domingo, 15 de fevereiro de 2009

Emily Dickinson



Emily Dickinson

(tradução de M C Ferreira)




que sempre amei
trago-te provas
até que amasses
voltas e voltas
que te amar hei
não se comprova
que amor é vida
ida - sem volta

dúvida, amado ?
fiz o que pude :
abracabraço-te
por vias crucis.


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A bela de Amherst





Ela varre com vassouras multicores
E sai espalhando fiapos,
Ó Dona arrumadeira do crepúsculo,
Volta atrás e espana os lagos:

Deixaste cair novelo de púrpura,
E acolá um fio de âmbar,
Agora, vejam, alastras todo o leste
Com estes trapos de esmeralda!

Inda a brandir vassouras coloridas,
Inda a esvoaçar aventais,
Até que as piaçabas viram estrelas —
E eu me vou, não olho mais.



(Trad. Aíla de Oliveira Gomes)







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Tive uma jóia nos meus dedos —
E adormeci —
Quente era o dia, tédio os ventos —
"É minha", eu disse —

Acordo — e os meus honestos dedos
(Foi-se a Gema) censuro —
Uma saudade de Ametista
É o que eu possuo —



Trad. Augusto de Campos







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Noites Loucas — Noites Loucas!
Estivesse eu contigo
Noites Loucas seriam
Nosso luxuoso abrigo!

Para Coração em porto —
Ventos — são coisas fúteis —
Bússolas — dispensáveis —
Portulanos — inúteis!

Navegando em pleno Éden —
Ah, o Mar!
Quem dera — esta Noite — em Ti
Ancorar!

Trad. Paulo Henriques Britto


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Primeiro Ato é achar,
Perder é o segundo Ato,
Terceiro, a Viagem em busca
Do “Velocino Dourado”

Quarto, não há Descoberta —
Quinta, nem Tripulação —
Por fim, não há Velocino —
Falso — também — Jasão.




Tradução: Paulo Henriques Britto


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Uma palavra morre
Quando é dita —
Dir-se-ia —
Pois eu digo
Que ela nasce
Nesse dia.




Trad. Aíla de Oliveira Gomes




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Dentre todas as Almas já criadas

Emily Dickinson


Dentre todas as Almas já criadas -
Uma - foi minha escolha -
Quando Alma e Essência - se esvaírem -
E a Mentira - se for -

Quando o que é - e o que já foi - ao lado -
Intrínsecos - ficarem -
E o Drama efêmero do corpo -
Como Areia - escoar -

Quando as Fidalgas Faces se mostrarem -
E a Neblina - fundir-se -
Eis - entre as lápides de Barro -
O Átomo que eu quis!

(Tradução: José Lira)


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Algo existe



Tradução de Lúcia Olinto

Algo existe num dia de verão,
No lento apagar de suas chamas,
Que me impele a ser solene.
Algo, num meio-dia de verão,
Uma fundura - um azul - uma fragrância,
Que o êxtase transcende.
Há, também, numa noite de verão,
Algo tão brilhante e arrebatador
Que só para ver aplaudo -
E escondo minha face inquisidora
Receando que um encanto assim tão trêmulo
E sutil, de mim se escape.





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Beleza e Verdade



Tradução de Manuel Bandeira



Morri pela beleza, mas apenas estava
Acomodada em meu túmulo,
Alguém que morrera pela verdade,
Era depositado no carneiro próximo.
Perguntou-me baixinho o que me matara.
– A beleza, respondi.
– A mim, a verdade, – é a mesma coisa,
Somos irmãos.
E assim, como parentes que uma noite se encontram,
Conversamos de jazigo a jazigo
Até que o musgo alcançou os nossos lábios
E cobriu os nossos nomes.




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Cemitério


Tradução de Manuel Bandeira

Este pó foram damas, cavalheiros,
Rapazes e meninas;
Foi riso, foi espírito e suspiro,
Vestidos, tranças finas.
Este lugar foram jardins que abelhas
E flores alegraram.
Findo o verão, findava o seu destino...
E como estes, passaram.


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Tradução de Ana Luísa Amaral

Espingarda Carregada - a minha Vida -
Por Cantos - assim for a
Até passar o Dono - Me marcar -
E Me levar embora -
E agora erramos em Bosques Reais -
E perseguimos uma Corça agora -
E cada vez que falo em Sua vez -
As Montanhas respondem sem demora -
E se eu sorrio, uma amigável luz -
No Vale se faz ver -
É como se uma face de Vesúvio
Soltasse o seu prazer
E quando à Noite - já cumprido o Dia -
Guardo a Cabeça do Meu Dono -
Melhor do que Almofada em Penas Suaves
Partilhada - no sono -
Do inimigo Seu - sou-o, mortal -
Não se torna a agitar -
Esse em quem pouse o meu Olho Amarelo -
Ou enfático Polegar -
Embora eu possa viver mais - do que Ele
Ele mais do que eu - deve viver -
Que eu só tenho o poder de matar,
Sem - o poder de morrer -




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Tradução de Ana Luísa Amaral

Há uma palavra
Que empunha uma espada
Pode trespassar um homem armado -
Lança as suas sílabas de farpa
E fica-se, calada.
Mas onde tombar
Os salvos dirão
Em dia da nação,
Deixou de respirar
Um irmão, um soldado.
Por onde corra o sol arfante -
Ou o dia vagueie -
Aí, o seu ataque sossegado -
E a sua vitória!
Notai o atirador mais hábil!
O tiro mais certeiro!
O mais sublime alvo do Tempo,
A alma "sem memória"!






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Tradução de Maria do Carmo Ferreira

e se eu disser que já é demais
e arrebentar portas carnais
e extrapolar compassos?

e se eu limar até o sabugo
além da dor além do luto
e liberar meus passos?

ninguém me pega mais - nem morta!
corram masmorras com revólveres
nada mais faz sentido

como o sorriso - nem me lembrem!
laços & fitas - shows mambembes
e o que morreu - comigo


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Tradução de Ana Luísa Amaral




Não sou Ninguém! Quem és?
És tu - Ninguém - também?
Há, pois, um par de nós?
Não fales! Não vão eles - contar!
Que horror - o ser - Alguém!
Que vulgar - como Rã -
Passar o Junho todo - a anunciar o nome
A charco de pasmar!






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Tradução de Ana Luísa Amaral

Porque não pude deter-me para a Morte -
Parou Ela amavelmente para mim -
Na Carruagem cabíamos só Nós
E a Imortalidade.
Seguimos devagar - Ela sem pressa -
E eu pusera de lado
O meu trabalho e o ócio também
Pela Sua Cortesia –

Passámos pela Escola, onde, em Recreio,
E no Adro - lutavam as Crianças -
Passámos pelos Campos de Trigo de Espanto -
Passámos o Sol posto -
Melhor - passou-Nos Ele -
O Orvalho caía frio e trémulo -
Porque de Gaze só o meu Vestido -
E a minha Estola - era de Tule só -
Parámos junto a Casa semelhante
A Inchaço no Solo -
O Telhado da casa mal se via -
A Cornija - no Solo -
Desde então - Séculos há - porém
Tudo parece menos que esse Dia
Em que primeiro adivinhei que as Crinas
Apontavam para a Eternidade



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Tradução de Ana Luísa Amaral




Noites - Noites selvagens!
Estivesse eu - contigo
Tais Noites - o nosso
Deleite - seriam!
Fúteis - os Ventos -
A Coração em Porto -
Inútil - a Bússola!
Como a Carta - inútil!
Remando - em Éden!
Ah! o Mar!
E eu ancorar - Esta Noite -
Em Ti!




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Alguns guardam o Domingo indo à Igreja
Eu o guardo ficando em casa
Tendo um Sabiá como cantor
E um Pomar por Santuário.
Alguns guardam o Domingo em vestes brancas
Mas eu só uso minhas Asas
E ao invés do repicar dos sinos na Igreja
Nosso pássaro canta na palmeira.
É Deus que está pregando, pregador admirável
E o seu sermão é sempre curto.
Assim, ao invés de chegar ao Céu, só no final
Eu o encontro o tempo todo no quintal!




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Péricles Moraes (1882-1956)






Última foto (1952)











Os intérpretes da Amazônia





Arriscava-se, talvez, nos dias de hoje, ao perigo de incorrer em falsa afirmativa, quem ousasse dizer, como fez Euclydes da Cainha, nos conceitos de seiva medular inscritos no pórtico do Livro do sr. Alberto Rangel, que a Amazônia, ainda sob o aspecto estritamente físico, apesar de seculares investigações, e conhecida aos fragmentos, e tudo o que se escreve a seu respeito se adstringe aos seus inumeráveis aspectos parcelados. Para descortina-la, em conjunto, a seu vir, teria o espírito humano que se afrontar com entraves e obstáculos intransponíveis, decorrentes de sua aparente uniformidade estrutural, da complexidade de suas mutações geológicas, dos seus imensos horizontes paleontológicos, suscetíveis, na sua desmesurada grandeza e na sua estonteante realidade, de turvar e desnortear as inteligências. De fato, naquela época, a não ‘ser o prosador de Os Sertões, nenhum outro escritor se aventurou à temeridade de tais entrepresas. Pode-se mesmo avançar que os seus estudos sobre a Amazonia, assim nas paginas do Á margem da Historia, como no prefácio magistral do Inferno Verde. são o eixo central de tudo quanto se tem pensado e escrito sobre a região portentosa. Euclydes, com a sua faculdade de ver, compreender e deduzir, tinha ainda a vantagem de possuir uma sensibilidade aguçadissima, que lhe transmitia às imagens as vibrações do temperamento ensofregado. A natureza por ele objetivada, sendo exatamente a mesma que servira lentes dos outros escritores e cientistas,, aparece-nos, entretanto, agitada pelos fluxos e refluxos de uma imaginação .ardente, que poreja sangue e lhe dá a medida, a extensão e a superioridade do espírito. Porque, não há negar, o cientista, isoladamente, fora da temperatura febril do escritor, não obstante a sua visão introspectiva, não teria impressionado dessa maneira. Foi a sua arte de escrever, refletindo-lhe, em lampejos, o trabalho da alma e do cérebro, as fermentações e conflitos interiores, que operou o prodígio. Euclydes via Amazônia com a consciência do artista e a profundeza do cientista, deixando-nos algumas páginas de tão grande fertilidade de observações, que não se pode hoje emitir qualquer opinião neste domínio sem consultar-lhe a autoridade. Mas se foi ele, deveras, o único que conseguiu, em traços vigorosos firmes, projetar, nas suas cores vivas e flagrantes, a natureza amazônica, à sua sombra, à sombra de sua glória, cresceu e frondejou uma floresta de imitadores solertes e subalternos, que lhe tentaram decalcar o estilo indecalcável, a forma e a superfície das idéias, copiando-lhe o vocabulário, reproduzindo-lhe os neologismos, deturpando-lhe as intenções e até, inconscientemente, assimilando-lhe os leves defeitos de composição e de estilística e as imperceptíveis.negligências de técnica. A obra de Euclydes, todavia, triunfou e resistiu galhardamente, conservando-se ilesa, e destinando-se a servir de introdução a qualquer estudo sério que se pretenda realizar sobre o mesmo assunto. Euclydes, com efeito, foi um clássico da Amazônia, clássico enquadrado no definir de Sainte-Beuve - um escritor que se dirige a todos com um estilo seu e que se encontra também em todo mundo, um estilo novo e antigo, contemporâneo de todas as datas. As paginas fragmentárias, que escreveu sobre a Hilae, são, indiscutivelmente, o primeiro monumento que se vislumbra no horizonte literário amazônico. É certo que, muito antes dele, por escritores e investigadores estrangeiros e da nossa raça, outras incursões ,já haviam sido feitas com proveito e resultados frutuosos. Citamos, entre inúmeras, as do amazonense Santana Nery, que escreveu um livro interessantíssimo Le Pays des Amazones, no qual, sobre o problema amazônico, se compendiaram, habilmente discutidas e comentadas, as hipóteses a ensaiar e verificar. Santana Nery conseguiu levantar uma rápida nomenclatura das viagens de exploração feitas no Amazonas, com largos empréstimos ao dr. Severiano da Fonseca (Viagem ao redor do Brasil), a L. Vittel, a Demarquets e outros, analisando todas as particularidades geográficas, geodésicas, climatéricas e geológicas do vale do Amazonas. Para a aquisição fácil e sem esforço dos eruditos de cutiliquê, estão aí coligadas as anotações dos mais destacados exploradores científicos da Amazônia, do astrônomo francês La Condamine, que foi o primeiro, no fim do século XVIII, a abrir para a ciência a província do Amazonas às iniciativas do naturalista alemão Humboldt, que, no começo do Século passado, fez da Amazônia um campo de experiências; às viagens do conde de Castelnau, refertas de informes curiosos sobre os variados aspectos e as diversas produções da região. Alias, não foram diretas as observações que consigna em seu livro. Sobre o solo amazônico, as suas condições climatéricas, a sua constituição geológica, a sua fauna e a sua flora, as suas riquezas ictiológicas, e, sobretudo, as suas lendas maravilhosas, Santana Nery foi buscar dados e subsídios na obra de Barbosa Rodrigues, a quem denomina o “Agassiz brasileiro”, na do engenheiro J.M. da Silva Coutinho, e nos estudos de Alexandre Haag, que foi o primeiro a conceber, antes mesmo de Euclydes, os planos da ligação, por via férea, do Acre com o Madeira. Embora norteado sempre por observações hauridas em fontes estranhas, Santana Nery traçou um vasto panorama da Amazônia, estudando-lhe, de conjunto, o clima e as maravilhas da vegetação luxuriante, a flora e a fauna em suas curiosas particularidades, o fenômeno da produção e a trama de sua bacia hidrográfica, além de explicar-lhe as lendas nativas e estender-se sobre o sentimento religioso dos indígenas. Amparou-se, vezes muitas, nos conceitos e nas informações dos exploradores que o antecederam na inspeção à gleba amazônica. Mas; talvez por isso mesmo, realizou um dos melhores estudos que ainda se fizeram sobre a planície setentrional brasileira. Não lhe foi possível, tal a distensão dos horizontes a perquerir, construir uma obra completa, estudando a região integralmente, de fronteira a fronteira, num exame detido e pessoal de todas as ‘suas proteiformes manifestações geográficas. Sem embargo, os comentários aí expendidos foram tão acertados e judiciosos, que o seu livro tem sido o manancial que vem abastecendo, sem nenhuma responsabilidade, o farnel erudito de inumeráveis escritores especialistas em conhecimentos da Amazônia. A região amazônica, porem, ainda não era conhecida senão de outiva, de informações de segunda mão, através de hipóteses sustentáveis algumas, insustentáveis na sua maioria, formuladas por autores suspeitos e desautorizados, que, simulando uma irrisória atitude científica, repetiam, exaustiva e levianamente, assim os conceitos verdadeiros, como os postulados falsos, as impressões apaixonadas, as teorias abstratas e sofísticas, que nao resistiam ao contato do mais primário dos argumentos. Porque a Amazônia não é assunto para escritores medíocres. O gigantesco caos amazônico, para ser desvendado e compreendido, requer uma divinação quase profética. Não basta o aparelhamento científico. Para compreender, assimilar e exprimir a complexidade de sua natureza, o escritor precisa ser dotado de um talento verdadeiro, auxiliado por todas as fôrças do espírito e da vontade, além de possuir, simultâneamente, a faculdade de perceber, de um lance, as circunstâncias particulares e sensíveis que lhe explicam as influências passadas e presentes. Ademais, cumpre saber fixar-lhe, como um pintor, as transformações fugitivas de seus espetáculos, o efeito dos seus violentos cenários, o mundo de idéias secretas que a vertigem de suas águas e o assombramento de suas florestas despertam em nossa imaginação. Por isso, por ter disposto integralmente de todas essas faculdades, é que Euclydes ainda no foi excedido. Gênio fundamentalmente dedutivo, ele pretendeu com a sua visão de águia, extrair de alguns princípios claros e evidentes, de algumas fórmulas obscuras e dificilmente demonstráveis, o conhecimento de todos os fenômenos amazônicos, vendo na Amazônia o que os outros ainda não tinham conseguido ver.

Já o sr. Alberto Rangel, escrevendo num estylo rigido, inquieto e castigado, onde se encontram, não raro,os relevos violentos e as descargas nervósas do estylo de Euclydes, sem medir as perspectivas cheias de seducções e de perigos que se abriam deante de sua imaginação, viu a Amazonia de outro modo. Sem procurar, como o seu emulo, penetrar-lhe a fundo a estructura physiographica, preferiu descortina-la nos seus aspectos trepidantes, fixando-os num livro de pungente realismo – o Inferno Verde, onde o homem amazonico, submettido á crueldade do proprio destino, e a terra fantastica, nos seus painéis allucinatorios, são vistos através da idealização excitada de um rebellado temperamento de escriptor. Tinha razão, neste particular, Euclydes da Cunha, em face da estrutura desse livro, quando declarava que a Amazonia era conhecida apenas aos fragmentos, sob aspectos numerósos mas parcellados, em traços fórtes mas desconnexos, sem ser jámais visionada de conjuncto, porque " a intelligencia humana não supportaria, de improviso, o peso daquella realidade portentosa". Alberto Rangel, tentando delineá-la, não tinha illusões, convencido de que a tragedia amazonica ainda estava por ser escripta. Não apparecera ainda, de verdade, o poeta, que a um tempo tivesse o cabedal do scientista, a visão do sabio e a penetração do homem de genio, capaz de plasmar o poema immortal de suas peripecias gigantescas, numa obra-prima do espirito, onde transverberassem os coloridos de um Michelet ou de um Saint-Victor. O espectaculo surprehendente de suas metamorphóses telluricas não se amoldava aos descortinadores de horizontes restrictos. Para vêr a Amazonia e interpretá-la, era necessario uma imaginação creadora, que traduzisse em linhas convulsivas, a epopéa do homem, na luta angustiada e tenaz contra os imprevistos da natureza, desafiando a aggressividade dos elementos physicos que o circundam, surprehendendo a vida e a alma das florestas, emparedado nos seus desvãos solitarios, pontilhados de trechos sombrios, "onde se diria na expressão de Alberto Rangel - que se accendem candelabros para uma festa de duendes". Fixar os lances dramaticos do homem e da terra amazonicos, onde a variedade dos aspectos se confunde e se altera em transmutações bruscas e inopinadas, fazendo sossobrar todos os artifícios da logica e da razão, e onde, para cada um delles, a intensidade de impressões e a dependencia das idéas e das emoções variam de conformidade com a estructura intellectual do observador, não era empreitada para intelligencias tardigradas e marasmaticas. Era obra para os artistas de élite, capazes de exprimir, num traço fulgurante e revelador, a violencia de suas sensações e o fremito das emoções que lhes abalam o systema nervoso. Não tem sido outra, por taes motivos, a causa do insuccesso de não poucos escriptores que se têm arriscado a buscar na Amazonia a thése e o desenvolvimento de suas digressões espirituaes. Dir-se-ia que a grandeza do modelo lhes opprime e atordôa a concepção. Eriçada de impropriedades, tumultuaria de lances emphaticos, desbordante de imagens excessivas e incoherentes, congestionada de narrações prosaicas e de afflictiva monotonia, que lhe accusam a erudição superficial e discursiva, a obra resente-se, desde logo, das fraquezas e debilidades do escriptor, apresentando uma Amazonia absurda, falsa e mystificada,erigida sob os auspicios da observação de outros escriptores e, por conseguinte, sem o cunho da visada pessoal, que. imprimiria, pelo menos, o caracter de authenticidade a certas invenções porventura mais fantasiósas. Seja como fôr, se até hoje ainda não exsurgiu, por encanto, o menestrel que lhe eternizasse as glorias, muitos escriptores do nosso tempo e da nossa raça, tomando-a como fonte de inspiração e pesquisando-a em determinados aspectos, trouxeram, do seu contacto com a natureza e com o homem, impressões originaes, traduzi das em paginas de indiscutivel mestria.

Veja-se, por exemplo, o livro Terra Immatura, de Alfredo Ladislau. No conciliar os surtos da imaginação com as exigencias do espirito especulativo, o escriptor preferiu vêr o lado plastico da Amazonia, modelando-a em desenhos flexuósos, sem mutilar a realidade, e descobrindo-lhe as fórmas estheticas e luminósas, ao geito de La Sizeranne. Construindo um livro que é uma verdadeira introducção ao estudo da natureza amazonica, ou melhor ainda, que é uma preparação espiritual, um roteiro admiravel para quem deseje tentar uma incursão á selva selvaggia maravilhósa,

Alfredo Ladislau em impressivas aguas-fortes, desenvolve a ondulante perspectiva do panorama amazonico, nos seus contornos desordenados e nas sombrias tragedias que lhe convulsionam as forças cosmologicas. É uma Amazonia feita de claridades solares, em periodos esculpturaes, onde resplende a "vis superba formae" do poeta latino. Mas, cumpre accentuar, é tambem uma obra de pensamento e de emoção, onde por entre os lavores de uma arte de luxuósas incrustações, estão perfeitamente equilibrados a sensibilidade do artista e o raciocinio, a logica, a pureza e a concisão do escriptor. É evidente que, sobre o espirito de Alfredo Ladislau, o prosadpr épico d' Os Sertões exerceu aquella indominavel influencia, aquella poderosa attracção que subjuga e perturba a quantos lhe sintam o fascinio ineludavel. Mas, tambem, é fóra de duvida que essa influencia não foi de molde a diminuir-lhe o prestigio das idéas e a sagacidade das observações. Porque o livro da Terra Immatura, escripto com aquella excessiva pujança verbal e intensidade de expressão que eram o traço caracteristico do estilo envolvente de Euclides, não impressiona apenas pelo esplendor da fórma e pelos ademanes da linguagem. O descortino visual do escriptor, estabelecendo pontos de vista novos e defendendo-os com desassombro, esclarecendo certos phenomenos e procurando explicar-lhes os effeitos e as causas, por sua vez contribuiu e preponderou para que, das varias e multiplas suggestões de um mundo estranho, resultasse um sistema de idéas geraes, que lhe denunciam a efficiencia da cultura. Cada capitulo desse livro é o conspecto isolado de trechos esparsos da vida amazonica. Traço a traço, dominado pela idéa de lhes dar a phisionomia verdadeira, o artista sobrepõe-se ao escriptor, imprimindo ás télas pinceladas vigorósas que lhe definem o talento descriptivo. Ha ahi paginas soberbas, dignas de Euclides. Mas, de quando em quando, embora não se tenha o espirito prevenido, sente-se-lhe a affinidade com outros escriptores da Amazonia, a reminiscencia viva de impressões alheias que lhe ficaram na memoria e reapparecem, subrepticiamente, accusando-Ihe a genese da concepção. Quem não descobre, desde logo, verbi gratia, que essas paginas lapidares da Psychologia dos lagos foram inspiradas na leitura do Tapará, de AIberto Rangel? A certos aspectos, a mesma semelhança de relevo e de tonalidades, na pintura do quadro amazonico, se identifica no estilo de ambos. Ainda mais. Os conceitos sobre os factores geographicos observados para as formações hidrographicas dos lagos são analogos, como é analoga a supposição, analisada com a logica de raciocinios equivalentes, de que no lago amazonico a crendice aborigene encontrou a fonte das lendas e das creações fantasticas que lhe alimentam o fabulario. Aliás, o autor do Inferno Verde, a inferir-se da legenda que lhe emmoldura o trabalho parece ter ido buscar, por sua vez, subsidios na obra do padre João Daniel.....


(Legendas & aguas-fortes, Manaos, Livraria Clássica, 1935)



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A tristeza de Maupassant




Quando os meus olhos maravilhados voltaram a ultima pagina dessa obra imperecivel, de realismo puro, que é para as lettras de França como um padrão excepcional de justeza e limpidez de estylo, o que me ficou dessa arte rigorosamente objectiva, feita de sobriedade e precisão absoluta de observações, foi um impressionante sentimento de tristeza, tristeza dolorosa e commovida que se impregnou como perfume atordoante através de todas essas paginas vividas intensamente. É o accento predominante que a cada passo nos revela profundas ansias mysteriosas. Tem-se a sensação de que a alma do artista, sob o pendor de influencias exteriores, está penetrada de intimos dilaceramentos, involuntariamente revelados, deixando-nos á visão compungida os acúleos de uma dôr que ninguem soube comprehender. O estylo do escriptor, claro e vigoroso, projecta saúde e força, sobretudo saúde mental, productiva e fecunda; e a sua observação, pela maneira impessoal de vêr, dá-nos a completa illusão da vida. Reflectindo-a com impassibilidade, dos aspectos que reproduz e das sensações que fixou, como se a vida fôsse um poema de melancolias, faz ressaltar, de pagina em pagina, um claro-escuro de amarissima tristeza, que é sombra a encher de brumas paisagens claras e illuminadas, que é fluido a diffundir-se dolorosamente, empolgando o sentimento de seus retratos. Entretanto, jamais houve quem a pintasse, embora através de um temperamento morbido, com maior fidelidade e exactidão. Ninguem a comprehendeu melhor nas suas tumultuarias modalidades, nas suas transições sombrias, na sua tragedia de todos os momentos. As suas paixões, as suas intrigas, os seus aviltamentos, os seus pequeninos interesses, as suas felonias, o entrechóque de caracteres heteróclitos, a lucta de competiçoes, o lastro de aventuras de que a vida é capaz, o seu pincel reproduziu na violencia de ardentes perspectivas. Toda a sua obra é um assombroso espectaculo d'apres 'nature. A sua retina de artista não visava a ficção, desde que a ficção é irreal e lhe desmaiava a intensidade dos coloridos. As personagens que se agitaram ao influxo de sua dominação, as mulheres que viveram nos seus romances, os contornos e os aspectos que os requintes de sua visualidade focou, pela serena indifferença e pela tranquilla verdade com que foram representados, são a propria vida na sua imperturbavel realidade. A novella, delineada pelo seu pulso de mestre, é episodio flagrante que dá a lembrar uma pagina que já vivemos; o seu conto é um lance imprevisto que o artista viu e sentiu; o romance de Maupassant é sempre o vagalhão da vida que se despenha sobre uma alma. Se, por vezes, os seus heróes e as suas paixões, se animam de um desdem interior que lhas imprime o ressaibo de imperceptivel ironia, é que os seus sentimentos não foram photographados de aspectos alheios, senão da, propria vida do escriptor que, na sua obra, se reproduz com a regularidade de movimentos isóchronos. Não é difficil para quem lhe conhece a biographia, tanto esquadrinhada pelas memorias, correspondencias e estudos, surprehender essas affinidades muito intimas de que a pintura é cópia, realizada na febre das auto-sensações. A sua querida Normandia, no pinturesco de facetas encantadoras, com os seus camponios rudes e os seus ingênuos pescadores, a sua paisagem ensolarada de verão, risonha e gorgeiante, Etrétat e Fecamp, e os rochedos de Yport, vivem na maioria de suas novellas, resplendem, evocativos, nas paginas do Une vie, livro de amarga tristeza, odysséa atormentada de mulher que se resigna aos desregramentos do marido e ás ingratidões do filho. Os dias estuosos de sua mocidade, a sua paixão pelo mar, as confidencias desse tempo, as suas façanhas de canotier destemido, o seu devotamento á cultura physica -.- « fazendo para seu prazer vinte leguas do Sena em um dia) --, recorda-os o romancista nos periodos da Mouche, novella de saudades e reminiscencias. Quem não sente no L'Heritage um episodio de sua vida, quando humilde empregado do Ministerio da Marinha? Bel-Ami é o turbilhão do jornal, os primeiros passos do grande artista no ambiente de dissimulaçóes e adulterios da sociedade parisiense, a lucta pela conquista, a ansia de renome, a caça do dinheiro e do goso através da astucia das Madeleine Forestier e dentro da seducção de irresistiveis depravadas como Mme. de Marelle. De sua ascenção á montanha ficou, palpitante de emoção, o Mont-Oriol. As suas viagens ás costas italianas, á Sicilia, á Argelia, a Tunis, a Veneza, são referidas com encanto voluptuoso na Vie errante. Os seus cruzeiros no Mediterraneo, a bordo do seu lindo yacht Bel-Ami, estão descriptos no Sur l'eau, livro de memorias de um deleite superexcitante. A sua passagem pela Italia é relembrada na novella emotiva das Soeurs Rondoli. O seu baptismo nos meios viciados e corruptores foi Yvette. O seu romance Fort comme la mort reflecte-lhe o percurso nos circulos mundanos, e a tristeza de envelhecer, encarnada no desespero do pintor Bertin. Vem depois Notre coeur, a obra-prima de suas obras-primas, onde Gaston Lamarthe, (Anatole France surprehendeu, traço a traço, nesse implacavel homem de lettras o retrato authentico de Maupassant) sob a tormenta de uma paixão despotica por essa col1eante Michéle de Burne, foge á tentação, mergulha no silencio bucolico de Fontaineblau, succumbe nos braços da creada, uma camponeza jovem e ardente, e enfarado desse banho epicurista em plena selva, é attrahido novamente pelo feitiço colubrino da mundana.

Tal é, integralmente, a sua feição de artista. Fóra disso, através das outras paginas estranhas á sua vida, os vicios, os pecados. as depressões intimas e exteriores de uma sociedade em deliquescencia, foram photographados ao vivo com a maestria de um talento que se não commovia com a miséria ambiente para que, isenta de preferencias e pela observação sincera, a prova tivesse propriedade e expressão, conferindo com o original.

Essas qualidades impessoaes eram o traço luminoso do seu temperamento de artista. Faguet affirmou que o autor da Madame Bovary fez a theoria da arte impessoal e Maupassant realizou-a. É incontestavel. Discipulo de Flaubert, imitando-lhe os processos de execução e orientado pelas suas modernas concepções de arte, Maupassant, torturado no seu sonho de belleza, attingiu essa paridade de estylo e de fórma que, no solitario Croisset, era o segredo da composição. Mas penetrante a diferença na esthetica dos dois grandes mestres da prosa franceza! Se Flaubert não acreditava na impessoalidade absoluta e julgava que todo o artista era susceptivel de ceder ás sollicitações do sentido individual, a arte de Maupassant não tinha outro escopo senão o de representar. As suas altas faculdades intellectuaes, na creação da obra d'arte, restringiam-se a gravar as sençações da vida com a nitidez de uma placá photographica. A contemplação e representação eram os preceitos essenciaes na esthetica flaribertiana. Viver, - tal era o dogma de Maupassant. O artista, seleccionador de bellezas, devia sentir, palpitar, agitar-se dentro de suas personagens, indifferente ás suggestões inferiores da sentimentalidade, presumido contra os impulsos do coração.

O realismo de Flaubert revivia a antiguidade com a sua maneira pessoal de vêr, desvirtuando-a, adaptando-a ás exigencias do romance moderno. Maupassant, enclausurado na sua arte, era inflexive1. O seu instincto da realidade não se deformava nem se corrompia. A vida era o typo humano, ornamentado de virtudes ou achacado de taras, extasiante de belleza ou formidavel na sua hediondez. Maupassant era isso: «O eterno pintor da careta humana.»

(In FIGURAS & SENSAÇÕES, Porto, L. Chardron, 1923)



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Heliodoro Balbi

Grande Balbi!

A ultima vez que o vi, acompanhando-o por toda a parte até dizer-lhe o derradeiro adeus (e nunca me surprehendeu o presentimento tragico de ser esse o ultimo !) foi no dia da partida. A viagem era definitiva. Ninguem o demovera. Seguia resoluto para o paiz da illusão e da perfidia, tangido por compromissos inadiaveis, levado pela angustia de uma posição insustentavel, desprovido de recursos, na imminencia de affrontosas humilhaç,ões. Pouco lhe importava partir abandonando a esposa, filhos, amigos, posição, proventos futuros que nunca chegariam, sacrificado á sanha dos revézes politicos. Coragem lhe não faltava para novas luctas, nem se sentia abatido pela amargura da contingencia. Denorteava-o, confrangendo-o, esse ambiente pesado de oppressões moraes de toda sorte, que o asphixiava, que lhe tirava a alegria de viver, compellindo-o à aventura, sem temer-lhe as consequencias. Mas, nessa noite de inquietações e de pezares, o que minava essa alma intrépida que jamais na vida se arreceiara dos perigos do embate, era a dolorosa certeza de partir, com rumo incerto e destino ignorado, e nunca mais vêr, nunca mais! a companheira abençoada de tantos annos de felicidade e de infortunio, a dôce companheira que compartilhára com elle as alternativas da fortuna mendaz, estuante e feliz, nos dias ensolarados do triumpho, e apertando-o ao peito, commovida e soluçante, á amarugem da desdita. . . Essa, que foi a mais amada de todas as mulheres, ahi se ficava, sem poder seguil-o ainda uma vez, lancinada no seu abandono, e presa ao leito, immobilisada, errante na sua dôr, livorescida na sua agonia, corroida pela enfermidade terrivel que dias depois lhe fechou os olhos. Era a perspectiva desse transe que o combalia, desarvorando-o; e, quando á noite, taciturnos, regressavamos á casa, a tortura de vêl-a de novo e ter que partir, retardava-lhe os passos. Vi-o á porta, cambaleante, vencido, os olhos marejados de lagrimas.

- Ah ! meu vélho, que horrivel provação! É a peior hora da minha vida. . .

Entrámos silenciosos. Vi-a de longe, no seu leito de morte, os olhos parados e cheios de angustia, as faces lividas, um sorriso doloroso esvoaçando dos labios desmaiados... As eternas oscillações da alma!

Não quiz ver o resto. Fugi. Fui esperal-o no largo, em frente á egreja, olhando a bahia deserta.

No céo, lavado de bistre, palpitavam as primeiras estrellas. Minutos depois vi que voltava, espectral, sombrio no seu mudo desespero, as pernas tropegas, sem poder articular palavra.

Olhei-o, commovido. Apertei-o com força em meus braços. Tentei consolal-o. Murmurou-me ao ouvido, com voz embargada:

- Tu não imaginas a minha angustia! Acabo de abraçar um cadaver . . .

Chorava convulsivamente.

Só então reparei que eu tambem tinha os olhos arrazados d'agua.

(In FIGURAS & SENSAÇÕES, Porto, L. Chardron, 1923)



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"Pericles Moraes foi figura de destaque na
vida intelectual amazonense. E não apenas na vida
intelectual. Teve participação também na vida pública.
Foi, em 1926, prefeito de Coari e Parintins; em 1932
integrou o Conselho Consultivo do Governo estadual e
foi Secretário-Geral do Estado em dois governos.
Na obra póstuma, Pericles Moraes destaca o relevante
papel que sua esposa, Andrômaca, desempenhou
em sua atividade literária. Ela tinha, como ele, amor às
letras e foi incansável companheira de estudos.
Registro aqui os parabéns à acadêmica Carmen,
por haver organizado essa obra póstuma e agradecimentos
pela gentileza de ter-me agraciado com um
exemplar. Pela sua contribuição à cultura do Amazonas,
estou encaminhando à mesa requerimento de
voto de aplauso.
Era o que tinha a dizer.
Muito obrigado.
SENADOR JEFERSON PERES



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Meu arquivo está cheio das lembranças de Leopoldo Peres. Não obstante vivermos sempre juntos, no Amazonas, durante a sua vida inteira, entre as correspondências que conservo dos amigos mortos, a maior é a sua. Epistolas enternecidas de um Damon que falasse a sensibilidade de Pynthias, referentes as épocas em que, a contragosto, em¬bora temporariamente, motivos ponderosos nos obrigavam a abandonar a cidade do nosso enlevo. Minhas estantes guardam dezenas e dezenas de livros, em encadernaçoes de luxo, do mais requintado acabamento, que por ele, por qualquer pretexto e sem nenhum pretexto, me eram presenteados, nos quais as dedicatórias transbordantes de afeto se revezavam de volume para volume. Sobretudo, no silencio do meu gabinete de trabalho, atraves de preciosos objetos de arte, estão os traços marcantes da nossa amizade indestrutivel, que perdurou ate a morte. São bronzes simbólicos, jarrões, estatuetas, baixos-relevos, paisagens a ó1eo de pin¬tores celebres, caricaturas autenticas de Caran d' Ache e de Govarni, silhuetas a coups de crayon de desenhistas de reputaçao universal, obras-primas em biscuit de Limoges, como essa das "Tres Graças", concepção estatutária de incomparável recorte, que ele adquirira para nos galantear no dia comemorativo das bodas de prata do meu casal. Havia também uma deliciosa Joueuse de diaule, nas linhas flexíveis de sua correção plástica, em socie de alabastro, ivre de beauté, um surto original do genio helenico. Na galeria de honra, entre as fotografias do meu querido Augusto Linhares e do magnífico Jose de Figueiredo Lobo, figura espartana de soldado e de homem de letras, encaixado em moldura oval incrustada de ouro, adornado de duas palavras de infinita simpatia espiritual, o retrato desse prodigioso definidor de almas, na magnificência dos seus trinta anos gloriosos...


(LEOPOLDO PERES, apud LINS. Seleta literária do Amazonas)



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PÉRICLES MORAES, filho de Severo Jose de Moraes e de Evarista de Melo Moraes, nasceu, em Manaus, no dia 28 de abril de 1882. Fez os estudos primarios em sua terra natal e o secundário em Belem.
Foi professor, jornalista e serventuário de Justiça. Pertenceu à Academia Amazonense de Letras e à Associações Amazo¬nense e Brasileira de Imprensa. Era membro correspondente das Academias de Letras do Para e da Bahia, da Associaçao Brasileira de Escritores e Honorario da Sociedade de Geografia e História do Ceara. Faleceu, precisamente, às 3,30 horas do dia 26 de setembro de 1956.
Obras:
"Figuras e Sensaçoes", Porto, 1923; "Coelho Neto e Sua Obra", Porto, 1926;
"Vida Luminosa de Araujo Filho", Manaus, 1931; "Legendas e- Aguas Fortes", Manaus, 1935; "Confidências Literarias", Rio, 1944; e "Leopoldo Peres", Manaus, 1952.

(LINS)



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Péricles Moraes

Por Roberio Braga




Não comporta a Série Memória, um estudo sobre a vida ou a obra de Péricles Moraes, pois que, destinando-se aos estudantes mais que aos estudiosos mais aprofundados na vida literária brasileira, destina-se a textos didáticos e informativos. Assim é que, nossa contribuição ao ensejo do primeiro centénário de seu nascimento, para essa publicação tão oportuna, traduz-se pelo sentido prático da informação biográfica mais sintética com o intuito de motivar que a geração de agora desperte para estudar e procurar compreender a dimensão exata de uma das maiores expressões literárias de todos os tempos na Amazônia que foi Péricles Moraes.

Amazonense de Manaus, era filho do político Severo José de Moraes e D. Evarista Mello Moraes, tendo feito seus primeiros estudos em Manaus e os chamados de Humanidades, em Belém do Pará.

Professor, Jornalista, Político, Escritor, Acadêmico, foi estilista por excelência.

Professor da Língua e da Literatura Francesa, categorizou-se como Mestre de várias gerações em Manaus.

Na vida pública, foi Prefeito Municipal de Coari e de Parintins, em 1926, membro do Conselho Consultivo do Estado em 1932, Diretor Geral da Instrução Pública em 1934, hoje cargo correspondente ao de Secretário de Estado da Educação e Cultura, Secretário Geral do Estado no Governo do Desembargador Estanislau Afonso em 1945, e novamente na administração do Dr. Leopoldo Amorim da Silva Neves de 1947 a 1950. Fundador, em Belém, do “Apostolado Cruz e Souza”, e em Manaus, da “Sociedade de Homens e Letras”, depois transformada em Academia Amazonense de Letras, em 1918.

Como Jornalista, contribuiu intensamente na imprensa diária, em jornais e revistas sempre com artigos que refletiam vasto conteúdo e beleza de forma e essência. Colaborou em “O Amazonas”, “O Jornal”, “O Jornal do Comércio”, “O Libertador”, “A Gazeta da Tarde”, “A Tarde”, o ‘Diário da Tarde”, órgão da imprensa amazonense e em a “Folha do Norte”, e “A Província do Pará”, de Belém. Escreveu ainda para as revistas “Cabocla”, “Redempção”, editadas em Manaus.

Em sua vasta e seleta biblioteca foram encontradas obras diversas com dedicatória ao mesmo tempo carinhosa e de reconhecimento aos seus dotes intelectuais, gravadas por personalidades várias das letras universais. Para informação, destacamos dentre as diversas divulgadas na Revista da Academia, as seguintes:

“Faço deste livro, saído agora do prelo, o portador dos meus louvores e de muitos agradecimentos ao caprichoso artista d’OBUFÃO, pela dedicatória de tal jóia ao meu nome, que desejo seja tido, de hoje por diante, por quem tanto o honrou, como de amigo e admirador”. COELHO NETO (O Turbilhão)

“Ao muito brilhante, ao Artista Péricles Moraes, a admiração de MARTINS FONTES” (Boêmia Galante)

“Ao incomparável estilista Péricles Moraes, com a admiração e o afeto do menor de seus discipulos VIANA MOOG” (Heróis da Decadência).

“A Péricles Moraes, o eminentíssimo crítico e alto espírito oferece o seu admirador AQUILINO RIBEIRO” (Luis de Camões, fabuloso e verdadeiro).

Dentre os amazônidas, embora muitos se tenham ocupado de sua cultura e conformação intelectual, especialmente os membros da Academia Amazonense de Letras, extraí da mesma fonte, para ilustração estudantil, a opinião que expenderam em dedicatórias de suas próprias obras.

“A Péricles Moraes, escritor que honra o Brasil e a Língua Portuguesa, com a permanente admiração de ÁLVARO MAIA” (Gente de Seringais).

“A Péricles Moraes, luminoso escritor e consumado esteta com um grande abraço do seu velho amigo JOÃO LEDA” (Vocabulário de Ruy Barbosa, 2ª. edição).

“Ao querido mestre e amigo Péricles Moraes - esta homenagem de muita admiração ao homem que é a maior contribuição da Amazônia à cultura e à inteligência brasileira de DJALMA BATISTA” (José Bonifácio).

“Ao Péricles - augusto espírito imortal - a flama entusiasmada do RAMAYANA DE CHEVALIER” (Ensaio de uma Parapsicologia da Amazônia).

De profunda intimidade com as obras e luminosas letras, foi familiarmente do convívio amigo de várias escritores de grande renome nacional como Coelho Neto, Hermann Lima, Josué Montello, Rogaciano Leite, Oswaldo Orico, Viana Moog, Martins Fontes, Peregrino Júnior, além de muitos outros de expressão internacional, como Fidelino de Figueiredo e todos os amazônidas de seu tempo.

Autor de várias obras, deixou nas revistas então editadas em Manaus contribuições que merecem uma edição em coletânea, das quais podemos destacar, apenas para informação: “Em louvor de Adriano Jorge” - Cabocla, agôsto de 1937; “Anatole, Semeador de Dúvidas” - Redempção, 1924; “Um Artista Clássico” - Redempção, março/abril 1925; “Grandeza e Decadência de D.Juan” - Redempção, maio de 1925.

Fundador da Academia Amazonense de Letras foi também seu Presidente por vários anos, compunha além de compor os quadros literários das Associações Amazonense e Brasileira de Escritores e foi membro Honorário da Sociedade de Geografia e História do Ceará.

Em reconhecimento a sua cultura e dedicação à Casa, a Academia Amazonense de Letras fez publicar uma edição de sua Revista, Comemorativa ao Jubileu Literário, em agosto de 1956 que se constitui em fonte preciosa para o conhecimento mais amplo da vida significativa e da obra majestosa do escritor que foi Péricles Moraes.

Fontes:
1. BITTENCOURT, Agnello. Dicionário Amazonense de Biografias. Rio de Janeiro, Conquista, 1973. p. 408-11.
2. . ROCQUE, Carlos. Grande Enciclopédia da Amazônia. Pref. de Arthur Cézar Ferreira Reis. Belém, Amel Ed., 1968 O Acadêmico.

Ocupante e fundador da cadeira patrocinada por Gonzaga Duque na Academia Amazonense de Letras, a de nº. 13 da Fundação, foi depois alçada a de nº.1, com a mesma denominação, transformada com sua morte em Poltrona Péricles Moraes, a seguir ocupada por Cosme Ferreira Filho, eleito juntamente com João Nogueira da Mata, José Lindoso, Almeida Barroso, João Crysóstomo, a 4 de novembro de 1959.
Dentre as suas contribuições na Revista da Academia, podemos destacar "Um inovador da crítica literária Benjamin Lima", In número especial, fev. de 1935; "Legenda heroíca de uma vida dedicada a Adriano Jorge": In fev. 1955; "Carlos Parros",n.4, dez.de 1955.








quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

CHRISTINE ZACHARY









Imagem: Óleo de CHRISTINE ZACHARY - "VILLA WITH BLUE TREES", Encaustic on masonite



ROSE OF SHARON



CHRISTINE ZACHARY



Some plants you can clip
Korean boxwood, e.g.
others quit blooming
when stray fronds are snipped unnecessarily.
My mother always dug fresh ground.
our childhood friend the willow tree came out
as did the fruit trees
needing spray she said
the grape arbors left by the previous owners went too
The riding mower reigned during my Mother’s day.
Vast expanses of weed free grass
thanks to Dow Chemical
bent its collective back to be cut by vicious blades
in weekly rituals
And no secret sound under the grass blades.
An untidy woods full of dreams
and a small stream lay nearby
this vast green empire of the riding mower
A tiny woods, waiting for the big machinery and new houses to displace it.
I went there often looking for something, dreaming among the vines.
I see that empty lawn
with no center
gazing out at it
from an unknown point
in the uncultivated woods.



SECOND SIDE OF THE SAME PAGE


A formal garden pool
with brackish water and a bronze statue of Pan
dolphins arranged around a globe beneath his shapely feet
and bright blue wasps bask to drink
and stretch their wings
making bows as I bathe in the dead water
and I too occasionally drink
the tepid streams falling in graceful arches
from the mouths of the dolphin retinue of great young Pan
playing a pair of silent pipes in burning Ohio heat.
And locusts sing a rasping tune at dusk
near the smell of rough hemp carpets
damp canvas cushions on the metal glider. Cole Street.
I try to catch fireflies but learn young
the light goes quickly
when you put them in a jar.


Backyard Bodhicitta




In hot sun today I clip the back hedge thick with laurels
the high barrier between me and the neighbor
the one who has screamed at me.
She’s a bottle blonde whose voice pierces my serenity,
the neighbor who came into my yard and blasted weedkiller
which ruined the tomatoes and made me hysterical a few years ago --,
the enemy.
I clip discreetly, and remember
I have just returned from a Buddhist retreat
where I worked on my mind to see my hatreds
for what they are, projections of my own aversion.
Clip, clip. I hear the neighbor through the hedge
saying a bike was stolen from her yard,
and unannounced the thought climbs into my mind
like an unruly morning glory vine:
“it couldn’t have happened to a more deserving person,”
and I smile a little, musing also that her recent weedkiller
hasn’t quite gotten to my special aggressive garden
of blackberry vines now planted just up against the laurel hedge
separating her yard from my yard.
Then thoughts of Karma start coming to me,
again unannounced as I stand among innocent weeds and fronds
clipping and shaping it all to my own design: the Karma
that maybe somehow I deserve her and her loud rasping voice
that makes me turn and flee to the front yard,
and her unwanted music when she parties in her hot-tub.
She too will die alone, just like me, taking nothing.
Why did I spend six weeks in retreat listening to teachings on
The Way? To watch my teacher smile with no aversion at all
at the one person there whom I had come to detest for reasons of my own,
loving toward this person as to an only child,
and realize this teaching alone was what I traveled so far to learn,
to stop judging others and change myself, slowly change,
so I really understand the bottle blonde is a part of the whole,
so I can understand her suffering is not so different from my own
or the suffering of those I love,
and wish, from the bottom of my heart,
that she too may be happy.


CHRYSTAL ZACHARY JUNE 1997

Derelicts push metal shopping carts in the park
pick bottles from trash cans, street people with cheeks red
from cold or alcohol. They talk together smiling at curbside
with eyes one would, in Tibet, mistake for bliss.
I always believe it is intoxication as I walk quickly by.
Those eyes which never quite light on you
even when panhandling or laughing
with Thunderbird concealed in a well wrinkled brown bag.
Thunderbird, name for native power.
And I, now older, am still afraid of them as I walk by,
avoid them with a sort of hatred for their swollen hands
for their urinating in public places. One was in Vietnam.
He lives on the street days, used to sleep hidden under a bridge
until the cops came and cleaned them all out,
as they reported on the news. Where did they go, I wondered.
Once the Vietnam vet appeared in dirty camouflage
in Powells bookstore, his face bruised and bloody
and he caught my eye for a tiny moment, a glimmer which
reminded me of the secret glances of my own father
who sometimes revealed a tiny piece of his own tragedy
from the bluishcorner of his own eye,
another veteran on a different sort of war
with the manly stoicism of just taking it
and then going on and on,
heroism for a certain kind of man.


*Thunderbird - Bebida forte e barata comumente consumida pelos mendigos que moram nas ruas.


Rock






Once I was a tree
dreams wafting through my golden leaves
as I stood rooted in the stillness of the earth.
Once I was a rock
grey and round
rubbing against the shore
until I was gone
Once I was a mare
foaling, eating grass, kicking unshod hooves
until I was made to work and wear iron shoes
Now I am a woman
a little old
unshod
I work
step on the shore of my golden dreams
sometimes I realize
once I was a tree and through my leaves
golden dreams wafted in the autumn sun.





quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

ANTOLOGIA DE ÁLVARO MAIA






ÁLVARO MAIA COM SUA MÃE













ÁLVARO MAIA (1893-1969)


(Foto de 1939)


LEIA TAMBÉM PAULA MIRANA DE SOUSA RAMOS aqui





SOBRE AS ÁGUAS BARRENTAS


Sob o sol fugitivo, a tarde prisoneira
abre à invasão da noite as aguas do Madeira...
Calor de Agosto. 0 vento encrespa o sorvedouro,
que embala ao vento langue as lentas ondas de ouro...
- Rema, canoeiro amigo! A noite se avizinha.
Não risca o espaçO escuro uma asa de andorinha...
Deixa o barco fugir à flor da correnteza,
e apresta as férreas mãos com vigor e presteza ...



SUMAUMEIRA


Venho adorar-te à sombra da folhagem,
olhando o nascente, ao vento ondeando a fronde ...
E soltas o farfalho, que responde
à voz das cousas, num bramir selvagem ...
Teu verde-branco, verde-azul, aonde
a passarada canta em vassalagem,
vem procurar ventura na estiagem,
que doura as copas e a fartura esconde.
Ó samaumeira patrícia! Infiltra-me na fronte,
quando o corpo volver ao transformismo,
as riquezas do ar, as bênçãos do horizonte.
Leva minha alma ao céu, que o bem resume,
e espalha-me, em piedoso romantismo,
na luz, no pendão e no perfume ... 




ARBORICÍDIO



Esqueço o peito desvairado,
que, vendo morto o seu menino,
no cedro em flor vibra o machado
para o caixão do pequenino...

Esqueço o noivo enamorado,
que, no itaubal que o viu menino,
procura o leito de noivado,
– princípio e fim do seu destino...
O que em suor o sangue vaza,
e acorda ao sol, ao sol se deita,
si corta as vigas para a casa,
os imbaubais para a colheita...
O construtor, o marceneiro,
que faz os barcos e a mobília,
e põe as ripas ao braseiro
para o aconchego da família...
A árvore em cruz, que se transporta
em correntezas, sobre os rios,
e vai fulgir – árvore morta
nos longos mastros dos navios...
Há dor sublime no cilício
das pobres árvores feridas,
mas do tremendo sacrifício
nascem risos, brotam vidas...
Mas derrubar troncos eternos,
cheios de glória e batalhas,
apodrecê-los nos invernos,
pulverizá-los nas fornalhas,
Abrir florestas em clareiras,
deixar os pássaros sem ninhos,
o calmo rio em corredeiras,
em labirintos os caminhos,
É ser brutal, fero, demente,
e destruir, em crime duro,
pela inconstância do presente,
toda a grandeza do futuro...
ARBORICÍDIO
Álvaro Maia (1893-1969)
MAIA, Álvaro. Buzina dos paranás. Manaus: Sergio Cardoso, 1958. p.129-130





SERINGUEIRA


Ó gérmen do celeiro, ó bendita semente,
que trazes no tecido o vigor destas zonas,
brota, deslumbra, mostra o delírio fremente
das florestas, dos céus, dos rios do Amazonas.
Quantas bênçãos de luz nao te brilham nas franças,
que harmonizam de dia o rincão que adoramos...
Resplende em tua fronde um fanal de esperanças,
solta hosanas a noite o oboé dos teus ramos...
Rainha poderosa imperando na mata,
com tua ardente seiva o terreno enriqueces...
E, às carícias do sol e aos luares de prata,
esbanjas a bondade, entreabrindo-te em preces ...
És a imagem ideal do crescer formidando,
do holocausto divino em favor de quem chore...
Dão-te golpes na casca e, em resposta, cantando,
dás teu leite e teu pão, que são gotas da aurora...
Sacodes tua copa aos clamores do vento,
ofereces ao solo o teu pólen fecundo...
Sorves pela raiz o abençoado alimento
para dar alimento aos que vivem no mundo...
Ó florestas, ó céus, ó rios do Amazonas,
estacai um momento e, em delirio fremente,
levantai orações ao porvir destas zonas,
ao galho, à folha, à flor, ao perfume, a semente ...





PÊNDULO QUEBRADO


O implacavel cronometro da vida,
nos mecânicos giros errabundos,
ao bater os minutos e os segundos,
vai ficando com a órbita partida.
Enquanto corre o pêndulo, na lida
de revolver as eras nos seus fundos,
surgem do nada gêneses de mundos
e ao nada volta o que nao tem saida.
Corpo, frágil ponteiro da existencia,
coração, que alimentas e transformas,
perdestes o claror da adolescencia...
Mas, nas lutuosas noites merencórias,
haveis de reviver por novas formas
para a ressurreição de novas glórias.




EMPAREDADO

- "A terra é um canto eliseo... O céu é um grande centro
de aura e fogo a fulgir, - sentinelas da aurora...
Mas, apoiado à dor, noiva que estua e chora,
a cela da saudade, entre soluços, entro...
A duvida acompanha o elo em que me concentro,
ergue interrogações... E, nos prantos que irrora,
mostra o contentamento a explodir por fora
e um rude desespero a vibrar aqui dentro...
Estudo as sensações de toda fronte jovem,
sondo meu coração, rubro céu sem caminho.
E fujo, na agonia em que me desespero
E no encanto triunfal das forças que me movem,
a ansia de desejar tudo quanto adivinho
e à furio de viver em ideais que não quero..."





FANTASMAS


- " Fantásticas visões, virgens de olhos ardentes,
que passaram sorrindo em meu longo caminho,
constróem beijos de mel, ressoantes de carinho,
em colmeias que são tremendas urnas quentes...
Amei-as furioso, como a árvore o torvelinho...
Agitei-as com raiva em meus braços potentes,
desprezando-as após sem fo1has viridentes,
sem torneios de vento e sem canções de ninho...
Clamei, mas era tarde... Às minhas rudes vozes,
responderam da treva em clamores de fera
rugidos de revolta e protestos ferozes...
Só tu me apareceste, ó Imagem soberanal
ó triste Solidão doce noiva sincera,
e sincera talvez porque não és humana!"


%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%


[...]
Rias ao vento... Mais um dia,
Cahiste negua e, agreste avena,
Vinhas sem luz, vinhas tão fria,
Vinhas tão só de causar pena...
O seringueiro que remava,
Semeando espumas pelo rio,
o seringueiro, que passava,
erguendo os remos te acudiu.
Hoje, em seu lábio agradecida,
Agitas no ar sonoras azas,
E, pela voz, levas a vida
Aos entes bons, que estão nas casas...
Levas o som de cornamusa,
Quando o luar jorra e o rio é branco,
Á que o namora, alva e confusa,
Das ingaseiras do barranco...
A noiva ideal quase desmaia,
Quando percebe as tuas notas,
Lembrando beijos sobre a praia
E gritos longos de gaivotas...
Bambu perdido nos relentos,
Narciso immoto á beira d’agua,
Bebeste a rir todos os ventos,
Toda a verdura estuando em magua...
Agora tens, nesses descantes
em que a saudade vive accesa,
a dor das mattas soluçantes,
as grandes forças da tristeza...
Clarim das selvas, em teu canto
Rola o rumor das outras éras,
-anceios mortos num quebranto,
Clamores de índios e de feras...

%%%%%%%%%%%%%%%%%%%


Quando, alva e loura vital me dava,
minha Mãe, entre a selva e o céu nevoento,
também me dava o trom do oceano ao vento,
das galeras valsando na onda em lava...
Mas minha vida em fumo se apagava:
Germinara e cahira em soffrimento...
E tive a salvação, tive o tormento
nos seios de Narcisa, uma índia brava...
Dessas correntes em meu sangue, sinto
Galeões em rota por um mundo extincto,
Tribus em lucta pela mesma terra,
E, ora em doçuras, ora em rebeldias
Labios christãos ciciando Ave-Marias,
Rudes almas pagãs medindo a guerra...



%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%


Cabelos negros como nunca vi!
Mágico poema de fatais anelos
Há nessas tranças, como nunca li!
Cabelos crespos, revoltoso oceano,
Cabelos negros como a tempestade!
Cabelos castos de infinito arcano,
Que me consolam nesta soledade!
Cabelos magos que me seduzem tanto,
Cabelos negros que beijar quisera,
Cabelos plenos de magia e encanto
Cabelos lindos como a primavera!
Formosos laços de sonhado enleio,
Cabelos negros da mulher que eu amo,
- vagas olentes sobre um puro seio,
Por elas morro e, suspirando, chamo!








ÁRVORE FERIDA



Ante a constelação do céu florindo em lume
temos, ó árvore, o mesmo ideal e a mesma sina. . .
Sangrou-me o peito inerme a sensação divina,
como a acha te sangrou em golpe de negrume.
Dando esmola ao faminto e consôlo à ruina,
subimos em bondade, ardemos em perfume. . .
Bendita a dor criadora, o perfurante gume,
que em mim produz o verso e em ti produz resina. .
Ninguém virá curar-te! Apenas os ramalhos
ensinarão à flor a música dos galhos
e ensinarão ao galho as lutas das raizes.
Ninguém virá curar-me! Os meus versos apenas
serão o bálsamo esfeito em minhas próprias penas,
sob a ronda de dor dos dramas infelizes.

(BUZINA DOS PARANAS, 1958)






Buzina do Mato





Clarim das selvas, em teu canto
rola o rumor das outras eras,
anseios mortos num quebranto,
clamores de índios e de feras...

Quantos idílios não despertas
no lago imenso das lembranças,
rubras paixões das Descobertas,
revôos de flechas contra lanças...

Com essas canções de citaredo,
cobres a tarde de perfumes:
as folhas bolem no arvoredo
e ardem no bosque os vaga-lumes...



Falas... e trazes nos zunidos
as redolências das florestas,
e enches os olhos e os ouvidos
de trechos verdes e de festas...

Rias ao vento... Mas, um dia,
caíste n'água e, agreste avena,
vinhas sem luz, vinhas tão fria,
vinhas tão só de causar pena...


O seringueiro, que remava,
semeando espumas pelo rio,
o seringueiro, que passava,
erguendo os remos, te acudiu...

Hoje, em seu lábio, agradecida,
agitas no ar sonoros asas,
e, pela voz, levas a vida
aos entes bons, que estão nas casas...

Levas o som de cornamusa,
quando o luar jorra e o rio é branco,
à que o namora, alva e confusa,
nas ingàzeiras do barranco...

A noiva ideal quase desmaia,
quando percebe as tuas notas,
lembrando beijos sôbre a praia
e gritos longos de gaivotas...

Bambu perdido nos relentos,
Narciso imoto à beira d'água,
bebeste a rir todos os ventos,
todo o verdor estuando em mágoa...

Agora tens, nesses descantes,
em que a saudade vive acesa,
a dor das matas soluçantes,
as grandes fôrças da tristeza...

Clarim das selvas, em teu canto
rola o rumor das outras eras,
anseios mortos num quebranto,
clamores de índios e de feras...

Apud. Buzina dos paranás. Manaus, Sérgio Cardoso, 1958. p.9.





SÔBRE AS ÁGUAS BARRENTAS





Sob o sol fugitivo, a tarde prisioneira
abre à invasão da noite as águas do Madeira...
Calor de Agosto. O vento encrespa o sorvedouro,
que embala ao vento langue os lentas ondas de ouro.

- Rema, canoeiro amigo! A noite se avizinha.
Não risca o espaço escuro uma asa de andorinha...
Deixa o barco fugir à flor da correnteza,
e apresta as férreas mãos com vigor e presteza...
Há quem te espere ansiosa, entre as portas da casa,
mostrando à bôca em sangue um sorriso de brasa...

O sol filtra na queda o derradeiro feixe...
A montaria investe e corre como um peixe,
ora em quieto remanso, ora na maresia,
por entre a escuridão da mata fugidia...

Recurvo, o corpo de aço excandece e trabalha,
mas a idéia repousa à janela de palha,
onde um rosto amanhece e um corpo alvoroçado
e um maduro pomar, onde cresce o pecado...

Tudo em nosso redor é um solene incentivo
a êsse beijo de fogo, a êsse abraço furtivo :
o vento, que te afaga, enchendo-te de frio,

êste encanto, esta noite, esta cena, êste rio,
tudo é um riso imaturo, uma carícia calma,
que se lançam do céu sôbre as misérias da alma.

Ao rever a ampla selva em que folguei menino,
sinto meu coração fundir-se em brônzeo sino,
como si a terra fôsse uma igreja, uma aurora,
e o meu corpo em delírio uma tôrre sonora...
Às ilusões da infância, a minha vida acorda:
cada sentido é a fôrça e cada nervo é a corda,
que me levam no rio, áurea flor de bubuia,
na estranha languidez de uma branda aleluia...

A alegria luariza o sonho... -E o sino canta
ante a consolação desta harmonia santa.
Ajoelho em pensamento, entrecruzando os braços,
para beber num sôrvo as selvas e os espaços...

Insculpo em meu olhar, recolho nos ouvidos
tantos quadros da Vida em vidas repartidos...
Longas praias sem têrmo, onde alvejam gaivotas,
bosque em côres aberto e rio aberto em notas,
árvores de São João, sumaumeiras em prece,
doces recordações que nunca a fronte esquece,
heis-de embutir um dia, entre a lembrança rude,
na prata da velhice o ouro da juventude...

Sois o romance, a voz, que nos vem, de repente,
a uma valsa, a um perfume,a uma vista, em que a gente
ouve, abraça, recorda a trindade bendita
- a mãe, a noiva, a irmã, em doçura infinita...

Vivei, entrai em mim ! Quero, tempos afora,
sentir-vos a vibrar, como vos sinto agora,
onde me surja a mágoa, onde me leve o sonho,
imagens maternais de meu berço risonho !

Mais distante, à distância, onde o caudal não dorme,
desliza um batelão, vagaroso e disforme...
Hércules semi-nus lutam, batendo a voga,
e a espuma, em revulsão sob os remos que afoga,
confunde a queixa humana ao rumor de fadigas
da embarcação que lembra as galeras antigas...

-Homens, ó meus irmãos, ó párias que aí dentro ides,
em dolentes canções para a dor de outras lides,
que buscais e quereis, nesse destino obscuro,
despidos de ambição, cegos para o futuro?
Nada! Mas, na floresta onde as hordas selvagens
viam palcas de guerra ao verdor das ramagens,
traçais a nova estrada, ergueis o mundo novo,
por onde há de rolar em marcha um grande povo.

Os dias, que passais em conquistas e arrojos,
viverão dentro em nós, cantarão nos rebojos,
como o sangue brutal destas barrentas veias,
como o suave dulçor destas fulvas areias...

— Rema, canoeiro amigo! O vago céu escorre
uma toalha de breu sôbre a tarde que morre...
Estas margens azuis são muralhas de fumo,
— muros de sombra e mêdo, em que vamos sem rumo...

Tudo apavora, tudo assusta, tudo assombra,
nesta hora de refrega entre o sol-morto e a sombra. .
Há bruxedos de anões sôbre as luras do charco,
índios e iaras trovando à passagem do barco...

Bóia, monstruoso, à proa, o balseiro de uma ilha...
Mas, em cima, o bando irial das estrêlas fervilha.
Erra o bosque em perfume. Há bôcas nos barrancos,
e o lindo luar nascente esparge lírios brancos...

A noite aumenta o espasmo em que nos debatemos,
ouvindo no silêncio o chapinhar dos remos...

É a recompensa... E, enquanto idealizas o beijo
do que te espera muda, em pudor e desejo,
eu guardo a imensa voz destas imensidades
e encho o meu coração de vindouras saudades,
Terra, ó mãe, que me deste, em mesma hora dorida,
a luz do amor, o bem do sonho, o pão da vida!




%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%


Falena doidejando em fútil meio bobo,
Traí minha beleza e pratiquei um crime...
Pousei de riso em riso e não amei, -vendi-me!
Fiz à própria existência um lancinante roubo...
Estéril, sem tremer ao maternal arroubo,
Para matar a angústia imensa, - dividi-me
Entre a dor da lembrança e a mágoa que me oprime,
Sentindo roer-me o ovário um famulento lobo...
Os nervos, na prisão da carne em fúria, bolem...
E meu corpo, que é céu, contém o horror do inferno,
E minh’alma, que é luz, rola em pleno negrume...
Tranquei a alva corola aos remígios do pólen,
Fugi ao sol nupcial e procurei o inverno...
Morro sem ver o amor! Morro sem ter perfume!




%%%%%%%%%%%%%%%%%


Cedro! Não soffres o ultimo trabalho,
O derradeiro sommo...
Foi pouco esse agasalho,
Que déste a quem passava no abandono...
Breve, em canoa, o seringueiro estóico
Virá levar-te para a embocadura
De igarapé ou lago,
Cantando endeixas do torrão heroico...
E aguradará, com um affago,
Que a jangada appareça na corrente
E pare da ingazeira á sombra escura...
Então, exposto as maresias,
Aos cedros rente,
Irás para longe
Da humosa selva dos primeiros dias...
E longe ainda
Ainda bem longe,
Dentilhões de ferro transformado,
Embalará infante recemnado,
Em dia lindo, em noite linda...
Ou mastro no penol de um transatlantico,
Levantará, nos vagalhões do Atlantico,
a bandeira da Pátria, envolta em trovas...
Ante flavor da flammula flammante,
-folhagem verde-flava flammejante
Lembrarás amazônicos recantos...
E, na áurea juventude de um renovo,
Tu julgarás o mastro um galho novo,
Reverdecendo em folhas novas
E remalhando em novos cantos...
Onde vás assim? Porque abandonas
A terra em flôr de yaras e de máguas,
Ó jangada de cedros do Amazonas?
Onde a levais, bebendo os horizontes,
Na successão da aguas,
Seringueiros-titans de brônzeas frontes?
Entre ribas azues e grandes aguas
E com a saudade a uivar nos horizontes,
A jangada de cedros, no Amazonas,
Vae para longe,
Muito longe...
[...]





OBSESSÃO


- “Noite. .. Que horas serão?
Levanto-me do leito abandonado,
e abro o olhar triste pelo escuridão
tremenda do pecado ...

Na treva do cubículo, perquiro,
sob a febre nervosa dos instintos,
.....................
Abro a janela, em prantos para a treva ...
Meu olhar, de tristezas embebido,
treme, desvaira, perde-se e se eleva
nas árvores do sítio em que resido ...

São ficus e mangueiras paralelas,
de folhagens triunfais,
expostas aos clamores das procelas
e aa trom dos temporais ...
Beijadas por estrelas misteriosas,
como que sonham nesta grande hora,
- hora em que as hamadríadas chorosas,
enquanto nao Ihes vêm a luz da aurora,

Saem dos troncos, cheios de ciúme,
e, em rajadas pagãs,
beijam, apertam, cobrem de perfume
os feros egipãs ...

A noite é fria. .. Dançam pela aragem,
dançam na aragem fadas taciturnas ...
Dedilha o vento as harpas do folhagem,
zune e entoa suavíssimos noturnos ...

Noite, fecundo ventre das idéias,
quando choras assim,
fulgurando ao dulçor das epopéias,
tem piedade de mim ...


VEIO D'AGUA



Gosto de ouvir-te, veio de agua pura,
recortando os recantos escondidos
de soluços, de vozes, de arruidos,
entre hinos de alegria e de amargura ...
Choras no coração da selva escura
a saudade dos trilhos percorridos,
e ao teu pranto, lembrando os tempos idos,
a verde alma da terra se mistura ...
És calmo e frio em fases diferentes,
ora na rude angustia das vazantes,
ora no desespero das enchentes ...
E, corda de harpa rebentando em festas,
ergues ao ceu, em notas delirantes,
a epopeia convulsa das florestas ...


%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%


Em teu corpo de nubil se anniquila,
Estrangulado por um cancro interno,
O sol germinador que, em sonho terno,
Te incendeia de auroras e pupilla...
Vês o tempo correr, carne intranquilla,
sem o sanguento céu do amor materno,
e sentes nos tendões rugir o inferno,
emquanto marchas para a extrema argilla...
Ainda podes combater a idade,
Ó fonte que desejas ser bebida...
Cede ao Amor... E, á sombra que te invade,
Surgirão, no esplendor de nova vida,
Forças occultas pela virgindade,
Grandes beijos sem portas de sahida...

%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%



GARÇAS


No azul, em móveis ângulos, esparsas
as penas em finíssimas arestas,
fugindo em tempo às cerrações funestas,
vão em busca do céu bandos de garças ...
Em meio de tristezas e de festas,
fazem retas e círculos de farças,
ou pospontam sendais nas talagarças
e nas tules ondeantes das florestas...
Na tarde escura, no verdor da aurora,
voam, revoam pelo espaço afora,
- aladas sensações, asas de mágoas...
Descem, depois, aos longes da planura,
e, enfeitando os barrancosde brancura,
lebram Mães-dágua em sonhos sobre as águas...


%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%


[...]
Longas praias sem termo, onde alvejam gaivotas,
Bosques em cores aberto e rio aberto em notas,
Arvores de São João, samahumeiras em prece,
Doces recordações que nunca a fronte esquece,
Heis de embutir um dia, entre a lembrança rude,
Na prata da velhice o ouro da juventude...
Sois romance, a voz, que nos vêm, de repente,
A uma valsa, a um perfume, a uma vista, em que a gente
Ouve, abraça, recorda a trindade bemdita
-a mãe, a noiva, a irmã, em doçura infinita.
Vivei, entrae em mim! Quero, tempos afora,
Sentir-vos a vibrar, como vos sinto agora,
Onde me surja a magua, onde me leve o sonho,
Imagens maternaes de meu berço risonho!
Mais distante, à distancia onde a caudal não dorme,
Deslisa um batelão vagaroso e disforme...
Hercules semi-nús luctam, batendo a voga,
E a espuma, em revulsão sob os remos que afoga,
Confunde a queixa humana ao rumor das fadigas
Da embarcação que lembra as galeras antigas...
-Homens, ó meus irmãos, ó parias que ahi dentro ides,
Em dolentes canções para a dor de outras lides,
Que buscais e quereis nesse destino obscuro,
Despidos de ambição, cegos para o futuro?
Nada! Mas, na floresta onde as hordas selvagens
Viam palcos de guerra ao verdor das ramagens,
Traçais a nova estrada, ergueis o mundo novo,
Por onde há de rolar em marcha um grande povo...
Os dias, que passais em conquistas e arrojos,
Viverão dentro de nós, cantarão nos rebojos,
Como o sangue brutal destas barrentas veias,
Como o suave dulçor destas fulvas areias...
[...]


%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%



Despeço-me de ti como o proscripto
Que da risonha pátria desterrado
Parte para cumprir seu negro fado
noutra pátria de fel e granito
Onde somente echôe o triste grito
De qualquer animal desnaturado,
E donde não divise o desgraçado
Nem passar uma nuvem no infinito.
Adeus! Em um desanimo profundo
Vae fenecendo toda a minha vida
Desde o momento desta despedida
De mim agora foge toda calma
E é tão triste a saudade de minha’alma
como é entrestecido o próprio mundo




RENÚNCIA



Entre o teu vulto ardente e o meu destino incerto,
fulgure este deserto, este abismo fechado,
- e ruja o coração, como um grande forçado,
vendo-te sempre longe, embora estejas perto ...
Mas bendito esse abismo e bendito o deserto,
que nos cavam no mundo um fosso ilimitado:
não terás minha voz, como um grito abafado,
nem verei teu olhar, duplo sol entreaberto ...
Bendito esse deserto e bendito esse abismo!
Não sentirás a dor, que me acorrenta os passos,
o imposslvel gelar-te as faces de agonia,
Nem cismarás em pronto as torturas que cismo,
- beijo morto ao nascer, rósea estátua sem braços,
que vejo em desespero e não terei um dia!




%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%



Meu coração é cedo! Não te afundes
Na dor de sonhos fúneros, inscriptos
De eterno anceio por eternos mythos,
Em trêdos ais e longos de profundis...
Busca os céus, onde fuljam róseos ritos,
Róseos mysterios em que te aprofundes,
E destróe o pavor de que te infundes,
Provendo culpas aos teus proprios gritos...
Deixa, um instante a solidão! A vida
É transformismo, é ascese indefinida,
É doirar de volúpia as sombras frias...
Ó machina de dynamos de sangue,
Arranca e suga de meu corpo exangre
Beijos novos por novas energias

%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%


Já viste por acaso um cemitério
Cheio de ossos das fúnebres caveiras
De mausoléus de todas as maneiras
Que nos dão um pavor triste e funéreo?
Quando o relogio lugrube as primeiras
Pancadas vae batendo em tom sidereo,
Á meia-noite- a hora do mysterio,
Soltam gritos as aves agoureiras
Nesse momento geme a ventania
E ergue-se uma visão
Toda envolta por tétricos horrores
É a imagem terrível de minh’alma
Que passa pelo mundo sem ter calma,
Mergulhada no pântano das dores?


%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%





REFÚGIO AZUL

2.


Volvidos lentos anos de fadiga
sob um pesar desolador,
vinha sempre dizer-te, árvore amiga,
o meu sonho de amor ...
Guardavas minhas súplicas sombrias
- velhas frases dizendo dores vivas...
Escutavas as frases, e vertias
o teu perdao de folhas pensativos...
Nado sou, nada sinto, nada valho
sem o perfume e a sensação que vertes:
bebo teu riso, canto no teu galho,
porque dás forças às ilusoes inertes.

3.

Neste canto de luz que nos esconde
das violentas paixões da vida impura,
enlaço-te hoje toda a verde fronde
com meus serenos braços de verdura...
Chegam ruídos do mundo de onde em onde,
gritos que se erguem pela noite escura...
Mas, a esses gritos, nossa voz responde
em preces de silencio e de doçura...
Nas áureas borda úmidos do cálix,
que se alberga nos urnas de teu peito,
vivem bênçãos de amor para os meus males...
E bendizes o céu ermo e impoluto,
como a flor que perece em bem do leito,
como a flor que perece em bem do fruto... 



~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Não se remove o amor, quando entrelaça
dois destinos que se uniram
ao fulgor de procelas, na desgraça...
Doma-se, às vezes... Mas, um dia,
os que as almas em beijos confundiram
se encontram em divina rebeldia,
e vão na vida, como as águas,
de pedra em pedra repartindo as mágoas...
MAIA, Álvaro. Buzina dos paranás. Manaus: Sergio Cardoso, 1958. p.176





%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%






Soffres? – Somente o Amor, que transfigura e eleva,
accenderá manhãs em teu genio sombrio...
Amor é procreação, ou estéril desvario,
e, quando fere, exalta, e, quando humilha, eleva...
-Achas o mundo o inferno?-Adão, vae domar Eva!
Ateia a labareda a esse peito já frio,
E, em seios limpos, colla os labios, como um rio
Em dois montes iguaes, cantando ao sol e á treva...
Lança a bocca faminta á violência dos húmus...
Suga, pela volúpia o sangue, - alma da veia...
E , dando á vida o odor dos fructos de áureos sumos,
Mudas os haustos pagãos num soberbo evangelho...
Sê divino, e produz! Sê robusto, e semeia!
Verás que fostes um deus, quando ficares velho!







%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%








INVERNO


Vai morrendo a alegria dos estios,
num retintim de pompas e fanfarras:
bandos de pombos em revoos sombrios,
periquitos em loucas algazarras...

A água se espalha em volumosos fios,
que a terra escarvam, ferem como garras...
Fogem do espaço os fracos vozerios
das aves, das abelhas, das cigarras...

Os rios, como veias rebentadas,
dão o sangue lustral – a água que escorre –
às margens, em torrentes e enxurradas...

Há vozes pela selva, em canto eterno
– voz de saudades ao verão que morre,
– voz de exorcismos ao vindouro inverno!






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BIOGRAFIA DO ARQUIVO DO SENADO

Senador Álvaro Maia

Álvaro Botelho Maia
Nascimento: 19/2/1893
Natural de: Humaitá - AM

Filiação: Fausto Pereira Maia
e Josefina Botelho Maia
Falecimento: 4/5/1969


Histórico Acadêmico
Secundário Ginásio Amazonense D. Pedro Ii
Direito Faculdade de Direito

Cargos Públicos
Secretário da Prefeitura Manaus
Presidente da Caixa Econômica Federal Manaus
Secretário de Educação e Cultura.
Secretário da Prefeitura Porto Velho

Profissões
Jornalista
Professor(a)
Servidor Público

Mandatos
Interventor - 1930 a 1933
Deputado Federal - 1933 a 1935
Governador - 1935 a 1937
Interventor - 1937 a 1945
Senador - 1946 a 1951
Governador - 1951 a 1954
Senador - 1967 a 1969

Trabalhos Publicados
- Água viva. Manaus : [s.n.] 1950. 8 p.
- Antes das férias. Manaus : Livraria Clássica, 1929.
- Após a campanha. Manaus : Armazéns Palácio Real, 1926. 28 p.
- Banco de canoa. Manaus : Sérgio Cardoso, 1963. 280 p.
- A Bandeira Nacional como símbolo e emblema da Pátria. Manaus : Armazéns Palácio real, 1926. 42 p.
- Beiradão. Rio de Janeiro : Borsoi, 1958. 296 p.
- Bendita entre as mulheres. Manaus : [s.n.], 1945. 9 p.
- Buzina dos paranás. Manaus : Sérgio Cardoso & Cia., 1958. 382 p.
- Canção de fé e esperança. Manaus : Tipografia de Cá e Lá, 1923. 34 p.
- O clarão solitário. Manaus : [s.n.], 1945. 9 p.
- O cântaro da samaritana. Manaus : DEIP, 1945. 9 p.
- Defumadores e porongas. Manaus : Sérgio Cardoso, 1966. 266 p.
- D. Pedro II e a República. Manaus: Armazéns Palácio Real, 1926. 22 p.
- Em minha defesa. Manaus : Aug Reis Impressor, 1931. 10 p.
- Em nome das amazônidas. Manaus : Tipografia Palais Royal, 1927.
- Em torno do caso do Amazonas. Rio de Janeiro: [s.n.], 1931.
- Etelvina, enfermeira esperança. Manaus : [s.n.], 1946. 11 p.
- Friagens e cerrações.[S.n.t.]
- Gente dos seringais. Rio de Janeiro : Borsoi, 1956. 375 p.
- Imperialismo e separatismo. Manaus : Armazéns Palácio Real, 1926. 28 p.
- Luz do horizonte. Manaus : [s.n.], 1946. 9 p.
- Na manhã do centenário. Manaus : Tipografia Augusto Reis, 1925. 20 p.
- Nas barras do pretório. Manaus : Sérgio Cardoso & Cia., 1958. 200 p.
- Nas paliçadas de dezembro. Manaus : [s.n.], 1934. 37 p.
- Nas tendas do emaús. Manaus : Sérgio Cardoso, 1967 .220 p.
- Na vanguarda da retaguarda. Manaus : DEIP, 1943. 354 p.
- No limiar da intervenção. Manaus : Tipografia Palais Royal, 1925. 44 p.
- Noite de redenção. Manaus : DEIP, 1944. 8 p.
- A nova política do Brasil. Manaus : [s.n.], 1939. 90 p.
- Panorama real do Amazonas. Manaus : Tipografia Phenix, 1934. 37 p.
- Pela glória de Ajuricaba. [S.l.]: Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, 1952. 43 p.
- O português-lusitano e o português-brasileiro, léxica e sintaticamente considerados. Manaus : Armazéns Palácio Real, 1926. 71 p.
- As responsabilidades revolucionárias da juventude. Manaus : [s.n.], 1931.
- O ritmo da língua nacional. Manaus : Papelaria Velho Lino, [19- - ?]. 39 p.
- Os sãos não precisam de médicos. [S.l: s.n.], 1954. 18 p
- Semana do serviço militar. Manaus : DEIP, 1947. 8 p.
- Sponsa horrenda : poesia. Manaus : Imprensa Pública, 1943. 4 p.
- Velhos e novos horizontes. Manaus : Imprensa Oficial , 1924. 31 p.






ÁLVARO MAIA


Álvaro Botelho Maia nasceu em 19 de fevereiro de 1893, no seringal “Goiabal”, rio Madeira, município de Humaitá, primogênito de Fausto Ferreira Maia (cearense, falecido em 1932) e Josefina Botelho Maia (amazonense, falecida em 1968). Além de Álvaro Maia, nasceram do casal os filhos Antonio Botelho Maia (antigo fiscal de consumo, ex-Prefeito de Manaus e ex-Deputado Federal pelo Amazonas), Raimundo Botelho Maia (funcionário federal, falecido em Manaus em 1942) e uma menina, Nênê, falecida em 1902, em tenra idade.

Formação intelectual

Álvaro Maia veio criança para Manaus, aqui fazendo os cursos primário e secundário, o último no Ginásio Amazonense, tendo como colegas de turma Cosme Ferreira Filho, Cícero Bezerra de Menezes, Romero Estellita, Carlos Studart Filho e Pedro Thiago de Mello.
Curso superior iniciado em 1913 na Faculdade de Direito do Ceará, onde morou na “República Vaticano”. Em 23 de março de 1917, na Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, colou grau de bacharel em direito, na mesma turma do acreano Mário Oliveira.

Atividade jornalística

Iniciada em “Aura”, publicação estudantil que circulou em Manaus de 24 de junho de 1907 até 20 de junho de 1912, quase todo esse longo período sob direção de Abelardo Araújo.
Ainda estudante secundário começou a trabalhar no “Jornal do Comércio”, então dirigido, pelo Dr. Vicente Reis, tendo como companheiros Abelardo Araújo, Cosme Ferreira Filho e Raimundo Santos.
No Ceará, participou do grupo de redatores do jornal estudantil “Vaticano”, onde apareceu uma apreciação a seu respeito em que é identificado por “Alberto Maia”. Também no Ceará escreveu em “Radical”, assistindo à agressão sofrida pelo Dr. Gentil Falcão.
De volta a Manaus, já formado, em 1917, Álvaro Maia fundou com Caetano Estellita “A Imprensa”, de cuja redação fez parte também Benjamim Lima, sendo Diretor o Dr. Alfredo da Mata.
Em 1921, durante permanência no Rio, trabalhou na “Gazeta de Notícias”, ao lado de Cândido Campos e Franklin Palmeira.
Nos primeiros meses de 1926, no início do Governo Efigênio de Sales, foi Diretor da Imprensa Oficial.
A partir da II Grande Guerra, passou a colaborador permanente dos Diários Associados, por escolha pessoal de Assis Chateaubriand, e seus artigos entraram a ser divulgados pela citada cadeia jornalística.

Atividades intelectuais

Estreou nas letras publicando o soneto “Cabelos Negros” em o “Curumi”, jornal de estudantes, em 1904. Ao longo de 65 anos, consagrou-se como poeta, ensaísta, romancista e pensador; sobretudo como poeta.

Durante o período de formação escreveu e versejou sempre, publicando nos jornais em que trabalhou.

Em 1918, figurou entre os 30 fundadores da Academia Amazonense de Letras, tendo escolhido para patrono o poeta Maranhão Sobrinho, então há pouco falecido.

No concurso promovido, em 1925, pela revista “Redenção”, dirigida por Clovis Barbosa, Álvaro Maia foi escolhido príncipe dos poetas amazonenses, por 21 votos, tendo como concorrentes Jonas da Silva (7 votos), Raimundo Monteiro (6 votos), Francisco Pereira, Genésio Cavalcante e Heitor Veridiano (1 voto cada).

Só em 1943 publicou o primeiro livro, reunindo crônicas aparecidas quando da campanha da produção da borracha, sob o título de “Na Vanguarda da Retaguarda”, tendo como prefácio um artigo de Assis Chateaubriand, “O Mujik da Steppe Verde da Amazônia”, escrito em Manaus a 25 de maio de 1943. Foi divulgação oficial, feita pelo então Departamento Estadual de Imprensa e Divulgação.
Até então os trabalhos de Álvaro Maia (poesia, crônicas, ensaios, teses, discursos e conferências) haviam sido publicados somente na imprensa ou em folhetos. O livro, porém, só apareceu aos 50 anos de idade.
O 2o livro, “Gente dos Seringais”, foi impresso no Rio, pelo Editor Borsoi, em 1956, apresentando um mapa da região que serve de cenários às narrativas, que se prendem “ao Médio-Madeira, especialmente no Município de Humaitá, com o Marmelos, Maici, Machado e Jamari, pela margem direita; à esquerda, os rios menores, que percorrem os campos gerais, Puruzinho e Mucuim, cujas águas se comunicam ao Ipixuna e outros afluentes do Purus; ao sul, o cotovelo encachoeirado do Madeira-Mamoré, até Guajará-Mirim, na fronteira boliviana, em que se encontra a estrada-de-ferro, conseqüência do Tratado de Petrópolis”.
Em 1958 apareceram três volumes: um de poesias, “Buzina dos Paranás”, o segundo “Nas Barras do Pretório”, livro político de justificativa de sua vida, editados por Sérgio Cardoso & Cia. Ltda., em Manaus, e o terceiro, o romance “Beiradão”, saído no Rio, dos prelos de Borsoi Editor.
“Buzina dos Paranás” reúne a poesia de Álvaro Maia até a época, incluindo os seguintes sub-títulos: Nos Céus do Amazonas, Portas da Amazônia, No Turbilhão, Novo Ipiranga, Mata Invadida, A Bem-Aventurança Esquecida, Romance Azul, Terreiros de Umbanda, Na Penumbra dos Sanatórios, Traduções, Horas Antigas e Mi Deslumbramiento en el Amazonas (traduções de Gastón Figueira).
O famoso “Nas Barras do Pretório” e uma defesa da vida do político, escrita sem malquerenças nem subterfúgios, demonstrando, à saciedade, com documentos, os atos e as atitudes de uma carreira combativa.
O romance “Beiradão” retrata o período de conquista do Madeira e seus afluentes, registrando dramas e tragédias na época em “dominava a coragem fria, manejando o rifle”.
“Banco de Canôa” saiu em 1963, pela Editora Sérgio Cardoso, em Manaus, retratando cenas de rios e seringais da Amazônia. Diz o autor, no prefácio: é um livro de crônicas seringueiras, destinadas a seringueiros e operários da selva. Espécie de folclore pioneiro caboclitude para imitar negritude, qualidade comum às atitudes e às condutas dos caboclos do interior”.
Em 1966, saiu nas Edições Governo do Estado do Amazonas, na série Raimundo Monteiro, vol. X, uma coletânea de pequenas estórias, intitulada “Defumadores e Porongas”.
Por fim, “Tenda de Emaús”, livro de divagações espiritualistas, foi lançado em fins de 1968, poucos meses antes da morte de Álvaro Maia, apesar de estar impresso desde o ano anterior, por Sérgio Cardoso.
Em 1o de janeiro de 1966, foi empossada a Diretoria da Academia Amazonense, presidida por Álvaro Maia, que esteve no posto até 28 de novembro, quando dele se licenciou para exercer o mandato de Senador.
Uma semana antes do seu passamento, ficou assentada uma comemoração, em julho de 1969, dos 65 anos de sua atividade literária.

Atividades no magistério

Com a criação da cadeira de Instrução Moral e Cívica nos cursos secundários, pelo Presidente Arthur Bernardes, Álvaro Maia foi nomeado pelo Interventor Alfredo Sá para professor interino do Ginásio Amazonense, em 1925, empossando-se a 20 de maio, em sessão presidida pelo Prof. Plácido Serrano. Aberto concurso para a cadeira, foi ele, já em 1926, candidato único, apresentando tese sobre “Imperialismo e Separatismo” e defendendo outra, de ponto sorteado pela Congregação, “A Bandeira Nacional como Símbolo e Emblema da Pátria”
Também em 1926 conquistou uma das cadeiras de Português do mesmo Ginásio, com duas teses: “O Português-Lusitano e o Português-Brasileiro léxica e sintaticamente considerados” (ponto sorteado pela Congregação) e “O Ritmo da Língua Nacional” (de própria escolha).
Ensinou, efetivamente, até 1930.
Nesse mesmo período ensinou Português no Colégio Dom Bosco, onde ainda tentou continuar a dirigir classes em 1931, já Interventor Federal, verificando, logo no início do ano, a falta de tempo.
No Rio, do segundo semestre de 1931 até 1933, voltou ao magistério em colégios particulares, tendo sido, ainda, Inspetor de Ensino.

Atividades políticas

Desde que retornou, formado, à terra natal, Álvaro Maia se tornou uma bandeira política. Em 1918 foi candidatado a Deputado Federal, pela oposição, sem nenhuma perspectiva de vencer.
Sua afirmação, porém, se deu quando pronunciou a “Canção de Fé e Esperança”, em 9 de novembro de 1923. Depois dos famosos discursos-libelos de Heliodoro Balbi, foi o documento decisivo da vida política do Amazonas. Enquanto ensinava, Álvaro Maia foi conquistando paulatinamente a confiança e a simpatia dos moços. Por outro lado, sua vida era um exemplo de dignidade e desprendimento.
Após a Revolução de 1930, foi afinal chamado ao poder, como Interventor Federal, indicado pelo então Tenente-Coronel Floriano Machado, que esteve à frente do Governo do Estado. Exerceu o cargo até meados de 1931, no meio das maiores dificuldades, inclusive financeiras.
Tendo-se exonerado no Rio, lá ficou até que foi iniciada a campanha para a reconstitucionalização do país, quando voltou ao Amazonas, disputando eleição para Deputado à Assembléia Nacional Constituinte (eleitos: Álvaro Maia, Alfredo da Mata, Leopoldo Cunha Melo e Luiz Tireli).
Votada a Constituição de julho de 1934, organizou-se a vida política estadual, sendo, em 1935, escolhido pela Assembléia Estadual para Senador Federal, juntamente com Alfredo da Mata. Logo depois, também em eleição indireta, foi eleito Governador Constitucional do Estado.
Com o golpe político do Estado Novo, em 10 de novembro de 1937, foi nomeado Interventor Federal, mantendo-se no poder até a queda de Getúlio Vargas, em 29 de outubro de 1945. Atravessou toda a II Grande Guerra à frente do Estado. Foi substituído pelo Desembargador Stanislau Affonso, Presidente do Tribunal de Justiça, durante o Governo José Linhares.
Integrando o Partido Social Democrático desde a sua fundação, como membro de sua comissão central, Álvaro Maia foi candidato à Senatoria Federal, juntamente com Waldemar Pedrosa. Nas eleições de 2 de dezembro de 1945 a chapa venceu por larga margem de votos, publicando Álvaro Maia, uma prestação de contas de sua administração.
Durante o exercício do mandato, foi Presidente da Comissão de Diplomacia da Câmara Alta e fez parte da Delegação do Brasil a uma reunião da ONU, em Paris, em 1948: nessa ocasião apresentou trabalho sobre genocídio.
Em 1950 voltou novamente ao Governo do Estado, numa eleição renhida, em que teve como competidor o Senador Seve riano Nunes. Foi eleito na mesma ocasião em que Getúlio Vargas conquistou pelo voto direto a Presidência da República. Antes do término do mandato, desincompatibilizou-se para disputar eleição para o Senado, em que foi derrotado.
Seguiram-se mais duas eleições perdidas (1958 e 1962). Na 4a disputa, porém, sua candidatura saiu vitoriosa. Foi como Senador, pela 3a vez, que a morte o encontrou.

Outras atividades

O 1o emprego que teve o bacharel Álvaro Maia, no Amazonas, em 1917, foi de redator dos debates da Assembléia Legislativa. Depois foi procurador da República, interino (1917-1918). Exerceu durante 15 dias o lugar de ajudante do Gabinete de Identificação e Estatística (1918), sob a direção do Dr. Galdino Ramos. Em 1918-1919 foi Auditor da Força Policial, cargo que considerou destituído de interesse para o Estado, propondo ao Governador Alcântara Bacelar a sua extinção. Foi então para Porto-Velho, como secretário do Superintendente Monsenhor Raimundo Oliveira (1920-1921). Em 1921-1922 serviu como secretário da Comissão de Propaganda e Organização do Centenário no Pará, chefiada por Djalma Cavalcanti, seu cunhado. De 1922 a 1926, serviu na Comissão de Saneamento Rural do Amazonas sob a direção do Dr. Samuel Uchôa, sendo-lhe atribuída a coordenação dos relatórios.
Quando Governador Militar do Amazonas o Cel. Raimundo Barbosa, após a chegada do General Menna Barreto, Comandante do Destacamento organizado para combater os revoltosos de 23 de julho de 1924, Álvaro Maia foi secretário da Prefeitura de Manaus. O Prefeito, então, foi Araújo Lima, que posteriormente, voltou ao cargo, no Governo Efigênio de Sales, realizando uma das mais profícuas administrações.
Na Associação Comercial do Amazonas, exerceu as funções de Consultor Jurídico e redator da revista, até 1930. Retomou o posto de Consultor Jurídico em 1958.
Neste ano, foi nomeado Presidente da Caixa Econômica Federal, aposentando-se, como tal, em 1966.
No Rio, manteve escritório de advocacia, associado ao Dr. Paulo Marinho, entre 1955-1958.

Morte

Morreu Álvaro Maia a 1:15 da madrugada de 4 de maio de 1969, num apartamento do Pavilhão Santana, da Santa Casa de Misericórdia de Manaus, acometido de infarto do miocárdio na manhã da véspera. Assistiram ao desenlace o médico assistente, Dr. Osvaldo Said, acompanhado pela enfermeira Ruth Helena, pela Srta. Maria Helena Paiva Monte (prima) e Dr. Erasmo Alfaia (amigo). Imediatamente a notícia se espalhou e começaram a chegar ao hospital os amigos do morto, que foi velado no hall do Palácio Rio Negro desde o alvorecer.
O sepultamento de Álvaro Maia se deu ao fim da tarde de 5 de maio, no Cemitério São João Batista, acompanhado por grande massa humana, sentida e emocionada.
(Biografia publicada na Revista da Academia Amazonense de Letras n.0 14, de dezembro de 1969, de autoria do Acadêmico Djalma Batista, que consentiu, gentilmente, na sua transcrição).


[Agnello Bittencourt. Dicionário amazonense de biografias. Rio de Janeiro, Conquista, 1973].

Álvaro Maia foi casado com D. Amazilis e teve duas filhas: Terezinha (já falecida) e Alviles, casada com Leopoldo Péres Sobrinho (irmão do falecido senador Jefferson Péres.)

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