quarta-feira, 22 de abril de 2009

Arthur Cézar Ferreira Reis







(Na foto, Reis e ao fundo Pedro Calmon)








Arthur Cézar Ferreira Reis



A PRESSÃO DOS INTERESSES UNIVERSAIS


Arthur Cézar Ferreira Reis




Há perigos rondando realmente a Amazônia? Depois do que aqui já foi registrado, poderá alguém duvidar do que pretendemos ter provado? No tocante ao passado, essas dúvidas não devem existir. No que diz respeito à atualidade, os perigos antevistos, propostos, terão algum fundamento?
A industrialização do mundo, marcando, evidentemente, a etapa econômica de nossos dias, está ligada, como é óbvio, ao da produção de matérias-primas. No passado foi fácil às nações que dispunham do primado industrial obter matéria-prima, através da política colonialista que executaram na África e na Ásia, através de acordos de comércio ou ainda por meio da aplicação de seus capitais na própria América tropical. A história do século XIX e das primeiras décadas do século XX é, realmente, uma história que se distingue justamente pela ação daquelas potências na divisão dos espaços onde colheram ou onde compraram aqueles recursos, essenciais à movimentação de seus parques fabris.
Essas matérias-primas vegetais, todavia, estão sendo substituídas pelo que a técnica, em seu desenvolvimento vertiginoso, vai alcançando. Os sintéticos, obtidos nos grandes laboratórios de pesquisa e de produção intensiva, se ainda não são suficientes para satisfazer o apetite da indústria, já vão alimentando em muito as necessidades dos grandes centros manufatureiros, permitindo a impressão de que está encerrado o ciclo dos mercados produtores de matéria-prima vegetal ou animal - extraídas ou colhidas em estado de natureza. E com eles, assegurando-se maiores venturas aos povos que até então viviam subordinados à extração de recursos da terra, seja os recursos minerais, seja os recursos florestais e, nessa condição de inferioridade, sujeitos a soberanias que não eram legitimamente aquelas que melhor lhes falavam ao coração porque estranhas às respectivas etnias, estranhas às suas tradições nacionais, estranhas ao seu passado religioso, político e cultural. Às técnicas, com os sucedâneos, conseqüentemente, poder-se-ia atribuir, de certo modo, o êxito que os programas nacionalistas dos povos colonizados estão alcançando.
As teses, pergunta-se, estão certas? Os sintéticos estarão realmente pondo fim ao ciclo das matérias-primas naturais? Os impérios coloniais terão atingido o seu encerramento como realidade política e econômica como decorrência natural desse novo estado de coisas no campo da produção?
O problema da produção de matérias-primas ainda não atingiu a fase final. Sua solução ainda não foi coberta pela produção dos sintéticos. Quando certos cientistas ou amadores de cientistas pretendem que os sintéticos levaram â sepultura a matéria-prima natural, evidentemente estão afirmando uma inverdade ou se colocaram ao serviço de iniciativas suspeitas.
Se quiserem a palavra final, de contestação, é só consultar as estatísticas que se publicam anualmente pelos órgãos internacionais. Nesses dados temos o esclarecimento definitivo - a produção de matérias-primas, como resultante do saque à natureza ou efeito do investimento de capitais e de técnicas mais amadurecidas, mais adiantadas, mais eficientes, nas regiões tropicais, continua a processar-se em ritmo que não diminui, antes se avoluma, cresce, aumenta sensivelmente. Vamos a um exemplo — afirmou-se que a borracha natural estava condenada ao desaparecimento como atividade econômica, uma vez que nos Estados Unidos, na Europa, o sintético, já previsto em 1865 por um cientista alemão que visitara a Amazônia e se alarmara com o sistema rotineiro, agressivo, destrutivo porque a extração de látex era realizada pelos seringueiros, estava superando quantitativa e qualitativamente aquela, de sorte que, num futuro muito próximo, as gomas naturais, fossem as da floresta amazônica, fossem as das plantações orientais, não teriam mais existência no particular da atividade lucrativa ou mesmo da simples atividade que mobilizasse energias humanas. Ora, o que estamos verificando é que, no Oriente, as plantações continuam a fazer-se, restaurando-se velhas culturas decadentes, reanimando-se vastas áreas tradicionalmente ligadas àquela economia, o que importa concluir, imediatisticamente, que ninguém acredita que o sintético superará aquele gênero comerciável. Os investimentos de capitais continuando a operar-se regularmente significam que esse capital não se arreceia da competição dos sintéticos. As necessidades dos mercados de consumo não acompanham o ritmo da produção industrial. A vingança dos povos que perderam o Oriente e começaram a perder a África não poderá ser um sucesso na base do sintético.
É certo que estamos chegando a um momento em que teremos todos de, numa tomada de consciência universal muito séria, medir as nossas responsabilidades e os perigos a que nos estamos expondo pelo tratamento bárbaro da natureza, pelo nosso comportamento agressivo em face dela, que saqueamos numa desenvoltura desumana e profundamente criminosa. O assalto a que temos dado a nossa contribuição para usufruir bem-estar material imediatista, com ignorância ou desprezo pelo desacerto dessa política tão danosa ao nosso futuro, precisa parar. Deve cessar. Nem por isso, isto é porque temos vandalizado o patrimônio imenso e admirável da natureza em qualquer latitude em que vivemos, mas preferentemente nos mundos tropicais, chegaremos à conclusão perigosa de que a primeira conseqüência seria a de que as matérias-primas, extraídas da natureza, em seu estado de primitividade ou através da ação do homem nas culturas extensivas que faz com o uso e abuso dos adubos, estariam faltando, donde a conveniência da adoção da política de produção dos sintéticos, produção em grande estilo, muito mais cara que a outra, a exigir equipes técnicas de alta qualificação e o emprego de capitais muito maiores que aqueles investidos na produção da matéria-prima natural. Dar-se-ia, então, uma inversão no problema. Porque iríamos entregar novamente a produção aos poderosos de todas as horas, desse modo passando os sintéticos a constituir um perigo à existência livre dos povos menos beneficiados pela técnica e pelos capitais financeiros. Sim, porque só esses países estariam em condições de atuar, governando os mercados de produção e de consumo.
Acontece que as necessidades do mundo não diminuíram. Ao contrário, desenvolvem-se, aumentam. E se desenvolvem principalmente porque também cresce o padrão cultural dos povos e cresce grandemente a população do mundo, portanto as solicitações de mercadorias industrializadas.
Ora, se essas necessidades aumentam, como aumenta a população, é de ver que nem os sintéticos serão suficientes nem farão a concorrência mortífera às matérias-primas naturais, como pressagiam as vozes agourentas dos que se deixam impressionar facilmente pelo êxito invulgar, como obra de técnica avançada do século XX, é certo, daqueles mesmos sintéticos.
Num livro admirável, como grito de alarme, como advertência, como análise de nossa posição em face do que temos ao nosso dispor e utilizamos com tanto desamor ou tão desapiedadamente, La Planête au pillage,(1) Fairfield Osborn passou em revista a destruição da Terra por efeito do superpovoamento e do uso indevido dela, assinalando a tendência que possuíamos para essa obra de destruição das fontes de vida. Examinando o problema no particular do continente africano, Jean Paul Harroy, com larga experiência no trato daquele mundo tropical, detalhou (2) o que vem sendo, a degradação dos solos africanos. Seja pela ação dos próprios nativos, seja pelos europeus colonizadores, aqueles



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1 Paris, 1948.
2 Afrique terre qui meurt, Bruxelas, 1944.

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ignorantes do que estão fazendo e estes indiferentes ao vandalismo a que se entregam, degradação que preocupa hoje os responsáveis pela existência dos impérios coloniais ali ainda existentes mas não logram provocar as soluções que os homens de ciência, em reuniões realizadas, estudos feitos, já aconselharam e têm procurado executar. Operação velhíssima, essa da destruição das fontes de vida, em nenhum momento atendemos às observações dos que existiram em todos os tempos e pediram um pouco de demência para com a terra e seus elementos integrantes. No caso particular da Amazônia, para ficar logo em casa, será suficiente recordar que todo o processo de sua ocupação, a começar do século XVII, vem sendo realizado com a atuação nefasta do homem. (3) Os portugueses de Lisboa expediam ordens e mais ordens visando á defesa da natureza no seu potencial florestal e na sua riqueza animal. A legislação a respeito é abundante. Nunca, todavia, foi cumprida, obedecida. Como posteriormente, sob o Império e sob a República. Exemplifiquemos com os quelônios. Em quanto poderíamos avaliar as tartarugas na região no momento da chegada dos europeus? Nenhuma estimativa foi elaborada. Nenhuma avaliação foi feita. Considerada infindável pelo colono a “apanha” de tartaruga, que não servia apenas de base alimentar, mas igualmente em outros usos domésticos, inclusive o óleo para a fabricação de velas ou de condimento, apesar das instruções vindas do Reino para impedir a agarração e a matança impiedosa, essa agarração e essa matança se operaram, ininterruptamente. Não foi interrompida depois da Independência. (4) Silva Coutinho, que examinou o assunto com a serenidade de um homem de ciência, registrou algarismos impressionantes. Será suficiente este: só no ano de 1719, para as 192.000 libras de manteiga de tartaruga exportada pela Capitania de São José do Rio Negro, hoje Estado do Amazonas, foi necessário exterminar 24 milhões de tartarugas!!!
Na atualidade, a aquisição de uma tartaruga, em Belém ou Manaus, é operação cara, difícil. Porque elas não existem mais, não só naquelas proporções dos tempos coloniais, mas na medida das exigências de mercados normais, pequenos, como são os daquelas duas cidades. Custam fortunas e são escassas, escassíssimas. As garças, abundantes também na região, perseguidas sem cessar para a obtenção de plumas solicitadas pelos mercados de elegância da Europa, constituem outra espécie que vai rareando. O “galo da serra”, que se escondia no alto rio Negro, é hoje praticamente inexistente. Como vários outros espécimes da fauna selvagem regional, que desaparecem ante a fúria dos que os perseguem



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3 No tocante ao Brasil em geral, pode ser consultado o livro magnífico de Wanderbilt Duarte de Barros, A Erosão no Brasil, Rio, 1956. Sobre a ação dos colonos portugueses na Amazônia, desrespeitando a vontade expressa de Lisboa, cf. o ensaio de nossa autoria, intitulado A Política de Portugal no vale amazônico, Belém, 1940.

4 Cf. SILVA COUTINH0, na memória escrita a pedido de Emilio Goeldi, in Boletim do Museu Goeldi, tomo 4, Belém, 1906; JOSË VERISSIMO, A Pesca na Amazônia,
Rio, 1895.



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para o comércio lucrativo dos couros e peles. (5) Ocorreu o mesmo com o pau-rosa na Guiana Francesa.
A destruição das riquezas da terra, pelo seu uso irregular, sendo uma nociva constante no comportamento humano, apesar do progresso cultural que atingimos, progresso que não conhece teto no espaço nem medida no tempo, tem aumentado. As reflexões dos homens de ciência e as medidas adotadas pelos Governos não vêm sendo suficientes. Degradam-se os solos sem cessar. Desplantam-se regiões, levando ao desértico, provocando o despovoamento, criando a miséria. Nem por isso, no entanto, as matérias-primas vegetais e animais, como os minerais, vêm deixando de abastecer os mercados em ascensão permanente. Sua produção não cessa. Ao contrário, intensifica-se. O relatório intitulado Recursos para a liberdade, referindo-se, por exemplo, aos Estados Unidos nas suas imensas necessidades de consumo de matéria-prima, depois de 1959, chama-a de gigantesca... Esse consumo não se processa no mesmo nível em todas as nações. Os desequilíbrios são imensos; as distâncias, amplíssimas. Embora, aumentem as solicitações dos mercados, que impõem, desse modo, o aumento da produção. Como assinala J. Gottmanm, “o convite constante do consumo, sem ter, ainda de longe, atingido quantidades que satisfaçam a sede atual do mundo é entretanto impressionante”. (6)





Outra característica do século XX é o seu desenvolvimento demográfico verdadeiramente gigantesco. Em 1650, a população do mundo estava calculada em 450 milhões de indivíduos; em 1850, em 1.100 milhões; em 1900, em 1.195 milhões; em 1940, em 2.150 milhões. Segundo Landry, (7) a Europa contribuía para esse algarismo final com 530 milhões, a América com 271 milhões, a África com 153 milhões, a Oceania com 10 milhões e a Ásia, nela incluída a Insulíndia, com 1 .185 milhões. Em 1956, na conformidade com as estatísticas da ONU, os algarismos já são os seguintes: Europa, 610 milhões; América, 366 milhões; África, 215 milhões; Oceania, 14 milhões; Ásia, 1.480 milhões. Esta, em 1650, não passava dos 300 milhões, superando a Europa em 200 milhões. A grande concentração humana era, e continua sendo, uma constante asiática, constante profundamente perigosa pelo que podia e



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5 O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia confiou ao Sr. Manoel Nunes Pereira uma investigação acerca da caça e pesca na vida regional, inclusive no particular dos aspectos destrutivos por que vem sendo realizada essa atividade econômica.

6 Les marchées des matières premières, pág. 31, Paris, 1957. Cf. também M. F. TABAH, La population du monde et les besoins en matière premiière, in Population, out./dez. 1953.

7 Traité de Démographie, pãg. 66, Paris, 1945.



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pode representar no ajuste de contas das velhas civilizações que ali se haviam desenvolvido e no decorrer de quinhentos a novecentos tinham experimentado um retrocesso de que era acusada a Europa dos descobrimentos geográficos e do colonialismo impenitente. Ademais, tais grupos humanos asiáticos se desenvolveram igualmente qualitativamente. A aspiração de ascensão cultural neles é hoje outra preocupação, como foi ontem a aspiração política de independência, por fim alcançada.
Para Jacqueline Beaujeu-Garnier, há, presentemente, uma média de 18 habitantes por quilômetro quadrado no conjunto do mundo. (8) Na África, todavia, como unidade, vivem em cada quilômetro quadrado apenas 6,7 habitantes; na América, 8 e na Oceania, 2. Na Ásia, a situação altera-se profundamente — 50 habitantes. Em face do quadro tão sensacional, a pergunta natural é essa — por que o crescimento da população do mundo está alcançando estes algarismos? As previsões alarmistas de Malthus estarão certas? Haverá alimentos e espaço para satisfazer dietas e acolher toda essa multidão? Haverá necessidade de apelar-se para a política da limitação de nascimentos, ou apelar para as soluções violentas das guerras? O espaço terrestre será suficientemente grande para permitir que continue, sem alterações substanciais, o aumento demográfico?
A explicação tem desafiado os demógrafos e os outros estudiosos dos problemas da habitabilidade da Terra. Para uns, o crescimento vertiginoso é uma conseqüência imediata das transformações conquistadas pelo homem com os progressos das ciências e das técnicas que criaram condições várias mais saudáveis para a espécie humana. Mais — das vitórias alcançadas sobre as doenças, o que importaria na diminuição da mortalidade, no aumento da longevidade dos homens, no aumento da natalidade. (9) Para Josué de Castro, a explicação deve ser encontrada no estado de fome crônica que atormenta certos setores ou áreas da Humanidade. Essa fome crônica determinaria uma excitação da capacidade reprodutora dos homens, a exaltação das funções sexuais. E como justamente na Ásia, onde o estado de fome crônica e não de fome aguda, que seria aquela momentânea, episódica, que ao contrário forçaria a inapetência sexual, é uma realidade constatada através dos séculos, o acréscimo demográfico tem apresentado índices altíssimos, verdadeiramente espetaculares.(10)
O exame do comportamento humano, no que diz respeito ao seu aumento numérico, não se encerra, porém, com estas explicações ou na simples constatação do fato físico do crescimento. Porque se agrava diante das perspectivas de que não cesse o desenvolvimento demográfico.

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8. Geographie de la Population, T. 1. pág. 35, Paris, 1956.
9. A bibliografia que procura explicar o fundamento da velocidade do crescimento populacional é imensa. Gaston Bouthoul é o autor do livro mais recente a respeito. Intitula-se La Superpopulation dans Ie monde, Paris, 1958.
1O. Geopolítica da fome, Rio, 195 1.

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Mesmo que se conservem, para o futuro, espaços livres visando à localização das disponibilidades populacionais das regiões mais afetadas pelo desequilíbrio social e econômico.
Como assinala Castro Barreto — “Os dois bilhões e setecentos milhões de habitantes do planeta atualmente aumentam de 80 mil por dia ou cerca de 29 milhões por ano. Entre 1900 e 1950, a população mundial aumentou em 850 milhões e o ritmo desse crescimento tende a acelerar-se, esperando-se para 1980 mais 1 bilhão, 174 milhões, isto é, mais 324 milhões neste curto período. Só a Índia contribui com 5 milhões anualmente para esse crescimento. As previsões para o ano 2000, no ritmo atual, dão mais 1 bilhão, o que, vale dizer, dentro de 44 anos teremos 3.700 milhões de habitantes. II No Congresso Mundial de População, reunido em 1954, as conclusões foram ainda mais alarmantes - em 1980, 3.600 milhões. (12)
As perspectivas são, portanto, assustadoras. Porque não há qualquer esperança de que este ritmo de crescimento se interrompa. Dir-se-á que, exata a tese de Josué de Castro, a modificação do regime de vida alimentar das populações asiáticas, que são as mais alarmantes em desenvolvimento numérico, ou, como diz Castro Barreto, as que apresentam uma densidade patológíca, poderia constituir uma contribuição expressivíssima para conter a corrida ou revolução demográfica, assegurando melhores dias à Humanidade. Se já se fala em algarismos mais gritantes, mais alarmantes — para o ano 2000— 6 bilhões. 13
Como proceder? Como solucionar o problema? Ë preciso não ignorar que “a China, com a sua população crescendo com uma taxa anual de 2%, já atingindo 602 milhões (1953), ou seja, um aumento anual de 10 a 12 milhões de habitantes, considera entretanto esse crescimento demográfico perfeitamente aceitável ao mesmo tempo que eleva a condição do seu povo com a nova orientação política unificando a nação, utilizando as riquezas naturais e evitando as fomes.
Entre 1881 e 1931, a população da Índia cresceu 113 milhões, ou seja, numa ordem de grandeza de 10,60/o; entre 1931 e 1941, aumentou 56 milhões, ou seja, 15%; na última década, de 1941 a 1951, o aumento foi de 43 milhões, ou seja, 13,5%. Na situação atual, com a melhoria geral das condições, a tendência é para um percentual maior no crescimento.’’( 14)
Não devemos esquecer, lembra ainda Castro Barreto, que “o controle da natalidade não é uma medida facilmente aplicável a qualquer população. São precisamente aqueles que se encontram sob maior pressão demográfica que oferecem maiores dificuldades para essa providência



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11 “A superpopulação da terra e suas perspectivas”, in Revista Brasileira de Estatística, n.0 68/70, pág. 18, Rio, 1957.
12 Cf. MARTIN BRUGAROLA, 5. J. El Drama dela población. Pág. 78, Barcelona,
1958.

13 Cf. LOURIVAL FONTES, Política, Petróleo e População, pág. 69, Rio, 1958.

14 CASTRO BARRETO, artigo cit. pág. 19.



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atenuadora dos seus sofrimentos. As populações asiáticas da Índia e da China, por motivos culturais e religiosos, desdenham o controle das dimensões da família que tanto as pouparia de tanto sofrimento e miséria e oferecem resistência à restrição do número de filhos. A proliferação inconseqüente prossegue agravando cada ano a extensão do mal,
crescendo na Índia, por exemplo, 5 milhões de habitantes por ano
Na China, a diminuição do potencial demográfico espera-se que possa ser alcançada através da política visando à limitação dos nascimentos. Nos primeiros momentos da fase marxista que vive aquele pais, essa limitação foi considerada. Imaginou-se que uma produção alimentar maior, a distribuição das terras e a industrialização bastassem como solução. A superpopulação parecia um problema apenas para os paises capitalistas. Verificada a insuficiência daquelas medidas, o Governo de Pequim passou ao sistema das limitações, aceitando como verdade que a superpopulação não é problema próprio dos países capitalistas. (16)
Quanto à Índia, a política de limitações não tem encontrado eco. E melhorando as condições sanitárias, as perspectivas são mais angustiantes. (17) O quadro indiano é, pois, mais dramático que o chinês. Além do espaço onde localizar os milhões de seres que já não têm mais onde instalar-se, há, de outro lado, a situação grave do abastecimento alimentar. Já no Exterior viviam 3.768.000 indianos. Será essa a solução? Esses 3.768.000 indianos representariam, porém, menos de um por cento da atual população da Índia, que é de 480 milhões, ou seja, 18% da população mundial.(18).




A alimentação que vem sendo produzida não está sendo suficiente, nem quantitativa nem qualitativamente, para o sustento dos grupos humanos que crescem na forma por que assinalamos páginas atrás. O estado de fome endêmica, conseqüentemente, assume caráter verdadeiramente perigoso à estabilidade social, pondo em graves riscos instituições e soberanias. Não há exagero na conclusão. Os dados estatísticos que a FAO vem publicando acerca da matéria são ilustrativos acerca desses aspectos gritantemente graves do problema. Por eles, verifica-se que há um tremendo desequilíbrio entre regiões, continentes, uns mais ou menos regularmente abastecidos, satisfeitos em suas necessidades,



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15 CASTRO BARRETO, art. cit. págs. 21-2.

16 ALFRED SAUVY, La population de la Chine, Novelies donnés et novelle politique, in Population, n.0 4, Paris, 3957.

17 GILBERT ETIENNE — “La population de l’Inde. Perspectives demographiques et allmentaires”, in Population, n. 4, Paris, 1957.

18 J. BEAUJEU-GARNIER, Geographie de la population, T.2, pág. 364, Paris, 5958.



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outros não dispondo de recursos para obtenção de um mínimo ou não possuindo os recursos alimentares com que matar a fome de suas populações, seja a fome epidêmica, seja a fome chamada crônica ou endêmica. E a história ensina que em todos os tempos os que sofrem de fome não medem meios para obter alimentos, indo ao extremo dos pronunciamentos populacionais que podem pôr abaixo regimes e governantes.
A Europa, o Canadá e os Estados Unidps, a Austrália e a Nova Zelândia, segundo os quadros estatísticos e os inquéritos que se vêm realizando com certa freqüência e rigorismo científico, vivem uma vida de abastança. Não lhes faltam aqueles elementos nutritivos indispensáveis. Os Estados Unidos, como poucas nações do mundo, alcançaram, aliás, um grau de bem-estar alimentício verdadeiramente sensacional. Na Europa, paises como a Grã-Bretanha, a Holanda, a Dinamarca, a Noruega e a Suécia 19 possuem dietas alimentares que lhes garantem uma população em condições de realizar bem as suas tarefas diárias e produzir as riquezas essenciais ao pais em ritmo normal, e muitas vezes dinâmico. Já não sucede o mesmo, todavia, com os países da América ibérica, exceção da Argentina e do Uruguai. Pagam todos a sua quota de sacrifício, sem dispor do suficiente às solicitações de suas populações que aumentam em ritmo bastante apreciável. 20
No particular da Ásia e da África, a situação apresenta-se catastrófica. O crescimento da população ultrapassa todas as possibilidades de sustento, não havendo, em conseqüência, os alimentos essenciais ao equilíbrio dos habitantes. 21
Segundo a informação de Marin Brugarola, 22 morrem presentemente de fome, no mundo, 30 a 40 milhões de pessoas. Entre 1948 e 1950, adianta o mesmo autor, as disponibilidades alimentícias por habitante não tinham alcançado o nível das disponibilidades anteriores ao conflito universal, com a agravante de que havia milhões de seres carecendo de comida.
Segundo cálculos recentes, divulgados por aquele demógrafo espanhol, na Sul-América, o número de subalimentados compreendia mais



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19 Isso não significa, porém, que nos Estados Unidos não haja regiões que padeçam do estado de fome. Essas regiões existem no chamado velho sul, isto é, aqueles trechos da grande nação que constituíram a mais antiga colonização, realizada na base da escravização do negro e de uma economia do tipo da que foi operada no Nordeste do Brasil. Na generalidade, todavia, a situação alimentar norte-americana é boa;

20 Além do livro de Josué de Castro, há hoje abundante bibliografia a respeito das condições alimentares da América ibérica. De todos os países o mais afetado é a Bolívia. Cf. PEDRO ESCUDERO, El presente y ei futuro deI problema alimentario en Bolivia. Buenos Aires, 1947.

21 Cf. S. CHANDRASEKHAR, Pueblos hambrientos y tierras desprobladas, Madrid,
1957; J. BEAUJEU-GARNIER, Geographie de la population, T. 2, Paris, 1958;
CHARLES ROBEQUAIN, Le Monde malais, Paris,l946; MICHEL CEPEDE e
MAURICE LENGELLS, Economie alimenta ire du globo, Paris, 1953.

22 El drama dela población, pág. 95.



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de dois terços da respectiva população. No Oriente, todavia, as condições eram ainda mais alarmantes, pois os subalimentados somavam 90% dos habitantes! Se 30% da Humanidade consome 80% dos bens alimentícios, registrando-se, portanto, que os 70% restantes dispõem apenas de 20%, que lhes sobram. 23
As técnicas agrícolas, nos Estados Unidos, no Canadá e na Austrália asseguraram àqueles países um padrão de produção alimentícia que explica a euforia que desfrutam. Já na Índia e na China, ocorrendo a circunstância de a atividade agrícola permanecer submetida a processos rotineiros, e só agora experimentando transformações substanciais. Na China, principalmente, essa produção não alcança índices satisfatórios, explicando-se assim o desequilíbrio tremendo que ali ocorre. 24 Na África, só agora os governos colonialistas procuram enfrentar o problema, fazendo produzir alimentos em quantidades apreciáveis e que concorram para o levantamento dos padrões de vida das populações aborígines. E que ali aconteceu o que era fatal, dadas as políticas de imprevidência ou de exploração que caracterizaram a ocupação da África pelos europeus nos séculos passados, além da exportação de africanos nas condições de escravos — o regime alimentar vigente fora alterado profundamente. Introduziram-se espécies novas, modificando-se a dieta a que estavam habituadas as populações nativas. Com a modificação, alteraram-se substancialmente certas condições existenciais daquele continente o que comprometeu o crescimento da população 25
Ora, apesar de todos os programas, todos os clamores, todas as críticas feitas, as sugestões apresentadas, nada de prático vem sendo realizado em grande estilo, no sentido de pôr termo ou mesmo minorar essa situação que aflige a Humanidade. Quando dissemos no começo que esse estado de carência podia trazer como conseqüência profundas mudanças no equilíbrio social, não estávamos afirmando apressadamente. Em face dos algarismos que aqui enunciamos poderá chegar-se a outra conclusão? Alguém poderá duvidar que esses povos famintos não se decidam a procurar o alimento de que carecem em outros pontos da Terra, onde encontrem possibilidades em espaço e em produtividade da terra? E justamente esses milhões de seres não vivem nos trechos do


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23 Op. cit., pág. 99 e III.
24 Sobre a China, há que referir as alterações profundas que vem sofrendo e em torno às quais há um bom documentário nos estudos: de GEORGES DAVIDOFF, Dela medicine et de la securitê sociale en Chine, e de ALFREDO SAUVY, “La population dela Chine. Nouvelles donnés et nouvelle politique”, ambos em Population, n.0 4, Paris, 1957.

25 A propósito, Pierre Gourou apresentou ao III Coloquium Luso-Brasileiro de Estudos, que reuniu em Lisboa em 1957, interessantissima tese intitulada “Les plantes alimentaires americanes en Afrique tropicale; remarques geographiques”, e em que examinou o problema, evidentemente como uma contribuição para investigação de maior tomo. A matéria vem sendo considerada por outros especialistas nos problemas africanos, como se pode verificar do capitulo pertinente da Geographie dela Population, n.0 2, vol., de Jacqueline Beaujeu-Garnier.



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mundo onde não há mais possibilidade de um palmo de terra por ocupar na tarefa de produzir alimentos? Os alimentos sintéticos serão suficientes? Resolverão o problema?
Chandrasekhar, ao estudar, com a autoridade que ninguém lhe nega, o que ocorre no mundo dos povos famintos e das terras despovoadas, apôs a análise penetrante e irrecusavelmente exata do quadro alimentar e populacional da Índia, da China, do Japão, recordou que, crescendo a população mundial em cerca de 20 a 22 milhões de pessoas por ano, não ocorria idêntico crescimento no tocante aos gêneros alimentícios. E certo que será possível aceitar-se a tese de que a má distribuição, o baixo poder aquisitivo e a má produção constituem fatores que não devem ser desprezados ao equacionar-se o problema da fome. Sendo assim, tendo eles o peso ponderável que muitos pretendem, então o problema perderá em muito a importância por que se está apresentando uma vez que sua solução estará no entendimento pacifico entre os povos abastados e os povos famintos, mudanças de técnicas de produção, financiamento por intermédio dos órgãos especializados internacionais, e uma rede de distribuição mais perfeita que proceda à entre g a de alimentos de maneira a que ninguém mais possa afirmar que tem fome. O simplismo da tese, todavia, encontra resistência na experiência e na eloqüência dos algarismos e dos fatos. Os entendimentos vêm sendo processados. Nem por isso, o problema foi resolvido de maneira a lhe pôr fim a gravidade. E a solução que mais está despertando interesse é aquela ligada ao aproveitamento das áreas onde o homem ainda não realizou a atividade criadora, portanto, árias que constituem verdadeiros convites à iniciativa, ao capital, às técnicas avançadas, à coragem e à decisão dos povos fortes e onde se espera que possa ser criada uma fonte de suprimento alimentar.
A ocupação da terra foi feita pelo homem desordenadamente. Era natural que assim fosse. Sem considerar o futuro e na ignorância de que estava trabalhando contra as gerações de amanhã, destruiu florestas, secou rios, removeu dificuldades criando problemas para amanhã. Em todos os continentes ocorreu esta maneira de agir desastrada e imprevidente. O pior, porém, é que, sem querer aprender a lição da experiência, prosseguiu na tarefa condenável, desatento a tudo e a todas as previsões dos que se alarmavam com a conduta criminosa, destruindo, com a sua teimosia, as esperanças e as possibilidades dos que deviam sucedê-lo. Ao mesmo tempo que assim agia, crescia numericamente numa proporção maior que aquela que seria aconselhável em face dos próprios recursos de que dispunha para trabalhar e para viver. O espaço sobre que agiu aqui e ali começou, então, a tornar-se pequeno. As migrações pacíficas ou violentas que realizou não resolveram a situação que fora criando. As técnicas aperfeiçoadas que começou a empregar também não contribuíram para a solução ideal nem para a solução definitiva. A terra continuou a ficar pequena. Por que nem toda ela está em condições para receber os grupos humanos que desejem utilizá-la para a obtenção de alimentos ou para a exploração econômica de rendimento apreciável, que autorize o bem-estar ou mesmo a condição mínima de vida? Os limites da terra, limites da terra habitável, isto é, que possa ser trabalhada, são reais? (27) É essa hoje, aliás, uma das mais graves cogitações dos organismos internacionais, de governos nacionais e de grupos que tomaram consciência da situação e procuram resolve-la dentro de programas executáveis.
E certo que há ainda vastas áreas do mundo que não receberam ocupação nem foram exploradas convenientemente. Constituem verdadeiros espaços abertos que representam convite aos povos capazes, problemas políticos dos mais sérios e desafiam a inteligência e as planificações pragmáticas de seus estadistas, O acesso a tais áreas será, porém, tão fácil que possam ser ocupadas sem que surjam incidentes ou produzam o rendimento necessário? Essas áreas desocupadas apresentam condições de habitabilidade? Permitirão que nelas se crie gado, haja lavouras de subsistência, exploração do subsolo, mobilização de braços na produção agrária, de alto valor econômico? O clima dessa área permitirá que povos de todas as latitudes vivam nelas com a sua capacidade de reprodução, com seu potencial de trabalho e em perfeito funcionamento? Sobre tais espaços não haverá o exército tranqüilo e centenário de soberanias nacionais, que não lhes cederão o uso sem ajustes, muito seguros, sem imposições, sem medidas acauteladoras de seus interesses, sem perda de seu império político? Em face de conceituação nova criada pelas exigências internacionais, decorrentes do crescimento social e da diminuição do espaço econômico, ainda vigorarão os princípios das soberanias nacionais?
Não resta mais dúvida de que o homem pode viver em qualquer trecho do mundo, com a sua capacidade de reprodução e seu potencial de trabalho em perfeito funcionamento. Aquelas teses da inaptabilidade de certas espécies humanas a determinados pedaços da terra não podem ser consideradas mais na categoria das conclusões científicas. O homem vive nos trópicos secos e úmidos, nas regiões mais frias, nas zonas temperadas. Adapta-se a todas elas. Vence em todas. Para isso progrediu e descobriu processos para sua adaptação, que lhe asseguraram o maior êxito. 28 O que não estará certo é o homem nórdico querer viver nos trópicos secos ou úmidos com os mesmos processos existenciais que adotou em sua terra de origem. Terá que ceder aos imperativos mesológicos



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27 Cf. F. OSBORN, Los limites dela tierra, México, 1956.
28 Cf. JOSÉ DE PAIVA BOLEO, As falsas nações acerca das possibilidades das terras e das populações intertropicais, Bissau, 1950; Clima e Coloniza çio, Lisboa, 1952; Determinismo antropogeográ fico, Lisboa, 1936; ELLSWORTH HUNTINGTON, Civlización y clima, Madrid, 1942; MAX SORRE, Fundements de la Géagraphie humaine, vol. 1.0, Paris, 1947; GEORGES HARDY, Geographie & Colonisatian, Paris, 1933.



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condicionada sua existência a um certo número de regras que resultam do novo meio em que pretende realizar-se como unidade social ou como membro de uma coletividade. Nessa tarefa ou aventura de domínio que o homem exercita sobre qualquer trecho do mundo onde pretenda instalar-se, o que deverá ser considerado mais vivamente será se essa terra está em condições de recebê-lo, apresentando aquelas condições mínimas. O progresso das técnicas, em matéria de tratamento de solos, todavia, já não admite mais, também, que se afirme que estas ou aquelas terras são impróprias à vida humana. Todas elas podem ser empobrecidas, e esse tem sido o mais intenso da ação humana, insistamos, como todas elas podem ser enriquecidas, recuperadas, tornadas capazes de reagir às solicitações que lhes façamos para que se tornem boas, úteis, produtivas, amigas da espécie humana. Os adubos vegetais, animais ou minerais, as maneiras de tratar os solos, recompondo-se, zelando para que não se lateralizem, os reflorestamentos, os canais de irrigação, todo um vasto empreendimento cientifico está hoje ao dispor da Humanidade para que ela vença tais dificuldades e possa possuir terras em porção bastante, pelo menos no século que estamos vivendo, para que sua existência descanse um pouco das aflições que experimenta.
Quais serão, porém, esses espaços abertos, isto é, que ainda não foram ocupados ou estão ocupados insatisfatoriamente, proporcionando um vasto campo para os excedentes populacionais? Essas áreas são encontradas na África central, na América do Sul, nas partes central e setentrional da América do Norte, na Austrália e em ilhas do Pacifico. São considerados países vazios, isto é, cujas terras apresentam densidade demográfica baixíssima — a Nova Guiné holandesa, Papua, Nova Guiné australiana, Bornéu, Austrália, América ibérica tropical, África tropical, Nesta, segundo Chandrasekhar, a densidade por quilômetro quadrado é de 4,5. Na América ibérica, aqui incluído o Brasil, 3,9. A Austrália, para exemplificar, com uma extensão de 7.704.000km2, tem presentemente população de apenas 7 milhões, com a densidade de um habitante por quilômetro quadrado. Cerca de 40 milhões de hectares de terras cultiváveis em termos de freqüência de chuvas e de clima ameno estão ali situados. Pois desses 40 milhões apenas 9 milhões foram utilizados. Dir-se-á que a Austrália é um continente que apresenta verdadeiros desertos, que assim tem permanecido à falta de condições de habitabilidade. Seus geógrafos, contestando a tese da possibilidade de todas as terras serem utilizadas pelo homem, tese que consideram um mito, alegam que esses desertos são um desafio. Conseqüentemente, além daqueles 30 milhões ainda disponíveis nada mais haverá na Austrália, que, assim, não deverá estar contida na relação dos chamados espaços abertos. Evidentemente, os geógrafos australianos não atentam para os êxitos da ciência na sua empresa de vencer os solos, transformando-os, recuperando-os, vitalizando-os. Esquecem que os desertos estão sendo conquistados, vencidos. Tanto os desertos naturais como os que o homem criou com suas práticas criminosas. Os casos de Israel e do Saara são de nossos dias e estão ao nosso dispor para a observação do sucesso. Depois do que ali se realiza, poderemos falar em desertos impróprios à vida humana? 29 A Austrália, queiram ou não, é, pois, um espaço aberto. Um imenso espaço aberto. No particular da Africa, recordemos que sua extensão representa 23% das terras do mundo. Sua população, 7% da população do universo. E, pois, insista-se, um deserto. No quadro político, são apenas 7 os Estados soberanos, permanecendo quase a totalidade do espaço em mãos das potências colonialistas.
Na Ásia, já não ocorre o mesmo. Mas suas populações, em especial na China e na India, não dispõem de terras para ocupar. Começam a movimentar-se, impacientes.
Quanto à América ibérica, as áreas desérticas existem no sul do continente. Nem mesmo a Argentina, para onde convergiu a multidão emigrante nos séculos XIX e princípios do XX, pode falar que seu território já foi totalmente ocupado. O mundo amazônico, do Brasil, da Bolivia, do Peru, do Equador, da Colômbia e da Venezuela, num total de 6 1/2 milhões de quilômetros quadrados, esse é, porém, o grande deserto. Como unidade continuada e de características uniformes, não há, em qualquer parte da Terra, maior área desértica.
O mundo por ocupar não é, portanto, pequeno, como se supôs. Seus limites não são tão apertados. Seus recursos podem ser aumentados. O superpovoamento da Terra não constitui, não resta dúvida, conseqüentemente, um perigo à estabilidade social, ao equilíbrio das nações. Os territórios coloniais da África serão assim, só eles, um imenso ambiente acolhedor para os excessos demográficos do Oriente.
Um dos assuntos cruciais dos tempos que estamos vivendo é, todavia, esse da liberdade dos povos de cor, que não se comportam mais com aquela passividade do passado e reagem com violência para alcançar um novo status político. E com esse desassossego, que atormenta as nações colonizadoras do Velho Mundo, começa a pôr-se fim ao chamado colonialismo para ingressar-se num mundo em que todos tenham o direito de dirigir-se, compondo-se politicamente, assegurando-se a condição soberana que os povos do Novo Mundo conseguiram atingir ainda em princípios do século XIX ou fins do século XVIII, como foi o caso dos Estados Unidos.


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29 Cl’. E. F. GAUTIER, Le Sahara, Paris, 1946; JEAN POUQUET, Les deserts, Paris,
1951; ANDRE CHOURAQuI, L’État d’israel, Paris, 1955; PIERRE PARAF,
L ‘État d’Israel dans le monde, Paris, 1958.
30 A. D. C. PETERS0N, L’Extreme-orient, Geographie sociale, Paris, 1951; BRUNO DEOSKER, Les peuples deI ‘Asie en mouvement, Paris, 1946.
31 J. EHRHAND, Le destin du colonialisme, Paris, 1957; JUBERT DESCHAMPs, Le fin des empires coloni ux, Paris, 1950.

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in: A Amazônia e a cobiça internacional. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1982. pp. 169-182.

terça-feira, 21 de abril de 2009

SALVATORE QUASIMODO











SALVATORE QUASIMODO
(Retrato de Serena Maffia)
Trad. Geraldo Holanda Cavalcanti



JÁ SE DESPRENDE A MAGRA FLOR



Nada saberei de minha vida
escuro monótono sangue.


Não saberei quem amei, quem amo
agora que aqui contido, reduzido a meus membros,
no gasto vento de março
enumero os males dos dias desvendados.

Já se desprende a magra flor
dos galhos. E eu contemplo
a paciência de seu vôo irrevogável.



IMITAÇÃO DA ALEGRIA



Ali onde as árvores fazem
a tarde ainda mais abandonada
indolente
sumiu teu último passo,
como a flor que mal se mostra
sobre a tília e insiste em viver.

Buscas sentido para teus afetos,
encontras o silêncio em tua vida.
Outro destino me revela
o tempo refletido. Pesa-me
como a morte, a beleza que agora
noutras faces brilha.
Perdida está toda coisa inocente
mesma nesta voz, sobrevivente
a imitar a alegria.

A amurada

E já na amurada do estádio,
entre fendas e tufos de erva pênsil,
as lagartixas correm como raios;
e a rã retorna às águas dos canais,
canto-chão das minhas noites distantes
de aldeia. Tu recordas este sítio
onde Vênus saudava nosso encontro
de sombras. Ó querida, quanto tempo
com as folhas dos álamos se foi,
quanto sangue pelos rios da terra.


A MINHA PÁTRIA É A ITÁLIA

Mas os dias se afastam dispersos
e mais retornam ao coração dos poetas.
Além, os campos da Polónia, a planura de Kestno
com as colinas de cadáveres que ardem
em nuvens de nafta, acolá os arames farpados
para o lazareto de Israel,
o sangue entre os detritos, o exantema tórrido,
a cadeia dos pobres já mortos há muito tempo
e fulminados à beira das fossas abertas por suas próprias mãos,
ali, Buchenwald, o suave bosque de faias,
os seus fornos malditos, além, Estalinegrado,
e Minsk sobre os pântanos e a neve putrefacta.
Os poetas não esquecem. Oh a multidão dos vis,
dos vencidos, dos perdoados por misericórdia!
Tudo se transforma mas os mortos não se vendem.
A minha pátria é a Itália, o inimigo estrangeiro,
e eu canto o seu povo, e também o pranto
coberto pelo rumor dos mares,
o límpido luto das mães, canto a sua vida.

E DE REPENTE É NOITE
...
Cada um está só no coração da terra
trespassado por um raio de sol:
e de repente é noite.

AVIDAMENTE ESTENDO A MINHA MÃO
...
Na pobreza da carne, como sou,
eis-me, Senhor: poeira da estrada
que o vento mal levanta em seu perdão.
...
Mas se afilar não soube noutro tempo
a voz primitiva ainda tosca,
avidamente estendo a minha mão:
dá-me da dor o pão cotidiano.

PENA DE COISAS QUE NEM SEI
...
Densa de brancas e de negras raízes
cheira a fermento e a vermes
a terra talhada d´água.
...
Pena de coisas que nem sei
em mim rebenta: não basta uma morte
se, escuta, mais vezes me pesa
no coração, com sua relva, um pedaço de terra.

CURVA-SE O DIA
...
Eis-me desamparado, Senhor,

no teu dia,
cerrado a toda luz.

...
De ti privado tenho medo,
perdida estrada de amor,
e não me é dada nem mesmo
a graça de trêmulo confessar-me
tão seca é a minha vontade.

...
A ti amei e combati;
curva-se o dia
e colho sombras dos céus:
que tristeza o meu coração
de carne!

...
ANTIGO INVERNO
...
Desejo de tuas mãos claras
na penumbra da chama:
sabiam a roble, a rosas;
a morte. Antigo inverno.

...
Buscavam milho os pássaros
e eram súbito de neve;
assim as palavras.
Um pouco de sol, um halo de anjo,
e logo a névoa; e as árvores,
e nós feitos de ar na manhã.

...
E O TEU VESTIDO É BRANCO
...
Tens a cabeça baixa e me olhas:
e o teu vestido é branco,

e um seio aflora de entre as rendas
soltas do teu ombro esquerdo.

...
A luz me supera; treme,
e te toca os braços nus.

...
Revejo-te. Tinhas
palavras poucas e breves,
que punham alma
no peso de uma vida
que sabia a circo.

...
Profunda era a estrada
por onde o vento descia
certas noites de inverno,
e nos despertava estranhos
como na primeira vez.

...
TERRA
...
Noite, serenas sombras,

berço de ar,
chega-me o vento se por ti divago,
com ele o mar cheiros da terra
onde canta na praia minha gente
às velas, às nassas,
às crianças antes da aurora despertadas.

...
Montes secos, planícies de relva nova
que espera manadas e greges,
tenho dentro o vosso mal que me escava.




QUASIMODO, Salvatore. Poesias. Edição bilingüe. Seleção, tradução e notas de Geraldo Holanda Cavalcanti. Rio de Janeiro: Record, 1999.




Poemas de Salvatore Quasimodo:




Nota del traductor:

"He procurado respetar al máximo la personal escritura del autor, que a menudo fuerza la sintaxis, establece concordancias insólitas, suprime comas y artículos o altera drásticamente el orden habitual de los términos en frases que evocan la oratoria clásica o buscan una distanciadora distorsión del lenguaje. Esto, unido al hermetismo de algunos poemas, hace en ocasiones muy difícil la lectura de Quasimodo, y para el traductor supone la continua tentación de «clarificar» o «normalizar» el original; y lo pongo entre comillas porque con ello, en realidad, se dañaría irreparablemente una poesía que recurre con toda deliberación (y con notable eficacia) a la oscuridad, la ambigüedad y aun la violencia sintáctica.
Me he esforzado, pues, por ceñirme lo más fielmente posible a los textos originales, optando por una literalidad a menudo áspera y abstrusa siempre que la alternativa era caer en la vileza recurrente del traduttore-traditore: la «interpretación».
En algunos -pocos- poemas en que Quasimodo utiliza la tradicional métrica italiana de endecasílabos y heptasílabos, he procurado respetarla con un mínimo sacrificio de la literalidad. (Es el caso de los cuatro poemas consecutivos «A mí, peregrino», «Se oye de nuevo el mar», «Elegía» y «De otro Lázaro».)
Por otra parte, la enorme dificultad que ofrece la versión de algunos poemas se compensa con la facilidad de otros, diáfanos, que la afinidad entre el italiano y el castellano permite traducir casi a vuelapluma, palabra por palabra, por lo que espero que, en conjunto, esta antología permita al lector hispanoparlante una aproximación satisfactoria a uno de los más grandes poetas contemporáneos".

Carlo Fabretti






DE "AGUAS Y TIERRAS":


Antiguo invierno

Deseo de tus manos claras
en la penumbra de la llama:
sabían a roble ya rosas,
a muerte. Antiguo invierno.

Buscaban el mijo los pájaros
y enseguida eran de nieve;
e igual las palabras.
Un poco de sol, un estrellón de ángel,
y luego la niebla; y los árboles,
y nosotros hechos de aire en la mañana.

* * * * *

LAMENTO POR EL SUR

La luna roja, el viento, tu color
de mujer del Norte, la llanura de nieve...
Mi corazón está ya en estas praderas,
en estas aguas anubladas por la niebla.
He olvidado el mar, la grave
caracola que soplan los pastores sicilianos,
las cantilenas de los carros a lo largo de los caminos
donde el algarrobo tiembla en el humo de los rastrojos,
he olvidado el paso de las garzas y las grullas
en el aire de las verdes altiplanicies
por las tierras y los ríos de Lombardía.
Pero el hombre grita en cualquier parte la suerte de una patria.
Ya nadie me llevará al sur.

Oh, el Sur está cansado de arrastrar muertos
a la orilla de las ciénagas de malaria,
está cansado de soledad, cansado de cadenas,
está cansado en su boca
de las blasfemias de todas las razas
que han gritado muerte con el eco de sus pozos,
que han bebido la sangre de su corazón.
Por eso sus hijos vuelven a los montes,
sujetan los caballos bajo mantas de estrellas,
comen flores de acacia a lo largo de las pistas
nuevamente rojas, aun rojas, aun rojas.
Ya nadie me llevará al Sur .

Y esta tarde cargada de invierno
es aún nuestra, y aquí te repito
mi absurdo contrapunto
de dulzuras y furores,
un lamento de amor sin amor.

Versión de Carlo Fabretti

* * * * *

También se aleja mi compañía

También se aleja mi compañía,
mujeres de ghetto, juglares de taberna,
entre los que pasé tanto tiempo,
y está muerta la joven
de ardiente rostro perenne
untado de aceite de la masa ácima
y oscura carne de hebrea.

Tal vez haya cambiado también mi tristeza,
como si yo fuese no mío,
por mí mismo olvidado.

* * * * *

Tú llamas una vida

Fatiga de amor, tristeza,
tú llamas una vida
que dentro, profunda, tiene nombres
de cielos y jardines.

Y fuese mi carne
lo que el don del mal transforma.





DE "OBOE SUMERGIDO":

Convalecencia

Siento amor convertirse en otra muerte
ignota para mí, pero más lenta,
que a menudo me empuja hacia sus formas.

Abandono de alga:
me busco en los oscuros acordes
de profundos despertares
en orillas densas de cielo.

El viento se injerta
dócil en mi sangre,
y es ya voz y naufragio,
manos que renacen:

manos entrelazadas o palma con palma unidas
en distendida renuncia.

Tiene miedo de ti
el corazón seco y doliente,
infancia imposeída.

* * * * *

De tierna mujer echada entre las flores

Se adivinaba la estación oculta
por el ansia de las lluvias nocturnas,
por los cambios de las nubes en el cielo,
undosas leves cunas;
y yo estaba muerto.

Una ciudad suspendida en el aire
era mi último exilio,
y en torno me llamaban
las suaves mujeres de otros tiempos,
y la madre, renovada por los años,
con su dulce mano escogía entre las rosas
y con las más blancas ceñía mi cabeza.

Afuera era de noche
y los astros precisos seguían
ignotos caminos en curvas de oro
y las cosas vueltas fugitivas
me llevaban a rincones secretos
para hablarme de jardines abiertos de par en par
y del sentido de la vida;
pero a mí me dolía la última sonrisa

de tierna mujer echada entre las flores.

* * * * *

Nacimiento del canto

Manantial: luz resurgida:
hojas arden róseas.

Yazgo sobre ríos colmados
donde son islas
espejos de sombras y de astros.

Y me arrolla tu regazo celeste
que nunca nutre de alegría
mi vida diferente.

Muero para volver a tenerte,
aunque sea desilusionada,
adolescencia de los miembros
enfermos.

* * * * *

Oboe sumergido

Avara pena, tarda tu don
en esta mi hora
de suspirados abandonos.

Un oboe gélido deletrea de nuevo
alegría de hojas perennes,
no mías, y olvida;

en mí anochece:
el agua tramonta
en mis manos herbosas.

Alas oscilan en ronco cielo,
lábiles: el corazón transmigra
y yo estoy yermo,

y los días son escombros.

* * * * *

Otoño

Otoño manso, yo me poseo
y me inclino ante tus aguas para beber el cielo,
suave fuga de árboles y abismos.

Áspera pena del nacer
me encuentra unido a ti;
yen ti me quebranto y repongo:

pobre cosa caída
que la tierra recoge.







DE "ERATO Y APOLO":

Canto de Apolo

Noche terrenal, en tu exiguo fuego
me complací alguna vez
y descendí entre los mortales.

Y vi al hombre
inclinado sobre el regazo de la amada
escuchándose nacer,
y transformarse entregado a la tierra,
las manos juntas,
abrasados los ojos y la mente.

Yo amaba. Frías eran las manos
de la criatura nocturna:
otros terrores acogía en el vasto lecho
donde al alba me despertó
un aleteo de palomas.

Luego el viento depositó hojas
sobre su cuerpo inmóvil;
se alzaron sombrías las aguas en los mares.

Amor mío, yo aquí me aflijo
sin muerte, solo.

* * * * *

En el preciso tiempo humano

Yace en el viento de profunda luz
la amada del tiempo de las palomas.
De mí de aguas de hojas,
sola entre los vivos, oh dilecta,
hablas; y la desnuda noche
tu voz consuela
de lucientes ardores y leticias.

Nos decepcionó la belleza, y la desaparición
de toda forma y memoria,
el lábil movimiento revelado a los afectos
a imagen de los internos fulgores.

Pero de tu sangre profunda,
en el preciso tiempo humano,
renaceremos sin dolor.

* * * * *

Sílabas a Erato

A ti se pliega el corazón en soledad,
exilio de oscuros sentidos
en el que transmuta y ama
lo que ayer parecía nuestro
y ahora está sepultado en la noche.

Semicírculos de aire resplandecen
en tu rostro; te me apareces
en el tiempo que la primera ansiedad aflige
y me vuelves blanco, lenta la boca
a la luz de la sonrisa.

Por tenerte te pierdo
y no me aflijo: todavía eres bella,
quieta en dulce posición de sueño:
serenidad de muerte extremo gozo.







DE "NUEVAS POESÍAS":

El alto velero

Cuando vinieron los pájaros a mover las hojas
de los árboles amargos junto a mi casa
(eran ciegos volátiles nocturnos
que horadaban sus nidos en las cortezas),
alcé la frente hacia la luna
y vi un alto velero.

Al borde de la isla el mar era sal;
y se había tendido la tierra y antiguas
conchas relucían pegadas a las rocas
en la rada de enanos limoneros.

Y le dije a mi amada, que en sí llevaba un hijo mío
y por él tenía siempre el mar en el alma:
«Estoy cansado de estas olas que baten
con ritmo de remos, y de las lechuzas
que imitan el lamento de los perros
cuando hay viento de luna en los cañaverales.
Quiero partir, quiero dejar esta isla.»
Y ella: «Querido, ya es tarde: quedémonos.»

Entonces me puse a contar lentamente
los vivos reflejos de agua marina
que el aire me traía a los ojos
desde la mole del alto velero.

* * * * *

Imitación de la alegría

Donde los árboles aún
más desolada hacen la tarde,
al tiempo que indolente
se ha desvanecido tu último paso,
aparece la flor
en los tilos y persiste en su suerte.

Buscas una explicación a los afectos,
pruebas el silencio en tu vida.
Otra ventura me revela
el tiempo reflejado. Aflige
como la muerte, la belleza
ya en otros rostros fulmínea.
He perdido toda cosa inocente,
incluso en esta voz, que sobrevive
para imitar la alegría.

* * * * *

Ya vuela la flor seca

No sabré nada de mi vida,
oscura monótona sangre.

No sabré a quién amaba, a quién amo,
ahora que aquí restringido, reducido a mis miembros,
en el corrompido viento de marzo
enumero los males de los días descifrados.

Ya vuela la flor seca
de las ramas. Y espero
la paciencia de su cuelo irrevocable.







DE "DÍA TRAS DÍA":

A mí, peregrino

He aquí que vuelvo a la tranquila plaza:
en tu balcón oscila solitaria
la bandera de fiesta ya pasada.
-Regresa -digo. Mas sólo a la edad
que anhela sortilegios burló el eco
de las cuevas de piedra abandonadas.
¡Cuánto ha que no responde lo invisible
si llamo como antaño en el silencio!
Tú ya no estás aquí ni tu saludo
llega a mí, peregrino. Nunca dos
veces el gozo se revela. Extrema
luz sobre el pino que recuerda el mar.
Vana también la imagen de las aguas.

Nuestra tierra está lejos, en el sur,
de luto y lágrimas caliente. allí,
hablan, con negros chales
mujeres de la muerte a media voz,
en la puerta de la casa.

* * * * *

Carta

Este silencio quieto en las calles,
este viento indolente, que se desliza
bajo entre las hojas muertas o asciende
hacia los colores de las insignias extranjeras...
tal vez el ansia de decirte una palabra
antes de que se cierre de nuevo el cielo
sobre otro día, tal vez la inercia,
nuestro mal más vil... La vida
no está en este tremendo, oscuro, latir
del corazón, no es piedad, no es más
que un juego de la sangre donde la muerte
está en flor. Oh mi dulce gacela,
te recuerdo aquel geranio encendido
sobre un muro acribillado de metralla.
¿O ahora ni siquiera la muerte consuela
ya a los vivos, la muerte por amor?

* * * * *

Elegía

Gélida mensajera de la noche,
has regresado limpia a los balcones
de las casas destruidas e iluminas
tumbas ignotas, desolados restos
de la tierra humeante, aquí reposa
nuestro sueño. Y te vuelves solitaria
hacia el norte, donde todo corre
sin luz hacia la muerte, y tú resistes.

* * * * *

Nieve

Cae la noche: de nuevo nos dejáis,
oh imágenes queridas de la tierra, árboles,
animales, pobre gente encerrada
en los capotes de los soldados, madres
de vientre aridecido por las lágrimas.
Y la nieve nos ilumina desde los prados
cual luna. Oh, estos muertos. Golpead
en la frente, golpead hasta el corazón.
Que grite al menos alguien en el silencio,
en este blanco cerco de enterrados.

* * * * *

Se oye de nuevo el mar

Desde hace muchas noches se oye de nuevo el mar,
leve, arriba y abajo, sobre la arena lisa.
Eco de una voz encerrada en la mente
que resurge del tiempo; y también este
lamento asiduo de gaviotas, o
pájaros de las torres, que abril
empuja hacia la llanura. Ya
estabas junto a mí con esa voz;
y quisiera que a ti también llegase,
ahora, de mí un eco de memoria,
como ese oscuro murmurar del mar.







DE "LA VIDA NO ES SUEÑO":


Color de lluvia y de hierro

Decías: muerte silencio soledad;
como amor, vida. Palabras
de nuestras provisorias imágenes.
Y el viento se ha alzado leve cada mañana
y el tiempo color de lluvia y de hierro
ha pasado sobre las piedras,
sobre nuestro cerrado zumbido de malditos.
La verdad todavía está lejos.
Y dime, hombre quebrantado en la cruz,
y tú, el de las manos hinchadas de sangre,
¿qué le contestaré a los que preguntan?
Ahora, ahora: antes de que más silencio
entre en los ojos, antes de que más viento
se alce y más herrumbre florezca.

* * * * *

Epitafio para Bice Donetti

Con los ojos hacia la lluvia y los elfos de la noche,
está allí, en el campo número quince, en Musocco,
la mujer emiliana que yo amé
en el tiempo triste de la juventud.
hace poco fue sorprendida por la muerte
mientras miraba tranquila el viento del otoño
agitar las ramas de los plátanos y la shojas
desde su gris casa de la periferia.
su rostro aún está vivo de sorpresa,
como sin duda lo estuvo en la infancia, deslumbrado
por el tragallamas alto sobre el carromato.
Oh tú, que pasas, empujado por otros muertos,
ante la fosa mil ciento sesenta,
deténte un minuto a saludar
a la que nunca se lamentó del hombre
que aquí queda, odiado, con sus versos,
uno de tantos, obrero de sueños.







DE "VISIBLE, INVISIBLE":

La tierra incomparable

Hace tiempo que te debo palabras de amor:
o tal vez sean las que cada día
huyen deprisa apenas pronunciadas
y la memoria las teme, que transforma
los signos inevitables en diálogo
enemigo enconado del alma. Tal vez
el rumor de la mente no deja oír
mis palabras de amor o el miedo
al eco arbitrario que desenfoca
la imagen más débil de un sonido
afectuoso: o tocan la invisible
ironía, su naturaleza de hoz
o mi vida ya cercada, amor .
O tal vez sea el color que las deslumbra
si chocan con la luz
del tiempo que vendrá a ti cuando el mío
no pueda ya llamar amor oscuro
amor ya llorando
la belleza, la ruptura impetuosa
con la tierra incomparable, amor.

* * * * *

Visible, invisible

Visible, invisible
el carretero en el horizonte
entre los brazos del camino llama
contesta a la voz de las islas.
Tampoco yo voy a la deriva,
en torno gira el mundo, leo
mi historia como guardián nocturno
en las horas de lluvia. El secreto tiene márgenes
felices, estratagemas, atracciones difíciles.
Mi vida, habitantes crueles y sonrientes
de mis caminos, de mis paisajes,
no tiene manijas en las puertas.
No me preparo para la muerte,
conozco el principio de las cosas,
el fin es una superficie por la que viaja
el invasor de mi sombra.
Yo no conozco las sombras.







DE "DAR Y TENER":

Dar y tener

Nada me das, no das nada,
tú que me escuchas. La sangre
de las guerras se ha secado,
el desprecio es un deseo puro
y no provoca un gesto
de un pensamiento humano,
fuera de la hora de la piedad.
Dar y tener. En mi voz
hayal menos un signo
de geometría viva,
en la tuya, una caracola
muerta con lamentos fúnebres.

* * * * *

No he perdido nada

Todavía estoy aquí, el sol gira
a mis espaldas como un halcón y la tierra
repite mi voz en la tuya.
Y recomienza el tiempo visible
en el ojo que redescubre la luz.
No he perdido nada.
Perder es ir al otro lado
de un diagrama del cielo
por movimientos de sueños, un río
lleno de hojas.







OTROS POEMAS:

ÁRBOL

De ti una sombra se desprende
que la mía muerta parece
si al movimiento oscila
o rompe azulinas aguas frescas
a orillas del Ánapo, al que vuelvo esta noche
en que marzo lunar me incitó,
rico ya de alas y de hierbas.

No sólo de sombra vivo,
que tierra y sol y dulce don de agua
nuevos follajes te dieron
en tanto yo me inclino y seco
palpo en mi rostro tu corteza.







CAÍDA ENTRE LAS FLORES

Se adivinaba la estación oculta
en la ansiedad de la nocturna lluvia,
en el vaivén celeste de las nubes
como ligeras cunas ondulantes...
Había muerto YO.

Una ciudad suspensa entre los aires
era mi exilio último;
en derredor sentía la llamada
de süaves mujeres de otros días;
la Madre a quien los años juvenecen,
tomando la más blanca de las rosas,
con dulce mano la dejó en mis sienes.

Fuera de la ciudad era la noche...
Los astros recorrían
curvas de oro en sus ignotos rumbos;
todas las cosas, vueltas fugitivas,
lleváronme a sus ángulos secretos
para contarme de jardines
de par en par abiertos,
y del sentido exacto de las vidas.

Yo, en tanto, padecía con inmobles
ojos viendo la última sonrisa
de una mujer cafda entre las flores.

Versión de Carlos López Narváez







CARTA A LA MADRE

"Mater dulcíssima, ahora se levantan la nubes,
el Navío topa confusamente contra los diques,
los árboles se hinchan de agua, arden de nieve;
no estoy triste en el Norte; no estoy en paz
conmigo mismo, pero no espero
el perdón de ninguno; muchos me deben lágrimas
de hombre a hombre. Sé que no estás bien, que vives
como todas la madres de los poetas, pobre
y según la medida de amor
por los hijos lejanos. Hoy, soy yo
quien te escribe" .Finalmente, dirás dos palabras
sobre aquel muchacho que huyó de noche con su chaquetilla
y algunos versos en el bolsillo. Pobre, tan impetuoso
lo matarán algún día en algún lugar.
"Cierto, recuerdo, fue en aquella escalerilla gris
de los lentos trenes que llevaban almendras y naranjas
a la boca del Imera, el río lleno de urracas,
de sal de eucaliptus. Pero ahora te agradezco,
-sólo esto quiero- con la misma ironía que pusiste
en mis labios, igual a la tuya.

Esa sonrisa me ha salvado de llantos y dolores.
No importa si ahora tengo alguna lágrima por ti,
por todos aquellos, que como tú esperan
y no saben qué. Ah, amable muerte,
no toquéis el reloj de cocina que golpea en el muro:
toda mi infancia ha pasado en el esmalte
de su esfera, en sus flores pintados;
no toquéis las manos, el corazón de los viejos.
es, Pero tal vez alguno responde. Ah, muerte piadosa,
muerte pudorosa,
Adiós, amada adiós dulcíssima mater".

Versión de Fernando Pezoa







CIUDAD MUERTA

Inútilmente, ¡oh manos!
removéis bajo el polvo:
la ciudad está muerta.

Sobre el Naviglio
todos oyeron el zumbar siniestro.
El ruiseñor en cuyo arpegio
se anunciaba el tramonto
cayó desde la antena del convento.

A qué buscar el pozo
si ya no tienen sed los vivos...
A qué palpar sus cuerpos
hinchados y rojizos:
dejadlos en su suelo;
dejadlos en su sitio,
que la ciudad ha muerto...

Versión de Carlos López Narváez







LA LLUVIA

He aquí la lluvia:
los aires callados remece,
y las golondrinas
-gaviotas de mínimos peces-
las aguas oscuras, tranquilas,
rizan en los lagos.
Un olor de heno
satura recintos y campos.

Y el año se va
sin dar un lamento,
ni lanzar un grito,
que un día más
pudiera ganar de improviso.

Versión de Carlos López Narváez







LA NOCHE SE VA

Ha muerto la Noche; la Luna
lentamente en el cielo se esfuma
y se deslíe sobre los canales.

Septiembre aún impera
sobre esta tierra de llanura;
los prados tienen la verdura
de los valles del sur en primavera.

Los compañeros he dejado;
el corazón entre los viejos muros,
he ocultado:
mi soledad se queda a recordarte!...

Pero despunta el día;
ya en las praderas
bate el pisar de los caballos.

TÚ también, más distante que la Luna,
vas por la lejanía.

Versión de Carlos López Narváez







NINGUNO

Tal vez soy un niño:
los muertos le causan pavura.
Sin embargo, a la muerte le clama
soltarlo de toda criatura
-niño, árbol, bestezuela-
de tantas cosas en que pulsan
corazones roídos de tristeza.

Es que no tiene ya qué dar
y las calles oscuras están,
y no encuentra, Señor, ser alguno
que logre, a tu vera,
ponerlo a sollozar.

Versión de Carlos López Narváez







REFUGIO

Al borde del tajo
se retuerce un pino
suspenso: curvado
cual una ballesta,
parece escrutar el abismo.

Las aves nocturnas
lo tienen de asilo;
y en horas profundas,
alas que se abaten
conturban el aire dormido.

Corazón en sombra:
suspenso tu nido
de una voz remota,
te pasas lo noche en atisbo.

Versión de Carlos López Narváez







Y SÚBITO LA NOCHE

Hendido por un rayo de sol
todo hombre está solo
sobre el corazón de la tierra;
de pronto,
la noche que cierra.

Versión de Carlos López Narváez







Y TU VESTIDURA ES BLANCA

Tienes la cabeza inclinada y me miras,
y tu vestidura es blanca,
y un seno asoma por el encaje
suelto sobre el hombro izquierdo.
Me rebasa la luz; tiembla
y toca tus brazos desnudos.
Vuelvo a verte. Palabras
cerradas y rápidas decías,
que ponían corazón
en el peso de una vida
que sabía de circo.
Profundo el camino
sobre el que descendía el viento
ciertas noches de marzo
y nos despertaba desconocidos
como la primera vez.










sábado, 4 de abril de 2009

Martin Luther King





O famoso discurso proferido nos degraus do Lincoln Memorial, conhecido como EU TENHO UM SONHO (**)











Enviado por Leninha. CORTESIA DE BLOCOS ONLINE

http://www.blocosonline.com.br/


A 4 de abril de 1968: Morre assassinado Martin Luther King, leia o seu famoso discurso.




Estou contente por juntar-me a vós hoje, o dia que entrará para a história como o da maior manifestação pela liberdade na história da nossa nação.

Há cem anos, um grande americano, sob cuja sombra simbólica nos encontramos, assinava a Proclamação da Emancipação. Esse decreto fundamental foi como um raio de luz de esperança para milhões de escravos negros que tinham sido marcados a ferro nas chamas de uma vergonhosa injustiça. Veio como uma aurora feliz para terminar a longa noite do cativeiro. Mas, cem anos mais tarde, devemos enfrentar a realidade trágica de que o Negro ainda não é livre.

Cem anos mais tarde, a vida do Negro é ainda lamentavelmente dilacerada pelas algemas da segregação e pelas correntes da discriminação. Cem anos mais tarde, o Negro continua a viver numa ilha isolada de pobreza, no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde, o Negro ainda definha nas margens da sociedade americana, estando exilado na sua própria terra.

Por isso, encontramo-nos aqui hoje para dramaticamente mostrarmos esta extraordinária condição. Num certo sentido, viemos à capital do nosso país para descontar um cheque. Quando os arquitectos da nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração de independência, estavam a assinar uma promissória de que cada cidadão americano se tornaria herdeiro.

Este documento era uma promessa de que todos os homens veriam garantidos os direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à procura da felicidade. É óbvio que a América ainda hoje não pagou tal promissória no que concerne aos seus cidadãos de cor. Em vez de honrar este compromisso sagrado, a América deu ao Negro um cheque sem cobertura; um cheque que foi devolvido com a seguinte inscrição: "saldo insuficiente". Porém nós recusamo-nos a aceitar a ideia de que o banco da justiça esteja falido. Recusamo-nos a acreditar que não exista dinheiro suficiente nos grandes cofres de oportunidades deste país.

Por isso viemos aqui cobrar este cheque – um cheque que nos dará quando o recebermos as riquezas da liberdade e a segurança da justiça. Também viemos a este lugar sagrado para lembrar à América da clara urgência do agora. Não é o momento de se dedicar à luxúria do adiamento, nem para se tomar a pílula tranquilizante do gradualismo. Agora é tempo de tornar reais as promessas da Democracia. Agora é o tempo de sairmos do vale escuro e desolado da segregação para o iluminado caminho da justiça racial. Agora é tempo de abrir as portas da oportunidade para todos os filhos de Deus. Agora é tempo para retirar o nosso país das areias movediças da injustiça racial para a rocha sólida da fraternidade.

Seria fatal para a nação não levar a sério a urgência do momento e subestimar a determinação do Negro. Este sufocante Verão do legítimo descontentamento do Negro não passará até que chegue o revigorante Outono da liberdade e igualdade. 1963 não é um fim, mas um começo. Aqueles que crêem que o Negro precisava só de desabafar, e que a partir de agora ficará sossegado, irão acordar sobressaltados se o País regressar à sua vida de sempre. Não haverá tranquilidade nem descanso na América até que o Negro tenha garantido todos os seus direitos de cidadania.

Os turbilhões da revolta continuarão a sacudir as fundações do nosso País até que desponte o luminoso dia da justiça. Existe algo, porém, que devo dizer ao meu povo que se encontra no caloroso limiar que conduz ao palácio da justiça. No percurso de ganharmos o nosso legítimo lugar não devemos ser culpados de actos errados. Não tentemos satisfazer a sede de liberdade bebendo da taça da amargura e do ódio.

Temos de conduzir a nossa luta sempre no nível elevado da dignidade e disciplina. Não devemos deixar que o nosso protesto realizado de uma forma criativa degenere na violência física. Teremos de nos erguer uma e outra vez às alturas majestosas para enfrentar a força física com a força da consciência.

Esta maravilhosa nova militância que envolveu a comunidade negra não nos deve levar a desconfiar de todas as pessoas brancas, pois muitos dos nossos irmãos brancos, como é claro pela sua presença aqui, hoje, estão conscientes de que os seus destinos estão ligados ao nosso destino, e que a sua liberdade está intrinsecamente ligada à nossa liberdade.

Não podemos caminhar sozinhos. À medida que caminhamos, devemos assumir o compromisso de marcharmos em frente. Não podemos retroceder. Há quem pergunte aos defensores dos direitos civis: "Quando é que ficarão satisfeitos?" Não estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos incontáveis horrores da brutalidade policial. Não poderemos estar satisfeitos enquanto os nossos corpos, cansados das fadigas da viagem, não conseguirem ter acesso a um lugar de descanso nos motéis das estradas e nos hotéis das cidades. Não poderemos estar satisfeitos enquanto a mobilidade fundamental do Negro for passar de um gueto pequeno para um maior. Nunca poderemos estar satisfeitos enquanto um Negro no Mississipi não pode votar e um Negro em Nova Iorque achar que não há nada pelo qual valha a pena votar. Não, não, não estamos satisfeitos, e só ficaremos satisfeitos quando a justiça correr como a água e a rectidão como uma poderosa corrente.

Sei muito bem que alguns de vocês chegaram aqui após muitas dificuldades e tribulações. Alguns de vocês saíram recentemente de pequenas celas de prisão. Alguns de vocês vieram de áreas onde a vossa procura da liberdade vos deixou marcas provocadas pelas tempestades da perseguição e sofrimentos provocados pelos ventos da brutalidade policial. Vocês são veteranos do sofrimento criativo. Continuem a trabalhar com a fé de que um sofrimento injusto é redentor.

Voltem para o Mississipi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para a Luisiana, voltem para as bairros de lata e para os guetos das nossas modernas cidades, sabendo que, de alguma forma, esta situação pode e será alterada. Não nos embrenhemos no vale do desespero.

Digo-lhes, hoje, meus amigos, que apesar das dificuldades e frustrações do momento, ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

Tenho um sonho que um dia esta nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado da sua crença: "Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais".

Tenho um sonho que um dia nas montanhas rubras da Geórgia os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos proprietários de escravos poderão sentar-se à mesa da fraternidade.

Tenho um sonho que um dia o estado do Mississipi, um estado deserto, sufocado pelo calor da injustiça e da opressão, será transformado num oásis de liberdade e justiça.

Tenho um sonho que meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pela qualidade do seu carácter.

Tenho um sonho, hoje.

Tenho um sonho que um dia o estado de Alabama, com os seus racistas malignos, cujos lábios do governador actualmente pronunciam palavras de recusa, seja transformado numa condição onde pequenos rapazes negros, e raparigas negras, possam dar-se as mãos com outros pequenos rapazes brancos, e raparigas brancas, caminhando juntos, lado a lado, como irmãos e irmãs.

Tenho um sonho, hoje.

Tenho um sonho que um dia todo os vales serão elevados, todas as montanhas e encostas serão niveladas, os lugares ásperos serão polidos, e os lugares tortuosos serão endireitados, e a glória do Senhor será revelada, e todos os seres a verão, conjuntamente.

Esta é nossa esperança. Esta é a fé com a qual regresso ao Sul. Com esta fé seremos capazes de retirar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé poderemos transformar as dissonantes discórdias de nossa nação numa bonita e harmoniosa sinfonia de fraternidade. Com esta fé poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, ir para a prisão juntos, ficarmos juntos em posição de sentido pela liberdade, sabendo que um dia seremos livres.

Esse será o dia quando todos os filhos de Deus poderão cantar com um novo significado: "O meu país é teu, doce terra de liberdade, de ti eu canto. Terra onde morreram os meus pais, terra do orgulho dos peregrinos, que de cada localidade ressoe a liberdade".

E se a América quiser ser uma grande nação isto tem que se tornar realidade. Que a liberdade ressoe então dos prodigiosos cabeços do Novo Hampshire. Que a liberdade ressoe das poderosas montanhas de Nova Iorque. Que a liberdade ressoe dos elevados Alleghenies da Pensilvania!

Que a liberdade ressoe dos cumes cobertos de neve das montanhas Rochosas do Colorado!

Que a liberdade ressoe dos picos curvos da Califórnia!

Mas não só isso; que a liberdade ressoe da Montanha de Pedra da Geórgia!

Que a liberdade ressoe da Montanha Lookout do Tennessee!

Que a liberdade ressoe de cada Montanha e de cada pequena elevação do Mississipi.

Que de cada localidade, a liberdade ressoe.

Quando permitirmos que a liberdade ressoe, quando a deixarmos ressoar de cada vila e cada aldeia, de cada estado e de cada cidade, seremos capazes de apressar o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar-se as mãos e cantar as palavras da antiga canção negra:

"Liberdade finalmente! Liberdade finalmente! Louvado seja Deus, Todo Poderoso, estamos livres, finalmente!"

Martin Luther King


Enviado por Leninha

http://www.blocosonline.com.br/
__________________
(**) Discurso proferido nos degraus do Lincoln Memorial, em Washington (na Marcha para Washington), a 28 de agosto de 1963
Fonte: http://www.palmares.gov.br/

quinta-feira, 12 de março de 2009

Gabriela Mistral (1889-1957)












Dá-me tua mão


Gabriela Mistral (1889-1957)

Dá-me tua mão e dançaremos;
dá-me tua mão e me amarás.
Uma flor única seremos,
uma só flor, e nada mais.

O mesmo verso cantaremos,
ao mesmo passo bailarás;
como uma espiga ondularemos,
como uma espiga, e nada mais.

Te chamas Rosa e eu Esperança,
porém teu nome esquecerás,
porque seremos uma dança
pela colina, e nada mais.

(Trad. Zemaria Pinto)



O pensador de Rodin






Apoiando na mão rugosa o queixo fino,
O Pensador reflete que é carne sem defesa:
Carne da cova, nua em face do destino,
Carne que odeia a morte e tremeu de beleza.

E tremeu de amor toda a primavera ardente,
E hoje, no outono, afoga-se em verdade e tristeza.
O "havemos de morrer" passa-lhe pela mente
Quando no bronze cai a noturna escureza.

E na angústia seus músculos se fendem sofredores.
Sua carne sulcada enche-se de terrores,
Fende-se, como a folha de outono, ao Senhor forte

Que o reclama nos bronzes. Não há árvore torcida
Pelo sol na planície, nem leão de anca ferida,
Crispados como este homem que medita na morte.

(Trad. Manuel Bandeira).


Eu não Sinto a Solidão




É a noite desamparo
das montanhas ao oceano.
Porém eu, a que te ama,
eu não sinto a solidão.
É todo o céu desamparo,
mergulha a lua nas ondas.
Porém eu, a que te embala,
eu não sinto a solidão.
É o mundo desamparo,
triste a carne em abandono
Porém eu, a que te embala,
eu não sinto a solidão.



Ceras Eternas



Ah! nunca mais conhecerá tua boca
a vergonha do beijo que espumava
concupiscência como espessa lava!
Voltam a ser duas pétalas nascentes
impregnadas de novo mel, os lábios
que sonhei inocentes.
Ah! nunca mais conhecerão teus braços
o mundo horrível que em meus dias pôs
escuro horror: o nó de um outro abraço.
Pelo sossego puro
sob a terra ficaram estendidos
já, Deus meu! Seguros.
Agora cegas, nunca mais tuas pupilas
terão um rosto impudente e rubro
de lascívia, nos seus espelhos refletidos!
Benditas ceras fortes,
ceras geladas, ceras eternais
e duras, da morte!
Bendito toque sábio
com que selaram olhos, com que amarraram braços,
com que juntaram lábios!
Benditas ceras!
já não brasa de beijos luxuriosos
que vos quebrem, desgastem ou derretam!




Canção das Meninas Mortas



E essas pobres meninas mortas,
escamoteadas em abril,
as que surgiram e afundaram-se
como nas ondas o delfim?
Onde é que foram e se encontram,
a custo contendo o riso,
ou escondidas esperando
voz de um amante que seguir?
Diluindo-se como desenhos
que deus deixou de colorir,
pouco a pouco afogadas como
em suas fontes um jardim?
À vezes procuram nas águas
ir recompondo seu perfil
e nas carnudas rosas róseas
quase começam a sorrir.
Nos campos elas acomodam
o talhe, o vulto quebradiço.
e quase logram que uma nuvem
lhes dê seu corpo num ardil.
Juntam-se quase as desmembradas,
quase chegam ao sol feliz.
quase desfazem seu trajeto
recordando que eram daqui.
Quase anulam sua traição
e caminham para o redil.
e quase vemos ao crepúsculo
o divino milhão surgir!




O Encontro



Encontrei-o no caminho.
A água não turvou seu sonho,
nem se abriram mais as rosas.
Mas o assombro entrou-me na alma.
E uma pobre mulher tem
o rosto banhado em lágrimas.
Levava um canto ligeiro
sua boca descuidada;
ao olhar-me se tornou
profundo o canto que entoava.
Contemplei a senda, achei-a
estranha, transfigurada.
Tive na alba de diamante
o rosto banhado em lágrimas.
Continuou a andar cantando
e levou os meus olhares.
Então já não foram mais
azuis e esbeltas as salvas.
Que importa! Ficou nos ares
estremecida minha alma.
Ninguém me feriu mas tenho
o rosto banhado em lágrimas.
Essa noite não velou
assim como eu junto à lâmpada;
Longe seu peito de nardo
minha aflição não atinge.
Porém talvez por seu sonho
passe um perfume de acácia,
que uma pobre mulher tem
o rosto banhado em lágrimas.
Ia só e não temia.
Tinha sede e não chorava
Mas desde que o vi passar,
Deus revestiu-me de chagas.
Minha mãe reza por mim
a sua oração confiada.
Mas eu terei para sempre
o rosto banhado em lágrimas.



Ausência
(Tala, 1938)




Se vai de ti meu corpo gota a gota.
Se vai minha cara no óleo surdo;
Se vão minhas mãos em mercúrio solto;
Se vão meus pés em dois tempos de pó.
Se vai minha voz, que te fazia sino
fechada a quanto não somos nós.
Se vão meus gestos, que se enovelam,
em lanças, diante de teus olhos.
E se te vai o olhar que entrega,
quando te olha, o zimbro e o olmo.
Vou-me de ti com teus mesmos alentos:
como umidade de teu corpo evaporo.
Vou-me de ti com vigília e com sono,
e em tua recordação mais fiel já me borro.
e em tua memória volto como esses
que não nasceram nem em planos nem em bosques
Sangue seria e me fosse nas palmas
de teu trabalho e em tua boca de sumo.
Tua entranha fosse e seria queimada
em marchas tuas que nunca mais ouço,
e em tua paixão que retumba na noite,
como demência de mares sós.
Se nos vai tudo, se nos vai tudo!

Tradução - Maria Teresa Almeida Pina



Riqueza



Tenho a fortuna fiel
e a fortuna perdida.
Uma assim como a rosa,
a outra assim como espinho.
Não me prejudicou
o roubo que sofri.
Tenho a fortuna fiel
e a fortuna perdida.
E estou rica de púrpura
e de melancolia.
Como é amada a rosa,
como é amante o espinho!
Tal num duplo contorno
frutas gêmeas unidas,
tenho a fortuna fiel
e a fortuna perdida.
Dois Anjos
Não é um anjo apenas
que me afeiçoa e guia.
Como embalam as duas
orlas ao mar, embalam-me
o anjo que traz o gozo
e o que traz a agonia;
o que tem asas voantes
e o que tem asas fixas.
Eu sei, quando amanhece,
qual vai reger-me o dia,
se o anjo cor de chama,
se o anjo cor de cinza.
E dou-me a eles como
alga às ondas, contrita.
Voaram uma só vez
com asas unidas:
foi o dia do amor,
o da epifania.
Fundiram-se numa asa
as asas inimigas
e apertaram o nó
que junta à morte a vida.




A casa

A mesa, filho, está posta
em brancura quieta de nata,
e em quatro muros que mostram sua cor azul
dando brilhos, a cerâmica.
Este é o sal, este o azeite
e ao centro o Pão que quase fala.
Ouro mais lindo que ouro do Pão
não está nem em fruta nem em retama,
e do seu cheiro de espiga e forno
uma fortuna que nunca sacia.
O partimos, filhinho, juntos,
com dedos duros e palma branda,
e tu o olhas assombrada
de terra preta que dá flor branca.
Abaixada a mão de comer,
que tua mãe também a abaixa.
Os trigos, filho, são do ar,
e são do sol e da enxada;
porém este Pão "cara de Deus"*
não chega as mesas das casas;
e se outras crianças não o tem,
melhor, meu filho, não o tocares,
e não tomá-lo melhor seria
com mão e mão envergonhadas
*No Chile, o povo chama ao pão de "cara de Deus"




Apegado a mim



Floco de lã de minha carne,
que em minha entranha eu teci,
floco de lã friorento,
dorme apegado a mim!
A perdiz dorme no trevo
escutando-o latir:
não te perturbem meus alentos,
dorme apegado a mim!
Ervazinha assustada
assombrada de viver,
não te soltes de meu peito:
dorme apegado a mim!
Eu que tudo o hei perdido
agora tremo de dormir.
Não escorregues de meu braço:
dorme apegado a mim!

Tradução - Maria Teresa Almeida Pina


DESOLACIÓN




La bruma espesa, eterna, para que olvide dónde
me ha arrojado la mar en su ola de salmuera.
La tierra a la que vine no tiene primavera:
tiene su noche larga que cual madre me esconde.

El viento hace a mi casa su ronda de sollozos
y de alarido, y quiebra, como un cristal, mi grito.
Y en la llanura blanca, de horizonte infinito,
miro morir intensos ocasos dolorosos.

¿A quién podrá llamar la que hasta aquàha venido
si más lejos que ella sólo fueron los muertos?
¡Tan sólo ellos contemplan un mar callado y yerto
crecer entre sus brazos y los brazos queridos!

Los barcos cuyas velas blanquean en el puerto
vienen de tierras donde no están los que son míos;
y traen frutos pálidos, sin la luz de mis huertos,
sus hombres de ojos claros no conocen mis ríos.

Y la interrogación que sube a mi garganta
al mirarlos pasar, me desciende, vencida:
hablan extrañas lenguas y no la conmovida
lengua que en tierras de oro mi vieja madre canta.

Miro bajar la nieve como el polvo en la huesa;
miro crecer la niebla como el agonizante,
y por no enloquecer no encuentro los instantes,
porque la "noche larga" ahora tan solo empieza.

Miro el llano extasiado y recojo su duelo,
que vine para ver los paisajes mortales.
La nieve es el semblante que asoma a mis cristales;
¡siempre será su altura bajando de los cielos!

Siempre ella, silenciosa, como la gran mirada
de Dios sobre mí; siempre su azahar sobre mi casa;
siempre, como el destino que ni mengua ni pasa,
descenderá a cubrirme, terrible y extasiada.




Coisas




Amo as coisas que nunca tive
como as outras que já não tenho;



Eu toco a água silenciosa,
parada em pastos friorentos
que sem um vento tiritava
no horto que era meu horto.



Se a vejo como a via antes,

me vem um estranho pensamento;

e brinco, devagar, com essa água,

qual um peixe ou um mistério.



Penso no início, onde deixei

passos alegres que já não carrego,

e no umbral vejo uma chaga

cheia de musgo e de silêncio.



Me procuro num verso que perdi,
que aos sete anos me disseram.
Era uma mulher fazendo o pão
e eu ainda sua santa boca vejo.



Vem um aroma rompendo em rajadas;
sou muito ditosa, sei o que sinto;
de tão delicado não é aroma,
senão o cheiro das amêndoas.



Me fazem criança, de novo, os sentidos;

busco um nome mas não o encontro,

e cheiro o ar e os lugares,
procurando amêndoas mas não acho...



Há um rio barulhento sempre perto.
Faz quarenta anos que o escuto.
É cantoria no meu sangue
ou bem um ritmo que me deram.



Ou é o rio Elqui de minha infância,
onde em suas águas bóio e me deixo levar.
Nunca o perco; peito a peito, como
duas crianças, nos pertencemos.



Quando sonho com a Cordilheira,
caminho por desfiladeiros,
que vou ouvindo sem parar,

um assobio, quase um juramento.



Vejo à linha do Pacífico,
Golpeando, meu arquipélago,
e de uma ilha só me restou
um cheiro acre de pássaro morto...



Um dorso, um dorso sério e doce,
arremata o sonho que estou tendo.
É o final do meu caminho
e nele descanso quando chego.



É um tronco morto ou é meu pai,
o vago dorso cinzento...
Eu não pergunto, não o incomodo.
Sentindo-o perto, calo e durmo.



Amo uma pedra de Oaxaca
ou Guatemala, sou parecida com ela,
vermelha e séria como minha cara
e cuja abertura me dá alento.



Quando adormeço ela fica nua;
não sei porque eu a persigo.
Acho que nunca a tive
e é o meu sepulcro o que vejo...



Versão e adaptação:

Marilena Trujillo








Cosas





Amo las cosas que nunca tuve
con las otras que ya no tengo;

Yo toco un agua silenciosa,
parada en pastos friolentos,
que sin un viento tiritaba
en el huerto que era mi huerto.

La miro como la miraba;
me da un extraño pensamiento,
y juego, lenta, con esa agua
como con pez o con misterio.

Pienso en umbral donde deje
pasos alegres que ya no llevo,
y en el umbral veo una llaga
llena de musgo y de silencio.

Me busco un verso que he perdido,
que a los siete años me dijeron.
Fue una mujer haciendo el pan
y yo su santa boca veo.

Viene un aroma roto en ráfagas;
soy muy dichosa si lo siento;
de tan delgado no es aroma,
siendo el olor de los almendros.

Me vuelve niño los sentidos;
le busco un nombre y no lo acierto,
y huelo el aire y los lugares
buscando almendros que no encuentro...

Un río suena siempre cerca.
Ha cuarenta años que lo siento.
Es canturía de mi sangre
o bien un ritmo que me dieron.

O el río Elqui de mi infancia
que me repecho y me vadeo.
Nunca lo pierdo; pecho a pecho,
como dos niños, nos tenemos.

Cuando sueño la Cordillera,
camino por desfiladeros,
y voy oyéndoles, sin tregua,
un silbo casi juramento.

Veo al remate del Pacífico
amoratado mi archipiélago,
y de una isla me ha quedado
un olor acre de alción muerto...

Un dorso, un dorso grave y dulce,
remata el sueño que yo sueño.
Es al final de mi camino
y me descanso cuando llego.

Es tronco muerto o es mi padre,
el vago dorso ceniciento.
Yo no pregunto, no lo turbo,
me tiendo junto, callo y duermo.

Amo una piedra de Oaxaca
o Guatemala, a que me acerco,
roja y fija como mi cara
y cuya grieta da un aliento.

Al dormirme queda desnuda;
no se por qué yo la volteo.
Y tal vez nunca la he tenido
y es mi sepulcro lo que veo...