(óleo de maria azenha)
nossa senhora de burka
rogel samuel
Ela escreveu NOSSA SENHORA DE BURKA (Coimbra: Alma Azul, 2002). Ela é Maria Azenha. Escreveu um livro de elegias que enquadram, que descrevem nosso mundo, a realidade pós-11-de-setembro. Uma edição primorosa, papel especial, pesado. Livro bonito. É um dos mais impressionantes textos sobre esta história recente, presente. Azenha mostra o rosto "coberto de sangue e de feridas". Sua primeira parte se chama "Da guerra" e trata do horror das novas guerras de nosso tempo ("este é um tempo de terror"), da nossa hipocrisia ("um tempo de máscaras"), época de partida, tema português ("os navios partiram / nunca mais regressaram"), ou seja: "hoje / ao som de guerras / os homens / esfomeados". Porque, diz Azenha: "eis como tudo entra de súbito no mundo / e um certo país é de repente um sino / tudo começou subitamente naquele segundo / igual e tão terrível à morte de tanta gente / ainda com a luz e os escombros de raiz / naquele dia terrível como a espada do vento".
Raras vezes se encontra poeta tão radicalmente engajado na Terra, para desenterrar esta palavra gasta, como noticiário do Terror, isto é, do horror da nova política de guerra que grandes e poderosas nações "desenvolvidas" da "civilização" movem agora contra povos miseráveis, mulheres veladas, religiões negadas, crenças consideradas exóticas. Perpassa ali o vento quente do deserto, naquelas 57 páginas ("pássaros mortos / um dia apodrecem").
Ela nasceu em Coimbra, licenciou-se em Coimbra, na Universidade de Coimbra, em Ciências Matemáticas. Publicou cerca de 10 livros. Foi professora nas Universidades de Coimbra, Évora e Lisboa. Mas logo optou pela Arte. Hoje é professora de numa escola de ensino artístico de Lisboa. É Doutora. É Pintora.
Azenha se mostra um poeta que questiona o pensamento do mundo. Pensar o mundo, em poesia,deve ter-se porte grandioso que ela realmente tem. Dá conta, ela, transforma a tragédia histórica contemporânea em pura poesia ("américa nas tuas mãos ficou o sinal da cruz / o terrorismo entrou / e em alguns livros também").
Tecer melhor quem poderia aquele cenário da brutalidade mundial, da barbárie atual? "agora o pequeno barulho da guerra / é tão natural / como este poema que fiz".
eis como tudo chegou
eis o que não chega ao fim
No seu livro ouvimos o grito surdo, o agudo grito das mulheres do Afeganistão, mulheres de burca. O grito entre bombas. Nos seus versos a doutrina nova das armas, Azenha tripula, expõe a nudez da guerra contemporânea, com maestria e simplicidade, como contasse de um tempo remoto, o tempo nosso.
Em livro anterior, escreveu: AS VEIAS DO ESPAÇO
digo o voo das aves
essas veias levíssimas do espaço
as suas sílabas subitamente sentadas
em cadeiras voláteis
digo essas delicadas naves
que navegam por metáforas matemáticas
as suas figuras de números tranquilos
os seus modos de penetrar o espaço
as suas danças de átomos
os seus múltiplos resíduos
em silenciosos halos de naufrágios
digo as suas galáxias de luz e números
***
A segunda parte de NOSSA SENHORA DE BURKA se intitula: "Da morte": "guardo a minha vida em livros de poemas / poemas que vou soletrando devagar / escritos em toalhas de sangue / indefesos às chuvas matinais, / é nos livros que vou negando / o vazio das grandes ausências, / sobre a morte nada direi. / é inverno frio. estou à porta".
Dia virá em que Maria Azenha será lembrada como a grande autora da poética da alma de nossa época, porque "o meu destino é este o preço / é escrever. porque eu meço / os mistérios da morte e do mundo. / guardo a minha parca bagagem / sem poderes a minha caligrafia / de medos e de campas dentro / do sangue dos pomares / e o teu nome que escrevo / contra o tédio dos livros, mãe".
Abrindo o pórtico do corpo, do seio, ela diz: "sobre o meu corpo cresce uma rosa", que é a cicatriz no corpo da geografia do mundo em chamas e em dores.
Ou, como diz Azenha: "a europa é a minha casa / por isso posso chorar muito / estou triste muito triste / não estou triste estou triste / sinceramente não estava à espera disto / quem tem a culpa toda sou eu / fui eu quem fez esta embrulhada / em vez de ouvir a empregada dizer / temos que ser uns para os outros / devia era ter continuado a escrever / poemas de amor / poemas de amor"
poemas
poemas
só
poemas
que foi sempre o que escrevi
agora percebo o que é o terrorismo
agora percebo
estou triste estou muito triste
tenho o corpo podre de pax
Eis um livro raro, bom como poucos. Nos dois lados, como num disco, ou moeda: o lado A é da guerra, o lado B é da morte. Livro já consagrado. Já clássico.
azenha
meninos do medo meninos sem linguagem
ninguém sabe que os gritos
libertam pérolas de um cativeiro
uma cidade de fogo esplendorosa
caindo a pique
uma infância à porta dos grandes gelos
um nome de inverno com dragões negros
uma palavra acesa nos lábios dos mendigos.
escrevem uma vontade
um navio carregado com os últimos carvões
o vento
a noite
o mar acordado
um pedaço de poesia azul forte. o tempo
acabará por dissolvê-los.
é um grito que gravo nas paredes do meu quarto
um grito de sílabas compactas
procura ainda o fogo
um horror que queima a página.
sopra um vento gelado
um vento insistente
um vento que procura alguém
meninos de pânico do medo
meninos sem linguagem
cantam.
cantam a música que envenena o sangue.
2004,dezembro,25,lisboa
flores afogadas em campas
o sangue excede a exactidão das rosas
mais de sessenta mil. ouro e pranto.
meu coração e eu
de água discreta. deles
florirão pedras,
mais de sessenta mil.
o tempo
dos números astronómicos.
maria azenha
2005,dezembro,29,lisboa
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novo canto
uma ave passa.
e começa um canto leve de ar e plumas
verga os seus ramos de ouro
estendendo-se por campos de ar e branco lume.
as estrelas profundamente estremecem
na tua boca
aniquilam-se uma a uma
é um campo cercado de água e pérolas
ardendo entre as folhas levíssimas
dos livros da chuva,
é o teu nome que começa.
o teu nome de inverno
coroado de águas e silêncio:
um nome colocado num tempo
de eternos números
é um nome nu.
degrau a degrau
subo as páginas do fogo
a escadaria das palavras que nascem do teu corpo
a meu lado
o sangue fervendo na combustão
das frias águas
do
mundo
maria azenha
2005,Janeiro,2,lisboa
PRESENÇA TOTAL
Minha mão é o mar em movimento.
O puro movimento
Sem mar sem mão
Adere ao infinito como adere ao oiro
Ao hálito do sopro
Ao côncavo da respiração
Neste instante,
Suponho,
Há um deus que escreve na glande da minha mão.
A TUA BOCA SOBRE MARTE
mãe — é dezembro
se morreste, porque fazes
tanta força contra os números?
porque fazes tanta força
na matéria?
as máquinas levaram tudo
— a tabuada a lua.
a febre dos satélites entrou pela casa dentro. Ouves?
sentes?... todos os frutos
ao contrário na tabua
da da neve.
e a tua boca sobre
marte. e eu sonhando.
sonhando o alfabeto como uma 'máquina lírica'.
sei agora ao contrário
como se chama o inverno. e as árvores
todas destelhadas pelos ventos
de mercúrio. Ë o teu nome dentro
com toda a força na paisagem:
as páginas as
casas
os peixes encarnados avançando
pelos números.
e a chuva toda lá fora ardendo,
pesada,
sobre a terra inteira como estátuas puras.
como se chama, mãe, a neve agora?
agora, mãe,
é janeiro
todo o tempo fora:
— as máquinas levaram tudo,
a tabuada a lua.
DESEJO DE INFINITO
e era uma vez um homem:
o peito muito aberto um grito
o desejo de Infinito
que para dizer tudo
ainda jovem
andou de um lado para outro
num rio negro e áspero de amargura
e como um grande mago rumo aos altos montes
escalou o Evereste
num grande passo cirúrgico
deitou no chão o quadro
atirou-o violentamente contra a Terra
abriu-lhe o ventre aos gritos
e como um grande louco
fechado em lucidez aos berros
pôde enfim serenamente
pintar
de
madrugada
a côr
do Infinito
(Leyla uma jovem iraniana dezanove anos
várias vezes negociada é condenada
à morte pelo tribunal de Arak decidindo
lapidá-la )
há um barco negro no teu corpo
neste mundo sombrio que escurece os dias
o vento leva-me contigo para longe
ouço a tua voz encostada aos meus ouvidos
é uma lâmina de febre uma sombra que cresce
pela baínha dos meus vestidos
não me conheces todavia estás tão perto
dás a volta ao mundo num presépio
com inúmeros espinhos uma ligadura infinita
uma extensa carta feita de pó do deserto
mais além o coração com golpes os destroços
os teus pequenos braços soterrados no vazio
por um punhado de moedas que te vendiam
tanto desgosto tanta solidão Leyla
és tu que estás no centro do presépio
este natal
tu nós e o teu filho
maria azenha
2004,dezembro,23,lisboa
ERA UMA VEZ UM CÃO DE NOME NÃO
era uma vez um cão que não existia
e por não existir chamava-se Não. Sim
que era o contrário dele no nome e no sexo
era uma espécie de branca de neve
que procurava o seu príncipe encantado
então um dia o seu eu superior
ofereceu-se para lhe mostrar
o que havia de fazer para o encontrar
disse-lhe: andarás sete vezes à volta
de uma árvore e farás chichi nela
a seguir repetirás: “quero encontrar-me contigo
estejas onde não estiveres”
levarás então um anel de brilhantes comigo
para lhe oferecer
e quando disseres I love you
I love you
ele responderá para o Bem e para o Mal: Não
porque esse é o seu nome verdadeiro
a branca de neve ficara muito feliz
e ainda inspirada pelo tal eu superior
fazendo pela oitava vez chichi
na árvore da vida disse voltando-se para o céu:
este é mesmo um encontro perfeito
um verdadeiro ritual
então o príncipe encantado
que se chamava Não
e que estava mesmo encantado
não disse sim e não pôde dizer não
voltou tudo ao princípio
a branca de neve traçou novamente uma circunferência
completa mas agora com o centro
no espírito santo virtual
foi assim que não nasceram
os seis cachorrinhos do costume
a branca de neve foi julgada em tribunal
por ter abortado
por se ter apaixonado e por ter dito Sim
mas era o seu nome
aqui em portugal
se tivesse nascido em espanha
hoje o seu príncipe encantado
que se chamava Não passaria
se calhar a chamar-se Azenerres
existiria para sempre na eternidade
ficaria a legislar sobre o aborto
na união europeia
HÁ PESSOAS SENSÍVEIS QUE NÃO COMEM CHERNE
(e a minha cabeça pende ligeiramente para o lado )
há pessoas sensíveis que não comem cherne
há chernes sensíveis que comem pessoas
um destes dias um cherne
comeu o antigo primeiro ministro
por causa das dívidas lá se foram as dúvidas
como diria o cesariny agora adaptado
peixes que nos guiam parecem reais
fiquei a saber que é este o nome
que lhe dão na intimidade
e também pelo segredo
que já não é segredo
que se deixam vender
esquerda direita
direita esquerda
direita direita
volver
por acaso o meu gato não gosta de cherne
nem de estradas
nem do demónio
coisas de gatos
que não lambem o pêlo a ninguém
ora ora se deus não tem unidade
como a terá o meu gato?
tudo isto tem a ver afinal
com um peixe que nadou tanto
que chegou a cherne
em portugal
cabul é um sítio triste
triste
triste
como um círio de prata
uma toalha preta
um lenço
branco
em
flor
meu coração
minha
língua
de
fogo
neve
ne-
ve
neve
e
bolor
Creio em Deus
na sua Imensidade Re- Velada
na sua Obra desconhecida
creio pela Ordem e pelo movimento do Ser
que todo o Bem é Beleza
e toda a Beleza é Bem
Creio que toda a Sabedoria e Verdade
são frutos da Árvore do alfa e do ómega.
Ó Senhor-Rei!
teu Nome incomensurável
que
não se pronuncia
Yod
He
Waw
He
Senhor de toda a Casa,
Yod
He
Waw
He
e de toda a Arquitectura,
Yod
He
Waw
He
minha alma é escada
minha alma é neve
na
partitura do Ámen.
Ó grande Mago!,
Perfeita inteligência
Supremo arcano,
Artista-Sábio
da Mater-Filosofia!,
Tu que trazes o Livro da Natureza
na página invisível do Infinito,
Teu nome é Rei,
Teu Nome é pão,
Hierofante- pétala do Movimento!.
Grande Iniciador e Iniciado
na substãncia do Mundo!
Pela Vontade suprema
Sabes
Queres
Ousas
e
Calas.
Teu Nome Inúmero
é
Rio do Absoluto!
Revela-nos a Grande Jerusalém!,
ó Santo,
ó In-Re-Velado,
ó Ideal supremo da Humanidade!
Revela-nos em todo o lado,
em Portugal
também,
Cálice do Rei,
a
Arte do Meio,
a
Arte Real !
SOBRE A MORTE
guardo a minha vida em livros de poemas
poemas que vou soletrando devagar
escritos em toalhas de sangue
indefesos às chuvas matinais,
é nos livros que vou negando
o vazio das grandes ausências,
sobre a morte nada direi.
é inverno frio. estou à porta.
o meu destino é este o preço
é escrever. porque eu meço
os mistérios da morte e do mundo.
guardo a minha parca bagagem
sem poderes a minha caligrafia
de medos e de campas dentro
do sangue dos pomares
e o teu nome que escrevo
contra o tédio dos livros, mãe.
sobre o meu corpo cresce uma rosa
(maria azenha)
1/2/2002
OVO NUCLEAR
este reencontro com o Silêncio
na procura de mim mesma
esta busca de Paz em cada ave
em cada movimento
como uma janela entreaberta
este centro que
evolui com a paisagem
esta Viagem ao país do meu rosto
a minha janela fotográfica
este cigarro que acendo
e
que procura
o
Ovo
PRESENÇA TOTAL
Minha mão é o mar em movimento.
O puro movimento
Sem mar sem mão
Adere ao infinito como adere ao oiro
Ao hálito do sopro
Ao côncavo da respiração
Neste instante,
Suponho,
Há um deus que escreve na glande da minha mão.
DESEJO DE INFINITO
e era uma vez um homem:
o peito muito aberto um grito
o desejo de Infinito
que para dizer tudo
ainda jovem
andou de um lado para outro
num rio negro e áspero de amargura
e como um grande mago rumo aos altos montes
escalou o Evereste
num grande passo cirúrgico
deitou no chão o quadro
atirou-o violentamente contra a Terra
abriu-lhe o ventre aos gritos
e como um grande louco
fechado em lucidez aos berros
pôde enfim serenamente
pintar
de
madrugada
a côr
do Infinito
COROAÇÃO
não sei como os poemas se fazem
nem os nomes das pedras nem dos ventos
nem como se transformam os amantes
dentro dos corais
sei que o teu sono breve e permanente
se fragmentou no tempo
como um luminoso rei
entregou-te a Morte os símbolos
que atordoam: o ceptro e a coroa
deles não te falarei
eu estava morta e não sabia
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MORTE - I
(AO SOLDADO MORTO)
o soldado morto
mais morto ao fim da tarde
ali no meio da praça
ali exposto
ali em estátua
ali colado ao vento
no seu posto
de espingarda ao ombro
desprende-se do seu rosto
uma lágrima de chuva
e
neve
morto.
absolutamente morto.
totalmente ausente.
ao longe uma ave leve
(maria azenha)
1/2/2002
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MORTE II
escrevo agora
escrevo agora
escrevo sempre para ti
porque amanhã
a neve
é o nosso novo nome
e permanente
endereço
(maria azenha)
1/2/2002
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MORTE III
nenhum país de lume
nenhum país de neve
nenhuma serra ali
a tua ausência é tão funda
que
não regressa a ti
(maria azenha)
1/2/2002
A DOIDA
Vai sozinha sentar-se frente ao mar
O seu corpo é uma Tarde, o pensá-la triste,
Sentidos de Sol-posto onde Deus está a chorar...
Sua mãe uma nau velha que já não existe
Endoideceu... Vejo-a passar... Parada, a passear...
Ao colo traz a filha que nunca adormeceu
Porque sumiu...e ela cheia de medos
Escondendo os dedos no luar
Deixou cair a filha ao mar...
Ninguém responde... Ninguém a viu...
Das fontes do jardim fugiu...
Cheia de sentidos pôs-se a chorar... Enlouqueceu...
Vê, com os seus modos, gestos de mendigos
Que mendigam um Palácio Confidente
Os beijos de uma rainha sempre Ausente...
E beija as mãos das árvores que cairam ao lago
Com modos antigos de Ser... Os seus gritos
São Cavaleiros com anéis nos dedos...
E na Ausência das velas na Distância
A Loucura é o seu pensar...Num tear de Eus...
É onde à Noite se ajoelha para partir espelhos...
São seus versos malignos a quebrar vidros...
Um Silêncio penitente, a olhá-los Deus
O seu modo de se ver em mim ao Espelho...
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ESTE POEMA COMEÇA COM O SILÊNCIO
este poema começa com o Silêncio
podia também começar com uma luva branca
dobrada sobre uma cama azul a esta hora
em que uma criança acaba de nascer
e a loucura é o seu nome múltiplo
o seu espelho inúmero
pétala a pétala a luz beijar-lhe-á os olhos
subirá pelas mãos no espaço de um segundo
enquanto do Silêncio restará apenas
uma pedra azul uma pedra enorme
do deserto
no centro dos seus olhos
choverá no entanto no oceano a esta hora
em que cairão lágrimas como peixes azuis
no fundo da Terra o seu nome empurra-as
para diante dançam aquaticamente
contra o grande uivo certos gritos certos gritos
são como recortes cintilantes dum jornal
que atravessam as trevas do papel
uma coroa de espinhos à volta das letras
com a sua loucura azul
esta criança passa para diante do futuro
distribuindo alimentos às portas do mundo
e os grandes nunca a receberão
apenas pelo nome que transporta
como uma lâmpada gigante
saberão que o seu nome é loucura
e tu e tu e tu também
se ainda podes ouvir o nome dela
na distância de ti no meio do turbilhão
levanta-a no centro da tua cabeça
leva-a a todas as partes da Terra
pois os grandes e os poderosos escondê-la-ão
que passam a vida cantando o vil metal
com letras imundas num pedestal
fomos nós que a gerámos ao pé de cada árvore
que ainda resta com a lua e o sol
como pode haver pecado na criação
todos nós os puros e os impuros
este poema que começou com o Silêncio
começa agora aqui se ainda podes ouvir
com os sons dos búzios da tua infância
tu e eu eu e tu
arrastamo-la para sempre
para o centro do mundo
de coração
a
coração
impossível saber-se até onde chegará este canto
mas eu contei-lhes esta história
que é uma história de um homem e de um peixe
porque há pessoas sensíveis
que não comem cherne
e chernes especiais dispostos a andar velozmente para trás
e o cherne que lhes contei
tem na boca um f e uma mosca verde
(maria azenha)
jazz cósmico
MARIA AZENHA
O Primeiro Poema
No princípio era o Som
E o Som formava todas as coisas
Todas as coisas mesmo antes de existirem
Não havia espaço nem tempo
Nem Sol nem anjos
Tudo era Noite
Permanecia o Um
E a palavra Amor era Som
E a luz era Som
E o Som era a única palavra que existia
E com ele Rá já se movia
Desceu então por ela mesma
Fez-se Dia o Poema
O sétimo dia
Quando tudo era Noite
Quando a Realidade era Som
Habitava o sonho o mistério
Para lá da Unidade cantante
E já o cosmos reverberava
Numa saudade sonora
E o cosmos criou-se cantando
E a dança celeste tomou os orbes
E o sétimo dia se formou
Eis o Oitavo dia
(E no sétimo dia Deus descansou
mas o Canto continua)
As palavras cantam
As palavras antes e depois de existirem
cantam
O meu sonho é a sombra de um átomo que canta
As árvores e os seres sob a forma de yang
apelam para a dialéctica celeste
Eis que yang e yin se desdobram
no espelho do Universo
e criam no triângulo cantante
a forma eterna
de
Deus
Eis o Oitavo dia
Eu sou senão Tu senão não sou
( Mas sua existência está fundada numa realidade, a substância-raiz de Binah, distinta e separada do aspecto consciência de Chocmah.)
Sou o Amor que canta
desde a 1ª revolução celeste
O Pai - Anjo é o meu som Yang
que apela pela Mãe - Yin
na câmara nupcial
E todas as coisas dançam
mediante
a melodia secreta
de
Chocmah e Binah
dois coros dois anjos
dois tronos
mediante o Um Real.
É isso o que cada um é.
E cada um é senão este diálogo
porque todo o ser é Som
e o Silêncio
também é Som
que nos vem deste Jazz cósmico
Na Câmara Verbal do Um
Cada poema é uma onda sonora
que se acende no Cosmos
O poema é diálogo digo
as suas ondas percorrem a música calada
da Saudade sonora
E o firmamento segreda
a cada instante
esse diálogo celeste
Dialéctica
Sou senão Tu ou não sou nada
Com o eu sou Tu na câmara verbal
do
Um
EM ABRIL DILACERADO
em abril dilacerado
era uma vez uma voz
que habitava uma casa
e dentro desta casa
habitava uma menina sem voz
e dentro da menina
uma cidade sem janelas
e dentro da cidade
uma guitarra enorme
era um país sem asas
um país sem norte
um país sem casas
um país sem voz
e tudo o que nos mata
a palavra cobre
e tudo o que nos move
a palavra ata
e todos os jardins
foram arrancados
por causa da memória
deste país tão pobre
era um país sem asas
um país sem norte
um país sem casas
um país sem voz
e as lágrimas da menina
engoliram a cidade
em abril dilacerado
com arames em volta
maria azenha
2003, março, 13, lisboa
IN MEMORIAM
(porque voaste dum 7º andar com o luar nas costas?)
sei que alguns meses nos separam
as pedras lá em baixo cantam
as árvores crescem com raízes nos ouvidos
não vieste nos jornais,
discreta como sempre ,
ó menina dos olhos pretos,
a tua ânsia de rigor e perfeição
era uma borboleta branca de asas ao Sol
uma chama caiu e incendiou a terra
andarás por aí ,
continuamente em ângulos rectos?
grito da janela até espantar as estrelas
faço gestos no café até ultrapassar a lua
permaneço sentada até que o telefone toque
... ... ... ... ...
está lá? está lá?
serás tu?
ó senhora da meia- noite
do telefone-verde!
agora com outra voz
com outro disfarce
serás mesmo tu?
ou é um novo modo de chamar por nós?
está lá? está lá?
boa noite.
Boa noite?
....................................................
Só o Amor ressuscita os mortos.
AS FLORES DO MAL
Maria Azenha
pelas montanhas oblíquas
desenham as mulheres
o rosto com os dedos
rostos sempre tapados
para o terror dos vivos
não sei se elas se mostram
o que ao mundo querem dizer
freiras absurdas do vento e do medo
murmuram: “irmão, não deves rir”
não sei se elas se mostram
não sei se elas vão ser
não sei se elas agora choram
se cantam um burburinho forte
ou se são fadas com gemidos
sempre sempre sempre a dormir
não sei se elas são estátuas
não sei se são de vidro
se podem cantando chorar
pelos filhos e pelo marido
que grito hão-de dizer?
que grito hão-de soltar
se no exílio têm ficado
cansadas de morrer?
e o vento sopra
há poeira no deserto
sobre as montanhas oblíquas
afinal quem muito sofre
é quem nunca diz sofrer
de que serve tudo isto
de que serve isto tudo
com este véu sinistro?
quem foi que as viu nascer?
pássaros mortos.
um dia apodrecem.
e alá expõe a sua terrível máscara
repleta de sangue e horror
HYNO A MAAT
(para ser dito em voz alta com vogais abertas e aspiradas)
Num ponto de Ra
Maat Hotep
Eu te saúdo
Amen Hotep
Nas três pétalas da Rosa Eterna
Em torno de Ankh!
Ahum Rah Maaah Ahum Rah
Ahum Ra Ahum Ra
Maat Hotep
Teu ser alado
anela
em torno de Ra,
Infinito Bem
projectado
pelo coração-chave de Ankh!
Maat Hotep
Maat Hotep
Teu Fogo
anela
em todos os Planos
vivificantes,
pela espiral
de
Rah!
Maat Hotep
Maat Hotep
Oh Serpente,
Oh Chave que abre a Eternidade!,
Tuas raízes
na Terra
dançam pela coluna de Ankh
para
o
Ponto
Central
Diamante!
Maat Hotep
Maat Hotep
Teus véus são lançados
para quem
é impuro para Ra
Maat Hotep
Maat Hotep
Men Kheper Ra
Men Kheper
Ra
Amen
Amen
A
MINHA ETERNA AMANTE
agora estou cercada de papéis
vários óleos pendurados na parede
alguns dos quais fui eu quem os pintei
fecho e abro as asas quando escrevo
aguardo que as palavras se tornem
em mais de mil sons
digo abertamente o nada
no tic-tac das palavras
até que tudo se revele
até que tudo se resolva
em vários comprimidos para a morte
como um seio que jorra leite à flor da pele
lá anotarei onde fica a mágoa
as ruas mágicas do sangue
que venho do sonho dos espelhos
das imagens da grande transfusão
do sono a minha sede de oceano
eis-me fotografando o sal
das ondas e das lágrimas
como o infinito
viajo com marlilyn monroe
a minha eterna amante
TEATRO DA MORTE
é com o Outono que se despem as árvores
e a Terra vai tomando outro corpo
enquanto não chega o Inverno
o teu amor esconde-se nas pedras
ou antes colho no jardim uma flor
que enterro no solitário do quarto
é assim que o amor se esconde
não me desculpo
de quando em quando respondo-te
com palavras deixadas ao descuido
hoje passeei toda a noite pela casa
com a precaução de não te acordar
estive nos bastidores do mundo
com os actores e o público
aterrorizei-me
eu estava contigo em moscovo
vi-te no apocalipse deste livro
estendido entre fantasmas
atravessando os espaços com máscaras
único repartido pelos átomos
em diferentes estados
na matéria eu e tu e outra vez tu
e os outros e os outros
todos no mesmo teatro do sono
que farei com os teus braços
assim deitado entre poltronas
morto todo morto imaculado
como um poeta no seu último verso
e eu sem poder falar para toda a Terra
digo-te estou desiludida
desiludiram-me os actores
por via satélite entrou no nosso quarto
o enorme teatro de moscovo
sirenes buzinas o sangue corria
é assim que vai o mundo
com as novas experiências do sono
só agora falo com o plural de nós
a tua morte a minha e a de centenas
desiludiram-me todos
sempre me disseste o contrário
que os relógios nunca existiram
e que a Terra era um campo verde de paz
quando me abraçavas colocavas-me
uma coroa de rosas à volta dos olhos
e o teu amor infinito espetava-me as pálpebras
e eu via pássaros agora o sei
que farei?
privada de ti e de mim até ao absoluto
o caminho é um limite insuportável
porque morri? porque morreste?
porque morreram todos?
Putin engoliu o nosso amor por via satélite
sento-me de frente e de lado
e as ruas são longos corredores do sono
só a flor no solitário permanece
assim deitado entre as pedras amor
tornaste-te invisível
como pois falarei para toda a Terra
sobre a poeira que te cobre agora o rosto
deixo-te o meu cartão permanente de visita
eis-me
25 outubro 2002
(maria azenha)
ABRIL ,
sempre me disseste
que os relógios nunca existiram
e que a Terra era um campo verde de paz
o teu amor então abria-me os olhos
e eu via pássaros e árvores no infinito
com as flores azuis da Liberdade
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ATÉ AO MEIO DO DESERTO ESCREVO ATÉ
até ao meio do deserto escrevo até
de parménides a horácio de horácio até aqui
para chegar ao templo dos desastres e poeiras
em suas cidades de comércios actuais
e seus oráculos antigos em delfos
e dizer o amontoado monte dos sinais
onde os bárbaros crescem nas estradas
com suas máquinas de selva
programadas
e aqui chegam aqui chegam
fiéis à mala de bruxelas
ou à antiga c.e.e.
procura-se urgentemente em portugal
a flor da liberdade
ou
um pássaro de abril
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maria azenha
2003,março,13,lisboa
vejo-te agora no apocalipse deste livro
neste poema de uma página
todo este teatro maldito
sirenes buzinas iorque
jardins mandados arrancar
aos ombros da europa
por este abril dentro
com palavras ainda por cantar
agora privada de ti o caminho
é um limite insuportável
e as ruas são cidades destruídas
atravessamos a noite descalços numa cela
onde os sinais dos tempos nos apunhalam
e chegam poetas e homens de mãos-dadas
que choram ombro a ombro
maria azenha
2003, março, 13, lisboa
CHORO CHORO CHORO
sou mulher e anti-mulher
deus quer
o homem sonha com uma colher na boca
o amor é uma metáfora
sem colher e anti-colher
deus não quer
há fome
estou atada de mãos e pés
sem anti-mundo
anti-mulher
anti-colher
não há deus
choro
choro
choro
o meu cão morreu
CANTO PARA TODOS OS HOMENS
Canto uma canção.
Canto a canção do homem livre.
Canto os seus sonhos e pesadelos.
Canto o irmão branco
e o irmão negro.
Canto o Oceano e o longo
poema do mar.
Canto e fortaleço-me no azul.
Canto ouvindo cantar.
Esta é a canção do homem livre.
E ninguém ousa calar-me.
Quantos mais quererão cantar comigo?
Quantos mais?
Mandai-me todos esses homens e mulheres
Que não têm abrigo,
e eu os cantarei.
Aqui nos portões do meu coração ferido
tenho muitas canções para os abrigar.
Ouçam,
eu só vim para cantar.
Outros que se ocupem de outras coisas.
Há muito trabalho em todos os lugares...
Não somos porventura mais que meia dúzia?
O meu nome dizem os rapazes
das montanhas
alcança a outra margem.
Vou a casa dos mendigos.
Eu sempre os cantarei.
Já disse.
Eu vim para cantar.
Outra coisa não sei fazer.
Cada som que sai de uma canção minha
vai a muitas milhas em redor.
Vai a todos os pontos cardeais.
Vai a casa dos poderosos,
e a casa dos humildes.
Entra pela janela dos humilhados,
canta pelos oprimidos.
Canta sempre em dó maior.
Já disse.
Eu só vim para cantar.
Outra coisa não sei fazer.
E cada um habitará a canção a seu modo.
Mas por nada deste mundo
peço perdão pelo que já fiz.
Eu canto para todos os homens
uma canção livre.
OVO NUCLEAR
este reencontro com o Silêncio
na procura de mim mesma
esta busca de Paz em cada ave
em cada movimento
como uma janela entreaberta
este centro que
evolui com a paisagem
esta Viagem ao país do meu rosto
a minha janela fotográfica
este cigarro que acendo
e
que procura
o
Ovo
PRESENÇA TOTAL
Minha mão é o mar em movimento.
O puro movimento
Sem mar sem mão
Adere ao infinito como adere ao oiro
Ao hálito do sopro
Ao côncavo da respiração
Neste instante,
Suponho,
Há um deus que escreve na glande da minha mão.
MAMÃ! MAMÃ FEDERAL!
mamã:
o meu corpo caiu na pia baptismal. Foi um percalço.
recebi a tua bênção com os óleos santos
em algodão de rama.
Mas que faço agora eu neste bordel das lágrimas,
com tantas orlas com tantos véus,
a fabricar poemas nas morgues do Céu?
Que faço agora eu artesã do sangue
com a minha mão profana que ficou grávida?
E a minha mão direita é ainda uma têmpora
num país distante com lágrimas de sal
mamã!:
envia um telegrama a todos os jornais, anuncia
com o meu coração em febre,
com todos os meus punhos cerrados como que a rezar,
que eu fumo cambodja, liamba,
hiroxima, armas nucleares,
que rendilho a ferros todos os meus cárceres
com as palavras brancas do medo
que saltam dos meus olhos.
Eu roubei a todos os arcanjos as palavras do ódio!
eu fumo cachimbos, goelas de bairros, narcóticos, drugstores democráticos; mato vinte e sete pessoas por cada prato faço massacres na américa central cravo balas nos vestidos amarelos das crianças estrangulo o tempo com o sexo dos eléctricos ilumino as fezes com feiuras sacro-santas faço ícones com toda esta tristeza humana.
mamã,
eu rasgo «cânceres» de papel, trabalho as sombras
com as lágrimas de plástico,
mexo na história com cadáveres brancos
estendo os meus braços em tecnicolor
como numa tela circular humana.
mamã,
eu encolho os ombros, espirro,
bebo cafés evangélicos, grito com os filhos.
mamã, vivemos juntos!, isto é o meu mau génio.
ah, mas o Vaticano,
esse grande gangster de robe,
que anuncia
a paz para os domingos, essa pia
baptismal onde eu também caí com fome
foi um percalço.
e o pavimento lustral da carniçada humana
pisando o sangue , os incensos
da guerra,
onde não cabe agora aí o trigo!
mamã,
e os uniformes azuis a dizer
tão bem com as velas,
e os pássaros
e as indochinas
e os vitrais da esperança com tanta luz.
a difundir as trevas com vapores de chumbo.
e os trigais maduros a vencer
o chão, a curvar a terra
aos anéis do mundo; e as lutas armadas
e as recitações de tréguas
e as missas solenes lidas à breviário,
cantadas por gorilas
com sapatos d'anjos.
e a guarda civil e as patrulhas
e os ofícios e as escolas
e as embaixadas anfíbias nas tuas nádegas
onde fica agora aí toda a tua força política.
e os tribunais de togas a julgar
os crimes a barricar as fomes
esquecendo as dívidas.
mamã,
onde fica o grande rio das palavras onde fica guatemala
onde fica a noite dos tam- tans onde fica a esperança
com os olhos de napalm?!
onde fica a vida mamã-sacrária?
mamã! mamã federal,
esta manhã eu mijei todas as rimas
todos os versos brancos,
nessa pia baptismal!
A TUA BOCA SOBRE MARTE
mãe — é dezembro
se morreste, porque fazes
tanta força contra os números?
porque fazes tanta força
na matéria?
as máquinas levaram tudo
— a tabuada a lua.
a febre dos satélites entrou pela casa dentro. Ouves?
sentes?... todos os frutos
ao contrário na tabua
da da neve.
e a tua boca sobre
marte. e eu sonhando.
sonhando o alfabeto como uma 'máquina lírica'.
sei agora ao contrário
como se chama o inverno. e as árvores
todas destelhadas pelos ventos
de mercúrio. Ë o teu nome dentro
com toda a força na paisagem:
as páginas as
casas
os peixes encarnados avançando
pelos números.
e a chuva toda lá fora ardendo,
pesada,
sobre a terra inteira como estátuas puras.
como se chama, mãe, a neve agora?
agora, mãe,
é janeiro
todo o tempo fora:
— as máquinas levaram tudo,
a tabuada a lua.
DESEJO DE INFINITO
e era uma vez um homem:
o peito muito aberto um grito
o desejo de Infinito
que para dizer tudo
ainda jovem
andou de um lado para outro
num rio negro e áspero de amargura
e como um grande mago rumo aos altos montes
escalou o Evereste
num grande passo cirúrgico
deitou no chão o quadro
atirou-o violentamente contra a Terra
abriu-lhe o ventre aos gritos
e como um grande louco
fechado em lucidez aos berros
pôde enfim serenamente
pintar
de
madrugada
a côr
do Infinito
ESTE É UM TEMPO DE TERROR
este é um tempo de terror
um tempo de máscaras
um tempo de Príncipes sem coroa
os navios partiram
nunca mais regressaram
hoje
ao som de guerras
os homens
esfomeados
comem no deserto ervas
de que valeram
todas estas gerações angélicas
para a construção da Alma?
vivemos sem dúvida
um tempo de horror
um tempo de máscaras
um tempo de bolor
A Terra,
um lugar desformatado,
feio
esférico
sem pessoas,
nem jardins para o Amor
CÁ ESTÁ ELA ESTA MINHA VIDA TERRENA
cá está ela esta minha vida terrena
mais do que terrena uma vida
de pés atados não exactamente
nos pés mas na cabeça
o meu amor não tem correspondência
nem para a linha verde nem
para a amarela.
é um peixe que me vem ter às mãos
que entra pela janela do meu coração.
por isso por vezes deito em casa as cartas
de tarô para espreitar por elas
as minhas lágrimas
sei que é um contra-senso
porque quem tem lágrimas
não pode ler tarô e quem
lê o tarô não tem lágrimas
(tem dinheiro nos bolsos
e a maior boa vontade do mundo)
são pois duas coisas impossíveis
além disso o meu futuro
ainda não chegou e o meu passado
já tem agrafos e tudo
hoje por exemplo vou à dona telma
para que ela me leia os peixes
do meu futuro não sei
se isto fará muito sentido
mas é com certeza um argumento
de peso pois contraria o inverno
e a água que corre pelo nilo.
os peixes do meu futuro
não podem ser todas as cartas de tarô
nem todas as minhas lágrimas.
se assim fosse haveria médicos - pescadores
escondidos debaixo das mesas
e uma grande bacia de água
para amparar toda a dor humana.
assim vou à dona telma de metro
pela linha amarela para depois
passar o resto da minha vida
a escrever livros de poemas
com os primeiros versos do mundo
mas eu só queria
que a minha vida terrena
fosse a minha vida
terrena
O QUE TÊM TODOS OS POEMAS EM COMUM
o que têm todos os poemas em comum?
a roupa
a humidade
a pele escura talvez,
um dedo eternamente apontado
para a liberdade
e todos os versos
in-
cli-
na-
dos
para a sua Alma azul
o rosto do deserto
o meu rosto procura o deserto
onde a nudez é cálida
uma forma solar de silêncio
que avança
para
o
centro
para o núcleo da página.
procura não em vão
a música
em que é preciso transformar-me
uma música ardente
no interior da lágrima
um diamante d'água
de que música vieste
de que dunas de que águas
de que pórtico vieste
de que momento
de que núpcias do vento?
de que astro amor
de que imagem saíste
de que rasura de tempo?
tua voz azul
cântico dum barco
sombra imaginada
é em minhas mãos planície incendiada
vens do futuro porque inventas.
teu rosto de perfil iluminado
ilumina de repente
plena claridade
traz o poema
maria azenha
2004,novembro,28,lisboa
de espelho em espelho
estou sentada à beira do deserto escrevo
a imagem reflectida de um sonho. antiga-
mente cada espelho era um vestido
de onde eu saía dele sobrevivente
uma pedra cantante no tempo
um abismo
como se saltasse da minha boca
uma pedra correndo de um lado
para o outro queimando
de espelho em espelho como se
escrevesse de um outro mundo o-
fício de um grito ou de um corpo
ouço o grito vermelho da solidão
perfeita terrorismo dentro dos
espelhos sou essa pedra no centro
enlouquecendo de infinito
uma criança
vou mudando de rosto
cada vez é maior o meu grito
caminho pelo poema na escuridão
da noite uma vida que eu inventei
víbora de meu peito. ouço
estou sempre a chegar a palavra
faz parte das águas espera-me um barco
é certo que o meu destino está
entre os espelhos sou uma pedra
sentada à beira de um outono
rochoso uma pedra escrita
com o teu nome branco ferida
na boca
do outro lado estou sempre a morrer
caem-me os dedos e as folhas da voz
durante a argila da noite
trago contudo alguns poemas
de sangue para enterrar
no escuro
há desses poemas que vivem
no fundo não têm paz nem
guerra em rigor o nosso amor
é um espelho de lepra
nem mapas nem paisagens
dizem mataram-nos
maria azenha
2004, novembro,22, lisboa
inefável voz dentro de Coimbra
quando nasci minha mãe
deu-me uma estrela.
uma estrela que ainda hoje brilha.
um imensíssimo azul. ilumina tudo.
está viva
até ao fim do mundo.
maria azenha
2004,novembro, 20, lisboa
poema sem palavras
não tenho palavras
estou tão perto do silêncio
aqui
não há voz falada
nem palavra onde
me sente
sou um segredo vivo
ao espelho
escrito muito antes de o escrever
uma pequena luz semeada ao vento
para enviar sinais para o outro
mundo
nada mais
tão natural é eu ter adormecido
olha
as estrelas acenderam-se
e eu respondo talvez
2004,nov.,7,lisboa
poema íngreme
as tuas palavras são um livro cintilante
o mistério atravessa-as com as suas macieiras d'água
o mar vem ao meu encontro
inalterável experiência o teu corpo
ausente invade o luxuoso campo das páginas
a tua boca de outubro de luz
inclinada às hastes das casas
sopra no clamor da noite
como uma estrela assombrada
lenta lenta
em sua pura adolescência
e fogo
por isso escrevo os silenciosos pássaros do nada
os registos que Deus não encontrou
as suas portas subterrâneas as ondas quebradas
nas árvores os espelhos do vento
os poentes
os pomares em chamas
enquanto uma pequena pedra espera
a minha última palavra
redonda
digo-te está longe o dia
em que Ele se tornará criador
brota do meu peito um candelabro
as lágrimas que nos trazem carecem
de uma gigantesca toalha
deve ser noite
2004, outubro, 31, lisboa
a morte está escrita nas paredes
a morte são as águas das ruas
está escrita nas paredes das escolas
e os rapazes com brincos nas orelhas e
chicotes de fumo nas carteiras
incendeiam lençóis brancos no quadro
as flores à semelhança das gaivotas
de lábios pintados com palavras de vidro
escrevem poemas de absinto
nas campas
em rigor uma gaivota desenhou uma caveira
o inverno prestes a chegar
com os seus frigoríficos de fogo
abriu as portas à eternidade
com toda a crueldade
a música
já sabemos
dá para o pátio escuro da memória
mas disto só o poeta sabe
2004,novembro,2,lisboa
o poema mais difícil de escrever
dedicado a Pablo Neruda
não sei como os poemas se fazem
nem como se transformam os amantes
dentro dos corais sei que os náufragos
escrevem palavras de náufragos
em papéis de náufragos em todas
as línguas como tu
trago comigo uma insuportável beleza
e a solidão de todas as palavras que só
os náufragos conhecem
foram escritas muito antes do mundo
com as pegadas da minha insónia
e as coisas em mim ocultas.
tive de as suportar antes do êxtase da escrita
por isso só a ti as revelo
este o poema mais difícil foi escrito
com as palavras desesperadas do sangue
e as mãos coroadas de ar
isso me cale
me reconheça no crepúsculo
entre a agulha do tempo
e a noite
azul
2004,outubro,13, lisboa
não me vejo mais a mim
Pudesse eu reter-te dentro de mim
como um templo entre colunas
assente agora no rumor das ruas
o teu silêncio secular
e habitar em jardins suspensos e antigos
e esta praia nua
e falar de ti como falo com o vento
buscando nele a sua face pura
pudesse eu com o meu passar
espalhar todo o teu perfume
onde só haja azul incenso e nuvens
na pureza desmedida de um só dia
e ser por todos entendida
sob o íman da lua
mas em vão falo comigo neste lugar
tão débil e tão frágil como eu
nem o mundo nem ninguém será capaz
de reter a luz que se perdeu
nem o canto da cidade já perdura
olhando para ti com tanta perfeição
os teus olhos tristes e nostálgicos
não me vejo mais a mim
vejo Buda
(1 de setembro de 2004)
pintei este quadro
para me ver melhor
e agora a minha alma
vê-se tão bem
como a minha face
e a minha solidão
num campo de nomes
aquáticos
2004, agosto, 13
há lugares onde chegam vogais de água
lugares novos espantados que assomam à memória
por redes vertiginosas
as suas entoações concentram-se em palavras fabulosas
palavras luminosas sur-
preendidas pelos castiçais dos ii
um projecto de água: digo:
transportar o sonho de um lado para outro
abrir com toda a força um buraco nos espelhos
(Na foto, Reis e ao fundo Pedro Calmon)
Arthur Cézar Ferreira Reis
A PRESSÃO DOS INTERESSES UNIVERSAIS
Arthur Cézar Ferreira Reis
Há perigos rondando realmente a Amazônia? Depois do que aqui já foi registrado, poderá alguém duvidar do que pretendemos ter provado? No tocante ao passado, essas dúvidas não devem existir. No que diz respeito à atualidade, os perigos antevistos, propostos, terão algum fundamento?
A industrialização do mundo, marcando, evidentemente, a etapa econômica de nossos dias, está ligada, como é óbvio, ao da produção de matérias-primas. No passado foi fácil às nações que dispunham do primado industrial obter matéria-prima, através da política colonialista que executaram na África e na Ásia, através de acordos de comércio ou ainda por meio da aplicação de seus capitais na própria América tropical. A história do século XIX e das primeiras décadas do século XX é, realmente, uma história que se distingue justamente pela ação daquelas potências na divisão dos espaços onde colheram ou onde compraram aqueles recursos, essenciais à movimentação de seus parques fabris.
Essas matérias-primas vegetais, todavia, estão sendo substituídas pelo que a técnica, em seu desenvolvimento vertiginoso, vai alcançando. Os sintéticos, obtidos nos grandes laboratórios de pesquisa e de produção intensiva, se ainda não são suficientes para satisfazer o apetite da indústria, já vão alimentando em muito as necessidades dos grandes centros manufatureiros, permitindo a impressão de que está encerrado o ciclo dos mercados produtores de matéria-prima vegetal ou animal - extraídas ou colhidas em estado de natureza. E com eles, assegurando-se maiores venturas aos povos que até então viviam subordinados à extração de recursos da terra, seja os recursos minerais, seja os recursos florestais e, nessa condição de inferioridade, sujeitos a soberanias que não eram legitimamente aquelas que melhor lhes falavam ao coração porque estranhas às respectivas etnias, estranhas às suas tradições nacionais, estranhas ao seu passado religioso, político e cultural. Às técnicas, com os sucedâneos, conseqüentemente, poder-se-ia atribuir, de certo modo, o êxito que os programas nacionalistas dos povos colonizados estão alcançando.
As teses, pergunta-se, estão certas? Os sintéticos estarão realmente pondo fim ao ciclo das matérias-primas naturais? Os impérios coloniais terão atingido o seu encerramento como realidade política e econômica como decorrência natural desse novo estado de coisas no campo da produção?
O problema da produção de matérias-primas ainda não atingiu a fase final. Sua solução ainda não foi coberta pela produção dos sintéticos. Quando certos cientistas ou amadores de cientistas pretendem que os sintéticos levaram â sepultura a matéria-prima natural, evidentemente estão afirmando uma inverdade ou se colocaram ao serviço de iniciativas suspeitas.
Se quiserem a palavra final, de contestação, é só consultar as estatísticas que se publicam anualmente pelos órgãos internacionais. Nesses dados temos o esclarecimento definitivo - a produção de matérias-primas, como resultante do saque à natureza ou efeito do investimento de capitais e de técnicas mais amadurecidas, mais adiantadas, mais eficientes, nas regiões tropicais, continua a processar-se em ritmo que não diminui, antes se avoluma, cresce, aumenta sensivelmente. Vamos a um exemplo — afirmou-se que a borracha natural estava condenada ao desaparecimento como atividade econômica, uma vez que nos Estados Unidos, na Europa, o sintético, já previsto em 1865 por um cientista alemão que visitara a Amazônia e se alarmara com o sistema rotineiro, agressivo, destrutivo porque a extração de látex era realizada pelos seringueiros, estava superando quantitativa e qualitativamente aquela, de sorte que, num futuro muito próximo, as gomas naturais, fossem as da floresta amazônica, fossem as das plantações orientais, não teriam mais existência no particular da atividade lucrativa ou mesmo da simples atividade que mobilizasse energias humanas. Ora, o que estamos verificando é que, no Oriente, as plantações continuam a fazer-se, restaurando-se velhas culturas decadentes, reanimando-se vastas áreas tradicionalmente ligadas àquela economia, o que importa concluir, imediatisticamente, que ninguém acredita que o sintético superará aquele gênero comerciável. Os investimentos de capitais continuando a operar-se regularmente significam que esse capital não se arreceia da competição dos sintéticos. As necessidades dos mercados de consumo não acompanham o ritmo da produção industrial. A vingança dos povos que perderam o Oriente e começaram a perder a África não poderá ser um sucesso na base do sintético.
É certo que estamos chegando a um momento em que teremos todos de, numa tomada de consciência universal muito séria, medir as nossas responsabilidades e os perigos a que nos estamos expondo pelo tratamento bárbaro da natureza, pelo nosso comportamento agressivo em face dela, que saqueamos numa desenvoltura desumana e profundamente criminosa. O assalto a que temos dado a nossa contribuição para usufruir bem-estar material imediatista, com ignorância ou desprezo pelo desacerto dessa política tão danosa ao nosso futuro, precisa parar. Deve cessar. Nem por isso, isto é porque temos vandalizado o patrimônio imenso e admirável da natureza em qualquer latitude em que vivemos, mas preferentemente nos mundos tropicais, chegaremos à conclusão perigosa de que a primeira conseqüência seria a de que as matérias-primas, extraídas da natureza, em seu estado de primitividade ou através da ação do homem nas culturas extensivas que faz com o uso e abuso dos adubos, estariam faltando, donde a conveniência da adoção da política de produção dos sintéticos, produção em grande estilo, muito mais cara que a outra, a exigir equipes técnicas de alta qualificação e o emprego de capitais muito maiores que aqueles investidos na produção da matéria-prima natural. Dar-se-ia, então, uma inversão no problema. Porque iríamos entregar novamente a produção aos poderosos de todas as horas, desse modo passando os sintéticos a constituir um perigo à existência livre dos povos menos beneficiados pela técnica e pelos capitais financeiros. Sim, porque só esses países estariam em condições de atuar, governando os mercados de produção e de consumo.
Acontece que as necessidades do mundo não diminuíram. Ao contrário, desenvolvem-se, aumentam. E se desenvolvem principalmente porque também cresce o padrão cultural dos povos e cresce grandemente a população do mundo, portanto as solicitações de mercadorias industrializadas.
Ora, se essas necessidades aumentam, como aumenta a população, é de ver que nem os sintéticos serão suficientes nem farão a concorrência mortífera às matérias-primas naturais, como pressagiam as vozes agourentas dos que se deixam impressionar facilmente pelo êxito invulgar, como obra de técnica avançada do século XX, é certo, daqueles mesmos sintéticos.
Num livro admirável, como grito de alarme, como advertência, como análise de nossa posição em face do que temos ao nosso dispor e utilizamos com tanto desamor ou tão desapiedadamente, La Planête au pillage,(1) Fairfield Osborn passou em revista a destruição da Terra por efeito do superpovoamento e do uso indevido dela, assinalando a tendência que possuíamos para essa obra de destruição das fontes de vida. Examinando o problema no particular do continente africano, Jean Paul Harroy, com larga experiência no trato daquele mundo tropical, detalhou (2) o que vem sendo, a degradação dos solos africanos. Seja pela ação dos próprios nativos, seja pelos europeus colonizadores, aqueles
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1 Paris, 1948.
2 Afrique terre qui meurt, Bruxelas, 1944.
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ignorantes do que estão fazendo e estes indiferentes ao vandalismo a que se entregam, degradação que preocupa hoje os responsáveis pela existência dos impérios coloniais ali ainda existentes mas não logram provocar as soluções que os homens de ciência, em reuniões realizadas, estudos feitos, já aconselharam e têm procurado executar. Operação velhíssima, essa da destruição das fontes de vida, em nenhum momento atendemos às observações dos que existiram em todos os tempos e pediram um pouco de demência para com a terra e seus elementos integrantes. No caso particular da Amazônia, para ficar logo em casa, será suficiente recordar que todo o processo de sua ocupação, a começar do século XVII, vem sendo realizado com a atuação nefasta do homem. (3) Os portugueses de Lisboa expediam ordens e mais ordens visando á defesa da natureza no seu potencial florestal e na sua riqueza animal. A legislação a respeito é abundante. Nunca, todavia, foi cumprida, obedecida. Como posteriormente, sob o Império e sob a República. Exemplifiquemos com os quelônios. Em quanto poderíamos avaliar as tartarugas na região no momento da chegada dos europeus? Nenhuma estimativa foi elaborada. Nenhuma avaliação foi feita. Considerada infindável pelo colono a “apanha” de tartaruga, que não servia apenas de base alimentar, mas igualmente em outros usos domésticos, inclusive o óleo para a fabricação de velas ou de condimento, apesar das instruções vindas do Reino para impedir a agarração e a matança impiedosa, essa agarração e essa matança se operaram, ininterruptamente. Não foi interrompida depois da Independência. (4) Silva Coutinho, que examinou o assunto com a serenidade de um homem de ciência, registrou algarismos impressionantes. Será suficiente este: só no ano de 1719, para as 192.000 libras de manteiga de tartaruga exportada pela Capitania de São José do Rio Negro, hoje Estado do Amazonas, foi necessário exterminar 24 milhões de tartarugas!!!
Na atualidade, a aquisição de uma tartaruga, em Belém ou Manaus, é operação cara, difícil. Porque elas não existem mais, não só naquelas proporções dos tempos coloniais, mas na medida das exigências de mercados normais, pequenos, como são os daquelas duas cidades. Custam fortunas e são escassas, escassíssimas. As garças, abundantes também na região, perseguidas sem cessar para a obtenção de plumas solicitadas pelos mercados de elegância da Europa, constituem outra espécie que vai rareando. O “galo da serra”, que se escondia no alto rio Negro, é hoje praticamente inexistente. Como vários outros espécimes da fauna selvagem regional, que desaparecem ante a fúria dos que os perseguem
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3 No tocante ao Brasil em geral, pode ser consultado o livro magnífico de Wanderbilt Duarte de Barros, A Erosão no Brasil, Rio, 1956. Sobre a ação dos colonos portugueses na Amazônia, desrespeitando a vontade expressa de Lisboa, cf. o ensaio de nossa autoria, intitulado A Política de Portugal no vale amazônico, Belém, 1940.
4 Cf. SILVA COUTINH0, na memória escrita a pedido de Emilio Goeldi, in Boletim do Museu Goeldi, tomo 4, Belém, 1906; JOSË VERISSIMO, A Pesca na Amazônia,
Rio, 1895.
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para o comércio lucrativo dos couros e peles. (5) Ocorreu o mesmo com o pau-rosa na Guiana Francesa.
A destruição das riquezas da terra, pelo seu uso irregular, sendo uma nociva constante no comportamento humano, apesar do progresso cultural que atingimos, progresso que não conhece teto no espaço nem medida no tempo, tem aumentado. As reflexões dos homens de ciência e as medidas adotadas pelos Governos não vêm sendo suficientes. Degradam-se os solos sem cessar. Desplantam-se regiões, levando ao desértico, provocando o despovoamento, criando a miséria. Nem por isso, no entanto, as matérias-primas vegetais e animais, como os minerais, vêm deixando de abastecer os mercados em ascensão permanente. Sua produção não cessa. Ao contrário, intensifica-se. O relatório intitulado Recursos para a liberdade, referindo-se, por exemplo, aos Estados Unidos nas suas imensas necessidades de consumo de matéria-prima, depois de 1959, chama-a de gigantesca... Esse consumo não se processa no mesmo nível em todas as nações. Os desequilíbrios são imensos; as distâncias, amplíssimas. Embora, aumentem as solicitações dos mercados, que impõem, desse modo, o aumento da produção. Como assinala J. Gottmanm, “o convite constante do consumo, sem ter, ainda de longe, atingido quantidades que satisfaçam a sede atual do mundo é entretanto impressionante”. (6)
Outra característica do século XX é o seu desenvolvimento demográfico verdadeiramente gigantesco. Em 1650, a população do mundo estava calculada em 450 milhões de indivíduos; em 1850, em 1.100 milhões; em 1900, em 1.195 milhões; em 1940, em 2.150 milhões. Segundo Landry, (7) a Europa contribuía para esse algarismo final com 530 milhões, a América com 271 milhões, a África com 153 milhões, a Oceania com 10 milhões e a Ásia, nela incluída a Insulíndia, com 1 .185 milhões. Em 1956, na conformidade com as estatísticas da ONU, os algarismos já são os seguintes: Europa, 610 milhões; América, 366 milhões; África, 215 milhões; Oceania, 14 milhões; Ásia, 1.480 milhões. Esta, em 1650, não passava dos 300 milhões, superando a Europa em 200 milhões. A grande concentração humana era, e continua sendo, uma constante asiática, constante profundamente perigosa pelo que podia e
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5 O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia confiou ao Sr. Manoel Nunes Pereira uma investigação acerca da caça e pesca na vida regional, inclusive no particular dos aspectos destrutivos por que vem sendo realizada essa atividade econômica.
6 Les marchées des matières premières, pág. 31, Paris, 1957. Cf. também M. F. TABAH, La population du monde et les besoins en matière premiière, in Population, out./dez. 1953.
7 Traité de Démographie, pãg. 66, Paris, 1945.
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pode representar no ajuste de contas das velhas civilizações que ali se haviam desenvolvido e no decorrer de quinhentos a novecentos tinham experimentado um retrocesso de que era acusada a Europa dos descobrimentos geográficos e do colonialismo impenitente. Ademais, tais grupos humanos asiáticos se desenvolveram igualmente qualitativamente. A aspiração de ascensão cultural neles é hoje outra preocupação, como foi ontem a aspiração política de independência, por fim alcançada.
Para Jacqueline Beaujeu-Garnier, há, presentemente, uma média de 18 habitantes por quilômetro quadrado no conjunto do mundo. (8) Na África, todavia, como unidade, vivem em cada quilômetro quadrado apenas 6,7 habitantes; na América, 8 e na Oceania, 2. Na Ásia, a situação altera-se profundamente — 50 habitantes. Em face do quadro tão sensacional, a pergunta natural é essa — por que o crescimento da população do mundo está alcançando estes algarismos? As previsões alarmistas de Malthus estarão certas? Haverá alimentos e espaço para satisfazer dietas e acolher toda essa multidão? Haverá necessidade de apelar-se para a política da limitação de nascimentos, ou apelar para as soluções violentas das guerras? O espaço terrestre será suficientemente grande para permitir que continue, sem alterações substanciais, o aumento demográfico?
A explicação tem desafiado os demógrafos e os outros estudiosos dos problemas da habitabilidade da Terra. Para uns, o crescimento vertiginoso é uma conseqüência imediata das transformações conquistadas pelo homem com os progressos das ciências e das técnicas que criaram condições várias mais saudáveis para a espécie humana. Mais — das vitórias alcançadas sobre as doenças, o que importaria na diminuição da mortalidade, no aumento da longevidade dos homens, no aumento da natalidade. (9) Para Josué de Castro, a explicação deve ser encontrada no estado de fome crônica que atormenta certos setores ou áreas da Humanidade. Essa fome crônica determinaria uma excitação da capacidade reprodutora dos homens, a exaltação das funções sexuais. E como justamente na Ásia, onde o estado de fome crônica e não de fome aguda, que seria aquela momentânea, episódica, que ao contrário forçaria a inapetência sexual, é uma realidade constatada através dos séculos, o acréscimo demográfico tem apresentado índices altíssimos, verdadeiramente espetaculares.(10)
O exame do comportamento humano, no que diz respeito ao seu aumento numérico, não se encerra, porém, com estas explicações ou na simples constatação do fato físico do crescimento. Porque se agrava diante das perspectivas de que não cesse o desenvolvimento demográfico.
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8. Geographie de la Population, T. 1. pág. 35, Paris, 1956.
9. A bibliografia que procura explicar o fundamento da velocidade do crescimento populacional é imensa. Gaston Bouthoul é o autor do livro mais recente a respeito. Intitula-se La Superpopulation dans Ie monde, Paris, 1958.
1O. Geopolítica da fome, Rio, 195 1.
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Mesmo que se conservem, para o futuro, espaços livres visando à localização das disponibilidades populacionais das regiões mais afetadas pelo desequilíbrio social e econômico.
Como assinala Castro Barreto — “Os dois bilhões e setecentos milhões de habitantes do planeta atualmente aumentam de 80 mil por dia ou cerca de 29 milhões por ano. Entre 1900 e 1950, a população mundial aumentou em 850 milhões e o ritmo desse crescimento tende a acelerar-se, esperando-se para 1980 mais 1 bilhão, 174 milhões, isto é, mais 324 milhões neste curto período. Só a Índia contribui com 5 milhões anualmente para esse crescimento. As previsões para o ano 2000, no ritmo atual, dão mais 1 bilhão, o que, vale dizer, dentro de 44 anos teremos 3.700 milhões de habitantes. II No Congresso Mundial de População, reunido em 1954, as conclusões foram ainda mais alarmantes - em 1980, 3.600 milhões. (12)
As perspectivas são, portanto, assustadoras. Porque não há qualquer esperança de que este ritmo de crescimento se interrompa. Dir-se-á que, exata a tese de Josué de Castro, a modificação do regime de vida alimentar das populações asiáticas, que são as mais alarmantes em desenvolvimento numérico, ou, como diz Castro Barreto, as que apresentam uma densidade patológíca, poderia constituir uma contribuição expressivíssima para conter a corrida ou revolução demográfica, assegurando melhores dias à Humanidade. Se já se fala em algarismos mais gritantes, mais alarmantes — para o ano 2000— 6 bilhões. 13
Como proceder? Como solucionar o problema? Ë preciso não ignorar que “a China, com a sua população crescendo com uma taxa anual de 2%, já atingindo 602 milhões (1953), ou seja, um aumento anual de 10 a 12 milhões de habitantes, considera entretanto esse crescimento demográfico perfeitamente aceitável ao mesmo tempo que eleva a condição do seu povo com a nova orientação política unificando a nação, utilizando as riquezas naturais e evitando as fomes.
Entre 1881 e 1931, a população da Índia cresceu 113 milhões, ou seja, numa ordem de grandeza de 10,60/o; entre 1931 e 1941, aumentou 56 milhões, ou seja, 15%; na última década, de 1941 a 1951, o aumento foi de 43 milhões, ou seja, 13,5%. Na situação atual, com a melhoria geral das condições, a tendência é para um percentual maior no crescimento.’’( 14)
Não devemos esquecer, lembra ainda Castro Barreto, que “o controle da natalidade não é uma medida facilmente aplicável a qualquer população. São precisamente aqueles que se encontram sob maior pressão demográfica que oferecem maiores dificuldades para essa providência
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11 “A superpopulação da terra e suas perspectivas”, in Revista Brasileira de Estatística, n.0 68/70, pág. 18, Rio, 1957.
12 Cf. MARTIN BRUGAROLA, 5. J. El Drama dela población. Pág. 78, Barcelona,
1958.
13 Cf. LOURIVAL FONTES, Política, Petróleo e População, pág. 69, Rio, 1958.
14 CASTRO BARRETO, artigo cit. pág. 19.
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atenuadora dos seus sofrimentos. As populações asiáticas da Índia e da China, por motivos culturais e religiosos, desdenham o controle das dimensões da família que tanto as pouparia de tanto sofrimento e miséria e oferecem resistência à restrição do número de filhos. A proliferação inconseqüente prossegue agravando cada ano a extensão do mal,
crescendo na Índia, por exemplo, 5 milhões de habitantes por ano
Na China, a diminuição do potencial demográfico espera-se que possa ser alcançada através da política visando à limitação dos nascimentos. Nos primeiros momentos da fase marxista que vive aquele pais, essa limitação foi considerada. Imaginou-se que uma produção alimentar maior, a distribuição das terras e a industrialização bastassem como solução. A superpopulação parecia um problema apenas para os paises capitalistas. Verificada a insuficiência daquelas medidas, o Governo de Pequim passou ao sistema das limitações, aceitando como verdade que a superpopulação não é problema próprio dos países capitalistas. (16)
Quanto à Índia, a política de limitações não tem encontrado eco. E melhorando as condições sanitárias, as perspectivas são mais angustiantes. (17) O quadro indiano é, pois, mais dramático que o chinês. Além do espaço onde localizar os milhões de seres que já não têm mais onde instalar-se, há, de outro lado, a situação grave do abastecimento alimentar. Já no Exterior viviam 3.768.000 indianos. Será essa a solução? Esses 3.768.000 indianos representariam, porém, menos de um por cento da atual população da Índia, que é de 480 milhões, ou seja, 18% da população mundial.(18).
A alimentação que vem sendo produzida não está sendo suficiente, nem quantitativa nem qualitativamente, para o sustento dos grupos humanos que crescem na forma por que assinalamos páginas atrás. O estado de fome endêmica, conseqüentemente, assume caráter verdadeiramente perigoso à estabilidade social, pondo em graves riscos instituições e soberanias. Não há exagero na conclusão. Os dados estatísticos que a FAO vem publicando acerca da matéria são ilustrativos acerca desses aspectos gritantemente graves do problema. Por eles, verifica-se que há um tremendo desequilíbrio entre regiões, continentes, uns mais ou menos regularmente abastecidos, satisfeitos em suas necessidades,
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15 CASTRO BARRETO, art. cit. págs. 21-2.
16 ALFRED SAUVY, La population de la Chine, Novelies donnés et novelle politique, in Population, n.0 4, Paris, 3957.
17 GILBERT ETIENNE — “La population de l’Inde. Perspectives demographiques et allmentaires”, in Population, n. 4, Paris, 1957.
18 J. BEAUJEU-GARNIER, Geographie de la population, T.2, pág. 364, Paris, 5958.
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outros não dispondo de recursos para obtenção de um mínimo ou não possuindo os recursos alimentares com que matar a fome de suas populações, seja a fome epidêmica, seja a fome chamada crônica ou endêmica. E a história ensina que em todos os tempos os que sofrem de fome não medem meios para obter alimentos, indo ao extremo dos pronunciamentos populacionais que podem pôr abaixo regimes e governantes.
A Europa, o Canadá e os Estados Unidps, a Austrália e a Nova Zelândia, segundo os quadros estatísticos e os inquéritos que se vêm realizando com certa freqüência e rigorismo científico, vivem uma vida de abastança. Não lhes faltam aqueles elementos nutritivos indispensáveis. Os Estados Unidos, como poucas nações do mundo, alcançaram, aliás, um grau de bem-estar alimentício verdadeiramente sensacional. Na Europa, paises como a Grã-Bretanha, a Holanda, a Dinamarca, a Noruega e a Suécia 19 possuem dietas alimentares que lhes garantem uma população em condições de realizar bem as suas tarefas diárias e produzir as riquezas essenciais ao pais em ritmo normal, e muitas vezes dinâmico. Já não sucede o mesmo, todavia, com os países da América ibérica, exceção da Argentina e do Uruguai. Pagam todos a sua quota de sacrifício, sem dispor do suficiente às solicitações de suas populações que aumentam em ritmo bastante apreciável. 20
No particular da Ásia e da África, a situação apresenta-se catastrófica. O crescimento da população ultrapassa todas as possibilidades de sustento, não havendo, em conseqüência, os alimentos essenciais ao equilíbrio dos habitantes. 21
Segundo a informação de Marin Brugarola, 22 morrem presentemente de fome, no mundo, 30 a 40 milhões de pessoas. Entre 1948 e 1950, adianta o mesmo autor, as disponibilidades alimentícias por habitante não tinham alcançado o nível das disponibilidades anteriores ao conflito universal, com a agravante de que havia milhões de seres carecendo de comida.
Segundo cálculos recentes, divulgados por aquele demógrafo espanhol, na Sul-América, o número de subalimentados compreendia mais
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19 Isso não significa, porém, que nos Estados Unidos não haja regiões que padeçam do estado de fome. Essas regiões existem no chamado velho sul, isto é, aqueles trechos da grande nação que constituíram a mais antiga colonização, realizada na base da escravização do negro e de uma economia do tipo da que foi operada no Nordeste do Brasil. Na generalidade, todavia, a situação alimentar norte-americana é boa;
20 Além do livro de Josué de Castro, há hoje abundante bibliografia a respeito das condições alimentares da América ibérica. De todos os países o mais afetado é a Bolívia. Cf. PEDRO ESCUDERO, El presente y ei futuro deI problema alimentario en Bolivia. Buenos Aires, 1947.
21 Cf. S. CHANDRASEKHAR, Pueblos hambrientos y tierras desprobladas, Madrid,
1957; J. BEAUJEU-GARNIER, Geographie de la population, T. 2, Paris, 1958;
CHARLES ROBEQUAIN, Le Monde malais, Paris,l946; MICHEL CEPEDE e
MAURICE LENGELLS, Economie alimenta ire du globo, Paris, 1953.
22 El drama dela población, pág. 95.
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de dois terços da respectiva população. No Oriente, todavia, as condições eram ainda mais alarmantes, pois os subalimentados somavam 90% dos habitantes! Se 30% da Humanidade consome 80% dos bens alimentícios, registrando-se, portanto, que os 70% restantes dispõem apenas de 20%, que lhes sobram. 23
As técnicas agrícolas, nos Estados Unidos, no Canadá e na Austrália asseguraram àqueles países um padrão de produção alimentícia que explica a euforia que desfrutam. Já na Índia e na China, ocorrendo a circunstância de a atividade agrícola permanecer submetida a processos rotineiros, e só agora experimentando transformações substanciais. Na China, principalmente, essa produção não alcança índices satisfatórios, explicando-se assim o desequilíbrio tremendo que ali ocorre. 24 Na África, só agora os governos colonialistas procuram enfrentar o problema, fazendo produzir alimentos em quantidades apreciáveis e que concorram para o levantamento dos padrões de vida das populações aborígines. E que ali aconteceu o que era fatal, dadas as políticas de imprevidência ou de exploração que caracterizaram a ocupação da África pelos europeus nos séculos passados, além da exportação de africanos nas condições de escravos — o regime alimentar vigente fora alterado profundamente. Introduziram-se espécies novas, modificando-se a dieta a que estavam habituadas as populações nativas. Com a modificação, alteraram-se substancialmente certas condições existenciais daquele continente o que comprometeu o crescimento da população 25
Ora, apesar de todos os programas, todos os clamores, todas as críticas feitas, as sugestões apresentadas, nada de prático vem sendo realizado em grande estilo, no sentido de pôr termo ou mesmo minorar essa situação que aflige a Humanidade. Quando dissemos no começo que esse estado de carência podia trazer como conseqüência profundas mudanças no equilíbrio social, não estávamos afirmando apressadamente. Em face dos algarismos que aqui enunciamos poderá chegar-se a outra conclusão? Alguém poderá duvidar que esses povos famintos não se decidam a procurar o alimento de que carecem em outros pontos da Terra, onde encontrem possibilidades em espaço e em produtividade da terra? E justamente esses milhões de seres não vivem nos trechos do
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23 Op. cit., pág. 99 e III.
24 Sobre a China, há que referir as alterações profundas que vem sofrendo e em torno às quais há um bom documentário nos estudos: de GEORGES DAVIDOFF, Dela medicine et de la securitê sociale en Chine, e de ALFREDO SAUVY, “La population dela Chine. Nouvelles donnés et nouvelle politique”, ambos em Population, n.0 4, Paris, 1957.
25 A propósito, Pierre Gourou apresentou ao III Coloquium Luso-Brasileiro de Estudos, que reuniu em Lisboa em 1957, interessantissima tese intitulada “Les plantes alimentaires americanes en Afrique tropicale; remarques geographiques”, e em que examinou o problema, evidentemente como uma contribuição para investigação de maior tomo. A matéria vem sendo considerada por outros especialistas nos problemas africanos, como se pode verificar do capitulo pertinente da Geographie dela Population, n.0 2, vol., de Jacqueline Beaujeu-Garnier.
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mundo onde não há mais possibilidade de um palmo de terra por ocupar na tarefa de produzir alimentos? Os alimentos sintéticos serão suficientes? Resolverão o problema?
Chandrasekhar, ao estudar, com a autoridade que ninguém lhe nega, o que ocorre no mundo dos povos famintos e das terras despovoadas, apôs a análise penetrante e irrecusavelmente exata do quadro alimentar e populacional da Índia, da China, do Japão, recordou que, crescendo a população mundial em cerca de 20 a 22 milhões de pessoas por ano, não ocorria idêntico crescimento no tocante aos gêneros alimentícios. E certo que será possível aceitar-se a tese de que a má distribuição, o baixo poder aquisitivo e a má produção constituem fatores que não devem ser desprezados ao equacionar-se o problema da fome. Sendo assim, tendo eles o peso ponderável que muitos pretendem, então o problema perderá em muito a importância por que se está apresentando uma vez que sua solução estará no entendimento pacifico entre os povos abastados e os povos famintos, mudanças de técnicas de produção, financiamento por intermédio dos órgãos especializados internacionais, e uma rede de distribuição mais perfeita que proceda à entre g a de alimentos de maneira a que ninguém mais possa afirmar que tem fome. O simplismo da tese, todavia, encontra resistência na experiência e na eloqüência dos algarismos e dos fatos. Os entendimentos vêm sendo processados. Nem por isso, o problema foi resolvido de maneira a lhe pôr fim a gravidade. E a solução que mais está despertando interesse é aquela ligada ao aproveitamento das áreas onde o homem ainda não realizou a atividade criadora, portanto, árias que constituem verdadeiros convites à iniciativa, ao capital, às técnicas avançadas, à coragem e à decisão dos povos fortes e onde se espera que possa ser criada uma fonte de suprimento alimentar.
A ocupação da terra foi feita pelo homem desordenadamente. Era natural que assim fosse. Sem considerar o futuro e na ignorância de que estava trabalhando contra as gerações de amanhã, destruiu florestas, secou rios, removeu dificuldades criando problemas para amanhã. Em todos os continentes ocorreu esta maneira de agir desastrada e imprevidente. O pior, porém, é que, sem querer aprender a lição da experiência, prosseguiu na tarefa condenável, desatento a tudo e a todas as previsões dos que se alarmavam com a conduta criminosa, destruindo, com a sua teimosia, as esperanças e as possibilidades dos que deviam sucedê-lo. Ao mesmo tempo que assim agia, crescia numericamente numa proporção maior que aquela que seria aconselhável em face dos próprios recursos de que dispunha para trabalhar e para viver. O espaço sobre que agiu aqui e ali começou, então, a tornar-se pequeno. As migrações pacíficas ou violentas que realizou não resolveram a situação que fora criando. As técnicas aperfeiçoadas que começou a empregar também não contribuíram para a solução ideal nem para a solução definitiva. A terra continuou a ficar pequena. Por que nem toda ela está em condições para receber os grupos humanos que desejem utilizá-la para a obtenção de alimentos ou para a exploração econômica de rendimento apreciável, que autorize o bem-estar ou mesmo a condição mínima de vida? Os limites da terra, limites da terra habitável, isto é, que possa ser trabalhada, são reais? (27) É essa hoje, aliás, uma das mais graves cogitações dos organismos internacionais, de governos nacionais e de grupos que tomaram consciência da situação e procuram resolve-la dentro de programas executáveis.
E certo que há ainda vastas áreas do mundo que não receberam ocupação nem foram exploradas convenientemente. Constituem verdadeiros espaços abertos que representam convite aos povos capazes, problemas políticos dos mais sérios e desafiam a inteligência e as planificações pragmáticas de seus estadistas, O acesso a tais áreas será, porém, tão fácil que possam ser ocupadas sem que surjam incidentes ou produzam o rendimento necessário? Essas áreas desocupadas apresentam condições de habitabilidade? Permitirão que nelas se crie gado, haja lavouras de subsistência, exploração do subsolo, mobilização de braços na produção agrária, de alto valor econômico? O clima dessa área permitirá que povos de todas as latitudes vivam nelas com a sua capacidade de reprodução, com seu potencial de trabalho e em perfeito funcionamento? Sobre tais espaços não haverá o exército tranqüilo e centenário de soberanias nacionais, que não lhes cederão o uso sem ajustes, muito seguros, sem imposições, sem medidas acauteladoras de seus interesses, sem perda de seu império político? Em face de conceituação nova criada pelas exigências internacionais, decorrentes do crescimento social e da diminuição do espaço econômico, ainda vigorarão os princípios das soberanias nacionais?
Não resta mais dúvida de que o homem pode viver em qualquer trecho do mundo, com a sua capacidade de reprodução e seu potencial de trabalho em perfeito funcionamento. Aquelas teses da inaptabilidade de certas espécies humanas a determinados pedaços da terra não podem ser consideradas mais na categoria das conclusões científicas. O homem vive nos trópicos secos e úmidos, nas regiões mais frias, nas zonas temperadas. Adapta-se a todas elas. Vence em todas. Para isso progrediu e descobriu processos para sua adaptação, que lhe asseguraram o maior êxito. 28 O que não estará certo é o homem nórdico querer viver nos trópicos secos ou úmidos com os mesmos processos existenciais que adotou em sua terra de origem. Terá que ceder aos imperativos mesológicos
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27 Cf. F. OSBORN, Los limites dela tierra, México, 1956.
28 Cf. JOSÉ DE PAIVA BOLEO, As falsas nações acerca das possibilidades das terras e das populações intertropicais, Bissau, 1950; Clima e Coloniza çio, Lisboa, 1952; Determinismo antropogeográ fico, Lisboa, 1936; ELLSWORTH HUNTINGTON, Civlización y clima, Madrid, 1942; MAX SORRE, Fundements de la Géagraphie humaine, vol. 1.0, Paris, 1947; GEORGES HARDY, Geographie & Colonisatian, Paris, 1933.
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condicionada sua existência a um certo número de regras que resultam do novo meio em que pretende realizar-se como unidade social ou como membro de uma coletividade. Nessa tarefa ou aventura de domínio que o homem exercita sobre qualquer trecho do mundo onde pretenda instalar-se, o que deverá ser considerado mais vivamente será se essa terra está em condições de recebê-lo, apresentando aquelas condições mínimas. O progresso das técnicas, em matéria de tratamento de solos, todavia, já não admite mais, também, que se afirme que estas ou aquelas terras são impróprias à vida humana. Todas elas podem ser empobrecidas, e esse tem sido o mais intenso da ação humana, insistamos, como todas elas podem ser enriquecidas, recuperadas, tornadas capazes de reagir às solicitações que lhes façamos para que se tornem boas, úteis, produtivas, amigas da espécie humana. Os adubos vegetais, animais ou minerais, as maneiras de tratar os solos, recompondo-se, zelando para que não se lateralizem, os reflorestamentos, os canais de irrigação, todo um vasto empreendimento cientifico está hoje ao dispor da Humanidade para que ela vença tais dificuldades e possa possuir terras em porção bastante, pelo menos no século que estamos vivendo, para que sua existência descanse um pouco das aflições que experimenta.
Quais serão, porém, esses espaços abertos, isto é, que ainda não foram ocupados ou estão ocupados insatisfatoriamente, proporcionando um vasto campo para os excedentes populacionais? Essas áreas são encontradas na África central, na América do Sul, nas partes central e setentrional da América do Norte, na Austrália e em ilhas do Pacifico. São considerados países vazios, isto é, cujas terras apresentam densidade demográfica baixíssima — a Nova Guiné holandesa, Papua, Nova Guiné australiana, Bornéu, Austrália, América ibérica tropical, África tropical, Nesta, segundo Chandrasekhar, a densidade por quilômetro quadrado é de 4,5. Na América ibérica, aqui incluído o Brasil, 3,9. A Austrália, para exemplificar, com uma extensão de 7.704.000km2, tem presentemente população de apenas 7 milhões, com a densidade de um habitante por quilômetro quadrado. Cerca de 40 milhões de hectares de terras cultiváveis em termos de freqüência de chuvas e de clima ameno estão ali situados. Pois desses 40 milhões apenas 9 milhões foram utilizados. Dir-se-á que a Austrália é um continente que apresenta verdadeiros desertos, que assim tem permanecido à falta de condições de habitabilidade. Seus geógrafos, contestando a tese da possibilidade de todas as terras serem utilizadas pelo homem, tese que consideram um mito, alegam que esses desertos são um desafio. Conseqüentemente, além daqueles 30 milhões ainda disponíveis nada mais haverá na Austrália, que, assim, não deverá estar contida na relação dos chamados espaços abertos. Evidentemente, os geógrafos australianos não atentam para os êxitos da ciência na sua empresa de vencer os solos, transformando-os, recuperando-os, vitalizando-os. Esquecem que os desertos estão sendo conquistados, vencidos. Tanto os desertos naturais como os que o homem criou com suas práticas criminosas. Os casos de Israel e do Saara são de nossos dias e estão ao nosso dispor para a observação do sucesso. Depois do que ali se realiza, poderemos falar em desertos impróprios à vida humana? 29 A Austrália, queiram ou não, é, pois, um espaço aberto. Um imenso espaço aberto. No particular da Africa, recordemos que sua extensão representa 23% das terras do mundo. Sua população, 7% da população do universo. E, pois, insista-se, um deserto. No quadro político, são apenas 7 os Estados soberanos, permanecendo quase a totalidade do espaço em mãos das potências colonialistas.
Na Ásia, já não ocorre o mesmo. Mas suas populações, em especial na China e na India, não dispõem de terras para ocupar. Começam a movimentar-se, impacientes.
Quanto à América ibérica, as áreas desérticas existem no sul do continente. Nem mesmo a Argentina, para onde convergiu a multidão emigrante nos séculos XIX e princípios do XX, pode falar que seu território já foi totalmente ocupado. O mundo amazônico, do Brasil, da Bolivia, do Peru, do Equador, da Colômbia e da Venezuela, num total de 6 1/2 milhões de quilômetros quadrados, esse é, porém, o grande deserto. Como unidade continuada e de características uniformes, não há, em qualquer parte da Terra, maior área desértica.
O mundo por ocupar não é, portanto, pequeno, como se supôs. Seus limites não são tão apertados. Seus recursos podem ser aumentados. O superpovoamento da Terra não constitui, não resta dúvida, conseqüentemente, um perigo à estabilidade social, ao equilíbrio das nações. Os territórios coloniais da África serão assim, só eles, um imenso ambiente acolhedor para os excessos demográficos do Oriente.
Um dos assuntos cruciais dos tempos que estamos vivendo é, todavia, esse da liberdade dos povos de cor, que não se comportam mais com aquela passividade do passado e reagem com violência para alcançar um novo status político. E com esse desassossego, que atormenta as nações colonizadoras do Velho Mundo, começa a pôr-se fim ao chamado colonialismo para ingressar-se num mundo em que todos tenham o direito de dirigir-se, compondo-se politicamente, assegurando-se a condição soberana que os povos do Novo Mundo conseguiram atingir ainda em princípios do século XIX ou fins do século XVIII, como foi o caso dos Estados Unidos.
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29 Cl’. E. F. GAUTIER, Le Sahara, Paris, 1946; JEAN POUQUET, Les deserts, Paris,
1951; ANDRE CHOURAQuI, L’État d’israel, Paris, 1955; PIERRE PARAF,
L ‘État d’Israel dans le monde, Paris, 1958.
30 A. D. C. PETERS0N, L’Extreme-orient, Geographie sociale, Paris, 1951; BRUNO DEOSKER, Les peuples deI ‘Asie en mouvement, Paris, 1946.
31 J. EHRHAND, Le destin du colonialisme, Paris, 1957; JUBERT DESCHAMPs, Le fin des empires coloni ux, Paris, 1950.
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in: A Amazônia e a cobiça internacional. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1982. pp. 169-182.

SALVATORE QUASIMODO
(Retrato de Serena Maffia)
Trad. Geraldo Holanda Cavalcanti
JÁ SE DESPRENDE A MAGRA FLOR
Nada saberei de minha vida
escuro monótono sangue.
Não saberei quem amei, quem amo
agora que aqui contido, reduzido a meus membros,
no gasto vento de março
enumero os males dos dias desvendados.
Já se desprende a magra flor
dos galhos. E eu contemplo
a paciência de seu vôo irrevogável.
IMITAÇÃO DA ALEGRIA
Ali onde as árvores fazem
a tarde ainda mais abandonada
indolente
sumiu teu último passo,
como a flor que mal se mostra
sobre a tília e insiste em viver.
Buscas sentido para teus afetos,
encontras o silêncio em tua vida.
Outro destino me revela
o tempo refletido. Pesa-me
como a morte, a beleza que agora
noutras faces brilha.
Perdida está toda coisa inocente
mesma nesta voz, sobrevivente
a imitar a alegria.
A amurada
E já na amurada do estádio,
entre fendas e tufos de erva pênsil,
as lagartixas correm como raios;
e a rã retorna às águas dos canais,
canto-chão das minhas noites distantes
de aldeia. Tu recordas este sítio
onde Vênus saudava nosso encontro
de sombras. Ó querida, quanto tempo
com as folhas dos álamos se foi,
quanto sangue pelos rios da terra.
A MINHA PÁTRIA É A ITÁLIA
Mas os dias se afastam dispersos
e mais retornam ao coração dos poetas.
Além, os campos da Polónia, a planura de Kestno
com as colinas de cadáveres que ardem
em nuvens de nafta, acolá os arames farpados
para o lazareto de Israel,
o sangue entre os detritos, o exantema tórrido,
a cadeia dos pobres já mortos há muito tempo
e fulminados à beira das fossas abertas por suas próprias mãos,
ali, Buchenwald, o suave bosque de faias,
os seus fornos malditos, além, Estalinegrado,
e Minsk sobre os pântanos e a neve putrefacta.
Os poetas não esquecem. Oh a multidão dos vis,
dos vencidos, dos perdoados por misericórdia!
Tudo se transforma mas os mortos não se vendem.
A minha pátria é a Itália, o inimigo estrangeiro,
e eu canto o seu povo, e também o pranto
coberto pelo rumor dos mares,
o límpido luto das mães, canto a sua vida.
E DE REPENTE É NOITE
...
Cada um está só no coração da terra
trespassado por um raio de sol:
e de repente é noite.
AVIDAMENTE ESTENDO A MINHA MÃO
...
Na pobreza da carne, como sou,
eis-me, Senhor: poeira da estrada
que o vento mal levanta em seu perdão.
...
Mas se afilar não soube noutro tempo
a voz primitiva ainda tosca,
avidamente estendo a minha mão:
dá-me da dor o pão cotidiano.
PENA DE COISAS QUE NEM SEI
...
Densa de brancas e de negras raízes
cheira a fermento e a vermes
a terra talhada d´água.
...
Pena de coisas que nem sei
em mim rebenta: não basta uma morte
se, escuta, mais vezes me pesa
no coração, com sua relva, um pedaço de terra.
CURVA-SE O DIA
...
Eis-me desamparado, Senhor,
no teu dia,
cerrado a toda luz.
...
De ti privado tenho medo,
perdida estrada de amor,
e não me é dada nem mesmo
a graça de trêmulo confessar-me
tão seca é a minha vontade.
...
A ti amei e combati;
curva-se o dia
e colho sombras dos céus:
que tristeza o meu coração
de carne!
...
ANTIGO INVERNO
...
Desejo de tuas mãos claras
na penumbra da chama:
sabiam a roble, a rosas;
a morte. Antigo inverno.
...
Buscavam milho os pássaros
e eram súbito de neve;
assim as palavras.
Um pouco de sol, um halo de anjo,
e logo a névoa; e as árvores,
e nós feitos de ar na manhã.
...
E O TEU VESTIDO É BRANCO
...
Tens a cabeça baixa e me olhas:
e o teu vestido é branco,
e um seio aflora de entre as rendas
soltas do teu ombro esquerdo.
...
A luz me supera; treme,
e te toca os braços nus.
...
Revejo-te. Tinhas
palavras poucas e breves,
que punham alma
no peso de uma vida
que sabia a circo.
...
Profunda era a estrada
por onde o vento descia
certas noites de inverno,
e nos despertava estranhos
como na primeira vez.
...
TERRA
...
Noite, serenas sombras,
berço de ar,
chega-me o vento se por ti divago,
com ele o mar cheiros da terra
onde canta na praia minha gente
às velas, às nassas,
às crianças antes da aurora despertadas.
...
Montes secos, planícies de relva nova
que espera manadas e greges,
tenho dentro o vosso mal que me escava.
QUASIMODO, Salvatore. Poesias. Edição bilingüe. Seleção, tradução e notas de Geraldo Holanda Cavalcanti. Rio de Janeiro: Record, 1999.
Poemas de Salvatore Quasimodo:
Nota del traductor:
"He procurado respetar al máximo la personal escritura del autor, que a menudo fuerza la sintaxis, establece concordancias insólitas, suprime comas y artículos o altera drásticamente el orden habitual de los términos en frases que evocan la oratoria clásica o buscan una distanciadora distorsión del lenguaje. Esto, unido al hermetismo de algunos poemas, hace en ocasiones muy difícil la lectura de Quasimodo, y para el traductor supone la continua tentación de «clarificar» o «normalizar» el original; y lo pongo entre comillas porque con ello, en realidad, se dañaría irreparablemente una poesía que recurre con toda deliberación (y con notable eficacia) a la oscuridad, la ambigüedad y aun la violencia sintáctica.
Me he esforzado, pues, por ceñirme lo más fielmente posible a los textos originales, optando por una literalidad a menudo áspera y abstrusa siempre que la alternativa era caer en la vileza recurrente del traduttore-traditore: la «interpretación».
En algunos -pocos- poemas en que Quasimodo utiliza la tradicional métrica italiana de endecasílabos y heptasílabos, he procurado respetarla con un mínimo sacrificio de la literalidad. (Es el caso de los cuatro poemas consecutivos «A mí, peregrino», «Se oye de nuevo el mar», «Elegía» y «De otro Lázaro».)
Por otra parte, la enorme dificultad que ofrece la versión de algunos poemas se compensa con la facilidad de otros, diáfanos, que la afinidad entre el italiano y el castellano permite traducir casi a vuelapluma, palabra por palabra, por lo que espero que, en conjunto, esta antología permita al lector hispanoparlante una aproximación satisfactoria a uno de los más grandes poetas contemporáneos".
Carlo Fabretti
DE "AGUAS Y TIERRAS":
Antiguo invierno
Deseo de tus manos claras
en la penumbra de la llama:
sabían a roble ya rosas,
a muerte. Antiguo invierno.
Buscaban el mijo los pájaros
y enseguida eran de nieve;
e igual las palabras.
Un poco de sol, un estrellón de ángel,
y luego la niebla; y los árboles,
y nosotros hechos de aire en la mañana.
* * * * *
LAMENTO POR EL SUR
La luna roja, el viento, tu color
de mujer del Norte, la llanura de nieve...
Mi corazón está ya en estas praderas,
en estas aguas anubladas por la niebla.
He olvidado el mar, la grave
caracola que soplan los pastores sicilianos,
las cantilenas de los carros a lo largo de los caminos
donde el algarrobo tiembla en el humo de los rastrojos,
he olvidado el paso de las garzas y las grullas
en el aire de las verdes altiplanicies
por las tierras y los ríos de Lombardía.
Pero el hombre grita en cualquier parte la suerte de una patria.
Ya nadie me llevará al sur.
Oh, el Sur está cansado de arrastrar muertos
a la orilla de las ciénagas de malaria,
está cansado de soledad, cansado de cadenas,
está cansado en su boca
de las blasfemias de todas las razas
que han gritado muerte con el eco de sus pozos,
que han bebido la sangre de su corazón.
Por eso sus hijos vuelven a los montes,
sujetan los caballos bajo mantas de estrellas,
comen flores de acacia a lo largo de las pistas
nuevamente rojas, aun rojas, aun rojas.
Ya nadie me llevará al Sur .
Y esta tarde cargada de invierno
es aún nuestra, y aquí te repito
mi absurdo contrapunto
de dulzuras y furores,
un lamento de amor sin amor.
Versión de Carlo Fabretti
* * * * *
También se aleja mi compañía
También se aleja mi compañía,
mujeres de ghetto, juglares de taberna,
entre los que pasé tanto tiempo,
y está muerta la joven
de ardiente rostro perenne
untado de aceite de la masa ácima
y oscura carne de hebrea.
Tal vez haya cambiado también mi tristeza,
como si yo fuese no mío,
por mí mismo olvidado.
* * * * *
Tú llamas una vida
Fatiga de amor, tristeza,
tú llamas una vida
que dentro, profunda, tiene nombres
de cielos y jardines.
Y fuese mi carne
lo que el don del mal transforma.
DE "OBOE SUMERGIDO":
Convalecencia
Siento amor convertirse en otra muerte
ignota para mí, pero más lenta,
que a menudo me empuja hacia sus formas.
Abandono de alga:
me busco en los oscuros acordes
de profundos despertares
en orillas densas de cielo.
El viento se injerta
dócil en mi sangre,
y es ya voz y naufragio,
manos que renacen:
manos entrelazadas o palma con palma unidas
en distendida renuncia.
Tiene miedo de ti
el corazón seco y doliente,
infancia imposeída.
* * * * *
De tierna mujer echada entre las flores
Se adivinaba la estación oculta
por el ansia de las lluvias nocturnas,
por los cambios de las nubes en el cielo,
undosas leves cunas;
y yo estaba muerto.
Una ciudad suspendida en el aire
era mi último exilio,
y en torno me llamaban
las suaves mujeres de otros tiempos,
y la madre, renovada por los años,
con su dulce mano escogía entre las rosas
y con las más blancas ceñía mi cabeza.
Afuera era de noche
y los astros precisos seguían
ignotos caminos en curvas de oro
y las cosas vueltas fugitivas
me llevaban a rincones secretos
para hablarme de jardines abiertos de par en par
y del sentido de la vida;
pero a mí me dolía la última sonrisa
de tierna mujer echada entre las flores.
* * * * *
Nacimiento del canto
Manantial: luz resurgida:
hojas arden róseas.
Yazgo sobre ríos colmados
donde son islas
espejos de sombras y de astros.
Y me arrolla tu regazo celeste
que nunca nutre de alegría
mi vida diferente.
Muero para volver a tenerte,
aunque sea desilusionada,
adolescencia de los miembros
enfermos.
* * * * *
Oboe sumergido
Avara pena, tarda tu don
en esta mi hora
de suspirados abandonos.
Un oboe gélido deletrea de nuevo
alegría de hojas perennes,
no mías, y olvida;
en mí anochece:
el agua tramonta
en mis manos herbosas.
Alas oscilan en ronco cielo,
lábiles: el corazón transmigra
y yo estoy yermo,
y los días son escombros.
* * * * *
Otoño
Otoño manso, yo me poseo
y me inclino ante tus aguas para beber el cielo,
suave fuga de árboles y abismos.
Áspera pena del nacer
me encuentra unido a ti;
yen ti me quebranto y repongo:
pobre cosa caída
que la tierra recoge.
DE "ERATO Y APOLO":
Canto de Apolo
Noche terrenal, en tu exiguo fuego
me complací alguna vez
y descendí entre los mortales.
Y vi al hombre
inclinado sobre el regazo de la amada
escuchándose nacer,
y transformarse entregado a la tierra,
las manos juntas,
abrasados los ojos y la mente.
Yo amaba. Frías eran las manos
de la criatura nocturna:
otros terrores acogía en el vasto lecho
donde al alba me despertó
un aleteo de palomas.
Luego el viento depositó hojas
sobre su cuerpo inmóvil;
se alzaron sombrías las aguas en los mares.
Amor mío, yo aquí me aflijo
sin muerte, solo.
* * * * *
En el preciso tiempo humano
Yace en el viento de profunda luz
la amada del tiempo de las palomas.
De mí de aguas de hojas,
sola entre los vivos, oh dilecta,
hablas; y la desnuda noche
tu voz consuela
de lucientes ardores y leticias.
Nos decepcionó la belleza, y la desaparición
de toda forma y memoria,
el lábil movimiento revelado a los afectos
a imagen de los internos fulgores.
Pero de tu sangre profunda,
en el preciso tiempo humano,
renaceremos sin dolor.
* * * * *
Sílabas a Erato
A ti se pliega el corazón en soledad,
exilio de oscuros sentidos
en el que transmuta y ama
lo que ayer parecía nuestro
y ahora está sepultado en la noche.
Semicírculos de aire resplandecen
en tu rostro; te me apareces
en el tiempo que la primera ansiedad aflige
y me vuelves blanco, lenta la boca
a la luz de la sonrisa.
Por tenerte te pierdo
y no me aflijo: todavía eres bella,
quieta en dulce posición de sueño:
serenidad de muerte extremo gozo.
DE "NUEVAS POESÍAS":
El alto velero
Cuando vinieron los pájaros a mover las hojas
de los árboles amargos junto a mi casa
(eran ciegos volátiles nocturnos
que horadaban sus nidos en las cortezas),
alcé la frente hacia la luna
y vi un alto velero.
Al borde de la isla el mar era sal;
y se había tendido la tierra y antiguas
conchas relucían pegadas a las rocas
en la rada de enanos limoneros.
Y le dije a mi amada, que en sí llevaba un hijo mío
y por él tenía siempre el mar en el alma:
«Estoy cansado de estas olas que baten
con ritmo de remos, y de las lechuzas
que imitan el lamento de los perros
cuando hay viento de luna en los cañaverales.
Quiero partir, quiero dejar esta isla.»
Y ella: «Querido, ya es tarde: quedémonos.»
Entonces me puse a contar lentamente
los vivos reflejos de agua marina
que el aire me traía a los ojos
desde la mole del alto velero.
* * * * *
Imitación de la alegría
Donde los árboles aún
más desolada hacen la tarde,
al tiempo que indolente
se ha desvanecido tu último paso,
aparece la flor
en los tilos y persiste en su suerte.
Buscas una explicación a los afectos,
pruebas el silencio en tu vida.
Otra ventura me revela
el tiempo reflejado. Aflige
como la muerte, la belleza
ya en otros rostros fulmínea.
He perdido toda cosa inocente,
incluso en esta voz, que sobrevive
para imitar la alegría.
* * * * *
Ya vuela la flor seca
No sabré nada de mi vida,
oscura monótona sangre.
No sabré a quién amaba, a quién amo,
ahora que aquí restringido, reducido a mis miembros,
en el corrompido viento de marzo
enumero los males de los días descifrados.
Ya vuela la flor seca
de las ramas. Y espero
la paciencia de su cuelo irrevocable.
DE "DÍA TRAS DÍA":
A mí, peregrino
He aquí que vuelvo a la tranquila plaza:
en tu balcón oscila solitaria
la bandera de fiesta ya pasada.
-Regresa -digo. Mas sólo a la edad
que anhela sortilegios burló el eco
de las cuevas de piedra abandonadas.
¡Cuánto ha que no responde lo invisible
si llamo como antaño en el silencio!
Tú ya no estás aquí ni tu saludo
llega a mí, peregrino. Nunca dos
veces el gozo se revela. Extrema
luz sobre el pino que recuerda el mar.
Vana también la imagen de las aguas.
Nuestra tierra está lejos, en el sur,
de luto y lágrimas caliente. allí,
hablan, con negros chales
mujeres de la muerte a media voz,
en la puerta de la casa.
* * * * *
Carta
Este silencio quieto en las calles,
este viento indolente, que se desliza
bajo entre las hojas muertas o asciende
hacia los colores de las insignias extranjeras...
tal vez el ansia de decirte una palabra
antes de que se cierre de nuevo el cielo
sobre otro día, tal vez la inercia,
nuestro mal más vil... La vida
no está en este tremendo, oscuro, latir
del corazón, no es piedad, no es más
que un juego de la sangre donde la muerte
está en flor. Oh mi dulce gacela,
te recuerdo aquel geranio encendido
sobre un muro acribillado de metralla.
¿O ahora ni siquiera la muerte consuela
ya a los vivos, la muerte por amor?
* * * * *
Elegía
Gélida mensajera de la noche,
has regresado limpia a los balcones
de las casas destruidas e iluminas
tumbas ignotas, desolados restos
de la tierra humeante, aquí reposa
nuestro sueño. Y te vuelves solitaria
hacia el norte, donde todo corre
sin luz hacia la muerte, y tú resistes.
* * * * *
Nieve
Cae la noche: de nuevo nos dejáis,
oh imágenes queridas de la tierra, árboles,
animales, pobre gente encerrada
en los capotes de los soldados, madres
de vientre aridecido por las lágrimas.
Y la nieve nos ilumina desde los prados
cual luna. Oh, estos muertos. Golpead
en la frente, golpead hasta el corazón.
Que grite al menos alguien en el silencio,
en este blanco cerco de enterrados.
* * * * *
Se oye de nuevo el mar
Desde hace muchas noches se oye de nuevo el mar,
leve, arriba y abajo, sobre la arena lisa.
Eco de una voz encerrada en la mente
que resurge del tiempo; y también este
lamento asiduo de gaviotas, o
pájaros de las torres, que abril
empuja hacia la llanura. Ya
estabas junto a mí con esa voz;
y quisiera que a ti también llegase,
ahora, de mí un eco de memoria,
como ese oscuro murmurar del mar.
DE "LA VIDA NO ES SUEÑO":
Color de lluvia y de hierro
Decías: muerte silencio soledad;
como amor, vida. Palabras
de nuestras provisorias imágenes.
Y el viento se ha alzado leve cada mañana
y el tiempo color de lluvia y de hierro
ha pasado sobre las piedras,
sobre nuestro cerrado zumbido de malditos.
La verdad todavía está lejos.
Y dime, hombre quebrantado en la cruz,
y tú, el de las manos hinchadas de sangre,
¿qué le contestaré a los que preguntan?
Ahora, ahora: antes de que más silencio
entre en los ojos, antes de que más viento
se alce y más herrumbre florezca.
* * * * *
Epitafio para Bice Donetti
Con los ojos hacia la lluvia y los elfos de la noche,
está allí, en el campo número quince, en Musocco,
la mujer emiliana que yo amé
en el tiempo triste de la juventud.
hace poco fue sorprendida por la muerte
mientras miraba tranquila el viento del otoño
agitar las ramas de los plátanos y la shojas
desde su gris casa de la periferia.
su rostro aún está vivo de sorpresa,
como sin duda lo estuvo en la infancia, deslumbrado
por el tragallamas alto sobre el carromato.
Oh tú, que pasas, empujado por otros muertos,
ante la fosa mil ciento sesenta,
deténte un minuto a saludar
a la que nunca se lamentó del hombre
que aquí queda, odiado, con sus versos,
uno de tantos, obrero de sueños.
DE "VISIBLE, INVISIBLE":
La tierra incomparable
Hace tiempo que te debo palabras de amor:
o tal vez sean las que cada día
huyen deprisa apenas pronunciadas
y la memoria las teme, que transforma
los signos inevitables en diálogo
enemigo enconado del alma. Tal vez
el rumor de la mente no deja oír
mis palabras de amor o el miedo
al eco arbitrario que desenfoca
la imagen más débil de un sonido
afectuoso: o tocan la invisible
ironía, su naturaleza de hoz
o mi vida ya cercada, amor .
O tal vez sea el color que las deslumbra
si chocan con la luz
del tiempo que vendrá a ti cuando el mío
no pueda ya llamar amor oscuro
amor ya llorando
la belleza, la ruptura impetuosa
con la tierra incomparable, amor.
* * * * *
Visible, invisible
Visible, invisible
el carretero en el horizonte
entre los brazos del camino llama
contesta a la voz de las islas.
Tampoco yo voy a la deriva,
en torno gira el mundo, leo
mi historia como guardián nocturno
en las horas de lluvia. El secreto tiene márgenes
felices, estratagemas, atracciones difíciles.
Mi vida, habitantes crueles y sonrientes
de mis caminos, de mis paisajes,
no tiene manijas en las puertas.
No me preparo para la muerte,
conozco el principio de las cosas,
el fin es una superficie por la que viaja
el invasor de mi sombra.
Yo no conozco las sombras.
DE "DAR Y TENER":
Dar y tener
Nada me das, no das nada,
tú que me escuchas. La sangre
de las guerras se ha secado,
el desprecio es un deseo puro
y no provoca un gesto
de un pensamiento humano,
fuera de la hora de la piedad.
Dar y tener. En mi voz
hayal menos un signo
de geometría viva,
en la tuya, una caracola
muerta con lamentos fúnebres.
* * * * *
No he perdido nada
Todavía estoy aquí, el sol gira
a mis espaldas como un halcón y la tierra
repite mi voz en la tuya.
Y recomienza el tiempo visible
en el ojo que redescubre la luz.
No he perdido nada.
Perder es ir al otro lado
de un diagrama del cielo
por movimientos de sueños, un río
lleno de hojas.
OTROS POEMAS:
ÁRBOL
De ti una sombra se desprende
que la mía muerta parece
si al movimiento oscila
o rompe azulinas aguas frescas
a orillas del Ánapo, al que vuelvo esta noche
en que marzo lunar me incitó,
rico ya de alas y de hierbas.
No sólo de sombra vivo,
que tierra y sol y dulce don de agua
nuevos follajes te dieron
en tanto yo me inclino y seco
palpo en mi rostro tu corteza.
CAÍDA ENTRE LAS FLORES
Se adivinaba la estación oculta
en la ansiedad de la nocturna lluvia,
en el vaivén celeste de las nubes
como ligeras cunas ondulantes...
Había muerto YO.
Una ciudad suspensa entre los aires
era mi exilio último;
en derredor sentía la llamada
de süaves mujeres de otros días;
la Madre a quien los años juvenecen,
tomando la más blanca de las rosas,
con dulce mano la dejó en mis sienes.
Fuera de la ciudad era la noche...
Los astros recorrían
curvas de oro en sus ignotos rumbos;
todas las cosas, vueltas fugitivas,
lleváronme a sus ángulos secretos
para contarme de jardines
de par en par abiertos,
y del sentido exacto de las vidas.
Yo, en tanto, padecía con inmobles
ojos viendo la última sonrisa
de una mujer cafda entre las flores.
Versión de Carlos López Narváez
CARTA A LA MADRE
"Mater dulcíssima, ahora se levantan la nubes,
el Navío topa confusamente contra los diques,
los árboles se hinchan de agua, arden de nieve;
no estoy triste en el Norte; no estoy en paz
conmigo mismo, pero no espero
el perdón de ninguno; muchos me deben lágrimas
de hombre a hombre. Sé que no estás bien, que vives
como todas la madres de los poetas, pobre
y según la medida de amor
por los hijos lejanos. Hoy, soy yo
quien te escribe" .Finalmente, dirás dos palabras
sobre aquel muchacho que huyó de noche con su chaquetilla
y algunos versos en el bolsillo. Pobre, tan impetuoso
lo matarán algún día en algún lugar.
"Cierto, recuerdo, fue en aquella escalerilla gris
de los lentos trenes que llevaban almendras y naranjas
a la boca del Imera, el río lleno de urracas,
de sal de eucaliptus. Pero ahora te agradezco,
-sólo esto quiero- con la misma ironía que pusiste
en mis labios, igual a la tuya.
Esa sonrisa me ha salvado de llantos y dolores.
No importa si ahora tengo alguna lágrima por ti,
por todos aquellos, que como tú esperan
y no saben qué. Ah, amable muerte,
no toquéis el reloj de cocina que golpea en el muro:
toda mi infancia ha pasado en el esmalte
de su esfera, en sus flores pintados;
no toquéis las manos, el corazón de los viejos.
es, Pero tal vez alguno responde. Ah, muerte piadosa,
muerte pudorosa,
Adiós, amada adiós dulcíssima mater".
Versión de Fernando Pezoa
CIUDAD MUERTA
Inútilmente, ¡oh manos!
removéis bajo el polvo:
la ciudad está muerta.
Sobre el Naviglio
todos oyeron el zumbar siniestro.
El ruiseñor en cuyo arpegio
se anunciaba el tramonto
cayó desde la antena del convento.
A qué buscar el pozo
si ya no tienen sed los vivos...
A qué palpar sus cuerpos
hinchados y rojizos:
dejadlos en su suelo;
dejadlos en su sitio,
que la ciudad ha muerto...
Versión de Carlos López Narváez
LA LLUVIA
He aquí la lluvia:
los aires callados remece,
y las golondrinas
-gaviotas de mínimos peces-
las aguas oscuras, tranquilas,
rizan en los lagos.
Un olor de heno
satura recintos y campos.
Y el año se va
sin dar un lamento,
ni lanzar un grito,
que un día más
pudiera ganar de improviso.
Versión de Carlos López Narváez
LA NOCHE SE VA
Ha muerto la Noche; la Luna
lentamente en el cielo se esfuma
y se deslíe sobre los canales.
Septiembre aún impera
sobre esta tierra de llanura;
los prados tienen la verdura
de los valles del sur en primavera.
Los compañeros he dejado;
el corazón entre los viejos muros,
he ocultado:
mi soledad se queda a recordarte!...
Pero despunta el día;
ya en las praderas
bate el pisar de los caballos.
TÚ también, más distante que la Luna,
vas por la lejanía.
Versión de Carlos López Narváez
NINGUNO
Tal vez soy un niño:
los muertos le causan pavura.
Sin embargo, a la muerte le clama
soltarlo de toda criatura
-niño, árbol, bestezuela-
de tantas cosas en que pulsan
corazones roídos de tristeza.
Es que no tiene ya qué dar
y las calles oscuras están,
y no encuentra, Señor, ser alguno
que logre, a tu vera,
ponerlo a sollozar.
Versión de Carlos López Narváez
REFUGIO
Al borde del tajo
se retuerce un pino
suspenso: curvado
cual una ballesta,
parece escrutar el abismo.
Las aves nocturnas
lo tienen de asilo;
y en horas profundas,
alas que se abaten
conturban el aire dormido.
Corazón en sombra:
suspenso tu nido
de una voz remota,
te pasas lo noche en atisbo.
Versión de Carlos López Narváez
Y SÚBITO LA NOCHE
Hendido por un rayo de sol
todo hombre está solo
sobre el corazón de la tierra;
de pronto,
la noche que cierra.
Versión de Carlos López Narváez
Y TU VESTIDURA ES BLANCA
Tienes la cabeza inclinada y me miras,
y tu vestidura es blanca,
y un seno asoma por el encaje
suelto sobre el hombro izquierdo.
Me rebasa la luz; tiembla
y toca tus brazos desnudos.
Vuelvo a verte. Palabras
cerradas y rápidas decías,
que ponían corazón
en el peso de una vida
que sabía de circo.
Profundo el camino
sobre el que descendía el viento
ciertas noches de marzo
y nos despertaba desconocidos
como la primera vez.