quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Euryalo Cannabrava





NATUREZA E HISTÓRIA





O Sr. Sérgio Buarque de Holanda, crítico literário forrado de cultura filosófica, em uma de suas crônicas publicadas no Diário Carioca fez alguns comentários sobre duas comunicações que tive a honra de apresentar ao Congresso Brasileiro de Filosofia. As observações do excelente critico paulista ferem em cheio alguns pontos fundamentais que se relacionam com as deficiências e irremediáveis desvios da atividade especulativa entre nós.

É inegável que os trabalhos reunidos agora nos “Anais” do referido Congresso estão longe de confirmar a existência, no Brasil, de vocações filosóficas de primeira ordem. A maioria das comunicações se caracteriza por singular abstinência em matéria de idéias: os congressistas em geral preferiram debater as questões históricas da filosofia a enfrentar corajosamente os seus problemas. Diversos trabalhos não apresentam qualquer vestígio de originalidade, limitando-se os seus autores a catalogar citações sobre os assuntos mais variados, sem preocupação alguma de coerência e unidade no curso da exposição.

Nada mais lamentável do que essa incapacidade, tão generalizada entre nós, de distinguir o que é simples memorização erudita daquilo que revela penetração crítica e capacidade de análise. Há, sem dúvida, certa resistência ao esforço crítico, que se manifesta através da adesão incondicional aos sistemas especulativos e da recusa obstinada em rever os fundamentos de nossas convicções mais profundas.
Discutindo, há alguns anos, com um amigo que se mostrava exageradamente receptivo aos ensinamentos da filosofia cristã, tive oportunidade de lhe fazer várias perguntas indiscretas. Entre elas, lembro-me de algumas que o irritaram bastante: “Se você acredita que Jacques Maritain é um gênio, qual o adjetivo que reservará para São Tomás, em cuja obra o escritor francês foi buscar todas as suas idéias? E se você teima em proclamar que São Tomás é um supergênio, que qualificativo aplicará a Aristóteles, inspirador de pelo menos dois terços da filosofia tomista?”
É claro que essas perguntas ficaram até agora sem resposta. Tudo isso indica, entretanto, que o entusiasmo fácil por idéias alheias nem sempre é acompanhado pela tentativa de examinar criticamente as verdadeiras razões de nossa admiração. E se alguém nos força a apresentar evidências, que justifiquem a aceitação de certos sistemas ou credos filosóficos, torna-se difícil dissimular a gratuidade de nossa adesão.
Foi assim que se difundiu, nos últimos tempos, entre os círculos filosóficos da América Latina, fascinados pelo sortilégio do pensamento germânico, a ingênua convicção de que existem fundamentos sérios para a distinção entre as ciências naturais e as ciências histórico-culturais. Os adeptos (quase sempre sectários e intransigentes) dessa famosa dicotomia do grupo das ciências julgam-se inteiramente dispensados de qualquer espécie de justificação. Eles acreditam que a bifurcação das disciplinas em naturais e histórico-culturais deve ser aceita sem maior exame.
O prestígio do nome de Wilhelm Dilthey contribuiu muito para a generalização, na América Latina, da absurda convicção de que existe incompatibilidade, ou diferença profunda, entre o conhecimento da natureza e o conhecimento da história. O filósofo Ortega y Gasset encarregou-se da tarefa de cavar um abismo entre a realidade histórica e a realidade natural. Foi ele quem afirmou dogmaticamente que o homem não é natureza e sim história.

Nenhum desses pensadores, porém, jamais se lembrou de demonstrar que a classificação bipartida das ciências encontra apoio em critérios racionais e lógicos. A disciplina competente para estabelecer normas de classificação é a lógica formal. Pergunta-se, portanto, se Dilthey, ou Ortega y Gasset, seu discípulo moderno, demonstrou com o necessário rigor que as ciências históricos-sociais satisfazem os requisitos lógicos de objetividade, consistência e ordenação sistemática das disciplinas denominadas positivas.

O filósofo alemão Dilthey nunca se preocupou em provar que existe uma ciência histórica, por exemplo, completamente distinta das ciências naturais: para isso seria indispensável que ele se referisse explicitamente aos característicos e propriedades lógico-formais que distinguem o conhecimento histórico do conhecimento natural. Cabia-lhe, ainda, a tarefa complementar de justificação da lei histórica, mencionando as razões ponderáveis que o levaram a atribuir a esta última o mesmo status lógico da lei natural. A lei natural se verifica, quando se torna possível estabelecer relações quantitativas de proporcionalidade constante entre duas ou mais variáveis. O mesmo por acaso se poderá dizer das supostas leis históricas?

O recurso à filosofia dos valores e critérios puramente especulativos jamais poderá suprir a ausência de princípios lógicos, que estabeleçam normas para a classificação bipartida das ciências. Mas a lógica formal não somente separa e divide as disciplinas, como também estatui regras para a redução de uma ciência a outra ciência.
Essa redução, como observa Ernest Nagel em artigo recente (1), se verifica somente quando os termos que ocorrem nos enunciados da disciplina secundária (biologia por exemplo) podem ser explicitamente definidos com o auxílio do vocabulário especifico das disciplinas primárias (física e química). Essa seria a técnica a se aplicar ao domínio das ciências histórico-sociais (disciplinas secundárias) com o objetivo de reduzi-las ao grupo previamente formalizado das ciências naturais (disciplinas primárias).
O sr. Buarque de Holanda manifesta a esse propósito sérias dúvidas de que tal tarefa possa ser levada a cabo no domínio das ciências históricas. As suas observações se aplicam mais rigorosamente às tentativas ingênuas de matematização da história, psicologia ou sociologia. O crítico paulista discute esse problema animado de um sadio pessimismo, pois é evidente que nada indica, ainda remotamente, qualquer possibilidade de se executar esse ambicioso projeto.
Seria ingênuo, por outro lado, acreditar que a redução da história à economia, ou a outras ciências, possa verificar-se nas mesmas condições em que amplos capítulos da química foram reduzidos à estrutura da física, mediante a tradução dos termos daquela disciplina na linguagem da teoria atômica. Ora, tanto a formalização da história, como a sua equiparação a outra disciplina básica seriam, diante dos recursos atuais da lógica formal, comparáveis ao trabalho de unificação das artes ou de sua transformação em um único modelo...
Pois é precisamente a história - fator comum a todas às disciplinas - que permanecerá provavelmente irredutível a qualquer tentativa de matematização. O domínio histórico é o campo em que se movimentam as forças irracionais, os interêsses e as tendências afetivas, os valores misteriosos de variáveis desconhecidas e para-metros ocultos. Nesse setor parece sempre pouco fecunda a técnica que consiste em formular postulados básicos e deduzir dessas proposições primitivas uma série de conseqüências relevantes.
O que parece mais provável é que a formalização da economia e sociologia se reflita indiretamente na esfera do conhecimento histórico. O trabalho de Lazarsfeld e Lundberg em sociologia indica diretrizes que poderão orientar os futuros pesquisadores. A extensão do método científico à história obedecerá, portanto, a princípios estratégicos diferentes daqueles que se fizeram valer no domínio dos fatos naturais.
A história dificilmente adquirirá o “status” lógico-formal de uma disciplina positiva, mediante recurso direto às leis de derivabilidade sintáxica e aos processos modernos de matematização. É possível, porém, que o progresso de outras ciências, muito próximas da história, no sentido de utilização crescente da técnica de formalização, contribua para eliminar parcialmente os efeitos desastrosos do diletantismo literário e filosófico sobre uma disciplina que não se caracteriza pelo rigor sistemático de suas construções.
(1) Mechanistic Explanation and Organismic Biology - Philosophy and Phenomenological Research -- March, 1951.
[texto de Ensaios filosóficos. INL, Rio de Janeiro, 1957.]



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NEJAR E SUAS ORDENAÇÕES

Em as Ordenações*, Carlos Nejar atinge tal depuração da
linguagem, através de versos rasantes, de grupos de força, de
estruturas sintagmáticas, que parece até nos por era contato iii
terno com objetos e situações concretas. Nejar despojou a linguagem
poética de ornatos e atavios desnecessários ou supérfluos.
Esse despojamento obedece a uma tecnica de decisão, que
se torna no poeta cada vez mais complexa, para obter resultados
cada vez mais simples e diretos. A estratégia de decisão
nejariana consiste em elaborar um modelo de aquisiçao das palavras,
mais atento às suas interações do que aos seus processos
de semântica interna. 0 poeta dispõe de um sistema de preferências,
complementado por criterios de seleção.
Os seus critérios seletivos dependem da busca infatigável
daquilo que Da Vinci denominou "ostinato rigore". 0 "ostinato
rigore" em Nejar acumplicia-se com a fuga obstinada ao homogéneo
e ao uniforme na construção das palavras no verso. 0 poema
nejariano fica assim mergulhado, em cheio, naquele espaço estético
em que a disciplina da linguagem se associa ao policiamento
interno dos impulsos e das emoçoes. 0 ideal nejariano pji
OBS -* Ordenações (I»H), Edições Galaad, 1969; Ordenações
(I,II,III,IV,V), Editora Globo, P. Alegre, 1971.
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rece ser o da quietude do apaziguamento interior. A sua arte
permanece classica quanto aos objetivos, embora moderna quanto
aos meios e recursos. Se houve crises e tormentas em seu itine
rario lírico, parece ao leitor atento que tais impedimentos fo
ram removidos por obra e graça das Ordenações.
0 poeta, através delas, determina, dispõe, prepara resgates
, f e i torias , andanças, posses, contratos, devassas. A sua ex
periencia básica como promotor publico no Rio Grande do Sul,
diversifica-se em vivencias alternadas com manuseio de processos,
documentos, leis e sentenças. A tarimba jurídica afinoulhe
a sensibilidade para as falencias, os órfãos, os ausentes,
os varejos, os balanços, os testamentos, os filhos naturais,
os deserdados. A consciência da engrenagem social, das custas,
das delongas, dos tramites legais refinou-lhe o sesõrio para
o humano na desidia, no abandono, no esquecimento. 0 calor da
simpatia humana em Nejar, que ja tinha aquecido os versos de
0 Campeador e o Vento, volta agora, em Ordenações, naquela retorica
sutil e refinada na distensao rítmica, no contacto -com
a frialdade da morte, na entrega de si mesmo, no resgate da
culpa, a purificaçao da inocencia. Nejar fluidifica os limites
entre a imanencia dos hábitos e o impulso para a transcendencia
no infinito. A sua faina é destruir a crosta espessa do
corpo para sentir, ao vivo, o que esta por dentro. E o que per
manece nesse ideario quase místico que permeia os seus poemas,
nessa evasao do cotidiano para atingir as camadas superiores
da abstraçao e do pensamento reflexivo, se condensa na experiência
poética, como interpretação da natureza e do homem.
Há, sem dúvida, força e penetração metafísica nestes poemas,
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cuja linguagem resvala no terreno áspero do prosaico para alcançar
os estratos rarefeitos da expressividade lírica.
0 que caracteriza, porem, toda a poética nejariana, desde
o Livro do Tempo (1965), o Campeador e o Vento (1966)até as
atuais Ordenações é a procura insistente do "ostinato rigore"
nas interações vocabulares, na expansao da forma comandada pe
lo ritmo. 0 rigor, na linguagem poética, obtém-se pela mobili_
zação estratégica de recursos do contraponto verbal. Estes recursos,
reforçados pela tensão conotativa entre o substrato
das referencias simbólicas e o repertório imagístico na palavra,
integram o vocabulário lírico de indeterminaçao propícia
»
ãs mais variadas interpretações. Essas interpretações, porém,
nao seriam infinitas, ao contrário do que afirma Umberto Eco
a propósito da Obra Aberta.
Em primeiro lugar, o poema como toda obra de arte, e nece¿
sariamente fechado. E o fechamento do espaço poético determina
se pelo seu raio de ação, circunscrito a domínio significativo
que define o campo abrangido pela mobilizaçao lirica de recursos
lingüísticos. Os limites do poema sao as fronteiras da lin
guagem poética. Ultrapassar esses limites seria incidir na 1 i ri
guagem prosaica, trivi al i zand o o que é especifico no ritmo vocabular
do poema, d i stinguindo-o do ritmo sentenciai do romance
ou do conto. As delimitações entre poesia e prosa estao na
dependencia da arquitetônica rítmica que diferencia o verso da
frase. Além disso, há, em ambas, determinações estilísticas di_
versas. 0 estilo do poema,ao contrário do estilo da prosa, adçj
ta um modelo de aquisição da linguagem em que o sentido é submergido
pelo ritmo e pela polifonia do contraponto verbal.
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O rigor na construção rítmica, tanto do verso como da frase,
reduz-se ao movimento exterior da forma e ã sua contração
interna, galvanizada pelo estilo. 0 "tempo" rítmico, na arquitetônica
estilística das sentenças, em um escritor como Proust,
obedece a estrategia de decisão que conjuga a expressão da for
ma com as modulaçoes pelo ritmo sentenciai. A frase, em Proust,
dilata-se através do encaixe de locuçoes incidentes até o ponto
máximo de tensão, proximo do rompimento em unidades fragmeti
tárias. Nesta fase, porém, verifica-se uma especie de reajuste
ou recomposição interior que suscita através de estruturas reversíveis,
a galvanizaçao de expressividade tematica pelo estí
lo. Vejam bem: o efeito da frase, na prosa proustiana, se dilui
através da duração das locuções verbais, das sintagmas interca
ladas no contexto, dos encaixes sucessivos, inseridos a golpes
de martelo, das amp 1 ificaçoes muitas vezes intempestivas, que
se distanciam do início dos períodos como os rios dos mananciais
.
0 oposto se verifica no poema moderno, em que o coeficente
temporal, na arquitetônica do ritmo se contrai bruscamente,por
sacudidelas e tropeços, pelo imprevisto na sequencia dos vocã
bulos, pelas dissonâncias nos acoplamientos verbais, pela surpresa
das afinidades eletivas entre sintagmas e grupos de
força, pela drasticidade das imagens. 0 estilo poético tornou-
se mais sóbrio do que a prosa. 0 arquetipo poético segue
o modelo da concisão, do rompimento de estruturas lógicas
na seqüência das palavras, da aspereza no trato e no manuseio
das combinações léxicas. 0 refinamento ou a sutileza na linguagem
poética ê substituído pela incontinencia, pelo transbordamento,
pela violaçao dos Cânones esteticos. 0 poema moll
derno, como de Nejar, adota fórmulas de comando verbal e discursivo
que desarticula, na estrutura linguistica, os liâmes
entre som e sentido, entre palavra e significado, entre sintaxe
e semântica. Logo, na entrada das Ordenações , o poeta decía
ra :
"Louco ou nao, ébrio sempre, / avarento com as lamúrias,/
prescrevo estas ordenaçoes / para que afixadas sejam" - não
deixando dúvidas sobre as suas intenções de se exprimir
em linguagem irredutível a cânones de inte1igibil idade prosaica.
Ë evidente que o poeta finge ignorar limites e condições
restritivas do mundo real: ele se transpõe, com armas e bagagens,
para um mundo concreto em que a palavra determina, por
si só, a presença efetiva do objeto. Este mundo, cuja necessidade
se sobrepoe ao contingente e ao aleatório, identifica-se,
no plano da criatividade pura, com o permanente e o absoluto
da experiência sensível. 0 poeta sente e vibra através desse
contacto interno dos sentidos com o mundo das cores, das formas,
das tramitações contínuas entre o claro e o escuro, a som
bra e a luz, o consciente e o inconsciente, o inteligível e o
ininte legíve1. Eis por que ele afirma em seguida:
"Nao serei sujeito / i morte e seus acabos."
Nesta profissão de fé, em "Ajuste", Nejar escapa da condição
mortal para prescrever "ordenaçoes" a que se submetem o polimorfo,
o transitório e o variegado. Sobrepondo-se aos "acabos"
da morte, o poeta "Por muita ou pouca razão,/ conforme o enteil
dimento / meu e vosso, ao vivo,/ ao que não sabe a podre,/ ao
leal darei meu preito" - escolhe palavras, não ã esmo ou por
acaso, atento ãs interações vocálicas ou consonantais, nas sí-
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labas rasantes, em busca de rupturas sintáticas ou semánticas.
A ruptura e o objetivo de Nejar na construção do poema, na dis
tribuição dos termos, no inusitado das associações verbais, no
flagrante do inopinado, do imprevisto na forma, no conteúdo,na
arquitetônica estilística. Nejar negaceia, oscila entre polos,
sedimenta, espalha na semeadura e apanha na colheita. E pontiff
i ca :
"É o preço do apreendido/ a custo, a fio, bocal / encaixado no
tempo" - em que, comunicando " o preço do apreendido", informa
que foi "a custo", "a fio". Ou, mais ainda, "bocal" "encaixado
no tempo" como açaimo que refreasse o seu curso implacável.
0 poema conclui com os versos: "Prescrevo estas ordenações/ e
prendo-me, / se por "al" não estiver preso" - pondo a descober
to a sua liberdade, na escolha entre várias alternativas, justamente
daquelas palavras que nao se prendem entre si senão
por elos de expressão e conteúdo puramente material. Ã força
drástica e condensada de "avarento coin as lamúrias", " a morte
e seus acabos", "preço do apreendido", "bocal encaixado no tem
po" , se contrapoe o "louco ou nao, ébrio sempre", o "prescrevo
estas ordenações", o "para que afixadas sejam", o "ao leal darei
meu preito". Esta contraposição, obtida por encaixes do
inusitado com o entretecido da rotina e do cotidiano, empresta
realce e relevo ã forma poética.
Ë o toque do manuseio lírico nas palavras que mantém, entre
si, redações de contraste e de coalisao, a marca sensível
da passagem do transitório no objeto estético para o permanente
na obra-de-arte. Em "Chegamento", o descritivo se acasala
com o descontínuo e a nao - linearidade do entrecho lírico que
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repele o homogeneo para abrir fronteiras a invasao do infinito.
São frinchas abertas na linguagem, mobilizada nos seus ele
mentos quânticos irredutíveis a outros átomos de expressão. Ë
a linguagem comprimida através de condensações sucessivas, em
células rítmicas, em unidades comunicativas de projeção intersilábica
e interconsonantal. Sao sintagmas erigidos em grupos
de força rítmica, imantados interiormente pela carga energetica
das imagens. Esta polarizaçao magnetica de unidades comunicativas,
na linguagem poética, produz efeitos de intensidade
na corrente do dialeto lírico. Daí, em "Chegamento" , o efeito
de cascata das estrofes, em que o ritmo desencadeado se alterna
com efeitos paral e 1 ísti cos de redundancia e de recapitulaçao
:
"Até aqui cheguei,/ vivente, ileso ainda, /apresentando as tri_
lhas/ que só eu caminhei, /amamentadas filhas". / "Ate aqui
cheguei ,/pressuroso, confiante, / mas seco, sem detenças/ no
depois e no antes;/ sou a colina estreita / e o sol posto a
direita." E, logo em seguida, com efeito de ritornelo: "Amigos,
inimigos, / até aqui cheguei,/ por força de eu comigo"
... - em que ressalta o verso "por força de eu comigo", no j£
go interativo do "por força" "de eu" e "comigo", em que o sintagma
lírico se desagrega em átomos de expressão convertidos
em unidades de seqüência rítmica. 0 ritmo nejariano, de fundo
contrapontísti co, se alia ao plástico, de fundo escultural.
Daí a cadência procurada em trilha trovadoresca de paralelismos,
de alternancias, de balanceios no curso breve e interrompido
dos versos. Nejar, como os trovadores de tradiçao ga-
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laico-portuguesa, violenta a linguagem no que ela tem de mais
íntimo, obrigando-a a exibir as suas partes ocultas. Esta afirmaçao
ficaria evidenciada se pudesse exibir, como prova,
os poemas inteiros, e nao apenas algunas de suas partes. Acre
dito,porém, que os fragmentos já citados, dêem ao leitor visão
drástica, embora parcial, da tese em desenvolvimento neste
ensaio. A fim de corroborá-la com outros exemplos, pretendo
transitar das "Considerações sobre a ordem", em que o verso-
estribilho "Deve ser tudo ordenado" - se reitera obsessiva
mente, no plano para 1 e 1ísti co da toada ou da cançao medievalpara
as "Considerações sobre a morte e seus hábitos" . Uestas
últimas, a linguagem sofre violaçoes semânticas de exegese
poética, e impactos sintáticos de arquitetônica estilística.
No poema inicial, a morte aparece como "Visitante insolita":
"A morte e seu consumo. / A morte e seu apuro./ 0 repuxo que
ela traz , o soldo . "
A crítica tradicional, diante destes tres versos, investi^
ga-lhes o "sentido", parafras eando-os em prosa, isto é, deslocando-
os para o plano da sintaxe na construção das frases,e
da semântica na fixaçao do significado. Observem, entretanto,
que o poder referencial do substrato simbólico dos termos sob
exame resulta em simples contrasenso na paráfrase prosaica.
Não se trata de verificar o que o poeta transmite ou informa,
mas sim, o que ele comunica. E o que ele comunica sobre a "Vi_
sitante insólita" através dos versos:
"Desde antanho /' concebemos seu vulto./ Desde antanho / a pro
jetamos / no muro do que somos. / Limpa nos parece:/ arroio,
lebre." - estrat ifica-se em complexo interativo de pura res-
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sonancia interiorizada nas camadas profundas da linguagem. Nejar,
jogral trovadoresco, brinca com as palavras revelando pos
suir domínio completo sobre as relações entre os fatores que
condicionaram a galvanizaçao da expressividade temltica pelo
estilo. Cultivando o "ostinato rigore" no manuseio lírico das
assonâncias e das aliteraçoes, o poeta riograndense desarticula
o idioma lírico, forçando-o a exprimir o incomunicável. £
evidente que se "desde antanho concebemos seu vulto", a morte
passa a ser sombra que nos segue, colada ao nosso corpo. Este
sentimento de fami 1 iaridade com a "visitante insólita" revela-
se, mais uma vez, "desde antanho", nas palavras "a projetamos"
"no muro do que somos".
Seria oportuno, agora, que o leitor se prontificasse para
uma experiencia de natureza psicológica. Verifique, com atençao
concentrada em si mesmo, a possibilidade de inspecionar
sensivelmente o "concebemos seu vulto", o "projetamos no muro
do que somos", o "Limpa nos parece", o "arroio, lebre". A experiência
consiste em explicitar, nas seqüências de palavras,
anteriormente citadas, a interaçao descontínua e regressiva do
"vulto" sobre "seu", e de "seu vulto" sobre "concebemos".
£ claro que a seqüência desses mesmos elementos sintagmãti^
cos, em prosa, com efeitos contínuos, lineares ou irreversíveis
das locuções ou semantemas entre si, contrasta abertamente
com o verso antes citado. A paráfrase prosaica do "Concebemos
seu vulto" seria, entre outras, as seguintes: "Percebemos
o seu vulto" "vimos seu vulto", "contemplamos seu vulto" mas
nunca "Concebemos seu vulto". Mesmo por que o ato de "conceber"
o "vulto da morte impõe a mobilização interior de todas
as nossas experiências, transferidas do domínio sensível
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ou cenestésico para o campo amplo do comportamento intelectual
.
0 "conceber" o "vulto" da morte constitui estruturação sin
tagmãtica somente compatível com determinantes ou fatores específicos
da linguagem poética. A linguagem prosaica repele
tais construçoes como aberrantes de sua homogeneidade no plano
sintático, e de sua linearidade no plano semantico. Nao preten
do estabelecer cora isso cânones restritivos do exercício livre
da prosa, ou delimitar o campo de preferencias e opções do escritor
em matéria lingüística.
Admite-se perfeitamente que um romancista, em certo trecho
de sua obra, intercale a seguinte frase: "Desde antanho projetamos
a morte no muro do que somos". Embora haja qualquer coisa
de estranho e inusitado nestas expressões,compreende-se que
elas ocorram dentro de um contexto em que o seu sentido, puramente
descritivo exerce função esclarecedora a respeito do que
vem antes ou do que virá depois. Trata-se realmente de uma ima
gem ( a morte projetada no muro do que somos) que, no poema,
vale por si mesma, porque tem dentro dela própria, o seu obje
tivo principal que é desferir o impacto sobre a nossa sensibilidade
.
Em prosa, a imagem surge como função substitutiva ou, mesmo,
puramente referencial ou simbólica, apesar, em certos casos,
de seu inegável teor poético. Notem que digo teor poético,
e nao feitio ou caráter poético. É o caso, tantas vezes ci
tado por mim, da esplendida imagem de Proust sobre Albertine.
"Ela era unica e portanto, inumerável". Esta imagem, na economia
interna do romance proustiano serve de sintese da persona-
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gem equívoca e mu 11ifacetada de Albertina. Observem que digo
serve. Querendo exprimir a sua funcionalidade no contexto, isto
é, o seu papel revelador da psicologia de Albertine, da sua
personalidade rica de aspectos, indevassável pela analise. Ntfda
disso acontece no poema com os versos citados:
"Desde antanh o/concebemos seu vulto./ Desde antanho/ a pro
jetamos/ no muro do que somos. /Limpa nos pare ce :/arro i o, lebre"
.
Vejam bem: nao hã continuidade linear, homogênea ou uniforme
entre os dois primeiros versos, os três seguintes e os dois
últimos. Nao ha tema a desenvolver, nao hã seqllência lógica,
prosseguimento ou, mesmo, coerência, sentido, interligação de
palavras no texto poetico. 0 que se observa é o feitio abrupto,
agressivo das palavras nos versos , a sua incontinência ver
bal e léxica, o caráter violento, intempestivo, absurdo de sua
inopinada presença. Somente ao poeta é dado dizer da morte:
"Limpa nos parece:/ arroio, lebre."
E pergunta-se: por que nao nos escandalizamos? Por que,
mo Platao, nao o expulsamos do nosso convívio e da nossa republica?
A resposta é complexa: porque se estabelece entre o lei^
tor receptivo ao "pathos" lírico e o criador uma espécie de
cumplicidade na subversão linguistica, no deitar abaixo cânc>
nes e preceitos, no reduzir a escombros convençoes milenãrias.
Esta cumplicidade entre o leitor e o poeta não significa renún
cia ã exegese semantica do poema, pois consiste apenas em considerá-
la inoperante.
0 que haverá de comum entre a morte e a circunstancia dela
nos parecer "limpa"? Quais são os atributos do "arroio" e da
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"lebre" que se encontram em nosso desaparecimento total e absoluto?
Evidentemente nenhum de natureza semantica, por nao haver
domínio algum significativo que corresponda às propriedades de
que participem "arroio", "lebre", "morte". 0 que há, em tudo
isso, se reduz ã imagem de complexos interativos, atuando fisicamente
sobre os referidos vocábulos, explicitando o seu
fundo comum de natureza sensorial ou cenestésica. As imagens
sensíveis do "arroio" e da "lebre", associadas ãs sensações auditivas
de murmúrios no "arroio", ãs sensações visuais de ligeireza
e da prontidão de movimentos da "lebre" representam
o fundo em que surgem, de repente, a presença da morte. Esta
presença permeia os poemas seguidos sobre ã "Visitante Insólita",
"Disciplina", "Da roupa final", "Do hábito", "Sepult¿
mento". No poema "Disciplina", Nejar passa a "Ordenar a
morte/ ruflando-a coesa,/ contra o sul, o norte/ e outras redondezas,/
ruflando-a, ruflando-a/ e que nada sobre/ de seu ru
de golpe,/ salvo referencias." - atribuindo-se o poder mágico
de ruflar á "visitante insólita", munida de asas, depois de
atribuir-lhe o murmúrio, o desenvolvimento do "arroio" e a ligeireza
alerta da "lebre". Em "A roupa final", o poeta interroga
"Qual a roupa / que vou vestir/ para tao grande / acolhida?"
- dando-nos a impressão do abraço fatal, comprimindo carnes.
E notem que esta última interpretação nao é semantica, e
sim visual, muscular e tãtil. No último poema, desta seqüência
lírica, "sepultamento" , Nejar "ordena" as duas estrofes finais:
"Jogral fui, depois réu / agora maço de vento/ enrolado
num chapéu. "Nao me sintam sentimentos./ Meu invento / é estar
sofrendo menos / quando tento."
Nestes versos, ocorrem expressões como... "maço de vento/
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enrolado num chapéu" - em que o contato interno com os sentidos,
através da representação visual e cinética da cena descri
ta, provoca a galvanização de ocorrência pela imagem. Na estrofe
seguinte, realça o primeiro verso - "Não me sintam senti
mentos" pela redundância na ênfase dada ã indiferença do poe
ta, ao defrontar a eternidade. £ certo que antes, no mesmo poe
ma, jã havia declarado: "Doido ou possesso,/ nada peço,/ enter
reu-me." E mais adiante, reitera: "Sem fardamento para o rito,/
solene ou ridículo,/ enterrem-me." Notem, mais uma vez,
fato totalmente esquecido pela crítica de poesia em geral, que
todas essas expressões se concatenam, interativamente, sob o
signo das imagens visuais, embri cadas no texto lírico como parasitas
no dorso nu das árvores.
0 repertório imagístico, cravado na cerne da representação
visi ai desdobra-se diante dos nossos olhos, através de cenas
esparsas ou de presenças vivas, sob o sortilegio da evocaçao
ou da reminiscencia. Ninguém percorre as linhas precedentes,
sem evocar imagens presas por elos fracos ou vigorosos às palavras,
tonalizadas afetivamente, que se ordenam na série "doi
do ou possesso" , "enterrem-me", "sem fardamento para o rito,/
solene e ridículo/, enterrem-me". Como desconhecer o lastro
afetivo e sensorial, no sentido visualisante, de termos duros
e fortes como esses?
0 lastro s ens itivo-motor das imagens poéticas, em Nejar,
constitui garantia do movimento que dinamiza ritmicamente as
suas estrofes. A poética nejariana desdobra-se e evolui na base
da açao verbal com mutações bruscas na tematica e na busca
infatigãvel do "ostinato rigore". Esse "ostinato rigore" é pe£
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seguido, sob todas as formas nos poemas cuja epígrafe "Dos mor
tos" constitui prolongamento do tema anterior. No primeiro "Fi
delidade", destacam-se os seguintes versos da primeira estrofe
"Parai - murmúrio -/ convosco vou caminhando./ A cada margem
- murmúrio -/ e os mortos andam". Vejam bem: tanto nestes
versos como em todos os outros citados, ocorrem palavras que
mantém contacto interno com os sentidos. A palavra "murmúrio"
de ocorrência reiterada no texto, de feitio onomatopaico, está
munida de ressonância auditiva. 0 mesmo acontece com "parai",
sob o ponto de vista de detida no movimento, com "vou c¿
minhando" como sucessão de passos, com "margem", visualisada e
repercutida em "murmúrio", com "os mortos andam" ligada ã ima
gem cinetica e, ao mesmo tempo, lúgubre.
Na linguagem poética, as palavras, por necessidaae interna
e coerçao de natureza lírica, mantém contacto com a carga das
imagens sensíveis e concretas. Nao é poético o termo abstrato,
destituído de lastro sensorial, como "idéia", "conceito", "determinismo",
"democracia", "epígono", "precursor". Ë evidente
que tais termos podem figurar no poema, porém nao como abstrações
desligadas da realidade canalizada pelos õrgaos sensíveis,
e sim através de vínculos explícitos com vocábulos de ccj
notaçao empírica ou de referencial denotativo. A poesia autêntica
deita raízes naquele vocabulário, enriquecido pelas reações
de tonalidade sensível, que afetam diretamente o gosto, o
olfato, a visão, o complexo auditivo ou as reações sensitivomotoras.
Nao há poema puramente cerebral, embora Paul Valéry,
seguindo a linha de Mallarmé, se compreza no jogo abstrato de
idéias. Cabe ao crítico, entretanto, discernir com agudeza os
esboços e lineamentos da poética valéryana para descobrir ne-
21
la, sob a crosta da idéia, o latejo das reações sensíveis. £
assim que no famoso poema "Cimitière Marin", celebrado pelo
seu obscuro e ostensivo cerebralismo, figuram versos como estes:
" 0 pour moi seul, à moi seul, oh moi même./ Auprès d'un
coeur, aux sources du poeme./ Entre le vide et l'évenement
pur,/ J'entends l'echo de ma grandeur interne,/ Amere, sombre
et sonore citerne/ Sonnant dans l'âme un creux toujours futur:"
Havera poucos exemplos, na aparência, de maior voluptuosidade
verbal, a cata de termos esvaizados de conteúdo interno,
no surto livre de sua indeterminaçao semântica. Reparem no "Au
pres d'un coeur, aux sources du poeme," dirigindo a sua atenção
para - "Entre le vide et l'évenement pur" - a fim de se
concentrarem, saltando dois versos, en: "Sonnant dans l'âme un
creux toujours futur!".
Parece inegável, entretanto, que o poeta identificado com
o "Cemitério Marinho" nos versos iniciais, se concentra dentro
dele mesmo. E onde se refugia ele, nos seus próprios domínios?
A resposta está no poema, irredutível a parafrase em prosa. A
referência ao coraçao como fonte do poema e a esplendida imagem
da cisterna, onde se submerge o futuro sempre renovado e
sempre vazio têm qualquer coisa de mais concreta do que fatos,
situações ou acontecimentos palpáveis.
A problemática poética valéryana concentra-se em explicitar,
através da representação sensível, o fundo objetivo, de
participaçao direta, de experiência acumulada que se sedimenta
na forma abstrata das idéias. Os versos de Valéry, em "La jeune
Parque" e "Cantate du Narcise" exploram essa profunda liga-
22
ção que prende o conceito, a lei ou princípio as raízes da sen
sibilidade, aos processos da experiência tatil, olfativa, visual,
auditiva ou muscular. A linha ascendente que interliga
as estruturas dos orgaos sensoriais com os processos e operações
do cérebro segue um caminho tortuoso, cheio de desvios e
de colaterais.
A linguagem poética de Nejar tem qualquer coisa de selvagem
ou de bárbara quando comparada ao refinamento e a sutileza
da linguagem poética de Paul Valéry. Nejar poetiza por sacudidelas
e tropeços, enquanto Valéry e o movimento alado em um
céu azul, sem nuvens. 0 poeta riograndense, egresso dos pagos
e das coxilhas, usa palavras como pedras atiradas em alvo incerto,
removendo entulhos para abrir caminhos até o repouso no
esquecimento e na quietude.
Degusta a vida, come, bebe, movendo o corpanzil, aos goles
rápidos e rumorosos. Nejar é o campeador, batido pela aspji
reza do vento, crestado de sol, exuberante de gestos, bebedor
de chimarrao, estômago avultado pela intemperança na deglutição
do churrasco. A meta, porém, e a poesia que ele mantém seil
tada em cima dos seus joelhos, a conselho de Rimbaud. Tem atra
ção pela morte, transfigurada em "concha de nuvem", em "silêncio",
em sopro: "Ha um invólucro apenas/ a ser quebrado./ Meus
mortos,/ ha um involucro apenas / e os sonhos vastos."
Este invólucro, em Nejar é espesso e compacto, embora recubra
aspirações febris e "sonhos vastos". 0 poeta, como todo
riograndense, é um introvertido, voltado para o mundo, mas de
dentro para fora e não de fora para dentro. 0 seu linguajar,
na poetica e no convívio, tem ele como centro irradiador.
23
Nos poemas e sempre ele que fala:
"Fechado para o balanço / de viver ou esquecer./ Fechado./
E ainda julgo-me eterno, / filho de outros pais./ e mais adiante:
"Exterior, como a fachada de um prédio,/ nasço e morro, ao
mesmo tempo, /vaso comunicante de tudo, / nasço e morro / na
pele e nervos."/ "0 eterno é isto: / fechado para balanço."
No poema "Vida eterna", o ultimo da "Ordenação primeira " ,
reza.a derradeira estrofe:
"Vida eterna,/ vida eterna,/ movo-me em ti./ Movo-me em
teus filhos/ como uma locomotiva / sobre os trilhos."
Vejo Nejar, trepidante na sua irresistível semelhança com
Baco jovem, coroado de louro, taça na mao, aedo de odes e dit¿
rambos, erguer o seu brinde a vida eterna.
URDENAÇÃO SEGUNDA -
Na "Ordenação Segunda", Carlos Nejar atinge ponto máximo
em matéria de despojamento e de sobriedade verbal. 0 ritmo, bre
ve e curto, reduzido a unidades espacio-temporais, atua como
cadencia sincopada, corte cerce no decurso de seqüências interrompidas
apenas iniciadas. Nejar cultiva o egocentrismo lírico
de auto-comtemp1açao no espelho que reflete ele mesmo, de corpo
inteiro. Mas o poeta gaúcho projeta-se nos objetos e nas
coisas, em que descobre sua própria imagem. Os pagos, as coxilhas,
as querências, o céu aberto, o forum obrigam-no a
sair de si mesmo para que, ao regressar de seus poemas,
tenha a alegria e a surpresa do reencontro.
A sua obsessão com a morte ê manifestaçao de força inte-
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rior e de exuberância na alegria de ser. Ele fala dos mortos
como se fossem vivo, acótove 1ando-nos com a ponta dos ossos.
A sua poesia é autentica, na medida em que Nejar nunca sofreu
influencias, nem apanhou frutos de quintal alheio. 0 vinho que
bebe foi extraído de sua propria vindima. Os seus poemas têm
a marca de sua garra, crespa e sonora.
Daí o desrespeito e a violência com que trata a linguagem.
Ceifa palavras, no trigal da língua, expurgando ervas daninhas,
e mondando excrescencias, superfluidades ou intumes cimeli
tos. Ê um cirurgião que escapela palavras como se fossem tumo
res. Disseca os termos e os vocábulos, examinando-os por dentro.
Refreia os impulsos, canalisando-os pela disciplina e pelo
regime do rigor estilístico.
Cultiva o rigor na faina dos versos, na arquitetônica do
poema, no esboço, no delineio e na inventiva. Ele pode dizer
de si mesmo o que Democrito declarava, ao visitar Atenas:
"Eu era o único sóbrio entre bêbados." A sobriedade, em Nejar,
é feita de contensao em matéria de indisciplina ou de incontinencia
discursiva e verbal. Nejar fabricou a sua linguagem po£
tica, vigorosa de nervos e de músculos encordoados por dentro.
0 poema nejariano é o enduramento em que os versos estão munidos
de subsolo. A sua poética nao é de superfície, mas de prof
und i d ad e.
Na linguagem comum, observa Chomsky, certos princípios uni^
versais devem operar, conjuntamente em regras específicas, para
a determinação da forma e do sentido de expressões lingüísticas
inteiramente novas. Ora, nada disso se verifica na linguagem
poetica, em cujo contexto nao atuam princípios univer-
25
sais. 0 unico princípio válido, no dialeto lírico, é a "integridade"
do poema, no sentido que Tovey atribui a composição
musical. Cada poema, como cada sinfonia ou sonata, está fechado
dentro de si mesmo.
A análise das estruturas líricas incide sobre cada poema
com criterios diferentes, desde que suas propriedades ou atributos
variem de intensidade ou de extensão. Toda obra-de -arte
constitui um microcosmo; nao há nada de comum entre os "Lusíadas"
e o "Paraíso Perdido", embora ambos participem da ênfase
e da inflaçao discursiva que caracterizam a epopéia. Entre Vir
gílio e Lucrécio há o abismo que separa, nao somente as temáticas
como também a arquitetônica estilística e a modulação
rítmica.
A noção de "ostinato rigore", subjacente ao poema autêntico,
é que comanda a construção da obra no plano verbal, e no
plano rítmico. É,por isso, que toda obra-de-arte desenvolvese
como tentativa para atingir o máximo de poder comunicativo
com o mínimo de dispèndio de recursos técnicos, Este princípio,
que concilia o mínimo com o máximo, esta na base do rigor
como atributo estilístico e expressividade estética.
Voltando, porém, ã definição de Chomsky, cabe observar que
a linguagem poética, nao dispondo de princípios gerais, jamais
poderá explicitar regras. Por nao estar munida de regras, ao
contrário do que acontece com a linguagem comum, a linguagem
poética deixa de se submeter a cânones sintáticos ou semânticos.
0 dialeto lírico, livre por excelencia, exorbita de leis
e de normas. Ele desenvolve-se como a semente que rompendo a
crosta espessa, se transforma em árvore. As leis de seu desen-
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volvimento se reduzem ao seu próprio curso, isto é, a expansão
da forma modulada pelo ritmo.
A técnica da modulaçao rítmica subtende a forma criada pelo
estilo. Em resumo, o poema absoluto, sem condições restriti
vas, como "Un coup de Des" de Mallarmé, ou "Friedenfeuer" (Celebração
da Paz) de Hoelderlin, traça dentro de si mesmo, o ru
mo e a diretriz da sua atividade criadora. E eis porque o poema
autentico explicita a criatividade no ato mesmo de se constituir
em realizaçao estética. Ele é, na sua presença viva, o
fulcro e o cerne da criatividade como estado puro.
A lei geral deste trabalho, portanto, consiste em afirmar
que o poema sendo criatividade na expansao da forma, escapa iri
teiramente aos cânones estéticos que regem o ritmo sentenciai
da prosa, em primeiro lugar. Em segundo lugar, a linguagem po£
tica, a fórmula-comando se corporifica, ao contrário da prosa,
no ritmo vocabular. Daí, como conseqüência, as diferenças que
assinalam, a estrutura semântica da frase, d i s t ingui ndo-a frori
talmente da estrutura semântica do verso. A estrutura semantica
da frase, segundo Chomsky, depende das suas partes componen
tes. As partes integrantes da frase, como todo mundo sabe, sao
locuçoes que reúnem palavras formadoras de sentido.
No poema, porém, palavras reunidas nao formam sentido na
textura do verso, como se representassem locuçoes no interior
das frases ou sentenças. Ë assim que, no primeiro poema da "0_r
denação II", denominado "Retorno", surgem os versos: "Voltei
da morte,/ órfão./ Desci as escadas/ do empório;/ entre os móveis/
e os suspensorios,/ minha alma escorre./ Que alma?".
Ora, o comando do ritmo vocabular obriga o leitor a deter-
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se em cada palavra como se fosse dentro de uma muralha. A pala
vr a in tumes ce, no texto poetico, como tumor maligno, irrupção
repentina, surto irreprimível. Observem o "Voltei da morte, /
orfao." Nao ha representação semântica do domínio significativo
em qu'e os versos citados atuem como locuçoes ou sintagmas
na frase. Nao se trata, em primeiro Lugar, de enunciado verbal,
cujo "sentido" decorra das relações de correspondência se
mantica entre o termo e a realidade do objeto ou da situação
correlata. Qual e, portanto, o setor empírico que permita aferir
o grau de adequaçao entre o termo e o objeto por ele desi¿
nado? É evidente que nada, no mundo real ou abstrato, corresponde
ã "Desci as escadas/ do empório;/ entre os móveis/ e os
suspensorios,/ minha alma escorre./ Que alma?".
0 poeta nada afirma ou contesta, usando expressões como se
fossem terrenos devolutos onde tudo cabe, servindo de entulho.
Nada declara, enuncia ou esclarece. As palavras servem aqui co
mo o fio de Ariadne no labirinto. Mas acontece que este fio se
tornou quebradiço, e o labirinto nao tem saída. Existe, entretanto,
certa ordem estética no caos lingüístico que é o poema.
0 significado desta ordem, que se impõe a desordem semantica
das palavras no verso escapa inteiramente aos critérios da aná
lise gramatical ou estilística dos trechos de prosa.
Trata-se, sem dúvida, de certa ordem, na subestrutura do
poema, que se traduz como diz Paul Valéry, em consciência de
uma ligaçao profunda. Esta consciência crítica de vínculos que
atuam, na escolha de palavras, como afinidades eletivas, repre
senta o sistema de preferências do poeta. Esta ordem, que se
sobrepoe â desordem semântica, aferida pelos critérios válidos
28
na prosa, constitui técnica que ultrapassa os limites do intelegível.
Ë necessário sensibilidade alerta para o domínio da
intuição concreta em que, de acordo com a fórmula de Valéry,
os "valores de choque" predominam sobre os "valores de repouso".
Os valores de choque, incorporando a desordem semântica
do poema moderno, reagem continuamente, na linguagem poética,
contra a atitude con tempi ativa, a serenidade clássica, o espírito
filosófico, o academismo, o ideal de beleza.
Ë inegável que os valores de choque da juventude contemporanea
desprezam as linhas harmoniosas, a linearidade do homogéneo
e do uniforme. 0 mundo mo de ï ao, sob o ponto de vista da
ideologia política, se bifurca em dois submundos. 0 submundo
dos que preferem a injustiça ã desordem, como Goethe, e o submundo
dos que preferem a desordem a injustiça como Karl Marx.
A juventude manifesta preferencia pela desordem, afastando-se,
como se observa na França, tanto de Goethe como de Marx. Enquanto
isto se verifica, em todas as artes, os cânones estéticos
foram explodidos sistematicamente. Nao cabem mais na critica
modei.ia, definições da beleza e do sublime que atuassem
como princípios reguladores. Os conceitos sintéticos, como har
monia, estrutura simétrica, equilibrio de massas, perspectiva,
unidade interna perdem todo e qualquer sentido.
0 predomínio da arquitetônica sobre a inspiraçao faz com
que a análise sobrepuje a síntese. Mesmo por que a analise resulta
de uma longa paciência, enquanto a síntese obedece a impulso
irresistível. 0 perigo da análise é que se perca nas minúcias,
ao passo que o perigo da síntese consiste em satisfazer-
se em generalizações em conteúdo.
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A arte poética fez surgir, na linguagem, os valores de cho
que que sao positivos e concretos como a revolta, a insubmissao,
e o grito de protesto. Nao há poeta auténtico que se compraza
em generalizações abstratas. Os valores de choque, no
dialeto poético, sao valores de análise, não de síntese ambiciosa
e vazia. Os valores de análise aguçam a inteligência crí
tica do poeta para os limites da linguagem como técnica diseur
siva. 0 discurso poético, impregnado de valores de choque, procura
na densidade e na concentração verbais o que nao se encontra
na efusao e no derramamento.
Em Nejar, a arte poética, páginas adiante, irrompe de conflitos,
de ebuliçoes, de contacto interno com os sentidos:
"Abre a gaveta do tempo/ sem etiquetas, poema./ Abre a gaveta
e limpa-a/ do esquecimento". No final do poema "Poética",
as estrofes despojadas do superfluo e do acessório, adquirem
ressonância profunda:
"Cavo o poema / com meus valores, / cavo o poema / com desespero
/ como se cava um filho." // "Em tudo o que crio / ou
destruo; na asa da gaivota, na grota." // " 0 poema como balan
ça / entre a mesa e o pensamento./ Mais perto deste, / quando
me alcança."
Reparem bem que o poema para Nejar, é como a terra revolvi^
da pela enxada. 0 sentido dos versos, citados anteriormente,
não decorre das relações de correspondência semântica entre as
palavras e os objetos por elas designados. Esta seria a função
simbólica das expressões verbais. A estrutura profunda do po£
ma está na tensão conotativa entre as referências simbólicas e
o repertório imagístico das palavras. Se o poeta diz "Cavo o
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poema / nos meus guardados, / carta de terras/ que não reparto".
E mais adiante: "Cavo o poema / com suas sardas / e seus
fonemas. / Tardo, recluso / eu mesmo uso / de suas penas, / ur
dindo as teias / desta vivenda/ na noite plena. / Absalão, cavo
o poema". - parece evidente que Nejar nos obriga a entrar,
pela porta adentro no recesso de suas imagens. A imagem nejariana
canalisa e transmite interações diretas ou reversíveis
de "cavo" sobre "poema", de "sardas" sobre "fonemas" e, no ver
so final de "Absalao" sobre "cavo" e sobre "poema". Estas interações
de fundo puramente sensorial, explicitam entrechoques
intersilábicos, de efeito auditivo. Suscitam, além disso, visualizaçao,
com intensa tonalidade afetiva, como a da enxada
que penetra os estratos da terra, como o instrumento poético
penetra as camadas profundas das palavras.
Eis ai, em rapido resumo, a suma poética desse estranho
riograndense que atingiu os limites da linguagem com a energia
e a violencia do campeador ao explorar os recantos e os rincões
na cainpanha gaúcha. Nao conheço nenhum poeta da nova geração
que tenha, como Carlos Nejar, atingido tao diretamente
os limites da expressividade lírica. Ë verdade que o seu eqtlilíbrio
se mantém instável nessas fronteiras oscilantes, mas as
suas aptidões acrobáticas talvez lhe garantam longa permanência
ã beira do abismo.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO NO AMAZONAS: INTELECTUAIS, EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO NO DO GOVERNO ARTUR REIS – 1964 A 1967






Juçara Lobato da Silva

–Unicamp/HISTEDBR sarahlobatos@hotmail.com

(PUBLICADO SEM LICENÇA DO AUTOR)

O presente texto é uma versão do projeto em início de pesquisa do Programa de Pós-graduação em Educação, no grupo de pesquisa de história da educação- HISTEDBR, do qual temos o interesse em estudar a sociedade amazonense sob a perspectiva educacional, dando continuidade à pesquisa do mestrado , momento no qual encontramos dificuldade devido à escassez de pesquisas em história da educação. Este recorte foi contemplado devido as marcantes mudanças que ocorreram no Estado, estas intrinsecamente vinculadas a educação no sentido que se pensavam e implementavam projetos de desenvolvimento para o Estado do Amazonas, dentro da preocupação com a Amazônia e sua preservação, “ocupação” e utilização dos potenciais econômicos, o que trouxe a necessidade de pensar a “educação” da população, num governo formado por intelectuais de orientação positivista.
Pretendemos partir da compreensão das preocupações que Amazônia consubstancia recorrentemente através dos tempos, pelo potencial de riquezas que vislumbrava no imaginário que a mesma desperta e continua a suscitar, com novas e velhas roupagens. A constante é a incompreensão, os interesses divergentes, as concepções equivocadas e os resultados senão desastrosos pelos menos inesperados às intervenções planejadas de fora, baseado em teorias e conceitos que não consideraram o elemento humano da Amazônica conforme suas próprias necessidades.
Ë possível constatar que a educação perpassou diversos interesses ideológicos seja de “cristianização”, “civilização”, “trabalho” “desenvolvimento”, “preservação” ou por fim de “sustentabilidade”, segundo, Renan Freitas Pinto a tendência é romantizar o ambiente sem considerar o homem nele inserido .
Este conhecimento sobre o mundo amazônico é marcado por versões produzidas através dos relatos de viajantes , que em parte reproduziram o imaginário já existente de um mundo fantástico . E também através de intelectuais brasileiros como Euclides da Cunha, que foi paradigmático e desencadeou debate com intelectuais do norte a partir de expedição ao rio Purus , dentre eles Alberto Rangel (Inferno Verde); Leandro Tocantins (Euclides da Cunha e o paraíso perdido) e Arthur Reis, estes dois últimos discordaram da versão euclidiana do lugar ainda em formação em que o homem não era bem vindo, mas ainda assim Euclides da Cunha exerceu forte influência nestes, principalmente na forma de denunciar os problemas sociais e a necessidade de integrá-la a Nação.
Referindo-se preocupações específicas com a educação na região temos ainda intelectuais do séc. XIX que produziram reflexões sobre como José Veríssimo (Estudos Amazônicos) Gonçalves Dias (Relatório de Viagem) Tavares Bastos (O vale do Amazonas) onde tecem recomendações e soluções para atingir fins nacionalistas tanto para a manutenção de fronteira quanto para despertar o sentimento de pertencimento ao país, esta Nação em construção segundo eles deveriam se preocupar com estes índios apara poder manter a integração nacional, a solução seria “educá-los” . As culturas indígenas e seus modos de vida foram considerados problemas, como suas línguas e hábitos diferentes ao que se estava sendo almejado pela ideologia do nacionalismo.
Nos contextualizamos também em um ambiente intelectual amazonense para se pensar a circulação e a produção de idéias entre os intelectuais amazonenses com outros, uma questão que implica em considerar as circulações, renovações e permanências em âmbito local, se apropriar da perspectiva que considere as relações de poder e uma ideologia cultural que alimentou uma preocupação comum, o desenvolvimento do Estado do Amazonas, re-inserção à economia capitalista ou modernização , solução para o que era visto como problema amazônico “atraso cultural”, “vazio demográfico”, “ameaça de internacionalização”, “não utilização dos recursos naturais” e etc.
Muitas das falas de repetem: precisamos investir em educação para o desenvolvimento e a preservação, as dimensões impedem a criação de estrutura de ensino, os professores são despreparados, a politicagem ou clientelismo é prejudicial e se repetem através dos tempos.
Vamos nos reportar a intelectuais amazonenses preocupados e envolvidos na formulação e consolidação de propostas para o desenvolvimento da Amazônia, eles estavam estimulados por intenso debate no qual buscavam produzir conhecimento, ocuparem o espaço público e se posicionarem nas questões emergentes, é uma produção regionalizada, não fugiu ao contexto mais amplo, com suas especificidades, consideramos também que o tema Amazônia despertava interesses e portanto eles não eram locutores isolados.
Armadilhas, equívocos e heranças na produção do “Outro”, a ótica das elites e de uma tradicional/positivista historiografia estão presentes em suas obras. Tais intérpretes locais tiveram diversificada produção que costuma receber críticas como as do professor Luís Balkar , sobre a produção historiográfica destas gerações diz, partem exatamente das visões estereotipadas pelas quais a Amazônia vem sendo historicamente apresentada ao mundo. No extremo, subsiste o pressuposto da incapacidade do homem amazônico discutir e propor alternativas ao seu processo de desenvolvimento.
Consideramos relevante compreender as circunstâncias de produção e efetivação de propostas educacionais ao Estado do Amazonas. A produção e a forma com alguns intelectuais ocupavam o espaço público seja através de livros, jornais e docência indicam que ensejam realizações em prol de um interesse comum para o Estado. Isto que dizer que havia no seio da sociedade amazonense discussões sobre os destinos da economia, cultura, educação e etc. projetos estavam sendo formulados. Aparentemente durante o governo Artur Reis houve um avanço na sistematização do ensino, dada as condições insipientes que também aparentemente vinham caminhando no sentido de desenvolver expansão do ensino e talvez até da institucionalização da pesquisa no Amazonas com vista ao tipo desenvolvimento que não considerava a diferença e cultural, estas são questões que serão respondidas durante a pesquisa a medida que poderemos falar com maior precisão sobre estes indícios.
A desejada industrialização via Zona Franca de Manaus, implantada em 1968, em moldes não poluentes, atendendo a interesses: da elite local e nacional visando a interesses estritamente econômicos; e de refluir à imigração aos grandes centros urbanos do sudeste e atender produção da economia capitalista na periferia do sistema capitalista trouxe conseqüências impactantes a educação no Estado pois, como política social não fora pensada nas dimensões da demanda que teve ou melhor na dimensão da necessidade que tendemos a pensar que deveria ter, pois para a Marlene Ribeiro (1987) a Zona Franca de Manaus obteve a mão de obra necessária a produção e foi tão eficiente a formação ofertada pelo Estado que em pouco tempo pode aumentar o exército de reserva impondo critérios de seletividade desnecessários as atividades chão de fábrica.
Talvez por ter experimento a euforia da riqueza oriunda da exploração do látex nos seringais, as elites locais reclamavam por medidas do Governo Federal no sentido de reaver seu apogeu econômico, senão pelo sair do “esquecimento”. E assim a notícia da área de livre comércio foi festejada, inclusive pelos intelectuais, estes influenciados pelos fundamentos do desenvolvimentismo econômico, apesar de ressaltarem a importância de se manter “alguns” valores da cultura amazônica, valores estes em sua maioria pautados pela ótica conservadora e preconceituosa.
O Amazonas teve um surto de expansão urbana na qual uma das questões mais prejudicadas foi à educação, como projeto pensado para superar os considerados entraves sociais e “culturais” do homem amazônico, cabe uma discussão em torno destas concepções porém, as conseqüências da industrialização fizeram efetivar no plano das políticas educacionais, em sua maior parte, a formação de mão-de-obra, principalmente na cidade de Manaus como pude me aproximar através do estudo dos movimentos de professores e dos movimentos de bairro, respectivamente dissertação e monografia de graduação.
Contextualizar temporalmente na década de 1960 do século XX, é observar que houve um momento rico em debate sobre os problemas regionais, gestadas por gerações anteriores, pensamentos e ideologias vigentes do Nacionalismo, Desenvolvimentismo, Mestiçagem. Mais especificamente nos reportamos ao momento das intervenções do poder público federal e as conseqüências da criação do SPVEA, Instituto Nacional de Pesquisa, em parte criada pela pressão internacional por fazer pesquisa e investimento na região embora o Governo Vargas tenha pensado em dinamizar a economia amazônica não conseguiu efetivar ações concretas nesse sentido.
A década de 1960 demarca estas mudanças, rapidamente elas vão acontecendo. Em 1964, com o Golpe Militar foi escolhido por Castello Branco, Arthur Cézar Ferreira Reis para governador do Amazonas que escolheu para Secretário da Educação e Cultura André Vidal de Araújo, neste mesmo período estava à frente do INPA Djalma Batista, cargo ocupado antes por Arthur Reis, que tinha como assessor em cargos anteriores Leandro Tocantins e na ocasião o nomeou representante do Estado do Amazonas no Rio de Janeiro. Ressaltamos a citaçoa a seguir para situar o momento que eles consideravam viver, quando L. Tocantins diz que Araújo lima e Arthur Reis (...) obra considerada maior, que prossegue com o ímpeto criador “vendo, tratando e pelejando” nas varias missões de cientista social e de administrador. As obras de ambos inicia um ciclo de estudos mais orgânicos e mais objetivos (...) realizam nas ciências sociais o que os cientistas da fase áurea do museu Goeldi fizeram nas ciências naturais.
As criticas tecidas por estes intelectuais sobre a cultura política merece atenção particular neste contexto, pois aparentemente Arthur Reis, André Vidal de Araújo e Djalma Batista são bastante críticos às práticas políticas existente na sociedade amazonense ao mesmo tempo em que acreditam no Estado e no seu poder de intervenção como é característico nos escritos deles.
Faltam análises sobre o período que privilegiamos em parte por se tratar de um governo considerado conservador, num período de ditadura militar, e mesmo devido a escassez de pesquisa em historia da educação de modo que o projeto pode ganhar outros contornos, tudo indica que são muitas as particularidades e que seja um momento rico para a educação no Estado pois se situa no momento de crescimento da cidade de Manaus e deslocamento das populações do interior para a capital tendo sobretudo como justificativa a possibilidade de ofertar a educação aos filhos.
Já visitamos a biblioteca Arthur Reis, hoje pertencente ao Governo do Estado do Amazonas, uma pequena parte do acervo está na internet, porém já muito instigante e outros como cartas, livros, fotos que podem contribuir com a pesquisa. Somente através de 495 recortes de jornais do Brasil guardado por ele, já é possível partir para a composição de uma dinâmica do que foi o período, a reação do grupo de poder que foi afastado, as dificuldades enfrentadas, polêmicas e críticas ao governo e aos políticos amazonenses que faziam parte do executivo e legislativo e foram sumariamente afastados dos cargos.
Como historiador e homem público, Artur reis tinha a prática de elaborar documentos e que foram importantes nestas leituras iniciais como os relatórios de governos: de seis meses, um ano, um ano e seis meses, dois anos e o de final de governo, Como governei o Amazonas.
Dentro destes relatórios chamaram atenção os números educacionais em ascensão de escolas e matrículas, as ações inovadoras como a concessão de bolsas de estudos, financiamento a pesquisa e criação de fundos ao INPA, a subvenção ao Museu E. Goeldi que estava crise, inauguração da faculdade de filosofia na Fundação Universidade do Amazonas, edição de cerca de 150 livros de diversas áreas do conhecimento versando principalmente sobre o Estado do Amazonas e sobre a região Amazônica algo considerado prioritário para o governo, concurso público para os professores e aumento dos salários. Em carta ao Presidente Castelo Branco, o governador argumenta,
Todavia, não esmorece o governo, sobrepondo-se a toda série de dificuldade, pretende dotar de instrução primária um número maior de crianças em idade escolar. Deseja construir grupos escolares e ginásios, tanto na capital como no interior. Procura ajudar FUA, na medida da possibilidade, a fim de que Manaus possa preparar seus próprios médicos para sanear o Estado! E seus engenheiros, a fim de abrirem novas estradas, no sertão da “jungle”, vencendo os preconceitos contra a nossa capacidade realizar.
Para a colimão desse desiderato, no entanto, necessita o Estado de que o governo federal libere as seguintes verbas. (...).
Com estes recursos que embora não sendo manipulada em seu todo pelo governo do Estado, haverá, todavia, as condições financeiras indispensáveis para o aprimoramento intelectual da juventude amazonense. Manaus, 16 de julho de 1965, Arthur Reis.

Trabalhar estas fontes é um desafio é medida que será necessário perceber o compromisso de quem as formulou e as constituiu em fontes..
Djalma Batista, Arthur Reis e André Vidal de Araújo foram intelectuais que seja pela produção acadêmica, atividade docente e atuação em cargos públicos frente a instituições de pesquisa e projetos podem contribuir ao debate das propostas formuladas para a educação. Eles estiveram à frente de importantes instituições e cargos no Estado do Amazonas, ocasião em que puderam efetivar algumas das idéias e projetos ao mesmo tempo em que entraram em contato direto com os problemas sociais associando as instancias teóricas e práticas. Acreditamos que será possível extrair e contribuir com reflexões para as políticas públicas em educação no Amazonas.
As biobibliografias que contemplamos aqui para se ter uma dimensão desse contexto de debate são de André Vidal de Araújo na qual dá ênfase aos desequilíbrios sociais e suas soluções (Estudos de Pedagogia e antropologia sociais: 1967, entre outros ), sua obra possui duas fases a primeira marcada pelo pensamento católico e a segunda pela Sociologia Americana e Brasileira.
Djalma Batista preocupado com o desenvolvimento do Estado e pensando na educação, Ciência, Tecnologia e Saúde Pública, bastante crítico das políticas públicas econômicas e educacionais no Amazonas segundo ele, “o problema da região se agrava ainda mais com o despreparo intelectual de professores que conduzem o ensino na região e pelas condições de infra-estruturas precárias nas escolas” .
Em Arthur Cézar Ferreira Reis encontra-se uma extensa obra onde ganham destaque à valorização e desenvolvimento da Amazônia, mas sob a qual, em nossa opinião, está presente permanentemente a educação e formação do homem amazônico, pois para ele é eminente e necessário preparar este homem para o futuro de grandeza da região, há uma ênfase na história como “instrumento pedagógico” daí sua extensão produção acadêmica engajada.
Sobre este último deve-se ter uma dimensão maior da importância de suas trajetórias com intelectual do norte que fez o intercâmbio Amazonas – Pará – Rio de Janeiro, dialogou com diferentes gerações pois foi “orientado ” por Capistrano de Abreu com quem ainda pode conviver e admirar, foi um jovem membro do IHGB para o qual se dedica a vida toda como vice-presidente, e teve passagem em cargos de relevância no governo de Vargas, Adhemar de Barros e Carlos Lacerda, quando saiu do governo amazonense tornou-se presidente do conselho de cultura e conviveu num ambiente político e intelectual de diferentes matizes, foi um dos fundadores da pós-graduação em historia da PUC-Rio e da UFF, ele conciliou a docência em Manaus, no Pará, no Rio de Janeiro além da PUC e UFF foi da FGV e Escola Superior de Exército.
Todos eles exerceram a docência, eram de academia de letras e/ou IHGB do Amazonas.
Com o esquecimento destes debates deixamos de nos situar e avançar com os erros e acertos na formulação de políticas educacionais. No cenário da reabertura democrática no Amazonas se evidenciou o esgotamento do modelo de desenvolvimento , e mazelas sociais permaneceram e aumentaram decorrentes da contradição capitalista, surgiram mobilizações sociais lutando para efetivar suas demandas e propostas, encarando os desafios da persistência de novos e velhos problemas amazônicos. O interessante é que estes atores se depararam com figuras políticas do grupo político que, principalmente Arthur Cézar Ferreira Reis, criticaram como sendo “corrupta” “difamadora”, “contrários ao interesse do Estado”.
As questões que se colocam a pesquisa são: Qual a proposta de educação vinculada pelos intelectuais através do governo de 1964 1067? como estas estão relacionadas às ideologias da época?
O objetivo principal da pesquisa é levantar e analisar as ações em prol da educação no Estado do Amazonas durante o governo de Arthur Reis que compreende os anos de 1964 a 1967. E ainda, analisar como os intelectuais amazonenses atuaram na esfera da educação neste período; caracterizar o ambiente intelectual amazonense e suas dinâmicas de relações sociais e ideológicas; e investigar as transformações ou ações ocorridas em educação com seus limites e alcances.
Para isso já começamos o mapeamento de fontes em parte na Biblioteca Nacional e Instituto Histórico Geográfico no Rio de Janeiro, Biblioteca Artur Reis. São necessários aprofundamentos informações no Instituto Djalma Batista, na Biblioteca Arthur Reis, Academia Amazonense Letras e no Arquivo Público do Amazonas e do Pará assim como levantar trabalhos de pesquisas correlatos que possam colaborar com a pesquisa.
Alguns relatórios de iniciação científica e dissertação sobre Leandro Tocantins e André Vidal de Araújo já foram detectadas. Já citei alguns relatórios institucionais mais existem outros a serem mapeados assim como pretendemos estudar os recortes de jornais selecionados na biblioteca Arthur que servirão como pistas para consultas em outros jornais, principalmente os do Amazonas.




Referências Bibliográficas
AGUIAR, José Vicente de Souza. Manaus: praça, café, colégio e cinema nos anos 50 e 60. Manaus: Valer, 2002.
ARAÚJO, André Vidal de. Introdução à Sociologia da Amazônia. 2ª ed. Manaus: Valer/Gov. do Amazonas/UFAM, 2003.
BATISTA, Djalma. O complexo Amazônico. 2ª ed. Manaus: Valer/Gov. do Amazonas/UFAM, 2003.
____________________. Cultura Amazônica. Manaus: Rev. da A.A.L., 1955.
BITTENCOURT, Agnelo. Dicionário amazonense de Biografias. Rio de Janeiro: Arte Nova, 1969.
BOBBIO, Intelectuais e Poder: dúvidas e opções dos homens de cultura na sociedade contemporânea. São Paulo: UNESP, 1997.
CUNHA, Euclides da. À margem da História. Rio de Janeiro: ABL, 2005.
__________________. Amazônia um paraíso perdido. Manaus: Valer/Gov. do Amazonas/UFAM, 2003.
GONTIJO, Rebeca. História, cultura, política e sociabilidade intelectual. In: Culturas Políticas: ensaios de historia cultural, história política e ensino de história. SOIHET, Raquel; BICALHO, Maria F. Bicalho; GOVEIA, Maria de Fátima S.; (org.) Rio de Janeiro: MAUAD, 2005.
JOBIM, Anísio. Intelectualidade do extremo norte: contribuição para a história da intelectualidade amazônica. Manáos: livraria clássica, 1934.
LIMA, Araújo. Amazônia: terra e o homem. 4ª ed. São Paulo: Editora Companhia Nacional – Coleção Brasiliana v. 104, 1975.
MONTELLO, Josué (org.). Gonçalves Dias na Amazônia: relatórios e diário de viagem ao Rio Negro. Rio de Janeiro: ABL, 2002..
REIS, Arthur Cézar F. Como governei o Amazonas. Manaus: secretaria de divulgação e imprensa, Janeiro de 1967.
______________________. A política de Portugal no Vale Amazônico. Belém, 1939.
_______________________.Amazônia e a integridade do Brasil, Brasília: edições do Senado, 2001.’
_______________________. O instituto Nacional de Pesquisa: origem, objetivo, funcionamento e sua contribuição para o conhecimento realístico da Amazônia. Publicações Avulsas, 1956.
RIBEIRO, Marlene. De seringueiro a agricultor / pescador a operário metalúrgico: um estudo sobre o processo de expropriação / proletarização / organização dos trabalhadores amazonenses. Minas Gerais: UFMG, 1987. Dissertação.
RIZZINI, Irmã. O cidadão e o selvagem bruto: a educação dos meninos desvalidos na Amazônia Imperial. Rio de Janeiro: UFRJ/IFCS/PPGHIS, 2004. TESE
SILVA, Garcilenilda do Lago. Educação na Amazônia Colonial: contribuição a historia da educação. Brasileira. Prefácio de Arthur Cézar Ferreira Reis. Manaus: SUFRAMA, 1985.
SIRINELI, Jean-François. Os intelectuais. In: REMOND, René. Por uma história política. Rio de Janeiro: FGV, 1996.
SOUZA, Márcio. A expressão amazonense: do colonialismo ao neocolonialismo. São Paulo: Alfa e Omega, 1977.
TOCANTINS, Leandro. Alguns Valores Essenciais. Manaus: Edições do Governo, 1966.
TOCANTINS, Leandro. Euclides da Cunha e o paraíso perdido. Manaus: Edições do Governo, 1966.
PINTO. Renan Freitas. Formação do Pensamento Social. Manaus: UFAM livre docência s/d.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

SHAKESPEARE




Tradução de Rogel Samuel



Daquelas belas criaturas retorno ansiamos,
A que suas belezas nunca morram
E quando cair do tempo o Outono
Guardemos na memória sua herança.

E Tu, que só teus belos olhos amas,
Te alimentas apenas de tua própria chama
E produzes fome onde abundância existe
Por que teu suave ser é tão adverso?

Pois és do mundo agora o ornamento
És o único cantor da primavera
E recusas em ti o teu contentamento

Egoísta da natureza que há contigo
Do mundo não tens piedade, nem lamentas
Se colher no chão do túmulo o que te foi servido



LA POESIA DE
WILLIAM SHAKESPEARE
Jorge Luis Borges
.

«Shakespeare que tantos hombres fue, Shakespeare, que fue Macbeth y fue el rey Duncan, acuchillado por Macbeth, Macduff que mató a Macbeth, solía despojarse de esas máscaras que la forma dramática le imponía y ser William Shakespeare. En 1609 apareció su único libro íntimo, que consta de ciento cincuenta y cuatro sonetos y del poema titulado A Lover's Complaint (La queja de un amante). La impersonal portada sugiere que otro, no Shakespeare, fue el editor. Leemos así: Sonetos de Shakespeare, nunca hasta ahora impresos. La obra está dedicada al señor W.H., único padre (literalmente engendrador) de los siguientes sonetos .

La obra es intrincada y oscura, precisamente porque es íntima. Nos depara fragmentos cuyo contexto no será revelado, nos deja oír respuestas a preguntas cuya respuesta siempre será dudosa.

Estas incertidumbres, que han inspirado muy diversas hipótesis entre ellas una de Oscar Wilde, sugieren el suplicio de Tántalo, condenado, según se sabe, a morir eternamente de hambre y de sed, entre fuentes y frutas. Felizmente, esa analogía es del todo falsa. El espectáculo de las aguas y de las frutas no podían satisfacer el apetito de Tántalo: el lector puede prescindir del incierto sentido de los sonetos, y deleitarse con su música y sus imágenes. Citemos este ejemplo:


Music to hear'st zhou music sadly?
Sweet with sweets war not, joy delights in joy
El sentido es baladí; la forma es espléndida. Busquemos otro:

Not mine own fears, nor the prophetic soul
Of the wide world dreaming on things to come
Nuestra fe en el anima mundi, nuestro juicio, favorable o desfavorable, del panteísmo, nada, absolutamente nada, tienen que ver con la vasta y vaga majestad de las líneas citadas.
Transcribamos otro pasaje, que no me animo a traducir:


No, Time, thou shalt no boast that I do change;
Thy pyramids built up with newer might
To me are nothing novel, nothing strange,
They are but dressings of a former sight.
Se advierte en estos versos una alusión a la doctrina del tiempo circular, que profesaron los pitagóricos y los estoicos y que San Agustín refutó. También puede advertirse que Shakespeare descreía de novedades.
Técnicamente los sonetos de Shakespeare son, es indiscutible, inferiores a los de Milton, a los de Wordsworth, a los de Rossetti o a los de Swinburne. Incurren en alegorías momentáneas, que sólo justifica la rima y en ingeniosidades nada ingeniosas. Hay, sin embargo, una diferencia que no debo callar. Un soneto de Rossetti, digamos, es una estructura verbal, un bello objeto de palabras que el poeta ha construido y que se interpone entre él y nosotros; los sonetos de Shakespeare son confidencias que nunca acabaremos de descifrar, pero que sentimos inmediatas y necesarias.

Según el dictamen de Walter Pater, todas las artes aspiran a la condición de la música; parejamente, en el caso de estos sonetos, importa menos el dudoso sentido que la manifiesta hermosura. Swinburne los llama documentos divinos y peligrosos; se refiere, tal vez, a lo menos importante que puede darnos, el testimonio de una anormalidad que es asaz común y que no justifica ni la ostentación ni el oprobio.

El soneto isabelino consta de tres cuartetos decasílabos de rima cambiante y de un dístico rimado. Esta forma, ahora no menos grata a nuestro oído, se ha difundido por el mundo; baste recordar ciertas composiciones de La urna (1911) del injustamente olvidado Enrique Banchs. De los ciento cincuenta y cuatro sonetos del texto original, Manuel Mújica Láinez ha traducido con maestría cuarenta ocho. »




TRADUZIR SHAKESPEARE

Rogel Samuel

Canta o texto original de Shakespeare:

From fairest creatures we desire increase,
That thereby beauty’s rose might never die,
But as the riper should by time decease,
His tender heir might bear his memory:
But thou, contracted to thine own bright eyes,
Feed’st thy light’s flame with self-substantial fuel,
Making a famine where abundance lies,
Thyself thy foe, to thy sweet self too cruel
Thou that art now the world’s fresh ornament
And only herald to the gaudy spring,
Within thine own bud buriest thy content
And, tender churl, mak’st waste in niggarding.
Pity the world, or else this glutton be,
To eat the world’s due, by the grave and thee.

Foi traduzido por Ivo Barroso assim:

Dos seres ímpares ansiamos prole
Para que a flor do belo não se extinga,
E se a rosa madura o Tempo colhe,
Fresco botão sua memória vinga.
Mas tu, que só com os olhos teus contrais,
Nutres o ardor com as próprias energias
Causando fome onde a abundância jaz,
Cruel rival, que o próprio ser crucias.
Tu, que do mundo és hoje o galardão,
Arauto da festiva Natureza,
Matas o teu prazer inda em botão
E, sovina, esperdiças na avareza.
Piedade, senão ides, tu e o fundo
Do chão, comer o que é devido ao mundo.

A tradução de Manuel Mújica Láinez é:

De los hermosos el retoño ansiamos
para que su rosal no muera nunca,
pues cuando el tiempo su esplendor marchite
guardará su memoria su heredero.
Pero tú, que tus propios ojos amas,
para nutrir la luz, tu esencia quemas
y hambre produces en donde hay hartura,
demasiado cruel y hostil contigo.
Tú que eres hoy del mundo fresco adorno,
pregón de la radiante primavera,
sepultas tu poder en el capullo,
dulce egoísta que malgasta ahorrando.
Del mundo ten piedad: que tú y la tumba,
ávidos, lo que es suyo no devoren.



Sonnet 30



by William Shakespeare
When to the sessions of sweet silent thought
I summon up remembrance of things past,
I sigh the lack of many a think I sought,
And with old woes' new wail my dear times waste:
Then can I drown an eye, unused to flow,
For precious friends hid in death's dateless night,
And weep afresh love's long since cancelled woe,
And moan the expense of many a vanished sight:
Then can I grieve at grievances foregone,
And heavily from woe to woe tell o'er
The sad account of fore-bemoanéd moan,
Which I new pay as if not paid before.
But if the while I think of thee, dear friend
All losses are restored and sorrows end.

Soneto



by William Shakespeare



Shall I compare thee to a summer's day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all too short a date:
Sometime too hot in the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimmed;
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature's changing course untrimmed;
But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou owest,
Nor shall death brag thou wanderst in his shade,
When in eternal lines to time thou growest;
So long as men can breathe, or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee.

WILLIAM SHAKESPEARE
48 SONETOS DE AMOR
Tradução de
Manuel Mújica Láinez



I
De los hermosos el retoño ansiamos
para que su rosal no muera nunca,
pues cuando el tiempo su esplendor marchite
guardará su memoria su heredero.
Pero tú, que tus propios ojos amas,
para nutrir la luz, tu esencia quemas
y hambre produces en donde hay hartura,
demasiado cruel y hostil contigo.
Tú que eres hoy del mundo fresco adorno,
pregón de la radiante primavera,
sepultas tu poder en el capullo,
dulce egoísta que malgasta ahorrando.

Del mundo ten piedad: que tú y la tumba,
ávidos, lo que es suyo no devoren.


II
Cuando asedien tu faz cuarenta inviernos
y ahonden surcos en tu prado hermoso,
tu juventud, altiva vestidura,
será un andrajo que no mira nadie.
Y si por tu belleza preguntaran,
tesoro de tu tiempo apasionado,
decir que yace en tus sumidos ojos
dará motivo a escarnios o falsías.

¡Cuánto más te alabaran en su empleo
si respondieras : - « Este grácil hijo
mi deuda salda y mi vejez excusa »,
pues su beldad sería tu legado!

Pudieras, renaciendo en la vejez,
ver cálida tu sangre que se enfría.


III
Mira a tu espejo, y a tu rostro dile:
ya es tiempo de formar otro como éste.
Si no renuevas hoy su lozanía,
al mundo engañas y a una madre robas.
¿Quién es la bella del intacto seno
que tu cultivo marital desdeñe?
y ¿quién tan loco para ser la tumba
de un amor egoísta sin futuro?

Tu madre encuentra en ti, que eres su espejo,
la gracia de su abril, su primavera;
así, de tu vejez por las ventanas,
aunque mustio, verás tu tiempo de oro.

Mas si pasar prefieres sin memoria,
muere solo y tu imagen morirá.


IV
Derrochador de encanto, ¿por qué gastas
en ti mismo tu herencia de hermosura?
Naturaleza presta y no regala,
y, generosa, presta al generoso.
Luego, bello egoísta, ¿por qué abusas
de lo que se te dio para que dieras?
Avaro sin provecho, ¿por qué empleas
suma tan grande, si vivir no logras?

Al comerciar así sólo contigo,
defraudas de ti mismo a lo más dulce.
Cuando te llamen a partir, ¿qué saldo
podrás dejar que sea tolerable?

Tu belleza sin uso irá a la tumba;
usada, hubiera sido tu albacea.


V
Las horas que gentiles compusieron
tal visión para encanto de los ojos,
sus tiranos serán cuando destruyan
una belleza de suprema gracia:
porque el tiempo incansable, en torvo invierno,
muda al verano que en su seno arruina;
la savia hiela y el follaje esparce
y a la hermosura agosta entre la nieve.

Si no quedara la estival esencia,
en muros de cristal cautivo líquido,
la belleza y su fruto morirían
sin dejar ni el recuerdo de su forma.

Mas la flor destilada, hasta en invierno,
su ornato pierde y en perfume vive.


VI
No dejes, pues, sin destilar tu savia,
que la mano invernal tu estío borre:
aroma un frasco y antes que se esfume
enriquece un lugar con tu belleza.
No ha de ser una usura prohibida
la que alegra a quien paga de buen grado;
y tú debes dar vida a otro tú mismo,
feliz diez veces, si son diez por uno.

Más que ahora feliz fueras diez veces,
si diez veces, diez hijos te copiaran:
¿qué podría la muerte, si al partir
en tu posteridad siguieras vivo?

No te obstines, que es mucha tu hermosura
para darla a la muerte y los gusanos.


VII
¡Ve! si en oriente la graciosa luz
su cabeza flamígera levanta,
los ojos de los hombres, sus vasallos,
con miradas le rinden homenaje.
Y mientras sube al escarpado cielo,
como un joven robusto en su edad media,
lo siguen venerando las miradas
que su dorada procesión escoltan.

Pero cuando en su carro fatigado
deja la cumbre y abandona al día,
apártanse los ojos antes fieles,
del anciano y su marcha declinante.

Así tú, al declinar sin ser mirado,
si no tienes un hijo, morirás.


XV
Cuando pienso que todo lo que crece
su perfección conserva un mero instante;
que las funciones de este gran proscenio
se dan bajo la influencia de los astros;
y que el hombre florece como planta
a quien el mismo cielo alienta y rinde,
primero ufano y abatido luego,
hasta que su esplendor nadie recuerda:

la idea de una estada tan fugaz
a mis ojos te muestra más vibrante,
mientras que Tiempo y Decadencia traman
mudar tu joven día en noche sórdida.

Y, por tu amor guerreando con el Tiempo,
si él te roba, te injerto nueva vida.


XVI
¿Y por qué no es tu guerra más pujante
contra el Tirano tiempo sanguinario;
y contra el decaer no te aseguras
mejores medios que mi rima estéril?
En el cenit estás de horas risueñas.
Los incultos jardines virginales
darían para ti vivientes flores,
a ti más semejantes que tu efigie.

Tendrías vida nueva en vivos trazos,
pues ni mi pluma inhábil ni el pincel
harán que tu nobleza y tu hermosura
ante los ojos de los hombres vivan.

Si a ti mismo te entregas, quedarás
por tu dulce destreza retratado.


XVII
¿Quién creerá en el futuro a mis poemas
si los colman tus méritos altísimos?
Tu vida, empero, esconden en su tumba
y apenas la mitad de tus bondades.
Si pudiera exaltar tus bellos ojos
y en frescos versos detallar sus gracias,
diría el porvenir: « Miente el poeta,
rasgos divinos son, no terrenales ».

Desdeñarían mis papeles mustios,
como ancianos locuaces, embusteros;
sería tu verdad « transporte lírico »,
« métrico exceso » de un « antiguo » canto.

Mas si entonces viviera un hijo tuyo,
mi rima y él dos vidas te darían.



XVIII
¿A un día de verano compararte?
Más hermosura y suavidad posees.
Tiembla el brote de mayo bajo el viento
y el estío no dura casi nada.
A veces demasiado brilla el ojo
solar, y otras su tez de oro se apaga;
toda belleza alguna vez declina,
ajada por la suerte o por el tiempo.

Pero eterno será el verano tuyo.
No perderás la gracia, ni la Muerte
se jactará de ensombrecer tus pasos
cuando crezcas en versos inmortales.

Vivirás mientras alguien vea y sienta
y esto pueda vivir y te dé vida.



WILLIAM SHAKESPEARE
48 SONETOS DE AMOR




XVIII
¿A un día de verano compararte?
Más hermosura y suavidad posees.
Tiembla el brote de mayo bajo el viento
y el estío no dura casi nada.
A veces demasiado brilla el ojo
solar y otras su tez de oro se apaga;
toda belleza alguna vez declina,
ajada por la suerte o por el tiempo.
Pero eterno será el verano tuyo.
No perderás la gracia, ni la Muerte
se jactará de ensombrecer tus pasos
cuando crezcas en versos inmortales.

Vivirás mientras alguien vea y sienta
y esto pueda vivir y te dé vida.



XIX
Mella, Tiempo voraz, del león las garras,
deja a la tierra devorar sus brotes,
arranca al tigre su colmillo agudo,
quema al añoso fénix en su sangre.
Mientras huyes con pies alados, Tiempo,
da vida a la estación, triste o alegre,
y haz lo que quieras, marchitando al mundo
Pero un crimen odioso te prohíbo:

no cinceles la frente de mi amor,
ni la dibujes con tu pluma antigua;
permite que tu senda sìga, intacto,
ideal sempiterno de hermosura.

O afréntalo si quieres, Tiempo viejo:
mi amor será en mis versos siempre joven.



XX
Pintado por Natura el rostro tienes
de mujer, dueño y dueña de mi amor;
y de mujer el corazón sensible
mas no mudable como el femenino;
tus ojos brillan más, son más leales
y doran los objetos que contemplas;
de hombre es tu hechura, y tu dominio roba
miradas de hombres y almas de mujeres.

Primero te creó mujer Natura
y, desvariando mientras te esculpía,
de ti me separó, decepcionándome,
al agregarte lo que no me sirve.

Si es tu fin el placer de las mujeres,
mío sea tu amor, suyo tu goce.



XXI
No me sucede lo que a aquel poeta
que versifica a una beldad pintada,
y al cielo mismo empleá como adorno,
midiendo cuánto es bello con su bella;
y en henchidas imágenes la acopla
al sol, la luna y a las gemas ricas
y a las flores de abril y a las rarezas
que el aire envuelve en este globo vasto.

Sincero amante, la verdad escribo.
Mi amor es tan gentil, podéis creerme,
como cualquier hijo de madre, y brilla
menos que las candelas celestiales.

Dejad que digan más los habladores;
yo no quiero ensalzar lo que no vendo.


XXII
No creeré en mi vejez, ante el espejo,
mientras la juventud tu edad comparta;
sólo cuando los surcos te señalen
pensaré que la muerte se aproxima.
Si toda la hermosura que te cubre
es el ropaje de mi corazón,
que vive en ti, como en mí vive el tuyo,
¿cómo puedo ser yo mayor que tú?

Por eso, amor, contigo sé prudente,
como soy yo por ti, no por mi mismo;
tu corazón tendré con el cuidado
de la nodriza que al pequeño ampara.

No te ufanes del tuyo, si me hieres,
pues me lo diste para no volverlo.


XXXIV

Como actor vacilantc en el proscenio
que temerosó su papel confunde,
o como el poseído por la ira
que desfallece por su propio exceso,
así yo, desconfiando de mí mismo,
callo en la ceremonia enamorada,
y se diría que mi amor decae
cuando lo agobia la amorosa fuerza.

Deja que la elocuencia de mis libros,
sin voz, transmita el habla de mi pecho
que pide amor y busca recompensa,
más que otra lengua de expresivo alcance.

Del mudo amor aprende a leer lo escrito,
que oír con ojos es amante astucia.



XXIV
Pintores son mis ojos: te fijaron
sobre la tabla de mi corazón,
y mi cuerpo es el marco que sostiene
la perspectiva de la obra insigne.
A través del pintor hay que mirar
para encontrar tu imagen verdadera,
colgada en el taller que hay en mi pecho
al que brindan vencanas cus dos ojos.

Y observa de los ojos el servicio:
los míos diseñaron tu figura,
los tuyos son ventanas de mi pecho
por las que atisba el sol, feliz de verte.

Mas algo falta al arte de los ojos:
dibujan lo que ven y al alma ignoran.



XXV
Que los favorecidos por los astros
de honores y de títulos se ufanen;
yo, que la suerte priva de esos triunfos,
hallo mi dicha en lo que más venero.
Los favoritos de los grandes príncipes
abren al sol sus hojas cual caléndulas,
y su orgullo sepultan en sí mismos
pues los abate un ceño que se frunce.

El célebre guerrero laborioso,
derrocado una vez tras mil victorias,
es del libro de honores suprimido
y de su gesta lo demás se olvida.

Feliz de mí, que amando soy amado,
y ni cambiar ni ser cambiado puedo.


XXVI
Señor del amor mío, cuyo mérito
obliga mi homenaje de vasallo,
te envío esta embajada manuscrita,
mi devoción probando y no mi ingenio.
Grande es mi devoción: mi pobre espíritu
la muestra sin ropaje de vocablos
y espera, aunque desnuda, que en tu alma
le dé tu comprensión sucil albergue;

hasta que el astro que mi andanza guía
me señale con brillo favorable,
y al ornar mis andrajos amorosos
haga que yo merezca que me mires.

Así podré exhibir mi amor ufano,
pero hasta entonces rehuiré la prueba.


XXVII
Extenuado, hacia cl lecho me apresuro
a calmar mis fatigas de viajero,
pero empieza en mi ánimo otro viaje,
cuando acaban del cuerpo las faenas.
Porque mis pensamientos, alejándose
en tu busca, celosos peregrinos,
de mis párpados abren el agobio
a la tiniebla que los ciegos miran.

Sólo que mi visión imaginaria
trae tu sombra hasta mis ojos ciegos,
como un joyel que cuelga de la noche
y el rostro oscuro le rejuvenece.

Así, por ti y por mí, nunca reposan
de día el cuerpo y a la noche el alma.



WILLIAM SHAKESPEARE
48 SONETOS DE AMOR


XXIX
Cuando hombres y Fortuna me abandonan,
lloro en la soledad de mi destierro,
y al cielo sordo con mis quejas canso
y maldigo al mirar mi desventura,
soñando ser más rico de esperanza,
bello como éste, como aquél rodeado,
deseando el arze de uno, el poder de otro,
insatisfecho con lo que me queda;

a pesar de que casi me desprecio,
pienso en ti y soy feliz y mi alma entonces,
como al amanecer la alondra, se alza
de la tierra sombría y canta al cielo:

pues recordar tu amor es cal fortuna
que no cambio mi estado con los reyes.



XXX
Cuando en sesiones dulces y calladas
hago comparecer a los recuerdos,
suspiro por lo mucho que he deseado
y lloro el bello tiempo que he perdido,
la aridez de los ojos se me inunda
por los que envuelve la infinita noche
y renuevo el plañir de amores muertos
y gimo por imágenes borradas.

Así, afligido por remotas penas,
puedo de mis dolores ya sufridos
la cuenta rehacer, uno por uno,
y volver a pagar lo ya pagado.

Pero si entonces pienso en ti, mis pérdidas
se compensan, y cede mi amargura.



XXXI
Los corazones que supuse muertos
pues me faltaban, a tu pecho ocupan;
en él reinan amor y sus virtudes
y los amigos que creí enterrados.
¡ Cuánta lágrima pía de mis ojos
robó el amor leal por esos muertos
que no son más que seres que han cambiado
de lugar y que yacen en ti ocultos!

Tú eres la tumba donde vive amor;
de mis amores los trofeos te ornan;
cada uno te dio mi parte suya
y ahora es tuyo el bien que fue de muchos.

Veo en ti las imágenes que amé:
soy tuyo entero pues las tienes todas.



XXXII
Si a mis días colmados sobrevives,
y cuando esté en el polvo de la Muene
una vez más relees por ventura
los inhábiles versos de tu amigo,
con lo mejor de tu época compáralos,
y aunque todas las plumas los excedan,
guárdalos por mi amor, no por mis rimas,
superadas por hombres más felices.

Que tu amor reflexione: «Si su Musa
crecido hubiera en esta edad creciente,
frutos más caros a su edad le diera,
dignos de incorporarse a tal cortejo:

pero ha muerto; en poetas más notables
estilo buscaré y en él amor».


XXXIII
He visto a la mañana en plena gloria
los picos halagar con su mirada,
besar con su oro las praderas verdes
y dorar con su alquimia arroyos pálidos;
y luego permitir el paso oscuro
de fieros nubarrones por su rostro,
y ocultarlo a la tierra abandonada
huyendo hacia occidente sin ventura.

Así brilló mi sol, un día, al alba,
sobre mi frente, con triunfal belleza;
una hora no más lo he poseído
y hoy me lo esconden las aéreas nubes.

No desdeñes mi amor: si el sol del cielo
se eclipsa, han de velarse los del mundo.


XXXIV

¿Por qué me prometiste un día hermoso
y a viajar sin mi capa me obligaste,
si me dejaste sorprender por nubes
que en su bruma ocultaron tu destello?
No me basta que surjas de la niebla
y que la lluvia enjugues en mi rostro,
pues no ha de ponderar ninguno el bálsamo
que cicatriza pero no remedia.

Ni tu vergüenza a mi dolor aplaca,
ni tu remordimiento a lo perdido:
del ofensor la pena poco alivia
a quien la cruz soporta del agravio.

Pero tus lágrimas de amor son perlas
y su riqueza todo el mal rescata.



XXXV
No te acongojes más por lo que has hecho;
fango y espina tienen fuente y rosa;
a la luna y al sol vela el eclipse;
vive el gusano en el capullo suave.
Todos cometen faltas, yo también
pues disculpo con símiles la tuya,
y por justificarte me corrompo
y excuso tus pecados con exceso.

A tu yerro sensual le doy mi ayuda;
de opositor me vuelvo tu abogado
y comienzo a pleitear contra mí mismo.
Tanto el amor y el odio en mí combaten

que no puedo dejar de ser el cómplice
del ladrón tierno que cruel me roba.



XXXVI
Déjame confesar que somos dos
aunque es indivisible el amor nuestro,
así las manchas que conmigo quedan
he de llevar yo solo sin tu ayuda.
No hay más que un sentimiento en nuestro amor
si bien un hado adverso nos separa,
que si el objeto del amor no altera,
dulces horas le roba a su delicia.

No podré desde hoy reconocerte
para que así mis faltas no te humillen,
ni podrá tu bondad honrarme en público
sin despojar la honra de iu nombre.

Mas no lo hagas, pues te quiero tanto
que si es mío tu amor, mía es tu fama.


XXXVII
Como un padre decrépito disfruta
al ver de su hijo las empresas jóvenes,
así yo, mutilado por la suene,
en tu lealtad y mérito me afirmo.
Pues sea la hermosura o el linaje,
el poder o el ingenio, uno o todos,
quien te corone con mejores títulos,
yo incorporo mi amor a esa riqueza.

Ni pobre ni ofendido soy, ni inválido,
que basta la substancia de tu sombra
para colmarme a mí con su opulencia,
y de una parte de tu gloria vivo.

Busca, pues, lo mejor: te lo deseo;
seré feliz diez veces, si lo hallas.


XXXVIII
¿Cómo puede buscar temas mi Musa
mientras cú aliencas, que a mi verso infundes
tu dulce inspiración, harto preciosa
para exponerla en un papel grosero?
Agradécete a ti, si algo de mi obra
digno de leerse encuentra tu mirada:
¿quién tan mudo será que no te escriba
cuando tu luz aclara lo que invenca?

Sé la décima Musa y sé diez veces
mejor que las antiguas invocadas,
y otorga a quien te invoque eternos versos
que sobrevivan a lejanos siglos.

Si al futuro censor mi Musa encanta,
mía será la pena y tuyo el lauro.


WILLIAM SHAKESPEARE
48 SONETOS DE AMOR


XXXIX
¿Cómo puedo elogiarte con modestia
cuando tú eres de mí la mejor parte?
¿Qué me puede otorgar mi propio elogio
y qué hago con tu elogio sino el mío?
Vivamos separados, y que pierda
su nombre de indiviso nuestro amor,
para que pueda darte, al separarnos,
lo que mereces tú, tú solamente.

¡Oh ausencia, cuál sería tu suplicio,
si tu amarga quietud no nos dejara
burlar al tiempo en el amor pensando,
engaño dulce del pensar y el tiempo,

y no enseñaras a hacer dos con uno,
aquí elogiando a quien está distante!



XL
Toma, amor, todos, todos mis amores,
¿qué rnás posees de lo que tenías?
Ningún amor, mi amor, que sea cierto;
pues ya antes era tuyo todo el mío.
Si a quien me ama por mi amor recibes,
no puedo reprocharte que lo goces,
mas te reprocho tu perverso engaño
si rechazas mi amor y no al que me ama.

Ladrón gentil, me robas y te absuelvo
por más que me hurtes mis escasos bienes,
y eso que duelen más, amor lo sabe,
las heridas de amor que las del odio.

Gracia inconstante en quien el mal es bello,
no seas mi enemiga, aunque me mates.



XLI
Las dulces faltas en que osado incurres
si de tu corazón estoy ausente,
cuadran a tu hermosura y a tus años
porque la tentación siempre te sigue.
Te querrán conquistar, pues eres noble;
te querrán asediar, pues eres bello;
¿qué hijo de mujer, antes que triunfe,
dejará a una mujer cuando lo acosa?

¡Ay! deberías respetar mi sitio
y a tu edad reprender y tus encantos
que en su fuga te arrastran al extremo
de violar obligado una fe doble :

la de ella, que ha tentado tu hermosura;
la tuya, infiel a mí con su belleza.



XLII
No sólo sufro porque la posees,
aunque en verdad la quise con ternura,
más hondo es mi dolor porque eres suyo
y esa pérdida siento más cercana.
Así disculpo vuestra ofensa, amantes:
tú la quieres pues sabes que la quiero,
y ella me engaña por amor de mí,
dejando que mi amigo la haga suya.

Si te pierdo, mi amada te recobra,
si la pierdo, mi amigo es quien la encuentra;
ambos se encuentran y a los dos los pierdo
y por mi amor me imporien esta cruz.

Pero al ser uno solo yo y mi amigo,
¡oh lisonja! yo soy quien ella quiere.


XLIII
Veo mejor si cierro más los ojos
que el día entero ven lo indiferente;
pero al dormir, soñando te contemplan
y brillantes se guían en lo oscuro.
Tú, cuya sombra lo sombrío aclara,
si ante quienes no ven tu sombra brilla,
¡qué luz diera la forma de tu sombra
al claro día por tu luz más claro!

¡Ay, qué felicidad para mis ojos
si te miraran en el día vivo,
ya que en la noche muerta, miro, ciego,
de tu hermosura la imperfecta sombra!

Los días noches son, si no te veo,
y cuando sueño en ti, días las noches.


LIII

¿Qué substancia es la tuya, qué te forma
que millones de sombras te acompañan?
Su propia sombra tiene cada uno
pero tú puedes producirlas todas.
Si describen a Adonis, su retrato
es tu pobre parodia; y te repïntan
con traje griego si a la bella Helena
embellecen con máximo artificio.

Si hablan del año joven o maduro,
primavera es la sombra de tu gracia
y lo es de tu esplendor el tiempo fértil;
en todo lo feliz te descubrimos.

Contribuyes a toda la hermosura,
mas nada se parece a tu constancia.



LV
Ni el mármol, ni los áureos monumentos,
durarán con la fuerza de esta rima,
y en ella tu esplendor tendrá más brillo
que en la losa que mancha el tiempo impuro.
Cuando tumbe la guerra las estatuas
y el desorden los muros desarraigue,
ni la espada de Marte ni su incendio
destruirán tu memoria siempre viva.

Irás contra la muerte y el olvido.
Acogerá tu elogio la mirada
de la posteridad que, consumiéndolo,
hasta el juicio final fatigue al mundo.

Así, hasta el día en que también te juzguen,
aquí estarás y en los amantes ojos.



LXI
Si nada es nuevo, si lo que es ya ha sido,
¡cómo se engaña nuestra inteligencia
cuando, empeñada en busca de invenciones,
de un niño ya nacido lleva el peso!
¡Ay, si mirando atrás quinientos años
pudiera presentarme la memoria
tu imagen en un libro muy remoto,
ya que el alma empezó a expresarse en letras!

¡Si pudiera saber lo que inspiraron
tus maravillas al antiguo mundo,
y ver si es nuestra o suya la ventaja
o si los ciclos son iguales todos!

Seguro estoy que los pasados genios
exaltaron objetos menos dignos.


LX
Como en la playa al pedregal las olas,
nuestros minutos a su fin se apuran,
cada uno desplaza al que ha pasado
y avanzan todos en labor seguida.
El nacimiento, por un mar de luces,
va hacia la madurez y su corona;
combaten con su brillo eclipses pérfidos
y el Tiempo sus regalos aniquila.

El Tiempo horada el juvenil adorno,
surca de paralelas la hermosura,
se nutre de supremas maravillas
y nada existe que su hoz no abata.

A pesar de su mano cruel, mi verso
dirá tu elogio en tiempos que esperamos.


LXI
¿En verdad quieres que tu imagen abra
mis pápados al tedio de la noche,
mientras las sombras que se te parecen
de mí se burlan y a mi sueño quiebran?
¿Mandas así fuera de ti tu espíritu,
lejos, para que aceche mis acciones
y mis horas espíe de flaqueza,
que son blanco y dominio de tus celos?

No; tu amor, aunque grande, no lo es tanto:
es el mío el que me abre los dos ojos,
mi propio amor quien mi descanso vence
y en centinela para ti se cambia:

pues por ti velo mientras te desvelas,
muy distante de mi, muy cerca de otros.


WILLIAM SHAKESPEARE
48 SONETOS DE AMOR




LXII
El pecado de amarme se apodera
de mis ojos, de mi alma y de mí todo;
y para este pecado no hay rernedio
pues en mi corazón echó raíces.
Pienso que es el más bello mi semblante,
mi forma, entre las puras, la ideal;
y mi valor tan alto conceptúo
que para mí domina a todo mérito.

Pero cuando el espejo me presenta,
tal cual soy, agrietado por los años,
en sentido contrario mi amor leo
que amarse siendo así sería inicuo.

Es a ti, otro yo mismo, a quien elogio,
pintando mi vejez con tu hermosura.



LXV
Si la muerte domina al poderío
de bronce, roca, tierra y mar sin límites,
¿cómo le haría frente la hermosura
cuando es más débil que una flor su fuerza?
Con su hálito de miel, ¿podrá el verano
resistir el asedio de los días,
cuando peñascos y aceradas puertas
no son invulnerables para el Tiempo?

¡Atroz meditación! ¿Dónde ocultarte,
joyel que para su arca el Tiempo quiere?
¿Qué mano detendrá sus pies sutiles?
Y ¿quién prohibirá que te despojen?

Ninguno a menos que un prodigio guarde
el brillo de mi amor en negra tinta.



LXXI
Cuando haya muerto, llórame tan sólo
mientras escuches la campana triste,
anunciadora al mundo de mi fuga
del mundo vil hacia el gusano infame.
Y no evoques, si lees esta rima,
la mano que la escribe, pues te quiero
tanto que hasta tu olvido prefiriera
a saber que te amarga mi memoria.

Pero si acaso miras estos versos
cuando del barro nada me separe,
ni siquiera mi pobre nombre digas
y que tu amor conmigo se marchite,

para que el sabio en tu llorar no indague
y se burle de ti por el ausente.



XCI
Unos se vanaglorian de la estirpe,
del saber, el vigor o la fortuna;
otros, de la elegancia extravagante,
o de halcones, lebreles y caballos;
cada carácter un placer comporta
cuya alegría a las demás excede;
pero estas distinciones no me alcanzan
pues tengo algo mejor que las incluye.

En altura, tu amor vence al linaje;
en soberbia al atuendo; al oro en fausto;
en júbilo al de halcones y corceles.
Teniéndote, todo el orgullo es mío.

Mi única miseria es que pudieras
quitarme todo y en miseria hundirme.


XCIV
Tu capricho y tu edad, según se mire,
provocan tus defectos o tu encanto;
y te aman por tu encanto o tus defectos,
pues tus defectos en encanto mudas.
Lo mismo que a la joya más humilde
valor se da en los dedos de una reina,
se truecan tus errores en verdades
y por cosa legítima se tienen.

¡Cómo engañara el lobo a los corderos,
si en cordero pudiera transformarse!
Y ¡a cuánto admirador extraviarías,
si usaras plenamente tu prestigio!

Mas no lo hagas, pues te quiero tanto
que si es mío tu amor, mía es tu fama.


CVI

Cuando en las crónicas de tiempos idos
veo que a los hermosos se describe
y a la Belleza embellecer la rima
que elogia a damas y señores muertos,
observo que al pintar de sus dechados
la mano, el labio, el pie, la frente, el ojo,
trataba de expresar la pluma arcaica
una belleza como la que tienes.

Así, sus alabanzas son presagios
de nuestro tiempo, que te prefiguran,
y pues no hacían más que adivinarte,
no podían cantarte cual mereces.

En cuanto a aquellos que te contemplamos
con absorta mirada, estamos mudos.



CXXIII
Tiempo, no has de jactarte de mis cambios:
alzas con nuevo brío tus pirámides
y no son para mí nuevas ni extrañas
sino aspectos de formas anteriores.
Por ser corta la vida, nos sorprende
lo antiguo que reiteras y que impones,
cual si fuera lo nuevo que dcseamos
y si rio corzociéramos su historia.

Os desafío a ti y a tus anales;
no me asombran pasado ni presente,
pues tus anales y lo visto engañan
al transformarse mientras te apresuras.

Por mí, te juro que he de ser constante
a pesar de tu hoz y de ti mismo.



CXLVI
Pobre alma, centro de culpable limo
a la que burla, indócil, quien la ciñe,
¿por qué adentro sufrir afán y hambre
si pintas lo exterior de alegre lujo?
Si el contrato es tan breve, ¿por qué gastas
ornando tu morada pasajera?
¿Tendrá por fin tu cuerpo sustentar
al gusano que herede tu derroche?

Vive, alma, a expensas de tu servidor;
que aumenten sus fatigas tu tesoro;
y cambia horas de espuma por divinas.
Sé rica adentro, en vez de serlo afuera.

Devora tú a la Muerte y no la nutras,
pues si ella muere, no podrás morir.