quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Walmir Ayala




Walmir Ayala


ESTAÇÃO

Na geladeira as frutas
escurecem de mortas
as peras são secretas
usinas de água doce,
um mamão decepado
mostra a íntima carne
e as goiabas oloram
seu verão serenado.

Mas são mortas e lentas
neste ofertório as frutas.
Um vapor congelado
contorna seu mistério.
E elas posam no ardor
do branco cemitério
de seu grave pomar.
E a geladeira inventa
surdo primaverar.

(Antologia poética, Ed. Leitura, Rio, I 965)
   


ARTE POÉTICA






Na adolescência eu queria escrever poemas eternos.
Poemas que não envelhecessem.
Aspirava os pensamentos abstratos, as idéias transcendentes,
jogava palavras como anzóis atrás de uma baleia azul.
Eu queria a estação permanente dos fatos,
aquela zona de mistério que transforma os acontecimentos
em reflexos cíclicos
de uma realidade essência.
Eu desprezava a transitoriedade, dava-me engulhos o trivial,
pousava meu dente na polpa indizível da transcendência.

Hoje eu pouso o coração da poesia na bandeja das coisas que passam,
eu sei que, como todas as civilizações,
a nossa tem um fim,
e já durou demais.
Eu sinto o cheiro de seu sangue congelado,
adivinho o pus acumulado sob sua pele túrgida.
Sei que seremos de repente uma sobrevivência arqueológica.
Por isso não ambiciono mais, para o meu poema, esta imaginária
duração,
esta idade virtual com pés de efêmero tato.
Não desejo para o gênero humano poemas capazes de sobreviver
à sua legítima história,
mergulho no cotidiano com um alívio e uma surpresa que me renovam
a vida.

Não quero mais fazer poemas que não sejam tributo do instante,
quero tocar o perecível e segurar entre os dedos sua respiração
oscilante. Faço poemas transitórios e fugazes.

Os poemas eternos eu deixo para a vida eterna.

Walmir Ayala 


                                     AQUÁRIO ACESO


Os peixes submersos dormem
Nadando um sonho enorme
- o aquário é breve e claro,
com selvas silenciosas
que o todo-poderoso
nutre de grão e larva.


No entanto os peixes dormem.
Qualquer tremor das águas
e nadam aclarados
sonhando-se acordados
sonhando-se acordados.






POMAR ABERTO


Teu doloroso cheiro de laranjas
inventa este pomar que me embriaga
há vespas inflamadas e um luar
enclausura em teu peito a rosa amarga
deste gemido em que és como o desenho
de um rosto antigo, de um sorriso em pedra
(eterno e solitário). Este sorriso
que de repente no silêncio medra
e corta os fios da noite em que viajo
para os sempres de mim, tão decididos:
então nos laranjais escuto o adágio,
e o coração que ocultas é sonoro
como a ilha do amor em que me perco
e onde me salvo, e para sempre choro.










A Maria Helena Cardoso


O REINO


A José Olimpio Vasconcelos

Época de goiabas — no meu quarto
o aroma delas se incrustou no gesso
do cavalo troiano que o lagarto
cavalga; e estas goiabas de comêço
de estação sobrenadain o hausto farto
do olfato — o meu cavalo escarva o avêsso
do branco onde se funde e em cujo parto
goiabas e lagartos têm seu preço.

Assim meu quarto esta estação de aroma
envolve - e das goiabas me apercebo
que é tudo hora frutal que em tudo assoma;

e tenho para reino os meses quatro
do aroma de goiaba, e é minha carne
o gesso em que cavalgam, tais lagartos.


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Domingo


O domingo é um refúgio,
uma grande sala com candelabros bizarros
mas sem conforto.

É um relógio sem medo, uma cadeira sem encosto.


O azeite da vida começa sempre amanhã.
Olhamos o domingo como se fosse a máscara
dissimulada – atrás dela o punhal ou o mel.


Passeamos nos domingos como as feras em suas jaulas.
Tentamos perceber o grande acontecimento que não chega,
porque até os mortos, geralmente, deitam-se ontem
em seus leitos acolchoados.


O domingo é um touro sozinho numa arena.




METAL DE OURO

Metal de ouro e não ouro — bronze (ninho
do som) — falsa retórica. Metal
dado a azinhavre e pátina e ferrugem,
sino de antecedência dos que mugem:

bois; e vêem dois, os sinos combatendo
nos arcos de pescoços amorosos,
bronze alado e de feno, mais que o treno
das aves nos estercos vegetais.

Ardendo na pupila o ouro da tarde,
e o triturado trigo impregnando
de ouro os cascos e as crinas. Animais

rompendo ares bucólicos, as carnes
luzindo, os chifres áureos digladiando,
e a hora sôbre os corpos auriamando.




FILIAÇÃO

Ando buscando minha mãe e a hora
sêca me dá seu ventre sem memória.
Reclamo o leite e me assedia a asa
de uma galera por meu mar em fora.

Depois penso escutar: palavra ou rasa
cintilação de praia. Os olhos cerro,
suspiro fundo e aqueço o frio corpo
que elegi para mãe no meu destêrro.


E assim constato que só posso o alheio
dispor organizando e que me faltam.
tradições: o arco mínimo de um seio.

E sinto o quanto Deus cm mim se apóia,
sou êle próprio e rasgo os véus de cinza
sou treva e sou espírito que bóia.



O AEROMOÇO

Dos cintos que se cinge, dos aéreos
subornos que respira;
das rotas que viaja, voajando,
(e voa a vida) — os alvos em que mira

Sendo a um tempo da flexa o sangue brando
e seu rotor e guia, o que percorre
o restrito arcabouço, o louro o moço
que no temor da mãe, freqüente, morre.

O dono da maçã desorientada
a um transporte nos étereos — o dono
de rebanhos, rebanhos e rebanhos...

Pastor, o que as ovelhas abandonam,
só, nos aços das asas isolado
entre cajados mudos e tamanhos.



CANTO DO REI

Rico de ouro não sou, porém. fabrico
o sol cada manhã, estendo penas
(pássaro matinal) e atinjo antenas
de desespêro no meu vôo ubiquo.

Se tu, pálio de párias, me condenas
à rude mendicância onde claudico,

abro a minha canção no espaço oblíquo
das tuas superadas açucenas.
Jardineiro não sou. Feitor dos astros,
recrio minha aurora de aderências
na prematura submersão dos mastros.

Nas quilhas dêstes barcos que me sobram,
é que o sol dos meus ouros se conforma,
e as luas do meu reino se desdobram.



É TEMPO

É tempo das auroras de tão gastas
rasgarem seus cabelos nos arames,
que andam touros rondando a graça livre
dos arautos de Deus nascidos homens.

É tempo das calçadas desservidas
de austero passo desejarem gládios
e que sejam de rótulas e nervos
as asas da arca para outra viagem.

E que coisas dirão que de tardias
terão sêlo de morte em cada espinho
(rosa?) melhor dizer: gente banida

(que de tal material se formam clãs);
e os que na Arca estão de si não sabem
mais do que o morto quando junta as mãos.



O ESPELHO

Efêmero, não sei se neste espelho
terei repetição do meu contôrno,
ou se já erguida a mão se esboça o tôrno
onde serei refeito. Amplo conselho

talvez disseque meu findar-se morno,
e o Artífice me aguarda, ileso e velho,
pondo-me paternal sôbre o joelho
à espera do devido e exato forno.

Depois, Pai tão maior, de amor ferido,
de um barro tão mais rubro há de engendrar-me
para dar-me feliz ao chão do olvido,

Mas sempre num espelho irei achar-me,
noutro chão, noutra vida, em barro ou vidro
onde me outorguem tempo de sonhar-me.



HOJE ME DÓI A VIDA COMO UM CRAVO

Hoje me dói a vida como um cravo
e morro de desejo de morrer,
sinto pelo meu sangue se acender
a aurora de infortúnio em que me lavo.

Que vale desta forma receber
o dom da luz, o lídimo conchavo
de cada dia, se a carpir me agravo
no sítio onde devera florescer?

Hoje me dói o sol na córnea gasta
de tanto pranto não vertido, e adeja
a asa da solidão em minha carne.

Percorro como um louco iconoclasta
o adro de mim, o grito, sem que veja
instrumento melhor para quebrar-me.



A ROSA E O RIO

Ó tu de couro, de ouro e de granito
mas sempre rosa, sempre colunada
fronte de solidão, tristeza alada
e prêsa entre dois portos do infinito,


Cativa que do caule ao rude grito
a nada mais consente a côr velada,
raiz de espinho, face deplorada
pelo vento inconstante em rumo aflito.


Mas não te deixam olhos tão fugazes
pois nos meus ficas, transitórias e eterna,
e em meus rios de versos te desfazes;

mas não de todo, pois na minha mágoa
resta a inédita forma livre e interna:
rosa de seixo, areia, espuma e água.



POSTAL

O mar, postal, é verde, ou não, cerúleo —
o mar é mar de crinas, potro e lastro
onde têxteis côres dão a aguda
forma de suas barracas: árvore e astro.

Arvore pela sombra, astro no muito
de universo que lado a lado formam...
O mar, postal, não vê que cada mastro
ao longe é êle que cumpre seu circuito.

Mas tanto muda que se desampara
e crava, e da janela vou tangendo
nêle meu coração de asas e espuma.

O mar, postal, é orgia que carrego
por outros mares de aço, de concreto
e de tôrres, sem lágrima nenhuma,



O MANEQUIM

Tua cera é precoce, em que abelha, em que rosa
em que filtro, em que sêca e empedernida forma,
em que sôpro êstes lábios, e o nariz em que olfato
nutriu cova e mucosa — em que tuba esta orelha?

E esta bôca fingida e a destroçada abelha
de asas despedaçadas por dedos de meninos,
de alfinetes no ventre e zumbindo, e zumbindo
lamentos pequeninos.

E êste silêncio morto e êstes braços portáteis
com ensaios de abraço, e êstes tecidos breves
armados no estertor da mudez prematura.

E êstes cactos nos pés, nos desertos artelhos,
êste tórax fugaz onde brota o legume
de um segrêdo floral e apiário ciúme

[O edifício e o verbo. Rio de Janeiro, São José, 1961]


A MINHA MORTE SÃO AS COISAS

A minha morte são as coisas

e não poder retê-las,

é a matéria que existe

e resiste

à minha sorte,

como as estrelas.



A minha morte é a manhã

que se estende claríssima

sem temor, é este amor

de só desesperança,

como um clamor.



A minha morte é esta voz

por que a garganta enseia

e não sabe,

ela cabe

inteira nos meus olhos

que a lágrima incendeia.



Sobretudo é

esta vontade

de chorar e ir chorando

como uma única pergunta

sem remédio:

até quando?



CRER

Creio em mim. Creio em ti. Deus, onde mora?

Na vontade de crer que me consente

humano e ardente.

No meu repouso em ti, que me alimenta.

No que vejo e recebo, nesta vara

florida num deserto, em meu maná

de agora e de jamais. Saber-me hoje

tão digno do tempo que me mata

é arder-me em Deus, e este saber me basta.



ISTO É TUDO

As urnas estão fechadas,

os corações estão mudos,

mas o amor paira e condena —

isto é tudo.



As mãos vão entrelaçadas,

o olhar é sereno e agudo,

e o amor é mais do que as almas —

isto é tudo.



A lágrima quase aponta,

O desejo é um breve escudo,

e o amor é quase nada —

isto é tudo.


PENHOR

Quanto pode valer um pássaro

de canto puro e goela solta

que gosta de carícia e se espreguiça

como qualquer amado amante?



O dono levou-o à penhora

por trinta e oito mil

cruzeiros. Diz

que vale o dobro.



Avaliado, não dá mais do que mil e quinhentos

diz o causídico do banco, e chama de brincadeira

esta causa de tão pessoal alcance.



Falando por seu advogado

o dono do pássaro diz

que o assunto é muito sério

e pede mesmo que o pássaro

seja tratado com carinho

pois cantando e recebendo amor

é que se prova valioso.



Neste poema, atentem, a palavra é tão banal,

mas o miolo é pura

poesia.

Difícil é contar como canta o pássaro.

Aí é que seríamos sublimes.





ARTE POÉTICA



Na adolescência eu queria escrever poemas eternos.

Poemas que não envelhecessem.

Aspirava os pensamentos abstratos, as idéias transcendentes,

jogava palavras como anzóis atrás de uma baleia azul.

Eu queria a estação permanente dos fatos,

aquela zona de mistério que transforma os acontecimentos

em reflexos cíclicos

de uma realidade essência.

Eu desprezava a transitoriedade, dava-me engulhos o trivial,

pousava meu dente na polpa indizível da transcendência.



Hoje eu pouso o coração da poesia na bandeja das coisas que passam,

eu sei que, como todas as civilizações,

a nossa tem um fim,

e já durou demais.

Eu sinto o cheiro de seu sangue congelado,

adivinho o pus acumulado sob sua pele túrgida.

Sei que seremos de repente uma sobrevivência arqueológica.

Porisso não ambiciono mais, para o meu poema, esta imaginária

duração,

esta idade virtual com pés de efêmero tato.

Não desejo para o gênero humano poemas capazes de sobreviver

à sua legítima história,

mergulho no cotidiano com um alívio e uma surpresa que me renovam

a vida.



Não quero mais fazer poemas que não sejam tributo do instante,

quero tocar o perecível e segurar entre os dedos sua respiração

oscilante. Faço poemas transitórios e fugazes.



Os poemas eternos eu deixo para a vida eterna.





Extraídos do livro Estado de Choque; a poesia de Walmir Ayala. São Paulo: Galeria Parnaso; Massao Ohno Editores, 1980. s.p.;






De

ÁGUAS COMO ESPADAS

São Paulo: LR Editores, 1983





A CAÇA



Os caçadores de homens varam a noite com seus olhos de punhal.

Levam os punhos cerrados cerrados e um desejo ardente de agressão.

Irmãos dos delinqüentes eles vasculham os ninhos poluídos

e esmagam com os saltos das botas as ninhadas perplexas.



Os caçadores e sua caça estão sobrepostos como camadas contíguas

de uma mesma era de terror.





ROTA



Quem elabora estas inúteis palavras

com que as coisas se ataviam,

e são indagações, gritos, silêncios

reticentes?



Quem,

me pergunta agora sobre a hora

que eu não quis habitar de qualquer signo,

infladas do nada do vento?

Direção

cujo gosto apenas eu percebo:

silenciosamente recortado,

recrio o labirinto.





PASSEIO



Passeio com meu filho pelo mundo

e é pouco para amá-lo este percurso.

Toco seus olhos de cristal escuro

e ele me vê robô, cavalo, urso.

Ele me vê raiz, me desafia,

briga e ama num elo conseqüente

com tudo os que é real, e me anuncia.



Passeio com meu filho à luz do dia,

e a luz fecunda a noite que nos une

num sonho latejante de silêncio.

Concentro-me de amá-lo com a uma

guarda a alucinação de seu perfume,

e penso, piso a terra, restituo

em dom de amar a amarga antecedência

do filho que eu não fui e que construo.







De
CANTANTA

Poemas
Rio de Janeiro: Edições GRD, 1966.




O CORPO



Girasol com manga rosa

pequeno corpo acendido

no corpo imenso do mundo

cornamusa sonorosa.



Manga rosa, manga rosa,

rosa do clamor profundo

rosa, de fruto e de flor.



Eu de pedra, tu de incenso.

Tu de lume, eu de amargor.



Girasol com manga rosa,

muletas de mudo amor,

cada espádua madurando

sumos — e a rosa cravando

no sono arestas do rosa

na doce manga aflorando.



Girasol com manga rosa,

repousa, que repousando

vão os andores da santa

rosa, e que te vão levando

pela doçura da manga,

pequena rosa que gira,

sol a pino, gira, rosa

mortal te dilapidando.



Girasol com manga rosa,

qual o verão? Onde? Quando?.





PROTESTO



Não é no teu corpo que se imola

para a ceia dos meus sentidos

a vítima núbil, a áurea mola

que cinge o amor recente aos idos.



Mas é também no teu corpo que corre

o sangue que o meu sangue socorre.



Não é no teu corpo que se ergue

a guerra fria dos meus nervos.



nem nasceram tuas transparências

para a cegueira dos meus dedos.



Mas é também no teu corpo insano

que perscruto meu desconforto humano.



Não é no teu corpo, nos teus olhos

de fauno, que colho as minhas ditas,

nem o jasmim de tua boca flore

para a visão que me solicita.



Mas é também no teu corpo único

que o amor à forma do Amor reúno.



Não é no teu corpo que concentro

minha sede (esta sede ferina

que morre de seu farto alimento

e vive de quanto se elimina)



Mas é também teu corpo a medida

destas águas sobre a minha ferida.



Não é no teu corpo, mas é tanto

no teu corpo meu último refúgio,

que amoroso e em pânico me insurjo

contra a fonte que és: júbilo e pranto.



Mas é também no teu corpo o tudo

da solidão em que me aclaro e escudo.

Em teu corpo, canal que brande e acalma
minha alma, este pássaro árduo e mudo
na estranha migração da tua alma.





De
O EDIFÍCIO E O VERBO
Rio de Janeiro: Livraria São José, 1961



O COMEDOR



Não sei que posição tomar sentado à mesa.

O cadáver aberto à minha frente, a salsa, o azeite

e o olhar de quem me chamará de hiena.



O cadáver de meu irmão, olhos vazados,

posição hirta, e eu como trincar

assim, todo enredado de piedade?



Garfo e faca. A lâmina se estira

e nem ruído fará na polpa. Ah, bom tempero,

sei de teu gosto intacto nas mandíbulas

minhas, já tão cansadas desta fome.



A parte mais amorfa me contenta

a que eu não saiba coxa, orelha, lombo...
Mas chamarão de hiena, eu sei, a gente

que te come voraz, vendo que hesito

e gritarão quando cravar

dente em teu corpo macio, irmã Vitela..



Saio daqui, da mesa, onde te expões

nadando o molho do teu próprio sangue.

Eu me recuso, pois teu osso como um cetro

esmagará meu crânio deglutido,

e eu, teu devorador, sendo engolido

pelo acéfalo tempo, mais banquetes

manterei nestas mesas imaturas.





O REINO


A José Olímpio Vasconcelos


Época de goiabas — no meu quarto
o aroma delas se incrustou no gesso
do cavalo troiano que o lagarto
cavalga; e estas goiabas de começo



de estação sobrenadam o hausto farto
do olfato — o meu cavalo escarva o avesso
do branco onde se funde e em cujo parto
goiabas e lagartos têm seu preço.



Assim meu quarto esta estação de aroma
envolve — e das goiabas me apercebo
que é tudo hora frutal que em tudo assoma;



e tenho para reino os meses quatro
do aroma de goiaba, e é minha carne
o gesso em que cavalgam tais lagarto





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TEXTOS EM ESPAÑOL



WALMIR AYALA

Trad. Pilar Gómez Bedate





MI MUERTE SON LAS COSAS

Mi muerte son las cosas

y no poder asirlas,

la materia que existe

y resiste

a mi suerte,

como las estrellas.



Mi muerte es la mañana

que se extiende clarísima

sin temor, y este amor

de mi desesperanza

sola, como un clamor.



Mi muerte es esta voz

que la garganta ansía

y no cabe,

entera cabe

en estos ojos míos

que la lágrima incendia.



Sobre todo es

este deseo

de llorar e ir llorando

con una única pregunta:

¿hasta cuándo?



CREER

Creo en mí. Creo en ti. Dios, ¿dónde vive?

En el afán de fe que me consiente

humano y ardiente.

En mi reposo en ti, que me alimenta,

en lo que veo y tomo, en esta vara

florida en un desierto, en mi maná

de ahora y de por siempre. Este hoy saberme

merecedor del tiempo que me mata

es abrasarme en Dios, y esta saber me basta.



ESTO ES TODO

Las urnas están cerradas,

los corazones están mudos,

peor el amor paira y condena:

esto es todo.



Las manos van entrelazadas,

la mirada es serena y aguda,

y el amor es más que las almas:

esto es todo.



La lágrima casi apunta,

el deseo es un breve escudo,

y el amor es casi nada:

esto es todo.



Extraídos de la REVISTA DE CULTURA BRASILEÑA, Tomo IV, septiembre 1965, número 4, p. 312-321. Edición de la Embajada de Brasil en Madrid, España.

POEMA À MÁQUINA DE MOER CARNE

O perfil da máquina
tem muito de gótico,
mói por dentro a carne,
por fora é um pórtico
onda a alma da carne
lava seu delito.
Numa cruz geométrica
justapõe-se a máquina:
nem canta nem pensa,
mais que nunca espera
que a mão saturada
lhe dê movimento,
e um corpo de sangue,
de músculo e vento
vai sendo crivado
de dentes secretos,
de ocultas agulhas,
de engrenagens surdas,
e se transformando
em carne moída.
Assim como a vida.


##############


O supermercado




Eu estava selecionando uns pés de couve-flor quando meu marido me disse: "Espere um momento que vou cumprimentar Heloisa". Não levantei os olhos do balcão das verduras nem sequer pensei que só poderia ser aquela Heloisa, uma mulher forte e invulnerável cuja estabilidade doméstica tinha sido até motivo de inveja para mim algumas vezes. Meus dedos correram por sobre as alfaces, remexi os tomates, pesei uma quantidade de cenouras, e nem ergui os olhos para ver para onde ele se dirigira, para ver onde estaria Heloisa. Andei puxando o carrinho que ele deixara ao meu lado, com a mercadoria meticulosamente arrumada, à sua maneira. As salsichas junto com a manteiga, os iogurtes e os queijos suportando a caixa de ovos, os pacotes de arroz e feijão acolchoando a leveza dos biscoitos. Andei pelos corredores de gêneros variados mas já não escolhi nada. Nem sequer passei os olhos pela lista que a empregada me entregara ao sair de casa. Prestei muita atenção em todas as coisas, aquelas naturezas mortas, oferecendo-se. A vitrine das carnes, os buchos e fígados, a nobreza dos filés, rubores suspensos iluminados de uma claridade valorativa de suas nuances de sangue. As laranjas, as batatas, os abacaxis, os grandes balcões de salgados, carnes secas, toucinhos, despojos de seres mortos e conservados num requinte de temperos. As caixinhas de gelatina, com as frutas impressas em cores inesquecíveis, disfarçando os sabores artificiais que a empregada atenuaria com frutas e cremes de baunilha e morango, com claras batidas e outros recursos de enriquecer aquelas doçuras transparentes e monótonas.

Não procurei meu marido, embora imaginasse que num momento esbarraria com ele e Heloisa, sabendo que estariam falando do jardim, das plantas exóticas que Heloisa tinha o dom de descobrir em chácaras distantes. Ou então de uma raça de galinhas poedeiras, cujos ovos de grande valor nutritivo não poderiam ser comparados àqueles de gema vermelha, que eu tinha escolhido mecanicamente no correr da tarde. Não é que Heloisa quisesse comparativamente me subestimar, mas ela era assim, e eu é que me subestimava junto dela. Se é que a Heloisa que meu marido fora saudar era aquela que eu supunha.

Passei duas horas andando com aquele carrinho, sem acrescentar um grão ao já escolhido. Parei na lanchonete e comi uma coxinha de galinha. A fome pousada em meu lábio não determinou o menor luxo seletivo. Comi a coxinha de galinha como podia ter comido o cachorro quente ou o rizzoli, só para sobreviver. Pensei num momento em procurar meu marido mas desisti "ele deve estar falando com Heloisa". Olhei o pátio do supermercado e vi nosso carro. Ele está com a chave. Vasculhei a bolsa de dinheiro e verifiquei que a chave estava comigo. Eu não dirigia há tanto tempo. Ele voltaria? Que importância tinha isso, eu precisava ir embora. Foi o guarda que me alertou "vai fechar". Eu era a última freguesa a andar por aqueles corredores e notei que as moças das caixas me olhavam com ar cansado e irritado. Estavam tão tristes que eu tive vontade de chorar, de lamentar seu destino vendido tão barato, horas e horas apertando botões de máquinas registradoras em troca do dinheiro da passagem e da comida. Vi-as todas muito humilhadas, mas ainda pela necessidade de aceitarem o jogo daquela maneira enquanto invisíveis e gordos os donos das alcachofras e dos presuntos rolavam entre os lábios charutos de Havana.

Paguei e saí. Onde estaria meu marido? E Heloisa? Coloquei as compras no carro e rodei pelo bairro, tentando reconhecer um ou outro. Depois decidi ir para casa.

A empregada me recebeu como se nada tivesse acontecido, sequer me perguntando pelo adiantado da hora. Recolheu as compras e preparou-me o banho. Mergulhei na banheira de água quente. Quase adormeci. A água, ao esfriar, fez-me voltar à realidade. Fui para cama. O telefone não tocou. No dia seguinte muito cedo voltei ao supermercado sem ter contado a ninguém o acontecido. Tive medo de estar sendo ridícula, ou louca. Que me dissessem de repente "Que marido?". Ou, o que era pior, "olha ele ali". Fiquei todo o tempo rodando entre aqueles corredores, como se fosse coisa dali, uma das moças das caixas, ou mesmo uma das máquinas registradoras. Saí, no fim do expediente, sem ter comprado nada.

No terceiro dia é que eu descobri que o supermercado tinha andares diversos, escadas rolantes. Andei de cima para baixo, de baixo para cima, e parecia que os lugares eram sempre outros, como num labirinto. Fiquei feliz de andar por caminhos novos, onde poderia esbarrar com meu marido e ouvir ele dizer "— Que sorte você chegar já ia ao seu encontro". Eu sabia que isso não ia acontecer porque meu marido e Heloisa deveriam estar como eu, perdidos naquele labirinto, com espelhos multiplicando as caixas das douradas uvas, e os pêssegos e nêsperas tocadas de raras abelhas. Comecei a sentir que me desprendia dos valores antigos, e que só me interessava trilhar aquele caminho sem fim, no qual ele estaria sempre adiante, e eu atrás, sem ponto de encontro, sem retorno. Eu teria sonhado a minha vida? Ou estaria agora entrando num sonho maior? Senti-me tonta, percebi que minha roupa estava suja e que a urina corria pelas minhas pernas abaixo. Senti o grande peso da solidão, pela primeira vez. Indaguei a mim mesma qual o caminho a seguir, mas antes de me responder vi que me amparavam e levavam para determinado lugar, um lugar muito branco, com uma mesa muito branca onde eu comecei a adormecer. Deixei que cuidassem de mim, com um sorriso de infantil prazer me corrigindo os lábios. Quando voltei a mim já não reconheci o mundo que me davam. Estava cada vez mais longe dele, mais longe. Buscando encontrá-lo e me distanciando, de tal maneira que se o visse agora talvez nem reconhecesse.


Walmir Félix Solano Ayala, poeta, romancista, crítico de arte, contista, memorialista e autor de literatura infantil, nasceu em Porto Alegre (RS) no dia 04/01/1933. Seu primeiro livro, "Face dispersa", foi publicado em 1955. Em 1956 mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro. Dentre suas mais de cem obras, destacamos: "Diário I (Difícil é o Reino)"; "A Beira do Corpo" (romance); "Chico Rei e a Salamanca do Jarau" (teatro); "A Toca da Coruja" (literatura infantil, Prêmio Nacional de Literatura Infantil do INL)"; "Ponte Sobre o Rio Escuro" (contos, Prêmio Nacional de Ficção do INL) e "A fuga do Arcanjo" (diário íntimo). O intelectual ora enfocado faleceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ) em 28/08/1991.


O texto acima foi extraído da antologia "Ficção - Histórias para o prazer da leitura", Editora Leitura - 2007, pág. 266, organização de Miguel Sanches Neto.



sábado, 1 de agosto de 2009

SHAKESPEARE SONETOS

SHAKESPEARE



Daquelas belas criaturas retorno ansiamos,
A que suas belezas nunca morram
E quando cair do tempo o Outono
Guardemos na memória sua herança.

E Tu, que só teus belos olhos amas,
Te alimentas apenas de tua própria chama
E produzes fome onde abundância existe
Por que teu suave ser é tão adverso?

Pois és do mundo agora o ornamento
És o único cantor da primavera
E recusas em ti o teu contentamento

Egoísta da natureza que há contigo
Do mundo não tens piedade, nem lamentas
Se colher no chão do túmulo o que te foi servido

(trad. Rogel Samuel)


LA POESIA DE
WILLIAM SHAKESPEARE
Jorge Luis Borges
.

«Shakespeare que tantos hombres fue, Shakespeare, que fue Macbeth y fue el rey Duncan, acuchillado por Macbeth, Macduff que mató a Macbeth, solía despojarse de esas máscaras que la forma dramática le imponía y ser William Shakespeare. En 1609 apareció su único libro íntimo, que consta de ciento cincuenta y cuatro sonetos y del poema titulado A Lover's Complaint (La queja de un amante). La impersonal portada sugiere que otro, no Shakespeare, fue el editor. Leemos así: Sonetos de Shakespeare, nunca hasta ahora impresos. La obra está dedicada al señor W.H., único padre (literalmente engendrador) de los siguientes sonetos .

La obra es intrincada y oscura, precisamente porque es íntima. Nos depara fragmentos cuyo contexto no será revelado, nos deja oír respuestas a preguntas cuya respuesta siempre será dudosa.

Estas incertidumbres, que han inspirado muy diversas hipótesis entre ellas una de Oscar Wilde, sugieren el suplicio de Tántalo, condenado, según se sabe, a morir eternamente de hambre y de sed, entre fuentes y frutas. Felizmente, esa analogía es del todo falsa. El espectáculo de las aguas y de las frutas no podían satisfacer el apetito de Tántalo: el lector puede prescindir del incierto sentido de los sonetos, y deleitarse con su música y sus imágenes. Citemos este ejemplo:


Music to hear'st zhou music sadly?
Sweet with sweets war not, joy delights in joy
El sentido es baladí; la forma es espléndida. Busquemos otro:

Not mine own fears, nor the prophetic soul
Of the wide world dreaming on things to come
Nuestra fe en el anima mundi, nuestro juicio, favorable o desfavorable, del panteísmo, nada, absolutamente nada, tienen que ver con la vasta y vaga majestad de las líneas citadas.
Transcribamos otro pasaje, que no me animo a traducir:


No, Time, thou shalt no boast that I do change;
Thy pyramids built up with newer might
To me are nothing novel, nothing strange,
They are but dressings of a former sight.
Se advierte en estos versos una alusión a la doctrina del tiempo circular, que profesaron los pitagóricos y los estoicos y que San Agustín refutó. También puede advertirse que Shakespeare descreía de novedades.
Técnicamente los sonetos de Shakespeare son, es indiscutible, inferiores a los de Milton, a los de Wordsworth, a los de Rossetti o a los de Swinburne. Incurren en alegorías momentáneas, que sólo justifica la rima y en ingeniosidades nada ingeniosas. Hay, sin embargo, una diferencia que no debo callar. Un soneto de Rossetti, digamos, es una estructura verbal, un bello objeto de palabras que el poeta ha construido y que se interpone entre él y nosotros; los sonetos de Shakespeare son confidencias que nunca acabaremos de descifrar, pero que sentimos inmediatas y necesarias.

Según el dictamen de Walter Pater, todas las artes aspiran a la condición de la música; parejamente, en el caso de estos sonetos, importa menos el dudoso sentido que la manifiesta hermosura. Swinburne los llama documentos divinos y peligrosos; se refiere, tal vez, a lo menos importante que puede darnos, el testimonio de una anormalidad que es asaz común y que no justifica ni la ostentación ni el oprobio.

El soneto isabelino consta de tres cuartetos decasílabos de rima cambiante y de un dístico rimado. Esta forma, ahora no menos grata a nuestro oído, se ha difundido por el mundo; baste recordar ciertas composiciones de La urna (1911) del injustamente olvidado Enrique Banchs. De los ciento cincuenta y cuatro sonetos del texto original, Manuel Mújica Láinez ha traducido con maestría cuarenta ocho. »









TRADUZIR SHAKESPEARE

Rogel Samuel

Canta o texto original de Shakespeare:

From fairest creatures we desire increase,
That thereby beauty’s rose might never die,
But as the riper should by time decease,
His tender heir might bear his memory:
But thou, contracted to thine own bright eyes,
Feed’st thy light’s flame with self-substantial fuel,
Making a famine where abundance lies,
Thyself thy foe, to thy sweet self too cruel
Thou that art now the world’s fresh ornament
And only herald to the gaudy spring,
Within thine own bud buriest thy content
And, tender churl, mak’st waste in niggarding.
Pity the world, or else this glutton be,
To eat the world’s due, by the grave and thee.

Foi traduzido por Ivo Barroso assim:

Dos seres ímpares ansiamos prole
Para que a flor do belo não se extinga,
E se a rosa madura o Tempo colhe,
Fresco botão sua memória vinga.
Mas tu, que só com os olhos teus contrais,
Nutres o ardor com as próprias energias
Causando fome onde a abundância jaz,
Cruel rival, que o próprio ser crucias.
Tu, que do mundo és hoje o galardão,
Arauto da festiva Natureza,
Matas o teu prazer inda em botão
E, sovina, esperdiças na avareza.
Piedade, senão ides, tu e o fundo
Do chão, comer o que é devido ao mundo.

A tradução de Manuel Mújica Láinez é:

De los hermosos el retoño ansiamos
para que su rosal no muera nunca,
pues cuando el tiempo su esplendor marchite
guardará su memoria su heredero.
Pero tú, que tus propios ojos amas,
para nutrir la luz, tu esencia quemas
y hambre produces en donde hay hartura,
demasiado cruel y hostil contigo.
Tú que eres hoy del mundo fresco adorno,
pregón de la radiante primavera,
sepultas tu poder en el capullo,
dulce egoísta que malgasta ahorrando.
Del mundo ten piedad: que tú y la tumba,
ávidos, lo que es suyo no devoren.


WILLIAM SHAKESPEARE

48 SONETOS DE AMOR

Tradução de
Manuel Mújica Láinez



I
De los hermosos el retoño ansiamos
para que su rosal no muera nunca,
pues cuando el tiempo su esplendor marchite
guardará su memoria su heredero.
Pero tú, que tus propios ojos amas,
para nutrir la luz, tu esencia quemas
y hambre produces en donde hay hartura,
demasiado cruel y hostil contigo.
Tú que eres hoy del mundo fresco adorno,
pregón de la radiante primavera,
sepultas tu poder en el capullo,
dulce egoísta que malgasta ahorrando.

Del mundo ten piedad: que tú y la tumba,
ávidos, lo que es suyo no devoren.


II
Cuando asedien tu faz cuarenta inviernos
y ahonden surcos en tu prado hermoso,
tu juventud, altiva vestidura,
será un andrajo que no mira nadie.
Y si por tu belleza preguntaran,
tesoro de tu tiempo apasionado,
decir que yace en tus sumidos ojos
dará motivo a escarnios o falsías.

¡Cuánto más te alabaran en su empleo
si respondieras : - « Este grácil hijo
mi deuda salda y mi vejez excusa »,
pues su beldad sería tu legado!

Pudieras, renaciendo en la vejez,
ver cálida tu sangre que se enfría.


III
Mira a tu espejo, y a tu rostro dile:
ya es tiempo de formar otro como éste.
Si no renuevas hoy su lozanía,
al mundo engañas y a una madre robas.
¿Quién es la bella del intacto seno
que tu cultivo marital desdeñe?
y ¿quién tan loco para ser la tumba
de un amor egoísta sin futuro?

Tu madre encuentra en ti, que eres su espejo,
la gracia de su abril, su primavera;
así, de tu vejez por las ventanas,
aunque mustio, verás tu tiempo de oro.

Mas si pasar prefieres sin memoria,
muere solo y tu imagen morirá.


IV
Derrochador de encanto, ¿por qué gastas
en ti mismo tu herencia de hermosura?
Naturaleza presta y no regala,
y, generosa, presta al generoso.
Luego, bello egoísta, ¿por qué abusas
de lo que se te dio para que dieras?
Avaro sin provecho, ¿por qué empleas
suma tan grande, si vivir no logras?

Al comerciar así sólo contigo,
defraudas de ti mismo a lo más dulce.
Cuando te llamen a partir, ¿qué saldo
podrás dejar que sea tolerable?

Tu belleza sin uso irá a la tumba;
usada, hubiera sido tu albacea.


V
Las horas que gentiles compusieron
tal visión para encanto de los ojos,
sus tiranos serán cuando destruyan
una belleza de suprema gracia:
porque el tiempo incansable, en torvo invierno,
muda al verano que en su seno arruina;
la savia hiela y el follaje esparce
y a la hermosura agosta entre la nieve.

Si no quedara la estival esencia,
en muros de cristal cautivo líquido,
la belleza y su fruto morirían
sin dejar ni el recuerdo de su forma.

Mas la flor destilada, hasta en invierno,
su ornato pierde y en perfume vive.


VI
No dejes, pues, sin destilar tu savia,
que la mano invernal tu estío borre:
aroma un frasco y antes que se esfume
enriquece un lugar con tu belleza.
No ha de ser una usura prohibida
la que alegra a quien paga de buen grado;
y tú debes dar vida a otro tú mismo,
feliz diez veces, si son diez por uno.

Más que ahora feliz fueras diez veces,
si diez veces, diez hijos te copiaran:
¿qué podría la muerte, si al partir
en tu posteridad siguieras vivo?

No te obstines, que es mucha tu hermosura
para darla a la muerte y los gusanos.


VII
¡Ve! si en oriente la graciosa luz
su cabeza flamígera levanta,
los ojos de los hombres, sus vasallos,
con miradas le rinden homenaje.
Y mientras sube al escarpado cielo,
como un joven robusto en su edad media,
lo siguen venerando las miradas
que su dorada procesión escoltan.

Pero cuando en su carro fatigado
deja la cumbre y abandona al día,
apártanse los ojos antes fieles,
del anciano y su marcha declinante.

Así tú, al declinar sin ser mirado,
si no tienes un hijo, morirás.


XV
Cuando pienso que todo lo que crece
su perfección conserva un mero instante;
que las funciones de este gran proscenio
se dan bajo la influencia de los astros;
y que el hombre florece como planta
a quien el mismo cielo alienta y rinde,
primero ufano y abatido luego,
hasta que su esplendor nadie recuerda:

la idea de una estada tan fugaz
a mis ojos te muestra más vibrante,
mientras que Tiempo y Decadencia traman
mudar tu joven día en noche sórdida.

Y, por tu amor guerreando con el Tiempo,
si él te roba, te injerto nueva vida.


XVI
¿Y por qué no es tu guerra más pujante
contra el Tirano tiempo sanguinario;
y contra el decaer no te aseguras
mejores medios que mi rima estéril?
En el cenit estás de horas risueñas.
Los incultos jardines virginales
darían para ti vivientes flores,
a ti más semejantes que tu efigie.

Tendrías vida nueva en vivos trazos,
pues ni mi pluma inhábil ni el pincel
harán que tu nobleza y tu hermosura
ante los ojos de los hombres vivan.

Si a ti mismo te entregas, quedarás
por tu dulce destreza retratado.


XVII
¿Quién creerá en el futuro a mis poemas
si los colman tus méritos altísimos?
Tu vida, empero, esconden en su tumba
y apenas la mitad de tus bondades.
Si pudiera exaltar tus bellos ojos
y en frescos versos detallar sus gracias,
diría el porvenir: « Miente el poeta,
rasgos divinos son, no terrenales ».

Desdeñarían mis papeles mustios,
como ancianos locuaces, embusteros;
sería tu verdad « transporte lírico »,
« métrico exceso » de un « antiguo » canto.

Mas si entonces viviera un hijo tuyo,
mi rima y él dos vidas te darían.



XVIII
¿A un día de verano compararte?
Más hermosura y suavidad posees.
Tiembla el brote de mayo bajo el viento
y el estío no dura casi nada.
A veces demasiado brilla el ojo
solar, y otras su tez de oro se apaga;
toda belleza alguna vez declina,
ajada por la suerte o por el tiempo.

Pero eterno será el verano tuyo.
No perderás la gracia, ni la Muerte
se jactará de ensombrecer tus pasos
cuando crezcas en versos inmortales.

Vivirás mientras alguien vea y sienta
y esto pueda vivir y te dé vida.


XVIII
¿A un día de verano compararte?
Más hermosura y suavidad posees.
Tiembla el brote de mayo bajo el viento
y el estío no dura casi nada.
A veces demasiado brilla el ojo
solar y otras su tez de oro se apaga;
toda belleza alguna vez declina,
ajada por la suerte o por el tiempo.
Pero eterno será el verano tuyo.
No perderás la gracia, ni la Muerte
se jactará de ensombrecer tus pasos
cuando crezcas en versos inmortales.

Vivirás mientras alguien vea y sienta
y esto pueda vivir y te dé vida.



XIX
Mella, Tiempo voraz, del león las garras,
deja a la tierra devorar sus brotes,
arranca al tigre su colmillo agudo,
quema al añoso fénix en su sangre.
Mientras huyes con pies alados, Tiempo,
da vida a la estación, triste o alegre,
y haz lo que quieras, marchitando al mundo
Pero un crimen odioso te prohíbo:

no cinceles la frente de mi amor,
ni la dibujes con tu pluma antigua;
permite que tu senda sìga, intacto,
ideal sempiterno de hermosura.

O afréntalo si quieres, Tiempo viejo:
mi amor será en mis versos siempre joven.



XX
Pintado por Natura el rostro tienes
de mujer, dueño y dueña de mi amor;
y de mujer el corazón sensible
mas no mudable como el femenino;
tus ojos brillan más, son más leales
y doran los objetos que contemplas;
de hombre es tu hechura, y tu dominio roba
miradas de hombres y almas de mujeres.

Primero te creó mujer Natura
y, desvariando mientras te esculpía,
de ti me separó, decepcionándome,
al agregarte lo que no me sirve.

Si es tu fin el placer de las mujeres,
mío sea tu amor, suyo tu goce.



XXI
No me sucede lo que a aquel poeta
que versifica a una beldad pintada,
y al cielo mismo empleá como adorno,
midiendo cuánto es bello con su bella;
y en henchidas imágenes la acopla
al sol, la luna y a las gemas ricas
y a las flores de abril y a las rarezas
que el aire envuelve en este globo vasto.

Sincero amante, la verdad escribo.
Mi amor es tan gentil, podéis creerme,
como cualquier hijo de madre, y brilla
menos que las candelas celestiales.

Dejad que digan más los habladores;
yo no quiero ensalzar lo que no vendo.


XXII
No creeré en mi vejez, ante el espejo,
mientras la juventud tu edad comparta;
sólo cuando los surcos te señalen
pensaré que la muerte se aproxima.
Si toda la hermosura que te cubre
es el ropaje de mi corazón,
que vive en ti, como en mí vive el tuyo,
¿cómo puedo ser yo mayor que tú?

Por eso, amor, contigo sé prudente,
como soy yo por ti, no por mi mismo;
tu corazón tendré con el cuidado
de la nodriza que al pequeño ampara.

No te ufanes del tuyo, si me hieres,
pues me lo diste para no volverlo.


XXXIV

Como actor vacilantc en el proscenio
que temerosó su papel confunde,
o como el poseído por la ira
que desfallece por su propio exceso,
así yo, desconfiando de mí mismo,
callo en la ceremonia enamorada,
y se diría que mi amor decae
cuando lo agobia la amorosa fuerza.

Deja que la elocuencia de mis libros,
sin voz, transmita el habla de mi pecho
que pide amor y busca recompensa,
más que otra lengua de expresivo alcance.

Del mudo amor aprende a leer lo escrito,
que oír con ojos es amante astucia.



XXIV
Pintores son mis ojos: te fijaron
sobre la tabla de mi corazón,
y mi cuerpo es el marco que sostiene
la perspectiva de la obra insigne.
A través del pintor hay que mirar
para encontrar tu imagen verdadera,
colgada en el taller que hay en mi pecho
al que brindan vencanas cus dos ojos.

Y observa de los ojos el servicio:
los míos diseñaron tu figura,
los tuyos son ventanas de mi pecho
por las que atisba el sol, feliz de verte.

Mas algo falta al arte de los ojos:
dibujan lo que ven y al alma ignoran.



XXV
Que los favorecidos por los astros
de honores y de títulos se ufanen;
yo, que la suerte priva de esos triunfos,
hallo mi dicha en lo que más venero.
Los favoritos de los grandes príncipes
abren al sol sus hojas cual caléndulas,
y su orgullo sepultan en sí mismos
pues los abate un ceño que se frunce.

El célebre guerrero laborioso,
derrocado una vez tras mil victorias,
es del libro de honores suprimido
y de su gesta lo demás se olvida.

Feliz de mí, que amando soy amado,
y ni cambiar ni ser cambiado puedo.


XXVI
Señor del amor mío, cuyo mérito
obliga mi homenaje de vasallo,
te envío esta embajada manuscrita,
mi devoción probando y no mi ingenio.
Grande es mi devoción: mi pobre espíritu
la muestra sin ropaje de vocablos
y espera, aunque desnuda, que en tu alma
le dé tu comprensión sucil albergue;

hasta que el astro que mi andanza guía
me señale con brillo favorable,
y al ornar mis andrajos amorosos
haga que yo merezca que me mires.

Así podré exhibir mi amor ufano,
pero hasta entonces rehuiré la prueba.


XXVII
Extenuado, hacia cl lecho me apresuro
a calmar mis fatigas de viajero,
pero empieza en mi ánimo otro viaje,
cuando acaban del cuerpo las faenas.
Porque mis pensamientos, alejándose
en tu busca, celosos peregrinos,
de mis párpados abren el agobio
a la tiniebla que los ciegos miran.

Sólo que mi visión imaginaria
trae tu sombra hasta mis ojos ciegos,
como un joyel que cuelga de la noche
y el rostro oscuro le rejuvenece.

Así, por ti y por mí, nunca reposan
de día el cuerpo y a la noche el alma.


XXIX
Cuando hombres y Fortuna me abandonan,
lloro en la soledad de mi destierro,
y al cielo sordo con mis quejas canso
y maldigo al mirar mi desventura,
soñando ser más rico de esperanza,
bello como éste, como aquél rodeado,
deseando el arze de uno, el poder de otro,
insatisfecho con lo que me queda;

a pesar de que casi me desprecio,
pienso en ti y soy feliz y mi alma entonces,
como al amanecer la alondra, se alza
de la tierra sombría y canta al cielo:

pues recordar tu amor es cal fortuna
que no cambio mi estado con los reyes.



XXX
Cuando en sesiones dulces y calladas
hago comparecer a los recuerdos,
suspiro por lo mucho que he deseado
y lloro el bello tiempo que he perdido,
la aridez de los ojos se me inunda
por los que envuelve la infinita noche
y renuevo el plañir de amores muertos
y gimo por imágenes borradas.

Así, afligido por remotas penas,
puedo de mis dolores ya sufridos
la cuenta rehacer, uno por uno,
y volver a pagar lo ya pagado.

Pero si entonces pienso en ti, mis pérdidas
se compensan, y cede mi amargura.



XXXI
Los corazones que supuse muertos
pues me faltaban, a tu pecho ocupan;
en él reinan amor y sus virtudes
y los amigos que creí enterrados.
¡ Cuánta lágrima pía de mis ojos
robó el amor leal por esos muertos
que no son más que seres que han cambiado
de lugar y que yacen en ti ocultos!

Tú eres la tumba donde vive amor;
de mis amores los trofeos te ornan;
cada uno te dio mi parte suya
y ahora es tuyo el bien que fue de muchos.

Veo en ti las imágenes que amé:
soy tuyo entero pues las tienes todas.



XXXII
Si a mis días colmados sobrevives,
y cuando esté en el polvo de la Muene
una vez más relees por ventura
los inhábiles versos de tu amigo,
con lo mejor de tu época compáralos,
y aunque todas las plumas los excedan,
guárdalos por mi amor, no por mis rimas,
superadas por hombres más felices.

Que tu amor reflexione: «Si su Musa
crecido hubiera en esta edad creciente,
frutos más caros a su edad le diera,
dignos de incorporarse a tal cortejo:

pero ha muerto; en poetas más notables
estilo buscaré y en él amor».


XXXIII
He visto a la mañana en plena gloria
los picos halagar con su mirada,
besar con su oro las praderas verdes
y dorar con su alquimia arroyos pálidos;
y luego permitir el paso oscuro
de fieros nubarrones por su rostro,
y ocultarlo a la tierra abandonada
huyendo hacia occidente sin ventura.

Así brilló mi sol, un día, al alba,
sobre mi frente, con triunfal belleza;
una hora no más lo he poseído
y hoy me lo esconden las aéreas nubes.

No desdeñes mi amor: si el sol del cielo
se eclipsa, han de velarse los del mundo.


XXXIV

¿Por qué me prometiste un día hermoso
y a viajar sin mi capa me obligaste,
si me dejaste sorprender por nubes
que en su bruma ocultaron tu destello?
No me basta que surjas de la niebla
y que la lluvia enjugues en mi rostro,
pues no ha de ponderar ninguno el bálsamo
que cicatriza pero no remedia.

Ni tu vergüenza a mi dolor aplaca,
ni tu remordimiento a lo perdido:
del ofensor la pena poco alivia
a quien la cruz soporta del agravio.

Pero tus lágrimas de amor son perlas
y su riqueza todo el mal rescata.



XXXV
No te acongojes más por lo que has hecho;
fango y espina tienen fuente y rosa;
a la luna y al sol vela el eclipse;
vive el gusano en el capullo suave.
Todos cometen faltas, yo también
pues disculpo con símiles la tuya,
y por justificarte me corrompo
y excuso tus pecados con exceso.

A tu yerro sensual le doy mi ayuda;
de opositor me vuelvo tu abogado
y comienzo a pleitear contra mí mismo.
Tanto el amor y el odio en mí combaten

que no puedo dejar de ser el cómplice
del ladrón tierno que cruel me roba.



XXXVI
Déjame confesar que somos dos
aunque es indivisible el amor nuestro,
así las manchas que conmigo quedan
he de llevar yo solo sin tu ayuda.
No hay más que un sentimiento en nuestro amor
si bien un hado adverso nos separa,
que si el objeto del amor no altera,
dulces horas le roba a su delicia.

No podré desde hoy reconocerte
para que así mis faltas no te humillen,
ni podrá tu bondad honrarme en público
sin despojar la honra de iu nombre.

Mas no lo hagas, pues te quiero tanto
que si es mío tu amor, mía es tu fama.


XXXVII
Como un padre decrépito disfruta
al ver de su hijo las empresas jóvenes,
así yo, mutilado por la suene,
en tu lealtad y mérito me afirmo.
Pues sea la hermosura o el linaje,
el poder o el ingenio, uno o todos,
quien te corone con mejores títulos,
yo incorporo mi amor a esa riqueza.

Ni pobre ni ofendido soy, ni inválido,
que basta la substancia de tu sombra
para colmarme a mí con su opulencia,
y de una parte de tu gloria vivo.

Busca, pues, lo mejor: te lo deseo;
seré feliz diez veces, si lo hallas.


XXXVIII
¿Cómo puede buscar temas mi Musa
mientras cú aliencas, que a mi verso infundes
tu dulce inspiración, harto preciosa
para exponerla en un papel grosero?
Agradécete a ti, si algo de mi obra
digno de leerse encuentra tu mirada:
¿quién tan mudo será que no te escriba
cuando tu luz aclara lo que invenca?

Sé la décima Musa y sé diez veces
mejor que las antiguas invocadas,
y otorga a quien te invoque eternos versos
que sobrevivan a lejanos siglos.

Si al futuro censor mi Musa encanta,
mía será la pena y tuyo el lauro.


XXXIX
¿Cómo puedo elogiarte con modestia
cuando tú eres de mí la mejor parte?
¿Qué me puede otorgar mi propio elogio
y qué hago con tu elogio sino el mío?
Vivamos separados, y que pierda
su nombre de indiviso nuestro amor,
para que pueda darte, al separarnos,
lo que mereces tú, tú solamente.

¡Oh ausencia, cuál sería tu suplicio,
si tu amarga quietud no nos dejara
burlar al tiempo en el amor pensando,
engaño dulce del pensar y el tiempo,

y no enseñaras a hacer dos con uno,
aquí elogiando a quien está distante!



XL
Toma, amor, todos, todos mis amores,
¿qué rnás posees de lo que tenías?
Ningún amor, mi amor, que sea cierto;
pues ya antes era tuyo todo el mío.
Si a quien me ama por mi amor recibes,
no puedo reprocharte que lo goces,
mas te reprocho tu perverso engaño
si rechazas mi amor y no al que me ama.

Ladrón gentil, me robas y te absuelvo
por más que me hurtes mis escasos bienes,
y eso que duelen más, amor lo sabe,
las heridas de amor que las del odio.

Gracia inconstante en quien el mal es bello,
no seas mi enemiga, aunque me mates.



XLI
Las dulces faltas en que osado incurres
si de tu corazón estoy ausente,
cuadran a tu hermosura y a tus años
porque la tentación siempre te sigue.
Te querrán conquistar, pues eres noble;
te querrán asediar, pues eres bello;
¿qué hijo de mujer, antes que triunfe,
dejará a una mujer cuando lo acosa?

¡Ay! deberías respetar mi sitio
y a tu edad reprender y tus encantos
que en su fuga te arrastran al extremo
de violar obligado una fe doble :

la de ella, que ha tentado tu hermosura;
la tuya, infiel a mí con su belleza.



XLII
No sólo sufro porque la posees,
aunque en verdad la quise con ternura,
más hondo es mi dolor porque eres suyo
y esa pérdida siento más cercana.
Así disculpo vuestra ofensa, amantes:
tú la quieres pues sabes que la quiero,
y ella me engaña por amor de mí,
dejando que mi amigo la haga suya.

Si te pierdo, mi amada te recobra,
si la pierdo, mi amigo es quien la encuentra;
ambos se encuentran y a los dos los pierdo
y por mi amor me imporien esta cruz.

Pero al ser uno solo yo y mi amigo,
¡oh lisonja! yo soy quien ella quiere.


XLIII
Veo mejor si cierro más los ojos
que el día entero ven lo indiferente;
pero al dormir, soñando te contemplan
y brillantes se guían en lo oscuro.
Tú, cuya sombra lo sombrío aclara,
si ante quienes no ven tu sombra brilla,
¡qué luz diera la forma de tu sombra
al claro día por tu luz más claro!

¡Ay, qué felicidad para mis ojos
si te miraran en el día vivo,
ya que en la noche muerta, miro, ciego,
de tu hermosura la imperfecta sombra!

Los días noches son, si no te veo,
y cuando sueño en ti, días las noches.


LIII

¿Qué substancia es la tuya, qué te forma
que millones de sombras te acompañan?
Su propia sombra tiene cada uno
pero tú puedes producirlas todas.
Si describen a Adonis, su retrato
es tu pobre parodia; y te repïntan
con traje griego si a la bella Helena
embellecen con máximo artificio.

Si hablan del año joven o maduro,
primavera es la sombra de tu gracia
y lo es de tu esplendor el tiempo fértil;
en todo lo feliz te descubrimos.

Contribuyes a toda la hermosura,
mas nada se parece a tu constancia.



LV
Ni el mármol, ni los áureos monumentos,
durarán con la fuerza de esta rima,
y en ella tu esplendor tendrá más brillo
que en la losa que mancha el tiempo impuro.
Cuando tumbe la guerra las estatuas
y el desorden los muros desarraigue,
ni la espada de Marte ni su incendio
destruirán tu memoria siempre viva.

Irás contra la muerte y el olvido.
Acogerá tu elogio la mirada
de la posteridad que, consumiéndolo,
hasta el juicio final fatigue al mundo.

Así, hasta el día en que también te juzguen,
aquí estarás y en los amantes ojos.



LXI
Si nada es nuevo, si lo que es ya ha sido,
¡cómo se engaña nuestra inteligencia
cuando, empeñada en busca de invenciones,
de un niño ya nacido lleva el peso!
¡Ay, si mirando atrás quinientos años
pudiera presentarme la memoria
tu imagen en un libro muy remoto,
ya que el alma empezó a expresarse en letras!

¡Si pudiera saber lo que inspiraron
tus maravillas al antiguo mundo,
y ver si es nuestra o suya la ventaja
o si los ciclos son iguales todos!

Seguro estoy que los pasados genios
exaltaron objetos menos dignos.


LX
Como en la playa al pedregal las olas,
nuestros minutos a su fin se apuran,
cada uno desplaza al que ha pasado
y avanzan todos en labor seguida.
El nacimiento, por un mar de luces,
va hacia la madurez y su corona;
combaten con su brillo eclipses pérfidos
y el Tiempo sus regalos aniquila.

El Tiempo horada el juvenil adorno,
surca de paralelas la hermosura,
se nutre de supremas maravillas
y nada existe que su hoz no abata.

A pesar de su mano cruel, mi verso
dirá tu elogio en tiempos que esperamos.


LXI
¿En verdad quieres que tu imagen abra
mis pápados al tedio de la noche,
mientras las sombras que se te parecen
de mí se burlan y a mi sueño quiebran?
¿Mandas así fuera de ti tu espíritu,
lejos, para que aceche mis acciones
y mis horas espíe de flaqueza,
que son blanco y dominio de tus celos?

No; tu amor, aunque grande, no lo es tanto:
es el mío el que me abre los dos ojos,
mi propio amor quien mi descanso vence
y en centinela para ti se cambia:

pues por ti velo mientras te desvelas,
muy distante de mi, muy cerca de otros.



LXII
El pecado de amarme se apodera
de mis ojos, de mi alma y de mí todo;
y para este pecado no hay rernedio
pues en mi corazón echó raíces.
Pienso que es el más bello mi semblante,
mi forma, entre las puras, la ideal;
y mi valor tan alto conceptúo
que para mí domina a todo mérito.

Pero cuando el espejo me presenta,
tal cual soy, agrietado por los años,
en sentido contrario mi amor leo
que amarse siendo así sería inicuo.

Es a ti, otro yo mismo, a quien elogio,
pintando mi vejez con tu hermosura.



LXV
Si la muerte domina al poderío
de bronce, roca, tierra y mar sin límites,
¿cómo le haría frente la hermosura
cuando es más débil que una flor su fuerza?
Con su hálito de miel, ¿podrá el verano
resistir el asedio de los días,
cuando peñascos y aceradas puertas
no son invulnerables para el Tiempo?

¡Atroz meditación! ¿Dónde ocultarte,
joyel que para su arca el Tiempo quiere?
¿Qué mano detendrá sus pies sutiles?
Y ¿quién prohibirá que te despojen?

Ninguno a menos que un prodigio guarde
el brillo de mi amor en negra tinta.



LXXI
Cuando haya muerto, llórame tan sólo
mientras escuches la campana triste,
anunciadora al mundo de mi fuga
del mundo vil hacia el gusano infame.
Y no evoques, si lees esta rima,
la mano que la escribe, pues te quiero
tanto que hasta tu olvido prefiriera
a saber que te amarga mi memoria.

Pero si acaso miras estos versos
cuando del barro nada me separe,
ni siquiera mi pobre nombre digas
y que tu amor conmigo se marchite,

para que el sabio en tu llorar no indague
y se burle de ti por el ausente.



XCI
Unos se vanaglorian de la estirpe,
del saber, el vigor o la fortuna;
otros, de la elegancia extravagante,
o de halcones, lebreles y caballos;
cada carácter un placer comporta
cuya alegría a las demás excede;
pero estas distinciones no me alcanzan
pues tengo algo mejor que las incluye.

En altura, tu amor vence al linaje;
en soberbia al atuendo; al oro en fausto;
en júbilo al de halcones y corceles.
Teniéndote, todo el orgullo es mío.

Mi única miseria es que pudieras
quitarme todo y en miseria hundirme.


XCIV
Tu capricho y tu edad, según se mire,
provocan tus defectos o tu encanto;
y te aman por tu encanto o tus defectos,
pues tus defectos en encanto mudas.
Lo mismo que a la joya más humilde
valor se da en los dedos de una reina,
se truecan tus errores en verdades
y por cosa legítima se tienen.

¡Cómo engañara el lobo a los corderos,
si en cordero pudiera transformarse!
Y ¡a cuánto admirador extraviarías,
si usaras plenamente tu prestigio!

Mas no lo hagas, pues te quiero tanto
que si es mío tu amor, mía es tu fama.


CVI

Cuando en las crónicas de tiempos idos
veo que a los hermosos se describe
y a la Belleza embellecer la rima
que elogia a damas y señores muertos,
observo que al pintar de sus dechados
la mano, el labio, el pie, la frente, el ojo,
trataba de expresar la pluma arcaica
una belleza como la que tienes.

Así, sus alabanzas son presagios
de nuestro tiempo, que te prefiguran,
y pues no hacían más que adivinarte,
no podían cantarte cual mereces.

En cuanto a aquellos que te contemplamos
con absorta mirada, estamos mudos.



CXXIII
Tiempo, no has de jactarte de mis cambios:
alzas con nuevo brío tus pirámides
y no son para mí nuevas ni extrañas
sino aspectos de formas anteriores.
Por ser corta la vida, nos sorprende
lo antiguo que reiteras y que impones,
cual si fuera lo nuevo que dcseamos
y si rio corzociéramos su historia.

Os desafío a ti y a tus anales;
no me asombran pasado ni presente,
pues tus anales y lo visto engañan
al transformarse mientras te apresuras.

Por mí, te juro que he de ser constante
a pesar de tu hoz y de ti mismo.



CXLVI
Pobre alma, centro de culpable limo
a la que burla, indócil, quien la ciñe,
¿por qué adentro sufrir afán y hambre
si pintas lo exterior de alegre lujo?
Si el contrato es tan breve, ¿por qué gastas
ornando tu morada pasajera?
¿Tendrá por fin tu cuerpo sustentar
al gusano que herede tu derroche?

Vive, alma, a expensas de tu servidor;
que aumenten sus fatigas tu tesoro;
y cambia horas de espuma por divinas.
Sé rica adentro, en vez de serlo afuera.

Devora tú a la Muerte y no la nutras,
pues si ella muere, no podrás morir.











quarta-feira, 15 de julho de 2009

Ulysses Bittencourt (1916-1993)

































MEMORIAL (II)

por Ulysses Bittencourt


Já dizia Campbell que "viver nos corações que deixamos atrás de nós é não morrer". Reviveremos sempre as figuras amáveis da nossa cidade, como nos "Velhos tempos" do André Jobim e à maneira tão delicada do Belmiro Vianez, em antiga página domingueira de "A Crítica", chorando e relembrando os mortos queridos. Hoje, duas figuras marcantes.

Antônio Magvinier de Castro, nascido no Ceará, em 1895, mas que se fez amazonense dos melhores.

Na década de 1930 ainda existia em Manaus uma numerosa plêiade de pessoas cultas que haviam residido e estudado na Europa, e era com certo orgulho, com admiração e respeito, que os vindos à luz depois da Primeira Guerra Mundial, já em plena crise econômica, a elas se referiam. Daquele grupo vem à lembrança, ao acaso, os nomes do Mello Rezende (saúdo-te, Paulo!), de Nilo Rubim, de Bernardo Ramos e sua família, Ramalho Júnior e suas filhas Magnólia e Miosótis (todo o nosso bem-querer! sendo Miosótis a nossa cicerone em Paris), Deodoro de Alcântara Freire, Geraldo Bastos, Carlos Mesquita, Alyrio Ramos, Oswaldo Mendonça, o poeta Raymundo Monteiro, gente que fez cursos na França, na Bélgica, na Inglaterra, na Espanha...

No registro da memória daquele tempo e daqueles hábitos privilegiados, é de de justiça incluir os Magvinier de Castro, provindos genealogicamente do ramo dos Mavignier que se estabeleceram em Pernambuco, originários da Bretanha, onde, na condição política de "chouans", haviam lutado pelo restabelecimento da velha monarquia francesa dos Luíses, contra o que consideravam conspurcação do trono real por Bonaparte. Seu bisavô francês Alexandre casou-se já no Brasil, e teve dez filhos pernambucanos, dos quais seis homens, mais tarde espalhados por várias outras Províncias.

Magvinier de Castro foi levado a Paris por uma tia e ali estudou humanidades e bacharelou-se, tendo concluído o ginasial no Lycée Louis-le-Grand, o mais antigo da França. Durante treze anos de permanência, percorreu toda a Europa, observando e absorvendo o máximo, com seu espírito curioso e ágil.

Regressando ao Amazonas em 1917, emprestou o brilho de suas boas luzes a vários cargos públicos, tendo sido sucessivamente Promotor de Justiça em Tefé, Eirunepé e Manacapuru, Diretor da Secretaria da Câmara Municipal e Prefeito de Moura. Mais adiante, alcançou por concurso uma cátedra na Escola de Comércio Solon de Lucena, na qual veio a aposentar-se. Jornalista fecundo, exerceu as funções de Redator-Secretário do "Jornal do Comércio" e foi membro destacado da Academia Amazonense de Letras e do IGHA.

De sua vivência pelo interior do Estado, escreveu, sobre nossa hinterlândia os admiráveis capítulos que compõem "Amazônia Panteísta", obra considerada clássica (e que trouxe ilustrações de Moacyr Andrade). Em 1948 escreveu "Síntese Histórica e Sentimental da Evolução de Manaus", ilustrada por seu filho, o saudoso pintor e poeta Afrânio de Araújo de Castro e contendo, além da capa desenhada por Branco Silva, o prefácio que constituiu o último trabalho da lavra do grande Adriano Jorge.

Mavignier de Castro veio a falecer em 1970, tendo deixado em sua obra uma inolvidável contribuição ao Amazonas, a terra adotiva que ele tanto soube compreender e amar e da qual, com sensibilidade, se tornou um intérprete dos mais inspirados.

Adriano Queiroz - Mestre Adriano Queiroz (como veio a ser chamado) foi um daqueles companheiros de juventude dos quais nunca nos esquecemos, pelo seu jeito bom e amigo e, depois, por sua trajetória existencial plenamente realizada, com tanto brilho.

De origem modesta, Adriano nasceu no Careiro, a 1º de março de 1913 e ainda criança foi confiado a uma lavadeira, senhora humilde mas que, com amor e denodo, soube encaminhá-lo sempre bem, nos estudos, no trabalho, na Vida afora.

Inicialmente cursou o colégio do Prof. Vicente Blanco e, após terminar o Ginásio em 1932, estudou Direito em nossa Faculdade, da qual, pela sua força de vontade e competência, se tornou Professor de Direito Civil, cátedra que veio depois a conquistar em concurso.

Adriano era de compleição atlética e no Ginásio foi respeitado como boxeador sempre disposto a uma luta, e, também, como atirador. Sua capacidade de perseverança era assombrosa. Conta-se que, reprovado certa vez em Matemática, estudou com tal afinco que, além de tirar nota máxima, ainda se tornou professor da matéria. Consta que, pondo em prática excepcional memória, sabia de cor todo o Código Civil Brasileiro. Numa entrevista que concedeu a Fernando Collyer, em 1968, afirmava: "Direito não é só o que se encontra codificado, ele também está fora da lei e dos códigos. E se o Direito Positivo não se transformar diante dos fatos da vida social, ficará em conflito com a justiça".

Pelo exemplo do esforço que sempre desenvolveu, pelo sentido ascencional de sua vida, pela maneira como captou e transmitiu o Direito em sua expressão mais elevada, Adriano Queiroz, por um limpo trabalho de conquista, faz jus a integrar a galeria daqueles que, vivos em nossa memória e em nossa saudade, "por obras valerosas, se vão da lei da Morte libertando"!



(PATIGUÁ [coletânia póstuma de crônicas e artigos jornalísticos, Rio de Janeiro, Copy & Arte, 1993], pp. 49 a 51, texto publicado originalmente em A CRÍTICA de 1.12.1983)











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“A partida do velho amigo”

(7 de março de 1985)

por Ulysses Bittencourt (1916-1993)

Na intimidade quieta da mata, causa susto e tristeza ver de repente o raio abater árvore secular. A mesma sensação acometeu-me ante o desaparecimento, dia 26 de fevereiro, do sábio Nunes Pereira. Por sua morte a floresta amazônica ficou sem um dos seus mais altos e valiosos exemplares, um exemplar insubstituível. A metáfora pode ser antiga, mas é exata para expressar o doloroso fato.

Nascido no Maranhão, cedo ele viajou para o Amazonas e ao nosso Estado passou a dedicar quase todo o resto de sua produtiva e longa vida de intelectual, antropólogo, etnólogo e biólogo, partindo da Veterinária. Com seu jeitão boêmio, bom bebedor que foi até findar-se aos 92 anos, Manoel Nunes Pereira, na realidade, era um estudioso metódico, um pesquisador obstinado e pertinaz. Tendo abandonado o curso de Direito, a partir daí tornou-se autodidata. Além do português, do tupi-guarani, nheengatu, dominava o inglês, o francês, o alemão e o italiano. Mantinha intercâmbio verbal ou por correspondência com os mais importantes nomes da cultura brasileira e estrangeira. Foi a síntese perfeita do homem brasileiro: branco, preto e índio. Ele mesmo dizia ter “os cabelos do português, as feições do índio e o tom de pele mulato herdado de minha mãe”. Daí ser recebido em todos os ambientes com alegria. Para exemplificar: esteve em várias tribos afastadas da “sifilização” (como ele chamava), sendo logo acolhido como sábio pajé e chamado pelos naturais de “saracura branca”. Conviveu por longos períodos com os silvícolas, alimentando-se e procedendo como um deles, o que lhe valeu um enorme repertório engraçadíssimo de episódios e de anotações de raro valor científico, aproveitadas em seus trabalhos. De vez em quando, Nunes Pereira era tema de extensas reportagens em jornais, revistas e entrevistas na televisão. Guardo três dessas reportagens de O Globo, uma de 1974 e duas outras de 1975 e 1977. Em artigo do Jornal do Brasil, disse dele Carlos Drummond de Andrade: ”Homem de ciência agudamente provido de sensibilidade e visão humanística, eis o que é o caboclo maranhense Nunes Pereira. Daí seu livro soar um som claro, alegre, sadio, jamais instalando tédio pela informação indigesta”. Membro fundador da Academia Amazonense de Letras, Nunes pertencia ainda a inúmeras outras instituições culturais e científicas. Todo esse prestígio, porém, não o afetava. Residindo em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, por muitos anos, fazia suas viagens com módicas ajudas-de-custo pelo Ministério da Agricultura – do qual foi funcionário, recebendo daí sua modesta aposentadoria – ou comissionado pelo Governo do Amazonas, pouco mais auferindo com a venda de seus livros.

Um sábio que era, morreu pobre, despojado e simples como sempre viveu, respeitado pela grandeza de sua obra e pelas cintilações de sua presença em qualquer meio. Honrou-me frequentando minha casa, como frequentou a casa de meu avô [1], a de meu pai [2], a de meus irmãos, depois também a de meu filho Flávio, com cujo filho Eduardo brincou várias vezes, somando assim uma amizade que se estendeu ao longo do tempo por cinco gerações [3].

Artigo publicado na coletânea póstuma “Patiguá”, Rio de Janeiro: Copy & Arte, 1993, pp. 114–115; apresentação de Mário Ypiranga Monteiro; desenho reproduzido na capa: Appe (Amilde Pedrosa)".


Notas:

"[1] Antônio Bittencourt, ex-governador do Amazonas, autor de Memória do Município de Parintins, 2ª ed. (Manaus: Governo do Estado do Amazonas, 2001 [1924]);

[2] Agnello Bittencourt, geógrafo, ex-prefeito de Manaus, foi um dos fundadores, em 1917, do IGHA – Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, autor de Corographia do Estado do Amazonas, 2ª ed. Manaus: ACA (Associação Comercial do Amazonas - Fundo Editorial, 1985 [1925]);

[3] “Por instância do acadêmico Bernardo Cabral, proferi a oração de adeus em nome da Academia Amazonense de Letras e do Governo do Estado do Amazonas, depositando simbolicamente no túmulo de Nunes Pereira uma coroa de louros e um ramo de acácia [planta símbolo da Maçonaria], tão sua conhecida" (nota acrescentada por U.B. para a coletânea Patiguá; artigo publicado originalmente em A Crítica, de Manaus, em 7 de março de 1985)".




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MEMORIAL



Pelo realce de suas inteligências, seus trabalhos e suas personalidades, três nomes serão aqui lembrados, porque se destacaram na admiração geral à época em que viveram. Três pessoas nascidas no Ceará e vindas muito jovens para Manaus.





Hemetério Cabrinha



Chamava-se, na realidade, Hemetério José do Santos, havendo incorporado ao nome o apelido Cabrinha. Espírito de luz, nasceu em Fortaleza, a 3 de março de 1892, tendo desencarnado a 12 de fevereiro de 1959. Veio em 1918 para Manaus, onde cumpriu a sua missão por mais de quatro décadas. Foi operário, na qualidade de marceneiro e, sem freqüentar escolas, acabou transformando-se num intelectual respeitado, num vibrante orador, livros publicados, tudo pela pura força espiritual e capacidade de trabalho. Poeta espontâneo, deixou os seguintes livros: Frontões, Satã, Caim, Meu Sertão, o drama em três atos Regeneração e o mais conhecido, Vereda Iluminada; colaborou em diversas revistas e trabalhos inéditos.



Quando Vargas veio a Manaus em 1940, Hemetério saudou-o com arrebatador improviso em praça pública, o que muito impressionou o então Presidente, acostumado a ouvir grandes tribunos, e este, ao retornar ao Catete, nomeou-o para alto cargo no Ministério do Trabalho, por considerá-lo líder nato do operariado amazonense.



Espiritualista praticante, Hemetério Cabrinha atingiu um vigoroso grau de desenvolvimento espiritual, sempre exercido exclusivamente na direção do bem, no sentido de dar conforto aos angustiados e sofredores. Pela última vez vi-o discursar em março de 1958, numa homenagem, em festa magna, que o Centro de Irradiação Mental do Tattwa Nirvana prestava ao Irmão Agnello Bittencourt.



O carpinteiro era, pela palavra e pelo verso, o Mestre, que dizia, em sua autêntica profissão-de-fé: “A esmola que se dá, sem humilhar quem pede, / É a graça maior que o Grande Deus concede / A quem dores transforma em pétalas de rosas”.



Hildebrando Marinho



Há de perdurar, na saudade e na recordação de todos que o conheceram, o vulto admirável desse homem nascido na cidade cearense de Itapioca, a 23 de abril de 1886 e falecido em 25 de janeiro de 1977, na Manaus de sua predileção, à qual chegou com menos de vinte anos de idade; e onde se fixou, com tenacidade e amor, aqui tendo-se casado com a professora Leonilla Guimarães de Souza, de tradicional família. Foi uma união sólida, bonita e duradoura. Hildebrando, como o seu irmão Coronel Licurgo (hoje igualmente desaparecido), possuía um caráter inamolgável e um dinamismo inconteste. Sempre morou à Rua Dr. Moreira. Serviu desde muito jovem à Manáos Harbour, Limited, galgando ali todos os postos, inclusive por bastante tempo o de Gerente-Chefe, no qual continuou, mesmo depois que a empresa foi adquirida pelo Governo brasileiro. Foram mais de cinqüenta anos de dedicação ao trabalho, respeitado e elogiado pelos ingleses e por toda a população de nossa Capital, tendo recebido justas homenagens de reconhecimento ao mérito, quando deixou o serviço ativo, em virtude da idade provecta. Alto, ereto e elegante, manteve o mesmo porte até o fim. Ao completar seu nonagésimo aniversário, em 1976, os numerosos amigos encheram sua residência, numa demonstração de carinhoso apreço. Com sua inteligência vivaz e sua personalidade forte, Hildebrando Marinho acompanhou com um interesse realmente didático as transformações políticas e sociais de Manaus, e sua conversação eram verdadeiras aulas de história, pelas informações precisas e profundas que continham. Ele foi um amigo querido e uma pessoa progressista e de ação, e mesmo aposentado continuou repartindo sua intensa atividade entre o sítio “Santa Rita” e a fazenda de criação de gado, no Careiro.



Deixou uma prole grande e ilustre, que também muito vem honrando Amazonas.




Maria Luíza de Sabóia - Foi uma das mulheres mais cultas do seu tempo. Nasceu a 29 de dezembro de 1890 e faleceu em Manaus a 24 de abril de 1970, filha do professor e doutor Gilberto Ribeiro de Sabóia e de dona Josefa Augusta de Sabóia. O casal, com seus seis fihos, se transferira do Ceará para o nosso Estado no ano de 1900, indo morar à Rua Comendador Alexandre Amorim, quando maria Luíza tinha dez anos de idade. E na mesma casa viveu ela durante setenta anos, até morrer.

Solteira, dedicou meio século de sua profícua existência ao magistério amazonense, quer como professora do Grupo Escolar "Cônego Azevedo", quer lecionando a língua francesa no "Colégio Brasileiro" e no Ginásio Amazonense, além de continuar fazendo-o particularmente até seus últimos dias.

De pele muito clara e rosada, em suas feições regulares ela era uma pessoa extremamente comunicativa, cheia de entusiasmo e bom humor. Foi mestra notável, realçando sua personalidade pela sólida formação moral e religiosa que possuía. Apaixonada pelo idioma francês, em que muito gostava de conversar, fazendo-o com a maior fluência e desembaraço, conhecia profundamente a literatura da França, tendo prazer na citação dos clássicos.

Maria Luíza fio a primeira mulher a cursar a nossa Faculdade de Direito, tendo-se bacharelado em 1917 e passado a pertencer ao quadro da Ordem dos Advogados do Brasil.

Muitas gerações devem a ela não apenas conhecimento de Francês, mas toda uma farta ilustração humanística.

Lembrados, não estão mortos os Amigos que se foram de nosso convívio material".


[PUBLICADO EM A Crítica (Manaus, 4 de novembro de 1983),

republicado na coletânea póstuma Patiguá (Rio de Janeiro: Copy & Arte, 1993), pp. 46-48.]



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O entrudo e seu tempo
                  Ulysses Bittencourt [http://pt.wikipedia.org/wiki/Ulysses_Bittencourt]

Quando hoje nos preocupamos, cheios de justas razões, com a escalada ascendente de violência que nos cerca e envolve, seja na distância do plano internacional, seja na proximidade da calçada pela qual transitamos [O CASAL DE AMAZONENSES ULYSSES E FERNANDA BITTENCOURT MORAVA NA RUA BARATA RIBEIRO, EM COPACABANA, RIO, NA ALTURA DO POSTO 5], será oportuno lembrarmos, para melhor avaliação do assunto, que, pelo menos em termos de carnaval, a coisa já foi outrora bem pior que atualmente, nos grossos tempos do entrudo.
No Brasil, a prática do entrudo veio da era colonial e estendeu-se até o final do século passado [DO SÉCULO XIX].
Cândido de Figueiredo, no seu dicionário, dá o vocábulo como sinônimo simples de carnaval, com origem na palavra latina "introitus", que o notável Santos Saraiva traduz como "ação de entrar; entrada". Já o Aurélio explica melhor o nome ao defini-lo brasileiramente, como folguedo carnavalesco antigo que consistia em lançar uns nos outros água, farinha, tinta, etc.
Em mais de um dos seus artigos, Genesino Braga evocou velhos carnavais amazonenses. E Agnello Bittencourt, no seu livro "Fundação de Manaus - Pródromos e Sequências", descrevendo a cidade que ele viu ir se transformando pelas grandes reformas de Eduardo Ribeiro, registra, descrevendo a cidade no ocaso do século XIX, que "o carnaval era um pouco rude, e o 'entrudo' invadia e sujava as residências, mas sem quaisquer ofensas".
Não havia, de início, músicas especialmente feitas para os festejos carnavalescos. Nos salões, o divertimento transcorria ao compasso dos mais ligeiros ritmos, das mais animadas polcas, mazurcas, valsas e quadrilhas já conhecidas. E nas ruas, antes do uso comprotado e romântico do corso em carruagens e, depois, em automóveis, dos desfiles de carros alegóricos, dos ranchos, havia foliões isolados, quase sempre mascarados e com disfarces e alguns bandos - como agora os remanescentes "blocos de sujos" e "clóvis", corruptela de "clowns" - divertindo-se em tocar o "Zé Pereira", quando havia instrumentos para isso ou apenas em fazer barulho com latas, tambores, apitos e bexigas de boi cheias de ar e amarradas na extremidade de uma vara. Havia os chamados "assustados", que consistiam em ir à casa de um conhecido e transformá-la em festa improvisada.
A turma do entrudo estava sempre munida dos chamados "limões" que eram pequenas cabaças feitas de cera contendo presumivelmente água perfumada. Mas nem sempre era esse seu conteúdo. Havia com talco, tinta, carvão em pó e, às vezes, até coisas piores... De preparo artesanal, tais cabacinhas possuíam consistências variadas e eram destinadas a arremesso para espocarem de encontro ao alvo; certas vezes pareciam pedradas. depois do forte impacto, o conteúdo, cheiroso ou não.
Os alvos do entrudo tanto podiam ser transeuntes que se afoitassem a ir às ruas, quanto residências de conhecidos. Geralemnte eram necessários dias para se limparem as casas, até com caiação, depois da brincadeira. E o jeito era aguentar, ter ou fingir bom humor, porém jamais reagir. Nada de tiros, facadas ou brigas por causa do entrudo, que isso era profundamente antiesportivo. Afinal, ele consubstanciava toda uma concepção de vida, mais simples, menos neurotizada e, sobretudo, até mais humana, hoje difícil até de compreender, de captá-la em toda sua extensão e em toda a sua força.
(Extraído de Raiz [coletânea de crônicas publicadas no jornal A Crítica, de Manaus, nos anos 1980], de Ulysses Bittencourt, que foi membro do IGHA e da AAL.)  p. 39;



"ESTÓRIA DE TESOURO
                              Ulysses Bittencourt

Na crônica das riquezas produzidas e acumuladas pelo homem, houve sempre certa parcela de entesouramento privado, com dinheiro e bens escondidos (principalmente antes do Imposto de Renda...) e isso, através dos tempos, gerou a possibilidade de descobertas e muitas lendas daí decorrentes.
O Amazonas não poderia fugir à regra. Quando, por exemplo, deu-se a morte misteriosa de Eduardo Ribeiro, não foram poucos os boatos circulantes, na época, sobre a existência de valiosas joias conservadas por ele, e que teriam desaparecido, até como provável motivo do "suicídio" inconvincentemente apresentado ao público. Este é um caso que permanece no rol dos fatos sem qualquer confirmação, das simples lendas.
Outro, de maior possibilidade e mais complexo, envolve uma certa quantidade de ouro e joias que teriam pertencido ao governador Fileto Pires Ferreira. As circunstâncias que o cercam são estranhas e, no mínimo, fora do comum.
Fileto foi Oficial do Exército, integrando o grupo jovem que cercava e apoiava Benjamin Constant. Assistiu à Proclamação da República, tornou-se adepto de Floriano Peixoto e, por determinação deste, voltou ao Amazonas - onde já servira antes - tendo ingressado na política. Foi Secretário do Estado de Eduardo Ribeiro, depois elegeu-se e reelegeu-se Deputado Federal. Em 1895, mesmo sem maioria no Partido Democrata nem no Congresso Estadual, foi escolhido, por decisão do "Pensador" [GOVERNADOR EDUARDO RIBEIRO] para seu substituto, através de uma fraude histórica. Organizou-se a farsa de uma votação espúria às dez horas da manhã, quando o horário regimental começava os trabalhos do Legislativo duas horas depois, fazendo-se disparar antecipadamente um rojão que, desde muitos anos, informava à população de Manaus a passagem do meio-dia. Daí o apelido famoso de "Congresso Foguetão".
Em 1896, o Capitão Fileto Pires Ferreira vence nas urnas e é reconhecido e empossado como governador, de conformidade com o plano e desejo de Eduardo Ribeiro.
Operoso e contando com os recursos surpreendentes advindos do preço da borracha, ele foi um administrador de invejável brilho, tendo inaugurado o Teatro Amazonas. Em 1898, achando-se doente e considerando calma a situação política do Estado, deixa o cargo provisoriamente nas mãos do Vice-Governador Ramalho Júnior - como já fizera duas vezes anteriores - e viaja para a Europa (Tive o privilégio de manusear os originais dos dois pedidos anteriores de licença, pertencentes ao arquivo da professora e querida amiga Magnólia Malcher Ramalho Nery).
Na ausência de Fileto, arma-se nova farsa, desta vez contra ele e pelos mesmos "amigos" que o elegeram. Consuma-se a renúncia que disse não chegara a formular e impede-se sua volta a Manaus, cidade a que nunca mais pôde retornar, até sua morte, ocorrida em 1917.
Fileto mandara construir um dos mais belos prédios residenciais de Manaus, que se erguia em terreno alto, na Avenida Sete de Setembro, hoje reduzida aos alicerces. Anos depois a casa senhorial é adquirida por um conhecido empresário amazonense e ali fatos inusitados começam a acontecer, conforme reportagem estampada em jornal. Alguém sonhara com um aposento secreto, o qual veio, na verdade, a ser descoberto sob a cozinha. Era um quarto de chão batido, desprovido de móveis e que voltou a ser fechado por falta de serventia. Simultaneamente, um vigia da casa, cearense muito humilde e de família numerosa, passou a sonhar com um homem vestido de preto. Tendo visto um retrato de Fileto e, sem sequer saber tratar-se do antigo dono do imóvel, afirmou ser aquele o vulto que havia visto em sonho, pedindo-lhe alguma coisa. Apavorado, pediu substituto. Enquanto o proprietário da casa procurava novo empregado, eis que certo dia o cearense viaja de avião com toda a sua numerosa prole, indo para a terra natal. Todos ao saberem do fato atribuíram-no ao encontro e retirada de alguma coisa de valor. Nada mais se soube a respeito, mas a lenda ficou, com a ideia de que o tesouro de Fileto foi descoberto e aproveitado."

(RAIZ [coletânea de crônicas de Ulysses Bittencourt publicadas na primeira metade dos anos 1980, no jornal A Crítica, de Manaus], Rio de Janeiro: Copy & Arte, 1985, pp. 23 - 24)





quarta-feira, 10 de junho de 2009

OSCAR WILDE








OSCAR WILDE

BALADA DO CÁRCERE DE READING

(Trecho)

Trad. de Gondin da Fonseca

I
Não trazia a sua túnica vermelha, mas sangue púrpuro, encarnado, sangue e vinho das mãos lhe gotejavam, quando o viram, alucinado, junto do leito dela - o seu amor, seu pobre amor apunhalado. Ia andando entre os mais e era cinzento o traje velho que vestia. Usava um gorro de listas, e o seu passo, ligeiro e alegre parecia. Porém, eu nunca vi homem que olhasse tão tristemente a luz do dia.
Jamais, jamais vi homem contemplar, com tão profundo sentimento, essa breve, essa estreita faixa azul que os presos ,chamam firmamento; e as nuvens brancas, côr de prata, ao longe, - velas sem rumo, andando ao vento.
Eu, que junto a outras almas padecentes, sofria, em pátio separado, quis saber se era grande, se pequeno, o crime dêsse condenado, - quando alguém sussurrou atrás de mim: “aquêle, vai ser enforcado!”
Jesus! as próprias grades da prisão, rodam, de súbito, em delírio! Pesa o céu sôbre mim, qual elmo de aço que o Sol inflama - ardente círio! E a minha alma, de mágoas trespassada, esquece, olvida o seu martírio.
Eu soube, então, a idéia lacerante que o atormenta, e o faz correr, e o faz olhar, tristonho, o céu radiante, radiante, e alheio ao seu sofrer: de matou aquela que adorava, - por causa disso vai morrer.
No entanto (ouvi) cada um mata o que adora: o seu amor, o seu ideal. Alguns com uma palavra de lisonja, outros com um duro olhar brutal, O covarde assassina dando um beijo, o bravo, mata com um punhal.
Uns matam o Amor, velhos; outros, jovens; (quando o amor finda, ou o amor começa); matam-no alguns com a mão do Ouro, e alguns com a mão da Carne — a mão possessa! E os mais bondosos, esses apunhalam, - que a morte, assim, vem mais depressa.
Há corações vendidos, e há comprados; uns amam, pouco, outros demais; há quem mate a chorar, vertendo lágrimas, ou a sorrir, sem dor, sem ais. Todo homem mata o Amor; porém, nem sempre, nem sempre as sortes são iguais.
II
Seis semanas inteiras êle andou com a veste usada que trazia. Tinha um gorro de listas, e o seu passo ligeiro e alegre parecia. Porém eu nunca vi homem que olhasse tão tristemente a luz do dia.
Jamais, jamais vi homem contemplar, com tão profundo sentimento, essa breve, essa estreita faixa azul que os presos chamam firmamento; e as nuvens esgarçadas no horizonte, - flocos de espuma errando ao vento!
Não retorcia as mãos - tal como alguns de idéia curta, e alma louçã, que ousam crer, mesmo em negro Desespêro, numa Quimera estulta e vã: ele fitava, calmo, a luz da aurora sorvendo o ar puro da manhã.
Não retorcia as mãos e não chorava, nem lamentava o seu inferno; ia, apenas, bebendo o ar como um bálsamo, bálsamo bom; bálsamo eterno... Abria os lábios e bebia o Sol, como uma taça de falerno.
E eu, e todos os mais - nos que penávamos num outro pátio separado, esquecemos de pronto as nossas faltas, a nossa Sorte, o nosso Fado, e contemplamos com tristeza imensa o que ia, enfim, ser enforcado.
E era estranho que o víssemos andando, - Tão leve e alegre parecia... E era estranho que o víssemos fitando, saudosamente, a luz do dia. E era estranho pensar que êle — a sua dívida tràgicamente a pagaria.
Tem lindas fôlhas o álamo e o carvalho, que em maio brotam viridentes; mas é medonha a fôrca - árvore negra, cujas raízes são serpentes: e verde ou sêca, morre o condenado e não lhe vê frutos pendentes.
É para o céu, para o azulado empíreo, que o anseio humano se alevanta! Mas quem, do alto da fôrca, atado a um laço, com a corda prêsa na garganta, ergue seu turvo olhar ao firmamento quando o carrasco se adianta?
É bom dançar, ao som dos violinos, se a Vida é bela e é belo o Amor; dançar ao som de flautas e alaúdes, é raro, fino, embalador...
Mas é horrível, no ar, com os pés ligeiros, dançar, num último estertor!
E nós, curiosos, mudos, consternados, o vigiávamos dia a dia, pensando que talvez nosso destino igual ao dêle acabaria: pois ninguém sabe a que horroroso inferno a Sorte bárbara nos guia.
Por fim, deixei de vê-lo entre os mais presos, sempre sòzinho e vagabundo. Soube então que o levaram; que jazia em negro cárcere profundo, e que eu, jamais, de novo o enxergaria, neste belo e risonho mundo...
Dois navios fantasmas que se cruzam, em noite má, caliginosa, - nós nos cruzamos, mudos, sem um gesto, numa atitude silenciosa: pois de dia nos vimos (não de noite) e a luz é casta, é vergonhosa.
Muros de uma prisão nos circundavam, éramos réus por nossos danos. Deus e o seu mundo, inexoràvelmente, nos repeliram desumanos; e a sinistra armadilha do Pecado nos seduziu com seus enganos.
Cadenciados, marchando em volta ao pátio, nós somos loucos em parada! Que importa? Bem sabemos que Satã é o general desta Brigada.
Lenta, arrastando os pés, cabelo curto, lá vem a alegre mascarada!
Desfiamos cordas alcatroadas, rijas, unhas gastas, dedos sangrentos; esfregamos o chão, limpamos portas, e metais claros, espelhentos; e enxaguamos, aos turnos, o assoalhado, batendo baldes barulhentos.
Cosemos sacos e quebramos pedras, furamos tábuas com uma pua. Tinem marmitas; cantos se misturam; gira o moinho, e a gente sua... Mas dentro da nossa alma, um terror mudo, um terror grande se insinua.
Por isso os dias correm lentos, como vagas rolando com sargaços! E nós nos esquecemos do Destino, que os homens vis prende em seus laços, - quando, ao vir do trabalho, um dia, vemos uma cova, ante os nossos passos.
Bôca amarela e rude, ela bradava por uma vítima, e feroz, sua terra hostil pedia sangue ao pátio, - pedia sangue, em alta voz! Ah! logo vimos que ao romper da aurora iria à fôrca um dentre nos.
Recolhemo-nos todos, a alma atenta à Morte, à Sorte, e ao Mêdo infando. O Algoz passou com o seu pequeno saco, na treva os passos arrastando; e cada qual, na tumba numerada, se enfiou, trêmulo e cismando.
Cantaram galos, rubros e cinzentos, sem que rompesse o dia após... Tortuosas formas tétricas, nas celas, nos transiam de horror atroz; e os espíritos maus da noite-morta, riam, pulando em frente a nos.
E rápidos giravam, deslizavam, como viandantes na neblina. Imitavam a Lua, contorcendo-se em pose grácil, feminina: e, passos nobres, elegância odiosa, chegavam outros, em surdina.
Alegres, trejeitando, e de mãos dadas, entram, de súbito, em ciranda! Rodopiam fantasmas em delírio, numa grotesca sarabanda; e, caricatos, fazem arabescos, como o vento na areia branda!
Com piruetas gentis de marionetes, leves, levíssimos bailavam! Era estridente a música do Mêdo, com que o seu baile acompanhavam: e para despertar na cova os mortos, alto, e sem pausa, êles cantavam:
“Oh! - diziam - o mundo é largo. A viagem, para os trôpegos, é enfadonha! Jogar os dados uma ou duas vêzes, é de bom-tom, gente bisonha! Mas, ai! perde quem joga com o Pecado, na oculta Casa da Vergonha.”
Não eram sombras vagas que bailavam, com bizarra alacridade! Para nós - vidas prêsas na Prisão, pés tolhidos, sem liberdade, eram - nome de Deus! - criaturas vivas, de horripilante fealdade!
Sempre ao redor, valsavam contorcendo-se: alguns, giravam com seus pares; outros subiam, ágeis, as escadas, em atitudes singulares... E outros arremedavam nossas preces, rindo, a zombar, fazendo esgares.
Súbito, na Prisão, soa o relógio, e o som, no ar, vibra horroroso! E um gemido de dor, de desespêro, ecoa, lúgubre, estrondoso, - qual o grito que lança, num paul, a bôca negra de um leproso.
Como que, no cristal claro de um sonho, vê uma tragédia apavorante, assim vimos a corda gordurosa balançar, no poste infamante; e ouvimos a oração, que o nó do Algoz cortou, num grito lancinante.
Eu compreendi, melhor do que ninguém, aquêle grito amargo e forte, e o seu remorso, e o seu suor de sangue, e tôda a angústia da sua sorte! - Pois o que vive mais do que uma vida, deve morrer mais do que uma morte.
IV
Não há ofício, no dia em que na fôrca um dentre nós cumpre a sua sina: ou sente, o Capelão, pálido a face, ou grande dor d’alma o domina: ou, coisas que ninguém deve saber, inda lhe bailam na retina.
Meio-dia era já, quando vibrou do sino o toque funerário! A cada qual, espiando, os guardas abrem a cela - e em passo tumultuário vamos descendo a férrea escada, livres do nosso inferno sedentário.
Fomos andando ao ar suave de Deus, mas, como dantes, ninguém ia; - pois, faces brancas uns, outros cinzentas, o mêdo, nelas transluzia! E eu nunca vi ninguém olhar assim, saudosamente, a luz do dia.
E nunca vi ninguém olhar assim com tão profundo sentimento, essa breve, essa estreita faixa azul que os presos chamam firmamento. E as nuvens, sem cuidado, ao longe, no ar, felizes, livres como o vento!
Mas, entre nós, havia uns que marchavam cabisbaixos, alma aflitiva, sabendo bem que a fôrca mereciam, pois sua falta era excessiva: mataram uma coisa morta, e o outro, - apenas uma coisa viva.
O que peca segunda vez, acorda para a Dor uma alma dormente: tira-a do seu sudário maculado, e a faz sangrar sangue vivente; e a faz sangrar, num jôrro largo e forte, e a faz sangrar inùtilmente.
Quais monos e truões, vestes listadas, bizarramente, uma por uma, seguimos, silenciosos, dando a volta ao pátio escuro, envolto em bruma:
seguimos, silenciosos, dando a volta, e ninguém disse coisa alguma.
Seguimos, silenciosos, dando a volta, e à nossa mente, ôca e vazia, a memória fatal de coisas fúnebres, um vento fúnebre a trazia; e o Horror nos enfrentava a cada passo, e o Tenor, bárbaro, o seguia.
Passam guardas de um lado para o outro, vigiando, espiando a horda de brutos. Seus uniformes novos, de domingo, brilham, asseados, impolutos. mas a cal dos sapatos denuncia o que fizeram há minutos.
Pois onde a cova tinha sido aberta, não se notava a menor falha: só uma faixa de terra e areia fôfa, junto da hórrida muralha; e um punhado de cal, para servir ao pobre morto, de mortalha.
Ai! mortalha de cal, abrasadora, bem pouca gente é que a reclama! Sob um pátio de cárcere (e despido, para mais triste e negra fama!) êle dorme, com os pés acorrentados, envolto num lençol de chama.
E por tempo sem conta a cal roerá a carne e os ossos dêsse irmão: de dia os ossos duros, e de noite, a carne mole, em consunção: comerá, turno a turno a carne e os ossos, mas, sem cessar, o coração!
Três longos anos, nada irão plantar nesse local de desventura! Maldito ficará três longos anos, maninho estéril de secura! E olhará, com assombro, o céu azul, amargamente e sem censura.
Pensam que o coração do que matou, mata as sementes dadivosas. Não! A Terra de Deus é acolhedora, tem qualidades generosas: mais rubras brotariam rosas rubras, e mais brancas as brancas rosas!
Sairiam rosas rubras da sua bôca e rosas brancas do seu peito! Quem sabe? Tem Jesus estranhas vias, e é estranho, às vêzes, seu conceito: - fêz, outrora, ante um Papa, abrir-se em flôres sêco bordão de um Seu eleito.
Mas nem rosas vermelhas, nem de neve, podem florir nestes terrenos. Só nos dão cacos, sílex e pedras; só nos dão mágoas e venenos... A flor abranda o Desespêro aos simples, e é crime, aqui, sofrer de menos.
Assim, nenhuma pétala esfolhada há de cair, piedosa e bela sôbre esta campa rasa, junto ao muro da Prisão que nos arrepela, - pra lembrar que Jesus morreu por todos, aos que passarem perto dela.
Contudo, embora a fúnebre muralha o envolva, o cinja em férreo abraço, e um espírito de pés acorrentados
não possa, à noite, errar no espaço, mas só chorar, chorar, nessa ímpia terra, morto de mágoa e de cansaço,
êle dorme em sossêgo - o malfeliz! ou dormirá, dentro de pouco! Não mais, vendo o Terror em pleno dia, sofre, e receia ficar louco. Não mais! a Negra Pátria em que repousa, não tem, nem sol nem luar tampouco.
Enforcaram-no, assim como a uma fera! Nenhum sino dobrou na igreja, que à sua alma assustada lhe trouxesse uma paz doce e benfazeja: mas depressa o esconderam numa cova, onde a parede mais negreja.
Despiram-no. Em seguida o abandonaram, e com sarcástico sorriso, fitaram-lhe a garganta, inflada e púrpura, e o olhar imóvel, indeciso... E envolveram-no, após, numa mortalha, brutos, torcendo-se de riso.
Jamais o Capelão se ajoelharia na sua campa, que traduz a Desonra. E jamais nela poria a triste bênção de uma Cruz, - visto êle haver pecado, e ser dos míseros por quem veio morrer Jesus.
Enfim tudo acabou. Do Reino Escuro ele transpôs o limiar, A urna da Piedade, urna partida, há de, por êle, transbordar! Por de chorarão todos os réprobos, êsses que sempre hão de chorar.
V
Não sei se as Leis são justas ou se injustas. Os pobres presos miseráveis, só sabem que as muralhas da prisão são altas, fortes, invioláveis; e que um dia é mais longo do que um ano, - ano de dias infindáveis.
Mas sei que as Leis, que o Homem, para o homem fêz, com seu ânimo iracundo, desde o primeiro que matou o irmão, e deu início à Dor do mundo, são peneiras que guardam joio vil e atiram fora o grão fecundo.
E sei também (assim todos soubessem!) que as paredes de uma Prisão são feitas com tijolos de ignomínia e têm grades negras, que são para Cristo não ver como o homem trata bàrbaramente o seu irmão.
Grades que a lua amável desfiguram, e o sol, de raios triunfais! É melhor, sim! que escondam êsse inferno: pois lá se passam coisas tais, que nem Filho de Deus nem filho de Homem as deveria olhar jamais.
Os piores feitos, os piores venenos, geram-se no ar de uma cadeia. Só o que é bom no homem lá se perde, só o que é mau lá se granjeia. Há dentro um guarda: o Desespêro; e à porta, a Angústia fica de alcatéia.
Matam de fome às timidas crianças, até que chorem noite e dia; azorragam os fracos e os dementes, maltratam velhos à porfia. Uns enlouquecem; todos se pervertem, - mas ninguém diz sua agonia.
Cada célula estreita é uma latrina escura, fétida e nojenta! Um hálito mortal, fecalizante, enche a lucarna pardacenta. Tudo morre; a Luxúria, apenas, vive e a Humana Máquina atormenta.
A água suja e salobra que bebemos, lôdo e imundície traz consigo. O pão escasso e amargo que êles dão, tem cal e gêsso mais que trigo. E o Sono, sem dormir, pede em desvairo que o Tempo abrande o seu castigo.
Embora em nós a Fome e a Sêde lutem, como serpente em refrega, ninguém cuida em sustento. O que nos mata é, quando desce a noite cega, sentir cada um no coração, os blocos que o dia inteiro êle carrega.
Com meia-noite dentro d’alma, e a cela num crepúsculo funerário, damos à manivela e esfiamos cordas em nosso inferno sedentário. E o silêncio é medonho como um sino a badalar num campanário.
Nunca uma voz amiga vem falar-nos, meiga, num gesto humano e puro; o olhar que nos vigia no postigo, é impiedoso, áspero e duro: apodrecemos - alma e corpo em ruínas, esquecidos neste monturo.
Arrastando os grilhões férreos da Vida, vamos, sòzinhos, degradados: um se maldiz; o outro chora - e seguem em silêncio, os mais desgraçados; mas a Divina Lei suaviza e quebra os corações dos condenados.
E cada um que se quebra na Prisão, é como aquela ânfora cheia, que outrora se partiu, e o seu tesouro deu a Jesus da Galiléia, espargindo na casa do Leproso o olor do nardo da Judéia.
Feliz êsse que parte o coração e ganha a Paz, e ganha o Amor! Quem, de outra forma, pode libertar-se do pecado escravizador? E onde, a não ser num coração partido entra Jesus, Nosso Senhor?
Ah! o morto de garganta inflada e púrpura, e olhar imóvel, indeciso, espera que lhe dê sua bênção. Esse que ao bom ladrão deu o Paraíso: Pois Cristo acolhe as almas penitentes, - e é estranho, às vêzes, Seu juízo.
O homem da lei, vestido de vermelho, deu-lhe, de vida, três semanas, para a sua alma conciliar consigo, e sem idéias ruins, tiranas, purificar do sangue derramado, as mãos, um dia desumanas.
E ele purificou, chorando sangue, as rudes mãos de instintos crus: pois só o sangue lava o próprio sangue, e só o pranto ao Bem reconduz; e a nódoa rubra de Caim transforma na branca auréola de Jesus!
VI
No cárcere de Reading, junto a um muro, terra de opróbrio os ossos come de um desgraçado, envolto num sudário que o afogueia e que o consome! É uma campa infamante essa em que jaz, uma campa que não tem nome!
E aí, até Jesus chamar os mortos, tranqüilamente há de jazer. Inútil verter lágrimas inúteis, e dar suspiros, e gemer. - Ele matou aquilo que adorava, teve, por isso, de morrer.
No entanto (ouvi) cada um mata o que adora; o seu amor, o seu ideal. Alguns com uma palavra de lisonja, outros com um duro olhar brutal. O covarde assassina dando um beijo, o bravo, mata com um punhal.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Mavignier de Castro




Antonio Mavignier de Castro nasceu no Ceará, no dia 21 de novembro de 1895, fez curso primário em Belém. Com nove anos de idade, em companhia da tia, seguiu para a França até concluir o Curso de Bacharel em Ciências e Letras. Regressando ao Brasil, entrou para a redação do jornal “A Época”, em Manaus. Em 1916, foi nomeado chefe de revisão do Diário Oficial do Estado do Amazonas. Foi repórter do jornal “O Tempo” e no “Jornal do Comércio”, de Manaus. Como Promotor Público, atuou nas Comarcas de Eirunepé, Tefé e Manacapuru, deixando-as para ser nomeado Prefeito de Moura, no interior do Amazonas. Foi professor de Francês na Escola de Comércio “Solon de Lucena”. Escreveu “Síntese Histórica e Sentimental da Evoluçao de Manaus” e
“Amazónia Panteísta”. Era membro da Academia Amazonense de Letras, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas e sócio correspondente da Academia de Letras do Ceará.


Capítulo de "Amazônia panteísta":

"Orfeu das selvas amazônicas"


“Leucolepia arada modulatrix”... Na classificação dos milhares de pássaros existentes nas selvas, nos campos e nos montes de todos os continentes, talvez nenhuma especificativa se ajuste melhor que a do uirapuru amazônico. Até a terminologia tupi interpreto a vulgaridade que o torna conhecido - “uirú”, (boca) e “purú”, (ruidosa, cantora).

É na quietude balsâmica das manhãs luminosas, antes do sol atingir o zênite, que, invariàvelmente, na copa de uma árvore altíssima da terra firme, um gorjeio harmonioso se foz ouvir em escala crescente de acordes enleantes, de sonidos puríssimos, tal um conjunto inefável de notas metálicas e cristalinas vibradas ao mesmo tempo, num misto aproximado de arpejo eólio e avena pastoril, cuja gama de sublimada consonância nenhum instrumento musical, por mais sonoroso, pode imitar.

Então, como que atraídos pela suave melodia, ora evanescente, ora altissonante, centenas de pássaros revoam transpondo os recessos florestais. Suas asas não tatalam e nenhum pipilo lhes sai da garganta. Crer-se-ia que temendo profanar a serenidade panteística do momento, êles se aproximam silenciosos do minúsculo orfeu plumiliforme, e, pousados a seu redor, vão matizando os ramos com as suas plumagens azuis, citrinas, purpúreas, brancas e negras.

Terminada a fantasia de côres esvoaçantes com a quietude embevecida dos alígeros ouvintes, o gorjeador faz pausa, voeja para empoleirar-se na ramagem de outra árvore, seguido triunfalmente pela profusão de penas deslumbrantes que lembram a policromia de um fogo de artifício caindo na penumbra do matagal silente.

Na sucessão dêsses rápidos intervalos, é possível, de relance, vislumbrar a tonalidade barrosa do corpo do pequeno virtuose ornitológico. Quem jamais ouviu as modulações do mago passarinho, dificilmente acreditará no estranho fascínio que a sua harmonia exerce sobre os sêres alados e, também, na extraordinária influência que ela desperta em nosso espírito.

Excluída a prodigiosa propriedade do canto inimitável, pouco se sabe dos hábitos do “Leucolepia arada modulatrix”. Jamais um exemplar de qualquer idade resistiu ao cativeiro. Pacientes observações, entretanto, revelaram que êle é insetívoro, nunca se alimentando com gramíneas ou frutos silvestres. A plumagem do casal é uniforme, —côr de argila escura, mais carregada que a do vulgaríssimo ‘joão-de-barro”. Não possuem, ambos, os soberbos reflexos metálicos vistos nas asas dos rouxinóis do Rio Negro; não lhes ornam as cabeças penachos carmezins como os dos “galos-de-campina”, e suas gorjeiras não ostentam as cintos douradas que refulgem no peito dos “japiins”. Em compensação, quando êles nidificam, no período nupcial, a capacidade vocal se lhes desenvolve de modo tão imprevisto que a melodia patética do gorjeio adquire, dentro do místico recolhimento da natureza, surpreendente motivo de elevação hierática, somente comparável aos temas poéticos que nos levam aos paroxismos da emotividade, como quando ouvimos, sublimadas, a execução suave, espiritualística, das extasiantes músicas sacras.
(De “Amazônia Panteísta’)