domingo, 18 de janeiro de 2009
L. RUAS - POESIA REUNIDA
PÁSSARO EM VÔO
Leitura de Aparição do clown de L. Ruas
[Publicado originalmente em "Leituras da Amazônia",
Universidade Stendhal-Grenoble / U. A. Ano 1, n. 1, abril-1998]
Rogel Samuel
A primeira parte de Aparição do clown se chama descoberta:
foi no tempo do luar pois não existe sol
no velho parque - tempo não maduro
que encontrei o sempiterno clown,
queria ver-lhe a face. e sua face
era imenso lago azul parado
onde a lua se repetia. lua.
Foi o seu primeiro e mais importante livro, publicado em Manaus por Sérgio Cardoso Editores em 1958. Quarenta anos depois sai uma segunda edição (Manaus, Editora Valer, 1998, infelizmente sem a "Interpretação do clown"de André Araujo, mas acrescida de prefácio de Carlos Eduardo Gonçalves e estudo de Tenório Telles).
Ruas nasceu em Manaus em 1931, com 11 anos entra no seminário (em Fortaleza e Rio de Janeiro), depois volta para Manaus onde era "pároclo, professor, jornalista, crítico de cinema e poeta" (Gonçalves). Principalmente foi ele um dos maiores poetas deste Brasil e um dos mais desconhecidos. (Utilizamos aqui a 1a edição).
O mito que nasce da descoberta é o de Narciso. E o de Eros e Psiquê. A descoberta do clown é a descoberta de si. O ver-se no espelho da face do outro levanta desde logo a questão reflexa do igual, que se recolhe no lago. O corpo do outro recolhe o meu mesmo transformar-se, o seu corpo de barro, seu corpo de estrelas, entre o céu e o chão se fundem o alegre riso e o triste pranto. O tempo é de metamorfose no lago da lua, tempo mítico do luar. E a referência é da Metamorfose de Ovídio, mas com a lua cheia e o lago espelho da face onde o palhaço aparece: um anti-Narciso. Seu corpo é de um demônio, um sedutor demônio, corpo de chafariz (de esperma) e de terra (de barro). A feminidade pansexual do velho clown se contagia da "boneca" que ele beija:
apenas vi o velho clown beijando
uma boneca. e beijando-a chorava
e ria ao mesmo tempo que
o destino dos palhaços é fundir
à luz da lua o alegre riso e o triste pranto.
E não há sol, mas penumbra e máscara ao luar onde pouco se pode ver e saber:
e vendo ser inútil o meu esforço
de descobrir integralmente o clown
eu suplicante lhe falei assim
É a segunda parte do poema aquilo que ele fala e que se chama discurso. E o discurso se resume numa pergunta: "Quem és?", ou "O que és?" Nesse discurso também se encontram todas as principais pistas do poema, suas proposições. Canta, ó musa, o clown esbandalhado, cansado e velho, mas poderoso e eterno. Ou mesmo, em lugar de "canta", temos por antítese "faz mistério", o que é o seu propósito, esconder, esconder-se aos quatro ventos. Mas o texto diz: "canta a tua ideologia".
Mas o que isto significa? O que significa dizer "que és?"
Diz Foucault, n'A vontade de saber, que desde a Idade Média as sociedades ocidentais colocaram a confissão entre seus mais importantes rituais para a produção da verdade. Há o desenvolvimento das técnicas da confissão, o métodos interrogatórios e de inquérito, a instauração dos tribunais tudo contribui para dar à confissão um papel central, a confissão da verdade na medicina, na justiça, na pedagogia, nas relações familiares, nas relações amorosas, - confessam-se crimes, pecados, desejos, pensamentos, sonhos, doenças, em público, em particular, aos pais, aos educadores, ao médico, a si próprio, confessa-se ou se é forçado a confessar sob tortura, e tudo isso produz relatos, livros, a literatura, sob a égide do: "diga a verdade" um Presidente norte-americano se viu arguído - pois a confissão se desenrola numa relação de poder, poder que intervém, impõe, avalia, julga, pune, perdoa, consola, um ritual em que a verdade é extorquida em espetáculo.
Mas como neste clown tudo é falso, a verdade se mascara de mentira, assim como o amor, que se dá num teatro:
a bailarina lhe disse chorando - eu te amo.
ele riu. palmas. a cortina cerrou-se
E todos comem o espetáculo. Consomem-no, "carne de elefante néctar de bonina alma de passarinho".
Não são espectadores, são cientistas: como "cientista da vida" é este clown. Como "anormal", o velho palhaço é inocência e maldade:
de onde vens palhaço? quê nos queres dizer?
fala que te espiamos cientista da vida
tu gargalhas no palco o que choramos na vida
......................................................................
sou criança que não aprendi ainda
o que é o belo e o feio
o pranto e a galhofa.
o que é ser e o que é não ser.
pois tu és homem palhaço tu és homem.
O centro temático do poema é este: "tu és verdadeiramente homem", e "honra e vergonha":
auréola de arcanjo
tu és verdadeiramente homem
pois tu somente revelas o segredo
honra e vergonha
que todos ocultamos
E assim se constituía, como viu Foucault, a ciência que se apoiava nos rituais da confissão e em seus conteúdos confessos, desavergonhados ou sob tortura, ciência que era uma extorsão múltipla e cujo objeto era o inconfessável, o escândalo, e é a partir daí que se constituem as ciências do sujeito, através da codificação do "fazer falar" (depois fotografar), através do interrogatório cerrado, onde havia o dever de dizer tudo e para todos (a confissão do Presidente na Internet), qualquer acidente, qualquer desvio, qualquer excesso - isto é: qualquer prazer, cujas consequências são as mais variadas, é preciso arrancar a verdade em nome da decência - e é justamente naquilo que o sujeito gostaria de esconder que se encontra o seu núcleo que tem de ser extraído à força, porque ele se esconde:
quem já viu a tua face
tua única face?
................................
todos riem somente da face mentirosa
E súbito uma heresia! O clown é a personificação do Cristo:
todos riem somente da face mentirosa
da escandalosa face que nos ofereces
dizendo que é vinho
todos beberiam porém teu sangue
seiva das árvores água dos rios lama das sargetas
e comeriam tua carne que não ofereces.
carne de elefante néctar de bonina alma de passarinho.
Mas a face engana, a máscara é vazia: atrás da face nada se esconde, a máscara oca, entre o sentido e o subjacente a máscara ri, ou melhor, faz rir: "onde está tua face palhaço onde? / além do além do horizonte / nas nuvens ou atrás da máscara?" A máscara, já se sabe, não é inútil para quem a usa. Nem inócua. A máscara é a face que a usa. E o discurso continua, "sombra de sonho".
E a máscara o convida para dançar. Ela é o inferno de si em ser o menino, "mito de farsa e de verdade".
A outra é a resposta, a Terceira Parte do poema. Que diz: "não sei", "nada sei". Apenas podemos ver as sombras sem ver a luz, como na Caverna. E aqui se encontra o magnífico verso maldito: "ser livre em essência é ser cativo".
A Quarta Parte, um aviso diz para "deixar o pássaro voar", pois a "a ilusão é mais mortífera que a desesperança". Conta que não adianta amar - o pássaro sempre voará, nunca será possível aprisionar o seu amor, e o que é aprisionado não é amor. A Quinta Parte se chama romance e aqui temos três elementos conjugados: o ar, o fogo e a água: o pássaro, a estrela e o peixe. A feminidade da água, e a masculinidade do peixe: o pássaro que devora a estrela que estava sendo devorada por um peixe. Pois o clown é dito que nasce aqui, o clown nasce da estrela, e ele, em vez de gênio, de arte, de poesia e de flor ele nasce como palhaço, palhaço dos homens. Na Sexta Parte começa o seu martírio: Prometeu que não morre, apesar de continuamente devorado vivo ("o amor nos prende e nos tortura, mas não mata"). Mas, nesse momento, seu ouve uma canção, a Sétima Parte de Aparição do clown. É uma canção de amor sem amado:
eu cantei uma canção
baixinho ao meu amado
- "não chores pequenino
não chores que eu te amo"-
eu andei por longas ruas
e por cidades perdidas
em busca do meu amor
Por isso o poeta empreende a viagem, a Oitava Parte. Viagem que não sai da praia. Em busca de si mesmo, ou seja, de seu amor perdido e mesmo desconhecido em si mesmo. Não sei, ele como que diz, não sei quem sou como objeto nem onde está o meu objeto. Ou melhor: não sei quem é o ser objetivo, a objetivação do sujeito que me constitui como sujeito e que me deu o meu signo de ser. O ser que me constitui desapareceu, e eu sujeito começo a me perder, começo a perder o sentido, deletando-me aos poucos. Não é Deus que me dá o signo, mas meu amor, meu objeto de amor que é igual a mim na face de espelho do lago da lua, a crueldade do espelho de Narciso não é se amar a si, mas sim só encontrar o objeto amado sob a pele das águas no reflexo espelho de seu lago, ou seja, tomar-se a si como outro, como se amo no outro que não tem, nem o outro, na alteridade de si mesmo, nem a si mesmo, na duplicação do que é, perde-se no mesmo. O texto, não só revela perdição, perversão, mas heresia. Dizer que há seres individuais significa dizer que são para-si - que se amam e se desejam na reciprocidade do lago. Para-si significa o retorno à unidade, a negação do outro como outro para a fusão do igual.
o mar é muito vasto e fera enraivecida
já engoliu noivos e pescadores
(...)
não procures no mar no bulício das vagas
a sombra do teu amor
A criança da praia lhe pede: "canta uma canção ao teu amor", ao que ele responde: "como cantarei cantos de amor nesta solidão? / os cantos nascem apenas da união / do brilho da estrela com o ritmo do vôo". E a criança canta uma apóstrofe, a Nona Parte, um soneto:
em vão hás de buscar pássaro triste
buscando o fruto verde não sepulto
nas praias naufragadas onde existe
a concha nacarada - peixe inculto
além de tuas patas espalmadas
o mar é brisa calma e mata bruta
as asas que se abrem limitadas
mergulham sem tocar na doce fruta
em curvas linhas retas canto e arte
te vejo entre o céu e o barro forte
comendo espaço e tempo sul e norte
buscando em vão o fruto que te farte.
quem sabe? pode ser que noutros mares
sacies teu desejo. é bom tentares
Então, na Décima Parte, o mar se abre e um dragão surge daquelas águas, o dragão e a flor. Durante a leitura de todo o poema se lê um pássaro que persegue uma estrela, como o diálogo entre a terra e o céu (como o inacessível amor, a grandeza e sublimidade do amado inatingível, como um deus). Agora, de um terceiro elemento sai o monstro que é ao mesmo tempo personificação das águas e dos seus semas femininos, como também do fogo. Terra, ar, água, céu, fogo. Se, como já se disse, houve até quem se afogasse num espelho, agora, do mar sai o dragão de si mesmo, pois o olho, que tudo vê, não se vê como dragão, o dragão do visto no visível se precipita num paradoxo da imaginação - eu não sou o outro porque nada sou no espelho das águas. O outro, que me vê, meu reflexo, surge como um dragão porque não posso sê-lo, ou melhor, não posso amá-lo - o outro é entretanto meu objeto (e sujeito de mim), o objeto é o que me impede de perder-me na vastidão do mar do sem sentido, nos sem limites do espaço do não/nada ser. Somos, eu e eu-mesmo no outro, limitados pelas dimensões significativas do espelho das águas, das águas e do nosso desejo, pelas fímbrias dos nossos seres ali confrontados. Como ser algo além da máscara? Como deixar de me confrontar com meu próprio ser se me olho no espelho das águas mascarado de palhaço de mim mesmo? No poema de L. Ruas, a aparição do clown significa aparição do monstro mascarado, da máscara monstruosa, da face da máscara do ser atrás da qual nada há: somos a máscara que nos veste, a aparência é, em si mesma, a essência, aparência que vem e ameaça quando o lago se torna o mar e o espelho do outro se personifica. É de lá, de dentro deste mar/espelho onde eu posso me ver e me afogar que nasce o dragão que me ameaça, ou seja, eu me ameaço com um dragão, eu somatizo um dragão interno que me ameaça, dragão que sai do meu peito ou das dobras de minha noite, do meu inconsciente despertar. E eu, "self made" dragão da minha interna maldade, das ruínas de mim, da arqueologia de mim ameaçando a mim mesmo... com seu amor!
uivava o mar qual leão acorrentado
sob o peso imponderável do amor
do dragão que perseguia a flor.
Ora, o amor escapa pelo pássaro para a estrela. O amor de granito, de chumbo, decola. Mas tudo se dá neste teatro assumido e de papel crepom, onde tudo é falso, o amor, a boneca, a máscara, tudo é uma farsa desempenhada no picadeiro pelo clown. O que se diz no poema é: toda grandeza cai em pedaços, tudo o que é sublime é torpe nesse picadeiro-vida - estamos todos nos vendo nas dolências de mulher da flor das flores - "oh, as flores perdidas para sempre / nos longínquos perfumes ressequidos" - e subsistimos em desgraça, na sordidez da nossa solidão.
O dragão vem anunciar que "Vênus está extinta", que o amor deixou de ser possível. Mas na praia havia uma criança que fabricava uma espada que lhe cortava a mão, espada essa para matar o cordeiro que seria servido no banquete do encontro da estrela com o pássaro - tudo muito teatral: "então a criança correu para meus braços / gritando - "não deixes o dragão me seduzir".
- que posso fazer criança que não sou
poderei salvar por acaso o eterno jogo
se habitas a praia sem dimensões
sem sol e sem luar?
por que me buscas se possues a espada
e mãos de sonho e olhos de rubi?
sou apenas sopro vento vaidade nada
pó perfume cor sonoridade luz.
que mistério é este que sugeres
tentando penetrar nestas entranhas
fecundadas pelo canto do pássaro ferido?
então o mar partiu-se lado a lado
como um véu por invisíveis mãos rasgado
e engoliu o dragão.
Segue-se um prelúdio, o prelúdio da Décima-primeira Parte, que poderia iniciar o poema todo
quatro cavalos passaram galopando
em asas de águias sustentados
relinchando como se fosse trombetas sua voz
ou ribombar de trovões enlouquecidos
olhei. estava só na praia. o mar quieto.
uma brisa dançava sobre as ondas
o prelúdio que chopin tocava soluçando.
depois vieram ninfas volitando
ao som de músicas ligeiras.
sumiram-se depois nas gotas do orvalho.
oh. a crosta espessa das palavras
que mal revelam o fulcro luminoso
da consciência do mistério vislumbrado.
quem está cantando perguntei?
rosas?
quem está cantando é o coro dos palhaços.
De que é o coral da Décima Segunda parte senão dos palhaços que dizem: "aguardai no amor / que o pássaro virá". Ao que a nênia da parte seguinte contradiz: se o pássaro não vier será a noite silenciosa, a morta noite e deserta onde "inutilmente serás". A ressurreição do baile é Décima Quarta Parte, quando o pássaro está chegando e tudo renasce, recomeça, ressuscita. Mas no retorno da Décima Quinta Parte se diz que quem retorna não é o pássaro, mas um fantasma, um anjo indiferente. Quem é esse anjo, pergunta:
quem sou? rosa anjo fagulha do inferno
semi-deus apenas gesto luz ou noite
mas nada diz do que é - ele é o amor morto do universo, o homem-mulher do positivo-negativo que move o universo mas morto, o amor está morto, é um fantasma, já se viu, ele era o fantasma dos amantes, tresloucado, que só vive nas sombras e nos sonhos: "é sombra seu império. / não trevas. mas a luz azul / que não é dia não é noite. / é luar". Aos palhaços não é dado amar, e o amor para eles são asas, somente isso: angústia "de fugir ao destino das raízes", asas de desespero, de nijinski, de ícaro, de barro, de seta, de voejos e de volutas, de anjos querubins de touros assírios de custódia de calcanhares de mercúrio de papel crepom de anjinhos meninas de procissões de avião de queda.
O fantasma é a Musa.
Mas os guizos pendentes de seus dedos dizem que ele é o clown. Ele é o Mito, o Enigma, a Linguagem. Seu corpo de feno e de melodia é o corpo amado dos quatro elementos, o motor e a paz - o sonho, a poesia a beleza o despertar a sede o que palpitante existe em nós a vida.
E ele se foi.
Deixou o seu legado, a Décima-sexta Parte. Estranho, triste e simbólico legado: deixou-nos as asas (de belzebu, de pés de bailarina, panos leves, gazes, gestos dos braços, fadas bruxas borboletas garças abelhas plumas arcanjos pássaros selvagens em bando asas de águia e asas quietas pousadas em silêncio).
O poema termina, a penúltima parte chama-se doutrina, a doutrina de ser caminhante, marinheiro, errante, sem cessar, sem ver o sol (apenas o luar / e a luz indecisa das estrelas), peregrino sempre, ave sem poder voar, clown de ser/não ser shakespeariano.
O poema termina, sim, é a despedida, a última parte:
e o velho clown partiu beijando ainda
o brinquedo que a criança abandonara
no velho palco parque ou tempo sem memória
ROGEL SAMUEL é Doutor em Letras e Prof. Aposentado da Pós-graduação da Faculdade de Letras da UFRJ. Autor de vários artigos e livros, dentre os quais o Novo manual de teoria literária. Petrópolis, Vozes, 4a edição.
POESIA
REUNIDA
Sumário
1. Aparição do clown
2. Poemeu
3. PEQUENA ANTOLOGIA MADRUGADA
4. OUTRAS FONTES
APARIÇÃO DO CLOWN
Nota do organizador:
Aparição do clown foi impresso e tido como lançado em 1958. Seu lançamento, entretanto, ocorreu no dia 31 de janeiro de 1959, consoante o registro de O Jornal, Manaus, mesma data. Veja ainda a entrevista de L. Ruas ao mesmo jornal em 10 de fevereiro de 1959.
INTERPRETAÇÃO DO CLOWN
O milagre do destino das palavras está no mistério de seu sentido expressivo. E no aparente obscuro dessa mística da expressão, estão a claridade dos símbolos criados e a beleza da matéria expressiva que o pensamento cria. E tudo é símbolo na vida. Quanto maior for a intimidade das forças em conflito, no homem e na humanidade, mais profundo será o mistério de cada um de nós, mais trágico será o drama da humanidade e, portanto, mais simbólica e mais mística será sua representação.
O drama espiritual de cada um de nós, com suas sombras, com suas luzes, traz a marca da queda do homem, como realidade positiva de nossa miséria, de nossa vanidade. Os conflitos, as lutas, os desesperos humanos, a ânsia pela existência, todas as forças angélicas ou demoníacas, têm intimidade nos mistérios dos nossos destinos.
A poesia, o poético, a razão, o sentimento artístico, a filosofia, a religião têm sempre um todo de revolucionário, porque saem das profundezas do ser, trazem a nostalgia do espiritual, o mistério das coisas, o sentimento do universo de Klopstock, de Herder, de Novalis, de Shubert, de Schelling, de Kant, de Fichte.
O drama de cada alma, no presente, reside na nostalgia do infinito, naquele fogo e naquele devorar eterno do Prometeu agrilhoado na escarpa da Montanha, que é a carne que escraviza o espírito.
O homem é rico de beleza e de bondade, mas é capaz de fazer o mal e se tornar um monstro. É brancura e beleza de lírio, mas tem as raízes mergulhadas na lama e na negrura da terra.
É possível até que cada homem, que todos os homens possam cantar uma aventura poética com as suas grandezas e sua miséria; realizar aquelas coisas que fazem de cada um de nós, rei ou vassalo, sábio ou ignorante. Entretanto, quando o homem é bom ou grande, ele canta, ele poetisa.
Quando os tempos estavam plenos, a Mulher cantou o Magnificat: o velho Simeão exultou na exuberância mística de sua senectude milagrosa. É nessas duas expressões mais altas da alegria humana que se levantam para o infinito, − como o pássaro que distende as asas para o azul dos céus, − em dor, em sofrimento, entre lágrimas, que o homem canta.
Os poetas são, em geral, a soma de três relações abstratas: a estética, a mística e a simbólica. Um Baudelaire, um Ruysbroeck, um Swedenborg, um São João da Cruz são somas de si mesmos, nessas três funções abstratas da existência humana, existência cheia de misérias, de incompreensões, de angústias e desilusões. A estética, a mística e a simbólica são forças axiomáticas desse mundo irracional e anti-póetico que é o extraordinário, o sublime, o radioso mundo dos artistas, dos místicos e dos poetas.
A Aparição do clown do padre Luiz Ruas é um poema místico, filosófico, cujos símbolos se multiplicam em cada verso, em cada trecho do poema admirável, rico em idéias e em palavras.
O sempiterno clown aparece ao luar, num céu e chão azuis. Uma boneca. Riso e pranto, porque “o destino dos palhaços é fundir à luz da lua, o alegre riso e o triste pranto.” O palhaço é aqui um mistério na poética do padre Luiz Ruas, quando Ruas interroga: onde está tua face palhaço? no riso, no pranto, na dor. A luz da ribalta, a música, os guizos, o trapézio são faces da velha máscara. O que o padre Luiz Ruas procura é a face verdadeira, a que não se parte, desse palhaço eterno que é o homem em si, artista, poeta, músico ou dançarino.
O poema é um alto símbolo do poético. E como o poético é sempre humano e meio divino, a gente sente que o palhaço, − encarnando a humanidade, − canta, beija, tem silêncios, chora e baila. Quer palmas e tem pedras. Quer sedas e tem farrapos. Esmola e dá banquetes platônicos ou plotinianos. Recebe flores e rosas e ama a indiferença e a vaia. Pede vinho e tem sangue. Tem a água cristalina dos rios da compreensão, e se retrata na lama das sarjetas.
Mas como há sempre em todas as vidas uma estrela no céu de um de nós, uma luz interior brilha no profundo de todos os homens, que é a luz do poético estereotipada no clown do poema, clown que é homem e humanidade, cheia de guizos e chocalhos, de beleza angelical e monstruosidade de sapo; de água e lama; de picadeiro e de palco ou estrada da vida; de verticalidade impecável e gargalhada e cabriola e trejeito e galhofa e pranto, − tristes aspectos de toas as vidas que surgem nas luzes das grandes ilusões ou que morrem na dura verdade de todas as contingências.
Nisso tudo se vê e se sente uma grande filosofia, uma mensagem que o poema traz aos homens e à humanidade. Essa mensagem poderia ser trazida em forma de um Evangelho, ou de um grande poema homérico, ou de um sistema filosófico profundamente místico e metafísico, ou de uma tragédia shakespeareana, ou de um drama goetheano ou de uma comédia molièreana, ou de uma sinfonia beethoveneana, mas o seu autor, modestamente, “descobre o clown”, dá um “aviso”, conta o “romance”, relata o “martírio” e desfaz tudo no mistério de um “canto”, numa “viagem de estrela”: num “apóstrofe”.
E depois, como tudo que é místico, lendário, cheio de beleza infantil das histórias de crianças, das lendas antigas, dos que escrevem maravilhosamente coisas inocentes, leves e profundas, dedicadas e ingênuas, − surge no poema a história de “dragão e a flor”, a “promessa”, o “nascimento do baile”, o “retorno”, e finalmente a “herança” que é a angústia, o conflito daquilo que ele chama o “destino das Raízes”, algo de nossas misérias, de nossas contingências humanas de pobres e tristes clowns, que trazem para a vida (de certo) uma mensagem dolorosa, que não vale a gargalhada de um palhaço ou de um brinquedo abandonado de criança, nesse velho e imenso palco, − “parque ou tempo sem memória”.
O poema do padre Luiz Ruas tem idéia. É criação pura, jogando com poesia pura, dentro do mais puro conceito de poética. E é no ideal dessa pura poética, que ele criou o mundo e o universo de seus símbolos admiráveis.
* * *
Um pássaro ferido, vagueando na madrugada; a essência intocada da estrela de cinco pontas, − são a esquematização da ânsia de liberdade divina, porque o “pássaro é essencialmente livre” e a estrela, no infinito, é o símbolo da intocabilidade divina, do amor, da liberdade, da música, da harmonia, da paz.
Mas a estrela do poema é raptada pelo pássaro. Essa parte do poema é de transcendente espectação. Porque além do pássaro surge um PEIXE que tenta comer a estrela. Não serão o pássaro a ânsia do homem para o infinito e a estrela o próprio infinito e o peixe o grande IDEAL CRISTÃO, no qual encontramos a essência do próprio infinito que é o seio de Deus?
Não haverá por aqui influência da mística de São Agostinho e de São João da Cruz?
Mas o pássaro comeu a estrela e a estrela o pássaro gerou. Não será isso uma afirmação catequética de que o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus e que o próprio homem concebeu a idéia de Deus? Lá estão, no poema, a serpente, a maçã, a figueira e o lírio. Todos esses símbolos são altas expressões da grande vida mística do cristianismo.
A parte do poema que trata do martírio do Prometeu no deserto e na montanha, é um convite ao banquete, qualquer que seja a interpretação que se faça do poema, −porque às vezes os olhos não vêem e os ouvidos não ouvem. As asas sangram, os trigais estão maduros e é preciso acender a lanterna interior, até que o pássaro volte das buscas audaciosas, das prescrutações cientificas ou de filosofias audaciosas.
E a estrela silenciosa canta a canção até que o filho pródigo volte.
Mas, no cais as embarcações estavam todas amarradas, e a estrela, que é o poético no homem, desamarrou as barcaças e passou para o outro lado de si mesma, do ideal, do poético, da vida própria. E viu Caronte, Orfeu, Eurídice, mares ignotos, e essa coisa tremenda que são “as almas insepultas” num mundo como o nosso, isto é, almas ricas de sua liberdade de querer SER, de querer realizar-se.
O pássaro, a estrela, as rosas, a criança que canta, o “apostrofe”, o dragão, a flor, o mar, os velhos temas do humano eterno, no vibrar eterno da poética universal, cantam em todas as musicas e no coro de todos os palhaços:
Vigiai, vigiai!
Preparai a veste
Acendei o círio
Ressuscitai as rosas
E aguardai no amor
Que o pássaro virá.
Se o pássaro não vier, será a noite sem estrelas
Mas... escuta... que vozes são estas?
De onde vêm, para onde vão?
Olha! as flores ressuscitam!
Olha! as estrelas se acendem!
Recomeçou o baile. olha o mar!
Olha o mar! olha a estrela de basalto e ouro
Olha! não vês, ó triste cego!
Olha o deserto reflorindo e as amendoeiras
Do Japão e as borboletas.
Olha o exército pronto para a guerra!
Olha os coros dos Arcanjos e dos Serafins!
Olha a brisa dançando na folhagem!
É na brisa que o pássaro virá!
Virá com a língua de fogo
E os cornos septiformes! Olha as luzes!
Vê as cores, ouve os sons! tudo recomeça
A vibrar e a dançar. É o tempo.
Olha a estrela de ouro e de basalto.
O pássaro virá...
Que extraordinária simbologia da ânsia humana, da angústia humana. O homem procurando no subterrâneo de seu substrato os guizos de suas loucuras, as rosas de suas ilusões, o barro de seu corpo frágil e miserável.
É o “retorno” para nós mesmos. A volta para dentro de cada um de nós e, desse rumo interior, a grande partida na iniciação do reencontro com o Cristo Eterno.
A expiação, a transformação, o “maestoso” dessa orquestra infinita que pode ser o ilógico, o hiperlógico, o paralógico dessa loucura que é aceitar o Cristo, neste mundo tremendamente anticristão.
Aí é que todos somos clowns, sombras, loucos que o mundo não tolera, deixando partir de dentro de cada um de nós, os pássaros cansados da razão, em busca das estrelas, dos sonhos que se apagaram e que não se acenderão nunca mais, sem que sejamos novos João da Cruz, em quem o poético se realizou como o ser se realiza no próprio Ser.
Tenho para mim que esse poema canta a excelsa angústia humana, representada na figura exótica do clown, que sendo homem é ser exótico e sui generis. É por isso que sentimos, em todo esse poema, os mistérios das asas, o profundo das quilhas, o ignoto das velas, o triste ridículo do palhaço, a incerteza da volta no vôo ao infinito, a estrutura geométrica da dança a loucura de Nijinski, a vibratilidade da seta disparada em busca de um ideal humano, em todos os homens. Os gritos, os ruídos, os ruflares, os gestos, as imprecações, as ânsias, as lágrimas, os soluços, as maldições, as orações, as luzes, as cores, os pássaros, as rosas, − tudo grita essa ânsia, essa angústia humana de que está impregnado o poema do padre Luiz Ruas.
E por ser algo de notável esse poema, − seu autor foge de si mesmo, perde sua personalidade, para falar de um mistério universal, de tudo aquilo que está no homem, dentro de certos aspectos metafísicos da existência humana.
Falando desse mundo que é o poético, no universo, o padre Luiz Ruas publica algo de profundo, de excelso, de magnífico. Que o entendam os que mergulharem no profundo de sua dialética; que tenham ouvidos aqueles para quem o poema é dirigido; que vejam os olhos d´alma daqueles que devem ver os símbolos e os mistérios que estão contidos nos versos áureos do imortal poeta de APARIÇÃO DO CLOWN.
Manaus, 16-8-958
André Araújo
da Academia Amazonense de Letras
desejo que este poema seja
um ato de adoração ao Cristo quando Herodes o chamar de louco
um gesto de amor a minha mãe, meu pai e às mães de todos os poetas
um laço de amizade mais forte entre mim, o Pedro, o Orígenes e a Luiza
um agradecimento sincero e fraterno ao Óscar e ao Clube da Madrugada.
L. Ruas
descoberta
foi no tempo do luar pois não existe sol
no velho parque − tempo não maduro –
que encontrei o sempiterno clown.
queria ver-lhe a face. e sua face
era imenso lago azul parado
onde a lua se repetia. lua.
queria ver seu corpo – um chafariz
era seu corpo de barro modelado
aljofrando de estrelas e de pérolas
o céu e o chão banhados em azul.
apenas vi o velho clown beijando
uma boneca. e beijando-a chorava.
e ria ao mesmo tempo que
o destino dos palhaços é fundir
à luz da lua o alegre riso e o triste pranto.
e vendo ser inútil o meu esforço
de descobrir integralmente o clown
eu suplicante lhe falei assim
discurso
faz mistério palhaço
e ri teu riso esbandalhado.
gargalha palhaço e faz sofrer
os que contigo riem e sofrem
e vivem.
canta a tua ideologia tirânica
ó clown sentenciado
para fazer chorar os que riem.
ninguém entende tua vida mascarado
que se esconde atrás da cortina
das pinturas e das vestes.
onde está tua face palhaço onde?
além do além do horizonte
nas nuvens ou atrás da máscara?
onde está teu riso palhaço onde?
no pranto que improvisas
ou na dor que não gargalhas?
palhaço.
interrogação verde no cenário de carmim.
palhaço. olha o palhaço.
havia inocência e terror pureza e crime
em teus olhos abertos para o mundo.
luzes.
as luzes da ribalta não revelam
o que não dizem também
nem as cores nem os saltos nem as cambalhotas
que fazes no trapézio longínquo.
palhaço. quem já viu tua face
tua única face?
aquela que não é partida
aquela que não é pintada?
quem já beijou tua boca verdadeira?
as bailarinas beijam a boca mentirosa
a que canta a que ri a que chora
mas ninguém beijará o teu silêncio.
e tuas mãos palhaço e tuas mãos rosa
tuas mãos disfarce que nos enganam e alegram.
a bailarina lhe disse chorando – eu te amo.
ele riu. palmas. a cortina cerrou-se.
e se vestiu de nobre e deu esmola
para encobrir com seda e ouro o adultério.
palhaço. ri teu riso e oferece-nos teu almoço.
dá-nos o ridículo banquete onde comemos
rosas e suspiros e sorrisos.
e deixa-nos sonhar depois e depois chorar
tudo aquilo que não nos revelaste
a flor ainda em botão
não desabrochada não vituperada.
ninguém te vaia palhaço
todos riem somente da face mentirosa
da escandalosa face que nos ofereces
dizendo que é vinho.
todos beberiam porém teu sangue
seiva das árvores água dos rios lama das sarjetas
e comeriam tua carne que não ofereces.
carne de elefante néctar de bonina alma de passarinho.
a estrela pousou – sombra de sonho – em seu ombro
– venho do céu. vi o mundo nascer. sou como tu
eterna.
sou a mais antiga das estrelas de todas as estrelas.
dou-te todo o meu brilho se disseres
porque ris tanto se és tão triste assim.
– ora. vamos dançar.
e saiu para o palco dançando e cantando.
ninguém viu a lágrima que lhe molhou os olhos
ocultos.
palhaço.
flor-de-lis onde bimbalham chocalhos.
inocência e maldade água e sangue
azul e preto
lama e sapo.
ri palhaço que ansiamos por te ver no picadeiro
árvore estranha esquisita flor
não sabemos de que país ou de que planeta.
de onde vens palhaço? quê nos queres dizer?
fala que te espiamos cientista da vida.
tu gargalhas no palco o que choramos na vida.
embora te odiemos te amamos
pois te pareces com o menino que somos
e com o inferno que não deixamos de ser.
poeta de risos e de cabriolas
diametralmente opostas
teus trejeitos são a mais perfeita rima
que já encontrei para os poemas
que não escreverei.
somos crianças palhaço diante de ti
sou criança que não aprendi ainda
o que é o belo e o feio
o pranto e a galhofa.
o que é ser e o que é não ser.
pois tu és homem palhaço tu és homem.
clown desengraçado
bicho fantasiado de deus
em quem não assentam
nem
rabo de macaco
nem
auréola de arcanjo.
tu és verdadeiramente homem
pois tu somente revelas o segredo
honra e vergonha
que todos ocultamos.
palhaços dos anjos e dos homens
mito de farsa e de verdade
palco e vida
gargalhada e pranto
seres partidos
dois olhos
duas pernas
duas mãos
paralíticos
cegos e loucos.
apagaram-se as luzes?
ou as rosas morreram?
resposta
apenas vemos sombras
sem conhecermos a luz.
percebemos a chaga
não tocamos a alma.
brasa em negro fogo consumida
semente bipartida.
julgas possuir toda ciência
se sabes rir apenas
quando é preciso rir
é mister no entanto descobrir
que também no muito riso há pranto.
a máscara sustem dois olhos
um é cego porém. de fato
só um olho vê. por isso
conheces silhuetas
e não a dimensão total
aquela dimensão que
por ser transdimensional
entre todas
é mais constante e mais real.
a caverna de platão.
que sabes das rosas renascidas?
Das estrelas em luz desfalecidas?
da liberdade e do amor?
ser livre em essência é ser cativo.
aviso
quando vires o pássaro ferido
vagando antes que surja a madrugada
não o tanjas nem o chames
deixa-o voar. não te apiades
deixa o pássaro voar.
ele comeu a estrela
e conserva no desenho do seu vôo
as dimensões incontidas
dos humildes gestos perdidos para sempre.
não chames o pássaro ferido.
não te ouvirá pois não sabes os seus nomes.
e ninguém há de estancar o vôo
que jorra eternamente
de suas vísceras fecundadas
pela essência intocada da estrela
sua prisioneira e amor.
uma estrela de fogo e de basalto.
de basalto e fogo, não esqueças.
e o pássaro mais ferido pela luz
do que pelas cinco pontas da estrela
sempre voará.
deixa o pássaro voar. quando ouvires
o tatalar – apenas ritmo – cansado
mas não vencido
de suas penas molhadas de arrebol
deixa o pássaro voar. não tentes
prendê-lo. a ilusão é mais mortífera
do que a desesperança.
o pássaro é essencialmente livre
muito embora suas penas estejam prenhes
de luz e sangue misturados.
se vires por acaso o pássaro voando
não o chames para o teu silêncio
pois o pássaro é muito bom – é bom demais –
para que tu sombra e demência
o possas possuir.
nem te deixes seduzir pelo seu canto
que o canto das sereias de ulisses
diante do cantar do pássaro ferido
é apenas ritmo – apenas esboçado.
mas não odeies o pássaro
ama-o de longe. pois é forte
apenas um amor de morte.
puccini ouviu o pássaro cantar.
e eu também eu palhaço o ouvi.
ouvi sua lenda e seu martírio
a tortura da estrela e saí
no ontem no hoje e no amanhã
a procurá-lo.
fruto do bem e do mal.
romance
a estrela de fogo e de basalto tem cinco
chifres e se parece com a rosa.
de sangue.
aberta ferida gotejante
no peito espalmado e branco deste pássaro em vôo.
de ouro e de basalto.
de basalto da etiópia e de neve da antártida.
quando o pássaro raptou a estrela
ela estava sendo devorada por um peixe.
que adianta mais? ser comida por um peixe
ou amada por um pássaro. ser ou não ser comido.
esta é a questão. hamlet tinha razão.
para além para muito além de todo sonho
o pássaro levou a estrela devorada
e mais alto do que as águias o pássaro voou.
mas quando o pássaro quis partir
para a aventura sem rota
por mares nunca antes navegados
por espaços nunca antes habitados
para plantar no barro e na luz
um reino instável e efêmero
onde imperaram
o gênio, a arte, a poesia e a flor
foi então que nasceu o mais profundo humor –
– o pássaro devorou a estrela
e a estrela o pássaro gerou. o palhaço dos homens.
martírio
a serpente a maçã a figueira e o lírio
todos cantaram pela voz do pássaro
nascido prometeu.
não prometeu acorrentado um dia
no deserto e na montanha.
prometeu não morre é apenas devorado.
continuamente devorado prometeu continuamente vivo.
comem-lhe o sexo e a alma
a carne e o sangue e prometeu não morre
prometeu acorrentado um dia
do amor na eterna penedia.
o amor nos prende e nos tortura. mas não mata.
o pássaro ferido tem sete bicos
sete línguas de fogo sete olhos sete chagas.
tem olhos e não vê. ouvidos e não ouve. está ferido.
suas asas sangrando sempre banham o mundo inteiro.
às vezes é de mansinho que eles chegam
os sete amores filhos do amor.
ágape feriu eros letalmente. terminou a comédia.
júpiter destronado. mas beethoven está cantando.
ou é o pássaro ferido?
os trigais estão maduros para a ceifa.
que importa a primavera?
mefistófeles zombou do doutor fausto
e o venceu. mistério e luz.
ouve o pranto da estrela solitária
que se desfaz em canto.
canção
se eu chorasse
estas sombras
e estes símbolos
morreriam
os diamantes quebrariam
as arestas
e os vulcões se extinguiriam
se eu chorasse
dormiria logo
e cedo sonharia
o lago dos cisnes
se eu chorasse
o cavalo branco
que cavalga morto
comeria as rosas
e a rosa de barro
murcharia no jarro
em ângulos obtusos
não digais ao mar
a dor das pedras frias
não digais à mariposa
a tortura da luz
o meu amado é
um pássaro ferido
não choro sua dor
nem curo seu amor
a maçã é muito branca
o peixe é muito branco
o lírio é muito branco
não é branco o amor
eu cantei uma canção
baixinho ao meu amado
– “não chores pequenino
não chores que eu te amo” –
eu andei por longas ruas
e por cidades perdidas
em busca do meu amor
procurava uma rosa
so encontrei dissabor
perguntei aos que passavam
onde andava meu amor
mas todos olhavam atentos
para as mãos de um senhor
que fazia jogos engraçados
e ninguém me respondeu
onde estava meu amor
eu andei por teus caminhos
em busca do meu amor
os palhaços tristemente
despetalavam uma flor.
viagem
foi então que cheguei ao cais
e as barcaças estavam todas
amarradas ancoradas.
caronte me disse amargamente
– “não voltarão mais nem dante nem virgílio.
nem será dado a orfeu
ir salvar eurídice
a passagem está vedada
e as barcaças ancoradas
não mais navegarão por mares ignotos” –
quando olhei para o mar vi na praia
os escombros da batalha.
pontas de lança arcos flechas
corpos destroçados almas insepultas.
uma criança brincava com as conchas
e com a caveira de um herói
– se não me engano era de aquiles –
seus olhos eram de fogo
e suas mãos de lírio.
a criança então me disse – “depois
que a serpente me feriu no calcanhar
nunca mais fui ao deserto nem
ao mar.
as águas não me sustentam mais
e somente caminho na praia
pois temo naufragar.
espero o pássaro ferido
e se quiseres esperar comigo
senta-te na praia e não vás ao mar.
o mar é muito vasto e fera enraivecida.
já engoliu noivos e pescadores
e seduziu o pássaro ferido.
não te lembras do mar de suas pompas
e de seus sedutores artifícios?
de seus cantos falazes e dos apelos sedutores
com os quais arrasta para o abismo
do seu próprio nada os navegantes
inexperientes e desprevenidos?
não procures no mar no buliço das vagas
a sombra do teu amor.
eu mandei prender as barcas
e aguardo o pássaro ferido.
canta uma canção ao teu amor.”
como cantarei cantos de amor
nesta solidão?
os cantos nascem apenas da união
do brilho da estrela com o ritmo do vôo.
como hei de cantar canções de amor
se ainda estou peregrinando
por essas praias de vidro?
a criança então cantou assim –
apóstrofe
em vão hás de voar pássaro triste
buscando o fruto verde não sepulto
nas praias naufragadas onde existe
a concha nacarada – peixe inculto
além de tuas patas espalmadas
o mar é brisa calma e mata bruta
as asas que se abrem limitadas
mergulham sem tocar na doce fruta
em curvas linhas retas canto e arte
te vejo entre o céu e o barro forte
comendo espaço e tempo sul e norte
buscando em vão o fruto que te farte.
quem sabe? pode ser que noutros mares
sacies teu desejo. é bom tentares.
o dragão e a flor
vi que a criança fabricava
uma espada que cortava suas mãos.
perguntei-lhe – por que fazes esta espada?
respondeu-me – é para matar o cordeiro
que será servido no banquete
do encontro da estrela com o pássaro.
o mar tranqüilo e frio como o desamor
a praia de vidro. caronte preso.
cupido sem flechas na aljava
a antiga simetria de vênus lamentava
que a beleza da estrela avantajava.
então compreendi porque a esperar
estava a criança tão sozinha
o regresso do pássaro ferido.
neste momento entre fumo e fogo de inferno
surgiu do mar profundo um dragão.
o mar como gigante enfurecido
uivava em contorções
espadanando seus peixes e todas suas pérolas
que vinham espatifar-se loucamente
na polida face da praia de cristal.
ó desencanto das palavras que não chegam.
uivava o mar qual leão acorrentado
sob o peso imponderável do amor
do dragão que perseguia a flor.
a flor tinha redolências de mulher
e era pura como um anjo.
oh. as flores que aninhei em minhas mãos
trêmulas como úteros maternos.
oh. as flores perdidas para sempre
nos longínquos perfumes ressequidos.
“– não mais verás o encanto fenecido
do dia e da noite
não mais terás ó lírio amortecido
as brisas leves do teu vale.
não mais.
não mais que vênus está extinta
e a estrela rediviva”.
assim cantou o dragão enraivecido
então a criança correu para meus braços
gritando – “não deixes o dragão me seduzir”.
“– que posso fazer criança que não sou
poderei salvar por acaso o eterno jogo
se habitas a praia sem dimensões
sem sol e sem luar?
por que me buscas se possues espada
e mãos de sonho e olhos de rubi?
sou apenas sopro vento vaidade nada
pó perfume cor sonoridade luz.
que mistério é este que sugeres
tentando penetrar nestas entranhas
fecundadas pelo canto do pássaro ferido?
então o mar partiu-se lado a lado
como um véu por invisíveis mãos rasgado
e engoliu o dragão.
prelúdio
quatro cavalos passaram galopando
em asas de águias sustentados
relinchando como se fossem trombetas sua voz
ou ribombar de trovões enlouquecidos.
olhei. estava só na praia. o mar quieto.
uma brisa dançava sobre as ondas
o prelúdio que chopin tocava soluçando.
depois vieram ninfas volitando
ao som de músicas ligeiras.
sumiram-se depois nas gotas do orvalho.
oh. a crosta espessa das palavras
que mal revelam o fulcro luminoso
da consistência do mistério vislumbrado.
quem está cantando perguntei são as rosas?
rosas?
quem está cantando é o coro dos palhaços.
coral
vigiai vigiai.
preparai a veste
acendei o círio
acendei a ribalta
ressuscitai as rosas
e aguardai no amor
que o pássaro virá.
nênia
mas se o pássaro não vier como será?
os trigais deixarão cair – inútil esmola –
os grãos de ouro no chão incandescido.
as flores murcharão – flores de pedra –
pontiagudas como espinhos secos.
as fontes coalharão suas águas
e teu sorriso morrerá qual fruto podre.
se o pássaro não vier
será a noite sem estrelas
e o sol não bordará mais de ouro e púrpura
as régias fímbrias do manto da aurora.
tuas mãos inutilmente chamarão os pirilampos
para os bailes feéricos no seio da floresta
se o pássaro não vier
a musica silenciará
na última corda partida
de paganini.
o basilisco e as víboras dominarão os caminhos
e ficará deserto e frio o último dos ninhos.
não mais
não mais terás o meu carinho
pois teu rosto de mármore será
estulto como estátua de museu.
se o pássaro não vier
inutilmente serás.
serás o quê? ser o quê se o pássaro não vem?
ser o quê se não há mais flor?
ser o quê se não há mais ninho?
ressurreição do baile
mas
escuta
que vozes serão essas?
de onde vêm? para onde vão?
olha.
as flores ressuscitam.
olha.
as estrelas se acendem.
olha o mar. olha a estrela de basalto e ouro
olha.
não vês ó triste cego o deserto reflorido
e as amendoeiras do japão e as borboletas?
olha o exército pronto para a guerra.
olha os coros dos serafins e dos arcanjos.
olha os noivos enfeitados para as bodas.
olha a brisa dançando na folhagem.
é na brisa que o pássaro virá.
virá com as línguas de fogo
e os cornos septiformes. olha as luzes.
vê as cores. ouve os sons.
tudo recomeça a vibrar e a dançar.
é o tempo.
olha a estrela de ouro e de basalto.
o pássaro ferido está chegando.
retorno
ele voltou dançando o mesmo balé antigo.
“– quem és tu esquisito ser luxuriante?
e estes guizos pendentes de teus dedos
e estas chamas febris em teu olhar de ave?
quem és tu? perguntei – “e o fantasma
não me olhou sequer. subia e descia
em ritmo veloz e às vezes calmamente.
“– quem és tu? –“ perguntei impaciente
que o medo o pavor o riso a loucura
já de mim se apossavam. e o demente
anjo respondeu-me indiferentemente
“– de onde venho não sei nem mesmo sei
se algum dia nasci ou se apenas sempre nasço.
quem sou? rosa anjo fagulha do inferno
semideus apenas gesto luz ou noite?
por que perguntas isso? por que queres saber
quem sou se eu mesmo não o sei? repara.
quando aqui chegaste a noite era nova
e já a estrela da manhã desfolha
uma a uma humildemente suas pétalas de luz.
não te direi quem sou. dorme e sonha.
acorda viaja estuda raciocina dorme.
não és homem por acaso não possues
uma centelha divina ardendo viva
dentro do teu mais misterioso mar?
não direi meu nome a homem algum porém
podes muito bem descobri-lo. sabes que a lua
é um satélite da terra. que o sol é uma estrela.
que tudo é relativo e três as dimensões do espaço.
que os corpos se compõem de átomos e moléculas.
conheces a inflexível lei da gravidade
que arrasta para o chão o barro do teu corpo.
descobriste no âmago das coisas íons e elétrons
o positivo e o negativo
forças que se atraem e se repelem.
conheces as rotas dos planetas e o caminho
das marítimas correntes dos ventos e das aves
e não sabes ainda balbuciar meu nome verdadeiro.
e eu não direi. espia bem esta paisagem.
lê de novo o poema. desce. vai ao fundo.
sobe depois. evola-te. transforma-te
depois em fumaça e em luz. não te afadigues.
o ritmo do meu nome é longo. majestoso.
quando souberes quantas rosas floriram
na paisagem perdida e de novo descobrires
o sonho inquieto e a aurora pranteada
alegra-te então. pois caminhas certo
rumo ao mistério inexprimível do meu nome.
agora olha bem para dentro de meus olhos.
que são eles? abismos caricias ou perdição?
fogo água tranqüilidade ou medo?
e meus pés? vês? são pés de fauno grego
ou de arcanjo bizantino? não sabes?
não sabes decifrar o indevassável enigma
dos meus pés sempre velados?
não sabes entender a linguagem dos meus olhos?
sou demente sim. sou ilógico. hiperlógico. paralógico.
sou problema e sombra. queres saber meu nome?
queres me amar talvez ou odiar talvez.
sou vida esperdiçada ou morte indesejável.
e meu corpo se corpo chamar se pode
a esta mistura de feno e melodia
é tão instável como a dança histérica das chamas.
sou ar fogo umidade terra e água.
os quatro elementos? ah. os infinitos elementos.
sou móvel motor força motriz mobilidade extrema
e ao mesmo tempo sou suprema paz e quietude.
olha a lagoa onde revoam pássaros cansados.
olha as canaranas frágeis baloiçando
e os aguapés dormindo brancamente.
olha as águas das lagoas diluídas
os cetáceos as serpes os palmípedes
e as ondas profundas que despertam
e uma a uma vão morrer nas margens.
e perguntas meu nome. sabê-lo não desejes.
à noite venho ver-te e te acalento
no sono solitário e tão estrangulado.
fabrico sonhos e ao meu rude comando
as estrelas despenham-se e os planetas giram
na luminosidade sempre nova das noites consteladas.
não percebes o uivar dos ventos nas mangueiras
e na bonina que se abre como o ventre
da primeira mãe ainda virgem que já foi?
e meu nome não sabes. fui presente
nas metamorfoses de virgílio e na comédia de dante
iluminei camões e lorde byron
shakespeare foi meu fâmulo. joão da cruz meu senhor.
ensinei davi a dedilhar a lira
o outro joão eu visitei em patmos
e o bateau ivre era meu. dei-o a rimbaud.
sou chama e alma rio e danço
no fogo rubro amarelo azul e verde.
quando olhares o fogo observa bem
que lá estou como também estou
na palidez da lua sempre fria
e dentro de ti mesmo a conduzir
tua mão quando escreves os poemas
e sentes a tortura de dizer belezas.
pareço mau às vezes quando prendo a pena
e estrangulo a luz justamente no momento
em que começa a palpitar dentro de ti.
mas se o faço é para despertar em ti
a sede onímoda de conseguir o mais.
agora vê. me vou. deixo-te agora.
vou como vim. apaga a luz
fecha os olhos e me verás no sonho
o mesmo balé inicial dançando.
foi assim que partiu o tresloucado
pois como os amantes é hostil
à luz do sol. é sombra seu império.
não trevas. mas a luz azul
que não é dia não é noite.
é luar.
legado
asas somente isso. angústia
de fugir ao destino das raízes.
túrgidas velas singrando aberto espaço.
velas do destino de colombo
partindo em quilhas quase loucas para
o mistério das virgens descobertas.
asas de ícaro vencidas pelo sol
incauto icaro não sabias que
não é dado a palhaços ver o sol?
ah. o vôo de icaro presente
na dança de nijinski.
asas, somente isso. desespero
de ser barro e ao mesmo tempo seta.
asas apenas sugeridas
nas curvas nos voejos nas volutas
nos mantos e nas vestes do barroco.
asas de anjos de querubins de touros
assírios. asas custódias da arca da aliança.
asas nos calcanhares de mercúrio.
asas romanas. gregas. bizantinas asas.
asas egípcias. asas de papel crepon
dos anjinhos meninas das procissões.
asas até sim asas de avião.
asas do padre bartolomeu de gusmão.
asas em queda.
pois até para cair é mister possuí-las.
belzebu tem asas. sim. belzebu tem asas.
no céu e no inferno ruído de asas tatalando.
asas nos pés da bailarina tola do café noturno.
antigo sonho. desejo antigo. eterna tentação.
asas. panos soltos ao vento. gazes leves.
e os braços que se erguem as mãos que gesticulam
asas as torres ogivais as fadas e as bruxas.
asas sonoras sibilando esses
verdes azuis amarelas incolores
brilhantes e opacas grandes e pequenas
das borboletas das garças das abelhas
das plumas dos polens do orvalho
asas imponderáveis e asas de granito
dos arcanjos que guardam mausoléus.
asas. geometria rude esboço mal riscado
pelos bandos erradios de pássaros selvagens.
asas no chão. asas no céu.
asas ensaiando vôo. é somente isso
o rebento verdolengo ao romper
a espessa placenta da terra dura e seca.
asas de águia em vôos altaneiros.
asas quietas pousadas em silêncio.
doutrina
sou cativo do pássaro ferido
pois ouvindo sua lenda e seu martírio
por legado recebi este desejo
e da estrela tornei-me companheiro.
ó poeta não queiras pois é morte
e cativeiro conhecer a face do palhaço.
há milênios caminho sem cessar
sem ver o sol. apenas o luar
e a luz indecisa das estrelas
recriam esta máscara e fonte
do riso e da tristeza que oculta
o meu rosto e corpo verdadeiros.
e assim caminharei eternamente
peregrino sempre sempre marinheiro
carregando meu fado torturante
– semente feto messe em promissão –
de ser ave sem poder voar
de ser clown isto é ser e não ser.
mas tu poeta enquanto não puderes
te unir totalmente com o mistério
que te foge das mãos feitas de som
une-te intensamente
às formas aos sons e às cores simples.
modela sem cessar
a chama que te queima a alma e as mãos.
não deixes que se perca uma só
destas fagulhas.
pois uma delas pode ser a luz
que salvará tua face passageira
quando raiar o sempiterno dia.
despedida
e o velho clown partiu beijando ainda
o brinquedo que a criança abandonara
no velho palco parque ou tempo sem memória.
Poemeu
Primeiro Prêmio de Poesia
Governo do Estado do Amazonas
conferido em 1970.
Manaus - Edições Puxirum - 1985
POEMEU
ou
O (MEU) SENTIR DOS OUTROS
PÓRTICO
ESTUDOS BARROCOS EM TOM MENOR
O (MEU) SENTIR DOS OUTROS
SONETOS AUTOBIOGRÁFICOS
“le poéme lui-même n´est ni cadeau
ni provision mais ascensión de toi-même”.
Saint-Exupéry — Citadelle
1. PÓRTICO
DIDÁTICA
Palavra por palavra
compõe-se a arquitetura.
O canto é limpo timbre.
É rosa a rosa. Rosa.
Desnuda geometria
espaço libertado:
no campo indevassado
na página tranqüila
desenho desprovido
de inúteis arabescos
os pontos se projetam
em linhas e figuras
os semitons banidos
só restam sombra e luz.
Palavra é só palavra:
Indício fruto ou véu.
Por fim se ordenam símbolos
em lúdica harmonia.
Fundindo o lucicanto
ou coisadedizer.
POEMEU
Este meu canto–mãe
Não o faço.
Ele me faz...
fazer-me
Este meu canto–amor
Não o desejo.
Dele sou posse...
escravo.
Este meu canto–algoz
Não o arquiteto.
Nele me sou...
morto.
2. ESTUDOS BARROCOS EM TOM MENOR
I
Na inversão do caos plantei-me como rocha.
E das linhas refletidas nos céus fragmentados
roubei um pouco o som, a cor e a dissonância
para ter, novamente, o retângulo nascido
no ventre das correntes marítimas de mares
sugados, carcomidos por barcos e naufrágios.
As rosas palpitavam nas pontas dos triângulos.
E vinham navegando colunas pelos ares
e cubos assimétricos e cones e cornijas.
E as ruas despertavam das portas e das pedras
cansadas de sentirem pesando sobre si
o peso imponderável dos sóis entardescentes.
Cresciam nas janelas o cacto e as tulipas.
E os cães seguiam lerdos ao lado dos arcanjos.
No cais, entre as ruínas, soavam badaladas
que os ratos devoravam, à noite, amedrontados.
Então, quis inventar o mito de mim mesmo
com os restos dos navios batidos pelos mares.
O poema se constrói como a flor e o cogumelo.
De velhos janelões, de arcadas e postigos,
de ruas, cães vadios, palhaços e farândolas
detive a essência.
E faço ressurgir de eterno caos
a rocha permanente coberta de corais
o templo que é morada do coro angelical.
II
Os pássaros cantantes deslizavam
Na superfície calma de teus olhos.
Das ondas sugeridas em teu corpo
Compus o brilho claro e o som profundo
Para vir em sussurros derramá-los
No cântaro deixado em nossas mãos
Como prêmio dos perfumes conquistados
No caminhar constante dos luares.
Quando os pássaros chegaram – frágeis barcas –
As rosas se compunham para a dança
Que os anjos navegantes inventaram
Para o leve despertar destas janelas
Debruçadas sobre o azul do vento mar.
Só depois percebi que esta paisagem
Se gerava das pétalas vermelhas
De antigos girassóis envelhecidos.
III
A face posta no verso
reverte na mesma face
deste ponto quase fosco
ou similar contraponto.
As mulheres e os centauros
imprimem cantos nas cores
das mortas ruas, dos arcos,
em noites de além viver.
Os pés descalços nas pedras
ferem pedras e relâmpagos
ressuscitam fatuamente
nas alamedas oníricas.
O sonho que nunca nasce
em noites de estrelas fulvas
vem depressa navegando
em mãos ou barcos dementes.
E quando a palavra cresce
desmedidamente aqui
no contraponto de Mozart
vejo o milagre do sonho:
posta em verso no acalanto
a palavra é viva face
que em relevo se revela
de dentro do canto fosco.
IV
Teus gestos se plantam no meu corpo
E sinto a estranha náusea dos espaços
Varando estrelas, astros, lado a lado.
Sou apenas desejo
E não te quero círculo
Nem fogo, nem luz.
Quebro o compasso com que te fiz arcanjo
Rompo os cilindros, os cones, as cornijas.
Não te quero espaço nem rija simetria.
Quero-te carne ardente
E noite dolorida
E noite.
Agora sigo só. Comigo o choro
Das medusas, das algas, do hipocampo
Que vinham navegando nos teus cios.
Quero-te noite e amar
O mar que consumiu
A sede de ser teu
Em ti.
V
O campo é rudimentar
Onde sepulto a semente
Do grito dos que partiram
Para o morrer inconforme
E linear.
Não canto. Os deuses fugiram.
Convém esperar que voltem.
As horas morrem cantando
O canto do nunca-amais
Triangular.
Espanto e morte se fundem
Na solidez improvável
Das horas que nunca findam,
Dos sinos que tangem o tempo
Retangular.
Escampo é o tempo que foge
Dos ponteiros do relógio.
Talvez os deuses não voltem:
O retorno é sempre longe
E circular.
3. O (MEU) SENTIR DOS OUTROS
SUBSÍDIOS DE MARINHAS PARA O POETA SEBASTIÃO NORÕES.
O relógio se fixou no mar.
Na praia sou apenas permanência.
E crio na minha estática sonâmbula
Momentos do mar silêncio.
Tudo é muita sugestão.
Estas palavras pescadas
Nestas marinhas andadas
Ao longo do mar sertão.
A praia não me conduz
Esta praia que é agora.
É preciso muito mar
Para poder captar
A hora certa do sou.
As ondas despertam a praia
E jogam na permanência
Restos do mar que o relógio
Há muito guardou fixados:
São búzios, são conchas róseas,
Azuis e brancos de infância,
São longas jornadas findas
Numa qualquer solidão.
Com os restos do mar jogados
Na praia a custo libertos
Por este ponteiro-anzol
É que fabrico no verbo
O meu veleiro de mito
Que me transforma em retorno
Pelo mar de um verde ontem
De onde outrora eu vim flutuo.
É preciso muito sangue
Muita palavra translúcida
E muito só sem mensura
Não pra fazer o veleiro
Mas pra repor tanto verde
Na aquarela tão estática
Da face da praia morta.
PARA A REPRISE DE LUZES DA RIBALTA
Eis que vens, de novo, bom Calvero,
Para as telas, para o mundo,
Para os olhos, para as almas.
E foi preciso que viesses para que recomeçássemos.
Desde o início a infância nos conduz
E ela é o segredo que nos abre
Num doce encontro, sem mentiras,
As portas de todos os segredos
E deste maior que é a vida,
Que é força, que é dom e que é destino.
Como vieste outrora, agora, voltas
E retomas velhos temas, sem cansaço,
Porque tudo é recomeço; nada, findo.
E a própria futilidade de existir
É a substância da volta interminável.
Entre o gesto, a música e a palavra
Permaneces intocável.
És a sombra que ilumina o nosso riso,
És o pranto que faz rir o nosso nada.
Para que somos, lutamos e aprendemos
Senão para chegar à conclusão
De ser a vida inevitável como a morte?
Para que somos, amamos e choramos
E sofremos e há noites e manhãs
Senão para aprendermos a lição
Das flores, dos insetos e das pedras?
Assim edificamos nossas vidas;
Chorávamos, há pouco; e, agora, rimos;
Ontem fomos deuses; hoje, proscritos.
E quantas vezes morreremos? Quantas?
E quantas vezes voltaremos dessas covas
Onde tudo parecia concluído?
E que nos mata, Calvero, senão mesmo
O medo que sofremos de nós mesmos
O medo de sabermos que não somos
Senão o que escondemos e frustramos?
E que nos ressuscita? Quê nos salva?
Senão sabermos que tudo está passando
Mas que ficamos mesmo naufragados
Além do brilho interminável das estrelas?
Este encontro com o nada, o reencontro contigo,
Podre palhaço velho, doce amigo,
Vem nos dizer, de novo e ontem e sempre,
Que poderemos rir até ao fim.
Para quem apelarmos? Para os fortes?
Para aqueles que a nós podem esmagar
Como às pulgas fazemos entre os dedos?
Para quem apelaremos neste instante
Em que tudo se consome em sonho e fuga?
Para aqueles que amamos e nos traem?...
Velho palhaço, antigo companheiro,
Que nos ensinas a vida rudemente
De tal modo rudemente que não cremos
Seja nossa a tua vida... e gargalhamos!
Hoje, como outrora, nós te amamos,
E se funda nosso amor nesta certeza
Do que nos ensinaste: do pranto nasce o riso;
A dor, da gargalhada; o canto, do silêncio;
Do palhaço que morre, a dança inacabada...
TENTATIVA DE FALAR COM JORGE DE LIMA
Jorge,
Imenso irmão na poesia.
A Fé nos transpassa alma e sexo.
Ilhas plantadas na confluência
Das águas despencadas sobre nós
— Glória e maldição —
Das águas que nos sobem sob os pés
E nos sugam para baixo sem piedade
— Jorge, maldição!
Ninguém pode fugir impunemente
Ao divino destino de ser ilha.
A noite é um pesadelo de clamores:
Atabaques rufando nas trevas;
Histeria de gritos rachados;
Iemanjá! Xangô! Orixá!
Mandingas. Terreiros. Batuques.
Catinga de bodum. Aroma enjoado.
Folhagens. Incenso. Alfazema.
Asfixiando. Asfixiando. Asfixiando.
Exu! Oxum! Pai-de-santo!
Catimbó, Jorge, Catimbó!
Os navios negreiros trouxeram
A mandinga, o lundu, banzo e negro
E também misturaram no barro
Este cheiro e este gosto-sexo
Febre.
Meio-dia.
Rede branca.
Modorra, Sinhá.
Mas, primeiro, chegaram veleiros:
Cruz de Cristo vermelha nas velas.
Caravelas do Tejo na História
Das armas e barões: Saudade e Fé
Caravelas de argamassa ancoradas
No imenso canavial: Sobrados.
Nas costas
Pai-de-santo nos cruzou.
No peito
Cruz de Cristo batizou.
Cruz Credo, barão,
Jorge,
Cruz Credo.
Ilhas devassadas lado a lado
Decalcadas em barro e água benta.
Ilhas plantadas no centro
Do tempo e da eternidade.
Jorge,
Convulsamente, atropeladamente, febrilmente,
Sugeriste para os filhos dos barões
E para os netos dos escravos
Novo caminho a seguir.
É preciso gerar palavras novas
Palavras concebidas muito além
Da lógica e da gramática pra sentir
E ouvir
O rito do candomblé
A saudade do Tejo
E a voz do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
É preciso, para gerá-las
Fazer feitiço, pegar santo,
Comer barro dos barrancos
E ser santo taumaturgo
Que nem Santo Antônio, o taumaturgo.
Ninguém pode trair esta angústia
De ser ilha colocada
No encontro dos rios que sobem
Da terra e dos que descem do céu.
Ninguém pode negar que sente
Que está sendo dissolvido.
Mas nem tudo. Só em parte.
Que o barro as águas levam,
Mas fica boiando a luz.
Promissão.
É isso, Jorge, que estamos
Querendo dizer, porém...
Que é isso, Jorge, que é isso?
Que é isso que está chegando
Do Fundo do engenho morto?
Será alma do outro mundo?
É anjo? É febre? É loucura?
Modorra na rede. Delírio.
Jorge!
Cruz Credo!
Feitiço!
POEMA DO MESTRE
Ardente como as línguas de fogo,
Pulsos de Titã, Hercules, gigante,
Alma telúrica de semeador.
Os dedos de suas mãos
— Incultas cerâmicas —
Despejavam caminhos
Sob os pés que brincavam a ciranda.
E eram os instrumentos perfeitos
Para a fecundação de fartas luzes
No ventre das florestas recém-nascidas.
Quando surgiu dentre as flores
Tinha o aspecto de um suave tufão
E seus olhos eram dois faróis acesos
No mar em convulsão.
Carregava em sua carne jovem
A argamassa de onde criaria mundos.
Barro, fogo e água
E as línguas de fogo
Eram o seu sinal, signo e brasão.
De rei, não.
De estatutário, talvez, ou
De indicador de caminhos.
Loucura partir para o mar revolto
Com suas mãos incultas.
Assim mesmo partiu
Levado unicamente pelas correntes
Esverdeadas
Dos sonhos aventureiros
De criar
A expansão multiforme
Dos germes azuis e cor-de-rosa.
O sol e a lua encontravam o dorso curvado
Do semeador
— Barro e fogo
Línguas de fogo
Pulsos de Titã
Mãos de estatutário —
Rasgando o ventre da argila virgem
Com seus dedos
Pesados como o barro
Ativos e lúcidos como o fogo.
Talvez não criasse mundos.
Mas, acendia estrelas
Para as futuras
Noites escuras.
O RELÓGIO
O relógio na parede
É guia do desalento.
Um gato passa na rua.
Cai a noite. Plange o vento.
Na janela fico olhando:
O vento cai carregando
Restos da vida que foi.
Que meu canto não ressoe
Nas paredes deste quarto.
Entre as paredes do quarto
Vou seguindo sem me ser
Das horas vendo o morrer.
De muito ver me secou
Em pedra a voz, e o desejo:
Apenas consinto em ser
A morte que posso ter.
Não faço aquilo que eu quero
Não sou aquele que sou.
Apenas vislumbro a face
Daquele em que em mim sonhou.
Ó sóis tingidos de sangue!
Ó luas feitas de mar!
As águas correm. Decorrem
Meus dias vãos, sem parar.
Em cada minuto findo
Escrevo curtos poemas.
Este quarto me é prisão
E os ponteiros são-me algemas.
Este relógio não para
Mas muitas vezes recua
E traz vestígios de histórias
De algum rosto ou qualquer rua.
Ninguém me chega a saber
Ninguém me chega a sentir.
As horas turvas me escondem
Me ocultam dentro de mim.
Chove muito. Chove sempre.
Não sinto o tempo passar.
Estou seguindo. Não sei
Onde e nem como chegar.
Apenas sou. Sei-me apenas
Estando no tempo essência.
Há muito estou naufragado
Nas torrentes da demência.
A rua é um rio que se esvai
Levando a gente à flor d´água.
No relógio passa o tempo
Mas não passa a nossa mágoa.
G A T O
gato opaco
gato fosco
gato plástico
gato elástico
e domestico
gato feito
sombra e luz
gato sobre os telhados
gato atravessa a rua
gato sobre o sofá
gato irmão da lua
gato da madrugada
gato de aguda garra
gato de pelo fofo
gato que come rato
gato dorme de dia
gato flácida almofada
gato esgares miados
gato come passarinho
gato arranha ferino
mas esconde logo as unhas
gato come o menino
menino não quer dormir
gato preto
olho amarelo
gato egípcio
gato místico
superstição
gato assombro
couro de gato
morto enfim
vira ritmo
de tamborim.
VELHO SENTADO NA CADEIRA DE BALANÇO
Ele parece um cansado cavalo velho.
(A cara é comprida e mansa).
As rugas do rosto, as rugas das mãos
São os imperscrutáveis roteiros de si mesmo
Percorridos, dia-a-dia, em longos sonhos,
Em longos prantos, em longa vida,
Em longos silêncios, em longo navegar,
Em longa solidão de se ser só e ser-si-mesmo.
Seu corpo é frágil como um vaso trincado
De fina e desbotada porcelana
Em antiga cristaleira abandonada.
E nos seus olhos opacos e doridos
Há uma espécie de mansidão cavada:
Cava e muda, retalhada e mártir
Que, à custa de mortes e martírios
Foi, penosamente, ganha e conquistada.
Na cadeira de balanço recostado,
A pendida cabeça cochilando,
Os calados lábios e a agora inútil carne
Que se desprende dos ossos quase à mostra,
É vaso sem perfume, é flor descolorida,
É arca antiga pejada de segredos,
É casca que solta de velho tronco seco,
É vida em conclusão, é morte começada.
Já não é mais. Apenas foi nem há de
Ser que não é ser a morte, mas não-ser.
Foi homem, foi jovem, foi menino.
Foi lutador. Foi fundador. Foi criador.
Foi pai, irmão, esposo e filho amado.
Foi desejo, foi sonho, foi futuro.
Foi músculos, foi nervos, foi carne em floração.
E, hoje, apenas é um resto de alma sentado na cadeira.
O PORTO É O RELÓGIO
O relógio está parado
Doce vestígio encalhado
Não marca o tempo de aqui.
Que o tempo já foi, já fui.
Nesta praia, apenas,
Sou:
Concha morta, azul vazio.
Róseo inútil,
Morto ser.
Mas quando sinto que o mar
— Ó esperança em azul —
Vem despertar esta praia,
Então, fabrico o meu barco
E parto — o porto é o relógio —
E volto pro mar fecundo
Eu, ressurgida criança,
Em palavras verde-azul.
CASAS
Do carro em que vou seguindo
Eu vejo as casas passando.
Pássaros em pouso, apenas,
Ninhos, não.
As portas se escancaram
para dentro — asas cansadas
ou velas recolhidas.
As casas não têm raízes.
Brancas, azuis, amarelas,
sempre são tendas, velas.
Grandes, pequenas, ricas,
Pobres, alegres, tristes,
Do homem são iguais ao coração.
As casas todas estão
bem unidas pelo chão.
As casas moram nas almas,
As almas moram no chão
O homem morre, a casa morre
e vão no mesmo caixão.
HOJE, A TARDE ESTÁ MUITO AZUL
Hoje, a tarde está muito azul.
Não há ódio no olhar dos homens
E os olhos das mulheres são bondade.
Levemente o sol derrama uma camada
De ouro muito velho sobre as águas.
Os motoristas dirigem com cuidado
E os pedestres caminham descuidados.
Não houve nenhum desastre borrando
De vermelho o azul da tarde.
Não houve nenhuma tragédia:
Nenhum marido abandonou a mulher;
Nenhum operário caiu do andaime;
Não houve nenhum incêndio na cidade;
Nenhum anjo se revoltou contra Deus.
Os sexos estão repousados:
Virgem alguma foi, hoje, deflorada;
Não houve incestos nem adultérios;
Não houve casos de inversão sexual;
Não houve nenhum crime passional
Registrado na crônica policial.
Hoje, a tarde está muito azul...
Não houve prisões nem fuzilamentos políticos
Em qualquer parte do mundo.
Não houve jovens partindo para a guerra
Em qualquer parte do mundo.
Não houve seqüestros nem lutas raciais
Em qualquer parte do mundo.
Não foram feitas experiências com bombas nucleares
Em qualquer parte do mundo.
As crianças soltam balões na praça
Sem medo de morrer bombardeadas
E os namorados esperam a noite, em paz.
E, enquanto as crianças brincam na praça,
Em paz,
Passa o enterro alegre de um menino
Levado, por meninos, num caixão azul.
Hoje, a tarde está muito azul...
ORÁCULO
Tenho pena, disse-me o meu Deus,
Daquele que é amado por mim.
Tenho muita pena.
Tenho pena, disse-me o meu Deus,
Porque aquele que eu amar
Jamais
Terá um só momento de paz.
Aquele que eu mais amar
Jamais terá dias tranqüilos
Nem mesmo aos domingos
Ele poderá se divertir.
Por exemplo, não terá
Aquela paz necessária que é preciso ter
Para passar um dia inteiro, de calção,
Num balneário. E se sentir feliz.
E, à noite, não freqüentará boates
Nem dancings, nem night clubs,
Porque já não terá mais em si
A tranqüilidade inócua dos felizes.
Não digo que ele não vá. Isso não.
Ele vai. Mas, não como os outros vão.
Porque o que ele busca nessas coisas
Não é mais felicidade. Nem prazer.
O que ele quer mesmo é me encontrar em tudo isso.
Porque eu o amo de tal modo
Que ele quer me encontrar em toda parte.
Aquele que eu amo, disse-me o meu Deus,
Fica besta que nem poeta e namorado:
Me julga ver em toda parte e em todo mundo.
E não se cansa nunca de me procurar.
Por ele, nunca mais me largaria
Nunca mais estaria longe de mim.
E este desejo de estar perto de mim,
Sempre,
É que o fere e o maltrata.
Um dos que eu mais amei, foi Paulo,
Aquele judeu nascido em Tarso.
Outro que também muito amei foi Francisco.
Aquele nascido em Assis, na Úmbria — Itália.
E vocês bem sabem as tolices que fizeram.
Se a causa de tudo aquilo não fosse meu amor
Eu vos digo que não aprovaria o que fizeram:
Não aprovaria ter Francisco brigado com seu pai
Nem Paulo ter apelado, tolamente, para César.
Isso não são coisas que um homem de bem deva fazer...
Mas, enfim, o culpado fui eu que muito amei.
É por isso, disse-me o meu Deus,
Que eu não amo todos os homens igualmente.
Porque eu não sei amar de outro modo
Só sei amar assim, desmedidamente.
Não sei amar como amam os homens comportados:
Com elegância, com medida, com finesse.
Porque eles são feitos com medida e com limites.
Mas eu sou o sem limites e o sem medidas.
Por isso não amo todos igualmente:
Escolho entre muitos os que podem
Suportar as minhas exigências. Os mais fortes.
Porque depois de algum tempo ficam fracos
E consumidos pelo meu amor que os devora.
Eu sei, disse-me o meu Deus, que muitos gostariam
Que eu os amasse como amei Francisco e Paulo.
Mas eles não sabem muito bem o que desejam.
Eu sei que eles não resistiriam ao muito amor
Porque são limitados e muitos fracos
Por isso não amarei todos igualmente
Porque mesmo os mais fortes quase não resistem.
Ainda hoje acho graça dos doutores, disse Deus,
Que querem explicar as cantigas de João da Cruz
E as visões da minha Teresa d´Avila
Como um simples caso de psicopatologia.
E, depois, disse Deus, eu mesmo quis que houvesse
Entre os homens e, mesmo, em minha Igreja,
Um certo clima de paz e de sossego
Para que as coisas fossem feitas devagar
Como convém que se faça entre os humanos.
Porque só eu sei fazer, com rapidez,
Coisas bem feitas, bem perfeitas.
Mas os homens não sabem e é preciso,
Por isso, dar-lhes tempo e alguma paz.
Mas, aqueles que eu amo perdem a paz
E querem fazer tudo logo e de uma vez.
E não deixam mais ninguém ficar em paz.
Atrapalham mesmo os meus Pontífices
No governo da Igreja se eu não chego
A tempo de impedir que assim o façam.
Porque os meus Pontífices, são meus Pontífices.
E eu os quero assim. Mas, nem sempre
Meus Pontífices são meus amados também.
Tenho muita pena, disse Deus,
Daquele que é amado por mim.
Porque é muito triste ver um homem
Pequeno, limitado, circunscrito,
Querendo satisfazer o meu amor
Ilimitado.
Tenho muita pena, disse Deus,
E, muitas vezes, também choro
Quando, a sós, ele chora,
Me suplica e implora
Para que me afaste dele.
Tenho muita pena, mas, não posso
Fazer nada por ele senão mesmo
Mais amá-lo, mesmo que não queira.
VIGÍLIA
Quando escuto passos no caminho
Sei que não vens...
Mas, te espero.
BRANCA DE NEVE
Você nua
Você linda
Você rezando
Você cantando
Filosofando
Olhos abertos
Olhos fechados
Olhos me olhando
Você dormindo.
Adeus! Adeus
Estrela d´alva
Você morrendo
Branca de Neve,
Você, Inês,
Glaura, Natércia,
Chopin tocando
— Valsa brilhante —
Você dançando.
Nuvem do céu
Você eterna
Você tão bela
Você tão longe
Curvilínea
Retilínea
Curvilínea outra vez.
Você tão longe...
Existe ou não existe?
Você impossível
Enfim, você.
Á MANEIRA DE TAGORE
Olha: as águas do rio estão correndo lentamente.
O rio está correndo tranqüilamente depois da chuva...
Seja sempre assim o nosso amor.
O céu está todo azul e sem manchas depois da chuva.
As nuvens estão lavadas e brancas depois da tempestade...
Seja sempre assim o nosso amor.
No dia do meu aniversário
O garotinho do meu amigo me deu de presente uma caixa vazia.
Guardei-a...
Seja sempre assim o nosso amor.
O jasmim é perfumado e flor apenas um dia.
Mas, neste dia, é todo flor e perfumado...
Seja sempre assim o nosso amor.
CANTIGA DE ROSA
Rosa do tempo
Rosa disfarce
Mudo chamado
Múltipla face.
Digo teu nome:
Logo me calo.
Quanto mais canto
Mais eu me calo.
Tempo da rosa
Tempo do canto
Claro chamado
Nasce e renasce.
Hoje revelo
Todo o disfarce:
Canto calado
Faz-se e refaz-se.
Quero calar-me
Para curar-me
Deste quebranto
Sonho e disfarce.
Rosa é do tempo
Do canto é face
E é tudo quanto
Nasce e renasce.
A FACA E O FRUTO
fruto e faca
se colocam
novamente
frente a mim
o fruto jaz sobre o campo
pesado vivo fechado
cofre ou concha não tocada
surgida de mar espesso:
mistério na praia branca
o fruto nasceu da terra
queimada porém fecunda
— descolorido sarcasmo
ou silente desafio —
sobre a mesa jaz o fruto
esperando que por fim
eu lhe rasgue a casca tênue
e o devore totalmente
sustento na mão a faca
— jaz o fruto sobre a mesa —
e a fome que me consome
somente se acabará
quando eu comer a semente
que força me dará força
de revelar a semente?
pode a luz atravessar
a cortina indevassável
deste opaco vegetal?
sustenho a faca na mão
trêmula rasgo a casca
e a polpa fácil desponta
como um corpo que se dá.
bem posso comer a polpa
mas é preciso no entanto
vencer o mito da face
pois não me tortura mais
a fome de polpa tenra
mas de semente fecunda.
irá para o lixo a casca
e a nédia polpa darei
aos muitos mendigos que
a mesa rondam famintos.
mas não se rompe a semente
à minha faca sem gume:
mal lhe risco a face rude
sem tocar no cerne vivo.
e faminto me resigno
a livrar-me desta faca
esperando que algum dia
eu descubra aguda lâmina
que me oferte totalmente
todo o fruto que eu desejo:
casca — polpa — semente
INSÔNIA
No poema fendido
As onomatopéias se avolumam.
Um desejo irresistível
De ler Pablo Neruda
Para me libertar
Das paredes de cimento armado.
Escancaro as janelas, lado a lado:
As tulipas estão dormindo
E a noite retangular
Oferece um quadro pavoroso.
Mais pavoroso ainda
É o raio de luz
que rompe a escuridão
e projeta na parede-écran
a disforme silhueta de
um homem fumando um cigarro.
Homem, noite, cigarro:
A trilogia dolorosa
Se não fosse a ironia dos gerânios.
Faço um pedido de silêncio aos cães que uivam
Para ver se consigo ouvir
O vagido de algum recém-nascido
Ou o gemido agudo de uma fome.
Agora é mais noite só
Depois que a ponta do cigarro
Cortou a escuridão
Como se fosse uma estrela cadente.
Nenhum vagido. Nenhum gemido.
Apenas, o bafo de alguma boca animal
Que boceja
Sem que seja
Desejo de dormir.
REMEMBER
Por tudo o que foi
Por tudo que ouvi
Por tudo que eu vi
Estou voltando aqui.
As plantas cresceram
As tintas morreram
Crianças morreram
As faces mudaram.
A casa ficou
Mais velha e mais só.
E, muitos, agora,
Sorriem felizes.
É bom vir aqui
Lembrar o que foi
Lembrar os que foram
Sem ver os que estão
Sem ver os que vêm.
Só importa os que foram
Pra morte ou pra viagens
Só importa o que foi
Pra não voltar mais.
Não pelo agora
Não pelo já
Não pelo aqui.
Mas,
Por tudo o que foi
Por todos que foram
Estou voltando aqui.
RÓSEO ROSTO DE MENINO
Lavarei o meu poema
Nas águas do meu tormento
Ao sentir um grande medo
De deixar fugir o medo
De não mais muito querer.
Lavarei minha memória
Nas águas de outra estória.
Passado: ida sem volta
Que volta quando já vamos
Bem longe, em meio à vida.
Passado: rio, nave ou quilha
Que renasce em redondilha.
A cantar foi que parti
Para longe desta face.
Simplesmente vou rimar
Doce face com disfarce
Pra gravar no verde falso
Velhas luvas que descalço.
Muita vida se resume
Neste humor tão triste e fino:
Lavo... lavo o meu passado,
Porém, fica mal gravado
Em tenra folha de alface
Róseo rosto de menino.
CANTO MATINAL
Há sempre sóis miliágonos
Nessas manhãs furta-cores.
Desejo imenso: ser chão
Germinando malmequeres.
Relincham éguas no cio
E o sol cravou-se nos olhos
Do cão que brinca entre flores.
Ah! Dálias desodoradas!
Estou livre! Uma pantera
Devorou minha certeza.
E esta luz, semente-luz,
Mal se esconde comprimida
Na carapaça de argila.
Este desejo me enrija.
Um canto milhões de pássaros
Se estilhaça em diamantes
Polidos, puros, brilhantes.
Ó lucilância de estradas!
São todos os vegetais
Incestos de luz e cor:
Rubi, topázio, esmeralda.
Nesta manhã furta-cor
Multicor, infindacor,
Quisera ser urzes bravas
Desses prados orvalhados
Que esperam fecundação.
Nesta manhã toda luz
Somente sou luz-manhã.
Há tanta vida no chão,
Há tanta vida no azul.
Em clorofila me banho
E me torno vegetal.
No lugar do coração
Girando está loucamente
Rosavento um girassol.
A voz animal me comove.
Já não sou mais relação
De paralelas eternas.
Neste mundo natural
Tenho raízes — subsolo
Tenho tronco e fronde — solo
Sou deus fecundo de mundos.
Sei que não vou mais poder
Suportar a compressão
De tantos mundos querendo
Libertar-se delirantes
De tão pouca ontologia.
Como um fogo de artifício
Vai romper-se todo o ser.
E vou morrer de viver.
NATAL — 1964
Não me referirei ao nome de meu irmão, ao falar deste monstro aqui.
Kafka — Metamorfose.
... E paz na terra aos homens de boa vontade. Lucas (2:14)
Para que se faça de novo a paz na terra
E , nas celestes esferas, harmonia
E tranqüilidade nas marítimas correntes,
É preciso, por força, que tu mudes.
É preciso, talvez, que renuncies
Aos teus dois braços que se movem
E às tuas mãos que arquitetam rosas
E gesticulam mistérios e ternuras.
É preciso, talvez, que se escureça
A luz perscrutadora dos teus olhos,
Dos teus olhos que sonham madrugadas
E bebem as águas úmidas da noite.
É preciso que amputes o teu sexo
E derrame-se por terra todo o sangue
Que corre impetuoso em tuas veias
Transformando em germes teus desejos.
É preciso que mudes. Na verdade,
Quando chegas há sempre este pavor
Que agita mundos firmes e serenos
— Que sempre foram firmes e serenos —.
Quando chegas, assim, como és agora
Com dois olhos, dois braços, duas pernas
E a monstruosa luz que mal se esconde
Sob os tecidos porosos da epiderme,
Os mortos ressuscitam, os anjos tremem,
Os deuses se acovardam, rugem ventos,
Os mares se revolvem, astros morrem
E os homens se contorcem como vermes.
Impossível quereres continuar
Assim como tu foste desde o inicio,
Pois, gemem em ti as convulsões dormidas
De pré-diluvianos mares e vulcões.
Trazes em ti todas as iras mortas
Que nas origens dos tempos existiam
Nos ventres, nas patas e nas pontas
Dos monstros primitivos, hoje, findos
E, apenas, revividos nos teus passos
Que andam pelas ruas, no teu riso,
Nas palavras que dizes e corrompem
O equilíbrio das messes e cidades.
É preciso, pois, que te transformes.
Que renuncies a tudo. Que te negues.
E comeces a ser um outro ser qualquer
Que, apenas, não seja o ser que és agora.
Apenas sejas fruto podre, inútil
Ou muda pedra, raiz, inseto morto
Que as formigas devoram, por instinto,
Para que haja, de novo, a paz no mundo.
APOCALIPSE
Os meteoros ameaçam nossos jardins.
É hora de decolarmos
Para a infinitude do silêncio dilatado
Com nossas asas de sonho
Antes que a terra exploda
E se escancare como a fauce
De uma desmedida flor carnívora
Faminta de nossos corpos.
Não mais teremos tempo
De colher o fruto do nosso canto.
Os meteoros ameaçam nossos campos.
Os mares cobrirão nossas faces;
Os vulcões ressecarão nossos ossos;
As mãos, os ventres, os sexos
Murcharão sob o fogo das estrelas
Que cairão sobre vales e colinas.
Os meteoros ameaçam nossos rios.
É tempo de partirmos para o espanto desmedido.
De que fomos, fizemos ou cantamos,
Ficará, apenas, o invisível traço
Do vôo da ave indivisível
Que se consumiu no espaço.
PEQUENA BIOGRAFIA DE ARLEQUIM
EXTRAÍDA DO DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO BRASILEIRO
Arlequim é personagem
da comédia italiana
do século dezessete.
Ele traja indumentária
Toda feita de retalhos
De panos de várias cores
— Multicor indumentária —
Cobre sua face de agora
Com máscaras de bufões
Da velha Grécia de outrora.
Arlequim morreu na Grécia
E ressuscitou na Itália
E anda zombando hoje em dia,
Com seu riso galhofeiro,
De todos nós — seus irmãos —
Nos palcos do mundo inteiro.
SONETOS AUTOBIOGRÁFICOS
[1]
Fecundar o próprio sêmen sem ter medo
De em si mesmo dar o ser ao monstro azul.
Escalar o próprio abismo desmedido
E sorrir a cada passo dado em falso.
Desmembrar a tessitura do mistério,
Dissecar a óssea face em frente ao espelho
Estancando a imagem tola no momento
Da mentira venerável — prece infame —...
E depois compor de novo a melodia,
Restaurar as cores todas distendidas,
Refazer o mesmo poema delicado
E ficar paradamente na vidraça
Contemplando a chuva grossa e intermitente
Escorrendo em borbotões pelas sarjetas.
[2]
Dos momentos fugazes que me comem
Nasce, agora, meu canto manso e triste.
E me visto de sombras já vividas
Que me chegam em surdina. Tarde azul.
Ó pedaços eternos que eu retive
No mistério das mãos transfiguradas!
Ó lunares desvairos destes rios
Já vividos e outrora decantados
Nas estórias, nas lendas, nos lilases
Que floriram sorrisos e jardins
Morridos, muito longe, em róseo ocaso.
Ó momentos de luz que tão fugazes
Recompõem meu poema neste agora
Com palavras mudadas em lilases!
[3]
A égua caminhava a passos largos
Por entre a lama espessa, mal cheirosa,
A égua que nasceu de barro e sopro,
Pesada e, ao mesmo tempo, vaporosa.
A égua percorreu todo o passado:
É lenda, é mito, é sombra luminosa;
Galopa semeando vida e morte,
É frágil como a flor e belicosa.
Tem alma muito embora em seu ventre
Aninhe fauna imunda e tenebrosa
De serpes e batráquios peçonhentos.
A égua chega sempre. Chora às vezes.
Às vezes, come fezes. Eu a vi
Comendo, em céu de estrelas, uma rosa.
[4]
O cavalo se esconde na espessura
Da selvagem floresta, murcha a crina.
Vendo-o assim, na floresta, mansamente,
A cabeça curvada, quem dirá
O mistério daquele dorso brônzeo?
Está prenhe de sol e não há noite
Em seus olhos de fera e nas narinas.
É dinâmica posta em doce paz,
Comprimindo, nas patas e nos flancos,
Na cabeça de pégaso ferido,
O poder fecundante do universo.
Vendo-o assim, mansamente, ninguém julga
Que é capaz, se quiser, de, num segundo,
Refazer, totalmente, o velho mundo.
[5]
O esquálido triângulo se funde
No círculo sem luz da selva escura.
Na sáfara planície mal germina
A chama horizontal. Sorriso, apenas.
Grudada está a saudade, sem disfarce,
À cor trazida, outrora, em caravelas,
De longes horizontes. E as ogivas
Já mortas ressurgindo no barroco.
Remotas viagens marcam velha origem.
E o gato e o cão e a virgem estrela morta
De quinze pontas de ouro. Voz em prece.
Tangente esforço — fraco — de ser santo.
A fome aguda e sempre de ser lúcido.
E a boca posta em pobre canto.
Triste.
[6]
As noites dos assombros se gravaram
Nos olhos do menino, para sempre.
Cravou a rude fera suas ventosas
No plasma nuclear do qual rebenta
A vida. Não na crosta... Mas bem no âmago.
Na zona claro-escura onde se fundem
Os nervos, as artérias, alma e sangue;
Nas zonas onde a carne faz-se espírito,
Nas linhas onde o barro se faz homem.
Ah! Noites de fadigas e de prantos!
Ó luares dissolvidos no porvir!
Ó pássaros de assombros! Muito embora
Eu lute, cante, chore, não consigo
Tanger-vos dos meus olhos de menino!
[7]
És desejo, talvez, ou limpo canto
Que se põe como branca toalha sobre
A descampada e vaga solidão
Do vasto campo azul deste meu canto?
És a fuga, talvez, de fontes puras
Que se lançam, medrosas e perdidas,
Para o mar tenebroso, inavegável,
De onde chego no canto feito nave?
És a rosa? Ou quem sabe se és a sombra
Das estrelas morridas de não ser
Mais que luz, mais que brilhos solitários?
Ou te pões simplesmente como a nota
Que fugiu, para sempre, da sonata
Imatura que eu fiz de brilhos falsos?
[8]
O cais está deserto. A noite é vasta.
O vento sopra fino. As águas negras
Paradas se repousam das fadigas
De naves que partiram soluçantes.
As luzes tremeluzem cochilantes
Dos negros postes magros penduradas.
Do guarda, os passos lerdos, sonolentos,
Acordam surdos ecos nas distâncias.
E a sombra do seu corpo se projeta
No longo tombadilho do silêncio
Escura e densa como ponte armada
Do cais para o silêncio da água negra,
Do fim para o começo de outro dia
Do pranto de quem fica ao de quem parte.
[9]
E nós nos esquecemos dos matizes
Das cores penduradas nos baloiços,
Dos risos, das canções e das conversas
Que tínhamos sentados pelo chão.
Das formas e das casas, do equilíbrio
Das árvores dispostas no quintal,
Do córrego, da fonte limpa e fria,
Das pombas se catando nos umbrais,
De tudo quanto foi o que nós fomos,
De tudo que fizemos nos fazendo,
Dos mínimos detalhes que sonhamos
Compondo o que viria — o que seriamos —
Somente permanece a forma inculta,
Disforme, densamente nos cercando.
[10]
Estas aves vêm sempre, ao fim da tarde,
Descansar seus remígios agourentos
No pomar de onde colho doces frutos
Com que faço meus vinhos suculentos.
Elas vêm de bem longe. Me olham sempre
Com desdém. E nas asas trazem ventos
Que uma vez, já faz tempo, naufragaram
Minha nave que nautas desatentos
Dirigiam. E estas aves eu me espiam
Lá de cima das arvores crescidas
No pomar irrigado com águas verdes.
Bem conhecem meu fim. Vencido nauta
Pus-me, agora, a plantar frondosas copas
Que sugerem veleiros em meu canto.
UNIVERSAL
(semanário da Igreja católica, que circulou aos domingos entre os anos de 1953 e 1958).
SÍMBOLO
No azul-negro do céu inacessível
O pássaro branco estava leve
Como uma estrela apagada
Estava o pássaro, morto.
Mas o peixe que nas águas eternas cantava
Morreu na árvore de carne.
Nascida
Da semente da vida.
O pássaro comeu o peixe-fruto
E ficou pesado
Ficou prenhe
Do espírito que intumesce as águas eternas.
Suas penas de mármore então ficaram
Brancas como o trigo
Rubras como a uva
Banhadas pelo dilúvio universal.
Ninguém ficou das águas vivas!
Então os cordeiros renascidos
Entraram cantando
Salmodiando
Na cidade de ouro e cristal
O cântico ao Sol que saiu do ventre das Noites
Da Noite Virgem
Da noite torpe.
O Sol que venceu o dragão
O cântico do Sol que jamais a Terra ouviu:
Sanctus! Amém! Aleluia!
Nota do organizador:
Julgo tratar-se do primeiro poema publicado na imprensa local. Aconteceu no semanário católico Universal, circulado em 13 de março de 1955. O autor identificou-se com as iniciais: L.R. (Luiz Ruas).
A CRÍTICA, Ronda dos Fatos
SE TEU OLHO FOR SIMPLES
Devemos nos esforçar para tornar mais simples os nossos olhos.
Para que olhemos com simplicidade o nosso irmão.
E não vejamos simplesmente em nosso irmão, em suas atitudes,
[em suas lutas, em seu ódio talvez, unicamente um interesse egoísta.
Se o teu olho for simples...
Talvez ames com mais facilidade o teu próximo.
Vejas com mais objetividade os teus erros e defeitos.
E aceites com mais humildade aqueles que os apontam.
Nota do organizador:
Publicado na estréia de sua coluna – Ronda dos Fatos, no jornal A Crítica, em 2 de agosto de 1957.
PEQUENA ANTOLOGIA MADRUGADA
Jorge Tufic
Manaus: Sergio Cardoso, 1958.
VERSOS À MARGEM DE UM POEMA DE RAINER MARIA RILKE
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Lancei-me em verticalidade
No abismo que se abria
Como lábios devoradores
Da minha própria contingência.
Morri. Mil vezes morri
Tentando devassar o meu silêncio
Semelhante ao das fontes congeladas
Onde o universo parou.
Mordi. Mil vezes mordi
A própria carne e devorei
A essência fugidia que me mata.
A fonte era escura muito embora
Cristais e perolas luzissem
Nas sombras das florestas quase mortas.
Perdi-me no vale das flores germinadas
E, antes de nascidas, sepultadas
Na força da expansão germinativa
Era lama, era barro e também ouro.
Morri. Mil vezes morri
Descendo o mar profundo.
Mas quando as ondas jogavam redivivo
Na praia o fruto naufragado
Havia pássaros verdes brincando nas espumas
E uma brisa morna
Dançava em piruetas na areia
Criando ninfas coloridas
De poesia
Na manhã renascida.
SINOS
Os sinos calaram-se em sons pontiagudos
Projetando no espaço verde-negro
Centelhas desmemoriadas.
De onde vem a voz dos sinos?
Das torres cicatrizadas
Onde o tempo se gravou
Em instantes de pedras?
De onde vem a voz dos velhos sinos?
Essa voz
Que vem até nós
Como velas enfumadas
Pelos ventos intocados
Do mistério inenarrável
Do tempo não nascido?
De onde vem a voz dos sinos?
O canto das estrelas semimortas
Repicava, em azul cristal,
Nas torres enrugadas.
O último canto dos sinos
É silêncio...
leve silêncio.
POSSÍVEL NOTURNO EM LÁ MENOR
Ah!
Esta lua
Neste fim de rua.
Os homens se devoram
Mesmo sobre cadáveres
E ainda chorando a morte
Matam a própria vida.
Esta lua
Somente lua
Neste absolutamente
Fim de rua.
Para o fim da escura rua
Bêbedos passos caminham.
Minha sombra, minha dor,
Meu desengano também.
Ah!
Esta lua
Neste fim de rua.
A ÉGUA
A égua caminhava a passos largos
Por entre a lama espessa, mal cheirosa,
A égua que nasceu de barro e sopro,
Pesada e, ao mesmo tempo, vaporosa.
A égua percorreu todo o passado:
É lenda, é mito, é sombra luminosa;
Galopa semeando vida e morte,
É frágil como a flor e belicosa.
Tem alma muito embora em seu ventre
Aninhe uma fauna tenebrosa
De serpes e batráquios peçonhentos.
A égua chega sempre. Chora, às vezes.
Às vezes, come fezes. Eu a vi
Comendo, em céu de estrelas, uma rosa.
Nota do organizador:
O poema foi posteriormente incluído em seu livro Poemeu (1985), no capítulo dos sonetos autobiográficos, mas sem este título.
EVOCAÇÃO DA FRANÇA
A Encarnação é um dogma da fé católica:
A Perfeição se une à imperfeição.
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
Amém.
Hélas! ça sait tout le mond...
E Joana, a pequena Joana, também sabia
E Péguy também sabia
E o sabia
Antoine Saint-Exupéry.
França
Uma fogueira em meio a brumas
E o Sena correndo aos pés de Notre Dame
Instabilidade...
Eternidade.
França
Muito queijo, muito vinho e muito livro.
França
Carrefour du mond
Séculos de pecados
Peregrinando para Deus.
França
Filha primogênita da Igreja
Mãe fecunda de Voltaire e Renan
França
França da gruta de Lourdes
E das “caves” existencialistas
Dos faustos do Rei Sol
E da penitência de De Foucauld
Hélas! ça sait tout le mond...
Rouault
pintou um Cristo
e... “les bien pensants”
protestaram:
Um palhaço!
Aí Herodes mandou o Cristo fazer mágicas,
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
França de Rimbaud
França de Claudel
Santa França
Si charnelle.
Amém.
Suplemento Literário
Diário Oficial do Amazonas
Manaus, outubro de 1987. Ano I – nº 12.
O ENIGMA ESCLARECIDO
Videmus nunc per speculum in enigmate; tunc autem facie ad faciem.
(I Cor. 13:12)
A
Carlos Drumond de Andrade
in memoriam
Atrás das límpidas lentes —
Claras — dos óculos,
Os olhos pequenos revelam
Um enigma profundo:
O poeta vê e experimenta
O sentimento do mundo.
O sentimento é maior,
Muito maior do que o mundo.
E se ele (tímido) revela
O que ele sente do mundo,
Não revela (por pudor)
O enigma mais profundo:
Aquele que está lá dentro,
Lá no fundo do que foi.
Por trás das límpidas lentes
O poeta vê apenas
O movimento do hoje
E o passado que é presente.
De tal maneira presente
Que o hoje, no ontem, se funde.
Ontem e hoje são somente
Os limites do seu mundo.
E o hoje é o ontem vivido:
Muito amado, mais sofrido.
As lentes claras dos óculos
(Tão claras como sua alma)
Não vêem adiante: só vêem
A cicatriz que o passado
Cravou na vida distante
Como marca a cicatriz
De uma pedra que feriu
Nosso corpo de menino.
De passado e de presente
(Não de futuro) ele ergueu
Todo o edifício da vida.
De uma vida calma e limpa
Que ele quis e defendeu.
Desta vida que é vivida
Somente pelos que sabem
Os seus limites de Homem.
O enigma é o futuro,
Poeta, pra todos nós.
Mesmo a quem foi dado
Olhar e ver com os olhos
Da Fé: tudo, agora, é como
Um segredo que se esconde.
Nós vemos mas não sabemos
O que no segredo se esconde.
O que é inevitável, porém,
Há-de sempre acontecer:
No agora do pós-morte
Todo o enigma se aclara:
Queiramos ou não, seremos
Presentes no Seu presente.
E o hoje e o ontem do tempo
Se tornam claros. Pra sempre.
CANTO NOTÍVAGO
Para o poeta, compadre, irmão Jorge Tufic;
para os que amaram ou ainda sabem amar a noite.
O meu mar é minha noite:
Nela me encontro e me perco.
Nela invento roteiro
Para os meus passos perdidos.
Para meus passos sem leis,
Para os caminhos sonhados
Pelos meus pés andarilhos.
Nela me faço e caminho
Liberto, navego e vôo...
Falo com os anjos vadios
Que humildemente se escondem
No pêlo dos cães famintos.
Neste meu mar sempre noite
É que me faço o que sou.
Não vejo as cores das casas;
Não vejo as caras dos homens,
As caras dos meus irmãos:
Dos amigos e inimigos.
A noite é cheia de luz!
Não da que vem das estrelas
Mas da que nasce das sombras,
Mas que nasce de mim
E que se apaga de dia:
Como a luz dos pirilampos.
Amo-te, noite, irmã noite,
Imensa irmã de veludo
(Noche oscura! Noche oscura...)
Humilde irmã mal-falada,
Humilde irmã dos humildes
Que não têm lugar ao sol.
De assassinos, de ladrões,
Dos vigias, prostitutas,
Dos bares pobres, da esperança
Dos jogadores furtivos;
Dos que dormem nos batentes
Dos palácios, das igrejas.
Amo-te, noite, irmã noite.
Irmã tão compadecida
Que acolhes sem reclamos,
Sem maldizer, em silêncio,
Em silêncio comovido,
Todos os párias da luz
Todos os párias do dia
Que por si só têm a ti.
Amo-te, mãe dos aflitos,
Amo-te, mãe dos cansados,
Amo-te, mãe dos perdidos
Que não têm rumo nem pouso,
Que não têm paz, nem conforto,
Que não sabem onde ir.
Amo tua paz, teu silêncio,
Amo teus uivos, teus gritos,
Amo os gemidos, os prantos,
Amo os risos... os monólogos
Dos bêbados noctivagantes
Que se perderam a si mesmos.
Sou um vulto que desliza
Pelas pontes, pelas ruas...
Sob portas e janelas...
Pelas cansadas ladeiras
Que sobem... que sobem sempre.
Sou um vulto que se esconde.
No mar descubro meus mitos
Daquilo que eu sou, sem ser:
Sou monstro, arcanjo, duende,
Sou santo, soldado, herói,
Sou saltimbanco, palhaço,
Sou estátua e canto e danço.
No meu mar me desencanto:
Dispo a máscara grosseira
Que me cobre o dia inteiro:
Esqueço as filosofias,
Perco ritos, perco modas
E tudo o que faz dos homens
Espantalhos de si mesmos.
No mar invento poemas
Mais puros que os cantos puros
Da música santa de Bach.
No mar fabrico mistérios,
Falo com Deus e com deuses:
Sou pagão e sou cristão.
Eu sou eu sem ser ninguém.
Sou uma sombra, talvez,
Que pode ser tudo. Ou nada:
Posso apenas ser ladrão,
Assassino ou assaltante,
Para o guarda de plantão.
Para os boêmios que vagam
Apenas sou seu irmão.
Amo-te, mãe sem limites.
Amo-te, amiga, mulher
Parceira de serenatas,
De jogos, de bebedeiras.
Amo-te, mar de feitiços,
Irmã negra, mandingueira.
Amo-te, mar de mistérios,
Onde me encontro e me perco.
N.O.
O poema foi, por iniciativa do homenageado, publicado no Diário do Nordeste, Fortaleza (CE), 10 de novembro de 1996.
De certo, elaborado em período anterior, visto que nesta data o autor já se encontrava gravemente acidentado.
Série Memória 14
4ª edição Novembro 2000.
Editada pelo Governo do Estado do Amazonas
CRÔNICA ROMÂNTICA DE ADEUS AO ROADWAY.
padre Luiz Ruas
Posto que, sendo porto,
Sempre foste caminho de partida
Ou barco de ferro e pinho
Que os ingleses ancoraram
Nas margens do rio Negro.
Era “roadway” britânico caminho
Flutuando
Nas índias águas do rio
Que viu, espantado, surgir
No meio da selva bruta
Onde ainda ecoavam nítidos
Os rudes sons dos Manaus,
Uma clareira de sonhos,
De látex e de libras esterlinas
Foste “roadway” e “rodo”
Mas, posto que sempre foste
Porto – caminho de partida
Também foste caminho de chegada.
(De chegada mas, talvez, que de partida).
Pela ponte de pinho
Louro e de negro ferro
Legiões de marujos desfilaram
E de artistas, empresários e turistas
De além-mar chegados, fascinados
Pelo encanto da floresta-mãe
Onde se arrancava das tetas vegetais
O leite branco que se mudava em ouro
Francesas, espanholas e polacas,
Para gozar nas camas dos bordéis
O ouro fácil em que se transmudara
O sangue, o suor, a febre delirante
Dos seringueiros – párias do Nordeste.
E foi por tua ponte flutuante
Que chegaram as “levas” nordestinas
Dos “brabos”, dos “soldados da borracha”
Que seguiam encantados, enganados,
Para os “centros” – distantes seringais
Do Purus, Acre, Madeira e Juruá
Onde findavam – finavam – escravizados.
Passarelas de dor e sofrimento!
Passarela de luxo, amor e sonho!
No teu ritmo binário que acompanha
O ritmo binário deste rio
Que todo ano sempre sobe e desce,
Também foste termômetro da morte
E da vida que todas as enchentes
E vazantes ofertam fatalmente
Aos homens e as mulheres ribeirinhos
E às roças e animais da várzea.
Mas, que importa! Ficaste, Flutuante
Lembrança de um tempo que ficou,
Também, em vários outros monumentos
Erguidos sobre as bases do martírio
De milhares, devorados pela selva
E pela ambição do lucro fácil.
Que importa!
Ancorado ficaste tanto tempo
Mas, também, nas páginas da história
De um povo que, aqui nesta cidade
Dos extintos Manau, sempre viveu
A longa espera de um amanhã melhor.
Caminho da terra para a água;
Caminho da cidade para o rio;
E caminho do rio para o mar;
No macio balanço da tua ponte.
Todos nós de Manaus, em ti, deixamos
Uma pegada da vida que partimos
Dentro em pouco será simples lembrança,
Pois, tuas linhas arquitetônicas serão
Destruídas, apagadas, distorcidas
Em nome de um progresso que une poucos
Gozarão. Toda a história se repete.
“Roadway” dos ingleses engenheiros
Ou “rodo” dos cablocos de Manaus!
Aqui fica este adeus de quem te viu, menino
E, por ti – uma vez – partiu sonhando
Os mais belos sonhos que sonhar eu pude.
Adeus, velho roadway flutuante,
Docemente embalado pelos ritmos
Das morenas águas do rio Negro. É
Chegado teu fim. Exige-a assim
Este rude imperativo do progresso.
Mas, em mim, como te vi, hás de ficar;
Dourado pelos raios do sol quente
Ou banhado pelas pratas do luar.
Nota do editor
O presente texto decorre do original localizado nos arquivos da Secretaria de Estado da Cultura, Turismo e Desporto (1999). Julga-se ser primeira edição e serve para homenagear o ilustre religioso, professor, escritor e filosofo.
HINOS
A CRIAÇÃO
Letra: padre Luiz Ruas
Música: maestro Pedro Santos
Foi o bom Deus quem fez o céu
E quem a terra também nos deu...
Primeiro fez a lua
das trevas boa irmã
nasceu assim o dia
da tarde e da manhã.
Depois criou a nuvem
que a chuva irá guardar
unindo as águas todas
criou também o mar.
O mar coalhou de peixes
e o céu ficou cheinho
da cor das aves belas
fazendo alegres ninhos.
Criou no sexto dia
o homem e a munlher
dizendo: mais bonito
o mundo eu vou fazer.
E vendo o bom trabalho
trabalho só de amor
na criação lançou
sua benção o Senhor.
Nota do organizador:
Composto quando da instalação do Instituto Christus, hoje Centro Integrado de Educação Christus. Logo foi adotado como hino do colégio.
Neste chão dos Manaus
Hino da festa da restauração da Catedral
Letra: padre Luiz Ruas e
Música: frei Luís Carlos.
Neste chão de Manaus foi erguida,
Por aqueles que vieram primeiro,
Uma humilde capela que foi
O sinal de um amor verdadeiro.
Nossa Senhora da Conceição
Imaculada, rogai por nós!
Nos vos pedimos somente isto:
Ser construtores da Paz de Cristo!
Mas a fé do teu povo, Maria,
Do Amazonas a mais linda flor
Quis, depois, ofertar-te outro templo
Que dissesse ser melhor nosso amor.
Nem o fogo voraz, nem o tempo,
Conseguiram vencer teu amor.
Hoje estamos, de novo, Senhora,
Celebrando com fé teu louvor.
Do teu povo que vive em Manaus,
E às margens dos rios caudalosos,
Nas florestas, nos lagos, recebe,
Mãe de Deus, os louvores piedosos.
Seja sempre uma prova de amor
Que teus filhos ofertam-te agora
Este templo de fé restaurado,
Nossa Mãe, do Amazonas Senhora.
Centenário, será para sempre
Da piedade do povo, sinal.
E das graças que sempre nos deste
Nossa Igreja-Mãe, a Catedral.
Que nesta festa do templo sagrado
Nos ensine Maria a lembrar
Que é preciso também nossa vida
Com amor e com fé renovar.
Em 1986, o Amazonas católico encantou-se com a restauração da catedral de Nossa Senhora da Conceição. Para engrandecimento da festa, padre Ruas entregou aos fiéis o hino de louvor intitulado de Neste chão dos Manaus. A canção, posteriormente, foi adotada como hino da paróquia.
Hino de São Pedro
patrono da paróquia de Petrópolis
Letra: padre Luiz Ruas
Homem do povo! Bom pescador!
Pedra da Igreja! Pedro Pastor!
No Santo Padre – teu sucessor,
Nós te louvamos com muito amor.
Como tantos que vivem entre nós,
Nesses rios, nos lagos... Pescando.
Tu também tua família nutrias
No trabalho da pesca, lutando.
Eras bom pescador... Mas um dia,
O Senhor, ao te ver, te chamou:
“Não de peixes serás pescador;
Como pesca os homens te dou”.
Atendeste de Cristo o chamado
Prontamente. E te foste à peleja
Do evangelho, sem medo. Por isso,
De ti, fez fundamento da Igreja.
Pedro – Pedra da Igreja de Cristo –
Representas, na história, o Senhor.
No teu barco viajamos seguros,
Nós, o povo de Deus, Pescador!
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
AGNELLO BITTENCOURT: REMINISCÊNCIA DO AYAPUÁ

AGNELLO BITTENCOURT
REMINISCÊNCIA DO AYAPUÁ
(Foto da CASA GRANDE em 1928 com os netos de Lourenço Mello e ao fundo a âncora do navio Carolina. Carlos Araujo Lima, famoso jurista, aparece na foto, adolescente).
Rio de Janeiro
1966
CAPÍTULO III - A CONQUISTA E O PIONEIRO
Ninguem sabe quem foi o primeiro homem civilizado que visitou o lago do Aiapua. É bem possivel que o pernambucano Serafim Salgado e o mulato Manoel Urbano da Encarnagao nele penetrassem pelo meado do seculo XIX, quando subiram o Purus, em viagem de exploragao.
Consta a tradigao que Fleury da Silva Brabo, Caripuna Maues e o Capitao Thury, todos negociantes, estiveram nesse lago, procurando conhecer suas riquezas naturais. Mas lá nao permaneceram.
O Aiapuá recebeu, em 1850, a visita do Capitao Manoel Nicolau de Mello, natural de Pernambuco. Era, tambem, negociante, senhor de alguns escravos e casado com uma cabocla do Rio Negro, onde passara algum tempo, logo que viera de sua terra. Além dos servos, possuia credito na Capital da sua Provincia. Dizia pertencer a velha e reputada familia Bandeira de Mello.
Nao sei em que lugar do Rio Negro teria vivido Manoel Nicolau de Mello. Fui apenas informado que, ao chegar ao Aiapuá, entrara em contacto com os indios muras, dos quais gostara, certificando-se das vantagens que poderia auferir dos vastos castanhais e seringais daquelas florestas, como da abândancia de pirarucus daquelas aguas.
Resolvera ali fiGar, fixando sua tenda de trabalho e mandando buscar, da terra de sua mulher, fregueses e famulos.
Manoel Nicolau era mulato, de porte desenvolvido e de cultura intelectual variada, principalmente em medicina, 0 que pude inferir a vista de muitas notas e registros em um caderno que encontrei, em 1900, em uma estante de livros que the pertenceram e que, mais tarde, passaram ao seu filho Lourengo, de quem falarei adiante. Esses livros revelaram-me tambem a preferencia dessa cultura e seu gosto pela literatura classica. Entre outras obras que observei, lembro-me das seguintes: "Arquivo Pitoresco" (11 volumes), "Palmeirim de Inglaterra", obras de Victor Hugo e de Voltaire, os "Lusiadas", de Camoes, "Gil Blas de Santillane", de Lesage, 'Sermoes", de Montalverne (4 volumes), 0 "Piolho Viajante" (5 pequenos volumes), tratados de medicina etc.
Informaram-me que o pioneiro da civilizagao em Aiapuá repartia suas atividades entre os livros e os negócios.
A salga do pirarucu era, na epoca, o preduto mais vantajoso. A esse comercio se dedicara nos primeiros anos 49 seu estabelecimento, estendendo-o, conjuntamente, a extraçao da castanha para o que carecia de maior numero de braços trabalhadores. Fez publicar no jornal "Estrela do Amazonas", de Manaus, em 1856, um anuncio convidando quem quisesse se localizar em Aiapuá para se dedicar a agricultura e a colheita da castanha. Teria, para isso, passagens e auxilio economico.
Vi esse anuncio em um dos numeros daquele periódico apenso aos autos de legitimaçao de terras do lote "Perseveranga", do mesmo lago, lote legitimado anos depois pelo filho Lourengo Nicolau de Mello . Está no Arquivo Publico de Manaus. Contaram-me alguns contemporaneos de Manoel Nicolau que muita gente atendeu aquele convite e, realmente, se fixou nas terras marginais do lago.
Os indios muras, que viviam errantes, arrancharam-se em duas malocas: uma situada na enseada do Maues e a outra no igarape do Bacuri.
Por volta de 1889, o povoamento havia aumentado consideravelmente. 0 Governo provincial criou, em Aiapuá, uma subdelegacia de policia e uma Inspetoria de índios, nomeando para ambas aquele pioneiro. Criara tambem uma escola elementar que foi provida pelo professor Raymundo Nonato de Souza, escola de vida precaria, por ter, logo depois de instalada, adoecido e falecido o servidor. Essa escola ficou fechada por alguns anos.
Em 1889, Manoel Nicolau teve necessidade de ir a Lisboa para efetuar uma extração de catarata. Seguiu e foi feliz no tratamento. Regressando ao lago, pouco subsistiu, pois faleceu em 1890. Foi sua morte um grande abalo para os filhos que se estavam educando no Para e para os seus fregueses, que defendia com tanto ardor.
A esse tempo, a ilha do Cemiterio era um povoado, contendo nada menos de 15 casas, sendo a sede da vida local. Em 1896, quando fui, pela primeira vez ao Aiapuá, passar meu periodo de ferias, algumas dessas casas ja se encontravam vasias. Comegara a decadencia desse povoado, apesar de sua magnifica situação, da qual se descortina um lindo panorama.
Com o desaparecimento do chefe, tudo sofreu. 0 barco denominado "Carolina", que fazia viagem de Recife a Manaus e, dai, ao Aiapuá, de propriedade de Manoel Nicolau, paralisou e, velho e imprestavel, foi ao pego, em frente ao povoado da ilha do Cemiterio. Quis duvidar da existencia desse barco, mas diversas testemurihas de suas viagens, no oceano, a vela, e no Solimoes e Purus, a sirga e varejao, afirmaram-me o aparecimento do casco revestido de folhas de cobre, ao auge das grandes vazantes do lago. Comprova-o, ainda, ate agora, uma grande âncora de cinco garras retirada do local do afundamento e colocada sob um pedestal de cimento, ao meio do jardim da casa, hoje em ruinas; dos herdeiros do Coronel Lourengo Nicolau de Mello (falecido em 15 de setembro de 1905), o verdadeiro continuador da obra de seu pai, quer no comercio, quer nas relagoes sociais. A história de uma localidade gira, as vezes, em torno de um homem e de um dos seus descendentes. É o caso do Aiapua, em relação a Manoel Nicolau de Mello e de seu filho Lourengo, que foi, por circunstancias economicas, obrigado, a abandonar seus estudos, em Belem, a fim de assumir a responsabilidade da casa comercial de seu progenitor.
Manoel Nicolau deixou varios filhos; conheci os seguintes: Lourengo, Nuno, Leopoldino, Isabel, Benvinda, Raimunda, Mirandolina e Tereza, que ainda vive em Belem.
A nova sede da vida comercial de Aiapuá deslocou-se da ponta da ilha do Cemiterio para a foz, do igarape Santo, Antonio, na parte ocidental do lago. Foi aí que Lourengo Mello, após haver contraido nupcias com Felicidade Augusta Robert, filha do comerciante frances Sebastian Robert e de Felicia Barroso Robert (amazonense), construiu o seu barracao de neg6cio e de residencia.
Nesse local, ja existia um "sitio", ou melhor, uma casa de moradia do Italiano Ventillari, cuja posse Lourengo Mello comprou, procedendo, mais tarde à respectiva demarcagao e legalizagao a que atras aludi. Foi o agrimensor Silverio Jose Nery que fez a demarcação desse lote, embora seja outro, o Italiano Capriti, nome ostensivo do demarcador. Um grande campo de criagao bovina e cavalar aí foi aberto e apascentadas mais de 60 cabeças. Vi-o, de 1896 ate 1905, época da morte do seu proprietario, quando o rebanho, quase ao abandono, foi diminuindo, até extinguir-se.
Lourengo Mello era homem progressista e estimava o conforto. Não satisfeito com o seu barracão 'Santo Antonio", todo de palha e chão batido, mandou buscar em Manaus pedreiros e carpinteiros, fazendo construir, um pouco alem daquele barracão um vasto prédio, que o povo do lago passou a denominar Casa Grande.
Era, realmente, o maior e mais confortavel prédio de todo o baixo Purus, exclusivo para a residencia da familia, enquanto a Gerencia e a Loja continuavam no "Santo Antonio", que, pouco mais tarde, foi substituido por outro barracao todo de madeira, e coberto de telhas de barra, ainda hoje existente, mas em estado de ruinas.
Ate certo ponto, é verídico o brocardo: "Quando morre o dono, a casa cai". Falecido Lourengo Mello em 1905, a firma comercial de Aiapuá passou para a direção do Dr. Adelino Cabral da Costa, um dos genros daquele saudoso negociante. Adelino, que veio a falecer em 1937, nao obstante sua fulgurante inteligencia e sua bela cultura, nao tinha vocaçao para o comercio. As transagoes nao eram fiscalizadas. Nunca havia saldos positivos. Sempre o regime de "deficit", apesar dos progressivos preços da castanha e do pirarucu salgado, nas praças de Manaus e de Belem, para onde se enviavam os produtos das colheitas. A afamada castanha do Aiapuá, que se recomendava por sua limpeza, alcançando, por isso, as melhores vendas naquelas praças (Manaus e Belem), foi sendo relegada a um segundo plano. Os "regatoes" começaram a imiscuir-se na freguesia da casa. A l.a Grande Guerra, que quase paralisou a exportação da preciosa amendoa, concorreu para a "debacle". Comia-se muito mais do que se produzia.
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CAPÍTULO IV DESCENDÊNCIA DE MANOEL NICOLAU DE MELLO
LOURENÇO NICOLAU DE MELLO
Trata-se da figura principal da localidade, não só pela sua cultura, como pela sua ação. Filho do fundador da gleba, tinha o tipo do caboclo. Herdara, certamente, a compleição e os traços de sua mãe. Robusto, inteligência viva, fora mandado estudar preparatórios em Belém (Pará) com seu irmão Leopoldino. Internado no colégio do Padre Rocha, fez-se, desde logo, um dos primeiros alunos.
Lourenço contou-me que se conformara com todos os "trotes" dos colegas, menos com aqueles que feriam sua dignidade. Por vezes, teve de repelir as afrontas ou humilhações, estabelecendo reboliços que reclamaram a intervenção do Diretor. Uma delas, referiu-me, foi a seguinte: um grupo de estudantes dos mais alentados entendeu de amofiná-Io constantemente, imitando, com o braço direito, o gesto do pescador quando arpoa o pirarucu. Era mais uma ofensa que não devia ser suportada, assim o entendeu o caboclo do Amazonas, expressão com que o chasqueavam sempre. Uma explosão de raiva determinou que o provocado descalçasse um dos seus sapatos e, com ele, investisse no mais irritante do grupo. Lourenço virara uma fera, pondo o colégio em polvorosa. 0 estrago não foi pequeno. Por um pouco, Lourenço não é despedido, tendo-Ihe valido seu comportamento e aplicação aos estudos. Nunca mais o quiseram ridicularizar.
No colégio ficara por três anos, aproximadamente. Seus preparatórios (curso de humanidades) estavam quase a concluir, quando lhe falece o pai. Foi um transtorno. Teve de recolher-se, com seu irmão Leopoldino, ao Aiapua e começar a labuta comercial, assumindo, na sua responsabiIidade de adolescente, a manutenção e educação de seus irmãos menores, como de alguns sobrinhos órfãos. Fundou o barracão Santo Antonio a foz do igarapé deste nome, na parte mais ocidental do lago. D. Felicidade Augusta Robert de Mello, sua esposa, ajudou-o tenazmente, lidando com a freguesia, na safra da castanha e da borracha, como ainda na assistência do transporte de lenha (combustível) para os gaiolas, no porto de Novo Trombetas (no Purus). Lourenço Mello disse-me algumas vezes que foi esse o período mais
duro de sua vida. Mas, em compensação, o de maior prosperidade, pela segurança e alargamento dos seus negócios nas plagas de Manaus e Belém, para onde enviava os produtos de suas safras.
Na capital, entre seus amigos de infância, se achava meu saudoso pai, o Coronel Antonio Clemente Ribeiro Bittencourt, em cuja casa se hospedava, sempre que vinha a cidade ou em trânsito para o Pará. Eram dois amigos, como raros tenho visto. Quando meu pai se aposentou, no cargo de Oficial Maior (hoje Diretor) da Secretaria Geral do Estado, apenas com a vantagem de 250$000 por mês, para não se sujeitar a humilhações políticas, no governo de Eduardo Gonçalves Ribeiro, foi imediatamente convidado por Lourenço Mello para ajudá-lo no movimento comercial de sua casa de Aiapuá. Estava eu a esse tempo (1894/1896) concluindo o curso da Escola Normal do Estado .
0 grande amigo de meu pai mandara suas filhas mais velhas Tertunilla e Antonia (Luiza, em casa) educarem-se no Pará, sob os cuidados de Marques Valente, seu amigo e compadre, chefe da firma Marques Valente & Cia. Concluídos o curso primário e o de música, essas meninas retornaram a casa paterna. Em trânsito para Aiapuá, estiveram em nossa residência, em Manaus, onde a primeira prestou concurso para o provimento efetivo da cadeira de ensino elementar daquele lago, sendo nomeada.
Em outubro de 1896, tendo eu recebido o Diploma de Normalista, pleiteei o desdobramento da cadeira mista de Aiapuá, atendendo sua excessiva frequência. Fui nomeado para a do sexo masculino, que inaugurei a 19 daquele mês e ano. Em breve me tornei genro de Lourenço , que sempre me dispensou a maior consideração e encontrava em mim companheiro nas discussões literárias, como na apreciação de problemas científicos e sociais.
Uma boa biblioteca, sempre aumentada e de obras escolhidas era uma das nossas distrações. Escolhíamos temas para estudo e discussão. As vezes, assuntos literários; outras vezes, conceitos filosóficos. E escrevíamos para jornais de Manaus.
Lembro-me de uma serie de artigos que Lourenço Mello escreveu e publicou no jornal "Amazonas", assinado "Os seringueiros" e, ainda, de um trabalho que intitulou "Os pagés", lançando um formidável ridículo nos curandeiros do interior.
A propósito desse trabalho, ouvi do Dr. Henrique Álvares Pereira, médico ilustre e então redator-chefe daquele órgao da imprensa baré, o seguinte juízo, após haver lido "Os pagés": "se este matuto andasse há mais tempo treinando aqui, nos jornais, já seria um escritor de raça". Preciso dizer que o galeno não sabia que eu era genro do chefe do Aiapuá.
Outro passatempo de Lourenço Mello consistia em cultivar a música. A flauta era o seu instrumento predileto e executava-a com emoção. Em determinados dias da semana, reunia seus irmãos Leopoldino e Nuno, estes ao violão, e tocava alguns números do seu largo repertório, após o jantar. Vi-o algumas vezes fazendo transposições, no pentagrama, para determinados tons que mais conviessem ao diapasão da flauta. Nada de oitiva. Deixou álbuns de músicas, quase todas copiadas por sua letra. Ao executar uma partitura, conservava sempre ao ombro um lenço grande, vermelho, do Aveiro, o qual, de quando em quando, passava sobre o instrumento.
Era madrugador. Levantava-se às 4 horas e, logo sentado em uma cadeira de embalo, na sala de jantar (varanda), reclamava o café. D. Felicidade, sua esposa, jamais se conformou com esse regime. Algumas vezes, fez-me despertar para conversarmos e vermos o lindo despontar do sol por trás da floresta que, ao longe, limita as águas do Aiapuá. Quando não, chamava o curumi (menino) João Ituá, seu remador e, na canoa "Piolho", assim chamada por ser chata como uma tabua, rumava para a casa de um dos seus fregueses com quem ia palestrar, até o surgir d'alva.
Lourenço Mello gostava de obsequiar a quem Ihe batesse a porta, ou formular convites a pessoas de representação. Viajantes em trânsito, no seu porto, eram quase sempre solicitados a desembarcar. Um lauto almoço Ihes era servido. Dentre diversos, recordo o ágape oferecido aos Drs. Gaspar Guimarães, mais tarde Desembargador, e Thaumaturgo Vaz, poeta de fina sensibilidade. lam eles em comissão do Governo do Estado, no aviso de guerra "Juruá", ate a cidade de Lábrea, para abrir um inquérito judicial. Tinham entrado no lago, desviando-se, assim, de sua rota, no Purus, para comprarem um rancho, o que conseguiram fartamente, sem que tudo custasse um real. De outra feita, lá esteve o almirante Jose Carlos de Carvalho, em excursão oficial ao Território do Acre. Em impressões de sua viagem, insertas no "Jornal do Comercio", do Rio, referiu-se a Lourenço Mello e afirmou "ser muito estimado por sua caboclada".
Era espontâneo, nesse homem, o espírito de gentileza e obsequiosidade. Sua casa nunca deixou de ter hóspedes que, ao se retirarem, levavam numerosas ofertas, tais como: sacos de castanha, capoeira de galinhas, doces, farinha fresca, frutas, tudo sem bajulação, pelo único interesse de ser agradável. Esse traço liberal e altruísta do seu caráter fê-lo vítima, em várias ocasiões, no trato do comércio, pois aviados seus houve que não Ihe pagaram, por esperteza, as mercadorias compradas. Dizia ele: "Deus tem mais para dar que o diabo para levar".
Em dias de dezembro de 1899, a Casa Grande esteve repleta de gente de Manaus. Lá se reuniram as famílias dos Coronéis Antonio Bittencourt e seu irmão Francisco Bittencourt, Francisco Ferreira de Lima Bacury, Eusébio Caldas e Joaquim Rodrigues Teixeira. Que satisfação imensa para Lourenço Mello e sua esposa! Quando os hospedes tomaram o navio e regressaram aquela Capital (tendo eu ficado, no meu afã escolar), não se descreve a tristeza que deixaram na fisionomia daquele homem que parece ter nascido para os grandes convívios da inteligência e do coraçao.
A casa comercial do Aiapuá tinha organização. Seu chefe não perdia um papel. A escrituração feita por ele ou por seu guarda-livros andava em dia. Terminada cada safra de castanha, de borracha ou de peixe, os fregueses recebiam suas contas-correntes, que não eram entregues sem que Lourenço Mello as conferisse.
No fim de cada ano, reunia e mandava encadernar, em volumes
fortes, pela ordem cronológica, toda a correspondência recebida. Nos "Copiadores", estava tudo que se expedia. Arquivavam-se os "Caixas", os "Borradores" e os "Razões", que se iam enchendo de escrituração. Isso vinha de alguns anos, tudo em grande armário envidraçado, que se abria e limpava constantemente.
Falecido seu proprietário, esse valioso Arquivo foi retirado e posto em caixotes, num armazém-deposito fechado. Os ratos e cupins em pouco tempo deram cabo dele. Em 1921, quando estive em Aiapuá, fui ver esse depósito. Contristava verificar a destruição completa, daquilo que tanto custara. Livros e documentos estavam reduzidos a pó...
Lourenço Mello não era somente do comércio. Prestou também bons serviços na manutenção da ordem pública, na qualidade de subdelegado de polícia do respectivo Distrito. Nunca precisou valer-se do prestígio do seu cargo para se impor aos seus concidadãos, porque, acima de tudo, pairava a sua autoridade moral, a força que é a um só tempo respeito e disciplina.
Exerceu, igualmente, por um largo período, o mister de Inspetor de índios. E, nessa função, jamais consentiu que um mura fosse maltratado. Para a legislatura de 1904-1906, foi eleito Deputado ao Congresso Amazonense. Entre as medidas que conseguiu vitoriosas, naquela Casa, esteve a melhoria da navegação do Purus, com uma linha subvencionada pelo Estado.
Lourenço faleceu a 15 de setembro de 1905, em Lisboa, em presença de sua esposa, do seu filho Wenceslau e de vários amigos. Sentindo fugir seus últimos instantes, levantou os olhos, dirigindo-se para a sua fiel e boníssima companheira de tantos anos de lutas, D. Felicidade Mello, e pronunciou: "Manda dizer ao Antonio". E baixou acabeça... Referia-se ao meu pai, que se achava em Manaus. Era o derradeiro lampejo de um homem bom, que se voltava para o seu maior amigo, na ânsia de, ainda uma vez, estreitar seus espíritos que, seguindo o caminho da luz eterna, devem estar no seio do Todo Poderoso.
Pablo Cid: AS AMAZONAS AMERÍGENAS

Pablo Cid
(Moacyr Rosas)
As amazonas amerígenas
Rio de Janeiro, Bruno Buccini, 1971
Pablo Cid
(Moacyr Rosas)
As amazonas amerígenas
(Rio de Janeiro, Bruno Buccini, 1971)
A LENDA DAS AMAZONAS AMERIGENAS que está no fôro da inteligência humana paramentada de mirífica fantasia, tem fascinantemente empolgado sempre espíritos de formoso saber científico e literário, como o de Alexandre Von Humboldt e de Carlos Maria de La Condamine. A sua existência é um caso labirintado que não nos deixa tirar uma conclusão lógica, pois tôdas as tentativas nesse sentido oferecem ao nosso juízo a impressão de um pêndulo, que oscilasse entre duas poderosas opiniões, sendo fácil portanto, aceitar qualquer delas.
Esta peremptória afirmativa não nos inibe de tentar uma honesta investigação.
Bilac, o primoroso poeta patrício, numa página de deliciosa prosa sobejamente conhecida, comenta:
“Esta lenda é uma ressurreição de uma das velhas tradições helênicas. As Amazonas, segundo Heródoto e Plínio, eram mulheres guerreiras, fabulosas cavaleiras, que viviam em nação misteriosa, na Capadócia, às margens do rio Termodoonte. Hércules venceu-as e destroçou-as, e aprisionou a sua rainha, Antíopa ou Ripólita, dando-a em casamento a Teseu. Foi Francisco D’Orellana, aventureiro espanhol, companheiro de Pizarro, primeiro explorador do Amazonas, em 1541, quem encontrou ou sonhou encontrar nas margens do grande rio as Amazonas americanas. Pizarro incumbira Oreilana de descer até o mar a prodigiosa corrente, descoberta por Pinzon e então denominada Mar-dulce. O fim da expedição era o achamento da magnífica região do Eldorado. Essa viagem foi uma estupenda sortida de heroismo alto. Durante muitos meses de combates, de misérias, de fadigas, de fomes, procurando, cada dia ao alvorecer, avistar as tôrres e as armaduras de ouro do país fantástico, Orellana e a sua bandeira percorreram 1.700 léguas, até a foz do imenso curso. Ao chegar à Europa, Orellana narrou o seu encontro com as belicosas índias, cuja existência, ardentemente discutida, foi afirmada e negada, durante muito tempo, por viajantes e geógrafos. As Amazonas brasileiras eram, segundo uns, brancas louras; segundo outros, morenas e de cabelos negros; e eram fortes e belas, ágeis e valentes, zelosas da sua independência; e tinham costumes extraordinários. Ouvi, textualmente, o que delas disse o padre Simão de Vasconcelos, autor da “Crônica da Companhia de Jesus no Estado do Brasil”: há outra nação de mulheres monstruosas no modo de viver (são as que hoje chamamos Amazonas, semelhantes às da antigüidade, e de que tomou o nome o rio), porque são mulheres guerreiras, que vivem por si sós; habitam grandes povoações de uma província inteira, cultivando as terras, sustentando—se de seus próprios trabalhos ; vivem entre grandes montanhas; são mulheres de valor conhecido, que sempre se hão conservado sem consórcio ordinário de varões...”
Tal é a lenda das Amazonas brasileiras. “Não é possível que Orellana tenha inventado de todo esta fábula. É possível que o aventureiro espanhol tenha visto, entre os índios que o guerreavam, algumas índias, e tenha acreditado que a multidão dos combatentes fôsse exclusivamente composta de mulheres; ou, talvez, como acreditam alguns escritores, êle tenha combatido com tribos de Omáguas ou Cumurus, todos homens, mas que pelo seu aspecto ou vestuário lhe tenham parecido mulheres; ou, ainda, talvez, como acreditava o padre Ivo d’Evreux, existiram realmente no Amazonas tribos só de mulheres, da raça dos Tupinambás, que, fatigadas do cativeiro em que os seus maridos as retinham, dêles se separaram e viveram à parte das outras tribos. .
Outro, Karl Von Den Steinen, que se deixara maravilhar com a história destas guerreiras mulheres, tanto que não temeu abalar a reputação de seu nome, disse: —“Ainda quando nunca tivéssemos ouvido falar das Amazonas da antiguidade, eu acreditaria, sem hesitar, nas da América, cuja existência é a mais verossímil”.
Enquanto Barbosa Rodrigues, Alfredo Ladislau, Raimundo Morais e outros negam a veracidade dêsse mito famoso, atribuindo-o a caprichos de fantasia de cronistas primévos.
O primeiro, autor do famoso O Muyrakitã, afirma, naquelas páginas de real erudição histórica, que os índios, que auxiliaram como capitães de grupo (si é que existem entre êles) a horda de aborígenas que ofereceu combate aos espanhóis do bergantim, os quais Orellana e o bom frade Carvajal tomaram por mulheres, sendo os índios aupés, cujo porte, penteado e ar efeminado e o hábito de levarem consigo as suas mulheres ao combate, bem podem ser tomados por evas belicosas. E Raimundo Morais, nem isso admite. Partindo das lendas de terras estranhas conhecidas na Europa, formula assim a sua conclusão:
“Não admira pois que Orellana, quarenta anos mais tarde da descoberta assinalada pelos lusos, para amortecer e apagar talvez a deslealdade cometida ao abandonar Pizarro à fome e ao frio nos alcantis nevados do Peru, inventasse, como incidente teatral da sua descida ao sabor de uma caudalosa corrente, as tremendas Amazonas, que, de arco e flecha, o assaltaram e o escorraçaram rio abaixo. Se na Amazônia já refloriam as histórias do variado folk-lore atual, referto de iáras e botos, de veados e jabotis, de irapurus e curupiras, Orellana juntou-lhe mais esta, reminiscência lendária da Hellade”.
OS SONHOS DOS NAVEGADORES. No século XV, todos os intrépidos nautas tinham na vulcânica imaginação um estranho país, da qual faziam brotar sonhos fantásticos, que animados pela sua tão apregoada paixão das aventuras os impeliam a arrojar-se aos mares bravios, em busca, às vêzes, de ignoradas terras. Os caminhos marítimos seduziram as imaginações dos aventureiros cansados das trilhas áridas dos cavaleiros andantes, que tão sàbiamente o primoroso Cervantes soube aniquilar numa incomparável chacota. Pois as graças escudeirais enfeixadas em tôrno do cavaleiro da triste figura que é o Dom Quizote de la Mancha, fizeram os intrépidos sonhadores trocar o dorso das bêstas pela condução em barcos à vela. Era corrente, naqueles tempos, a imaginária narração do cavaleiro inglês João de Mendeville no Livro das Maravilhas, cuja autoria, na opinião hodierna, pertence ao astrólogo de Lião João de Borgonha. Outra obra que convulsionou a mente da inquieta família marítima, foi o Livro das Maravilhas do Mundo, ditado pelo famoso Marco Polo a Rusticiano de Pisa, que o passou ao idioma de Voltaire, acompanhada a versão, para não se pôr em dúvida o seu cunho verídico, da seguinte nota: “Marco Polo, prudente e nobre cidadão de Veneza, viu tudo isto com os seus próprios olhos, e o que não viu, ouviu-o da bôca de homens de muita verdade”. Marco Polo foi, no conceito do prodigioso romancista Júlio Verne, “o mais ilustre viajante de tôda essa época”.
Outros mais livros, não de tanta monta, que também corriam impressos, e ficaram conhecidos na história com o nome de incunábulos, contribuíram para incitar nos mareantes sua parcela de encorajamento para buscarem seus objetivos.
Voltando as nossas vistas ao descobridor do Nôvo Continente, sabemos que “Colombo e Pinzon, como bem o diz Blasco Ibañez, “Em busca do Grão Kan” eram simplesmente dois sócios com direitos iguais nos lucros da viagem, embora Pinzon tivesse gasto mais que o outro, e se um era almirante, Martin Afonso era o verdadeiro armador da esquadrilha”. Portanto, bem fundados podemos afirmar que para Colombo e seu sócio Pinzon, que ambicionavam o ouro do Grão Kan da China, tinham valor as notícias das curiosas ilhas Macho e Fêmea, das quais nos fala Marco Polo. A segunda era habitada por gente do sexo frágil exclusivamente, que recebia, nos meses de março, abril e maio, visitas dos seus vizinhos, que eram povoadores da outra ilha e viviam a sós. Aqui é fácil deduzir: pois, se tal era do conhecimento da família Pinzon também o podia ser do seu aparentado Francisco de Orellana que, como os demais da mesma lida, trazia o cérebro e o coração repletos de esperanças de realizarem feitos tão’ grandes como aquêles que consagraram Hércules.
E não ‘é ignorado por pessoa alguma afeita a labutar com livros históricos em tôrno da Quarta Orbis Pars, que o próprio Almirante don Cristóbal Colón (grafia pessoal dêle), morreu ignorando a terra que havia descoberto, se o Japão ou a China, ou, ainda, as índias. A respeito de Colombo ter sido influenciado pela obra do nobre viajante genovês, o historiador patrício Mário Ypiranga Monteiro, nega-o em seu precioso livro Quarta Orbis Parsr estribado na autoridade do insigne alemão Humboldt. “Humboldt afastou esta suposição, pondo em dúvida a influência do livro de Marco Polo na grandiosa emprêsa do genovês. Cf. Cristóbal Colón, I, 53.
Acreditamos no sábio investigador, porque entre os livros comentados por Colombo não foi encontrado nenhum exemplar das viagens do italiano. A tese de Vignaud caracteriza-se pelo espírito de individualidade que empresta ao descobrimento, dando o marinheiro como pai espiritual da famosa idéia de encontrar um continente, sem a ajuda de ninguém, fôsse de Marco Polo ou mesmo de Toscanelli (Sic)“
Com a transcrição dêstes conceitos do acatado membro da Academia Amazonense de Letras professor Mário Ypiranga Monteiro, queremos evidenciar o ecletismo, com que nos comportamos diante dos nossos leitores. Em trabalho desta ordem as afirmativas, mesmo cavilosas, atuam sugestivamente no juízo dos que nos lêem.
NOTICIAS DAS AMAZONAS AMERIGENAS NA EUROPA. A quem cabe o louro de ter, em primeira mão, levado noticias destas mulheres à Europa?
Segundo o repetido conceito da História, cabe o galardão triunfal a Francisco de Orellana. É uma glória espinhosa essa, pois, tem motivado verdadeiros panegíricos em sua honra, de par com as mais violentas verrinas incendiadas de ódio.
Cabe, em são espírito de justiça, a Colombo êsse privilégio. Porém mais uma vez o almirante Dom Cristóvão Colombo foi logrado. Ainda não passou um indivíduo na história, cujos feitos fôssem tão contestados como os dêsse homem que nem pátria tem, a ponto de se lhe darem duas, para negar a verdadeira. Até ao nôvo continente, sua descoberta, dão o apelido de um mareante embusteiro Américo Vespúcio. Cerra os olhos pensando que as terras encontradas eram complementos das índias. E até às pequenas coisas, a tradição cavilosa sonega-lhe o direito.
Na famosa epístola, cujo original é desconhecido, endereçada ao tesoureiro da monarquia espanhola, de então, Don Raphael Sanches, deu notícia das amazonas, e êsse, por sua vez afirmou: “Estas mulheres não se dedicam a trabalho algum próprio de seu sexo, pois usam arcos e frechas, segundo se disse das anteriores, e se colocam por defesa lâminas de cobre, de que têm em grande abundância”. Aqui, sem desmentir a ardente e imaginosa raça latina, o real tesoureiro deu largas à sua imaginação no que diz respeito aos apetrechos cuprinos.
No curioso Diário da Primeira Viagem de Colombo, Pedro Martin, pormenorizadamente, conta que os amerígenas disseram ao almirante que mulheres sem homens habitavam a ilha de Matityma (Martinica), as quais se defendiam com armas, sem receber comando do sexo forte, e sim, de si mesmas; e foi então que o almirante apelidou-as - amazonas. Eis como se refere a êste passo, na obra citada, Blasco Ibañez: “Além disso interessava a todos conhecerem a ilha de Matinino, tôda ela povoada de mulheres que anualmente recebiam a visita dos da vizinha ilha de Caribe. Se depois da entrevista anual davam a luz meninos, mandavam-nos para a ilha dos homens, se meninas, deixavam-nas ficar consigo para serem amazonas.
Afirma Hakluyts, citado pelo glorioso Gonçalves Dias, que disseram ao navegante florentino que a ilhota de Madanino (Monserrate), estava povoada exclusivamente por mulheres guerreiras, que passavam a maior parte do ano afastadas do comércio dos homens.
A Espanha, porém, só viera ficar inebriada com as coisas fantásticas do nôvo continente, após a chegada do homem que a história condecorou com péssimos adjetivos o capitão Francisco de Orellana. E quem descreveu esta cruciante e assombradora história foi o cronista Fernandez de Oviedo, que teve a oportunidade de ainda se encontrar em S. Domingos e ouvir a narração do próprio herói que, na sua opinião, foi uma das maiores coisas acontecidas a homens e que valia a pena fazê-la desde logo conhecida na Europa. Na relação apresentada ao cardeal Bembo — Pietro Bembo, um dos entusiásticos evangelizadores do neo-platonismo e favorito da estranha Lucrécia Borja, diz, entre muitas outras coisas imaginárias, que aquelas mulheres combatiam em guerra; que viviam a sós sob o comando de uma mulher; que possuiam ambos os peitos e não matavam os filhos, mas entregavam-nos aos pais. Foi aquêle seu depoimento apresentado no dia 20 de janeiro de 1543 e publicado no ano de 1555.
Outro que também muito contribuiu para a divulgação dêste fato lendário foi W. Raleigh, que na curiosa opinião do grande bardo maranhense G. Dias, dava “ao vulgo o maravilhoso, - para o govêrno o interêsse - e para a rainha a lisonja”.
Raleigh, nascido em 1552 e decapitado em Londres a 29 de outubro de 1618, dotado de incomum espírito aventureiro, figura galharda e insinuante que se tornou um dos mais ricos magnatas da côrte isabelina, foi favorito da rainha. Esta circunstância permitiu-lhe com a palavra eloqüente, sugestiva e colorida de que era dotado, dizer nos serões reais que havia ensinado as cunhãs guerreiras a pronunciar o sagrado nome de sua majestade. Aqui fica bem a sentença hugoana: “O cinismo vale tanto quanto a hipocrisia. Humboldt comentando a astúcia do pirata inglês, disse que isso, sem dúvida alguma, excitara a sensibilidade da vaidosa rainha. “Isabel, — comenta V. Hugo — é um tipo que em Inglaterra, dominou três séculos, o décimo-sexto, o décimo-sétimo e o décimo-oitavo. Isabel é mais que uma inglêsa, é uma anglicana... Isabel traduzia Horácio. Isabel, sendo feia, decretava que era formosa, gostava dos quartetos e dos acrósticos, fazia que as chaves da cidade lhe fôssem apresentadas por cupidos, mordia o beiço à italiana, e volteava as pupilas à espanhola, tinha no guarda-roupa três mil vestuários, entre os quais figuravam vários trajos de Minerva e de anfitrite, avaliava os irlandeses pela largura dos ombros, cobria de palhetas de ouro as anquinhas, adorava as rosas, jurava, praguejava, batia o pé, dava murros nas damas de honor, mandava Dudley para o diabo, batia no chanceler Burleigh que chorava como idiota já caduco, cuspia em Mathew, agarrava Hatton pelo pescoço, esbofeteava Essex, mostrava a coxa a Bassompierre, e era virgem”. Ora, numa côrte que tinha uma rainha desta têmpera a palavra de um cínico encantador como Raleigh só podia ser acatada festivamente. Dêsse modo, a notícia das amazonas amerígenas pronunciarem o nome real, constitui uma nota sensacional nos meios palacianos.
Até esta altura os dados advogam a favor de Orellana, como não sendo êle o criador do mito, do embuste ou coisa que o valha. Se o ter compartilhado é razão suficiente para o acoimarem de mentiroso como até aqui tem procedido a posteridade para com êle, é oportuno que nos precatemos com a sentença de Montesquieu: “Uma injustiça feita a um só é uma ameaça feita a todos”. Isto para evitar que continuem os historiadores a enxovalhar-lhe o nome, fundado neste motivo injusto.
Robertson Works, em uma das páginas de sua História da América, taxa aquela narração de artifício de um aventureiro Gómara, depois de aniquilar as suas marcantes qualidades, classifica-o, com seu terrível e convincente estilo, de infiel e de mentiroso. Sant’Anna Nery, no seu citadíssimo Le Pays des Amazones, no mesmo rítmo, também crimina-o de traiçoeiro e de desumano; “Orellana se débarrasse de ces braves gens qui n’étaient pas faits pour le comprendre”. “L’un de ces infortunés était un domificam, Gaspar de Carvajal l’autre, un hidalgo de Badajoz, Hernando Sanches de Vargas”. Hoje, porém, tal juízo é integralmente refutado pela leitura da Relação do frade dominicano Gaspar Carvajal. Referindo-se a êste documento, A. Santa Rosa em sua História do Rio Amazonas (Pará 1926), diz: “a luz se derramou sôbre fatos, e a memória de Orellana tem-se imposto à consideração mais condigna do renome da gloriosa aventura”.
Acuña, que viera a estas plagas um século após Orellana, defende-o, despido de qualquer paixão. Apreciêmo-lo na tradução do distinto escritor patrício C. de Mello Leitão: “não me persuado de sua nobreza, nem é crível que tendo êste rio tantas grandezas a que pudesse lançar mão, baixeza ordinária de quem, não podendo por seus braços alcançar a honra que deseja, procura mendigar a do vizinho”.
Em suma, se fôsse criação do cérebro de Orellana —a lenda das Amazonas amerígenas — seria caso para lhe consagrarmos admiração. Pois se há mentira construtora, esta foi uma feliz e maravilhosa mentira! Ela tem dado à mesopotâmia brasileira um comprovado prestígio nas esferas pensantes dos povos cultos. Para não apontar quantiosos nomes de talentos que se deixaram impressionar por ela, basta recordar: o citadíssimo La Condamine e Humboldt, cujo gênio está eternizado em suas obras como se fossem letras de ouro em páginas de bronze.
REGIÃO DO FAMOSO REINO — A grande senhora na língua dos naturais era Coniupuiara e a capital de seu império chamava-se Caranai, onde eram as “casas assoalhadas no solo até meia altura e que os tetos são forrados de pinturas de diversas côres, que nestas casas têm elas ídolos de ouro e prata para o serviço do sol” (Carvajal).
Por falar em reinado destas mulheres, não será desoportuno lembrar que os indianos denominavam o país, no qual elas habitavam, Striradjya.
Porventura em que paragens, na Hiléia Amazônica, se ergueu tão civilizado e tão rico império? Se penetrarmos’ em meticulosa pesquisa, deparar-se-nos-á alabirintada perplexidade. O livro do padre Cristobal de Acuña por exemplo, ao qual La Condamine dá excessivo crédito, assegura de modo convicto: “Os fundamentos que há para assegurar Província de Amazonas neste rio (o Amazonas) são tantos e tão fortes, que seria faltar à fé humana o não lhes dar crédito”.
Orellana informou sua localidade, entre a foz do Rio Negro e a do Rio Xingú. O padre Carvajal que o acompanhou, dá o senhorio das amazonas estendendo-se da foz do Yamundá a “umas sete jornadas da costa”, e escreveu apoiado na autoridade do natural Carauari. Nas mesmas imediaçôes, Acufia também o situa “entre grandes montes e altíssimos cerros, dos quais o que mais se alteia entre os outros, e que, como o mais soberbo, é combatido dos ventos com mais rigor, pelo que sempre se mostra descalvado e limpo de vegetação, se chama Ycamiaba”.
O autor do famoso Muyrakitã conta-nos: “Para mim, a tribo dos Uaupés é a célebre conhecida na história pelo das Amazonas, encontradas por Francisco Orellana. A tradição que existe entre uaupés, hoje habitantes do Alto Rio Negro, de que outrora habitaram as amazonas do Amazonas, que deixaram obrigadas por uma grande inundação, concorda com o lugar que descobri na costa do Peru entre os rios Yamundá e Trombetas, que denominei Tanakuera das Amazonas; por aí, segundo a história, Orellana viu as Amazonas”. E adiante conclui: “Se a história e a tradição não falham, aí foi a aldeia das Amazonas, porque lá encontrei os muyrakytãs e fragmentos da rocha de que são feitos, assim como também aí foi achado o ídolo amazônico
Raleigh informou que o reino das mulheres sem macho demorava próximo ao rio Tapajós, onde depois de quase dois centenários La Condamine encontrou os maravilhosos amuletos. Êsse mesmo diz também que os silvícolas de Caiena lhe informaram que elas moravam ao redor das formidáveis quedas do Oiapock.
O missionário padre Gili pretendeu que tal império ficava no rio Cuchivaro, razão por que, os descendentes delas — dos aikeambenamos (mulheres vivendo só), deram à sua nova habitação, um afluente do Rio Orenoco, o nome de Cuchivaro.
O renomado viajante Carlos Maria de La Condamine soube, por informação de um velho soldado da guarnição de Caiena, que havia, numa viagem de pesquisa, penetrado até os Amicouanes, nação de largas orelhas que vive acima das nascentes dos Oiapock, que as Cunhantainsecuima, eram mulheres “que não tinham marido, cujas terras demoravam a sete ou oito dias de jornada para o lado do Ocidente”.
Em face de tantas e variadas informações não podemos, de maneira alguma, firmar um juízo concludente e positivo. Nesta altura avanço: o contemporâneo que localizar o célebre reino, ainda que fundado nos recursos de sensata lógica, pode, após pequeno raciocínio, ser aniquilado. O material literário, embora um pouco raro, sôbre as amazonas ameríndias, é vastissimo. Dentro dêste, flagrantemente, se entrechocam abalizadas opiniões, das quais, não poucas pertencem a homens cujo áureo nimbo eviterno lhes circunda o nome.
Há escritores que, soltando rédea à imaginação, crêem que Ofir e Parvain estão localizados aqui no Brasil. “Kavila e Ophir são dois irmãos, comenta Ulysses de Pennafort, isto é, dois países vizinhos, situados um ao norte, e outro ao sul. Na região do Norte, que é Ophir, Souffa ou Separará, é onde habitavam as Amazonas. Estas Amiçuanas constituiam aquela célebre tribo composta de mulheres de orelhas compridas que demoravam no país dos Ycamiabas, nos montes Cunurêz além das cabeceiras do Oiapock, e junto às nascentes do Essequibo e Caciquiari, que comunica o rio Orenoco com o Amazonas”. E uma das razões do autor está apoiada no fato de Orellana haver chamado as aguerridas mulheres de amazonas, querendo só por isso explicar que elas são descendentes das~ antigas, e herdeiras legais da ousadia e riqueza.
AMAZONAS AMERÍGENAS E SEUS SINÔNIMOS. Têm sido também objeto de polêmica ou de pesquisa o vocábulo amazonas e os sinônimos por que são conhecidas as mulheres do famoso gineceu amerígeno. Antes de mais nada devemos salientar ser infundada a etimologia da palavra amazonas, como oriunda da língua de Homero: o privativo a e o substantivo mazôs — têta, mama, peito, ou seios, sem seio, isso porque supunham que elas sacrificavam o seio direito. Ou como querem os lexicógrafos helenistas: a priv sem e mazós — petite sem. Enquanto Chassango dá a tradução da raiz alterada: “femme privée d’un sem”. A origem e composição desta palavra é discutida por outros autores de nota. E. Littré, o notável erudito francês, é um dos que afirmam: ‘t. mot d’origine fort incertaine”. E diz mais: tôdas essas etimologias são incertas; e é possível que amazonas seja qualquer nome geográfico, ou qualquer têrmo mitológico, cuja etimologia é hoje desconhecida”. (Dictionnaire de La Langue Française).
Escutemos agora, a respeito, a opinião do notável cônego Raimundo U. Pennafort: — “Eu julgo também que êste nome vem do mesmo grego amaxon, amaxion, amacion, que significa: petit chariot (pequena berlinda) uma espécie de carro de quatro rodas de que se serviam as amazonas asiáticas” (Brasil Pré-Histórico). Vejamos agora a opinião de A. Lettere (Jesus e sua doutrina, Rio, 1934), que se apóia na autoridade ilustre de Fabre d’Olivet (Histoire Philosophique du Genre Humain) Amazonas (Ramas — Ohne) que significa — sem macho. Esta palavra compõe-se de raiz mãs em latim, maste em francês arcáico, — maschio em italiano, moth em irlandês. Ohne é a negativa de onde mas-ohne, ao que o fenício aplica o artigo ha, donde, portanto: sem macho
“A palavra Amazonas nem é de origem grega propriamente dita, nem tão pouco devêmo-la ao tal Orellana, que tudo falou de outiva. O vocábulo Amazonas, adulterado como se acha hoje, é originário das línguas americanas, que por seu turno promanam das línguas semitas ou arianas, como vamos demonstrando”. E em uma nota acrescenta o mesmo escritor: “Eu admito o fato histórico das Amazonas brasilenas, porém, com os seus nomes próprios e bem significativos de Ycamiabas, nome sânskrito, de gsamicaka, ‘ysamicábas, (de ay priv. e samikabo, sem união de sexos) ; os arianos dizem ayas-gant, ysctmodjana (sem união de sexo) donde a palavra indígena —amicuanes e Aykabeninos, do mesmo sânskrito manusa-y’akeneana, isto é, mulheres que não têm marido, que vivem sós”. (Pennafort).
Referente ao têrmo amazonas, como ficou dito em capítulo anterior, tal expressão não foi pronunciada por índio algum, como em lamentável equívoco, refere o nosso acreditado historiador Visconde de Porto Seguro ao anotar as Descrições de Maurício de Heriarte, em 1871. Aliás não fui eu o Colombo desta observação, e sim, a menos que me falhe a memória, o escritor Cândido de Mello Leitão.
É também muito vulgarizado o têrmo Icamiaba, e conjetura-se com possíveis razões, que tal têrmo foi dado a estas belicosas mulheres por motivo de seu reino estar situado à orla da Serra Itacamiaba, aliás Itacamiúua (grafia muito mais corrente) conhecida também pelo nome de Yaci-taperê (aldeia da lua), sita às margens do Rio Jamudá. Pode ser no rigor etimológico uma palavra composta de quatro desinências: ita caa meen anã (a pedra da mato sôbre a qual se entregam), a qual, sofrendo várias influências das figuras metaplásticas, se reduziu respectivamente: Itacamenaua, Itacamenaba, Itacamiaba, Icamiaba. Além daquele significado há mais o seguinte:
pedra peito de gente. Pode-se ainda decompô-la doutras. maneiras mais, a saber: Camby (icami) — leite, ana (aba) — quem, logo: leite de gente. Mas outra forma de decomposição se nos apresenta: Cama, peito (da mulher) iaba, o que se diz, logo: seio falado. O distinto naturalista patrício J. Barbosa Rodrigues (O Muyrakitã, 11 parte), que tentou provar que a civilização precolombiana descendia de outra de continente civilizado e até para o nosso discutido problema, ora à balha, encontrou uma significação idêntica a do propalado vocábulo helênico amazonas. Vejâmo-la: Ycamiaba, v-ela, cam-seio, ninão, aba-qua (pre’ posição verbal): a que não tem seio. Além destas, podemos trazer mais uma de duvidosa origem, como anteriormente vimos na transcrição que fizemos em linhas acima da autoria do cônego Pennafort.
Examinemos a outra expressão — Cunhátesecuyma (mulher sem marido), cog-mantain-secoima; ambas têm a mesma tradução e foram grafadas pelo célebre viajante e cientista francês La Condamine, na página 104 de sua monumental obra Relation d’un voyage fait dans l’interieur de l’Amerique Meridionale (Paris, 1745). Em torno do primeiro têrmo o sr. Ângelo Guido em seu livro editado pela Livraria do Globo, opina que aquêle escritor “não tenha grafado com segurança a denominação dada às amazonas pelos índios que ouviu. Talvez tivesse proferido cunhantãs-secó-imas (o grifo é meu), unia vez que secô, como recô é o mesmo que tecô, isto é, uso, costume.
É provável também que da fusão das três palavras que compõem a expressão com que eram designadas aquelas mulheres resultasse cunhãtesecuimas. Entretanto, decomposta a expressão, resultará, como já fizemos notar, mulheres-lei-sem, e não como interpretou La Condamine, mulheres sem marido, pois que marido, em nheengatú, é mena e menasaraima quem não é casado ou casada. Logo, “mulher sem marido” devia ser cuuhãs-menasara,-imas e não cunhãtesecuimas”. Aqui peço vênia ao apreciado escritor para uma pequena observação, e esta, aliás, devo ao saudoso e culto amazonólogo Dr. Octaviano de Mello, “Ita”, no fim das palavras daquele idioma é uma desinência que pluraliza; por conseguinte, aquela pluralização à portuguêsa é errônea. Bom momento para repetir aquela sentença do mestre Horácio: “Quandoque bonus dormitat Homerus”.
Coniupuiára, melhor seria cunhã-pujava ou cunhãpujara, cuja tradução é “Grandes Senhoras”. Êste têrmo foi ouvido e anotado pelo frade dominicano Gaspar de Carvajal.
Aikeambeno, na língua tamanaque, segundo afirma em Saggio di Storia Americana o abalisado padre Salvador Gili, é — mulheres que vivem sós.
Pelo visto, até aqui, a etimologia, sinceramente, não dá margem para conclusões.
MUIRAQUITÃ — Passagem embaraçosa em que os negadores da existência das amazonas americanas esbarram, como diante de um enigma, é a referente ao amuleto muiraquitã.
Esta lenda, colorida num fausto verbal, perturba os que lhe perquirem as origens. Começa por aí a história dos talismãs das amazonas. Na verdade, existem as pedras verdes. Essa côr verde tem um significado melancólico. Parece tomado às nostalgias por lhe faltar o calor que animava as robustas mulheres lendárias. Mas, o verde-pálido não será porventura a côr da saudade? A côr exata do amuleto é a côr da saudade.
No momento em que escrevo, estamos no segundo quartel do século XX, e é crença que o muiraquitã tem a virtude de dar sorte a quem o trás consigo em um estôjo de prata pura. Outra coisa curiosa a notar é a sua temperatura que lembra a do ouro, também possuidor de temperatura própria.
Em estudos dêste gênero, é imprescindível uma divagação etimológica, enfadonha sem dúvida, mas que nem por isso deixa de ter o seu interêsse.
Vejamos. A esta pedra opaca, côr de alface, chamou-se na Europa Beilestein (que é o resultado da união do silicato de magnésio, cálcio e ferro), variedade compacta branca-esverdeada de actinoto. Tem como sinônimo nefrito, pedra que nossos avoengos das margens do Mediterrâneo usavam como substância terapêutica infalivel na cura de suas cruciantes cólicas renais.
Lá, no velho continente europeu, se propõs e se usou por algum tempo o sonoro vocábulo composto — amazo-nen.stein, que traduz: pedra das amazonas. Aliás não é desoportuno, aqui, fazer uma ligeira referência às amazonas da antigüidade. Esta pedra de que ora se cogita. não tem nenhuma relação com o mineral que usavam as citas, aquêle curioso bando de mulheres que, deixando os maridos, assentou moradia nas ribas do sinuoso Termodonte, em Capadócia, e que era denominada por Plínio e Teofraste de — “esmeralda”. Era assim que geralmente apelidavam todo gênero de pedra verde, quer fôsse translúcida ou opaca. Isso apenas elucida que a ignorância não tem idade.
O conde Ermano Stradelli, cujo nascimento numa província italiana foi saudado com festejos populares, contrastando com sua morte ocasionada pelas torturas do mal de Hansen, taciturnamente enlapado na sua dor íntima, escreveu a palavra myrakytan, que não só foi aceita pelos estudiosos, como conquistou popularidade. Dá sua tradução assim: kytái, kytctn, nó de madeira; rnyrá, muyrá, ‘mbyra, árvore, pau, madeira. Já Maurício de Heriarte, acorde embora na tradução, grafa o vocábulo dêste modo: uuraquitan, dando-lhe o gênero masculino.
Outra particularidade digna de nota.
Muiraquitã é o legítimo nome dos amuletos manufaturados em madeira pelos indígenas da estepe verde do continente sul-americano, enquanto que, na realidade, itaquitan é o nome dos talismãs feitos de pedra, e que se têm encontrado com certa abundância. Faz-se-lhes um orifício em um dos extremos, o qual serve para atravessar um fio que é atado ao pescoço. O curioso diante de uma pedra adquirida das mãos dos selvagens pode fàcilmente confundir o itaquitan com o tembetá, que é um bodoque de pedra (artefato arqueológico verde), que os goitacás, tupinambás e tamoios usavam vaidosamente no lábio inferior. Afirma Heriarte que os índios do Maranhão compravam a noiva com pedras verdes denominadas: baraquitãs. Henry Wassen, em seu estudo, reportando-se às arqueológicas rãs verdes da Amazônia e fundando a sua opinião em Franz Heger, afirma que se deve restringir o têrmo muiraquitã, e sõmente aplicá-lo “aos pequenos, furados e, muitas vêzes, zoomórficas pendentes de nefrite achados numa área bastante definida ao redor de Óbidos”.
Nas lendas eruditas sôbre as amazonas é comum deparar-se-nos a palavra incáica — Yacumana, que é a mãe do muiraquitã e mora na parte mais íntima do ventre dos .lagos.
O talismã em questão é uma variedade de jade —.a sagrada pedra dos chinos, que Confúcio venerava como símbolo da virtude, O mito ameríndio é algo pitoresco.
Eis como J. Barbosa Rodrigues, em seu “Muiraicytã”, resumiu a fascinante lenda:
“Diz-se que outrora no lago Yacyuaruá (Yacy: lua; ~uaruá: espelho; o espelho da lua) reuniam-se as amazonas em certa época do ano, em determinada fase da lua, depois de dia de expiação faziam uma festa dedicada à lua e à mãe do muirakitã, que no fundo do lago habitava. Finda a festa, quando as águas estavam límpidas e nelas, como em um espêlho, a lua se refletia, tôdas as amazonas se lançavam no lago e iam ao fundo receber das mãos da mãe do muirakitã os mesmos, com as formas que desejavam. Saíam moles, mas em contacto com o ar endureciam. E esculpiam como desejavam.
Êste amuleto tem um tamanho padrão e nunca se viu, pelo menos que eu saiba, um que fuja a pouco mais ou menos de dois centímetros de comprido por um de grossura, e trazendo sempre em relêvo a escultura de um. animal da selva amazônica, que pode ser uma rã com suas. elásticas pernas encolhidas, veado em fogosa carreira, tartaruga em sonolento repouso, onça, jacaré, e outros bichos de nossa quase insuperável fauna.
Estranho, verdadeiramente inexplicável é o desenho de uma pedra que ainda deve dormir no famoso museu do Sumo Pontífice Benedito XIV, em Bolonha, representando uma perfeita cabeço de poldro. Ora, o caso é realmente de admirar, pois, como sabemos, tais herbívoros foram introduzidos nestes pagos sul-americanos por seus intrépidos colonizadores. O professor Water Spalding, num estudo moderno de demorada investigação sôbre a “Origem do cavalo atual”, na América, no Brasil, refutando alguns autores que querem comprovar existências de eqüinos na América, estribados em vocábulos de que os naturais se servem para denominar aquêle quadrúpede, argumenta:
“Isso, portanto, não prova reminiscência do Equus na América e tanto mais que entre várias tribos andinas, como brasileiras de Mato Grosso e do Amazonas, não há palavra que designe, ainda modernamente, o cavalo; entretanto, onde cêdo se fêz sentir a influência européia, o cavalo surgiu e, com êle, a designação indígena, adaptada”.
Heriarte acrescenta: “contas redondas e compridas,. vasos para beber, assentos, pássaros”, e o mais já citado.
“Saiam moles, mas em contacto com o ar endureciam”. A propósito desta frase, diremos que, em sua Histoire Naturelle, Mineraux Du Jade, Buffon afirma que a pedra das mulheres guerreiras do Norte da América do Sul não é um produto imediato e simples da Natureza. A Amazonenstein cuja dureza está entre o quartzo e a.mica, sofre, preliminarmente, o lavor de escultura e levada em seguida ao fogo. Só assim se explica a sua elevada dureza a ponto de não sofrer na superfície os atritos da lima e, unicamente, deixar-se riscar pelo diamante. Omalius supunha-a da hierarquia das sílicas e classificou-a de feldspato compacto. O glorioso Humboldt não lhe aceitou a classificação como uma variedade de jade e nem como sendo feldspato compacto, mas simplesmente feldspato. Num mais recente estudo, O. Derville encontrou neste minério ora estudado: nefrite, jadeite, yete,. esteatite e quartzo.
Muito se tem escrito sôbre a fonte dos famosos talismãs, sem, contudo, qualquer uma das suposições ter o mérito de ser concludente. Admite-se a forte hipótese de que sua jazida está no Turkestan chinês, sendo sua manufatura destinada a grandes colares que se acumulavam, enriquecendo o patrimônio dos antigos mandarins e do soberano do antiqüissimo império. O famoso etnólogo brasileiro Barbosa Rodrigues fundou sua teoria nesta conjectura que por sua vez é calcada nos trabalhos do conselheiro Fischer, que explica a vinda de tais amuleto dependurados aos pescoços dos componentes das grandes ondas humanas que desceram das frias escarpas do Tibet, dos gelados dorsos do Pamir e da acidentada Mandchúria e atravessaram a pé enxuto o lugar, hoje denominado estreito de Behring.
A maioria dos amazonólogos, porém, não crêem na sua descendência asiática, mas amazônica, estando ainda aberta a questão de saber verdadeiramente onde está o seu leito geológico. Este heróico mineral tem sido achado na América do Norte, em algumas paragens da América Central e em muitas regiões da América Latina. Os numerosos talismãs que apresentam a forma de rã tanto se têm encontrado na Venezuela como na América Central. Ora, se êstes amuletos eram presentes que as queridas filhas dos Trópicos davam como mimos, numa concludente prova de alegres afetos daquelas poucas noites passadas em comum, aos bravos selvagens de determinadas tribos, como foi, todavia, possível, aos muiraquitãs locomoverem-se a paragens tão diversas? É certo que a resposta pode ser arquitetada fàcilmente, estribada no fator -tempo. Mas outros pretendem explicar a seu modo. Assim, Heriarte, reportando-se aos contos mitológicos dos Xágaba, explica que a rã verde corria à semelhança de moeda para comprar mulheres. Em Forschungsreise zu den Kágaba, Konrad Theodor Preuss descreve uma interessante lenda da tribo chibcha da Serra Nevada de Santa Marta (Colômbia) em que depois do colorido prelúdio o sol pede em casamento a filha do pajé, e êste, por sua vez exige que lhe pague uma rã de pedra verde e outra de pedra vermelha.
Outros ainda dizem que os chefes dos Tainan usavam-nas para minorar as dores das espôsas durante o parto.
Se estas coisas têm algo no fundo de veracidade, por que não acreditar na sua perambulação? Eu, pelo menos, não me recuso a acreditar. Nem sempre os Tomés são os mais sensatos. O local da origem do artefato, afirma Franz Heger, é completamente desconhecido. No baixo Amazonas, nas proximidades de Óbidos, entre as fozes ~dos rios Nhamundá e Tapajós, perdidos nas alvas e rebulhantes areias das praias do soberbo Amazonas, tem-se descoberto êsse mineral. Eis a razão por que: C. H. de Goeje (Oudheden uit Suriname) acredita: ‘parece bastante seguro que na região do Amazonas, entre o rio Yamundá e o rio Tapajós, havia um centro de distribuição dêsses objetos”.
Fiquemos, pois, com a crença, uma vez que não nos foi possível descobrir a realidade confortadora.
AS MULHERES PRIMITIVAS. Aqui, não será extemporâneo dizer algo sôbre as amazonas primitivas.
Justino, baseado nos documentos de Trogno Pompeu (Hist. L. 2 e 4), conta que Scolopito e Ylinos, príncipes citas, expulsos de sua pátria, foram habitar a Capadócia, à margem do rio Termodonte, com um grande número de jovens que levavam consigo. Constituíram família e foram, um dia, vítimas de uma emboscada preparada pelos seus inimigos. As infelizes viúvas - aqui se iniciam os primeiros dias das amazonas - mataram os poucos homens que lhes restaram, maridos de suas companheiras, as quais a desgraça não havia ferido, para que fôsse a dor igual no coração de tôdas. Então ofereceram combate aos inimigos, a princípio em defesa das fronteiras de suas terras e logo mais para estabelecer a paz. Repudiaram por completo o matrimônio, mas uma vez ou outra permitiam aos vizinhos compartilhar de seu leito. Os filhos, frutos destas aventuras, vinham à luz sob um triste signo: tiravam-lhes a vida logo ao nascer, enquanto as filhas eram educadas para a equitação, para a caça e mormente para as armas. Todavia antes de as entregarem a êste escabroso mister, queimavam-lhes o peito direito para não causar obstáculo algum ao lançamento da seta. Existe também outra versão, segundo a qual os seios das amazonas eram atrofiados através do uso contínuo de um aparelho de cobre, fabricado especialmente para .êste fim. Ângelo Guido, já citado neste trabalho, contraria êste fato, argumentando assim: “Para se ter uma impressão de como os gregos representavam as Amazonas, sem a mutilação do seio, basta passar os olhos nas numerosas reproduções de frisos e estátuas sôbre o assunto, reproduzidas na obra de Salomon Reinach”.
Prosseguindo, todavia, dentro da narração de Justino. As Amazonas fizeram várias rainhas; concluindo a dinastia com Talestris, a qual conseguiu a presença do próprio Alexandre Magno em seu leito durante treze noites, a fim de ter um filho. Foi porém frustrada ‘a esperança. Parca lhe tirou a vida pouco tempo depois. E com ela extinguiu-se o original e turbulento reino. Xenofonte, que viveu antes de Alexandre, fala nas terras em que se acredita que viveram as amazonas, mas não toca,. mesmo de passagem, na existência das mesmas. Será que em sua época eram já uma fábula ou ainda não existiam? Outro fato que milita contra a intimidade de Alexandre e as amazonas é Ptolomeu e Aristóbulo, que acompanharam o insuperável conquistador, não relatarem coisa alguma relacionada com as belicosas cavaleiras, e que consolide a suposição de haver Alexandre passado noitadas em orgia com Minithya, como também chamavam a última soberana das amazonas.
Deodoro de Sicília, historiador grego e coevo de Augusto, nos livros III e V, conta as façanhas dêste exército feminino em várias partes do mundo em que habitaram, enquanto Apolônio — C .1. — explica assim a razão de sua independência: “deusa irritada (Vênus) as tornou aborrecidas a seus maridos, que, abandonando-as, procuraram novos prazeres nos braços das escravas que cativaram; dissolvendo a Thrácia e ardendo de ódio e ciúme, assassinaram os seus próprios maridos e rivais, na mesma noite de infidelidade”. Em tôrno dêste poema, & imortal vate maranhense Gonçalves Dias escreveu que,
à falta de assunto original e empolgante, “Apolônio teve de recorrer ao maravilhoso e sobrecarregar o seu poema de episódios.., e valeu-se da tradição das amazonas, que na ilha Lenos aparece tão fora de caráter.., como as habitantes das ilhas dos Amôres aos companheiros de Gama”.
As amazonas da Líbia (L’Atlantide, de Otto Silbermann, pág. 71 — Cristóbal Colón y El Descubrimiento de América, Humboldt, pág. 163), segundo a tradição, surgiram à margem da Lagoa Tritonida, cuja primeira rainha foi Pallas, filha de Japeto Atlante.
Estas mulheres, um dia, comungando o desejo de sentir a sensação da liberdade, fugiram ao jugo do homem e conservaram a virgindade até certo tempo. Mas quando atingiam a idade padrão de se entregarem ao homem, arranjavam marido que também lhes servia de criado. Era o matriarcado por excelência. É uma aberração da natureza, mas da qual se tem notícia, uma vez ou outra, nestes milênios de história, e que contrasta paradoxalmente com a lenda de D. Juan, e com a existência de Casanova! Os frutos femininos daquelas uniões eram recebidos com indizível alegria: gozavam de todo cuidado materno e eram alimentados com leite de cabra, ao passo que aos do sexo forte lhes inutilizavam os membros, para mais tarde não se tornarem superiores, como era fado da natureza. Quem não se revolta ainda com aquelas cenas imortais do Homem que ri, que foi mutilado pela mão perversa de um anatomista mercenário? Mais dolorosa é esta cena, em que a própria mãe surge como protagonista.
Conta-se também que na Europa, em idade prehistórica, mulheres aboríginas, em grande número, entregues ao culto da Magia, isolaram-se dos homens, ocultando-se à sombra das densas florestas, ou nos antros dos montes lavados pelo dilúvio.
Escondido sob o pseudônimo de Eneas Silvius (*), o papa Pio II escreveu em sua História da Bohêntia (Capítulo VII), que outrora, no século VIII, existia naquele país uma forma de república idêntica à das amazonas, sob a direção da inteligente e ousada môça Valasca, uma das damas de tylissa, filha de Crocus, rei da Bohêmia. Estas, sob o ponto de vista materno, não ficaram aquém no plano de crueldade às suas antecessoras, pois também recebiam jubilosamente as filhas, e aos filhos lhes vasavam o olho direito e lhes cortavam o polegar da destra para os impossibilitar de entesar o arco. E, além disso, viviam organizadas militar e civilmente.
Agora, é o audacioso e celebérrimo Marco Polo quem vem à balha, informando o imaginoso Júlio Verne, o qual, em seu livro Descoberta da Terra, pág. 89; vol. 1, escreve:
S... da Arábia oxide arribou às ilhas Macho e Fêmea, assim chamadas porque uma é exclusivamente habitada pelos homens e a outra pelas suas mulheres, que êles só visitam nos meses de março, abril e maio.
Aqui, neste bosquejo, encontram-se quase tôdas as notícias que a História não esquece, referentes às mulheres de todos os tempos, que se alistaram nas milícias de Marte e sacrificaram ou afetaram sacrificar no culto a Vênus.
(*) Incido no êrro para não quebrar o ritmo histórico de vários séculos, pois o nome verdadeiro dêste historiador foi Enéas Silvio Piccolomini, que exerceu a chefia da Igreja cinco anos, onze meses e vinte e seis dias, com o nome de Pio II.
USOS E COSTUMES DAS AMAZONAS — Um perfume de sedutor mistério paira na história destas mulheres; para tôdas as conjecturas que se imaginam só há uma resposta: reticências e interrogações...
O tantas vêzes citado bergantim “Vitória”, construído à margem do Rio dos Omáguas, comandado por Orellana, desceu “O das águas gigante caudaloso, que pela terra alarga-se vastissimo”, — F. G. Magalhães.
O Mar Dulce, na expressão de Pinzon, que só vigora historicamente, vinha tripulado, além do comandante, por dois frades, um dos quais era Carvajal, e cinquenta soldados espanhóis. Navegavam em busca de alimento para os numerosos companheiros que ficaram à margem do Rio Omáguas, o qual, na valorosa opinião de Toribio de Medina, é “o Napo no ponto de sua confluência com o Aguarico”. O destino, porém, não quis que o bergantim tornasse ao ponto da partida como haviam combinado. Quanto mais dias se passavam, mais crescia a distância e a fome mais assolava a bordo com o seu horripilante aspecto, como afirma pungentemente o frade: chegamos a tal extremo que comíamos couro, cintas e solas de sapatos cozidos com algumas ervas”. É conhecido de todos que a fome não respeita o direito de propriedade, e mormente propriedade do selvagem. Razão por que vou extrair um trecho da Vida de Cristovam Colombo, de W Irving: “contra os quais tinha de empregar fôrça para obter provisões. Em alguns lugares as próprias mulheres carregavam contra os espanhóis; e esta circunstância deu lugar à fabulosa narração”. Esta foi fantasiada e cunhada como verídica pelo índio Apária (*), a quem Orellana deu grande e até demasiado crédito. Outrossim, não nos devemos olvidar que as perguntas eram formuladas pelos europeus ao seu próprio arbítrio. Tanto assim, que quando interrogaram ao índio trombeteiro, prêso na escaramuça dos brancos e naturais entre Iamundá e Trombeta, sobre as mulheres (* *) que supôs ter visto em terra oferecer combate aos seus; as perguntas eram formuladas a bel prazer e as respostas não se faziam esperar e sempre afirmativas. Destas perguntas houve algumas bem absurdas que foram afirmadas. Entre outras as seguintes: ‘a de andarem vestidas de finíssima (!!) lã; a de terem camelo.
(*) Apúria, também grafado Aparian ou Parian, segundo a observação de Toribio de Medina, assim chamava-se o selvagem que deu notícia das amazonas, o que fêz acordar a imaginação do aventureiro, cujo espírito errava em mirificantes sonhos de encontrar algo portentoso; era a cobiça de todos os nautas, era o que fazia crescer o número de alienígenas em todos os países. Não obstante, a inferioridade intelectual do índio podia, assim mesmo, sugestionar Orellana; pois a faculdade de sugestionar não é privilégio de raça. “A sugestividade — diz A. Austregésilo — é Laculdade humana predominante”. E acrescenta mais, os sugestionáveis são indivíduos de boa fé.” Orellana, hoje, está quase provado, era um homem bom. Mas os naturais são, em regra geral, uma corja de ladinos. Logo, não é estranho que Apária afirmasse que estivera em terras do gineceu das amerígenas.
(**) A respeito do caráter do indígena meridional eis o que diz Neri Tanfucio, citado por Lombroso em seu famoso El Delito:
“Astutos, mentirosos y timidos, su existencia es una serie de pequenas fraudes”. Na opinião de Gonçalves Dias: “como crianças, respondem muitas vêzes no sentido em que supõem que desejamos a resposta e prestam fàcilmente seu testemunho a cousas que nunca viram”. Blasco Ibaflez, historiando a descoberta da América diz:
“Êstes eram dados ao exagêro, a responderem afirmativamente a tôdas as perguntas, não mostrando estranheza em presença de qualquer objeto que lhes mostrassem, e assegurando que os havia iguais nas suas terras, mas longe, muito longe, numa região fantástica que, conforme o seu capricho, situavam em pontos diferentes do horizonte”.
E, no entanto as que êles viram andavam como nossa mãe Eva. Ei-las aqui, retratadas pelo frei Carvajal, que também foi testemunha ocular: “Estas. mulheres são muito alvas e altas, com cabelos muito compridos, entrançados e enrolados e andam nuas em pêlo tapadas em suas vergonhas...” Não são casadas, mas quando lhes vem aquêle desejo” vão buscar os vizinhos.. à fôrça (!!) ; e depois, se nascem filhas são bem recebidas e se, ao contrário, forem homens, matam-nos ou os devolvem aos pais (‘1)
A ARISTOCRACIA DAS AMAZONAS — “Trazem os cabelos soltos até o chão (*) e postas na cabeça coroas de ouro, da largura de dois dedos” — como pachorrentamente escreve o bom frade espanhol. Tinham bastante fôrça, tanto que causou admiração uma delas meter “um palmo de flecha em um dos bergantins”.
Sôbre o assunto Herrera escreveu que atirar flecha não é novidade nas índias, como se viu nas ilhas Barlavento, Cartagena, etc. (Hist. de La Decouverte et de La Conquête du Perú — Paris, 1742/4 Cap. II).
Quem primeiro especificou a natureza de sua raça foi Alonso Rojas, que disse serem elas raça superior e também foi o primeiro a afirmar que elas só tinham um seio. Em tôrno de tal assunto industriou-se muita literatura entulhada de fantasias, algumas das quais, descrendo do mito, derramam acusações ao nome de Orellana.
(*) ... cabelos soltos até o chão.., com esta informação poder-se-ia apurar um dos pontos sólidos para refutar os adversários de Orellana, firmando-se na autoridade do insígne Gregório Maraflon (A Evolução da Sexualidade e os Estados Interseccuais, p. 32): “A longa cabeleira foi sempre de fato um dos caracteres específicos da atração sexual da mulher”. E acrescenta em uma nota à mesma página: “Segundo Bucura os cabelos da mulher podem atingir a altura do corpo, enquanto que os do homem não ultrapassam nunca os ombros”. Segundo Rank, “o comprimento médio do cabelo feminino é de 75 cm, porém, freqüentemente atinge a 150 cm, e mesmo mais (Stratz)”. Sólida teoria; mas com calcanhares de Achiles. É sabido que existia na bacia amazônica uma tribo mais branca que as demais, assim conta Heriarte, e que os aventureiros lusitanos chamaram Encabelados, “por trazerem os cabelos mui compridos em demasia, que às vêzes lhes arrastam pelo chão, assim os homens como as mulheres...
La Condamine não identificou o seu criador, porém acreditava que fôsse criação de europeu o dar-se como hábito daquelas amazonas amputarem o seio direito às filhas. A respeito, um escritor de nomeada, como tivemos oportunidade de dizer em capitulo anterior, assevera que para usar aquêles instrumentos guerreiros não há absoluta necessidade do sacrifício daquele órgão.
Comentando a obra de La Condamine, o celebrado bardo de Caxias adverte: “A cauterização ou amputação do seio era operação cujos perigos mal podiam êles suspeitar, e o próprio Cunha a refere de um modo tão singelo e simples, como se tratasse de aparar unhas ou cortar o cabelo”.
SEUS AMORES — Dando folga à imaginação sôbre os amôres das Icamiabas, alentado volume poder-se-ia escrever. Aqui, todavia, nesta síntese, só pretendemos essencial.
E para tanto compulsemos obras que digam respeito a tal assunto. Carvajal, como se viu em outro capitulo, diz que tinham comércio com o sexo forte de tempo em tempo. Alonso de Rojas conta que recebiam visita, uma vez por ano, dos índios Omáguas, a qual durava dois meses. Acunã escreveu que tinham comércio com os varões uma vez por ano, e os ditosos favorecidos chamavam-se Guacarás, que em sua obra (Lettres Americaines, Boston, 1788), Caril observa esta curiosa coincidência: a denominação dêstes naturais se assemelha muito com a dos agraciados das antigas amazonas, que, segundo Strabão, era — Gargari.
Agora vejamos o seguinte: na hipótese de que haja veracidade nesta tradição, é absurdo crer-se no regime sexual destas mulheres. Primeiramente, considerando o poderoso fator climático, devemos lembrar-nos que, mesmo em qualquer parte que se localize o reino feminino, está colocado na zona equatorial, cuja fôrça fenomenal é apta em desenvolver tudo com luxuriante beleza e precocidade, quer no reino vegetal, quer no reino animal. As mulheres alcançam a puberdade, nesta região, com menos idade que as outras noutros climas. Depois de algumas considerações, Mantegazza, em seu incansável labor de pesquisar a fisiologia da mulher, expende: “entre todos êstes fatôres o mais eficaz é o clima; pois é certo que, nos países quentes a puberdade se desenvolve primeiro que nos países frios”.
Isso, todavia, de se tornarem mulheres prematuramente, não quer dizer que fôsse impossível guardar castidade. Isso será talvez exato, porém depois das primeiras relações com o sexo oposto, pois o apetite genital ou libido, ou ainda tumescência só aparece com pronunciado vigor nas mulheres que praticaram o amor real. Porventura esta teoria vai de encontro ao paradoxal conceito do notável sexeólogo G. Marafion: — “O orgasmo é um luxo na mulher, uma necessidade no homem”. Se, na realidade, assim fôsse, muitas mulheres não deixariam periclitar a honra conjugal, para buscar alegria fora de sua alcova. Sabemos também da grande distinção que há entre aquelas e estas, que constituem o firmamento do nosso hemisfério social. Aquelas indubitàvelmente não conheciam muitas noções de higiene, enquanto as nossas se esmeram no culto da pele, o que faz lembrar a afirmação do filósofo irônico de Fèrney: “O zêlo da própria saúde faz mais sensíveis os órgãos da volúpia”. Isso, porém, não debilita o juízo formado em tôrno das amazonas. Aceitemos, agora, porém, ‘a palavra de Lombroso: “La estadística y la fisiologia humanas demuestran que la mayoria de nuestras funciones sufren la influencia del calor”. E mais adiante ‘acrescenta y, por consecuencia, al fanatismo religioso y despótico. De aquI un exceso de libertinaje”...; razão por que, dada a existência delas, não podemos de modo algum aceitar tão proverbial castidade.
A natureza tem leis irrevogáveis.
Agora escutemos a espirituosa conclusão que delas tira o grande Montesquieu (Esprit des Lois, L. 14 Cap. 1): “O certo é que o alvorôço com que elas recebiam os hóspedes, e que Acuiña nos relata, mostra que lhes não era indiferente aquela união”.
Lopez de Gomora, ainda que não fôsse um cientista, era um homem instruído e descrente de muitas coisas atribuidas às Amazonas, como se vê no seguinte período:
“Nem creio que nenhuma mulher queime e corte a mama direita para atirar com o arco, pois com ela o fazem à maravilha, nem creio que matem ou desterrem seus próprios filhos, nem que vivam sem marido, sendo luxuriosíssimas.”
Havelock Ellis, o egrégio sexólogo, em um dos seus eruditos livros, defende os ameríndios com invulgar brilho e cultura. Diz que, para ser estudado o selvagem, não deve êste ter tido contacto com o civilizado — o semeador de libertinagem. E considera-os mais moderados em suas relações que os civilizados. “A raça é menos lasciva que as raças negras e brancas”. E explica a razão, atribuindo-a em grande parte “às duras condições da vida, assim como a uma qualidade insensível do tecido nervoso”. Não poderemos negar o precioso senso científico que encerra sua teoria, porém não nos satisfaz ao pensarmos em aplicá-la às Icamiabas, cuja riqueza tinha proverbial fama. As da alta estirpe serviam-se em baixeIas de ouro! A construção de suas casas era de pedra. Suas roupas de finíssima lã! E, mais ainda, possuíam escravas; logo, essa gente tinha boa vida e do seu extensíssimo reino, com dezenas de tribos recebia a senhoriagem.
Enfim, mais coerente foi o imortal sábio Humboldt (Voyage aux Régions equinoxiales, Paris 1816, T 8.0) quando, após uma análise do tema, disse: “recebiam depois visitas de algumas tribos vizinhas e amigas, quiçá menos metodicamente do que confessa a tradição”.
Agora, concluindo o presente capítulo, vejamos as palavras do abalizado dr. Alexis Carrel em sua magistral obra O homem, êsse desconhecido: — “A mulher é na realidade, profundamente diversa do homem. Cada célula do seu corpo tem o sinal do seu sexo. O mesmo acontece com os seus sistemas orgânicos, e sobretudo com o sistema nervoso. As leis fisiológicas são tão inexoráveis como as do mundo sideral, e é impossível substituí-las pelos desejos humanos; temos de as aceitar tais quais são.
LA CONDAMINE (Relation abrégée d’un vayage fait dans l’interieur de l’Amérique Méridionaie, Paris 1745), o defensor galhardo do sonho de Orellana, buscou em todos os lados abundante documentação, que é, até certa altura, incontraditável. Todavia, Gonçalves Dias, em seu trabalho, “Amazonas”, que, sem favor algum, é o melhor trabalho sôbre tal assunto escrito por brasileiro, contradiz muitos passos da obra do francês; aliás, muitas destas contradições têm sido usadas por escritores nacionais como de primeira mão.
Suponhamos, porém, que as Amazonas tenham existido, para considerar certas originalidades suas, que, não resta dúvida, são genuínas aberrações da natureza.
Exemplos: Oferecer combate aos homens por instinto, sabendo nós que “é sempre o macho — afirma Voltaire — que ataca a fêmea e com maior particularidade comenta Marafión. “Esta lei não varia dos animais inferiores ao homem: Desde a origem celular da vida — o espermatozóide procura o óvulo”.
Não é fácil também de compreender o motivo delas atrofiarem, ou cauterizarem, ou ainda mutilarem o seio direito, visto que êste em nada lhes obstava o uso das suas rudes armas.
Quanto aos filhos que, segundo uns, elas matavam, observa Gonçalves Dias: o infanticídio é um ato que repugna à natureza. E no caso de entregá-los aos pais, só o faziam no ano seguinte; tinham, então, três meses. E como se explica o resto, se êles não possuíam mulheres para cuidar dos recém-nascidos?
Pergunta Gonçalves Dias: se fôssem elas fecundadas no mesmo período do ano, caso aliás possível, como poder-se-iam defender de uma agressão dos seus inimigos nos últimos meses de gravidez?
Conversando certa vez com um etnólogo ilustre, Professor Harald Schultz, a respeito destas mulheres, êle, a dado momento, ex-abrupto inquiriu:
- Voce crê na existência das Amazonas?
Vacilei e demorei um pouco a resposta. Ora, eu tinha escrito êste trabalho, justamente para provar que foi uma realidade a existência das amazonas amerindias. Moveu-me o desejo, antes de encetá-lo, de apresentar provas irrefutáveis, não arquitetadas por mim, mas fundadas em fatos. Que encontrei? Sábios e escritores com opiniões divididas: muitos dando crédito e alguns negando. Como história, todavia, não é dogma que se fundamenta na crença para aceitar ou não, minha opinião, depois desta cansativa pesquisa sôbre as amazonas, nada pode significar. E noto ainda: quanto maior é a distância da época em que a notícia de seu reinado adveio ao conhecimento da cultura européia, tanto mais os perquiridores vão tornando-se indecisos. Humboldt, La Condamine, Steinen não encontraram provas concludentes, mas se declararam inclinados a aceitá-las. Já não se deu o mesmo com os poetas de raça, tais como Gonçalves Dias e Olavo Bilac, que trataram o assunto como lenda. E eu que estou mais distante ainda, devendo por isso mesmo ser mais cauteloso, respondi, então, ao Dr. Harald Schultz:
- Não.
- Pois eu creio. Afirmou o ilustre etnólogo.
E explicou-me que a região, onde se acredita tenha existido o império das amazonas, é desconhecida e ainda não explorada. Vinte anos na selva, em completo abandono, seriam bastante para sepultar qualquer cidade. Um silvícola disse-lhe uma vez que sabia onde estavam as ruínas de tal reinado. Mas, como êle estava de regresso a São Paulo, não pôde verificar a região apontada pelo amerígina. Tempos depois, procurou o aborígina e não o encontrou. Assim, o etnólogo ficou com a crença de que existiram as Amazonas ameríginas, e nós com a convicção de que elas constituem apenas uma fábula encantadora.
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Pablo Cid: AS AMAZONAS AMERÍGENAS
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