesmo rio,
senhora,
que além de ser de sono
e sentir-se inavegável
(como se fosse de outono
sua eterna bruma de cobre)
é também um rio nobre.

inobstante ser pobre
de qualquer navegação,
pulsa nele, quando cai,
o dia, no fim do olhar,
o sol – seu coração.






SONETO DO OBJETIVO MAIOR


tudo está por fazer e ja cansada
te encontras neste inicio de aventura.
tudo está por ser feito e sossegada
te fincas sobre gestos de impostura.
tudo está por cumprir nesta jornada
que agora nos propomos, e amargura
tu mostras antes mesmo a caminhada
que nos há de levar a essa futura
vida que nos aguarda em seus segredos.
por que deténs-me então por entre os dedos
que, antes, teceram tudo o que hoje somos?
não podemos ficar. partir é tudo.
e o que temos de bom sobre o chão mudo.
vamos, seremos mais do que já fomos.


SONETO DO AZUL IRREAL

o irreal azul engole O mundo, enquanto
da morte magra polipartem galhos
e o vento os faz dançar. a leve dança
confunde-se à das aves, negras aves
que alem das folhas verdes se entrevêem
em vôos circunféricos (ao bote
a postos?). Ja um canto ocupa o quadro
e o vento, esse abstrato, como a chuva,
borrifa as notas pelo incerto azul.
e permanece o azul, incerto e calmo.
sob sua pele semelhante a um lago,
em cujo fundo um mundo se agitasse,
existe o nosso (o que foi e é, será?)
agora, vê-se o azul sangrando nuvens.


SONETO DO MURO AZUL

na tarde já passada ainda presente
está o vulto do amor inacabado.
uma lembrança de asa que pressente
um vôo de garça atravessar, molhando,
o olhar horizontal do poeta ausente
ao momento em que estava ali fincado.
era de fato amor. irreverente,
foi o seu gesto triste e tão lembrado.
ambos se olharam. desse olhar cruzado,
ergueu-se o muro azul e transparente
que pelos dois jamais fora pensado.
a musica é a culpada? e o olhar turvado?
na tarde já passada ainda presente
está o vulto do amor inacabado.




(Azul geral, Manaus, Edições Madrugada, 1973. Prefácio de Antísthenes Pinto. Posfácio de Farias de Carvalho).


A MEDIDA DO AZUL

A medida do azul é o estender-se
do olhar por sobre os seres. Esse arguto
perceber que se tem de não mover-se
o objeto - já por ser absoluto.
A medida do azul é ver um luto
contido em toda flor e o abster-se,
cada qual de assumir seu tom enxuto
e noutro que o não seu absorver-se.
A medida do azul, pelo contrário,
não é ver no horizonte o fim do olhar,
mas o ter desta vida aonde chegar,
pois ali tem o mundo o seu ovário:
e o retorno acontece, sempre estável,
eis que o azul é o início do infindável

SONETO ULTIMO
DA REVELAÇÃO DERRADEIRA


eis que a tarde enfuna o lenço
gris de sua despedida.
quanto mais não me convenço
mais é noite - absorvida
hora a que já não pertenço.
pronto exsurge um corpo só
que embora pensa caminha
coberto do mesmo pó
que em si próprio remoinha
seja embora para o espanto,
daqueles cuja ferida
teimam tê-la recolhida
haja luz por sobre o manto
e ecloda em forma de canto.


OS POMBOS MORREM DE PÉ



Acaso não me tivessem chamado a atenção, eu jamais o teria notado. Era belo e se consumia na mais ampla serenidade.
De pé sobre o parapeito e suavemente encostado à parede da Academia Brasileira de Letras, o pombo da paz casava o frio de sua morte ao frio da tarde. Fria não somente por ser de julho, mas fria também e principalmente porque mais uma paz morrera nas ruas, como tantas outras que diariamente se esgotam pela indiferença dos homens.
Do baixo céu da tarde pendia um ar pesado trazendo a chuva fina que descia. Dessas frequentemente acontecidas durante o inverno no Rio, obrigando cada um a olhar para o chão e pensar nos seus problemas. 0 dia se abatia e machucava tudo - as árvores, as ruas, as pessoas. Era uma queda horizontal da tarde.
No parapeito - triste beiral sem vento - humilde como o chão, o pombo da paz era campo de aéreas gotas de chuva que mansamente Ihe pousavam nas penas sossegadas. E nos dava o exato motivo de pensar que ele lutara. De que aquela fora uma paz que suara para não deixar nunca de continuar se cumprindo.
De seus olhos imigrava um olhar gelado que perseguia o infinito e era puro como as alturas atingidas. Que alados caminhos espiavam agora os seus olhos de gelo? Teriam acaso outros telhados o seu tranquilo voejar, na intimidade serena das chaminés? Adejaria por quais lugares aquela paz, ali aos poucos se findando, de pé como uma estatua?
Os homens passavam embrulhados de espessa taciturnidade. Dirigiam-se todos de encontro à noite que os esperava quieta, escura sempre. Nos seus recessos talvez uma fuga ou alguma solução para os problemas da quotidiana angustia. A noite, os bares se enchem de nações que logo se desfazem quando os sonhos adormecem.
Morto, estranhamente em pé, continuava o pombo feito uma estátua da paz, que pela paz e sendo paz, em paz se consumia.



(A medida do azul. Manaus, Governo do Estado do Amazonas, 1982. Introdução de L. Ruas)


Ernesto Penafort nasceu em Manaus, Amazonas, em 27 de março de 1936 e faleceu na mesma cidade em 3 de junho de 1992. Fez seus estudos em Manaus, formando-se em advocacia pela Faculdade de Direito do Amazonas. Era jornalista, poeta, contista. Morou 11 anos no Rio de Janeiro e só não se formou em Ciências Sociais pela Universidade do Brasil porque se desentendeu com um professor faltando um ano para concluir o curso. Foi redator da Rádio Nacional do Rio de Janeiro e da Folha de São Paulo. Voltando para Manaus, trabalhou na Fundação Cultural do Amazonas. Pertenceu ao Clube da Madrugada.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

R. Samuel - Leitura de "Aparição do clown" de L. Ruas




PÁSSARO EM VÔO

Leitura de Aparição do clown de L. Ruas

[Publicado originalmente em "Leituras da Amazônia",

Universidade Stendhal-Grenoble / U. A. Ano 1, n. 1, abril-1998]


Rogel Samuel



Russell S. King, da University of Nottingham, escreveu um texto muito elucidativo para a compreensão de “Aparição do clown”: “The poet as clown: Variations on a theme in nineteenth-century French poetry” (Orbis Litterarum - International review of Literary Studies, Volume 33 Issue 3, Pages 238 – 252 Published Online: 1 Jun 2007).

O auto-retrato do artista com um clown foi um tema generalizado pelos pintores do Século Vinte, e este modo de se ver partiu dos poetas franceses do Século Dezenove.

Houve uma espécie de metonímica fusão do Pierrô com o Arlequim, o bobo da corte, o showman vagante, o palhaço de circo e o violista cigano.

Segundo o pesquisador, foi Théodore de Banville o primeiro que identificou o clown com o poeta, nas suas "Odes funambulesques", de 1857, na aspiração de idealizar a realidade, como um acrobata na corda bamba.

Depois vieram Baudelaire, Mallarmé, Laforgue, e mesmo o português Fernando Pessoa.

Marlarmé se via como um ator decadente, uma vítima. O clown de Verlaine expressava a ambiguidade e plasticidade da estética literária. Mallarmé, o "Le Pitre châtié". Laforgue via no clown o diletante frívolo, uma espécie de Hamlet que era também um dandy que fazia o papel de simplório. Pessoa, como se sabe, disse que "o poeta é um fingidor", isto é, um clown.

Todos esses poetas faziam da simbologia do clown a imagem do escritor como um fingidor, um ator que cinicamente enganava seu leitor e a sociedade de seu tempo, numa manifestação contra o realismo da realidade de seu tempo.




A primeira parte de Aparição do clown se chama descoberta:

foi no tempo do luar pois não existe sol
no velho parque - tempo não maduro
que encontrei o sempiterno clown,
queria ver-lhe a face. e sua face
era imenso lago azul parado
onde a lua se repetia. lua.

Foi o seu primeiro e mais importante livro, publicado em Manaus por Sérgio Cardoso Editores em 1958. Quarenta anos depois sai uma segunda edição (Manaus, Editora Valer, 1998, infelizmente sem a "Interpretação do clown"de André Araujo, mas acrescida de prefácio de Carlos Eduardo Gonçalves e estudo de Tenório Telles).
Ruas nasceu em Manaus em 1931, com 11 anos entra no seminário (em Fortaleza e Rio de Janeiro), depois volta para Manaus onde era "pároclo, professor, jornalista, crítico de cinema e poeta" (Gonçalves). Principalmente foi ele um dos maiores poetas deste Brasil e um dos mais desconhecidos. (Utilizamos aqui a 1a edição).
O mito que nasce da descoberta é o de Narciso. E o de Eros e Psiquê. A descoberta do clown é a descoberta de si. O ver-se no espelho da face do outro levanta desde logo a questão reflexa do igual, que se recolhe no lago. O corpo do outro recolhe o meu mesmo transformar-se, o seu corpo de barro, seu corpo de estrelas, entre o céu e o chão se fundem o alegre riso e o triste pranto. O tempo é de metamorfose no lago da lua, tempo mítico do luar. E a referência é da Metamorfose de Ovídio, mas com a lua cheia e o lago espelho da face onde o palhaço aparece: um anti-Narciso. Seu corpo é de um demônio, um sedutor demônio, corpo de chafariz (de esperma) e de terra (de barro). A feminidade pansexual do velho clown se contagia da "boneca" que ele beija:


apenas vi o velho clown beijando
uma boneca. e beijando-a chorava
e ria ao mesmo tempo que
o destino dos palhaços é fundir
à luz da lua o alegre riso e o triste pranto.



E não há sol, mas penumbra e máscara ao luar onde pouco se pode ver e saber:

e vendo ser inútil o meu esforço
de descobrir integralmente o clown
eu suplicante lhe falei assim

É a segunda parte do poema aquilo que ele fala e que se chama discurso. E o discurso se resume numa pergunta: "Quem és?", ou "O que és?" Nesse discurso também se encontram todas as principais pistas do poema, suas proposições. Canta, ó musa, o clown esbandalhado, cansado e velho, mas poderoso e eterno. Ou mesmo, em lugar de "canta", temos por antítese "faz mistério", o que é o seu propósito, esconder, esconder-se aos quatro ventos. Mas o texto diz: "canta a tua ideologia".
Mas o que isto significa? O que significa dizer "que és?"
Diz Foucault, n'A vontade de saber, que desde a Idade Média as sociedades ocidentais colocaram a confissão entre seus mais importantes rituais para a produção da verdade. Há o desenvolvimento das técnicas da confissão, o métodos interrogatórios e de inquérito, a instauração dos tribunais tudo contribui para dar à confissão um papel central, a confissão da verdade na medicina, na justiça, na pedagogia, nas relações familiares, nas relações amorosas, - confessam-se crimes, pecados, desejos, pensamentos, sonhos, doenças, em público, em particular, aos pais, aos educadores, ao médico, a si próprio, confessa-se ou se é forçado a confessar sob tortura, e tudo isso produz relatos, livros, a literatura, sob a égide do: "diga a verdade" um Presidente norte-americano se viu arguído - pois a confissão se desenrola numa relação de poder, poder que intervém, impõe, avalia, julga, pune, perdoa, consola, um ritual em que a verdade é extorquida em espetáculo.
Mas como neste clown tudo é falso, a verdade se mascara de mentira, assim como o amor, que se dá num teatro:


a bailarina lhe disse chorando - eu te amo.
ele riu. palmas. a cortina cerrou-se


E todos comem o espetáculo. Consomem-no, "carne de elefante néctar de bonina alma de passarinho".
Não são espectadores, são cientistas: como "cientista da vida" é este clown. Como "anormal", o velho palhaço é inocência e maldade:


de onde vens palhaço? quê nos queres dizer?
fala que te espiamos cientista da vida
tu gargalhas no palco o que choramos na vida
......................................................................
sou criança que não aprendi ainda
o que é o belo e o feio
o pranto e a galhofa.
o que é ser e o que é não ser.
pois tu és homem palhaço tu és homem.




O centro temático do poema é este: "tu és verdadeiramente homem", e "honra e vergonha":


auréola de arcanjo
tu és verdadeiramente homem
pois tu somente revelas o segredo
honra e vergonha
que todos ocultamos



E assim se constituía, como viu Foucault, a ciência que se apoiava nos rituais da confissão e em seus conteúdos confessos, desavergonhados ou sob tortura, ciência que era uma extorsão múltipla e cujo objeto era o inconfessável, o escândalo, e é a partir daí que se constituem as ciências do sujeito, através da codificação do "fazer falar" (depois fotografar), através do interrogatório cerrado, onde havia o dever de dizer tudo e para todos (a confissão do Presidente na Internet), qualquer acidente, qualquer desvio, qualquer excesso - isto é: qualquer prazer, cujas consequências são as mais variadas, é preciso arrancar a verdade em nome da decência - e é justamente naquilo que o sujeito gostaria de esconder que se encontra o seu núcleo que tem de ser extraído à força, porque ele se esconde:


quem já viu a tua face
tua única face?
................................
todos riem somente da face mentirosa



E súbito uma heresia! O clown é a personificação do Cristo:


todos riem somente da face mentirosa
da escandalosa face que nos ofereces
dizendo que é vinho
todos beberiam porém teu sangue
seiva das árvores água dos rios lama das sargetas
e comeriam tua carne que não ofereces.
carne de elefante néctar de bonina alma de passarinho.



Mas a face engana, a máscara é vazia: atrás da face nada se esconde, a máscara oca, entre o sentido e o subjacente a máscara ri, ou melhor, faz rir: "onde está tua face palhaço onde? / além do além do horizonte / nas nuvens ou atrás da máscara?" A máscara, já se sabe, não é inútil para quem a usa. Nem inócua. A máscara é a face que a usa. E o discurso continua, "sombra de sonho".
E a máscara o convida para dançar. Ela é o inferno de si em ser o menino, "mito de farsa e de verdade".
A outra é a resposta, a Terceira Parte do poema. Que diz: "não sei", "nada sei". Apenas podemos ver as sombras sem ver a luz, como na Caverna. E aqui se encontra o magnífico verso maldito: "ser livre em essência é ser cativo".
A Quarta Parte, um aviso diz para "deixar o pássaro voar", pois a "a ilusão é mais mortífera que a desesperança". Conta que não adianta amar - o pássaro sempre voará, nunca será possível aprisionar o seu amor, e o que é aprisionado não é amor. A Quinta Parte se chama romance e aqui temos três elementos conjugados: o ar, o fogo e a água: o pássaro, a estrela e o peixe. A feminidade da água, e a masculinidade do peixe: o pássaro que devora a estrela que estava sendo devorada por um peixe. Pois o clown é dito que nasce aqui, o clown nasce da estrela, e ele, em vez de gênio, de arte, de poesia e de flor ele nasce como palhaço, palhaço dos homens. Na Sexta Parte começa o seu martírio: Prometeu que não morre, apesar de continuamente devorado vivo ("o amor nos prende e nos tortura, mas não mata"). Mas, nesse momento, seu ouve uma canção, a Sétima Parte de Aparição do clown. É uma canção de amor sem amado:


eu cantei uma canção
baixinho ao meu amado
- "não chores pequenino
não chores que eu te amo"-


eu andei por longas ruas
e por cidades perdidas
em busca do meu amor


Por isso o poeta empreende a viagem, a Oitava Parte. Viagem que não sai da praia. Em busca de si mesmo, ou seja, de seu amor perdido e mesmo desconhecido em si mesmo. Não sei, ele como que diz, não sei quem sou como objeto nem onde está o meu objeto. Ou melhor: não sei quem é o ser objetivo, a objetivação do sujeito que me constitui como sujeito e que me deu o meu signo de ser. O ser que me constitui desapareceu, e eu sujeito começo a me perder, começo a perder o sentido, deletando-me aos poucos. Não é Deus que me dá o signo, mas meu amor, meu objeto de amor que é igual a mim na face de espelho do lago da lua, a crueldade do espelho de Narciso não é se amar a si, mas sim só encontrar o objeto amado sob a pele das águas no reflexo espelho de seu lago, ou seja, tomar-se a si como outro, como se amo no outro que não tem, nem o outro, na alteridade de si mesmo, nem a si mesmo, na duplicação do que é, perde-se no mesmo. O texto, não só revela perdição, perversão, mas heresia. Dizer que há seres individuais significa dizer que são para-si - que se amam e se desejam na reciprocidade do lago. Para-si significa o retorno à unidade, a negação do outro como outro para a fusão do igual.


o mar é muito vasto e fera enraivecida
já engoliu noivos e pescadores
(...)
não procures no mar no bulício das vagas
a sombra do teu amor


A criança da praia lhe pede: "canta uma canção ao teu amor", ao que ele responde: "como cantarei cantos de amor nesta solidão? / os cantos nascem apenas da união / do brilho da estrela com o ritmo do vôo". E a criança canta uma apóstrofe, a Nona Parte, um soneto:


em vão hás de buscar pássaro triste
buscando o fruto verde não sepulto
nas praias naufragadas onde existe
a concha nacarada - peixe inculto

além de tuas patas espalmadas
o mar é brisa calma e mata bruta
as asas que se abrem limitadas
mergulham sem tocar na doce fruta

em curvas linhas retas canto e arte
te vejo entre o céu e o barro forte
comendo espaço e tempo sul e norte

buscando em vão o fruto que te farte.
quem sabe? pode ser que noutros mares
sacies teu desejo. é bom tentares



Então, na Décima Parte, o mar se abre e um dragão surge daquelas águas, o dragão e a flor. Durante a leitura de todo o poema se lê um pássaro que persegue uma estrela, como o diálogo entre a terra e o céu (como o inacessível amor, a grandeza e sublimidade do amado inatingível, como um deus). Agora, de um terceiro elemento sai o monstro que é ao mesmo tempo personificação das águas e dos seus semas femininos, como também do fogo. Terra, ar, água, céu, fogo. Se, como já se disse, houve até quem se afogasse num espelho, agora, do mar sai o dragão de si mesmo, pois o olho, que tudo vê, não se vê como dragão, o dragão do visto no visível se precipita num paradoxo da imaginação - eu não sou o outro porque nada sou no espelho das águas. O outro, que me vê, meu reflexo, surge como um dragão porque não posso sê-lo, ou melhor, não posso amá-lo - o outro é entretanto meu objeto (e sujeito de mim), o objeto é o que me impede de perder-me na vastidão do mar do sem sentido, nos sem limites do espaço do não/nada ser. Somos, eu e eu-mesmo no outro, limitados pelas dimensões significativas do espelho das águas, das águas e do nosso desejo, pelas fímbrias dos nossos seres ali confrontados. Como ser algo além da máscara? Como deixar de me confrontar com meu próprio ser se me olho no espelho das águas mascarado de palhaço de mim mesmo? No poema de L. Ruas, a aparição do clown significa aparição do monstro mascarado, da máscara monstruosa, da face da máscara do ser atrás da qual nada há: somos a máscara que nos veste, a aparência é, em si mesma, a essência, aparência que vem e ameaça quando o lago se torna o mar e o espelho do outro se personifica. É de lá, de dentro deste mar/espelho onde eu posso me ver e me afogar que nasce o dragão que me ameaça, ou seja, eu me ameaço com um dragão, eu somatizo um dragão interno que me ameaça, dragão que sai do meu peito ou das dobras de minha noite, do meu inconsciente despertar. E eu, "self made" dragão da minha interna maldade, das ruínas de mim, da arqueologia de mim ameaçando a mim mesmo... com seu amor!

uivava o mar qual leão acorrentado
sob o peso imponderável do amor
do dragão que perseguia a flor.


Ora, o amor escapa pelo pássaro para a estrela. O amor de granito, de chumbo, decola. Mas tudo se dá neste teatro assumido e de papel crepom, onde tudo é falso, o amor, a boneca, a máscara, tudo é uma farsa desempenhada no picadeiro pelo clown. O que se diz no poema é: toda grandeza cai em pedaços, tudo o que é sublime é torpe nesse picadeiro-vida - estamos todos nos vendo nas dolências de mulher da flor das flores - "oh, as flores perdidas para sempre / nos longínquos perfumes ressequidos" - e subsistimos em desgraça, na sordidez da nossa solidão.
O dragão vem anunciar que "Vênus está extinta", que o amor deixou de ser possível. Mas na praia havia uma criança que fabricava uma espada que lhe cortava a mão, espada essa para matar o cordeiro que seria servido no banquete do encontro da estrela com o pássaro - tudo muito teatral: "então a criança correu para meus braços / gritando - "não deixes o dragão me seduzir".


- que posso fazer criança que não sou
poderei salvar por acaso o eterno jogo
se habitas a praia sem dimensões
sem sol e sem luar?
por que me buscas se possues a espada
e mãos de sonho e olhos de rubi?
sou apenas sopro vento vaidade nada
pó perfume cor sonoridade luz.
que mistério é este que sugeres
tentando penetrar nestas entranhas
fecundadas pelo canto do pássaro ferido?
então o mar partiu-se lado a lado
como um véu por invisíveis mãos rasgado
e engoliu o dragão.



Segue-se um prelúdio, o prelúdio da Décima-primeira Parte, que poderia iniciar o poema todo


quatro cavalos passaram galopando
em asas de águias sustentados
relinchando como se fosse trombetas sua voz
ou ribombar de trovões enlouquecidos
olhei. estava só na praia. o mar quieto.
uma brisa dançava sobre as ondas
o prelúdio que chopin tocava soluçando.
depois vieram ninfas volitando
ao som de músicas ligeiras.
sumiram-se depois nas gotas do orvalho.
oh. a crosta espessa das palavras
que mal revelam o fulcro luminoso
da consciência do mistério vislumbrado.
quem está cantando perguntei?
rosas?
quem está cantando é o coro dos palhaços.


De que é o coral da Décima Segunda parte senão dos palhaços que dizem: "aguardai no amor / que o pássaro virá". Ao que a nênia da parte seguinte contradiz: se o pássaro não vier será a noite silenciosa, a morta noite e deserta onde "inutilmente serás". A ressurreição do baile é Décima Quarta Parte, quando o pássaro está chegando e tudo renasce, recomeça, ressuscita. Mas no retorno da Décima Quinta Parte se diz que quem retorna não é o pássaro, mas um fantasma, um anjo indiferente. Quem é esse anjo, pergunta:

quem sou? rosa anjo fagulha do inferno
semi-deus apenas gesto luz ou noite

mas nada diz do que é - ele é o amor morto do universo, o homem-mulher do positivo-negativo que move o universo mas morto, o amor está morto, é um fantasma, já se viu, ele era o fantasma dos amantes, tresloucado, que só vive nas sombras e nos sonhos: "é sombra seu império. / não trevas. mas a luz azul / que não é dia não é noite. / é luar". Aos palhaços não é dado amar, e o amor para eles são asas, somente isso: angústia "de fugir ao destino das raízes", asas de desespero, de nijinski, de ícaro, de barro, de seta, de voejos e de volutas, de anjos querubins de touros assírios de custódia de calcanhares de mercúrio de papel crepom de anjinhos meninas de procissões de avião de queda.
O fantasma é a Musa.
Mas os guizos pendentes de seus dedos dizem que ele é o clown. Ele é o Mito, o Enigma, a Linguagem. Seu corpo de feno e de melodia é o corpo amado dos quatro elementos, o motor e a paz - o sonho, a poesia a beleza o despertar a sede o que palpitante existe em nós a vida.
E ele se foi.
Deixou o seu legado, a Décima-sexta Parte. Estranho, triste e simbólico legado: deixou-nos as asas (de belzebu, de pés de bailarina, panos leves, gazes, gestos dos braços, fadas bruxas borboletas garças abelhas plumas arcanjos pássaros selvagens em bando asas de águia e asas quietas pousadas em silêncio).
O poema termina, a penúltima parte chama-se doutrina, a doutrina de ser caminhante, marinheiro, errante, sem cessar, sem ver o sol (apenas o luar / e a luz indecisa das estrelas), peregrino sempre, ave sem poder voar, clown de ser/não ser shakespeariano.
O poema termina, sim, é a despedida, a última parte:

e o velho clown partiu beijando ainda
o brinquedo que a criança abandonara
no velho palco parque ou tempo sem memória

ROGEL SAMUEL é Doutor em Letras e Prof. Aposentado da Pós-graduação da Faculdade de Letras da UFRJ. Autor de vários artigos e livros, dentre os quais o Novo manual de teoria literária. Petrópolis, Vozes, 4a edição.

domingo, 18 de janeiro de 2009

L. RUAS - POESIA REUNIDA


PÁSSARO EM VÔO

Leitura de Aparição do clown de L. Ruas

[Publicado originalmente em "Leituras da Amazônia", 

Universidade Stendhal-Grenoble / U. A. Ano 1, n. 1, abril-1998]


Rogel Samuel



A primeira parte de Aparição do clown se chama descoberta: 

foi no tempo do luar pois não existe sol 
no velho parque - tempo não maduro 
que encontrei o sempiterno clown, 
queria ver-lhe a face. e sua face 
era imenso lago azul parado 
onde a lua se repetia. lua. 

Foi o seu primeiro e mais importante livro, publicado em Manaus por Sérgio Cardoso Editores em 1958. Quarenta anos depois sai uma segunda edição (Manaus, Editora Valer, 1998, infelizmente sem a "Interpretação do clown"de André Araujo, mas acrescida de prefácio de Carlos Eduardo Gonçalves e estudo de Tenório Telles). 
Ruas nasceu em Manaus em 1931, com 11 anos entra no seminário (em Fortaleza e Rio de Janeiro), depois volta para Manaus onde era "pároclo, professor, jornalista, crítico de cinema e poeta" (Gonçalves). Principalmente foi ele um dos maiores poetas deste Brasil e um dos mais desconhecidos. (Utilizamos aqui a 1a edição). 
O mito que nasce da descoberta é o de Narciso. E o de Eros e Psiquê. A descoberta do clown é a descoberta de si. O ver-se no espelho da face do outro levanta desde logo a questão reflexa do igual, que se recolhe no lago. O corpo do outro recolhe o meu mesmo transformar-se, o seu corpo de barro, seu corpo de estrelas, entre o céu e o chão se fundem o alegre riso e o triste pranto. O tempo é de metamorfose no lago da lua, tempo mítico do luar. E a referência é da Metamorfose de Ovídio, mas com a lua cheia e o lago espelho da face onde o palhaço aparece: um anti-Narciso. Seu corpo é de um demônio, um sedutor demônio, corpo de chafariz (de esperma) e de terra (de barro). A feminidade pansexual do velho clown se contagia da "boneca" que ele beija: 


apenas vi o velho clown beijando 
uma boneca. e beijando-a chorava 
e ria ao mesmo tempo que 
o destino dos palhaços é fundir 
à luz da lua o alegre riso e o triste pranto. 



E não há sol, mas penumbra e máscara ao luar onde pouco se pode ver e saber: 

e vendo ser inútil o meu esforço 
de descobrir integralmente o clown 
eu suplicante lhe falei assim 

É a segunda parte do poema aquilo que ele fala e que se chama discurso. E o discurso se resume numa pergunta: "Quem és?", ou "O que és?" Nesse discurso também se encontram todas as principais pistas do poema, suas proposições. Canta, ó musa, o clown esbandalhado, cansado e velho, mas poderoso e eterno. Ou mesmo, em lugar de "canta", temos por antítese "faz mistério", o que é o seu propósito, esconder, esconder-se aos quatro ventos. Mas o texto diz: "canta a tua ideologia". 
Mas o que isto significa? O que significa dizer "que és?" 
Diz Foucault, n'A vontade de saber, que desde a Idade Média as sociedades ocidentais colocaram a confissão entre seus mais importantes rituais para a produção da verdade. Há o desenvolvimento das técnicas da confissão, o métodos interrogatórios e de inquérito, a instauração dos tribunais tudo contribui para dar à confissão um papel central, a confissão da verdade na medicina, na justiça, na pedagogia, nas relações familiares, nas relações amorosas, - confessam-se crimes, pecados, desejos, pensamentos, sonhos, doenças, em público, em particular, aos pais, aos educadores, ao médico, a si próprio, confessa-se ou se é forçado a confessar sob tortura, e tudo isso produz relatos, livros, a literatura, sob a égide do: "diga a verdade" um Presidente norte-americano se viu arguído - pois a confissão se desenrola numa relação de poder, poder que intervém, impõe, avalia, julga, pune, perdoa, consola, um ritual em que a verdade é extorquida em espetáculo. 
Mas como neste clown tudo é falso, a verdade se mascara de mentira, assim como o amor, que se dá num teatro: 


a bailarina lhe disse chorando - eu te amo. 
ele riu. palmas. a cortina cerrou-se 


E todos comem o espetáculo. Consomem-no, "carne de elefante néctar de bonina alma de passarinho". 
Não são espectadores, são cientistas: como "cientista da vida" é este clown. Como "anormal", o velho palhaço é inocência e maldade: 


de onde vens palhaço? quê nos queres dizer? 
fala que te espiamos cientista da vida 
tu gargalhas no palco o que choramos na vida 
...................................................................... 
sou criança que não aprendi ainda 
o que é o belo e o feio 
o pranto e a galhofa. 
o que é ser e o que é não ser. 
pois tu és homem palhaço tu és homem. 




O centro temático do poema é este: "tu és verdadeiramente homem", e "honra e vergonha": 


auréola de arcanjo 
tu és verdadeiramente homem 
pois tu somente revelas o segredo 
honra e vergonha 
que todos ocultamos 



E assim se constituía, como viu Foucault, a ciência que se apoiava nos rituais da confissão e em seus conteúdos confessos, desavergonhados ou sob tortura, ciência que era uma extorsão múltipla e cujo objeto era o inconfessável, o escândalo, e é a partir daí que se constituem as ciências do sujeito, através da codificação do "fazer falar" (depois fotografar), através do interrogatório cerrado, onde havia o dever de dizer tudo e para todos (a confissão do Presidente na Internet), qualquer acidente, qualquer desvio, qualquer excesso - isto é: qualquer prazer, cujas consequências são as mais variadas, é preciso arrancar a verdade em nome da decência - e é justamente naquilo que o sujeito gostaria de esconder que se encontra o seu núcleo que tem de ser extraído à força, porque ele se esconde: 


quem já viu a tua face 
tua única face? 
................................ 
todos riem somente da face mentirosa 



E súbito uma heresia! O clown é a personificação do Cristo: 


todos riem somente da face mentirosa 
da escandalosa face que nos ofereces 
dizendo que é vinho 
todos beberiam porém teu sangue 
seiva das árvores água dos rios lama das sargetas 
e comeriam tua carne que não ofereces. 
carne de elefante néctar de bonina alma de passarinho. 



Mas a face engana, a máscara é vazia: atrás da face nada se esconde, a máscara oca, entre o sentido e o subjacente a máscara ri, ou melhor, faz rir: "onde está tua face palhaço onde? / além do além do horizonte / nas nuvens ou atrás da máscara?" A máscara, já se sabe, não é inútil para quem a usa. Nem inócua. A máscara é a face que a usa. E o discurso continua, "sombra de sonho". 
E a máscara o convida para dançar. Ela é o inferno de si em ser o menino, "mito de farsa e de verdade". 
A outra é a resposta, a Terceira Parte do poema. Que diz: "não sei", "nada sei". Apenas podemos ver as sombras sem ver a luz, como na Caverna. E aqui se encontra o magnífico verso maldito: "ser livre em essência é ser cativo". 
A Quarta Parte, um aviso diz para "deixar o pássaro voar", pois a "a ilusão é mais mortífera que a desesperança". Conta que não adianta amar - o pássaro sempre voará, nunca será possível aprisionar o seu amor, e o que é aprisionado não é amor. A Quinta Parte se chama romance e aqui temos três elementos conjugados: o ar, o fogo e a água: o pássaro, a estrela e o peixe. A feminidade da água, e a masculinidade do peixe: o pássaro que devora a estrela que estava sendo devorada por um peixe. Pois o clown é dito que nasce aqui, o clown nasce da estrela, e ele, em vez de gênio, de arte, de poesia e de flor ele nasce como palhaço, palhaço dos homens. Na Sexta Parte começa o seu martírio: Prometeu que não morre, apesar de continuamente devorado vivo ("o amor nos prende e nos tortura, mas não mata"). Mas, nesse momento, seu ouve uma canção, a Sétima Parte de Aparição do clown. É uma canção de amor sem amado: 


eu cantei uma canção 
baixinho ao meu amado 
- "não chores pequenino 
não chores que eu te amo"- 


eu andei por longas ruas 
e por cidades perdidas 
em busca do meu amor 


Por isso o poeta empreende a viagem, a Oitava Parte. Viagem que não sai da praia. Em busca de si mesmo, ou seja, de seu amor perdido e mesmo desconhecido em si mesmo. Não sei, ele como que diz, não sei quem sou como objeto nem onde está o meu objeto. Ou melhor: não sei quem é o ser objetivo, a objetivação do sujeito que me constitui como sujeito e que me deu o meu signo de ser. O ser que me constitui desapareceu, e eu sujeito começo a me perder, começo a perder o sentido, deletando-me aos poucos. Não é Deus que me dá o signo, mas meu amor, meu objeto de amor que é igual a mim na face de espelho do lago da lua, a crueldade do espelho de Narciso não é se amar a si, mas sim só encontrar o objeto amado sob a pele das águas no reflexo espelho de seu lago, ou seja, tomar-se a si como outro, como se amo no outro que não tem, nem o outro, na alteridade de si mesmo, nem a si mesmo, na duplicação do que é, perde-se no mesmo. O texto, não só revela perdição, perversão, mas heresia. Dizer que há seres individuais significa dizer que são para-si - que se amam e se desejam na reciprocidade do lago. Para-si significa o retorno à unidade, a negação do outro como outro para a fusão do igual. 


o mar é muito vasto e fera enraivecida 
já engoliu noivos e pescadores 
(...) 
não procures no mar no bulício das vagas 
a sombra do teu amor 


A criança da praia lhe pede: "canta uma canção ao teu amor", ao que ele responde: "como cantarei cantos de amor nesta solidão? / os cantos nascem apenas da união / do brilho da estrela com o ritmo do vôo". E a criança canta uma apóstrofe, a Nona Parte, um soneto: 


em vão hás de buscar pássaro triste 
buscando o fruto verde não sepulto 
nas praias naufragadas onde existe 
a concha nacarada - peixe inculto 

além de tuas patas espalmadas 
o mar é brisa calma e mata bruta 
as asas que se abrem limitadas 
mergulham sem tocar na doce fruta 

em curvas linhas retas canto e arte 
te vejo entre o céu e o barro forte 
comendo espaço e tempo sul e norte 

buscando em vão o fruto que te farte. 
quem sabe? pode ser que noutros mares 
sacies teu desejo. é bom tentares 



Então, na Décima Parte, o mar se abre e um dragão surge daquelas águas, o dragão e a flor. Durante a leitura de todo o poema se lê um pássaro que persegue uma estrela, como o diálogo entre a terra e o céu (como o inacessível amor, a grandeza e sublimidade do amado inatingível, como um deus). Agora, de um terceiro elemento sai o monstro que é ao mesmo tempo personificação das águas e dos seus semas femininos, como também do fogo. Terra, ar, água, céu, fogo. Se, como já se disse, houve até quem se afogasse num espelho, agora, do mar sai o dragão de si mesmo, pois o olho, que tudo vê, não se vê como dragão, o dragão do visto no visível se precipita num paradoxo da imaginação - eu não sou o outro porque nada sou no espelho das águas. O outro, que me vê, meu reflexo, surge como um dragão porque não posso sê-lo, ou melhor, não posso amá-lo - o outro é entretanto meu objeto (e sujeito de mim), o objeto é o que me impede de perder-me na vastidão do mar do sem sentido, nos sem limites do espaço do não/nada ser. Somos, eu e eu-mesmo no outro, limitados pelas dimensões significativas do espelho das águas, das águas e do nosso desejo, pelas fímbrias dos nossos seres ali confrontados. Como ser algo além da máscara? Como deixar de me confrontar com meu próprio ser se me olho no espelho das águas mascarado de palhaço de mim mesmo? No poema de L. Ruas, a aparição do clown significa aparição do monstro mascarado, da máscara monstruosa, da face da máscara do ser atrás da qual nada há: somos a máscara que nos veste, a aparência é, em si mesma, a essência, aparência que vem e ameaça quando o lago se torna o mar e o espelho do outro se personifica. É de lá, de dentro deste mar/espelho onde eu posso me ver e me afogar que nasce o dragão que me ameaça, ou seja, eu me ameaço com um dragão, eu somatizo um dragão interno que me ameaça, dragão que sai do meu peito ou das dobras de minha noite, do meu inconsciente despertar. E eu, "self made" dragão da minha interna maldade, das ruínas de mim, da arqueologia de mim ameaçando a mim mesmo... com seu amor! 

uivava o mar qual leão acorrentado 
sob o peso imponderável do amor 
do dragão que perseguia a flor. 


Ora, o amor escapa pelo pássaro para a estrela. O amor de granito, de chumbo, decola. Mas tudo se dá neste teatro assumido e de papel crepom, onde tudo é falso, o amor, a boneca, a máscara, tudo é uma farsa desempenhada no picadeiro pelo clown. O que se diz no poema é: toda grandeza cai em pedaços, tudo o que é sublime é torpe nesse picadeiro-vida - estamos todos nos vendo nas dolências de mulher da flor das flores - "oh, as flores perdidas para sempre / nos longínquos perfumes ressequidos" - e subsistimos em desgraça, na sordidez da nossa solidão. 
O dragão vem anunciar que "Vênus está extinta", que o amor deixou de ser possível. Mas na praia havia uma criança que fabricava uma espada que lhe cortava a mão, espada essa para matar o cordeiro que seria servido no banquete do encontro da estrela com o pássaro - tudo muito teatral: "então a criança correu para meus braços / gritando - "não deixes o dragão me seduzir". 


- que posso fazer criança que não sou 
poderei salvar por acaso o eterno jogo 
se habitas a praia sem dimensões 
sem sol e sem luar? 
por que me buscas se possues a espada 
e mãos de sonho e olhos de rubi? 
sou apenas sopro vento vaidade nada 
pó perfume cor sonoridade luz. 
que mistério é este que sugeres 
tentando penetrar nestas entranhas 
fecundadas pelo canto do pássaro ferido? 
então o mar partiu-se lado a lado 
como um véu por invisíveis mãos rasgado 
e engoliu o dragão. 



Segue-se um prelúdio, o prelúdio da Décima-primeira Parte, que poderia iniciar o poema todo 


quatro cavalos passaram galopando 
em asas de águias sustentados 
relinchando como se fosse trombetas sua voz 
ou ribombar de trovões enlouquecidos 
olhei. estava só na praia. o mar quieto. 
uma brisa dançava sobre as ondas 
o prelúdio que chopin tocava soluçando. 
depois vieram ninfas volitando 
ao som de músicas ligeiras. 
sumiram-se depois nas gotas do orvalho. 
oh. a crosta espessa das palavras 
que mal revelam o fulcro luminoso 
da consciência do mistério vislumbrado. 
quem está cantando perguntei? 
rosas? 
quem está cantando é o coro dos palhaços. 


De que é o coral da Décima Segunda parte senão dos palhaços que dizem: "aguardai no amor / que o pássaro virá". Ao que a nênia da parte seguinte contradiz: se o pássaro não vier será a noite silenciosa, a morta noite e deserta onde "inutilmente serás". A ressurreição do baile é Décima Quarta Parte, quando o pássaro está chegando e tudo renasce, recomeça, ressuscita. Mas no retorno da Décima Quinta Parte se diz que quem retorna não é o pássaro, mas um fantasma, um anjo indiferente. Quem é esse anjo, pergunta: 

quem sou? rosa anjo fagulha do inferno 
semi-deus apenas gesto luz ou noite 

mas nada diz do que é - ele é o amor morto do universo, o homem-mulher do positivo-negativo que move o universo mas morto, o amor está morto, é um fantasma, já se viu, ele era o fantasma dos amantes, tresloucado, que só vive nas sombras e nos sonhos: "é sombra seu império. / não trevas. mas a luz azul / que não é dia não é noite. / é luar". Aos palhaços não é dado amar, e o amor para eles são asas, somente isso: angústia "de fugir ao destino das raízes", asas de desespero, de nijinski, de ícaro, de barro, de seta, de voejos e de volutas, de anjos querubins de touros assírios de custódia de calcanhares de mercúrio de papel crepom de anjinhos meninas de procissões de avião de queda. 
O fantasma é a Musa. 
Mas os guizos pendentes de seus dedos dizem que ele é o clown. Ele é o Mito, o Enigma, a Linguagem. Seu corpo de feno e de melodia é o corpo amado dos quatro elementos, o motor e a paz - o sonho, a poesia a beleza o despertar a sede o que palpitante existe em nós a vida. 
E ele se foi. 
Deixou o seu legado, a Décima-sexta Parte. Estranho, triste e simbólico legado: deixou-nos as asas (de belzebu, de pés de bailarina, panos leves, gazes, gestos dos braços, fadas bruxas borboletas garças abelhas plumas arcanjos pássaros selvagens em bando asas de águia e asas quietas pousadas em silêncio). 
O poema termina, a penúltima parte chama-se doutrina, a doutrina de ser caminhante, marinheiro, errante, sem cessar, sem ver o sol (apenas o luar / e a luz indecisa das estrelas), peregrino sempre, ave sem poder voar, clown de ser/não ser shakespeariano.  
O poema termina, sim, é a despedida, a última parte: 

e o velho clown partiu beijando ainda 
o brinquedo que a criança abandonara 
no velho palco parque ou tempo sem memória 

ROGEL SAMUEL é Doutor em Letras e Prof. Aposentado da Pós-graduação da Faculdade de Letras da UFRJ. Autor de vários artigos e livros, dentre os quais o Novo manual de teoria literária. Petrópolis, Vozes, 4a edição. 





POESIA
REUNIDA




Sumário



1. Aparição do clown
2. Poemeu
3. PEQUENA ANTOLOGIA MADRUGADA
4. OUTRAS FONTES









APARIÇÃO DO CLOWN














Nota do organizador:
Aparição do clown foi impresso e tido como lançado em 1958. Seu lançamento, entretanto, ocorreu no dia 31 de janeiro de 1959, consoante o registro de O Jornal, Manaus, mesma data. Veja ainda a entrevista de L. Ruas ao mesmo jornal em 10 de fevereiro de 1959.

INTERPRETAÇÃO DO CLOWN


O milagre do destino das palavras está no mistério de seu sentido expressivo. E no aparente obscuro dessa mística da expressão, estão a claridade dos símbolos criados e a beleza da matéria expressiva que o pensamento cria. E tudo é símbolo na vida. Quanto maior for a intimidade das forças em conflito, no homem e na humanidade, mais profundo será o mistério de cada um de nós, mais trágico será o drama da humanidade e, portanto, mais simbólica e mais mística será sua representação.

O drama espiritual de cada um de nós, com suas sombras, com suas luzes, traz a marca da queda do homem, como realidade positiva de nossa miséria, de nossa vanidade. Os conflitos, as lutas, os desesperos humanos, a ânsia pela existência, todas as forças angélicas ou demoníacas, têm intimidade nos mistérios dos nossos destinos.
A poesia, o poético, a razão, o sentimento artístico, a filosofia, a religião têm sempre um todo de revolucionário, porque saem das profundezas do ser, trazem a nostalgia do espiritual, o mistério das coisas, o sentimento do universo de Klopstock, de Herder, de Novalis, de Shubert, de Schelling, de Kant, de Fichte.

O drama de cada alma, no presente, reside na nostalgia do infinito, naquele fogo e naquele devorar eterno do Prometeu agrilhoado na escarpa da Montanha, que é a carne que escraviza o espírito.

O homem é rico de beleza e de bondade, mas é capaz de fazer o mal e se tornar um monstro. É brancura e beleza de lírio, mas tem as raízes mergulhadas na lama e na negrura da terra.

É possível até que cada homem, que todos os homens possam cantar uma aventura poética com as suas grandezas e sua miséria; realizar aquelas coisas que fazem de cada um de nós, rei ou vassalo, sábio ou ignorante. Entretanto, quando o homem é bom ou grande, ele canta, ele poetisa.

Quando os tempos estavam plenos, a Mulher cantou o Magnificat: o velho Simeão exultou na exuberância mística de sua senectude milagrosa. É nessas duas expressões mais altas da alegria humana que se levantam para o infinito, − como o pássaro que distende as asas para o azul dos céus, − em dor, em sofrimento, entre lágrimas, que o homem canta.

Os poetas são, em geral, a soma de três relações abstratas: a estética, a mística e a simbólica. Um Baudelaire, um Ruysbroeck, um Swedenborg, um São João da Cruz são somas de si mesmos, nessas três funções abstratas da existência humana, existência cheia de misérias, de incompreensões, de angústias e desilusões. A estética, a mística e a simbólica são forças axiomáticas desse mundo irracional e anti-póetico que é o extraordinário, o sublime, o radioso mundo dos artistas, dos místicos e dos poetas.

A Aparição do clown do padre Luiz Ruas é um poema místico, filosófico, cujos símbolos se multiplicam em cada verso, em cada trecho do poema admirável, rico em idéias e em palavras.

O sempiterno clown aparece ao luar, num céu e chão azuis. Uma boneca. Riso e pranto, porque “o destino dos palhaços é fundir à luz da lua, o alegre riso e o triste pranto.” O palhaço é aqui um mistério na poética do padre Luiz Ruas, quando Ruas interroga: onde está tua face palhaço? no riso, no pranto, na dor. A luz da ribalta, a música, os guizos, o trapézio são faces da velha máscara. O que o padre Luiz Ruas procura é a face verdadeira, a que não se parte, desse palhaço eterno que é o homem em si, artista, poeta, músico ou dançarino.

O poema é um alto símbolo do poético. E como o poético é sempre humano e meio divino, a gente sente que o palhaço, − encarnando a humanidade, − canta, beija, tem silêncios, chora e baila. Quer palmas e tem pedras. Quer sedas e tem farrapos. Esmola e dá banquetes platônicos ou plotinianos. Recebe flores e rosas e ama a indiferença e a vaia. Pede vinho e tem sangue. Tem a água cristalina dos rios da compreensão, e se retrata na lama das sarjetas.

Mas como há sempre em todas as vidas uma estrela no céu de um de nós, uma luz interior brilha no profundo de todos os homens, que é a luz do poético estereotipada no clown do poema, clown que é homem e humanidade, cheia de guizos e chocalhos, de beleza angelical e monstruosidade de sapo; de água e lama; de picadeiro e de palco ou estrada da vida; de verticalidade impecável e gargalhada e cabriola e trejeito e galhofa e pranto, − tristes aspectos de toas as vidas que surgem nas luzes das grandes ilusões ou que morrem na dura verdade de todas as contingências.

Nisso tudo se vê e se sente uma grande filosofia, uma mensagem que o poema traz aos homens e à humanidade. Essa mensagem poderia ser trazida em forma de um Evangelho, ou de um grande poema homérico, ou de um sistema filosófico profundamente místico e metafísico, ou de uma tragédia shakespeareana, ou de um drama goetheano ou de uma comédia molièreana, ou de uma sinfonia beethoveneana, mas o seu autor, modestamente, “descobre o clown”, dá um “aviso”, conta o “romance”, relata o “martírio” e desfaz tudo no mistério de um “canto”, numa “viagem de estrela”: num “apóstrofe”.

E depois, como tudo que é místico, lendário, cheio de beleza infantil das histórias de crianças, das lendas antigas, dos que escrevem maravilhosamente coisas inocentes, leves e profundas, dedicadas e ingênuas, − surge no poema a história de “dragão e a flor”, a “promessa”, o “nascimento do baile”, o “retorno”, e finalmente a “herança” que é a angústia, o conflito daquilo que ele chama o “destino das Raízes”, algo de nossas misérias, de nossas contingências humanas de pobres e tristes clowns, que trazem para a vida (de certo) uma mensagem dolorosa, que não vale a gargalhada de um palhaço ou de um brinquedo abandonado de criança, nesse velho e imenso palco, − “parque ou tempo sem memória”.

O poema do padre Luiz Ruas tem idéia. É criação pura, jogando com poesia pura, dentro do mais puro conceito de poética. E é no ideal dessa pura poética, que ele criou o mundo e o universo de seus símbolos admiráveis.

* * *

Um pássaro ferido, vagueando na madrugada; a essência intocada da estrela de cinco pontas, − são a esquematização da ânsia de liberdade divina, porque o “pássaro é essencialmente livre” e a estrela, no infinito, é o símbolo da intocabilidade divina, do amor, da liberdade, da música, da harmonia, da paz.

Mas a estrela do poema é raptada pelo pássaro. Essa parte do poema é de transcendente espectação. Porque além do pássaro surge um PEIXE que tenta comer a estrela. Não serão o pássaro a ânsia do homem para o infinito e a estrela o próprio infinito e o peixe o grande IDEAL CRISTÃO, no qual encontramos a essência do próprio infinito que é o seio de Deus?

Não haverá por aqui influência da mística de São Agostinho e de São João da Cruz?

Mas o pássaro comeu a estrela e a estrela o pássaro gerou. Não será isso uma afirmação catequética de que o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus e que o próprio homem concebeu a idéia de Deus? Lá estão, no poema, a serpente, a maçã, a figueira e o lírio. Todos esses símbolos são altas expressões da grande vida mística do cristianismo.

A parte do poema que trata do martírio do Prometeu no deserto e na montanha, é um convite ao banquete, qualquer que seja a interpretação que se faça do poema, −porque às vezes os olhos não vêem e os ouvidos não ouvem. As asas sangram, os trigais estão maduros e é preciso acender a lanterna interior, até que o pássaro volte das buscas audaciosas, das prescrutações cientificas ou de filosofias audaciosas.

E a estrela silenciosa canta a canção até que o filho pródigo volte.

Mas, no cais as embarcações estavam todas amarradas, e a estrela, que é o poético no homem, desamarrou as barcaças e passou para o outro lado de si mesma, do ideal, do poético, da vida própria. E viu Caronte, Orfeu, Eurídice, mares ignotos, e essa coisa tremenda que são “as almas insepultas” num mundo como o nosso, isto é, almas ricas de sua liberdade de querer SER, de querer realizar-se.
O pássaro, a estrela, as rosas, a criança que canta, o “apostrofe”, o dragão, a flor, o mar, os velhos temas do humano eterno, no vibrar eterno da poética universal, cantam em todas as musicas e no coro de todos os palhaços:

Vigiai, vigiai!
Preparai a veste
Acendei o círio
Ressuscitai as rosas
E aguardai no amor
Que o pássaro virá.

Se o pássaro não vier, será a noite sem estrelas

Mas... escuta... que vozes são estas?
De onde vêm, para onde vão?
Olha! as flores ressuscitam!
Olha! as estrelas se acendem!
Recomeçou o baile. olha o mar!
Olha o mar! olha a estrela de basalto e ouro
Olha! não vês, ó triste cego!
Olha o deserto reflorindo e as amendoeiras
Do Japão e as borboletas.
Olha o exército pronto para a guerra!
Olha os coros dos Arcanjos e dos Serafins!


Olha a brisa dançando na folhagem!
É na brisa que o pássaro virá!
Virá com a língua de fogo
E os cornos septiformes! Olha as luzes!
Vê as cores, ouve os sons! tudo recomeça
A vibrar e a dançar. É o tempo.
Olha a estrela de ouro e de basalto.
O pássaro virá...

Que extraordinária simbologia da ânsia humana, da angústia humana. O homem procurando no subterrâneo de seu substrato os guizos de suas loucuras, as rosas de suas ilusões, o barro de seu corpo frágil e miserável.
É o “retorno” para nós mesmos. A volta para dentro de cada um de nós e, desse rumo interior, a grande partida na iniciação do reencontro com o Cristo Eterno.
A expiação, a transformação, o “maestoso” dessa orquestra infinita que pode ser o ilógico, o hiperlógico, o paralógico dessa loucura que é aceitar o Cristo, neste mundo tremendamente anticristão.

Aí é que todos somos clowns, sombras, loucos que o mundo não tolera, deixando partir de dentro de cada um de nós, os pássaros cansados da razão, em busca das estrelas, dos sonhos que se apagaram e que não se acenderão nunca mais, sem que sejamos novos João da Cruz, em quem o poético se realizou como o ser se realiza no próprio Ser.

Tenho para mim que esse poema canta a excelsa angústia humana, representada na figura exótica do clown, que sendo homem é ser exótico e sui generis. É por isso que sentimos, em todo esse poema, os mistérios das asas, o profundo das quilhas, o ignoto das velas, o triste ridículo do palhaço, a incerteza da volta no vôo ao infinito, a estrutura geométrica da dança a loucura de Nijinski, a vibratilidade da seta disparada em busca de um ideal humano, em todos os homens. Os gritos, os ruídos, os ruflares, os gestos, as imprecações, as ânsias, as lágrimas, os soluços, as maldições, as orações, as luzes, as cores, os pássaros, as rosas, − tudo grita essa ânsia, essa angústia humana de que está impregnado o poema do padre Luiz Ruas.

E por ser algo de notável esse poema, − seu autor foge de si mesmo, perde sua personalidade, para falar de um mistério universal, de tudo aquilo que está no homem, dentro de certos aspectos metafísicos da existência humana.

Falando desse mundo que é o poético, no universo, o padre Luiz Ruas publica algo de profundo, de excelso, de magnífico. Que o entendam os que mergulharem no profundo de sua dialética; que tenham ouvidos aqueles para quem o poema é dirigido; que vejam os olhos d´alma daqueles que devem ver os símbolos e os mistérios que estão contidos nos versos áureos do imortal poeta de APARIÇÃO DO CLOWN.

Manaus, 16-8-958

André Araújo

da Academia Amazonense de Letras








desejo que este poema seja

um ato de adoração ao Cristo quando Herodes o chamar de louco

um gesto de amor a minha mãe, meu pai e às mães de todos os poetas

um laço de amizade mais forte entre mim, o Pedro, o Orígenes e a Luiza

um agradecimento sincero e fraterno ao Óscar e ao Clube da Madrugada.


L. Ruas

















descoberta



foi no tempo do luar pois não existe sol
no velho parque − tempo não maduro –
que encontrei o sempiterno clown.
queria ver-lhe a face. e sua face
era imenso lago azul parado
onde a lua se repetia. lua.
queria ver seu corpo – um chafariz
era seu corpo de barro modelado
aljofrando de estrelas e de pérolas
o céu e o chão banhados em azul.
apenas vi o velho clown beijando
uma boneca. e beijando-a chorava.
e ria ao mesmo tempo que
o destino dos palhaços é fundir
à luz da lua o alegre riso e o triste pranto.

e vendo ser inútil o meu esforço
de descobrir integralmente o clown
eu suplicante lhe falei assim





















discurso



faz mistério palhaço
e ri teu riso esbandalhado.
gargalha palhaço e faz sofrer
os que contigo riem e sofrem
e vivem.
canta a tua ideologia tirânica
ó clown sentenciado
para fazer chorar os que riem.
ninguém entende tua vida mascarado
que se esconde atrás da cortina
das pinturas e das vestes.
onde está tua face palhaço onde?
além do além do horizonte
nas nuvens ou atrás da máscara?
onde está teu riso palhaço onde?
no pranto que improvisas
ou na dor que não gargalhas?
palhaço.
interrogação verde no cenário de carmim.
palhaço. olha o palhaço.
havia inocência e terror pureza e crime
em teus olhos abertos para o mundo.
luzes.
as luzes da ribalta não revelam
o que não dizem também
nem as cores nem os saltos nem as cambalhotas


que fazes no trapézio longínquo.
palhaço. quem já viu tua face
tua única face?
aquela que não é partida
aquela que não é pintada?
quem já beijou tua boca verdadeira?
as bailarinas beijam a boca mentirosa
a que canta a que ri a que chora
mas ninguém beijará o teu silêncio.
e tuas mãos palhaço e tuas mãos rosa
tuas mãos disfarce que nos enganam e alegram.
a bailarina lhe disse chorando – eu te amo.
ele riu. palmas. a cortina cerrou-se.
e se vestiu de nobre e deu esmola
para encobrir com seda e ouro o adultério.
palhaço. ri teu riso e oferece-nos teu almoço.
dá-nos o ridículo banquete onde comemos
rosas e suspiros e sorrisos.
e deixa-nos sonhar depois e depois chorar
tudo aquilo que não nos revelaste
a flor ainda em botão
não desabrochada não vituperada.
ninguém te vaia palhaço
todos riem somente da face mentirosa
da escandalosa face que nos ofereces
dizendo que é vinho.

todos beberiam porém teu sangue
seiva das árvores água dos rios lama das sarjetas
e comeriam tua carne que não ofereces.
carne de elefante néctar de bonina alma de passarinho.
a estrela pousou – sombra de sonho – em seu ombro
– venho do céu. vi o mundo nascer. sou como tu
eterna.
sou a mais antiga das estrelas de todas as estrelas.
dou-te todo o meu brilho se disseres
porque ris tanto se és tão triste assim.


– ora. vamos dançar.

e saiu para o palco dançando e cantando.
ninguém viu a lágrima que lhe molhou os olhos
ocultos.

palhaço.
flor-de-lis onde bimbalham chocalhos.
inocência e maldade água e sangue
azul e preto
lama e sapo.
ri palhaço que ansiamos por te ver no picadeiro
árvore estranha esquisita flor
não sabemos de que país ou de que planeta.
de onde vens palhaço? quê nos queres dizer?
fala que te espiamos cientista da vida.
tu gargalhas no palco o que choramos na vida.
embora te odiemos te amamos
pois te pareces com o menino que somos
e com o inferno que não deixamos de ser.
poeta de risos e de cabriolas
diametralmente opostas
teus trejeitos são a mais perfeita rima
que já encontrei para os poemas
que não escreverei.
somos crianças palhaço diante de ti
sou criança que não aprendi ainda
o que é o belo e o feio
o pranto e a galhofa.
o que é ser e o que é não ser.
pois tu és homem palhaço tu és homem.
clown desengraçado


bicho fantasiado de deus
em quem não assentam
nem
rabo de macaco
nem
auréola de arcanjo.
tu és verdadeiramente homem
pois tu somente revelas o segredo
honra e vergonha
que todos ocultamos.
palhaços dos anjos e dos homens
mito de farsa e de verdade
palco e vida
gargalhada e pranto
seres partidos
dois olhos
duas pernas
duas mãos
paralíticos
cegos e loucos.
apagaram-se as luzes?
ou as rosas morreram?









resposta




apenas vemos sombras
sem conhecermos a luz.
percebemos a chaga
não tocamos a alma.
brasa em negro fogo consumida
semente bipartida.
julgas possuir toda ciência
se sabes rir apenas
quando é preciso rir
é mister no entanto descobrir
que também no muito riso há pranto.
a máscara sustem dois olhos
um é cego porém. de fato
só um olho vê. por isso
conheces silhuetas
e não a dimensão total
aquela dimensão que
por ser transdimensional
entre todas
é mais constante e mais real.
a caverna de platão.
que sabes das rosas renascidas?
Das estrelas em luz desfalecidas?
da liberdade e do amor?
ser livre em essência é ser cativo.





aviso


quando vires o pássaro ferido
vagando antes que surja a madrugada
não o tanjas nem o chames
deixa-o voar. não te apiades
deixa o pássaro voar.
ele comeu a estrela
e conserva no desenho do seu vôo
as dimensões incontidas
dos humildes gestos perdidos para sempre.
não chames o pássaro ferido.
não te ouvirá pois não sabes os seus nomes.
e ninguém há de estancar o vôo
que jorra eternamente
de suas vísceras fecundadas
pela essência intocada da estrela
sua prisioneira e amor.
uma estrela de fogo e de basalto.
de basalto e fogo, não esqueças.
e o pássaro mais ferido pela luz
do que pelas cinco pontas da estrela
sempre voará.
deixa o pássaro voar. quando ouvires
o tatalar – apenas ritmo – cansado
mas não vencido
de suas penas molhadas de arrebol
deixa o pássaro voar. não tentes


prendê-lo. a ilusão é mais mortífera
do que a desesperança.
o pássaro é essencialmente livre
muito embora suas penas estejam prenhes
de luz e sangue misturados.
se vires por acaso o pássaro voando
não o chames para o teu silêncio
pois o pássaro é muito bom – é bom demais –
para que tu sombra e demência
o possas possuir.
nem te deixes seduzir pelo seu canto
que o canto das sereias de ulisses
diante do cantar do pássaro ferido
é apenas ritmo – apenas esboçado.
mas não odeies o pássaro
ama-o de longe. pois é forte
apenas um amor de morte.
puccini ouviu o pássaro cantar.
e eu também eu palhaço o ouvi.
ouvi sua lenda e seu martírio
a tortura da estrela e saí
no ontem no hoje e no amanhã
a procurá-lo.
fruto do bem e do mal.


romance


a estrela de fogo e de basalto tem cinco
chifres e se parece com a rosa.
de sangue.
aberta ferida gotejante
no peito espalmado e branco deste pássaro em vôo.
de ouro e de basalto.
de basalto da etiópia e de neve da antártida.
quando o pássaro raptou a estrela
ela estava sendo devorada por um peixe.
que adianta mais? ser comida por um peixe
ou amada por um pássaro. ser ou não ser comido.
esta é a questão. hamlet tinha razão.
para além para muito além de todo sonho
o pássaro levou a estrela devorada
e mais alto do que as águias o pássaro voou.
mas quando o pássaro quis partir
para a aventura sem rota
por mares nunca antes navegados
por espaços nunca antes habitados
para plantar no barro e na luz
um reino instável e efêmero
onde imperaram
o gênio, a arte, a poesia e a flor
foi então que nasceu o mais profundo humor –
– o pássaro devorou a estrela
e a estrela o pássaro gerou. o palhaço dos homens.


martírio

a serpente a maçã a figueira e o lírio
todos cantaram pela voz do pássaro
nascido prometeu.
não prometeu acorrentado um dia
no deserto e na montanha.
prometeu não morre é apenas devorado.
continuamente devorado prometeu continuamente vivo.
comem-lhe o sexo e a alma
a carne e o sangue e prometeu não morre
prometeu acorrentado um dia
do amor na eterna penedia.
o amor nos prende e nos tortura. mas não mata.
o pássaro ferido tem sete bicos
sete línguas de fogo sete olhos sete chagas.
tem olhos e não vê. ouvidos e não ouve. está ferido.
suas asas sangrando sempre banham o mundo inteiro.
às vezes é de mansinho que eles chegam
os sete amores filhos do amor.
ágape feriu eros letalmente. terminou a comédia.
júpiter destronado. mas beethoven está cantando.
ou é o pássaro ferido?
os trigais estão maduros para a ceifa.
que importa a primavera?
mefistófeles zombou do doutor fausto
e o venceu. mistério e luz.
ouve o pranto da estrela solitária
que se desfaz em canto.

canção

se eu chorasse
estas sombras
e estes símbolos
morreriam

os diamantes quebrariam
as arestas
e os vulcões se extinguiriam

se eu chorasse
dormiria logo
e cedo sonharia
o lago dos cisnes

se eu chorasse
o cavalo branco
que cavalga morto
comeria as rosas

e a rosa de barro
murcharia no jarro
em ângulos obtusos

não digais ao mar
a dor das pedras frias
não digais à mariposa
a tortura da luz

o meu amado é
um pássaro ferido
não choro sua dor
nem curo seu amor

a maçã é muito branca
o peixe é muito branco
o lírio é muito branco
não é branco o amor

eu cantei uma canção
baixinho ao meu amado
– “não chores pequenino
não chores que eu te amo” –

eu andei por longas ruas
e por cidades perdidas
em busca do meu amor
procurava uma rosa
so encontrei dissabor

perguntei aos que passavam
onde andava meu amor

mas todos olhavam atentos
para as mãos de um senhor
que fazia jogos engraçados
e ninguém me respondeu
onde estava meu amor

eu andei por teus caminhos
em busca do meu amor
os palhaços tristemente
despetalavam uma flor.

viagem

foi então que cheguei ao cais
e as barcaças estavam todas
amarradas ancoradas.
caronte me disse amargamente
– “não voltarão mais nem dante nem virgílio.
nem será dado a orfeu
ir salvar eurídice
a passagem está vedada
e as barcaças ancoradas
não mais navegarão por mares ignotos” –
quando olhei para o mar vi na praia
os escombros da batalha.
pontas de lança arcos flechas
corpos destroçados almas insepultas.
uma criança brincava com as conchas
e com a caveira de um herói
– se não me engano era de aquiles –
seus olhos eram de fogo
e suas mãos de lírio.
a criança então me disse – “depois
que a serpente me feriu no calcanhar
nunca mais fui ao deserto nem
ao mar.
as águas não me sustentam mais
e somente caminho na praia
pois temo naufragar.

espero o pássaro ferido
e se quiseres esperar comigo
senta-te na praia e não vás ao mar.
o mar é muito vasto e fera enraivecida.
já engoliu noivos e pescadores
e seduziu o pássaro ferido.
não te lembras do mar de suas pompas
e de seus sedutores artifícios?
de seus cantos falazes e dos apelos sedutores
com os quais arrasta para o abismo
do seu próprio nada os navegantes
inexperientes e desprevenidos?
não procures no mar no buliço das vagas
a sombra do teu amor.
eu mandei prender as barcas
e aguardo o pássaro ferido.
canta uma canção ao teu amor.”
como cantarei cantos de amor
nesta solidão?
os cantos nascem apenas da união
do brilho da estrela com o ritmo do vôo.
como hei de cantar canções de amor
se ainda estou peregrinando
por essas praias de vidro?
a criança então cantou assim –



apóstrofe

em vão hás de voar pássaro triste
buscando o fruto verde não sepulto
nas praias naufragadas onde existe
a concha nacarada – peixe inculto

além de tuas patas espalmadas
o mar é brisa calma e mata bruta
as asas que se abrem limitadas
mergulham sem tocar na doce fruta

em curvas linhas retas canto e arte
te vejo entre o céu e o barro forte
comendo espaço e tempo sul e norte

buscando em vão o fruto que te farte.
quem sabe? pode ser que noutros mares
sacies teu desejo. é bom tentares.



o dragão e a flor

vi que a criança fabricava
uma espada que cortava suas mãos.
perguntei-lhe – por que fazes esta espada?
respondeu-me – é para matar o cordeiro
que será servido no banquete
do encontro da estrela com o pássaro.
o mar tranqüilo e frio como o desamor
a praia de vidro. caronte preso.
cupido sem flechas na aljava
a antiga simetria de vênus lamentava
que a beleza da estrela avantajava.
então compreendi porque a esperar
estava a criança tão sozinha
o regresso do pássaro ferido.
neste momento entre fumo e fogo de inferno
surgiu do mar profundo um dragão.
o mar como gigante enfurecido
uivava em contorções
espadanando seus peixes e todas suas pérolas
que vinham espatifar-se loucamente
na polida face da praia de cristal.
ó desencanto das palavras que não chegam.
uivava o mar qual leão acorrentado
sob o peso imponderável do amor
do dragão que perseguia a flor.
a flor tinha redolências de mulher




e era pura como um anjo.
oh. as flores que aninhei em minhas mãos
trêmulas como úteros maternos.
oh. as flores perdidas para sempre
nos longínquos perfumes ressequidos.



“– não mais verás o encanto fenecido
do dia e da noite
não mais terás ó lírio amortecido
as brisas leves do teu vale.
não mais.
não mais que vênus está extinta
e a estrela rediviva”.


assim cantou o dragão enraivecido
então a criança correu para meus braços
gritando – “não deixes o dragão me seduzir”.
“– que posso fazer criança que não sou
poderei salvar por acaso o eterno jogo
se habitas a praia sem dimensões
sem sol e sem luar?
por que me buscas se possues espada
e mãos de sonho e olhos de rubi?
sou apenas sopro vento vaidade nada
pó perfume cor sonoridade luz.
que mistério é este que sugeres
tentando penetrar nestas entranhas
fecundadas pelo canto do pássaro ferido?
então o mar partiu-se lado a lado
como um véu por invisíveis mãos rasgado
e engoliu o dragão.


prelúdio

quatro cavalos passaram galopando
em asas de águias sustentados
relinchando como se fossem trombetas sua voz
ou ribombar de trovões enlouquecidos.
olhei. estava só na praia. o mar quieto.
uma brisa dançava sobre as ondas
o prelúdio que chopin tocava soluçando.
depois vieram ninfas volitando
ao som de músicas ligeiras.
sumiram-se depois nas gotas do orvalho.
oh. a crosta espessa das palavras
que mal revelam o fulcro luminoso
da consistência do mistério vislumbrado.
quem está cantando perguntei são as rosas?
rosas?
quem está cantando é o coro dos palhaços.

coral

vigiai vigiai.
preparai a veste
acendei o círio
acendei a ribalta
ressuscitai as rosas
e aguardai no amor
que o pássaro virá.



nênia

mas se o pássaro não vier como será?
os trigais deixarão cair – inútil esmola –
os grãos de ouro no chão incandescido.
as flores murcharão – flores de pedra –
pontiagudas como espinhos secos.
as fontes coalharão suas águas
e teu sorriso morrerá qual fruto podre.
se o pássaro não vier
será a noite sem estrelas
e o sol não bordará mais de ouro e púrpura
as régias fímbrias do manto da aurora.
tuas mãos inutilmente chamarão os pirilampos
para os bailes feéricos no seio da floresta
se o pássaro não vier
a musica silenciará
na última corda partida
de paganini.
o basilisco e as víboras dominarão os caminhos
e ficará deserto e frio o último dos ninhos.
não mais
não mais terás o meu carinho
pois teu rosto de mármore será
estulto como estátua de museu.
se o pássaro não vier
inutilmente serás.

serás o quê? ser o quê se o pássaro não vem?
ser o quê se não há mais flor?
ser o quê se não há mais ninho?




ressurreição do baile

mas
escuta
que vozes serão essas?
de onde vêm? para onde vão?
olha.
as flores ressuscitam.
olha.
as estrelas se acendem.
olha o mar. olha a estrela de basalto e ouro
olha.
não vês ó triste cego o deserto reflorido
e as amendoeiras do japão e as borboletas?
olha o exército pronto para a guerra.
olha os coros dos serafins e dos arcanjos.
olha os noivos enfeitados para as bodas.
olha a brisa dançando na folhagem.
é na brisa que o pássaro virá.
virá com as línguas de fogo
e os cornos septiformes. olha as luzes.
vê as cores. ouve os sons.
tudo recomeça a vibrar e a dançar.
é o tempo.
olha a estrela de ouro e de basalto.
o pássaro ferido está chegando.



retorno


ele voltou dançando o mesmo balé antigo.
“– quem és tu esquisito ser luxuriante?
e estes guizos pendentes de teus dedos
e estas chamas febris em teu olhar de ave?
quem és tu? perguntei – “e o fantasma
não me olhou sequer. subia e descia
em ritmo veloz e às vezes calmamente.
“– quem és tu? –“ perguntei impaciente
que o medo o pavor o riso a loucura
já de mim se apossavam. e o demente
anjo respondeu-me indiferentemente
“– de onde venho não sei nem mesmo sei
se algum dia nasci ou se apenas sempre nasço.
quem sou? rosa anjo fagulha do inferno
semideus apenas gesto luz ou noite?
por que perguntas isso? por que queres saber
quem sou se eu mesmo não o sei? repara.
quando aqui chegaste a noite era nova
e já a estrela da manhã desfolha
uma a uma humildemente suas pétalas de luz.
não te direi quem sou. dorme e sonha.
acorda viaja estuda raciocina dorme.
não és homem por acaso não possues
uma centelha divina ardendo viva
dentro do teu mais misterioso mar?
não direi meu nome a homem algum porém
podes muito bem descobri-lo. sabes que a lua
é um satélite da terra. que o sol é uma estrela.
que tudo é relativo e três as dimensões do espaço.
que os corpos se compõem de átomos e moléculas.
conheces a inflexível lei da gravidade
que arrasta para o chão o barro do teu corpo.
descobriste no âmago das coisas íons e elétrons
o positivo e o negativo
forças que se atraem e se repelem.
conheces as rotas dos planetas e o caminho
das marítimas correntes dos ventos e das aves
e não sabes ainda balbuciar meu nome verdadeiro.
e eu não direi. espia bem esta paisagem.
lê de novo o poema. desce. vai ao fundo.
sobe depois. evola-te. transforma-te
depois em fumaça e em luz. não te afadigues.
o ritmo do meu nome é longo. majestoso.
quando souberes quantas rosas floriram
na paisagem perdida e de novo descobrires
o sonho inquieto e a aurora pranteada
alegra-te então. pois caminhas certo
rumo ao mistério inexprimível do meu nome.
agora olha bem para dentro de meus olhos.
que são eles? abismos caricias ou perdição?
fogo água tranqüilidade ou medo?
e meus pés? vês? são pés de fauno grego
ou de arcanjo bizantino? não sabes?
não sabes decifrar o indevassável enigma
dos meus pés sempre velados?
não sabes entender a linguagem dos meus olhos?
sou demente sim. sou ilógico. hiperlógico. paralógico.
sou problema e sombra. queres saber meu nome?
queres me amar talvez ou odiar talvez.
sou vida esperdiçada ou morte indesejável.
e meu corpo se corpo chamar se pode
a esta mistura de feno e melodia
é tão instável como a dança histérica das chamas.
sou ar fogo umidade terra e água.
os quatro elementos? ah. os infinitos elementos.
sou móvel motor força motriz mobilidade extrema
e ao mesmo tempo sou suprema paz e quietude.
olha a lagoa onde revoam pássaros cansados.
olha as canaranas frágeis baloiçando
e os aguapés dormindo brancamente.
olha as águas das lagoas diluídas
os cetáceos as serpes os palmípedes
e as ondas profundas que despertam
e uma a uma vão morrer nas margens.
e perguntas meu nome. sabê-lo não desejes.
à noite venho ver-te e te acalento
no sono solitário e tão estrangulado.
fabrico sonhos e ao meu rude comando
as estrelas despenham-se e os planetas giram
na luminosidade sempre nova das noites consteladas.
não percebes o uivar dos ventos nas mangueiras
e na bonina que se abre como o ventre
da primeira mãe ainda virgem que já foi?
e meu nome não sabes. fui presente
nas metamorfoses de virgílio e na comédia de dante
iluminei camões e lorde byron
shakespeare foi meu fâmulo. joão da cruz meu senhor.
ensinei davi a dedilhar a lira
o outro joão eu visitei em patmos
e o bateau ivre era meu. dei-o a rimbaud.
sou chama e alma rio e danço
no fogo rubro amarelo azul e verde.
quando olhares o fogo observa bem
que lá estou como também estou
na palidez da lua sempre fria
e dentro de ti mesmo a conduzir
tua mão quando escreves os poemas
e sentes a tortura de dizer belezas.
pareço mau às vezes quando prendo a pena
e estrangulo a luz justamente no momento
em que começa a palpitar dentro de ti.
mas se o faço é para despertar em ti
a sede onímoda de conseguir o mais.
agora vê. me vou. deixo-te agora.
vou como vim. apaga a luz
fecha os olhos e me verás no sonho
o mesmo balé inicial dançando.



foi assim que partiu o tresloucado
pois como os amantes é hostil
à luz do sol. é sombra seu império.
não trevas. mas a luz azul
que não é dia não é noite.
é luar.

legado

asas somente isso. angústia
de fugir ao destino das raízes.
túrgidas velas singrando aberto espaço.
velas do destino de colombo
partindo em quilhas quase loucas para
o mistério das virgens descobertas.
asas de ícaro vencidas pelo sol
incauto icaro não sabias que
não é dado a palhaços ver o sol?
ah. o vôo de icaro presente
na dança de nijinski.
asas, somente isso. desespero
de ser barro e ao mesmo tempo seta.
asas apenas sugeridas
nas curvas nos voejos nas volutas
nos mantos e nas vestes do barroco.
asas de anjos de querubins de touros
assírios. asas custódias da arca da aliança.
asas nos calcanhares de mercúrio.
asas romanas. gregas. bizantinas asas.
asas egípcias. asas de papel crepon
dos anjinhos meninas das procissões.
asas até sim asas de avião.
asas do padre bartolomeu de gusmão.
asas em queda.
pois até para cair é mister possuí-las.
belzebu tem asas. sim. belzebu tem asas.
no céu e no inferno ruído de asas tatalando.

asas nos pés da bailarina tola do café noturno.
antigo sonho. desejo antigo. eterna tentação.
asas. panos soltos ao vento. gazes leves.
e os braços que se erguem as mãos que gesticulam
asas as torres ogivais as fadas e as bruxas.
asas sonoras sibilando esses
verdes azuis amarelas incolores
brilhantes e opacas grandes e pequenas
das borboletas das garças das abelhas
das plumas dos polens do orvalho
asas imponderáveis e asas de granito
dos arcanjos que guardam mausoléus.
asas. geometria rude esboço mal riscado
pelos bandos erradios de pássaros selvagens.
asas no chão. asas no céu.
asas ensaiando vôo. é somente isso
o rebento verdolengo ao romper
a espessa placenta da terra dura e seca.
asas de águia em vôos altaneiros.
asas quietas pousadas em silêncio.

doutrina

sou cativo do pássaro ferido
pois ouvindo sua lenda e seu martírio
por legado recebi este desejo
e da estrela tornei-me companheiro.
ó poeta não queiras pois é morte
e cativeiro conhecer a face do palhaço.
há milênios caminho sem cessar
sem ver o sol. apenas o luar
e a luz indecisa das estrelas
recriam esta máscara e fonte
do riso e da tristeza que oculta
o meu rosto e corpo verdadeiros.
e assim caminharei eternamente
peregrino sempre sempre marinheiro
carregando meu fado torturante
– semente feto messe em promissão –
de ser ave sem poder voar
de ser clown isto é ser e não ser.
mas tu poeta enquanto não puderes
te unir totalmente com o mistério
que te foge das mãos feitas de som
une-te intensamente
às formas aos sons e às cores simples.
modela sem cessar
a chama que te queima a alma e as mãos.
não deixes que se perca uma só
destas fagulhas.
pois uma delas pode ser a luz
que salvará tua face passageira
quando raiar o sempiterno dia.













despedida


e o velho clown partiu beijando ainda
o brinquedo que a criança abandonara
no velho palco parque ou tempo sem memória.














Poemeu

Primeiro Prêmio de Poesia
Governo do Estado do Amazonas
conferido em 1970.

Manaus - Edições Puxirum - 1985



POEMEU
ou
O (MEU) SENTIR DOS OUTROS




PÓRTICO

ESTUDOS BARROCOS EM TOM MENOR

O (MEU) SENTIR DOS OUTROS

SONETOS AUTOBIOGRÁFICOS







“le poéme lui-même n´est ni cadeau
ni provision mais ascensión de toi-même”.

Saint-Exupéry — Citadelle


1. PÓRTICO


DIDÁTICA

Palavra por palavra
compõe-se a arquitetura.
O canto é limpo timbre.
É rosa a rosa. Rosa.

Desnuda geometria
espaço libertado:
no campo indevassado
na página tranqüila

desenho desprovido
de inúteis arabescos
os pontos se projetam
em linhas e figuras

os semitons banidos
só restam sombra e luz.
Palavra é só palavra:
Indício fruto ou véu.

Por fim se ordenam símbolos
em lúdica harmonia.
Fundindo o lucicanto
ou coisadedizer.

POEMEU

Este meu canto–mãe
Não o faço.
Ele me faz...
fazer-me

Este meu canto–amor
Não o desejo.
Dele sou posse...
escravo.

Este meu canto–algoz
Não o arquiteto.
Nele me sou...
morto.


2. ESTUDOS BARROCOS EM TOM MENOR

I

Na inversão do caos plantei-me como rocha.
E das linhas refletidas nos céus fragmentados
roubei um pouco o som, a cor e a dissonância
para ter, novamente, o retângulo nascido
no ventre das correntes marítimas de mares
sugados, carcomidos por barcos e naufrágios.

As rosas palpitavam nas pontas dos triângulos.
E vinham navegando colunas pelos ares
e cubos assimétricos e cones e cornijas.
E as ruas despertavam das portas e das pedras
cansadas de sentirem pesando sobre si
o peso imponderável dos sóis entardescentes.

Cresciam nas janelas o cacto e as tulipas.
E os cães seguiam lerdos ao lado dos arcanjos.
No cais, entre as ruínas, soavam badaladas
que os ratos devoravam, à noite, amedrontados.
Então, quis inventar o mito de mim mesmo
com os restos dos navios batidos pelos mares.

O poema se constrói como a flor e o cogumelo.
De velhos janelões, de arcadas e postigos,
de ruas, cães vadios, palhaços e farândolas
detive a essência.
E faço ressurgir de eterno caos
a rocha permanente coberta de corais
o templo que é morada do coro angelical.

II

Os pássaros cantantes deslizavam
Na superfície calma de teus olhos.
Das ondas sugeridas em teu corpo
Compus o brilho claro e o som profundo
Para vir em sussurros derramá-los
No cântaro deixado em nossas mãos
Como prêmio dos perfumes conquistados
No caminhar constante dos luares.


Quando os pássaros chegaram – frágeis barcas –
As rosas se compunham para a dança
Que os anjos navegantes inventaram
Para o leve despertar destas janelas
Debruçadas sobre o azul do vento mar.
Só depois percebi que esta paisagem
Se gerava das pétalas vermelhas
De antigos girassóis envelhecidos.

III

A face posta no verso
reverte na mesma face
deste ponto quase fosco
ou similar contraponto.

As mulheres e os centauros
imprimem cantos nas cores
das mortas ruas, dos arcos,
em noites de além viver.

Os pés descalços nas pedras
ferem pedras e relâmpagos
ressuscitam fatuamente
nas alamedas oníricas.

O sonho que nunca nasce
em noites de estrelas fulvas
vem depressa navegando
em mãos ou barcos dementes.

E quando a palavra cresce
desmedidamente aqui
no contraponto de Mozart
vejo o milagre do sonho:

posta em verso no acalanto
a palavra é viva face
que em relevo se revela
de dentro do canto fosco.


IV

Teus gestos se plantam no meu corpo
E sinto a estranha náusea dos espaços
Varando estrelas, astros, lado a lado.
Sou apenas desejo
E não te quero círculo
Nem fogo, nem luz.

Quebro o compasso com que te fiz arcanjo
Rompo os cilindros, os cones, as cornijas.
Não te quero espaço nem rija simetria.
Quero-te carne ardente
E noite dolorida
E noite.

Agora sigo só. Comigo o choro
Das medusas, das algas, do hipocampo
Que vinham navegando nos teus cios.
Quero-te noite e amar
O mar que consumiu
A sede de ser teu
Em ti.

V

O campo é rudimentar
Onde sepulto a semente
Do grito dos que partiram
Para o morrer inconforme
E linear.

Não canto. Os deuses fugiram.
Convém esperar que voltem.
As horas morrem cantando
O canto do nunca-amais
Triangular.

Espanto e morte se fundem
Na solidez improvável
Das horas que nunca findam,
Dos sinos que tangem o tempo
Retangular.

Escampo é o tempo que foge
Dos ponteiros do relógio.
Talvez os deuses não voltem:
O retorno é sempre longe
E circular.

3. O (MEU) SENTIR DOS OUTROS


SUBSÍDIOS DE MARINHAS PARA O POETA SEBASTIÃO NORÕES.

O relógio se fixou no mar.
Na praia sou apenas permanência.
E crio na minha estática sonâmbula
Momentos do mar silêncio.

Tudo é muita sugestão.
Estas palavras pescadas
Nestas marinhas andadas
Ao longo do mar sertão.
A praia não me conduz
Esta praia que é agora.

É preciso muito mar
Para poder captar
A hora certa do sou.

As ondas despertam a praia
E jogam na permanência
Restos do mar que o relógio
Há muito guardou fixados:
São búzios, são conchas róseas,
Azuis e brancos de infância,
São longas jornadas findas
Numa qualquer solidão.

Com os restos do mar jogados
Na praia a custo libertos
Por este ponteiro-anzol
É que fabrico no verbo
O meu veleiro de mito
Que me transforma em retorno
Pelo mar de um verde ontem
De onde outrora eu vim flutuo.

É preciso muito sangue
Muita palavra translúcida
E muito só sem mensura
Não pra fazer o veleiro
Mas pra repor tanto verde
Na aquarela tão estática
Da face da praia morta.




PARA A REPRISE DE LUZES DA RIBALTA


Eis que vens, de novo, bom Calvero,
Para as telas, para o mundo,
Para os olhos, para as almas.

E foi preciso que viesses para que recomeçássemos.

Desde o início a infância nos conduz
E ela é o segredo que nos abre
Num doce encontro, sem mentiras,
As portas de todos os segredos
E deste maior que é a vida,
Que é força, que é dom e que é destino.

Como vieste outrora, agora, voltas
E retomas velhos temas, sem cansaço,
Porque tudo é recomeço; nada, findo.
E a própria futilidade de existir
É a substância da volta interminável.

Entre o gesto, a música e a palavra
Permaneces intocável.
És a sombra que ilumina o nosso riso,
És o pranto que faz rir o nosso nada.

Para que somos, lutamos e aprendemos
Senão para chegar à conclusão
De ser a vida inevitável como a morte?

Para que somos, amamos e choramos
E sofremos e há noites e manhãs
Senão para aprendermos a lição
Das flores, dos insetos e das pedras?

Assim edificamos nossas vidas;
Chorávamos, há pouco; e, agora, rimos;
Ontem fomos deuses; hoje, proscritos.
E quantas vezes morreremos? Quantas?
E quantas vezes voltaremos dessas covas
Onde tudo parecia concluído?

E que nos mata, Calvero, senão mesmo
O medo que sofremos de nós mesmos
O medo de sabermos que não somos
Senão o que escondemos e frustramos?

E que nos ressuscita? Quê nos salva?
Senão sabermos que tudo está passando
Mas que ficamos  mesmo naufragados 
Além do brilho interminável das estrelas?

Este encontro com o nada, o reencontro contigo,
Podre palhaço velho, doce amigo,
Vem nos dizer, de novo e ontem e sempre,
Que poderemos rir até ao fim.

Para quem apelarmos? Para os fortes?
Para aqueles que a nós podem esmagar
Como às pulgas fazemos entre os dedos?

Para quem apelaremos neste instante
Em que tudo se consome em sonho e fuga?
Para aqueles que amamos e nos traem?...

Velho palhaço, antigo companheiro,
Que nos ensinas a vida rudemente
De tal modo rudemente que não cremos
Seja nossa a tua vida... e gargalhamos!

Hoje, como outrora, nós te amamos,
E se funda nosso amor nesta certeza
Do que nos ensinaste: do pranto nasce o riso;
A dor, da gargalhada; o canto, do silêncio;
Do palhaço que morre, a dança inacabada...



TENTATIVA DE FALAR COM JORGE DE LIMA

Jorge,
Imenso irmão na poesia.
A Fé nos transpassa alma e sexo.

Ilhas plantadas na confluência
Das águas despencadas sobre nós
— Glória e maldição —
Das águas que nos sobem sob os pés
E nos sugam para baixo sem piedade
— Jorge, maldição!


Ninguém pode fugir impunemente
Ao divino destino de ser ilha.

A noite é um pesadelo de clamores:
Atabaques rufando nas trevas;
Histeria de gritos rachados;
Iemanjá! Xangô! Orixá!
Mandingas. Terreiros. Batuques.
Catinga de bodum. Aroma enjoado.
Folhagens. Incenso. Alfazema.
Asfixiando. Asfixiando. Asfixiando.
Exu! Oxum! Pai-de-santo!
Catimbó, Jorge, Catimbó!

Os navios negreiros trouxeram
A mandinga, o lundu, banzo e negro
E também misturaram no barro
Este cheiro e este gosto-sexo
Febre.
Meio-dia.
Rede branca.
Modorra, Sinhá.


Mas, primeiro, chegaram veleiros:
Cruz de Cristo vermelha nas velas.
Caravelas do Tejo na História
Das armas e barões: Saudade e Fé
Caravelas de argamassa ancoradas
No imenso canavial: Sobrados.

Nas costas
Pai-de-santo nos cruzou.
No peito
Cruz de Cristo batizou.
Cruz Credo, barão,
Jorge,
Cruz Credo.

Ilhas devassadas lado a lado
Decalcadas em barro e água benta.
Ilhas plantadas no centro
Do tempo e da eternidade.

Jorge,
Convulsamente, atropeladamente, febrilmente,
Sugeriste para os filhos dos barões
E para os netos dos escravos
Novo caminho a seguir.
É preciso gerar palavras novas
Palavras concebidas muito além
Da lógica e da gramática pra sentir
E ouvir
O rito do candomblé
A saudade do Tejo

E a voz do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
É preciso, para gerá-las
Fazer feitiço, pegar santo,
Comer barro dos barrancos
E ser santo taumaturgo
Que nem Santo Antônio, o taumaturgo.

Ninguém pode trair esta angústia
De ser ilha colocada
No encontro dos rios que sobem
Da terra e dos que descem do céu.

Ninguém pode negar que sente
Que está sendo dissolvido.
Mas nem tudo. Só em parte.
Que o barro as águas levam,
Mas fica boiando a luz.
Promissão.


É isso, Jorge, que estamos
Querendo dizer, porém...
Que é isso, Jorge, que é isso?
Que é isso que está chegando
Do Fundo do engenho morto?
Será alma do outro mundo?
É anjo? É febre? É loucura?
Modorra na rede. Delírio.
Jorge!
Cruz Credo!
Feitiço!

POEMA DO MESTRE

Ardente como as línguas de fogo,
Pulsos de Titã, Hercules, gigante,
Alma telúrica de semeador.
Os dedos de suas mãos
— Incultas cerâmicas —
Despejavam caminhos
Sob os pés que brincavam a ciranda.
E eram os instrumentos perfeitos
Para a fecundação de fartas luzes
No ventre das florestas recém-nascidas.

Quando surgiu dentre as flores
Tinha o aspecto de um suave tufão
E seus olhos eram dois faróis acesos
No mar em convulsão.
Carregava em sua carne jovem
A argamassa de onde criaria mundos.

Barro, fogo e água
E as línguas de fogo
Eram o seu sinal, signo e brasão.
De rei, não.
De estatutário, talvez, ou
De indicador de caminhos.

Loucura partir para o mar revolto
Com suas mãos incultas.
Assim mesmo partiu
Levado unicamente pelas correntes
Esverdeadas
Dos sonhos aventureiros
De criar
A expansão multiforme
Dos germes azuis e cor-de-rosa.

O sol e a lua encontravam o dorso curvado
Do semeador
— Barro e fogo
Línguas de fogo
Pulsos de Titã
Mãos de estatutário —
Rasgando o ventre da argila virgem
Com seus dedos
Pesados como o barro
Ativos e lúcidos como o fogo.

Talvez não criasse mundos.
Mas, acendia estrelas
Para as futuras
Noites escuras.

O RELÓGIO

O relógio na parede
É guia do desalento.
Um gato passa na rua.
Cai a noite. Plange o vento.

Na janela fico olhando:
O vento cai carregando
Restos da vida que foi.
Que meu canto não ressoe

Nas paredes deste quarto.
Entre as paredes do quarto
Vou seguindo sem me ser
Das horas vendo o morrer.

De muito ver me secou
Em pedra a voz, e o desejo:
Apenas consinto em ser
A morte que posso ter.

Não faço aquilo que eu quero
Não sou aquele que sou.
Apenas vislumbro a face
Daquele em que em mim sonhou.

Ó sóis tingidos de sangue!
Ó luas feitas de mar!
As águas correm. Decorrem
Meus dias vãos, sem parar.

Em cada minuto findo
Escrevo curtos poemas.
Este quarto me é prisão
E os ponteiros são-me algemas.

Este relógio não para
Mas muitas vezes recua
E traz vestígios de histórias
De algum rosto ou qualquer rua.

Ninguém me chega a saber
Ninguém me chega a sentir.
As horas turvas me escondem
Me ocultam dentro de mim.

Chove muito. Chove sempre.
Não sinto o tempo passar.
Estou seguindo. Não sei
Onde e nem como chegar.

Apenas sou. Sei-me apenas
Estando no tempo essência.
Há muito estou naufragado
Nas torrentes da demência.

A rua é um rio que se esvai
Levando a gente à flor d´água.
No relógio passa o tempo
Mas não passa a nossa mágoa.

G A T O

gato opaco
gato fosco
gato plástico
gato elástico
e domestico

gato feito
sombra e luz

gato sobre os telhados
gato atravessa a rua
gato sobre o sofá
gato irmão da lua

gato da madrugada
gato de aguda garra
gato de pelo fofo
gato que come rato

gato dorme de dia
gato flácida almofada
gato esgares miados
gato come passarinho

gato arranha ferino
mas esconde logo as unhas
gato come o menino
menino não quer dormir

gato preto
olho amarelo
gato egípcio
gato místico
superstição

gato assombro
couro de gato
morto enfim
vira ritmo
de tamborim.


VELHO SENTADO NA CADEIRA DE BALANÇO

Ele parece um cansado cavalo velho.
(A cara é comprida e mansa).
As rugas do rosto, as rugas das mãos
São os imperscrutáveis roteiros de si mesmo
Percorridos, dia-a-dia, em longos sonhos,
Em longos prantos, em longa vida,
Em longos silêncios, em longo navegar,
Em longa solidão de se ser só e ser-si-mesmo.

Seu corpo é frágil como um vaso trincado
De fina e desbotada porcelana
Em antiga cristaleira abandonada.
E nos seus olhos opacos e doridos
Há uma espécie de mansidão cavada:
Cava e muda, retalhada e mártir
Que, à custa de mortes e martírios
Foi, penosamente, ganha e conquistada.

Na cadeira de balanço recostado,
A pendida cabeça cochilando,
Os calados lábios e a agora inútil carne
Que se desprende dos ossos quase à mostra,
É vaso sem perfume, é flor descolorida,
É arca antiga pejada de segredos,
É casca que solta de velho tronco seco,
É vida em conclusão, é morte começada.

Já não é mais. Apenas foi nem há de
Ser que não é ser a morte, mas não-ser.
Foi homem, foi jovem, foi menino.
Foi lutador. Foi fundador. Foi criador.
Foi pai, irmão, esposo e filho amado.
Foi desejo, foi sonho, foi futuro.
Foi músculos, foi nervos, foi carne em floração.
E, hoje, apenas é um resto de alma sentado na cadeira.

O PORTO É O RELÓGIO

O relógio está parado
Doce vestígio encalhado
Não marca o tempo de aqui.
Que o tempo já foi, já fui.
Nesta praia, apenas,
Sou:

Concha morta, azul vazio.
Róseo inútil,
Morto ser.

Mas quando sinto que o mar
— Ó esperança em azul —
Vem despertar esta praia,
Então, fabrico o meu barco
E parto — o porto é o relógio —
E volto pro mar fecundo
Eu, ressurgida criança,
Em palavras verde-azul.

CASAS

Do carro em que vou seguindo
Eu vejo as casas passando.

Pássaros em pouso, apenas,
Ninhos, não.

As portas se escancaram
para dentro — asas cansadas
ou velas recolhidas.

As casas não têm raízes.
Brancas, azuis, amarelas,
sempre são tendas, velas.

Grandes, pequenas, ricas,
Pobres, alegres, tristes,
Do homem são iguais ao coração.

As casas todas estão
bem unidas pelo chão.
As casas moram nas almas,
As almas moram no chão
O homem morre, a casa morre
e vão no mesmo caixão.

HOJE, A TARDE ESTÁ MUITO AZUL


Hoje, a tarde está muito azul.

Não há ódio no olhar dos homens
E os olhos das mulheres são bondade.
Levemente o sol derrama uma camada
De ouro muito velho sobre as águas.

Os motoristas dirigem com cuidado
E os pedestres caminham descuidados.
Não houve nenhum desastre borrando
De vermelho o azul da tarde.

Não houve nenhuma tragédia:
Nenhum marido abandonou a mulher;
Nenhum operário caiu do andaime;
Não houve nenhum incêndio na cidade;
Nenhum anjo se revoltou contra Deus.
Os sexos estão repousados:
Virgem alguma foi, hoje, deflorada;
Não houve incestos nem adultérios;
Não houve casos de inversão sexual;
Não houve nenhum crime passional
Registrado na crônica policial.

Hoje, a tarde está muito azul...

Não houve prisões nem fuzilamentos políticos
Em qualquer parte do mundo.
Não houve jovens partindo para a guerra
Em qualquer parte do mundo.

Não houve seqüestros nem lutas raciais
Em qualquer parte do mundo.
Não foram feitas experiências com bombas nucleares
Em qualquer parte do mundo.


As crianças soltam balões na praça
Sem medo de morrer bombardeadas
E os namorados esperam a noite, em paz.

E, enquanto as crianças brincam na praça,
Em paz,
Passa o enterro alegre de um menino
Levado, por meninos, num caixão azul.

Hoje, a tarde está muito azul...

ORÁCULO

Tenho pena, disse-me o meu Deus,
Daquele que é amado por mim.
Tenho muita pena.

Tenho pena, disse-me o meu Deus,
Porque aquele que eu amar
Jamais
Terá um só momento de paz.

Aquele que eu mais amar
Jamais terá dias tranqüilos
Nem mesmo aos domingos
Ele poderá se divertir.
Por exemplo, não terá
Aquela paz necessária que é preciso ter
Para passar um dia inteiro, de calção,
Num balneário. E se sentir feliz.
E, à noite, não freqüentará boates
Nem dancings, nem night clubs,
Porque já não terá mais em si
A tranqüilidade inócua dos felizes.

Não digo que ele não vá. Isso não.
Ele vai. Mas, não como os outros vão.
Porque o que ele busca nessas coisas
Não é mais felicidade. Nem prazer.
O que ele quer mesmo é me encontrar em tudo isso.
Porque eu o amo de tal modo
Que ele quer me encontrar em toda parte.
Aquele que eu amo, disse-me o meu Deus,
Fica besta que nem poeta e namorado:
Me julga ver em toda parte e em todo mundo.
E não se cansa nunca de me procurar.
Por ele, nunca mais me largaria
Nunca mais estaria longe de mim.
E este desejo de estar perto de mim,
Sempre,
É que o fere e o maltrata.
Um dos que eu mais amei, foi Paulo,
Aquele judeu nascido em Tarso.
Outro que também muito amei foi Francisco.
Aquele nascido em Assis, na Úmbria — Itália.
E vocês bem sabem as tolices que fizeram.
Se a causa de tudo aquilo não fosse meu amor
Eu vos digo que não aprovaria o que fizeram:
Não aprovaria ter Francisco brigado com seu pai
Nem Paulo ter apelado, tolamente, para César.
Isso não são coisas que um homem de bem deva fazer...
Mas, enfim, o culpado fui eu que muito amei.


É por isso, disse-me o meu Deus,
Que eu não amo todos os homens igualmente.
Porque eu não sei amar de outro modo
Só sei amar assim, desmedidamente.
Não sei amar como amam os homens comportados:
Com elegância, com medida, com finesse.
Porque eles são feitos com medida e com limites.
Mas eu sou o sem limites e o sem medidas.
Por isso não amo todos igualmente:
Escolho entre muitos os que podem
Suportar as minhas exigências. Os mais fortes.
Porque depois de algum tempo ficam fracos
E consumidos pelo meu amor que os devora.

Eu sei, disse-me o meu Deus, que muitos gostariam
Que eu os amasse como amei Francisco e Paulo.
Mas eles não sabem muito bem o que desejam.
Eu sei que eles não resistiriam ao muito amor
Porque são limitados e muitos fracos
Por isso não amarei todos igualmente
Porque mesmo os mais fortes quase não resistem.
Ainda hoje acho graça dos doutores, disse Deus,
Que querem explicar as cantigas de João da Cruz
E as visões da minha Teresa d´Avila
Como um simples caso de psicopatologia.

E, depois, disse Deus, eu mesmo quis que houvesse
Entre os homens e, mesmo, em minha Igreja,
Um certo clima de paz e de sossego
Para que as coisas fossem feitas devagar
Como convém que se faça entre os humanos.
Porque só eu sei fazer, com rapidez,
Coisas bem feitas, bem perfeitas.
Mas os homens não sabem e é preciso,
Por isso, dar-lhes tempo e alguma paz.
Mas, aqueles que eu amo perdem a paz
E querem fazer tudo logo e de uma vez.
E não deixam mais ninguém ficar em paz.
Atrapalham mesmo os meus Pontífices
No governo da Igreja se eu não chego
A tempo de impedir que assim o façam.
Porque os meus Pontífices, são meus Pontífices.
E eu os quero assim. Mas, nem sempre
Meus Pontífices são meus amados também.


Tenho muita pena, disse Deus,
Daquele que é amado por mim.
Porque é muito triste ver um homem
Pequeno, limitado, circunscrito,
Querendo satisfazer o meu amor
Ilimitado.

Tenho muita pena, disse Deus,
E, muitas vezes, também choro
Quando, a sós, ele chora,
Me suplica e implora
Para que me afaste dele.

Tenho muita pena, mas, não posso
Fazer nada por ele senão mesmo
Mais amá-lo, mesmo que não queira.









VIGÍLIA

Quando escuto passos no caminho
Sei que não vens...
Mas, te espero.




BRANCA DE NEVE


Você nua
Você linda
Você rezando
Você cantando
Filosofando
Olhos abertos
Olhos fechados
Olhos me olhando
Você dormindo.

Adeus! Adeus
Estrela d´alva
Você morrendo
Branca de Neve,
Você, Inês,
Glaura, Natércia,
Chopin tocando
— Valsa brilhante —
Você dançando.

Nuvem do céu
Você eterna
Você tão bela
Você tão longe
Curvilínea
Retilínea
Curvilínea outra vez.
Você tão longe...
Existe ou não existe?

Você impossível
Enfim, você.






Á MANEIRA DE TAGORE


Olha: as águas do rio estão correndo lentamente.
O rio está correndo tranqüilamente depois da chuva...

Seja sempre assim o nosso amor.

O céu está todo azul e sem manchas depois da chuva.
As nuvens estão lavadas e brancas depois da tempestade...

Seja sempre assim o nosso amor.

No dia do meu aniversário
O garotinho do meu amigo me deu de presente uma caixa vazia.
Guardei-a...

Seja sempre assim o nosso amor.

O jasmim é perfumado e flor apenas um dia.
Mas, neste dia, é todo flor e perfumado...

Seja sempre assim o nosso amor.



CANTIGA DE ROSA


Rosa do tempo
Rosa disfarce
Mudo chamado
Múltipla face.

Digo teu nome:
Logo me calo.
Quanto mais canto
Mais eu me calo.

Tempo da rosa
Tempo do canto
Claro chamado
Nasce e renasce.

Hoje revelo
Todo o disfarce:
Canto calado
Faz-se e refaz-se.

Quero calar-me
Para curar-me
Deste quebranto
Sonho e disfarce.

Rosa é do tempo
Do canto é face
E é tudo quanto
Nasce e renasce.




A FACA E O FRUTO

fruto e faca
se colocam
novamente
frente a mim

o fruto jaz sobre o campo
pesado vivo fechado
cofre ou concha não tocada
surgida de mar espesso:
mistério na praia branca

o fruto nasceu da terra
queimada porém fecunda
— descolorido sarcasmo
ou silente desafio —

sobre a mesa jaz o fruto
esperando que por fim
eu lhe rasgue a casca tênue
e o devore totalmente

sustento na mão a faca
— jaz o fruto sobre a mesa —
e a fome que me consome
somente se acabará
quando eu comer a semente

que força me dará força
de revelar a semente?
pode a luz atravessar
a cortina indevassável
deste opaco vegetal?

sustenho a faca na mão
trêmula rasgo a casca
e a polpa fácil desponta
como um corpo que se dá.

bem posso comer a polpa
mas é preciso no entanto
vencer o mito da face
pois não me tortura mais

a fome de polpa tenra
mas de semente fecunda.


irá para o lixo a casca
e a nédia polpa darei
aos muitos mendigos que
a mesa rondam famintos.

mas não se rompe a semente
à minha faca sem gume:
mal lhe risco a face rude
sem tocar no cerne vivo.

e faminto me resigno
a livrar-me desta faca
esperando que algum dia
eu descubra aguda lâmina
que me oferte totalmente
todo o fruto que eu desejo:

casca — polpa — semente


INSÔNIA

No poema fendido
As onomatopéias se avolumam.

Um desejo irresistível
De ler Pablo Neruda
Para me libertar
Das paredes de cimento armado.

Escancaro as janelas, lado a lado:
As tulipas estão dormindo
E a noite retangular
Oferece um quadro pavoroso.

Mais pavoroso ainda
É o raio de luz
que rompe a escuridão
e projeta na parede-écran
a disforme silhueta de
um homem fumando um cigarro.
Homem, noite, cigarro:

A trilogia dolorosa
Se não fosse a ironia dos gerânios.
Faço um pedido de silêncio aos cães que uivam
Para ver se consigo ouvir
O vagido de algum recém-nascido
Ou o gemido agudo de uma fome.


Agora é mais noite só
Depois que a ponta do cigarro
Cortou a escuridão
Como se fosse uma estrela cadente.

Nenhum vagido. Nenhum gemido.
Apenas, o bafo de alguma boca animal
Que boceja
Sem que seja
Desejo de dormir.

REMEMBER

Por tudo o que foi
Por tudo que ouvi
Por tudo que eu vi
Estou voltando aqui.

As plantas cresceram
As tintas morreram
Crianças morreram
As faces mudaram.

A casa ficou
Mais velha e mais só.
E, muitos, agora,
Sorriem felizes.

É bom vir aqui
Lembrar o que foi
Lembrar os que foram
Sem ver os que estão
Sem ver os que vêm.

Só importa os que foram
Pra morte ou pra viagens
Só importa o que foi
Pra não voltar mais.

Não pelo agora
Não pelo já
Não pelo aqui.
Mas,
Por tudo o que foi
Por todos que foram
Estou voltando aqui.




RÓSEO ROSTO DE MENINO



Lavarei o meu poema
Nas águas do meu tormento
Ao sentir um grande medo
De deixar fugir o medo
De não mais muito querer.
Lavarei minha memória
Nas águas de outra estória.

Passado: ida sem volta
Que volta quando já vamos
Bem longe, em meio à vida.
Passado: rio, nave ou quilha
Que renasce em redondilha.

A cantar foi que parti
Para longe desta face.
Simplesmente vou rimar
Doce face com disfarce
Pra gravar no verde falso
Velhas luvas que descalço.

Muita vida se resume
Neste humor tão triste e fino:
Lavo... lavo o meu passado,
Porém, fica mal gravado
Em tenra folha de alface
Róseo rosto de menino.


CANTO MATINAL


Há sempre sóis miliágonos
Nessas manhãs furta-cores.
Desejo imenso: ser chão
Germinando malmequeres.
Relincham éguas no cio
E o sol cravou-se nos olhos
Do cão que brinca entre flores.

Ah! Dálias desodoradas!
Estou livre! Uma pantera
Devorou minha certeza.
E esta luz, semente-luz,
Mal se esconde comprimida
Na carapaça de argila.
Este desejo me enrija.

Um canto milhões de pássaros
Se estilhaça em diamantes
Polidos, puros, brilhantes.
Ó lucilância de estradas!
São todos os vegetais
Incestos de luz e cor:
Rubi, topázio, esmeralda.

Nesta manhã furta-cor
Multicor, infindacor,
Quisera ser urzes bravas
Desses prados orvalhados
Que esperam fecundação.
Nesta manhã toda luz
Somente sou luz-manhã.

Há tanta vida no chão,
Há tanta vida no azul.
Em clorofila me banho
E me torno vegetal.
No lugar do coração
Girando está loucamente
Rosavento um girassol.


A voz animal me comove.
Já não sou mais relação
De paralelas eternas.
Neste mundo natural
Tenho raízes — subsolo
Tenho tronco e fronde — solo
Sou deus fecundo de mundos.

Sei que não vou mais poder
Suportar a compressão
De tantos mundos querendo
Libertar-se delirantes
De tão pouca ontologia.
Como um fogo de artifício
Vai romper-se todo o ser.

E vou morrer de viver.



NATAL — 1964


Não me referirei ao nome de meu irmão, ao falar deste monstro aqui.
Kafka — Metamorfose.

... E paz na terra aos homens de boa vontade. Lucas (2:14)


Para que se faça de novo a paz na terra
E , nas celestes esferas, harmonia
E tranqüilidade nas marítimas correntes,
É preciso, por força, que tu mudes.

É preciso, talvez, que renuncies
Aos teus dois braços que se movem
E às tuas mãos que arquitetam rosas
E gesticulam mistérios e ternuras.

É preciso, talvez, que se escureça
A luz perscrutadora dos teus olhos,
Dos teus olhos que sonham madrugadas
E bebem as águas úmidas da noite.

É preciso que amputes o teu sexo
E derrame-se por terra todo o sangue
Que corre impetuoso em tuas veias
Transformando em germes teus desejos.

É preciso que mudes. Na verdade,
Quando chegas há sempre este pavor
Que agita mundos firmes e serenos
— Que sempre foram firmes e serenos —.

Quando chegas, assim, como és agora
Com dois olhos, dois braços, duas pernas
E a monstruosa luz que mal se esconde
Sob os tecidos porosos da epiderme,

Os mortos ressuscitam, os anjos tremem,
Os deuses se acovardam, rugem ventos,
Os mares se revolvem, astros morrem
E os homens se contorcem como vermes.


Impossível quereres continuar
Assim como tu foste desde o inicio,
Pois, gemem em ti as convulsões dormidas
De pré-diluvianos mares e vulcões.

Trazes em ti todas as iras mortas
Que nas origens dos tempos existiam
Nos ventres, nas patas e nas pontas
Dos monstros primitivos, hoje, findos

E, apenas, revividos nos teus passos
Que andam pelas ruas, no teu riso,
Nas palavras que dizes e corrompem
O equilíbrio das messes e cidades.

É preciso, pois, que te transformes.
Que renuncies a tudo. Que te negues.
E comeces a ser um outro ser qualquer
Que, apenas, não seja o ser que és agora.

Apenas sejas fruto podre, inútil
Ou muda pedra, raiz, inseto morto
Que as formigas devoram, por instinto,
Para que haja, de novo, a paz no mundo.





APOCALIPSE


Os meteoros ameaçam nossos jardins.


É hora de decolarmos
Para a infinitude do silêncio dilatado
Com nossas asas de sonho
Antes que a terra exploda
E se escancare como a fauce
De uma desmedida flor carnívora
Faminta de nossos corpos.

Não mais teremos tempo
De colher o fruto do nosso canto.


Os meteoros ameaçam nossos campos.

Os mares cobrirão nossas faces;
Os vulcões ressecarão nossos ossos;
As mãos, os ventres, os sexos
Murcharão sob o fogo das estrelas
Que cairão sobre vales e colinas.


Os meteoros ameaçam nossos rios.

É tempo de partirmos para o espanto desmedido.
De que fomos, fizemos ou cantamos,
Ficará, apenas, o invisível traço
Do vôo da ave indivisível
Que se consumiu no espaço.




PEQUENA BIOGRAFIA DE ARLEQUIM
EXTRAÍDA DO DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO BRASILEIRO




Arlequim é personagem
da comédia italiana
do século dezessete.

Ele traja indumentária
Toda feita de retalhos
De panos de várias cores
— Multicor indumentária —
Cobre sua face de agora
Com máscaras de bufões
Da velha Grécia de outrora.
Arlequim morreu na Grécia

E ressuscitou na Itália
E anda zombando hoje em dia,
Com seu riso galhofeiro,
De todos nós — seus irmãos —
Nos palcos do mundo inteiro.





SONETOS AUTOBIOGRÁFICOS

[1]

Fecundar o próprio sêmen sem ter medo
De em si mesmo dar o ser ao monstro azul.
Escalar o próprio abismo desmedido
E sorrir a cada passo dado em falso.

Desmembrar a tessitura do mistério,
Dissecar a óssea face em frente ao espelho
Estancando a imagem tola no momento
Da mentira venerável — prece infame —...

E depois compor de novo a melodia,
Restaurar as cores todas distendidas,
Refazer o mesmo poema delicado

E ficar paradamente na vidraça
Contemplando a chuva grossa e intermitente
Escorrendo em borbotões pelas sarjetas.


[2]

Dos momentos fugazes que me comem
Nasce, agora, meu canto manso e triste.
E me visto de sombras já vividas
Que me chegam em surdina. Tarde azul.

Ó pedaços eternos que eu retive
No mistério das mãos transfiguradas!
Ó lunares desvairos destes rios
Já vividos e outrora decantados

Nas estórias, nas lendas, nos lilases
Que floriram sorrisos e jardins
Morridos, muito longe, em róseo ocaso.

Ó momentos de luz que tão fugazes
Recompõem meu poema neste agora
Com palavras mudadas em lilases!


[3]

A égua caminhava a passos largos
Por entre a lama espessa, mal cheirosa,
A égua que nasceu de barro e sopro,
Pesada e, ao mesmo tempo, vaporosa.

A égua percorreu todo o passado:
É lenda, é mito, é sombra luminosa;
Galopa semeando vida e morte,
É frágil como a flor e belicosa.

Tem alma muito embora em seu ventre
Aninhe fauna imunda e tenebrosa
De serpes e batráquios peçonhentos.

A égua chega sempre. Chora às vezes.
Às vezes, come fezes. Eu a vi
Comendo, em céu de estrelas, uma rosa.


[4]
O cavalo se esconde na espessura
Da selvagem floresta, murcha a crina.
Vendo-o assim, na floresta, mansamente,
A cabeça curvada, quem dirá

O mistério daquele dorso brônzeo?
Está prenhe de sol e não há noite
Em seus olhos de fera e nas narinas.
É dinâmica posta em doce paz,

Comprimindo, nas patas e nos flancos,
Na cabeça de pégaso ferido,
O poder fecundante do universo.

Vendo-o assim, mansamente, ninguém julga
Que é capaz, se quiser, de, num segundo,
Refazer, totalmente, o velho mundo.



[5]

O esquálido triângulo se funde
No círculo sem luz da selva escura.
Na sáfara planície mal germina
A chama horizontal. Sorriso, apenas.

Grudada está a saudade, sem disfarce,
À cor trazida, outrora, em caravelas,
De longes horizontes. E as ogivas
Já mortas ressurgindo no barroco.

Remotas viagens marcam velha origem.
E o gato e o cão e a virgem estrela morta
De quinze pontas de ouro. Voz em prece.


Tangente esforço — fraco — de ser santo.
A fome aguda e sempre de ser lúcido.
E a boca posta em pobre canto.
Triste.


[6]

As noites dos assombros se gravaram
Nos olhos do menino, para sempre.
Cravou a rude fera suas ventosas
No plasma nuclear do qual rebenta

A vida. Não na crosta... Mas bem no âmago.
Na zona claro-escura onde se fundem
Os nervos, as artérias, alma e sangue;
Nas zonas onde a carne faz-se espírito,

Nas linhas onde o barro se faz homem.
Ah! Noites de fadigas e de prantos!
Ó luares dissolvidos no porvir!

Ó pássaros de assombros! Muito embora
Eu lute, cante, chore, não consigo
Tanger-vos dos meus olhos de menino!


[7]

És desejo, talvez, ou limpo canto
Que se põe como branca toalha sobre
A descampada e vaga solidão
Do vasto campo azul deste meu canto?

És a fuga, talvez, de fontes puras
Que se lançam, medrosas e perdidas,
Para o mar tenebroso, inavegável,
De onde chego no canto feito nave?

És a rosa? Ou quem sabe se és a sombra
Das estrelas morridas de não ser
Mais que luz, mais que brilhos solitários?

Ou te pões simplesmente como a nota
Que fugiu, para sempre, da sonata
Imatura que eu fiz de brilhos falsos?


[8]

O cais está deserto. A noite é vasta.
O vento sopra fino. As águas negras
Paradas se repousam das fadigas
De naves que partiram soluçantes.

As luzes tremeluzem cochilantes
Dos negros postes magros penduradas.
Do guarda, os passos lerdos, sonolentos,
Acordam surdos ecos nas distâncias.

E a sombra do seu corpo se projeta
No longo tombadilho do silêncio
Escura e densa como ponte armada

Do cais para o silêncio da água negra,
Do fim para o começo de outro dia
Do pranto de quem fica ao de quem parte.



[9]

E nós nos esquecemos dos matizes
Das cores penduradas nos baloiços,
Dos risos, das canções e das conversas
Que tínhamos sentados pelo chão.

Das formas e das casas, do equilíbrio
Das árvores dispostas no quintal,
Do córrego, da fonte limpa e fria,
Das pombas se catando nos umbrais,

De tudo quanto foi o que nós fomos,
De tudo que fizemos nos fazendo,
Dos mínimos detalhes que sonhamos

Compondo o que viria — o que seriamos —
Somente permanece a forma inculta,
Disforme, densamente nos cercando.


[10]

Estas aves vêm sempre, ao fim da tarde,
Descansar seus remígios agourentos
No pomar de onde colho doces frutos
Com que faço meus vinhos suculentos.

Elas vêm de bem longe. Me olham sempre
Com desdém. E nas asas trazem ventos
Que uma vez, já faz tempo, naufragaram
Minha nave que nautas desatentos

Dirigiam. E estas aves eu me espiam
Lá de cima das arvores crescidas
No pomar irrigado com águas verdes.

Bem conhecem meu fim. Vencido nauta
Pus-me, agora, a plantar frondosas copas
Que sugerem veleiros em meu canto.









UNIVERSAL
(semanário da Igreja católica, que circulou aos domingos entre os anos de 1953 e 1958).


SÍMBOLO

No azul-negro do céu inacessível
O pássaro branco estava leve
Como uma estrela apagada
Estava o pássaro, morto.

Mas o peixe que nas águas eternas cantava
Morreu na árvore de carne.
Nascida
Da semente da vida.

O pássaro comeu o peixe-fruto
E ficou pesado
Ficou prenhe
Do espírito que intumesce as águas eternas.

Suas penas de mármore então ficaram
Brancas como o trigo
Rubras como a uva
Banhadas pelo dilúvio universal.
Ninguém ficou das águas vivas!

Então os cordeiros renascidos
Entraram cantando
Salmodiando
Na cidade de ouro e cristal
O cântico ao Sol que saiu do ventre das Noites
Da Noite Virgem
Da noite torpe.
O Sol que venceu o dragão
O cântico do Sol que jamais a Terra ouviu:
Sanctus! Amém! Aleluia!





Nota do organizador:
Julgo tratar-se do primeiro poema publicado na imprensa local. Aconteceu no semanário católico Universal, circulado em 13 de março de 1955. O autor identificou-se com as iniciais: L.R. (Luiz Ruas).


A CRÍTICA, Ronda dos Fatos






SE TEU OLHO FOR SIMPLES


Devemos nos esforçar para tornar mais simples os nossos olhos.
Para que olhemos com simplicidade o nosso irmão.
E não vejamos simplesmente em nosso irmão, em suas atitudes,
[em suas lutas, em seu ódio talvez, unicamente um interesse egoísta.
Se o teu olho for simples...
Talvez ames com mais facilidade o teu próximo.
Vejas com mais objetividade os teus erros e defeitos.
E aceites com mais humildade aqueles que os apontam.







Nota do organizador:
Publicado na estréia de sua coluna – Ronda dos Fatos, no jornal A Crítica, em 2 de agosto de 1957.




PEQUENA ANTOLOGIA MADRUGADA
Jorge Tufic
Manaus: Sergio Cardoso, 1958.


VERSOS À MARGEM DE UM POEMA DE RAINER MARIA RILKE
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Lancei-me em verticalidade
No abismo que se abria
Como lábios devoradores
Da minha própria contingência.
Morri. Mil vezes morri
Tentando devassar o meu silêncio
Semelhante ao das fontes congeladas
Onde o universo parou.
Mordi. Mil vezes mordi
A própria carne e devorei
A essência fugidia que me mata.

A fonte era escura muito embora
Cristais e perolas luzissem
Nas sombras das florestas quase mortas.
Perdi-me no vale das flores germinadas
E, antes de nascidas, sepultadas
Na força da expansão germinativa
Era lama, era barro e também ouro.

Morri. Mil vezes morri
Descendo o mar profundo.
Mas quando as ondas jogavam redivivo
Na praia o fruto naufragado
Havia pássaros verdes brincando nas espumas
E uma brisa morna
Dançava em piruetas na areia
Criando ninfas coloridas
De poesia
Na manhã renascida.

SINOS

Os sinos calaram-se em sons pontiagudos
Projetando no espaço verde-negro
Centelhas desmemoriadas.

De onde vem a voz dos sinos?

Das torres cicatrizadas
Onde o tempo se gravou
Em instantes de pedras?

De onde vem a voz dos velhos sinos?

Essa voz
Que vem até nós
Como velas enfumadas
Pelos ventos intocados
Do mistério inenarrável
Do tempo não nascido?

De onde vem a voz dos sinos?

O canto das estrelas semimortas
Repicava, em azul cristal,
Nas torres enrugadas.

O último canto dos sinos
É silêncio...
leve silêncio.


POSSÍVEL NOTURNO EM LÁ MENOR

Ah!
Esta lua
Neste fim de rua.

Os homens se devoram
Mesmo sobre cadáveres
E ainda chorando a morte
Matam a própria vida.

Esta lua
Somente lua
Neste absolutamente
Fim de rua.

Para o fim da escura rua
Bêbedos passos caminham.
Minha sombra, minha dor,
Meu desengano também.

Ah!
Esta lua
Neste fim de rua.




A ÉGUA

A égua caminhava a passos largos
Por entre a lama espessa, mal cheirosa,
A égua que nasceu de barro e sopro,
Pesada e, ao mesmo tempo, vaporosa.

A égua percorreu todo o passado:
É lenda, é mito, é sombra luminosa;
Galopa semeando vida e morte,
É frágil como a flor e belicosa.

Tem alma muito embora em seu ventre
Aninhe uma fauna tenebrosa
De serpes e batráquios peçonhentos.

A égua chega sempre. Chora, às vezes.
Às vezes, come fezes. Eu a vi
Comendo, em céu de estrelas, uma rosa.





Nota do organizador:
O poema foi posteriormente incluído em seu livro Poemeu (1985), no capítulo dos sonetos autobiográficos, mas sem este título.
EVOCAÇÃO DA FRANÇA

A Encarnação é um dogma da fé católica:
A Perfeição se une à imperfeição.

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
Amém.

Hélas! ça sait tout le mond...

E Joana, a pequena Joana, também sabia
E Péguy também sabia
E o sabia
Antoine Saint-Exupéry.

França
Uma fogueira em meio a brumas
E o Sena correndo aos pés de Notre Dame
Instabilidade...
Eternidade.

França
Muito queijo, muito vinho e muito livro.

França
Carrefour du mond
Séculos de pecados
Peregrinando para Deus.

França
Filha primogênita da Igreja
Mãe fecunda de Voltaire e Renan
França
França da gruta de Lourdes
E das “caves” existencialistas
Dos faustos do Rei Sol
E da penitência de De Foucauld
Hélas! ça sait tout le mond...
Rouault
pintou um Cristo
e... “les bien pensants”
protestaram:
 Um palhaço!
Aí Herodes mandou o Cristo fazer mágicas,

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

França de Rimbaud
França de Claudel
Santa França
Si charnelle.
Amém.














Suplemento Literário
Diário Oficial do Amazonas
Manaus, outubro de 1987. Ano I – nº 12.




O ENIGMA ESCLARECIDO
Videmus nunc per speculum in enigmate; tunc autem facie ad faciem.
(I Cor. 13:12)


A
Carlos Drumond de Andrade
in memoriam





Atrás das límpidas lentes —
Claras — dos óculos,
Os olhos pequenos revelam
Um enigma profundo:
O poeta vê e experimenta
O sentimento do mundo.

O sentimento é maior,
Muito maior do que o mundo.
E se ele (tímido) revela
O que ele sente do mundo,
Não revela (por pudor)
O enigma mais profundo:
Aquele que está lá dentro,
Lá no fundo do que foi.

Por trás das límpidas lentes
O poeta vê apenas
O movimento do hoje
E o passado que é presente.
De tal maneira presente
Que o hoje, no ontem, se funde.
Ontem e hoje são somente
Os limites do seu mundo.
E o hoje é o ontem vivido:
Muito amado, mais sofrido.




As lentes claras dos óculos
(Tão claras como sua alma)
Não vêem adiante: só vêem
A cicatriz que o passado
Cravou na vida distante
Como marca a cicatriz
De uma pedra que feriu
Nosso corpo de menino.

De passado e de presente
(Não de futuro) ele ergueu
Todo o edifício da vida.
De uma vida calma e limpa
Que ele quis e defendeu.
Desta vida que é vivida
Somente pelos que sabem
Os seus limites de Homem.

O enigma é o futuro,
Poeta, pra todos nós.
Mesmo a quem foi dado
Olhar e ver com os olhos
Da Fé: tudo, agora, é como
Um segredo que se esconde.
Nós vemos mas não sabemos
O que no segredo se esconde.

O que é inevitável, porém,
Há-de sempre acontecer:
No agora do pós-morte
Todo o enigma se aclara:
Queiramos ou não, seremos
Presentes no Seu presente.
E o hoje e o ontem do tempo
Se tornam claros. Pra sempre.

CANTO NOTÍVAGO

Para o poeta, compadre, irmão Jorge Tufic;
para os que amaram ou ainda sabem amar a noite.





O meu mar é minha noite:
Nela me encontro e me perco.
Nela invento roteiro
Para os meus passos perdidos.
Para meus passos sem leis,
Para os caminhos sonhados
Pelos meus pés andarilhos.

Nela me faço e caminho
Liberto, navego e vôo...
Falo com os anjos vadios
Que humildemente se escondem
No pêlo dos cães famintos.

Neste meu mar sempre noite
É que me faço o que sou.
Não vejo as cores das casas;
Não vejo as caras dos homens,
As caras dos meus irmãos:
Dos amigos e inimigos.

A noite é cheia de luz!
Não da que vem das estrelas
Mas da que nasce das sombras,
Mas que nasce de mim
E que se apaga de dia:
Como a luz dos pirilampos.

Amo-te, noite, irmã noite,
Imensa irmã de veludo
(Noche oscura! Noche oscura...)
Humilde irmã mal-falada,
Humilde irmã dos humildes
Que não têm lugar ao sol.


De assassinos, de ladrões,
Dos vigias, prostitutas,
Dos bares pobres, da esperança
Dos jogadores furtivos;
Dos que dormem nos batentes
Dos palácios, das igrejas.

Amo-te, noite, irmã noite.
Irmã tão compadecida
Que acolhes sem reclamos,
Sem maldizer, em silêncio,
Em silêncio comovido,
Todos os párias da luz
Todos os párias do dia
Que por si só têm a ti.

Amo-te, mãe dos aflitos,
Amo-te, mãe dos cansados,
Amo-te, mãe dos perdidos
Que não têm rumo nem pouso,
Que não têm paz, nem conforto,
Que não sabem onde ir.

Amo tua paz, teu silêncio,
Amo teus uivos, teus gritos,
Amo os gemidos, os prantos,
Amo os risos... os monólogos
Dos bêbados noctivagantes
Que se perderam a si mesmos.

Sou um vulto que desliza
Pelas pontes, pelas ruas...
Sob portas e janelas...
Pelas cansadas ladeiras
Que sobem... que sobem sempre.
Sou um vulto que se esconde.


No mar descubro meus mitos
Daquilo que eu sou, sem ser:
Sou monstro, arcanjo, duende,
Sou santo, soldado, herói,
Sou saltimbanco, palhaço,
Sou estátua e canto e danço.

No meu mar me desencanto:
Dispo a máscara grosseira
Que me cobre o dia inteiro:
Esqueço as filosofias,
Perco ritos, perco modas
E tudo o que faz dos homens
Espantalhos de si mesmos.

No mar invento poemas
Mais puros que os cantos puros
Da música santa de Bach.
No mar fabrico mistérios,
Falo com Deus e com deuses:
Sou pagão e sou cristão.
Eu sou eu sem ser ninguém.

Sou uma sombra, talvez,
Que pode ser tudo. Ou nada:
Posso apenas ser ladrão,
Assassino ou assaltante,
Para o guarda de plantão.
Para os boêmios que vagam
Apenas sou seu irmão.

Amo-te, mãe sem limites.
Amo-te, amiga, mulher
Parceira de serenatas,
De jogos, de bebedeiras.
Amo-te, mar de feitiços,
Irmã negra, mandingueira.
Amo-te, mar de mistérios,
Onde me encontro e me perco.








N.O.
O poema foi, por iniciativa do homenageado, publicado no Diário do Nordeste, Fortaleza (CE), 10 de novembro de 1996.
De certo, elaborado em período anterior, visto que nesta data o autor já se encontrava gravemente acidentado.





Série Memória 14
4ª edição Novembro 2000.
Editada pelo Governo do Estado do Amazonas



CRÔNICA ROMÂNTICA DE ADEUS AO ROADWAY.

padre Luiz Ruas



Posto que, sendo porto,
Sempre foste caminho de partida
Ou barco de ferro e pinho
Que os ingleses ancoraram
Nas margens do rio Negro.
Era “roadway” britânico caminho
Flutuando
Nas índias águas do rio
Que viu, espantado, surgir
No meio da selva bruta
Onde ainda ecoavam nítidos
Os rudes sons dos Manaus,
Uma clareira de sonhos,
De látex e de libras esterlinas

Foste “roadway” e “rodo”

Mas, posto que sempre foste
Porto – caminho de partida
Também foste caminho de chegada.
(De chegada mas, talvez, que de partida).
Pela ponte de pinho
Louro e de negro ferro
Legiões de marujos desfilaram
E de artistas, empresários e turistas
De além-mar chegados, fascinados
Pelo encanto da floresta-mãe
Onde se arrancava das tetas vegetais
O leite branco que se mudava em ouro

Francesas, espanholas e polacas,
Para gozar nas camas dos bordéis
O ouro fácil em que se transmudara
O sangue, o suor, a febre delirante
Dos seringueiros – párias do Nordeste.

E foi por tua ponte flutuante
Que chegaram as “levas” nordestinas
Dos “brabos”, dos “soldados da borracha”
Que seguiam encantados, enganados,
Para os “centros” – distantes seringais
Do Purus, Acre, Madeira e Juruá
Onde findavam – finavam – escravizados.

Passarelas de dor e sofrimento!
Passarela de luxo, amor e sonho!
No teu ritmo binário que acompanha
O ritmo binário deste rio
Que todo ano sempre sobe e desce,
Também foste termômetro da morte
E da vida que todas as enchentes
E vazantes ofertam fatalmente
Aos homens e as mulheres ribeirinhos
E às roças e animais da várzea.


Mas, que importa! Ficaste, Flutuante
Lembrança de um tempo que ficou,
Também, em vários outros monumentos
Erguidos sobre as bases do martírio
De milhares, devorados pela selva
E pela ambição do lucro fácil.

Que importa!
Ancorado ficaste tanto tempo
Mas, também, nas páginas da história
De um povo que, aqui nesta cidade
Dos extintos Manau, sempre viveu
A longa espera de um amanhã melhor.

Caminho da terra para a água;
Caminho da cidade para o rio;
E caminho do rio para o mar;
No macio balanço da tua ponte.

Todos nós de Manaus, em ti, deixamos
Uma pegada da vida que partimos
Dentro em pouco será simples lembrança,
Pois, tuas linhas arquitetônicas serão
Destruídas, apagadas, distorcidas
Em nome de um progresso que une poucos
Gozarão. Toda a história se repete.

“Roadway” dos ingleses engenheiros
Ou “rodo” dos cablocos de Manaus!

Aqui fica este adeus de quem te viu, menino
E, por ti – uma vez – partiu sonhando
Os mais belos sonhos que sonhar eu pude.
Adeus, velho roadway flutuante,
Docemente embalado pelos ritmos
Das morenas águas do rio Negro. É
Chegado teu fim. Exige-a assim
Este rude imperativo do progresso.
Mas, em mim, como te vi, hás de ficar;
Dourado pelos raios do sol quente
Ou banhado pelas pratas do luar.





















Nota do editor

O presente texto decorre do original localizado nos arquivos da Secretaria de Estado da Cultura, Turismo e Desporto (1999). Julga-se ser primeira edição e serve para homenagear o ilustre religioso, professor, escritor e filosofo.






HINOS
A CRIAÇÃO
Letra: padre Luiz Ruas
Música: maestro Pedro Santos

Foi o bom Deus quem fez o céu
E quem a terra também nos deu...

Primeiro fez a lua
das trevas boa irmã
nasceu assim o dia
da tarde e da manhã.

Depois criou a nuvem
que a chuva irá guardar
unindo as águas todas
criou também o mar.

O mar coalhou de peixes
e o céu ficou cheinho
da cor das aves belas
fazendo alegres ninhos.

Criou no sexto dia
o homem e a munlher
dizendo: mais bonito
o mundo eu vou fazer.

E vendo o bom trabalho
trabalho só de amor
na criação lançou
sua benção o Senhor.


Nota do organizador:
Composto quando da instalação do Instituto Christus, hoje Centro Integrado de Educação Christus. Logo foi adotado como hino do colégio.
Neste chão dos Manaus
Hino da festa da restauração da Catedral

Letra: padre Luiz Ruas e
Música: frei Luís Carlos.


Neste chão de Manaus foi erguida,
Por aqueles que vieram primeiro,
Uma humilde capela que foi
O sinal de um amor verdadeiro.

Nossa Senhora da Conceição
Imaculada, rogai por nós!
Nos vos pedimos somente isto:
Ser construtores da Paz de Cristo!

Mas a fé do teu povo, Maria,
Do Amazonas a mais linda flor
Quis, depois, ofertar-te outro templo
Que dissesse ser melhor nosso amor.

Nem o fogo voraz, nem o tempo,
Conseguiram vencer teu amor.
Hoje estamos, de novo, Senhora,
Celebrando com fé teu louvor.

Do teu povo que vive em Manaus,
E às margens dos rios caudalosos,
Nas florestas, nos lagos, recebe,
Mãe de Deus, os louvores piedosos.

Seja sempre uma prova de amor
Que teus filhos ofertam-te agora
Este templo de fé restaurado,
Nossa Mãe, do Amazonas Senhora.

Centenário, será para sempre
Da piedade do povo, sinal.
E das graças que sempre nos deste
Nossa Igreja-Mãe, a Catedral.

Que nesta festa do templo sagrado
Nos ensine Maria a lembrar
Que é preciso também nossa vida
Com amor e com fé renovar.


Em 1986, o Amazonas católico encantou-se com a restauração da catedral de Nossa Senhora da Conceição. Para engrandecimento da festa, padre Ruas entregou aos fiéis o hino de louvor intitulado de Neste chão dos Manaus. A canção, posteriormente, foi adotada como hino da paróquia.



Hino de São Pedro
patrono da paróquia de Petrópolis

Letra: padre Luiz Ruas


Homem do povo! Bom pescador!
Pedra da Igreja! Pedro Pastor!
No Santo Padre – teu sucessor,
Nós te louvamos com muito amor.


Como tantos que vivem entre nós,
Nesses rios, nos lagos... Pescando.
Tu também tua família nutrias
No trabalho da pesca, lutando.

Eras bom pescador... Mas um dia,
O Senhor, ao te ver, te chamou:
“Não de peixes serás pescador;
Como pesca os homens te dou”.

Atendeste de Cristo o chamado
Prontamente. E te foste à peleja
Do evangelho, sem medo. Por isso,
De ti, fez fundamento da Igreja.

Pedro – Pedra da Igreja de Cristo –
Representas, na história, o Senhor.
No teu barco viajamos seguros,
Nós, o povo de Deus, Pescador!