quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Karl Marx - PRIMEIRO MANUSCRITO [MANUSCRITOS ECONÔMICOS E FILOSÓFICOS]





Trabalho Alienado









(XXII) Partimos dos pressupostos da Economia Política. Aceitamos sua
terminologia e suas leis. Aceitamos como premissas a propriedade privada, a
separação do trabalho, capital e terra, assim como também de salários, lucro e
arrendamento, a divisão do trabalho, a competição, o conceito de valor de troca,
etc. Com a própria economia política, usando suas próprias palavras,
demonstramos que o trabalhador afunda até um nível de mercadoria, e uma
mercadoria das mais deploráveis; que a miséria do trabalhador aumenta com o
poder e o volume de sua produção; que o resultado forçoso da competição é o
acumulo de capital em poucas mãos, e assim uma restauração do monopólio da forma
mais terrível; e, por fim, que a distinção entre capitalista e proprietário de
terras, e entre trabalhador agrícola e operário, tem de desaparecer,
dividindo-se o conjunto da sociedade em duas classes de possuidores de
propriedades e trabalhadores sem propriedades.
A economia Política parte do fato da propriedade privada; não o explica. Ela
concebe o processo material da propriedade privada, como ocorre na realidade,
por meio de fórmulas abstratas e gerais que, então, servem como leis. Ela não
compreende essas leis; isto é, ela não mostra como surgem da natureza da
propriedade privada. A Economia Política não dá nenhuma explicação da base para
a distinção entre trabalho e capital, entre capital e terra. Quando, por
exemplo, a relação entre salários e lucros é definida, isso é explicado em
função dos interesses dos capitalistas; por outras palavras, o que devia ser
explicado é admitido. Analogamente, a competição é referida a todos os pontos e
explicada em função das condições externas. A Economia Política nada nos diz a
respeito da medida em que essas condições externas, e aparentemente acidentais,
são simplesmente a expressão de uma evolução necessária. Vimos como a própria
troca se afigura um fato acidental. As únicas forças propulsoras reconhecidas
pela Economia Política são a avareza e a guerra entre os gananciosos, a
competição.
Justamente por deixar a Economia Política de entender as interconexões dentro
desse movimento, foi possível opor a doutrina de competição à de monopólio, a
doutrina de liberdade da profissão à das guildas, a doutrina de divisão da
propriedade imobiliária a dos latifúndios; pois a competição, liberdade de
ocupação e divisão da propriedade imobiliária foram concebidas tão-somente como
conseqüências fortuitas produzidas pela vontade e pela força, em vez de
conseqüências necessárias, inevitáveis e naturais do monopólio, do sistema de
guildas e da propriedade feudal.
Por isso, temos agora de apreender a ligação real entre todo esse sistema de
alienação - propriedade privada, ganância, separação entre trabalho, capital e
terra, troca e competição, valor e desvalorização do homem, monopólio e
competição - e o sistema do dinheiro.
Não iniciaremos nossa exposição, como o faz o economista, por uma legendária
situação primitiva. Uma tal situação arcaica nada explica; simplesmente afasta a
pergunta para uma distância turva e enevoada. Ela afirma como fato ou
acontecimento o que deveria deduzir, ou seja, a relação necessária entre duas
coisas; por exemplo, entre a divisão do trabalho e a troca. Da mesma maneira, a
teologia explica a origem do mal pela queda do homem; isto é, ela assegura como
fato histórico aquilo que deveria elucidar.
Partiremos de um fato econômico contemporâneo. O trabalhador fica mais pobre à
medida que produz mais riqueza e sua produção cresce em força e extensão. O
trabalhador torna-se uma mercadoria ainda mais barata à medida que cria mais
bens. A desvalorização do mundo humano aumenta na razão direta do aumento de
valor do mundo dos objetos. O trabalho não cria apenas objetos; ele também se
produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria, e, deveras, na mesma
proporção em que produz bens.
Esse fato simplesmente subentende que o objeto produzido pelo trabalho, o seu
produto, agora se lhe opõe como um ser estranho, como uma força independente do
produtor. O produto do trabalho humano é trabalho incorporado em um objeto e
convertido em coisa física; esse produto é uma objetificação do trabalho. A
execução do trabalho é simultaneamente sua objetificação. A execução do trabalho
aparece na esfera da Economia Política como uma perversão do trabalhador, a
objetificação como uma perda e uma servidão ante o objeto, e a apropriação como
alienação.
A execução do trabalho aparece tanto como uma perversão que o trabalhador se
perverte até o ponto de passar fome. A objetificação aparece tanto como uma
perda do objeto que o trabalhador é despojado das coisas mais essenciais não só
da vida, mas também do trabalho. O próprio trabalho transforma-se em um objeto
que ele só pode adquirir com tremendo esforço e com interrupções imprevisíveis.
A apropriação do objeto aparece como alienação a tal ponto que quanto mais
objetos o trabalhador produz tanto menos pode possuir e tanto mais fica dominado
pelo seu produto, o capital.
Todas essas conseqüências decorrem do fato de o trabalhador ser relacionado com
o produto de seu trabalho como com um objeto estranho. Pois está claro que,
baseado nesta premissa, quanto mais o trabalhador se desgasta no trabalho tanto
mais poderoso se torna o mundo de objetos por ele criado em face dele mesmo,
tanto mais pobre se torna a sua vida interior, e tanto menos ele se pertence a
si próprio. Quanto mais de si mesmo o homem atribui a Deus, tanto menos lhe
resta. O trabalhador põe a sua vida no objeto, e sua vida, então, não mais lhe
pertence, porém, ao objeto. Quanto maior for sua atividade, portanto, tanto
menos ele possuirá. O que está incorporado ao produto de seu trabalho não mais é
dele mesmo. Quanto maior for o produto de seu trabalho, por conseguinte, tanto
mais ele minguará. A alienação do trabalhador em seu produto não significa
apenas que o trabalho dele se converte em objeto, assumindo uma existência
externa, mas ainda que existe independentemente, fora dele mesmo, e a ele
estranho, e que com ele se defronta como uma força autônoma. A vida que ele deu
ao objeto volta-se contra ele como uma força estranha e hostil.
(XXIII) Examinemos agora, mais de perto, o fenômeno da objetificação, a produção
do trabalhador e a alienação e perda do objeto por ele produzido, nisso
implícitas. O trabalhador nada pode criar sem a natureza, sem o mundo exterior
sensorial. Este ultimo é o material em que se concretiza o trabalho, em que este
atua, com o qual e por meio do qual ele produz coisas.
Todavia, assim como a natureza proporciona os meios de existência do trabalho,
na acepção de este não poder viver sem objetos aos quais possa aplicar-se,
igualmente proporciona os meios de existência em sentido mais restrito, ou sejam
os meios de subsistência física para o próprio trabalhador. Assim, quanto mais o
trabalhador apropria o mundo externo da natureza sensorial por seu trabalho,
tanto mais se despoja de meios de existência, sob dois aspectos: primeiro, o
mundo exterior sensorial se torna cada vez menos um objeto pertencente ao
trabalho dele ou um meio de existência de seu trabalho; segundo, ele se torna
cada vez menos um meio de existência na acepção direta, um meio para a
subsistência física do trabalhador.
Sob os dois aspectos, portanto, o trabalhador se converte em escravo do objeto:
primeiro, por receber um objeto de trabalho, isto é, receber trabalho, e em
segundo lugar por receber meios de subsistência. Assim, o objeto o habilita a
existir, primeiro como trabalhador e depois como sujeito físico.
O apogeu dessa escravização é ele só poder se manter como sujeito físico na
medida em que é um trabalhador, e de ele só como sujeito físico poder ser um
trabalhador.
(A alienação do trabalhador em seu objeto é expressa da maneira seguinte, nas
leis da Economia Política: quanto mais o trabalhador produz, tanto menos tem
para consumir; quanto mais valor ele cria, tanto menos valioso se torna; quanto
mais aperfeiçoado o seu produto, tanto mais grosseiro e informe o trabalhador;
quanto mais civilizado o produto, tão mais bárbaro o trabalhador; quanto mais
poderoso o trabalho, tão mais frágil o trabalhador; quanto mais inteligência
revela o trabalho, tanto mais o trabalhador decai em inteligência e se torna um
escravo da natureza.)
A economia Política oculta a alienação na natureza do trabalho por não examinar
a relação direta entre o trabalhador (trabalho) e a produção. Por certo, o
trabalho humano produz maravilhas para os ricos, mas produz privação para o
trabalhador. Ele produz palácios, porém choupanas é o que toca ao trabalhador.
Ele produz beleza, porém para o trabalhador só fealdade. Ele substitui o
trabalho humano por maquinas, mas atira alguns dos trabalhadores a um gênero
bárbaro de trabalho e converte outros em máquinas. Ele produz inteligência,
porém também estupidez e cretinice para os trabalhadores.
A relação direta do trabalho com seus produtos é a entre o trabalhador e os
objetos de sua produção. A relação dos possuidores de propriedade com os objetos
da produção e com a própria produção é meramente uma conseqüência da primeira
relação e a confirma. Apreciaremos adiante este segundo aspecto. Portanto,
quando perguntamos qual é a relação importante do trabalho, estamos interessados
na relação do trabalhador com a produção.
Até aqui consideramos a alienação do trabalhador somente sob um aspecto, qual
seja o de sua relação com os produtos de seu trabalho. Não obstante, a alienação
aparece não só como resultado, mas também como processo de produção, dentro da
própria atividade produtiva. Como poderia o trabalhador ficar numa relação
alienada com o produto de sua atividade se não se alienasse a si mesmo no
próprio ato da produção? O produto é, de fato, apenas a síntese da atividade, da
produção. Conseqüentemente, se o produto do trabalho é alienação, a própria
produção deve ser alienação ativa - a alienação da atividade e a atividade da
alienação A alienação do objeto do trabalho simplesmente resume a alienação da
própria atividade do trabalho.
O que constitui a alienação do trabalho? Primeiramente, ser o trabalho externo
ao trabalhador, não fazer parte de sua natureza, e por conseguinte, ele não se
realizar em seu trabalho mas negar a si mesmo, ter um sentimento de sofrimento
em vez de bem-estar, não desenvolver livremente suas energias mentais e físicas
mas ficar fisicamente exausto e mentalmente deprimido. O trabalhador, portanto,
só se sente à vontade em seu tempo de folga, enquanto no trabalho se sente
contrafeito. Seu trabalho não é voluntário, porém imposto, é trabalho forçado.
Ele não é a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio para satisfazer
outras necessidades. Seu caráter alienado é claramente atestado pelo fato, de
logo que não haja compulsão física ou outra qualquer, ser evitado como uma
praga. O trabalho exteriorizado, trabalho em que o homem se aliena a si mesmo, é
um trabalho de sacrifício próprio, de mortificação. Por fim, o caráter
exteriorizado do trabalho para o trabalhador é demonstrado por não ser o
trabalho dele mesmo mas trabalho para outrem, por no trabalho ele não se
pertencer a si mesmo mas sim a outra pessoa.
Tal como na religião, a atividade espontânea da fantasia, do cérebro e do
coração humanos, reage independentemente como uma atividade alheia de deuses ou
demônios sobre o indivíduo, assim também a atividade do trabalhador não é sua
própria atividade espontânea. É atividade de outrem e uma perda de sua própria
espontaneidade.
Chegamos a conclusão de que o homem (o trabalhador) só se sente livremente ativo
em suas funções animais - comer, beber e procriar, ou no máximo também em sua
residência e no seu próprio embelezamento - enquanto que em suas funções humanas
se reduz a um animal. O animal se torna humano e o humano se torna animal.
Comer, beber e procriar são, evidentemente, também funções genuinamente humanas.
Mas, consideradas abstratamente, à parte do ambiente de outras atividades
humanas, e convertidas em fins definitivos e exclusivos, são funções animais.
Consideremos, agora, o ato de alienação da atividade humana prática, o trabalho,
sob dois aspectos: 1) a relação do trabalhador com o produto do trabalho como um
objeto estranho que o domina. Essa relação é, ao mesmo tempo, a relação com o
mundo exterior sensorial, com os objetos naturais, como um mundo estranho e
hostil; 2) a relação do trabalho como o ato de produção dentro do trabalho. Essa
é a relação do trabalhador com sua própria atividade humana como algo estranho e
não pertencente a ele mesmo, atividade como sofrimento (passividade), vigor como
impotência, criação como emasculação, a energia física e mental pessoal do
trabalhador, sua vida pessoal (pois o que é a vida senão atividade?) como uma
atividade voltada contra ele mesmo, independente dele e não pertencente a ele.
Isso é auto-alienação, ao contrário da acima mencionada alienação do objeto.
(XXIV) Temos, agora, de inferir uma terceira característica do trabalho
alienado, partindo das duas já vistas.
O homem é um ente-espécie não apenas no sentido de que ele faz da comunidade
(sua própria, assim como as de outras coisas) seu objeto, tanto prática quanto
teoricamente, mas também (e isto é simplesmente outra expressão da mesma coisa)
no sentido de tratar-se a si mesmo como a espécie vivente, atual, como um ser
universal e conseqüentemente livre.
A vida da espécie, para o homem assim como para os animais, encontra sua base
física no fato de o homem (como os animais) viver da natureza inorgânica, e como
o homem é mais universal que um animal, assim também o âmbito da natureza
inorgânica de que ele vive é mais universal. Vegetais, animais, minerais, ar,
luz, etc., constituem, sob o ponto de vista teórico, uma parte da consciência
humana como objetos da ciência natural e da arte; eles são a natureza inorgânica
espiritual do homem, se meio intelectual de vida, que ele deve primeiramente
preparar para seu prazer e perpetuação. Assim também, sob o ponto de vista
prático, eles formam parte da vida e atividade humanas. Na prática, o homem vive
apenas desses produtos naturais, sob a forma de alimento, aquecimento, roupa,
abrigo, etc. A universalidade do homem aparece, na prática, na universalidade
que faz da natureza inteira o seu corpo: 1) como meio direto de vida, e
igualmente, 2) como o objeto material e o instrumento de sua atividade vital. A
natureza é o corpo inorgânico do homem; quer isso dizer a natureza excluindo o
próprio corpo humano. Dizer que o homem vive da natureza significa que a
natureza é o corpo dele, com o qual deve se manter em contínuo intercâmbio a fim
de não morrer. A afirmação de que a vida física e mental do homem e a natureza
são interdependentes, simplesmente significa ser a natureza interdependente
consigo mesma, pois o homem é parte dela.
Tal como o trabalho alienado: 1) aliena a natureza do homem e 2) aliena o homem
de si mesmo, de sua própria função ativa, de sua atividade vital, assim também o
aliena da espécie. Ele transforma a vida da espécie em uma forma de vida
individual. Em primeiro lugar, ele aliena a vida da espécie e a vida individual,
e posteriormente transforma a segunda, como uma abstração, em finalidade da
primeira, também em sua forma abstrata e alienada.
Pois, trabalho, atividade vital, vida produtiva, agora aparecem ao homem apenas
como meios para a satisfação de uma necessidade, a de manter sua existência
física. A vida produtiva, contudo, é vida da espécie. É vida criando vida. No
tipo de atividade vital, reside todo o caráter de uma espécie, seu caráter como
espécie; e a atividade livre, consciente, é o caráter como espécie dos seres
humanos. A própria vida assemelha-se somente a um meio de vida.
O animal identifica-se com sua atividade vital. Ele não distingue a atividade de
si mesmo. Ele é sua atividade.
O homem, porém, faz de sua atividade vital um objeto de sua vontade e
consciência. Ele tem uma atividade vital consciente. Ela não é uma prescrição
com a qual ele esteja plenamente identificado. A atividade vital consciente
distingue o homem da atividade vital dos animais: só por esta razão ele é um
ente-espécie. Ou antes, é apenas um ser auto-consciente, isto é, sua própria
vida é um objeto para ele, porque ele é um ente-espécie. Só por isso, a sua
atividade é atividade livre. O trabalho alienado inverte a relação, pois o
homem, sendo um ser autoconsciente, faz de sua atividade vital, de seu ser,
unicamente um meio para sua existência.
A construção prática de um mundo objetivo, a manipulação da natureza inorgânica,
é a confirmação do homem como um ente-espécie, consciente, isto é, um ser que
trata a espécie como seu próprio ser ou a si mesmo como um ser-espécie. Sem
dúvida, os animais também produzem. Eles constróem ninhos e habitações, como no
caso das abelhas, castores, formigas, etc. Porém, só produzem o estritamente
indispensável a si mesmos ou aos filhotes. Só produzem em uma única direção,
enquanto o homem. produz universalmente. Só produzem sob a compulsão de
necessidade física direta, ao passo que o homem produz quando livre de
necessidade física e só produz, na verdade, quando livre dessa necessidade. Os
animais só produzem a si mesmos, enquanto o homem reproduz toda a natureza. Os
frutos da produção animal pertencem diretamente a seus corpos físicos, ao passo
que o homem é livre ante seu produto. Os animais só constróem de acordo com os
padrões e necessidades da espécie a que pertencem, enquanto o homem sabe
produzir de acordo com os padrões de todas as espécies e como aplicar o padrão
adequado ao objeto. Assim, o homem constrói também em conformidade com as leis
do belo.
É justamente em seu trabalho exercido no mundo objetivo que o homem realmente se
comprova como um ente-espécie. Essa produção é sua vida ativa como espécie;
graças a ela, a natureza aparece como trabalho e realidade dele. O objetivo do
trabalho, portanto, é a objetificação da vida como espécie do homem, pois ele
não mais se reproduz a si mesmo apenas intelectualmente, como na consciência,
mas ativamente e em sentido real, e vê seu próprio reflexo em um mundo por ele
construído. Por conseguinte, enquanto o trabalho alienado afasta o objetivo da
produção do homem, também afasta sua vida como espécie, sua objetividade real
como ente-espécie, e muda a superioridade sobre os animais em uma inferioridade,
na medida em que seu corpo inorgânico, a natureza, é afastado dele.
Assim como o trabalho alienado transforma a atividade livre e dirigida pelo
próprio indivíduo em um meio, também transforma a vida do homem como membro da
espécie em um meio de existência física.
A consciência que o homem tem de sua espécie é transformada por meio da
alienação, de sorte que a vida como espécie torna-se apenas um meio para ele.
(3) Então, o trabalho alienado converte a vida do homem como membro da espécie,
e também como propriedade mental da espécie dele, em uma entidade estranha e em
um meio para sua existência individual. Ele aliena o homem de seu próprio corpo,
a natureza extrínseca, de sua vida mental e de sua vida humana.
(4) Uma conseqüência direta da alienação do homem com relação ao produto de seu
trabalho, à sua atividade vital e a sua vida como membro da espécie, é o homem
ficar alienado dos outros homens. Quando o homem se defronta consigo mesmo,
também está se defrontando com outros homens.
O que é verdadeiro quanto à relação do homem com seu trabalho, com o produto
desse trabalho e consigo mesmo, também o é quanto à sua relação com outros
homens, com o trabalho deles e com os objetos desse trabalho.
De maneira geral, a declaração de que o homem fica alienado da sua vida como
membro da espécie implica em cada homem ser alienado dos outros, e cada um dos
outros ser igualmente alienado da vida humana.
A alienação humana, e acima de tudo a relação do homem consigo próprio, é pela
primeira vez concretizada e manifestada na relação entre cada homem e os demais
homens. Assim, na relação do trabalho alienado cada homem encara os demais de
acordo com os padrões e relações em que ele se encontra situado como
trabalhador.
(XXV) Principiamos por uma fato econômico, a alienação do trabalhador e de sua
produção. Exprimimos esse fato em termos conceituais como trabalho alienado e,
ao analisar o conceito, limitamo-nos a analisar um fato econômico.
Examinemos, agora, mais além, como esse conceito de trabalho alienado deve
expressar-se e revelar-se na realidade. Se o produto do trabalho me é estranho e
enfrenta-me como uma força estranha, a quem pertence ele? Se minha própria
atividade não me pertence, mas é uma atividade alienada, forçada, a quem ela
pertence? A um ser, outro que não eu. E que é esse ser? Os deuses? É evidente,
nas mais primitivas etapas de produção adiantada, por exemplo, construção de
templos, etc., no Egito, Índia, México, é nos serviços prestados aos deuses, que
o produto pertencia a estes. Mas os deuses nunca eram por si sós os donos do
trabalho humano; tampouco o era a natureza. Que contradição haveria se quanto
mais o homem subjugasse a natureza com seu trabalho, e quanto mais as maravilhas
dos deuses fossem tornadas supérfluas pelas da industria, ele se abstivesse da
sua alegria em produzir e de sua fruição dos produtos por amor a esses poderes!
O ser estranho a quem pertencem o trabalho e o produto deste, a quem o trabalho
é devotado, e para cuja fruição se destina o produto do trabalho, só pode ser o
próprio homem. Se o produto do trabalho não pertence ao trabalhador, mas o
enfrenta como uma força estranha, isso só pode acontecer porque pertence a um
outro homem que não o trabalhador. Se sua atividade é para ele um tormento, ela
deve ser uma fonte de satisfação e prazer para outro. Não os deuses nem a
natureza, mas só o próprio homem pode ser essa força estranha acima dos homens.
Considere-se a afirmação anterior segundo a qual a relação do homem consigo
mesmo se concretiza e objetiva primariamente através de sua relação com outros
homens. Se, portanto, ele está relacionado com o produto de seu trabalho, seu
trabalho objetificado, como com um objeto estranho, hostil, poderoso e
independente, ele está relacionado de tal maneira que um outro homem, estranho,
hostil, poderoso e independente, é o dono de seu objeto. Se ele está relacionado
com sua atividade como com uma atividade não-livre, então está relacionado com
ela como uma atividade a serviço e sob jugo, coerção e domínio de outro homem.
Toda auto-alienação do homem, de si mesmo e da natureza, aparece na relação que
ele postula entre os outros homens, ele próprio e a natureza. Assim a
auto-alienação religiosa é necessariamente exemplificada na relação entre leigos
e sacerdotes, ou, já que aqui se trata de uma questão do mundo espiritual, entre
leigos e um mediador. No mundo real da prática, essa auto-alienação só pode ser
expressa na relação real, prática, do homem com seus semelhantes.
O meio através do qual a alienação ocorre é, por si mesmo, um meio prático.
Graças ao trabalho alienado, por conseguinte, o homem não só produz sua relação
com o objeto e o processo da produção como com homens estranhos e hostis, mas
também produz a relação de outros homens com a produção e o produto dele, e a
relação entre ele próprio e os demais homens. Tal como ele cria sua própria
produção como uma perversão, uma punição, e seu próprio produto como uma perda,
como um produto que não lhe pertence, assim também cria a dominação do
não-produtor sobre a produção e os produtos desta. Ao alienar sua própria
atividade, ele outorga ao estranho uma atividade que não é deste.
Apreciamos até aqui essa relação somente do lado do trabalhador, e
posteriormente a apreciaremos também do lado do não-trabalhador.
Assim, graças ao trabalho alienado o trabalhador cria a relação de outro homem
que não trabalha e está de fora do processo do trabalho, com o seu próprio
trabalho. A relação do trabalhador com o trabalho também provoca a relação do
capitalista (ou como quer que se denomine ao dono da mão-de-obra) com o
trabalho. A propriedade privada é, portanto, o produto, o resultado inevitável,
do trabalho alienado, da relação externa do trabalhador com a natureza e consigo
mesmo.
A propriedade privada, pois, deriva-se da análise do conceito de trabalho
alienado: isto é, homem alienado, trabalho alienado, vida alienada, e homem
afastado.
Está claro que extraímos o conceito de trabalho alienado (vida alienada) da
Economia Política, partindo de uma análise do movimento da propriedade privada.
A análise deste conceito, porém, mostra que embora a propriedade privada pareça
ser a base e causa do trabalho alienado, é antes uma conseqüência dele, tal e
qual os deuses não são fundamentalmente a causa, mas o produto de confusões da
razão humana. Numa etapa posterior, entretanto, há uma influência recíproca.
Só na etapa final da evolução da propriedade privada é revelado o seu segredo,
ou seja, que é, de um lado, o produto do trabalho alienado, e do outro, o meio
pelo qual o trabalho é alienado, a realização dessa alienação.
Esta elucidação lança luz sobre diversas controvérsias não solucionadas:
(1) A Economia Política inicia tomando o trabalho como a verdadeira alma da
produção e, a seguir, nada lhe atribui, concedendo tudo a' propriedade privada.
Proudhon, defrontando-se com essa contradição, decidiu em favor do trabalho
contra a propriedade privada. Percebemos, contudo, que essa aparente contradição
é a contradição do trabalho alienado consigo mesmo e que a Economia Política
meramente formulou as leis do trabalho alienado.
Observamos, também, por conseguinte, que salários e propriedade privada são
idênticos, porquanto os salários como o produto ou objetivo do trabalho, o
próprio trabalho remunerado, são apenas conseqüência necessária da alienação do
trabalho. No sistema de salários, o trabalho aparece não como um fim por si mas
como o servo dos salários. Mais tarde nos entenderemos sobre isto,
limitando-nos, aqui, a desvendar algumas das conseqüências (XXVI).
Um aumento de salários imposto (desprezando outras dificuldades, e especialmente
a de que uma anomalia dessas só poderia ser mantida pela força) não passaria de
uma remuneração melhor de escravos, e não restauraria, seja para o trabalhador
seja para o trabalho, seu significado e valor humanos.
Mesmo a igualdade das rendas que Proudhon exige só modificaria a relação do
trabalhador de hoje em dia com seu trabalho em uma relação de todos os homens
com o trabalho. A sociedade seria concebida, então, como um capitalista
abstrato.
(2) Da relação do trabalho alienado com a propriedade privada também decorre que
a emancipação da sociedade da propriedade privada, da servidão, assume a forma
política de emancipação dos trabalhadores; não no sentido de só estar em jogo a
emancipação destes, mas por essa emancipação abranger a de toda a humanidade.
Pois toda servidão humana está enredada na relação do trabalhador com a
produção, e todos os tipos de servidão são somente modificações ou corolários
desta relação.
Como descobrimos o conceito de propriedade privada por uma análise do conceito
de trabalho alienado, com o auxílio desses dois fatores também podemos deduzir
todas as categorias da Economia Política, e em cada uma, isto é, comércio,
competição, capital, dinheiro, descobriremos só uma expressão particular e
ampliada desses elementos fundamentais.
Sem embargo, antes de considerar essa estrutura, tentemos solucionar dois
problemas.
(1) Determinar a natureza geral da propriedade privada como resultou do trabalho
alienado, em sua relação com a propriedade humana e social genuína.
(2) Tomamos como fato e analisamos a alienação do trabalho. Como sucede, podemos
indagar, que o homem aliene seu trabalho? Como essa alienação se alicerça na
natureza da evolução humana? Já fizemos muito para resolver o problema, visto
termos transformado a questão referente ã origem da propriedade privada em uma
questão acerca da relação entre trabalho alienado e o processo de evolução da
humanidade. Pois, ao falar de propriedade privada, acredita-se estar lidando com
algo extrínseco à espécie humana. Mas, ao falar de trabalho, lida-se diretamente
com a própria espécie humana. Esta nova formulação do problema já encerra sua
solução.
ad (1) A natureza geral da propriedade privada e sua relação com a propriedade
genuína.
Decompusemos o trabalho alienado em duas partes, que se determinam mutuamente,
ou melhor, constituem duas expressões distintas de uma única relação. A
apropriação aparece como alienação e alienação como apropriação; alienação como
aceitação genuína na comunidade.
Consideramos um aspecto, o trabalho alienado, em seus reflexos no próprio
trabalhador, isto é, a relação alienada do trabalho humano consigo mesmo. E
constatamos ser corolário obrigatório dessa relação, a relação de propriedade do
não-trabalhador com o trabalhador e com o trabalho. A propriedade privada, como
expressão material sinóptica do trabalho alienado, inclui ambas as relações: a
relação do trabalhador com o trabalho, com o produto de seu trabalho e com o
não-trabalhador, e a relação do não-trabalhador com o trabalhador e com o
produto do trabalho deste.
Já vimos que em relação ao trabalhador, que apropria a natureza por intermédio
de seu trabalho, a apropriação se afigura uma alienação, a atividade própria
como atividade para outrem e de outrem, a vida como sacrifício da vida, e a
produção do objeto como perda deste para uma força estranha, um homem estranho.
Consideremos, agora, a relação deste homem estranho com o trabalhador, com o
trabalho e com o objeto do trabalho.
Deve ser observado, de início, que tudo que aparece ao trabalhador como uma
atividade de alienação, aparece ao não-trabalhador como uma condição de
alienação. Em segundo lugar, a atitude prática real do trabalhador na produção e
face ao produto (como estado de espírito) afigura-se ao não-trabalhador, que com
ele se defronta, como uma atitude teórica.
(XXVII) Em terceiro lugar, o não-trabalhador faz contra o trabalhador tudo que
este faz contra si mesmo, mas não faz contra si próprio o que faz contra o
trabalhador.
Examinemos mais de perto essas três relações.
[o manuscrito interrompe-se aqui]
Karl Marx, 1844



segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Marx: PREFÁCIO AOS MANUSCRITOS ECONÔMICOS E FILOSÓFICOS





Karl Marx





Já anunciei, no Deutsch-Franzoesischer Jahrbücher , uma crítica do Direito e da
Ciência Política sob a forma de crítica à filosofia hegeliana do Direito.
Entretanto, ao preparar o trabalho a ser publicado, ficou evidente que seria
assaz inconveniente uma combinação da crítica dirigida somente à teoria
especulativa com a crítica de vários assuntos; isso tolheria a exposição da
argumentação e tornaria esta mais difícil de ser acompanhada. Ademais, eu só
poderia comprimir tal riqueza e diversidade de assuntos em um único livro se
escrevesse em estilo aforismático, e uma apresentação assim aforismática daria a
impressão de sistematização arbitrária. Por conseguinte, publicarei minha
crítica do Direito, Moral, Política, etc., em diversos opúsculos separados, e,
por fim, tentarei, em uma obra a parte, apresentar o conjunto inter-relacionado,
mostrando as relações entre as várias partes e apresentando uma crítica do
tratamento especulativo desse material. É por isso que, no presente trabalho, as
relações da Economia Política com o Estado, o Direito, a Moral, a vida civil,
etc., são apenas abordadas na medida em que a própria Economia Política trata
desses assuntos.
Não é necessário assegurar ao leitor familiarizado com a Economia Política que
minhas conclusões são o fruto de uma análise inteiramente empírica, baseadas em
um meticuloso estudo crítico da Economia Política.
É claro que além de aos socialistas franceses e ingleses também recorri a
trabalhos de socialistas alemães. Mas as obras alemães originais e importantes a
este respeito - fora as de Weitling - limitam-se aos ensaios publicados por Hess
no Einundzwanzib Bogen , e ao de Engels, "Umrisse zur Kritik der
Nationaloekonomie" no Deutsch-Franzoesischer Jahrbücher. Nesta última
publicação, eu mesmo indiquei, de forma bastante genérica, os elementos básicos
do presente trabalho.
A crítica positiva, humanista e naturalista tem início com Feuerbach. Os
trabalhos menos espetaculares de Feuerbach são os mais certos, profundos,
extensos e duradouros em sua influência; eles são os únicos, desde a
Fenomenologia e a Lógica de Hegel que contêm uma verdadeira revolução teórica.
Ao contrário dos teólogos críticos de nossa época, considerei o capítulo final
do presente trabalho, uma exposição crítica da dialética hegeliana e de sua
filosofia geral, como absolutamente essencial, pois isso ainda não foi feito.
Esta falta de meticulosidade não é acidental, pois o teólogo crítico continua a
ser um teólogo. Ele tem de partir, seja de certos pressupostos da filosofia
aceita como oficial, ou então, se no decurso da crítica e como resultado de
descobertas de outras pessoas surgirem-lhe na mente dúvidas acerca dos
pressupostos filosóficos, abandona-os de forma covarde e sem justificativa,
abstrai a partir deles, e demonstra ao mesmo tempo dependência servil face a
elas e seu ressentimento a essa dependência de maneira negativa, inconsciente e
sofística.
Olhada mais de perto, a crítica teológica, que foi no começo do movimento um
fator genuinamente progressista, é vista como sendo, em última análise, nada
mais que a culminação e conseqüência do antigo transcendentalismo filosófico, e
especialmente hegeliano, deformado numa caricatura teológica. Descreverei
alhures, com maior minúcia, esse ato interessante de justiça histórica, essa
nêmese que agora destina a teologia, sempre o setor infectado da filosofia, a
espelhar em si a mesma dissolução negativa da filosofia, isto é, o processo de
sua decadência.
Karl Marx, 1844




domingo, 16 de janeiro de 2011

MARX: INTRODUÇÃO À CRÍTICA DA FILOSOFIA DO DIREITO DE HEGEL


INTRODUÇÃO À CRÍTICA DA FILOSOFIA DO DIREITO DE HEGEL



Karl Marx
Publicado em 1843.



Na Alemanha, a crítica da religião chegou, no essencial, ao fim. A crítica da
religião é a premissa de toda crítica.
A existência profana do erro ficou comprometida, uma vez refutada sua celestial
oratio pro aris et focis [oração pelo lar e pelo ócio].
O homem que só encontrou o reflexo de si mesmo na realidade fantástica do céu,
onde buscava um super-homem, já não se sentirá inclinado a encontrar somente a
aparência de si próprio, o não-homem, já que aquilo que busca e deve
necessariamente buscar é a sua verdadeira realidade.
A religião não faz o homem, mas, ao contrário, o homem faz a religião: este é o
fundamento da crítica irreligiosa. A religião é a autoconsciência e o
autosentimento do homem que ainda não se encontrou ou que já se perdeu. Mas o
homem não é um ser abstrato, isolado do mundo. O homem é o mundo dos homens, o
Estado, a sociedade. Este Estado, esta sociedade, engendram a religião, criam
uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido. A
religião é a teoria geral deste mundo, seu compêndio enciclopédico, sua lógica
popular, sua dignidade espiritualista, seu entusiasmo, sua sanção moral, seu
complemento solene, sua razão geral de consolo e de justificação. É a realização
fantástica da essência humana por que a essência humana carece de realidade
concreta. Por conseguinte, a luta contra a religião é, indiretamente, a luta
contra aquele mundo que tem na religião seu aroma espiritual.
A miséria religiosa é, de um lado, a expressão da miséria real e, de outro, o
protesto contra ela. A religião é o soluço da criatura oprimida, o coração de um
mundo sem coração, o espírito de uma situação carente de espirito. É o ópio do
povo.
A verdadeira felicidade do povo implica que a religião seja suprimida, enquanto
felicidade ilusória do povo. A exigência de abandonar as ilusões sobre sua
condição é a exigência de abandonar uma condição que necessita de ilusões. Por
conseguinte, a crítica da religião é o germe da critica do vale de lágrimas que
a religião envolve numa auréola de santidade.
A crítica arrancou as flores imaginárias que enfeitavam as cadeias, não para que
o homem use as cadeias sem qualquer fantasia ou consolação, mas para que se
liberte das cadeias e apanhe a flor viva. A crítica da religião desengana o
homem para que este pense, aja e organize sua realidade como um homem
desenganado que recobrou a razão a fim de girar em torno de si mesmo e,
portanto, de seu verdadeiro sol. A religião é apenas um sol fictício que se
desloca em torno do homem enquanto este não se move em torno de si mesmo.
Assim, superada a crença no que está além da verdade, a missão da história
consiste em averiguar a verdade daquilo que nos circunda. E, como primeiro
objetivo, uma vez que se desmascarou a forma de santidade da autoalienação
humana, a missão da filosofia, que está à serviço da história, consiste no
desmascaramento da autoalienação em suas formas não santificadas. Com isto, a
crítica do céu se converte na crítica da terra, a critica da religião na critica
do direito, a crítica da teologia na crítica da Política.
A exposição seguinte - uma abordagem a este trabalho - não se prende diretamente
ao original, senão a uma cópia deste, à filosofia alemã do direito e do Estado,
pelo simples fato de se ater à Alemanha.
Se nos quiséssemos ater ao status quo alemão, ainda que da única maneira
adequada, isto é, de modo negativo, o resultado continuaria a ser anacrônico. A
mesma negação de nosso presente político já se acha coberta de pó no sótão de
trastes velhos dos povos modernos. Ainda que nos recusemos a recolher estes
materiais empoeirados, continuaremos conservando os materiais sem poeira. Ainda
que neguemos as situações existentes na Alemanha de 1843, apenas nos situaremos,
segundo a cronologia francesa, em 1789, e ainda menos no ponto focal dos dias
atuais.
E o caso da história alemã gabar-se de um movimento ao qual nenhum povo do
firmamento histórico se adiantou a ela nem a seguirá. Com efeito, os alemães
compartem as restaurações dos povos modernos, sem haver participado de suas
revoluções. Passamos por uma restauração, em primeiro lugar, porque outros povos
se atreveram a fazer uma revolução e, em segundo lugar, porque outros povos
sofreram uma contra-revolução; a primeira vez porque nossos senhores tiveram
medo e a segunda porque não o tiveram. Tendo à frente nossos pastores, só uma
vez nos encontramos em companhia da liberdade: no dia de seu enterro.
Uma escola que legitima a infâmia de hoje com a infâmia de ontem; uma escola que
declara ato de rebeldia todo grito do servo contra o knut, da mesma maneira que
este é um knut pesado de anos, tradicional, histórico; uma escola a que a
história só mostre seu a posteriori, como o Deus de Israel a seu servo Moisés,
numa palavra, a Escola histórica do Direito teria sido inventada pela história
alemã se já não fosse por si uma invenção desta. É Shylock, mas o criado
Shylock, que por cada libra de carne cortada do coração do povo, jura e perjura
por sua escritura, por seus títulos históricos, por seus títulos
cristão-germânicos.
Em troca, certos entusiastas bondosos, germanistas pelo sangue e liberais pela
reflexão, vão buscar além da história, nas selvas teutônicas virgens, a história
da nossa liberdade. Mas, se só se encontra na selva, em que se distingue a
história da nossa liberdade da história da liberdade do javali? Além disso, é
fato sabido que quanto mais alguém se interna no bosque, tanto mais ressoa sua
voz fora deste. Por conseguinte, deixemos em paz a selva virgem teutônica.
Guerra aos estados de coisas alemães! É certo que se encontram abaixo do nível
da história, abaixo de toda critica, mas continuam a ser, apesar disto, objeto
de crítica, assim como o criminoso, por não se achar abaixo do nível da
humanidade, não deixa de ser objeto do verdugo. Na luta contra eles, a crítica
não é uma paixão do cérebro, mas o cérebro da paixão. Não é o bisturi anatômico,
mas uma arma. Seu objeto é o adversário, que não procura refutar, mas destruir.
O espírito daquelas situações já foi refutado. Não são dignas de ser lembradas;
devem ser desprezadas como existências proscritas. Não há necessidade da crítica
esclarecer este objeto frente a si mesma, pois dele já não se ocupa. Esta
crítica não se conduz como um fim em si, mas, simplesmente, como um meio. Seu
sentimento essencial é a indignação; sua tarefa essencial, a denúncia.
Trata-se de descrever a surda pressão mútua de todas as esferas sociais, umas
sobre as outras, a alteração geral e imprudente, a limitação que tanto se
reconhece quanto se desconhece, enquadrada dentro do modelo de um sistema de
governo, que, vivendo da conservação de tudo aquilo que é lamentável, não é
outra coisa senão o que há de lamentável no governo. Espetáculo lamentável! A
divisão da sociedade até o infinito nas raças mais diversas, que se enfrentam
umas às outras com pequenas antipatias, más intenções e brutal mediocridade e
que, precisamente em razão de sua mútua posição cautelosa são tratadas por seus
senhores, Sem exceção e com algumas diferenças, como existências sujeitas a suas
concessões. Até isto, até o fato de se verem dominadas, governadas e possuídas
tem que ser reconhecido e confessado por elas como uma concessão do céu! E, por
outro lado, aqueles senhores, cuja grandeza se encontra em relação inversa ao
numero delas!
A crítica que se ocupa deste conteúdo é a crítica da competição. Durante a
competição não interessa saber se o adversário é nobre, da mesma categoria, se é
um adversário interessante; trata-se de vencê-lo. Trata-se de não conceder aos
alemães nem um só instante de ilusão e de resignação. Há que tornar a opressão
real ainda mais opressiva, acrescentando àquela a consciência da opressão; há
que tornar a infâmia ainda mais infamante, ao proclamá-la. Há que pintar a todas
e a cada uma das esferas da sociedade alemã como a partie honteuse [partes
pudendas] da sociedade alemã; há que obrigar estas relações escravizadas a
dançar, cantando-lhes sua própria melodia. Há que ensinar o povo a ter pavor de
si mesmo, para infundir-lhe ânimo. Com isto, se satisfaz uma indisfarçável
necessidade do povo alemão; as necessidades dos povos são, em sua própria
pessoa, os últimos fundamentos de sua satisfação.
Esta luta contra o status quo alemão tampouco carece de interesse para os povos
modernos, pois o status quo alemão é a consagração franca e sincera do antigo
regime, e o antigo regime, a debilidade oculta do Estado moderno. A luta contra
o presente político alemão é a luta contra o passado dos povos modernos; as
reminiscências deste passado continuam a pesar ainda sobre eles e a oprimi-los.
É instrutivo para estes povos ver como o antigo regime, que neles conheceu sua
tragédia, representa agora sua comédia; é instrutivo para estes povos vê-lo como
o espectro alemão. Sua história foi trágica enquanto encarnou o poder
preexistente do mundo e a liberdade como uma ocorrência pessoal; numa palavra,
enquanto acreditou e devia acreditar na sua legitimidade. Enquanto o antigo
regime e a ordem existente no mundo lutavam contra um mundo em estado de
gestação, traziam de sua parte um erro histórico-universal e não de caráter
pessoal. Portanto, sua catástrofe foi trágica.
Pelo contrário, o atual regime alemão, que é um anacronismo, uma contradição
flagrante com todos os axiomas geralmente reconhecidos, a nulidade do antigo
regime posta em evidência frente ao mundo inteiro, só imagina crer em si próprio
e exige do inundo a mesma fé ilusória. Se acreditasse em seu próprio ser, acaso
iria escondê-lo sob a aparência de um ser estranho e procurar sua salvação na
hipocrisia e no sofisma? Não, o moderno regime antigo já não é mais do que o
comediante de uma ordem social cujos heróis reais já morreram. A história é
conscienciosa e passa por muitas fases antes de enterrar as velhas formas. A
comédia é a última fase de uma forma histórico-universal. Os deuses da Grécia,
já tragicamente feridos no Prometeu acorrentado de Ésquilo, morreram ainda outra
vez, comicamente, nos colóquios de Luciano. Por que esta trajetória histórica?
Para que a humanidade possa separar-se alegremente de seu passado. Este alegre
destino histórico é que nós reivindicamos para as potências políticas da
Alemanha.
Não obstante, tão logo a moderna realidade político-social se veja submetida à
crítica, isto é, tão logo a critica ascende ao plano dos problemas
verdadeiramente humanos é que se encontra fora do status quo alemão, pois de
outro modo abordaria seu objeto por baixo de si mesma. Um exemplo: a relação
entre a indústria, o inundo da riqueza em geral e o mundo político é um problema
fundamental da época moderna. De que forma este problema começa preocupar os
alemães? Sob a forma de normas protetoras, de sistema proibitivo, da economia
nacional. O germanismo passou dos homens a matéria e, um belo dia, nossos donos
do algodão e nossos heróis do ferro viram-se convertidos em patriotas. Assim,
pois, na Alemanha começa-se pelo reconhecimento da soberania do monopólio rumo
ao interior, conferindo-lhe a soberania rumo ao exterior. Isto significa que na
Alemanha se começa por onde terminam a França e a Inglaterra. A velha situação
insustentável contra a qual se levantam teoricamente estes países e que só são
suportáveis como são suportados os grilhões, é saudada na Alemanha como a
primeira luz do amanhecer de um belo futuro, que apenas se atreve a passar de
uma ladina teoria à mais implacável prática. Enquanto na França e na Inglaterra
o problema é colocado em termos de economia política ou império da sociedade
sobre a riqueza, na Alemanha os termos são outros: economia nacional ou império
da propriedade privada sobre a nacionalidade. Portanto, na França e na
Inglaterra trata-se de abolir o monopólio, que chegou a suas últimas
conseqüências; na Alemanha, trata-se de levar o monopólio a suas últimas
conseqüências, No primeiro caso, trata-se da solução; no segundo, simplesmente
da contradição. Exemplo suficiente da forma alemã que ali adotam os problemas
modernos, de como nossa história, tal qual o recruta imbecil, não teve até agora
outra missão senão a de praticar a repetir exercícios já feitos.
Por conseguinte, se todo o desenvolvimento da Alemanha não saísse dos marcos do
desenvolvimento político alemão, um alemão apenas poderia, muito bem, participar
dos problemas do presente, do mesmo modo como um russo deles pode participar.
Mas, se um indivíduo livre não se acha vinculado às cadeias da nação, ainda
menos livre se vê a nação inteira diante da libertação de um indivíduo. Os citas
não investiram um só passo contra a cultura grega porque a Grécia contasse um
deles entre seus filósofos.
Por sorte, nós, alemães, não somos citas.
Assim como os povos antigos viveram sua pré-história na imaginação, na
mitologia, nós, alemães, vivemos nossa pós-história no pensamento, na filosofia.
Somos contemporâneos filosóficos do presente, sem ser seus contemporâneos
históricos. A filosofia alemã é o prolongamento ideal da história da Alemanha.
Portanto, se ao invés das oeuvres incompletes [Obras incompletas] de nossa
história real, criticamos as oeuvres posthumes [Obras póstumas] de nossa
história ideal, a filosofia, nossa crítica figura no centro dos problemas dos
quais diz o presente: That is the question [Eis a questão].
O que para os povos progressistas é a ruptura prático com as situações do Estado
moderno, na Alemanha, onde estas situações nem sequer existem, isto significa,
antes de mais nada, a ruptura critica com o reflexo filosófico destas situações.

A filosofia alemã do Direito e do Estado é a única história alemã que se acha a
par com o presente oficial moderno. Por isto, o povo alemão não tem outro
remédio senão incluir também esta sua história feita de sonhos entre suas
situações existentes e submeter à crítica não só estas mesmas situações mas,
também e ao mesmo tempo, seu prolongamento abstrato. O futuro deste povo não
pode limitar-se nem à negação de suas condições estatais e jurídicas reais, nem
à execução indireta das condições ideais de seu Estado e de seu direito, já que
a negação direta de suas condições reais já está envolvida em suas condições
ideais e a execução indireta de suas condições ideais quase a fez sobreviver ao
contemplá-las nos povos vizinhos. Assim, ao reclamar a negação da filosofia, o
partido político prático da Alemanha tem toda razão. Seu erro não reside na
exigência, mas em deter-se na simples exigência, que não coloca nem pode colocar
seriamente em prática. Acredita colocar em prática aquela negação pelo fato de
voltar as costas à filosofia e de resmungar, olhando para o lado oposto, umas
tantas frases banais e mal-humoradas. A limitação de seu horizonte visual não
inclui também a filosofia da realidade alemã no Estreito de Bering, nem chega a
imaginá-la quimericamente, inclusive, entre a prática alemã e as teorias que a
servem. Exige-se uma conexão com os germes reais da vida, mas esquece-se que o
germe real da vida do povo alemão só brotou, até agora, de sua caixa craniana.
Numa palavra, não podereis superar a filosofia sem realizá-la.
A mesma injustiça, só que com fatores inversos, cometeu o partido político
teórico, que partia da filosofia.
Este partido só via na luta atual a luta critica da filosofia com o mundo
alemão, sem imaginar sequer que a filosofia anterior pertencia ela mesma a este
mundo e era um complemento, ainda que apenas seu complemento ideal. Assumia uma
atitude crítica frente à parte contrária, mas não adotava um comportamento
crítico para consigo mesmo, já que partia das premissas da filosofia e, ou se
detinha em seus resultados adquiridos ou apresentava como postulados e
resultados diretos da filosofia, os postulados e resultados de outra origem,
embora estes supondo que sejam legítimos - só podem manter-se de pé, pelo
contrário, mediante a negação da filosofia anterior, da filosofia como tal.
Propomo-nos a tratar mais a fundo deste partido. Seu erro fundamental pode
resumir-se assim: acreditava poder realizar a filosofia sem superá-la.
A crítica da filosofia alemã do direito e do Estado, que encontra em Hegel sua
expressão máxima, a mais conseqüente e a mais rica, é simultaneamente as duas
coisas, tanto a análise crítica do Estado moderno e da realidade a ele
relacionada como a negação decisiva de todo o modo anterior de consciência
política e jurídica alemã, cuja expressão mais nobre, mais universal, elevada à
ciência, é precisamente a mesma filosofia especulativa do direito. Assim como a
filosofia especulativa do direito - este pensamento abstrato e superabundante do
Estado moderno cuja realidade continua a ser o além, apesar deste além se
encontrar do outro lado do Reno - só poderia processar-se na Alemanha, assim
também, por sua vez e inversamente, a imagem alemã, conceitual, do Estado
moderno - abstraída do homem real - só se tornou uma possibilidade porque e
enquanto o mesmo Estado moderno se abstrai do homem real ou satisfaz o homem
total de modo puramente imaginário. Em política, os alemães pensam o que os
outros povos fazem. A Alemanha era sua consciência teórica. A abstração e a
arrogância de seu pensamento corria sempre em parelha com a limitação e a
mesquinhez de sua realidade. Por conseguinte, se o status quo do Estado alemão
exprime a perfeição do antigo regime, o acabamento da lança cravada no Estado
moderno, o status quo da consciência do Estado alemão expressa a imperfeição do
Estado moderno, a falta de consistência de seu próprio corpo
Enquanto adversário decidido do modo anterior de consciência política alemã, o
Estado orienta a crítica da filosofia especulativa do direito não para si mesma,
mas para tarefas cuja solução exige apenas um meio: a prática.
Indagamo-nos: pode a Alemanha chegar a uma prática à la hauter des principes [à
altura dos princípios], isto é, a uma revolução que a eleve não só ao nível
oficial dos povos modernos mas, também, ao nível humano que será o futuro
imediato destes povos!
As armas da crítica não podem, de fato, substituir a crítica das armas; a força
material tem de ser deposta por força material, mas a teoria também se converte
em força material uma vez que se apossa dos homens. A teoria é capaz de prender
os homens desde que demonstre sua verdade face ao homem, desde que se torne
radical. Ser radical é atacar o problema em suas raízes. Para o homem, porém, a
raiz é o próprio homem. A prova evidente do radicalismo da teoria alemã e,
portanto, de sua energia prática, consiste em saber partir decididamente da
superação positiva da religião. A crítica da religião derruba a idéia do homem
cama essência suprema para si próprio. Por conseguinte, com o imperativo
categórico mudam todas as relações em que o homem é um ser humilhado, subjugado,
abandonado e desprezível, relações que nada poderia ilustrar melhor do que
aquela exclamação de um francês ao tomar conhecimento da existência de um
projeto de criação do imposto sobre cães: Pobres cães! Querem tratá-los como se
fossem pessoas!
Até historicamente a emancipação teórica tem um interesse especificamente
prático para a Alemanha. O passado revolucionário da Alemanha é, de fato, um
passado histórico: é a Reforma. Como então no cérebro do frade, a revolução
começa agora no cérebro do filósofo.
Lutero venceu efetivamente a servidão pela devoção porque a substituiu pela
servidão da convicção. Acabou com a fé na autoridade porque restaurou a
autoridade da fé. Converteu sacerdotes em leigos porque tinha convertido leigos
em sacerdotes. Libertou o homem da religiosidade externa porque erigiu a
religiosidade no interior do homem. Emancipou o corpo das cadeias porque
sujeitou de cadeias o coração.
Mas, se o protestantismo não foi a verdadeira solução, representou a verdadeira
colocação do problema. Já não se tratava da luta do leigo com o sacerdote que
existe fora dele, mas da luta com o sacerdote que existe dentro de si próprio,
com sua natureza sacerdotal. E, se a transformação protestante do leigo alemão
em sacerdote emancipou os papas leigos, os príncipes, com toda sua clerezia, se
emancipou privilegiados e filisteus, a transformação filosófica dos alemães com
espírito sacerdotal em homens emancipará o povo. Mas, do mesmo modo que a
emancipação não se deteve nos príncipes, tampouco a secularização dos bens se
deterá no despojo da igreja, realizada sobretudo pela hipócrita Prússia. A
guerra dos camponeses, fato mais radical da história alemã, lançou-se contra a
teologia. Hoje, com o fracasso da própria teologia, o fato mais servil da
história alemã, nosso status quo, se lançará contra a filosofia. As vésperas da
Reforma, a Alemanha oficial era o servo mais submisso de Roma. As vésperas de
sua revolução, é o servo submisso de algo menos que Roma, Prússia e Áustria, de
fidalguetos rurais e filisteus,
Não obstante, uma dificuldade fundamental parece opor-se a uma revolução alemã
radical.
Com efeito, as revoluções necessitam de um elemento passivo, de uma base
material. A teoria só se realiza numa nação na medida que é a realização de suas
necessidades. Ora, ao imenso divórcio existente entre os postulados do
pensamento alemão e as respostas da realidade alemã corresponderá o mesmo
divórcio existente entre a sociedade alemã e o Estado e consigo mesma! Não basta
que o pensamento estimule sua realização; é necessário que esta mesma realidade
estimule o pensamento -
Todavia, a Alemanha não escalou simultaneamente com os povos modernos as fases
intermediárias da emancipação política. Praticamente,. não chegou sequer às
fases que superou teoricamente. Como poderia, de um salto mortal, remontar-se
não só sobre seus próprios limites, como também e ao mesmo tempo, sobre os
limites dos povos modernos, sobre limites que na realidade devia sentir e aos
quais devia aspirar como a emancipação de seus limites reais! Uma revolução
radical só pode ser a revolução de necessidades radicais, cujas premissas e
lugares de origem parecem faltar completamente.
Não obstante, se a Alemanha só abstratamente acompanhou o desenvolvimento dos
povos modernos, sem chegar a participar ativamente das lutas reais deste, não é
menos verdade que, de outro lado, partilhou os sofrimentos deste mesmo
desenvolvimento, sem usufruir seus benefícios e satisfações parciais. A
atividade abstrata de um lado, corresponde o sofrimento abstrato do outro.
Assim, numa bela manhã, a Alemanha se encontrará em nível idêntico à decadência
européia antes mesmo de haver atingido o nível da emancipação européia.
Poderíamos compará-la a um idólatra que agonizasse, vítima do cristianismo.
Fixemo-nos, antes de mais nada, nos governos alemães, e os veremos de tal modo
impulsionados pelas condições da época, pela situação da Alemanha, pelo ponto de
vista da cultura alemã e, finalmente, por seu próprio instinto certeiro, a
combinar os defeitos civilizados do mundo dos Estados modernos, cujas vantagens
não possuímos, com os defeitos bárbaros do antigo regime, de que nos podemos
jactar até a saciedade, que a Alemanha, senão por prudência, pelo menos à falta
desta tem que participar cada vez mais da constituição de Estados que estão
muito além de seu status quo. Acaso, por exemplo, há no mundo algum país que
partilhe tão simplesmente como a chamada Alemanha constitucional todas as
ilusões do Estado constitucional sem partilhar de suas realidades. Ou não teria
que ser necessariamente uma ocorrência do governo alemão o fato de associar os
tormentos da censura aos tormentos das leis de setembro na França, que
pressupõem a liberdade de imprensa. Assim como no panteão romano se reuniam os
deuses de todas as nações, no sacro império romano germânico se reúnem os
pecados de todas as formas de estado. Que este ecletismo chegará a alcançar um
nível até hoje inimaginado, o garante, de fato, o enfado estético-político de um
monarca alemão que aspira desempenhar, se não através da pessoa do povo, pelo
menos em sua própria, se não para o povo, pelo menos para si mesmo, todos os
papéis da monarquia: a feudal e a burocrática, a absoluta e a constitucional, a
autocrática e a democrática. A Alemanha, como a ausência do presente político
constituído num mundo próprio, não poderá derrubar as barreiras especificamente
alemães sem derrubar a barreira geral do presente político.
Para a Alemanha, o sonho utópico não é a revolução radical, não é a emancipação
humana geral, mas, ao contrário, a revolução parcial, a revolução meramente
política, a revolução que deixa de pé os pilares do edifício. Sobre o que
repousa uma revolução parcial, uma revolução meramente política? No fato de
emancipar uma parte da sociedade burguesa e de instaurar sua dominação geral, no
fato de uma determinada classe empreender a emancipação geral da sociedade a
partir de sua situação especial. Esta classe emancipa toda a sociedade, mas
apenas sob a hipótese de que toda a sociedade se encontre na situação desta
classe, isto é, que possua, por exemplo, dinheiro e cultura ou que possa
adquiri-los.
Nenhuma classe da sociedade burguesa pode desempenhar este papel sem provocar um
momento de entusiasmo em si e na massa, momento durante o qual confraterniza e
se funde com a sociedade em geral, com ela se confunde e é sentida e reconhecida
como seu representante geral, que suas pretensões e direitos são, na verdade, os
direitos e ai pretensões da própria sociedade, que esta classe é realmente o
cérebro e o coração da sociedade. Somente em nome dos direitos gerais da
sociedade pode uma classe especial reivindicar para si a dominação geral. E,
para atingir esta posição emancipadora e poder, portanto, explorar politicamente
todas as esferas da sociedade em benefício da própria esfera, não bastam por si
sós a energia revolucionária e o amor próprio espiritual. Para que coincidam a
revolução de um povo e a emancipação de uma classe especial da sociedade
burguesa, para que uma classe valha por toda a sociedade, é necessário, pelo
contrário, que todos os defeitos da sociedade se condensem numa classe, que uma
determinada classe resuma em si a repulsa geral, que seja a incorporação do
obstáculo geral; é necessário, para isto, que uma determinada esfera social seja
considerada como crime notório de toda a sociedade, de tal modo que a
emancipação desta esfera surja como autoemancipação geral. Para que um estado
seja par excellenee o estado de libertação, é necessário que outro seja o estado
de sujeição por antonomásia. O significado negativo geral da nobreza e do clero
franceses condicionou a significação positiva geral da classe inicialmente
delimitadora e contraposta, da burguesia.
Todavia, todas as classes especiais da Alemanha carecem de conseqüência, rigor,
arrojo e intransigência capazes de convertê-las no representante negativo da
sociedade. Além do mais, todas carecem da grandeza de espírito que pudesse
identificar uma delas, ainda que momentaneamente, com o espírito do povo; todas
carecem da genialidade que infunde o entusiasmo do poder político ao poder
material, da intrepidez revolucionária que lança o desafio ao inimigo: Nada SOU
e tudo deveria ser. Esse modesto egoísmo que faz valer e permite que outros
também façam valer suas próprias limitações é o fundo básico da moral e da
honradez de indivíduos e classes na Alemanha. Por isto, a relação existente
entre as diversas esferas da sociedade alemã não é dramática, mas épica. Cada
uma delas começa a sentir e a fazer chegar às outras suas pretensões, não ao se
ver oprimida, mas quando as circunstâncias do momento, sem intervenção sua,
criam uma base social sobre a qual, por sua vez, possa exercer pressão. Até
mesmo o amor próprio moral da classe média alemã repousa sobre a consciência de
ser o representante geral da mediocridade filistéia de todas as demais classes.
Portanto, não são apenas os reis alemães que ascendem ao trono mal à propos
[Inoportunamente], mas todas as esferas da sociedade burguesa, que sofrem sua
derrota antes de terem festejado a vitória, que desenvolvem seus próprios
limites antes de terem ultrapassado os limites que se opõem a estes, que fazem
valer sua pusilanimidade antes de fazer valer sua arrogância, de tal modo que
até mesmo a oportunidade de desempenhar um grande papel desaparece antes de
existir e que cada classe, tão logo começa a lutar com aquela que lhe está
acima, vê-se envolvida na luta com aquela que lhe está abaixo. Daí porque os
príncipes estão em luta contra a burguesia, os burocratas contra a nobreza e os
burgueses contra todos eles, enquanto o proletário começa a lutar contra o
burguês. A classe média nem sequer se atreve a conceber o pensamento da
emancipação de seu ponto de vista, já que o desenvolvimento das condições
sociais, do mesmo modo que o progresso da teoria política, se encarregam de
revelar este mesmo ponto de vista como algo antiquado ou, pelo menos,
problemático.
Na França, basta que alguém seja alguma coisa para querer ser todas as coisas.
Na Alemanha, ninguém pode ser nada se não quiser renunciar a tudo. Na França, a
emancipação parcial é o fundamento da emancipação universal. Na Alemanha, a
emancipação universal é a conditio sine que non de toda emancipação parcial.
Enquanto na França é a realidade da emancipação gradual que tem de engendrar a
liberdade total, na Alemanha, ao contrário, é justamente a sua impossibilidade.
Na França, toda classe é um político idealista que se sente como representante
das necessidades sociais em geral, ao invés de sentir-se como representante de
uma classe especial. Por isto, o papel emancipador passa por turnos, em
movimento dramático, entre as distintas classes do povo francês até atingir,
finalmente, a classe que já não realiza a liberdade social sob a hipótese de
certas condições que se encontram à margem do homem e que, não obstante, foram
criadas pela sociedade humana, mas que organiza todas as condições de existência
a partir da hipótese da liberdade social. Pelo contrário, na Alemanha, onde a
vida prática tão pouco tem de espiritual assim como a vida espiritual de
prático, nenhuma classe da sociedade burguesa sente a necessidade nem a
capacidade de emancipação geral até ver-se obrigada a isto por sua situação
imediata, pela necessidade material, pelas suas próprias cadeias.
Onde reside, pois, a possibilidade positiva da emancipação alemã?
Resposta: na formação de uma classe com cadeias radicais, de uma classe da
sociedade burguesa que não é uma classe da sociedade burguesa; de um estado que
é a dissolução de. todos os estados; de uma esfera que possui um caráter
universal por seus sofrimentos universais e que não reclama nenhum direito
especial para si, porque não se comete contra ela nenhuma violência especial,
senão a violência pura e simples; que já não pode apelar a um título histórico,
mas simplesmente ao título humano; que não se encontra em nenhuma espécie de
contraposição particular com as conseqüências, senão numa contraposição
universal com as premissas do Estado alemão; de uma esfera, finalmente, que não
pode emancipar-se sem se emancipar de todas as demais esferas da sociedade e,
simultaneamente, de emancipar todas elas; que é, numa palavra, a perda total do
homem e que, por conseguinte, só pode atingir seu objetivo mediante a
recuperação total do homem. Esta dissolução da sociedade como uma classe
especial é o proletariado.
O proletariado só começa a surgir na Alemanha, mediante o movimento industrial
que desponta, pois o que forma o proletariado não é a pobreza que nasce
naturalmente, mas a pobreza que se produz artificialmente; não é a massa humana
oprimida mecanicamente pelo peso da sociedade, mas aquela que brota da aguda
dissolução desta e, em especial, da dissolução da classe média, ainda que
gradualmente, como se compreende, venham a incorporar-se também a suas fileiras
a pobreza natural e os servos cristãos-germânicos da gleba
Ao proclamar a dissolução da ordem universal anterior, o proletariado nada mais
faz do que proclamar o segredo de sua própria existência, já que ele é a
dissolução de fato desta ordem universal. Ao reclamar a negação da propriedade
privada, o proletariado não faz outra coisa senão erigir a princípio de
sociedade aquilo que a sociedade erigiu em princípio seu, o que já se
personifica nele, sem intervenção de sua parte, como resultado negativo da
sociedade. O proletariado está amparado, então, em relação ao mundo que nasce,
da mesma razão que assiste o rei alemão em relação ao mundo existente, ao
denominar o povo seu povo, como ao cavalo seu cavalo. Ao declarar o povo sua
propriedade privada, o rei se limita a expressar que o proprietário privado é o
rei.
Assim como a filosofia encontra no proletariado suas armas materiais, o
proletariado encontra na filosofia suas armas espirituais. Com a mesma rapidez
que o raio do pensamento penetra a fundo neste puro solo popular, se efetuará a
emancipação dos alemães como homens.
Resumindo e concluindo:
A única emancipação praticamente possível da Alemanha é a emancipação do ponto
de vista da teoria, que declara o homem essência suprema do homem. Na Alemanha,
a emancipação da Idade Média só é possível como emancipação paralela das
superações parciais da Idade Média. Na Alemanha, não se pode derrubar nenhum
tipo de servidão sem derrubar todo tipo de servidão em geral. A meticulosa
Alemanha não pode revolucionar sem revolucionar seu próprio fundamento. A
emancipação do alemão é a e emancipação do homem. O cérebro desta emancipação é
a filosofia; seu coração, o proletariado. A filosofia não pode se realizar sem a
extinção do proletariado nem o proletariado pode ser abolido sem a realização da
filosofia.
Quando se cumprirem todas as condições interiores, o canto do galo gaulês
anunciará o dia da ressurreição da Alemanha.
Karl Marx, 1843


segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Armando Freitas Filho











Música do ar

Rogel Samuel




Armando Freitas Filho é um extraordinário poeta como se pode ler neste seu poema compacto, composto na metafísica das madeiras, mas nada daquilo que na orquestra se chama de som delicado, suave e bucólico: as madeiras compostas por Flautas, Clarinetas, Oboés e Fagotes, mas nem violinos, violas, violoncelos, contrabaixos, harpas, sopros, flautas, clarinetas, oboés, fagotes, ou seja, música, música de árvores, nada disso, mas o bater do machado bruto, áspero, cortador, pancada de estaca, ou bate-estaca, no crescimento da cidade de concreto em direção estelar:
AR

Música de árvores.
Não a das folhas e ramos.
Mas a outra, para percussão solo.
Madeira, raízes, cascas, nós, galhos.
Tudo que pede machado, corte, pancada.
O que é duro - áspero - bate, e estaca.
O que estala e cresce da terra contra as estrelas.

Armando Freitas Filho, “Cabeça de homem”, Editora Nova Fronteira, 1991








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Para Ana Cristina,
em memória



Armando Freitas Filho


Ainda faltam muitos passos
para atravessar o saguão do mal-entendido.
Como não escorregar na cera
se os sentidos
já não me apóiam
e deslizam para longe
para todas as direções
como as contas de um colar
num chão de gelo
e nem o olhar consegue mais
alcançar, conter e contar
suas pérolas-lágrimas?
Como agarrar ou ser agarrado
nesse deserto triunfante
por alguma coisa que me ame?



Do livro 3X4 Editora Nova Fronteira, 1985



%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%





Dores e alegrias transformadas em poesia



Mànya Millen






Fio terra, de Armando Freitas Filho. Editora Nova Fronteira, 86 páginas. R$ 17


A última década foi, para o poeta Armando Freitas Filho, um período de grande turbulência emocional. Feito de intensas dores (a perda do pai e da mãe) e de uma extrema alegria (o nascimento do segundo filho, Carlos, hoje com nove anos). No início de 2000, Armando também completou 60 anos de vida e confessa ter sido assolado pelo medo da morte. É natural que muitos desses sentimentos, misturados a memórias de tempos diversos, estejam presentes em "Fio terra", novo livro de poemas que ele acaba de lançar pela Nova Fronteira. Mas o que poderia ser visto como um breve "diário de resmungos", como ironiza o poeta, toma aqui a única feição possível para Armando: a de um reflexo literário de emoções e fatos. Que poderiam estar presentes na vida de qualquer um de seus leitores.

- Esse livro, que eu chamaria de um retrospecto ferido, tem toda essa carga de vida e morte, de espanto e constatações. Mas eu não escrevo para me livrar de nada, escrevo para as coisas se agregarem a mim - descreve Armando. - A má poesia tem função catártica, geralmente serve para se livrar de dores-de-cotovelo e outras dores. A minha poesia, e de outras pessoas, serve para aumentar essas dores. Na boa literatura, seja em prosa ou em verso, o único personagem real é a linguagem. Importa não o que ela diz, mas como ela diz.

Lembrando que os poetas devem estar com as feridas sempre abertas para alimentarem seus versos - "(...) Tão sentido na hora do rush/ da lembrança, na hora da volta/ em pleno trânsito, no centro/ da cidade, agora te acompanho/ cada vez mais perto, te incorporo/ entro no teu passo - pai, irmão/ amigo, eu mesmo, sem retorno", escreve ele, rememorando a companhia paterna - Armando diz que o fundamental é não perder de vista uma equação aparentemente simples mas de difícil equilíbrio:

- O bom poeta, o bom escritor, e não é que eu consiga sê-lo sempre, não escreve "sobre", mas "com" aquele sentimento, aquela memória. São problemas, não temas. "Fio terra" não deixa de ser um diário estilizado, mas eu escrevo para ninguém. E quanto menos endereço e CEP a minha poesia tiver, maior será o seu alcance. A linguagem é que faz com que a literatura deixe de ser um resmungo pessoal para se encontrar no outro.





Por isso, o poeta entende sua criação como uma "montagem urgente de dois ramais de uma só voz". Um nobre, interior, que lida com a literatura, as artes e suas influências e o outro externo, "vulgar e instintivo, que capta dicções do que está no ar". Fundir essas vozes em uma obra particular e ao mesmo tempo universal é o grande desafio.

- Essa a distinção entre ser problemático ou apenas temático - observa Armando.

"Fio terra" exibe como fio condutor a coerência dos sentimentos múltiplos vivenciados e problematizados por Armando, desde o passar do tempo até a pulsão do desejo, incluindo a própria poesia "que se auto-escreve, se auto-corrige". O livro é dividido em duas partes: a primeira, "Fio terra", é um longo poema-diário de 450 linhas (que levou três meses para ser escrito) e a segunda, "No ar", uma reunião de 27 poemas. Todos criados a partir de 1996.

- Vou escrevendo sempre, juntando material. Escrevo a qualquer hora porque o poeta escreve em trânsito, sempre, a qualquer hora - diz ele. - Um dia, de repente, eu tenho um punhado de poemas que querem ter uma coesão, querem ser um livro. Aí eles vão passando pela peneira da crítica. Além de não ser complacente comigo mesmo, mostro a alguns leitores implacáveis. Me interessa até a opinião violenta, uma leitura não técnica, amadora.

Antigamente, recorda Armando, seus leitores implacáveis eram dois grandes amigos, já mortos. O primeiro, o também jornalista Tite de Lemos, com quem Armando fez sua estréia numa grande casa editorial - a própria Nova Fronteira, onde está há 21 anos - numa coleção de poesia. A outra era Ana Cristina César, jovem e talentosa poeta que pôs fim à própria vida em 1983, e que tornou Armando curador de sua obra.

- Para mim Ana era tudo - lembra Armando, ainda se emocionando ao lembrar da morte da amiga, de quem publicou quatro livros póstumos.

A ausência desses leitores ainda é sentida, emocionalmente e literariamente, mas Armando já aprendera, com um grande mestre, a reconhecer uma obra pronta e saber que há "uma cadeia subjacente em um livro de poemas".

- Foi Carlos Drummond de Andrade quem me ensinou isso. Um dia ele me disse: "Há poemas que abrem o livro, outros que são do meio e outros que fecham". Simples assim.

Armando também aprendeu uma lição com outro poeta, Manuel Bandeira, que forma, com Drummond e João Cabral de Melo Neto, sua "Santíssima Trindade" - o maranhense Ferreira Gullar também é agregado como o "quarto mosqueteiro" - de devoção. Por indicação da professora Cleonice Berardinelli, Armando, então com 23 anos, enviou suas primeiras poesias para Bandeira ler. Quando este marcou um encontro, Armando passou boa parte do tempo mudo na casa do poeta, que proseava sem parar, sobre assuntos diversos, com o pai do novato.


- No final do encontro Bandeira se virou para mim e disse, com aqueles dentes todos em teclado, que tinha achado meu livro interessantíssimo, mas que eu deveria procurar uma opinião contemporânea. Só um contemporâneo avaliaria com mais propriedade a minha obra. E me indicou Ferreira Gullar, que já era Ferreira Gullar, e José Guilherme Merquior. Procurei este último, que tinha mais ou menos a minha idade, e foi ele quem arranjou papel e gráfica para a publicação daquele que seria meu primeiro livro, "Palavra", em 1963.

Desde então já são 37 anos de poesia (em livro), um ofício que Armando lembra só poder ser exercido com muita paixão. E (por que não?) uma disposição para a briga.

- Existem muitas brigas entre nós, os poetas, que não derramamos sangue, e sim tinteiros. Mas é uma competição sadia, de tentar superar um ao outro, velhas e novas gerações. Brigamos para criar têmpera, em nós mesmos e no outro.


Um dia
impossível de lilases.
Uni dia
ou um dilema?
Qual a face da moeda
que resistirá mais tempo
fechada na palma
ao suor da corrosão, à ferrugem
emudecendo uma voz do dueto
para dourar a outra, rim solo
para durar ao sol de um dia inteiro
às voltas com sua própria sombra
num duelo único, unânime
no espelho, longe das luzes dos diademas?
Açucenas: não me lembro
de nenhum céu que me console.
só o que leio a sós
são os segundos sentidos
os açúcares agudos
na véspera do azinhavre
o silencioso rasgado azul
de uma bandeira.

A tarde precipita sua cor
cai, no começo
no princípio da noite
e o que ainda aqui resiste
meio fera, ao precipício
ficou na beira da taça
que não suporta mais
sequer um riso
pois todo cristal está sempre
na iminência, um minuto antes
de partir.


Por barbear
com a cara de encontro ao dia
que espera e arranca
árvores vivas, folhas de guarda
de dentro da noite em claro.
Falso rosto
impossível prever
a variação seguinte
se de sol, se de stress
no espelho sem controle.



Cortaram o que vivia
rente ao risco do chão do chão.
A frio, no açougue
com o machado da chacina.
Mato, no pé da estátua
que se enferruja no céu
e nos canteiros desordenados
razzia a navalha
contra o que ainda respirava pela
raiz.

Falo pela alma
pelo que foge para fora
do concentrado foco do corpo:
rude - com raiva e relva
contra a pele, à contraluz
metade cavalo
pedaço de pedra sem asa
terra-a-terra, e irredutível
falo
com coração e técnica.






RAVEL


Todo telefone é terrível - negro
guerrilheiro, à escuta na sala
disfarçado ao lado do sofá
à espera, no gancho
sempre na véspera
com o grampo da granada
já nos dentes.
A única saída é ocupá-lo
para que não estoure
(não posso te agarrar aqui
nem pelos fios dos cabelos
pare antes que toque
e o infinito acabe).
Todo terrível é telefone - negro
à escuta
guerrilheiro à espera
ao lado do sofá
disfarçado na sala
na véspera da granada
com o grampo nos dentes fora do gancho
ocupando a única saída
para que não estoure
(não posso nem pelos cabelos
antes que acabe e toque
o infinito, te agarrar, nos fios, pare
daí).

O corpo


Acrobata enredado
Em clausura de pele
Sem nenhuma ruptura
Para aonde me leva
Sua estrutura?

Doce máquina
Com engrenagem de músculos
Suspiro e rangido
O espaço devora
Seu movimento
(Braços e pernas
sem explosão)

Engenho de febre
Sono e lembrança
Que arma
E desarma minha morte
Em armadura de treva.







A felicidade pode ser de carne

A felicidade pode ser de carne
de pele apenas - corpo sem cara
nem cabeça, mas com a boca máxima
e muitos braços, peitos, coxa
perna musculosa, clavícula
omoplata, ventre liso esticado
peludo no lugar certo do sexo
e mais o cheiro preciso, exasperado
da axila, virilha, pé
tudo chegando junto, de uma vez
ou aos poucos, esquartejado.




Capital federal

A planta no plano
avança na ampla
pauta do espaço:
apalpa - planalto

brotam do barro
bruto da brenha
casas e queixas
no caos de breu

as pedras se apuram
em prédios: maquette
imaculada maquillage
de cal e de mármore

no lixo e na lama
o novelo da vida:
as linhas do luto
os lanhos da luta

trevos de asfalto
e fôlego: trançados
trajetos traçados
sem trégua: a régua

tendas de toldos
rotos: as ruas
se rasgam tortas
na terra puída

palácios de papel
almaço - cenário:
lua de cartolina
lago de celofane

o povo se empilha
em casas capengas
em choças de palha
esgarçada: palhoças

monumento - movimento
de sol de pedra de
vento - se estampa
na página do espaço

borrão de barro
no branco - mancha
marcha multidão
crescendo do chão.


Matéria

Parece que os séculos
cuidam dos castelos
que no alto das montanhas
são o sonho das pedras
ou o desejo das nuvens.
Escrever é uma pedreira.
Se me atirasse daqui
de uma de suas torres de marfim
cairia, talvez
inteiro
em corpo reduzido
na página de qualquer jornal.
Escrever é uma pedraria.
Materia



Comunicações

Eu falo de mim - daqui -,
desta central,
pelo microfone do corpo,
por esse fio que vem do fundo
eu me irradio:

assim, numa transmissão de
sustos e rangidos,
veia e voz - ao vivo - sob tanto
sangue: - pantera escarlate
que passa e pisa

e se espatifa nesse chão:
pata de lacre,
grito! pingo sobre o alvo
tão tátil da minha carne,
nos panos

instantâneos do meu espanto
nas janelas
onde me debruço sucessivo
e vário, seqüência de mim,
em fotonovelas

me desdobro - quadro por quadro,
nos desenhos
de dentro do que sou e projeto,
aos poucos, - plano e pausa -
para fora

com a vida que me veste
pelo avesso:
- filmes de sêmen onde publico
figuras de suor e celulóide,
numa lâmina

de velocidade e de lembrança,
em fotogramas
de esperas e posturas - falha,
folha de slides-células, sopro
e pulso,
página de pele em que escrevo
o uso
a articulada letra do meu gesto,
o rascunho de rugas & rasuras
feito à unha

nas nuas marcas do meu corpo
no espaço,
e nos lençóis da claridade,
monograma, silueta, cadência,
e a fala

que se imprime nesta fita,
neste sulco:
- a linguagem como um fim,
- a linguagem por um fio,
e a morte em morse


Leia poemas do livro Lar, de Armando Freitas Filho

Novo livro é o apogeu de uma mudança na poética de Armando Freitas Filho, iniciada nos anos 1970



Armando Freitas Filho afirma sem esconder a tristeza: a descoberta mais importante para o homem é a de que o tempo passa, trazendo a inevitável destruição das coisas. Não dá para se iludir com outra verdade. Por isso sua poesia não perde o signo da urgência. Segundo o poeta carioca, de 69 anos, Lar, - assim, com vírgula -, reunião de poemas escritos entre 2004 e 2009, é o seu livro de maior intensidade. É intenso, por carregar a certeza de que tudo vai acabar. Em breve.

Lar, (Companhia das Letras, 136 págs., R$ 34) é o apogeu de uma mudança na poética de Armando Freitas Filho iniciada nos anos 1970. Naquele momento, explica a crítica literária Viviana Bosi no prefácio de Máquina de Escrever (2003), o seu estilo foi do elemento espacial para o temporal, do social para o subjetivo. A entrega apaixonada aos dramas pessoais perdeu o pudor.




Dividida em três seções - Primeira Série, Formação e Numeral -, a nova coletânea tem forte tom autobiográfico, mas não pode ser vista como a carteira de identidade de um poeta. Ela apresenta a reflexão de um homem perplexo com as marcas deixadas pelo tempo em seu corpo e espírito. Leia a seguir a entrevista do poeta ao Estado.

Segundo o crítico Sebastião Uchoa Leite, títulos de livros funcionam sempre como “índices”. O que significa a vírgula de Lar,?


Quem pensou nisso foi Sergio Liuzzi, o capista, que me apresentou o título com a vírgula. Fiquei espantado com a invenção, uma vez que ele não conhecia o livro. Ele até me perguntou se pode vir alguma coisa depois da vírgula. Sempre pode, respondi, como o aposto “doce lar”. Lar, é um livro da memória - universo cheio de vírgulas, de interrupções. A vírgula é a tradução visual de coisas interrompidas, ditas como a memória sabe fazer, por meio de surtos. A poesia se presta a esse tipo de apreensão. Até mais do que a prosa, com o seu fio contínuo.

Ao percorrer as três seções do seu livro - Primeira Série, Formação e Numeral -, nota-se que o eu lírico sofre transformações intensas. Por que fazer essa divisão?


O livro foi pensado assim. A primeira parte é iniciática, com as lembranças mais antigas. Falo das primeiras experiências com Deus e o sexo, da dificuldade de pertencer a uma família católica. É uma recuperação cheia de lacunas, ou vírgulas, daquele ambiente primeiro. Quando a gente escreve, isso já não é uma confissão, é ficção. Quando a gente escreve, não é um, é alguns ou é nenhuns.

Em Formação surge um poeta que lida com o peso das descobertas da juventude e busca se livrar da dependência, muitas vezes opressiva, dos pais. Existe aqui um incômodo maior?


Eu sou filho único. A luta amorosa com os pais é importante na minha biografia. O filho único tem um estigma. Não pode errar. Abel teve direito a Caim. Já o filho único não tem nem direito a um irmão ruim. Está sempre sozinho. Tem que cuidar dos pais quando chega a velhice, como fiz, sem um banco de reservas. Em Formação, há essa luta afetiva, com um traço sexual, entre o filho e os pais. Em Primeira Série, a escrita é camerística, em tom baixo. Em Formação, a voz se eleva, em caixa alta, e deblatera contra as prisões religiosa e sexual. Há poemas duros e custosos, como Gravador, que tem um duplo sentido. Ao contar a história de um gravador, falo sobre como se grava a dor numa pessoa. Certa vez, o (crítico literário) Antonio Candido me escreveu uma carta dizendo que minha poesia tem uma grande germinação de significados, resultado do duplo sentido. De fato, antes do Candido, não tinha dado conta dessa mania que ele configurou como estilo.

Numeral é a última seção de Lar, e a continuação de Numeral/Nominal, que abre Máquina de Escrever, livro que reuniu sua produção até 2003. Ela apresenta a problemática experiência de um homem caminhando para o fim?


Numeral é bem complexo. “Uma invenção diabólica”, segundo (a ensaísta) Heloísa Buarque de Hollanda. Em junho de 1999, comecei essa série numérica de poemas que vai acabar ou por tédio ou por morte. As poesias dessa seção de Lar, são especulativas. A voz se cala, pois expressa a reflexão sobre a morte. Contar é se cortar no gume de cada dia. Não à toa, no calendário, você arranca os dias.

Lar, possui um tom autobiográfico inegável. Ele é a sua carteira de identidade? Ou é uma investigação dos efeitos que o contato com os outros produz na sua existência?


Sem dúvida, é uma investigação. Você me deu a definição exata do livro. Uma carteira de identidade é plana demais, presa ao tempo, velha.

O tema mais recorrente de Lar, é a consciência sobre a passagem destrutiva do tempo. Essa é a descoberta mais importante para o homem?


Se não é a descoberta mais importante para muitas pessoas, deveria ser - estamos nos desfazendo. Vou completar 70 anos e a gente sente a decadência. As coisas que tocamos são marcadas pelo desgaste, que é a perda. Quando me convidaram a escrever sobre minha palavra preferida para o Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa (2009), coletânea de autores de língua portuguesa, escolhi morte. O nosso corpo exibe a marca do tempo passando. É muito triste falar disso, mas é uma verdade ineludível.


No poema Castigo, aparece um sujeito que não sabe “a hora certa de apagar a luz/ de cair na cama e no sono”. Nele você cita um verso de Consoada, do Manuel Bandeira - “Com cada coisa em seu lugar.” Percebe-se a vontade de paz para uma consciência que fica cada vez mais insuportável, na medida em que se torna abrangente. A poesia pode ajudar na pacificação desse espírito atormentado?

A palavra insuportável cabe muito bem em Lar, e tem importância grande na minha escrita. Encontro o que não suporto, e vou até onde dá. A poesia pode tentar, mas não pacifica. Uma tecnologia de ponta da linguagem, ela exacerba, em vez de colocar cada coisa em seu lugar. É como a verruma que abre um furo na madeira. Temos essa vontade de paz, mas não somos capazes.




O poema Antiquário diz que “O acervo de uma vida se dispersará/ depois que ela parar”. Não existe nada que seja permanente?


Antiquário é o poema de Lar, que mais me toca. Eu vou responder com a ajuda da poesia Resíduo, de Drummond. “De tudo fica um pouco.”

Três poemas de Lar,:

Escrevo nas costas da mãe
conspurcada pelo amor
nas costas dos tios empertigados
pela indiferença e sarcasmo
na cara dos primos exemplares
reescrevo, corrijo, fazendo
pressão com o lápis rombudo
para marcar minha dissidência
na família programada, mas
sob os olhos sérios do pai
que me desencurva, e apoia
mesmo desconfiado
em palavra explícita para
não frisar demais sua intenção
seu ódio difuso que também
me atinge em forte trans
fusão, consigo, comigo mesmo
até alcançar a malvada consciência. (Poema Escrevo Nas Costas da Mãe, extraído da seção Primeira Série)

Mil folhas. Mesmo em algumas das mais
passadas, um pouco do sabor, um risco
de doçura e amargo, é remanescente.
Anamnésia construída pelo fato
e pela imaginação: vai do anátema
ao enaltecimento, expressos em alta voz
até ao murmúrio cifrado no coração.
O acervo de uma vida se dispersará
depois de ela parar: alguma coisa
aqui, nesta casa, para lembrar quem se foi
fica, sem roubo nem degradação, sobrando.
O resto, espalhado na desordem dos arquivos
dos sebos e brechós, nós defeitos
na mudança para lugar nenhum
perdido no limbo, reciclável em outro corpo
e destino, longe do clamor da hora
cada vez mais afastado do limiar original
da montagem do dia, à margem do relógio
rasgado por mãos alheias, posto fora
o sonho, que se açucara, perde o gosto, e fere. (Poema Antiquário, extraído da seção Formação)

Da casa dos três dígitos
não saio mais. Trinco.
Dia após dia de prisão
na cidade em carne viva.
Entre em si para sempre:
tendo de seu, apenas o bodum
ranzinza do corpo
que vai se resignando
a não perseguir o inominável
nem a se persignar (Poema 100, extraído da seção Numeral)


A cidade engatilhada

Armando Freitas Filho





NUMERAL


16

Para Mário Rosa

Escrever é arriscar tigres
ou algo que arranhe, ralando
o peito na borda do limite
com a mão estendida
até a cerca impossível e farpada
até o erro — é rezar com raiva.

14 VIII 2001



23

Escrever é riscar o fósforo
e sob seu pequeno clarão
dar asas ao ar — distância, destino
segurando a chama contra
a desatenção do vento, mantendo
a luz acesa, mesmo que o pensamento
pisque, até que os dedos se queimem.

10 XII 2001

De Numeral/Nomimal, 2003


MANUAL DA MÁQUINA CDA

A máquina é de pedra e pensamento.
Funciona sem água, deslizando
seu lençol de laje e lembrança
aberto e desperto por natureza.
Tem por motor o atrito, a tração
a alavanca que levanta quem lê
e o modela, diferente, a cada passada
pois se faz também diversa:
novos perfis que se enfrentam
assimétricos, e que não esperam
o encaixe certo, feito à regua
mas o impossível, irregular, sem
efes-e-erres, com recortes irritados
se aproximando, como no boxe —
através do choque, onde se juntam —
íntimos, podendo parecer ternos
apesar dos dentes, roldanas, o amor
arranca, em chão de escorpião.
Quando revista, de perto, por dentro
a máquina — que não se passa a limpo —
se compreende um pouco do engenho
do mecanismo de suas linhas partidas.

De Numeral/Nomimal, 2003



[FURO O SINAL VERMELHO]

Furo o sinal vermelho
que não me estanca
sangrando a seta do lado esquerdo
me enfio por agulhas, gargalos
gargantas, o mar está à margem
tem pressa, mas não sai do lugar
engarrafado, e ainda que felino
enferruja em frente à praia
enquanto rodo o Rio todo e tomo
sucessivos ônibus, táxis, metrô
e cada dia é irreparável
o corpo não tem férias
vai no arrastão, com a roupa da hora
sempre ao alcance de balas além
não fica em nenhuma parada
não salta, passa do ponto
queima a inflamável vida
enquadrado pelo sol, carburante
vencendo túneis
nadando no seu próprio sangue.

De Números Anônimos, 1994


[A CIDADE ATRAVESSA O DIA]

A cidade atravessa o dia
engatilhada.
Anônimo, mata ao acaso
e escapa, acossado
atirando para o alto
no alvo do sol certeiro.

Antes da pena d'água
o mar aberto se debate
inumerável, perdido
diante de palmeiras selvagens
temperado em heróica
e lírica consonância
com a lagoa inesperada
na boca seca do túnel
com o céu
reagindo no reflexo
tentando subir se salvar
mas resvala na pedra
isolado.

A noite afinal dispara.
Vou no vácuo, no intervalo
harmônico
entre dor e nada
acuado em corpo único
vivendo do próprio fígado.

De Números Anônimos, 1994


CORPO

Acrobata enredado
em clausura de pele
sem nenhuma ruptura
para onde me leva
sua estrutura?

Doce máquina
com engrenagem de músculos
suspiro e rangido
o espaço devora
seu movimento
(braços e pernas
sem explosão)

Engenho de febre
sono e lembrança
que arma
e desarma minha morte
em armadura de treva.

De Palavra, 1963





Heloísa Buarque de Hollanda entrevista Armando Freitas Filho



Helo:

Armando, Máquina de escrever é um título digamos “literal” referindo seus 40 anos ininterruptos de poesia. Convenhamos que esses 40 anos, enquanto sua máquina disparava letras e poemas, nosso panorama poético passou por uma infinidade de momentos chave, escolas, tendências, debates e algumas (ou muitas) brigas interessantes. Como hoje você diria que sua máquina de escrever atravessou esses mares ?



Armando :

Nadando, aprendendo a nadar quando fazia a própria travessia. A reação veio por reflexo: tendo à minha retaguarda a geração de 45, e à minha frente as vanguardas, optei pelo nado de peito e não pelo de costas, ou por não ficar boiando, passivo, repetitivo e diluído, no remanso da tradição. Se de qualquer forma o mar “não estava para peixes”, estava agitado e desconhecido, era mais fácil e, paradoxalmente, mais difícil acompanhar os meus cúmplices e competidores e procurar o risco da minha raia, a possibilidade de minha praia.



Helo :

Voce estaria dizendo que optou por um caminho individual?



Armando:

De jeito nenhum. Continuando nesse ar marinho, ou no barco dessa metáfora que você me ofereceu, para esse olhar retrospectivo, descobri o óbvio: que o mar no qual tinha caído não tem raia como qualquer outro – só risco – e para atingir a praia imaginada, sem naufrágio, não me bastava nadar nas mesmas águas dos outros, mas criar, mais com o instinto do que com a razão, a minha própria navegação, não como um lobo-do-mar solitário, mas levando em conta o “coletivo” que nadava ao meu lado, feito, como disse acima, de cúmplices e competidores, isto é, a mão salva-vidas podia, na próxima braçada, ser a mão do “caldo”. Nada a reclamar, nada sem reclamar, pois o regulamento desta competição é este mesmo, e eu, por conseguinte, também era (sou) assim: escrito e escarrado.



Helo:

Qual é sua família poética? Ou sendo mais generosa: quais são as grandes referências poéticas das, pelo menos, 3 gerações que habitaram o período coberto por Máquina de Escrever?



Armando:

A grande referência é a da Semana de Arte Moderna. Da plêiade de poetas que surgiram no momento mais rico, em número e valor, que a poesia brasileira teve, só comparável, em qualidade, talvez, aos poetas da fase colonial. O diálogo consciente ou inconsciente, de adesão ou de repulsa, foi muito produtivo e tem alta definição de caminhos e desvios. A minha família, embora o poeta tenha que sair dela, como em sua vida pessoal, para se afirmar, renegando-a um pouco, batendo boca mesmo, depois de muito roubo escondido e apropriação declarada, começa, para só falar em termos poéticos brasileiros – e sumariamente – com Cláudio Manuel, Castro Alves, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, Manuel Bandeira, Murilo Mendes, João Cabral e Ferreira Gullar. E Drummond ? Eu estava falando de ilustres, mas simples mortais: Drummond é Deus.





Helo:

Como você situa a produção de poesia brasileira desse período num contexto internacional?



Armando:

Para só ficarmos no modernismo que ao nos atualizar apurou nossa qualidade, ainda assim ele chegou tarde nestas paragens, como costuma acontecer. Nossa literatura, como diz Antonio Candido, “ é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime. Se não for amada, não revelará sua mensagem; e se não a amarmos, ninguém a fará por nós. Se não lermos as obras que a compõem, ninguém as tomará do esquecimento, descaso ou incompreensão”. Descaso e incompreensão que fazem com que no estrangeiro, hoje, a situação se inverta, ao menos, topicamente: eles estão começando a ler Machado com cem anos de atraso. Quantos anos será preciso para lerem, verdadeiramente, Bandeira, Drummond, Cabral, Graciliano, Clarice e Rosa, por exemplo ? Verdadeiramente, aqui, significa, ler, com a naturalidade que lêem, por exemplo, Borges e Garcia Marques ? Com a naturalidade que lêem Paulo Coelho, que, por sinal, não tem nada a ver com literatura ? As três gerações, portanto, que você menciona, ainda têm muito o que esperar para conseguirem recepção condigna. Mesmo que essa recepção não precise ser, rigorosamente, cronológica. Pode ser salteada, graças, contudo, à força dos que nos antecederam. O problema, agora, querendo ser otimista, não é de excelência: temos verbo, não temos verba, peso histórico e político para que a nossa cultura literária chegue ou atravesse como um todo o Atlântico, além de escrevermos numa língua, que por todas esses motivos, se enfraqueceu, e tem de enfrentar, as vagas, cada vez maiores, de leitores do espanhol e do inglês.



Helo: Qual foi o saldo de sua passagem pelas vanguardas ? A gente sente a presença de um DNA de rigor e experimentalismo mesmo quando você o renega 3 vezes. Fale um pouco sobre esta experiência que me parece ter sido bastante formativa de sua linguagem



Armando: Quem me sugeriu a Práxis foi o José Guilherme Merquior, responsável pela publicação de Palavra (1963), meu primeiro livro. Os originais tinham viajado de Cleonice Berardinelli para Manuel Bandeira para serem avaliados. Cleo achou que Bandeira poderia dar uma opinião mais precisa, e este que recebeu meu pai e a mim no apartamento do Castelo, em 18 de agosto de 1963, numa tarde memorável para o poeta mocíssimo e mudo que se apoiava num pai amorável e causer exímio. Bandeira depois de comentar favoravelmente o projeto de livro recomendou que eu ouvisse dois contemporâneos estritos: Gullar ou Zé Guilherme. Preferi o segundo, porque tinha um pouco de medo do primeiro, o poeta de vanguarda melhor, mais visceral e sincero, pois eu o lia, copiava a mão sua poesia admirável desde 1956, e é conveniente não se aproximar muito de quem se admira tanto para não ser consumido ou se decepcionar. O Zé, então, furão que era, me arranjou a gráfica Borsói, via Fernando Sabino, que lá fazia os livros da Editora do Autor. Quando o livro ficou pronto ele me disse: estou colaborando numa revista chamada Práxis que considero a melhor dessas todas; mande seu livro para o Mario Chamie, poeta, e seu diretor. Como ficou claro, meu poeta de vanguarda era e sempre foi o Gullar e a Instauração Práxis, dos vanguardismos estabelecidos foi aquele que me pareceu mais próximo do que tentava fazer, pois não abolia o discurso, era mais eclética, e tinha um forte acento político. Minha dicção “praxista” pode ser lida e ouvida nos dois livros que se seguiram a Palavra: Dual (1966) e Marca registrada (1970). A partir de De corpo presente (1975) ela vai se metabolizando, ganhando uma marca mais pessoal, como em todos os poetas do grupo. Não me lembro de ter renegado três vezes meu período de experimentalismo. Se o fiz foi de maneira impensada, já que ele foi fundamental para eu encontrar minha voz, minha identidade. Considero que meus três primeiros livros são de formação e exercício; De corpo presente é meu livro de transição. A partir de 1979, com À mão livre entro na fase de consolidação que não tem data para acabar, ou se tiver, é fúnebre.



Helo :

Hoje a gente vê uma certa pacificação da belicosidade das vanguardas e uma aproximação mais tranquila das novas gerações com a “velha vanguarda”. Isso é verdade? É positivo?



Armando:

É verdade e é positivo. É verdade pois não faz parte do tempo deles aquela brigalhada. Alguns – e não são os melhores – ainda tentam repetir os velhos anátemas. Se não são clowns são clones enferrujados. E é positivo porque o distanciamento proporciona uma visão mais ponderada, mais crítica de tudo aquilo. Mas só permanecerá positivo se houver uma “antropofagia” para valer e não um aproveitamento de butique, de quem só belisca, melhor dizendo.



Helo:

Outro ponto que eu gostaria de investigar é sobre outro saldo: aquele do engajamento político e estético, marca da geração 60. Isso continua definindo uma diferença muito grande entre os poetas que vieram dos anos rebeldes e os das gerações que se seguiram?



Armando:

Acho que a diferença é mais de atitude ou comportamento. Os “marginais” abriram mão do palanque, até mesmo porque ele estava vetado por forças maiores e vieram com o desbunde, arma política eficiente, carregada de desdém, deboche, desobediência civil. Os poetas dos ’90 trocaram a militância e o protesto “encomendados”, pela vivência, pela visibilidade. Resumindo, curto e grosso, aqui no Rio, pelo menos: se nos idos dos ’60 os da Zona Sul como que “falavam” pelos da Zona Norte, hoje, esse últimos não precisam de porta-vozes, para dizer o mínimo.



Helo :

Fala-se muito da poesia de mulheres, entretanto um traço que muitas vezes passa desapercebido em sua produção é seu olhar comprometido com o que seria um “universo masculino” típico, ou como voce mesmo nomeou num dos títulos de sua obra, com uma “cabeça de homem”. O que seria isso? E por que essa explicitação é rara nos poetas e ficcionistas-homens? Você se definiria como um poeta “masculino” aquele que se dintingue, por opção, de uma poesia “feminina”?



Armando:

Norma Pereira Rego, de saudosa memória, me disse um dia: não conheço poesia mais masculina do que a sua. Seguramente, não é a mais, mas é uma delas. Se minha libido se alimenta da diferença dos gêneros na minha vida, nada mais natural que meu poema reflita essa condição. Há coisas que só um homem pode escrever, como há outras, que só uma mulher. Não sei dizer porque os meus confrades raramente explicitam isso, como diz; só sei, que o feminismo para mim, me fez ver que mulher não é um outro sexo: é uma outra raça. Acredito e pratico, portanto, a guerra conjugal, sempre que necessário.



Helo:

E o que é que homem pode dizer e mulher não pode dizer?



Armando:

O homem pode pensar em mulher, mas não do jeito que ela gostaria que pensasse. Penso mais: como la dona é móbile, quando a gente pensa nela, pensa meio fora do lugar, pois ela não está ali onde a gente pensava (ou gostaria) que estivesse. Estaria aonde, então ? Como a carta roubada de Poe, bem à vista, no lugar próprio para cartas e mulheres: enigmática, fechada, embora de batom. O que a mulher não pode pensar é no que o homem pensa, verdadeiramente, sobre ela. O problema começa e acaba aí: porque ela pensa justamente sobre isso. Concluindo esse pensamento: o mundo é masculino, ainda.


Helo : Lembro agora de um outro título seu, o Longa Vida. Poesia é medo da morte? Como a sua poesia madura e a dos nossos poetas em geral têm metabolizado essa ansiedade “básica”?



Armando:

Amor e morte são os grandes temas da arte e da literatura. Shakespeare é amor e morte, full time. Falando por mim (que os outros falem por eles) falo com as palavras que Maria Rita Kehl, ao resenhar Cabeça de homem: “A poesia de Armando incita uma velocidade por dentro e por fora do corpo. Claro, essa velocidade conhece a força que vem vindo atrás dela, implacável. Escrever, como Montaigne, é escrever contra a morte – ou não é nada”. Que assim seja. Mas, pensando bem, a “indesejada das gentes” é cheia de manha e de ardil: ela não está atrás de nós, está na frente.


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Heloisa Buarque de Hollanda



ARMANDO Freitas Filho, que neste fevereiro último comemorou seus 43 anos de vida e 20 de poesia, relatou recentemente a um razoável público no auditório da OLAC, sua forma de trabalhar: escreve de pé, frente à mesa, inclinando-se sobre o papel, ou seja, na medida do possível, em posição de sentido.

No trato social, seu grande charme é um sotaque adoravelmente sincopado, um certo “embaraço fônico”. Ou seja, alguma prudência, hesitação, no que diz respeito ao abandono emocional.

No afetivo, uma enorme fidelidade dissimulada por enérgicas representações, regras, compassos e manias (entre as quais, seu copo diário de Longa Vida CCPL 2000, o leite).

No literário, nos dá a dica:

“Esta mão que me escreve
há tanto
e tenta
dizer o que a outra
cala, não consente
segurando
o sonho
a caravela, o delírio
o incrível Hulk
que pode rebentar as costuras
os costumes
que pode
incendiar a casa
o próprio corpo
e avançar
pelo espelho adentro
contra si mesmo.”

O que identifica a longa vida e obra de Armando é, exatamente, o partido que tira deste estado de alerta, ou mais precisamente, da recusa às “facilidades”da emoção e da escrita. Em seu texto não se observa — salvo em raros momentos — aquela opção pela poesia instantânea, informalmente pessoalizada, anotada, diretamente “psicografada” do dia-a-dia que marcou a poesia brasileira recente. Entretanto, a leitura de Longa vida indica uma extrema contemporaneidade com os novos poetas: o jogo, o provérbio, o ready-made, o erotismo escancarado, a sensibilidade política, a vida como o grande tema — um inegável sabor de época. Acontece que — ainda que afinado com as questões e com o sentimento da geração 60/70 — nosso poeta escreve “só/ em último caso/ ou como quem alcança/ o último carro”.

Na apresentação de Longa vida, companheira de viagem, Ana Cristina Cesar (a misteriosa e excelente poeta de A teus pés, hit merecido da poesia 80) tenta decifrar a trama do texto (e talvez da longa vida) de Armando: “Há sempre uma dose dupla sobre a lareira, sob a vista. Há sempre uma tensão entre o vôo livre e a gaiola das loucas, entre um nômade e um sedentário, entre uma mulher que parte de avião e um homem que fica no aeroporto, entre a mesa burocrática e o impulso incendiário, entre o poema superloquaz, perito nas palavras, seus jogos, saltos mortais, e o hemisfério silencioso dos sentidos, entre o “deslizante verso discursivo” e a “lucidez dos sobressaltos” de que fala João Cabral”.

Tratando de dualidade, tentando distinguir e resolver onde a paixão/onde o texto, quando a poesia/quando a vida, o poeta não abre mão de sua marca registrada: um compromisso jurado e sacramentado (ainda que altamente emocionado) com o rigor no trato com a palavra.

Sua longa viagem poética prova e comprova esta determinação. Como não poderia deixar de ser, seu primeiro livro, de 1963, chamou-se Palavra. Tanto Palavra quanto Dual (1966), ligados à vanguarda Praxis, refletem um momento (não diria um resultado) quase que de “exercícios de escrita”, a palavra como um campo experimental rigoroso, muitas vezes de certa forma aprisionador, mas que lhe trouxe como dividendo o inegável know-how do poeta com seu instrumento. Em seguida, publica Marca registrada (1970) onde a preocupação explícita com o momento político traz-lhe alguns problemas “inevitáveis e concretos” e denuncia já um certo olhar voltado para fora, como que um reconhecimento de terreno. Munildo de um evidente domínio do texto, Armando permite-se, então, falar abertamente de si: seguem-se De corpo presente, Mlle. Furta Cor, À flor da pele (estes dois últimos experimentando com Rubem Guerschman e Roberto Maia as possíveis articulações da imagem com o texto poético), À mão livre. Entretanto, sempre atento, adverte:

“À mão livre
mas não tanto
pois escrevo
para não voar
enquanto a loucura
descabelada
por todos os ventos
sobre a escada
perde o pé
e range
dentes e degraus
enquanto escrevo
pelos ares.”

Se a questão da poesia é central em seu trabalho (”quem escreve sempre alcança/ a quem? o quê?”) a questão das viagens “viagens hors texte”não é menos complexa. Trabalhando a fundo as trilhas de seu percurso “sem carro próprio/ sob nome falso”, Longa vida, modulado como um inventário, desfia memórias (relutantes), enigmas de bares e verões em verde-amarelo, impressões de amor e morte “à tona, à toa, na vida anônima”. Fala ainda de um personagem que teme a memória (”Caço/ o que se despede:/ e não deixa nenhum sinal/ pista ou vestígio”) , que teme seu narrador (”armando suas falcratuas/ um eu que é um pseudo/ um índice onomástico/ um mar ou uma/ máscara/ a próxima cara”).

Uma observação inadiável que a leitura de Longa vida sugere: Armando escreve bem. Qualidade que vem se tornando cada vez mais rara nestes últimos tempos de proliferação indiscriminada de poetas. É seguramente esta qualidade que lhe autoriza a resgatar — no melhor estilo 80 — o desejo de ver “a vida voando/ lá fora/ em versos livres/ e brancos”.

Longa vida surpreende exatamente enquanto parece promover o cruzamento entre a preocupação formal e a “escrita da paixão”que caracterizou a poesia jovem da última década. Assim como Marca registrada parecia empenhado em promover o cruzamento entre o experimentalismo de vanguarda e com a preocupação social dos anos 60.

Sem dúvida uma longa vida bem vivida (”Valium, valei-me/ pois aos quarenta/ eu não sei se eu sou eu/ ou se eu sou ou”) a do velho Armando que insiste, entretanto, em não perder de vista os labirintos e os disfarces do poeta fingidor.



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AMAR | armando freitas filho
para cri



Amar
é mergulhar de cabeça
sem saber nadar
sem saber de nada
ao seu encalço
numa piscina
como uma camicase
pulando do último
do mais alto trampolim
de mim
_______________sem asa-delta
salva-vidas, pára-quedas
sem perguntar
sem sequer pensar
se lá embaixo
vou encontrar água
ou o ladrilho do vazio?

Amar
é ter que inventar
mãos tão macias e cuidadosas
como nenhum Nívea
jamais ousou fazer
para melhor pegar
como quem pega, no céu
sem rasgar
______________o corpo de uma nuvem
seu vôo de papel de seda
______________sem slow/snow motion
ou ainda alcançar
e reter
______________entre os dedos
a fuga do perfume
do seu sonho
solto em minha fronha?



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SOBRE PEDRA
Escrevo contra, e incompreensível
em pé, direto na parede
sem horizonte à mão, pois não porto
a necessária talhadeira de legendas
indeléveis, nem o ranho, o catarro preto
do piche que impõe sua mancha de gordura
mas o ligeiro spray lavável e ilegível
que não suja fundo o futuro dos muros
que não entranha, não dói, e até decora
a cara fechada (descascada) da cantaria.

Armando Freitas Filho

Do livro: "Duplo cego", Nova Fronteira, 1997, RJ


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Antologia homenageia o poeta Armando Freitas Filho



EUCLIDES SANTOS MENDES
DE SÃO PAULO

A obra "Melhores Poemas" (Global Editora, 192 págs., R$ 29) cobre a produção de Armando Freitas Filho desde 1963 --quando publicou "Palavra", seu primeiro livro. Inclui também poemas inéditos, como "Para este papel", cuja primeira estrofe diz: "Escrito neste papel onírico/ feito de vestígios de nuvem/ o poema procura não pesar/ nem ferir o sono da folha debaixo./ Prefere que transpareça o sonho/ a magia que animou a mão/ e a elevou, até tocar o céu".

Leia, a seguir, entrevista com a organizadora da antologia, a crítica literária e professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro Heloisa Buarque de Hollanda.

Como foi a seleção dos poemas?

Não teve critérios objetivos. Conheço de cor a obra de Armando Freitas Filho e simplesmente escolhi meus poemas prediletos.

Qual a importância das antologias para a poesia contemporânea?

Antigamente, as antologias eram importantes porque divulgavam a obra de poetas novos ou organizavam os clássicos para o leitor. Hoje, com a internet, a divulgação dos novos é feita de forma diferente e interessante. Através dos blogs, criando interlocução entre pares, entre autores da mesma geração, o que reconfigura um pouco a vida literária atual. Acho que hoje restou o lado didático e o lado autoral do antologista. Porque uma das minhas poucas certezas é a de que fazer uma antologia é um gesto crítico.

Por que Freitas Filho não estava na antologia "26 Poetas Hoje", organizada pela sra. em 1976?

Na realidade, talvez eu não tivesse olho crítico suficiente para perceber que Armando não se encaixa em tendências. Ele nasceu clássico. E, como era muito ligado à sua época, poderia, com a maior propriedade, ter sido incluído. Falha minha.

O que faz a poesia de Armando Freitas Filho ser "aguda, trabalhada, nervosa", como a sra. mesma a qualifica no prefácio da antologia?

Quem acompanha o seu processo de criação vai ver como o artesanato poético é prioridade para a sua poética. O trabalho com a palavra, a reescrita, o corte e a precisão dão à sua obra uma energia própria difícil de ser encontrada na poesia contemporânea.

Qual o lugar de Freitas Filho na poesia brasileira hoje?

Acho que, junto com Ferreira Gullar, ele é um dos maiores nomes da poesia contemporânea.


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