segunda-feira, 28 de março de 2011

OLAVO BILAC - ALMA INQUIETA


Olavo Bilac


Alma Inquieta


A Avenida das Lágrimas


A um Poeta morto.


Quando a primeira vez a harmonia secreta
De uma lira acordou, gemendo, a terra inteira,
- Dentro do coração do primeiro poeta
Desabrochou a flor da lágrima primeira.


E o poeta sentiu os olhos rasos de água;
Subiu-lhe â boca, ansioso, o primeiro queixume:
Tinha nascido a flor da Paixão e da Mágoa,
Que possui, como a rosa, espinhos e perfume.


E na terra, por onde o sonhador passava,
Ia a roxa corola espalhando as sementes:
De modo que, a brilhar, pelo solo ficava
Uma vegetação de lágrimas ardentes.


Foi assim que se fez a Via Dolorosa,
A avenida ensombrada e triste da Saudade,
Onde se arrasta, à noite, a procissão chorosa
Dos órfãos do carinho e da felicidade.


Recalcando no peito os gritos e os soluços,
Tu conheceste bem essa longa avenida,
- Tu que, chorando em vão, te esfalfaste, de bruços,
Para, infeliz, galgar o Calvário da Vida.


Teu pé também deixou um sinal neste solo;
Também por este solo arrastaste o teu manto...
E, ó Musa, a harpa infeliz que sustinhas ao colo,
Passou para outras mãos, molhou-se de outro pranto.


Mas tua alma ficou, livre da desventura,
Docemente sonhando, as delícias da lua:
Entre as flores, agora, uma outra flor fulgura,
Guardando na corola uma lembrança tua...


O aroma dessa flor, que o teu martírio encerra,
Se imortalizará, pelas almas disperso:
- Porque purificou a torpeza da terra
Quem deixou sobre a terra uma lágrima e um verso.


Inania Verba


Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
- Ardes, sangras, pregada a' tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava...


O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e dano, refulgia e voava.


Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?


E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta?!


Midsummer's Night's Dream


Quem o encanto dirá destas noites de estão?
Corre de estrela a estrela um leve calefrio,
Há queixas doces no ar... Eu, recolhido e só,
Ergo o sonho da terra, ergo a fronte do pé,
Para purificar o coração manchado,
Cheio de ódio, de fel, de angústia e de pecado...


Que esquisita saudade! - Uma lembrança estranha
De ter vivido já no alto de uma montanha,
Tão alta, que tocava o céu... Belo país,
Onde, em perpétuo sonho, eu vivia feliz,
Livre da ingratidão, livre da indiferença,
No seio maternal da Ilusão e da Crença!


Que inexorável mão, sem piedade, cativo,
Estrelas, me encerrou no cárcere em que vivo?
Louco, em vão, do profundo horror deste atascal,
Bracejo, e peno em vão, para fugir do mal!
Por que, para uma ignora e longínqua paragem,
Astros, não me levais nessa eterna viagem?


Ah! quem pode saber de que outras vidas veio?...
Quantas vezes, fitando a Via-Láctea, creio
Todo o mistério ver aberto ao meu olhar!
Tremo... e cuido sentir dentro de mim pesar
Uma alma alheia, uma alma em minha alma escondida,
- O cadáver de alguém de quem carrego a vida...


Mater


Tu, grande Mãe!... do amor de teus filhos escrava,
Para teus filhos és, no caminho da vida,
Como a faixa de luz que o povo hebreu guiava
À longe Terra Prometida.


Jorra de teu olhar um rio luminoso.
Pois, para batizar essas almas em flor,
Deixas cascatear desse olhar carinhoso
Todo o Jordão do teu amor.



E espalham tanto brilho as asas infinitas
Que expandes sobre os teus, carinhosas e belas,
Que o seu grande dano sobe, quando as agitas,
E vai perder-se entre as estrelas.


E eles, pelos degraus da luz ampla e sagrada,
Fogem da humana dor, fogem do humano pé,
E, à procura de Deus, vão subindo essa escada,
Que é como a escada de Jacó.


Incontentado


Paixão sem grita, amor sem agonia,
Que não oprime nem magoa o peito,
Que nada mais do que possui queria,
E com tão pouco vive satisfeito.


Amor, que os exageros repudia,
Misturado de estima e de respeito,
E, tirando das mágoas alegria,
Fica farto, ficando sem proveito.


Viva sempre a paixão que me consome,
Sem uma queixa, sem um só lamento!
Arda sempre este amor que desanimas!


Eu eu tenha sempre, ao murmurar teu nome,
O coração, malgrado o sofrimento,
Como um rosal desabrochado em rimas.


Sonho


Quantas vezes, em sonho, as asas da saudade
Solto para onde estás, e fico de ti perto!
Como, depois do sonho, é triste a realidade!
Como tudo, sem ti, fica depois deserto!


Sonho... Minha alma voa. O ar gorjeia e soluça.
Noite... A amplidão se estende, iluminada e calma:
De cada estrela de ouro um anjo se debruça,
E abre o olhar espantado, ao ver passar minha alma.


Há por tudo a alegria e o rumor de um noivado.
Em torno a cada ninho anda bailando uma asa.
E, como sobre um leito um alvo cortinado,
Alva, a luz do luar cai sobre a tua casa.


Porém, subitamente, um relâmpago corta
Todo o espaço... O rumor de um salmo se levanta
E, sorrindo, serena, apareces à porta,
Como numa moldura a imagem de uma Santa...


Primavera


Ah! quem nos dera que isto, como outrora,
Inda nos comovesse! Ah! quem nos dera
Que inda juntos pudéssemos agora
Ver o desabrochar da primavera!


Saíamos com os pássaros e a aurora.
E, no chão, sobre os troncos cheios de hera,
Sentavas-te sorrindo, de hora em hora:
"Beijemo-nos! amemo-nos! espera!"


E esse corpo de rosa recendia,
E aos meus beijos de fogo palpitava,
Alquebrado de amor e de cansaço. .


A alma da terra gorjeava e ria...
Nascia a primavera... E eu te levava,
Primavera de carne, pelo braço!


Dormindo


De qual de vós desceu para o exílio do mundo
A alma desta mulher, astros do céu profundo?
Dorme talvez agora... Alvíssimas, serenas,
Cruzam-se numa prece as suas mãos pequenas.
Para a respiração suavíssima lhe ouvir,
A noite se debruça... E, a oscilar e a fulgir,
Brande o gládio de luz, que a escuridão recorta,
Um arcanjo, de pé, guardando a sua porta.
Versos! podeis voar em torno desse leito,
E pairar sobre o alvor virginal de seu peito,
Aves, tontas de luz, sobre um fresco pomar...
Dorme... Rimas febris, podeis febris voar...
Como ela, num livor de névoas misteriosas,
Dorme o céu, campo azul semeado de rosas;
E dois anjos do céu, alvos e pequeninos,
Vêm dormir nos dois céus dos seus olhos divinos...
Dorme... Estrelas, velai, inundando-a de luz!
Caravana, que Deus pelo espaço conduz!
Todo o vosso dano nesta pequena alcova
Sobre ela, como um nimbo esplêndido, se mova:
E, a sorrir e a sonhar, sua leve cabeça
Como a da Virgem Mie repouse e resplandeça!


Noturno


Já toda a terra adormece.
Sai um soluço da flor.
Rompe de tudo um rumor,
Leve como o de uma prece.


A tarde cai. Misterioso,
Geme entre os ramos e o vento,
E há por todo o firmamento
Um anseio doloroso.


Áureo turíbulo imenso,
O ocaso em púrpuras arde,
E para a oração da tarde
Desfaz-se em rolos de incenso.


Moribundos e suaves,
O vento na asa conduz
O último raio da luz
E o último canto das aves.


E Deus, na altura infinita,
Abre a mão profunda e calma,
Em cuja profunda palma
Todo o Universo palpita.


Mas um barulho se eleva...
E, no páramo celeste,
A horda dos astros investe
Contra a muralha da treva.


As estrelas, salmodiando
O Peã sacro, a voar,
Enchem de cânticos o ar...
E vão passando... passando...


Agora, maior tristeza,
Silêncio agora mais fundo;
Dorme, num sono profundo,
Sem sonhos, a natureza.


A flor-da-noite abre o cálix...
E, soltos, os pirilampos
Cobrem a face dos campos,
Enchem o seio dos vales:


Trêfegos e alvoroçados,
Saltam, fantásticos Djins,
De entre as moitas de jasmins,
De entre os rosais perfumados.


Um deles pela janela
Entra do teu aposento,
E pára, plácido e atento
Vendo-te, pálida e bela.


Chega ao teu cabelo fino,
Mete-se nele: e fulgura,
E arde nessa noite escura,
Como um astro pequenino.


E fica. Os outros lá fora
Deliram. Dormes... Feliz,
Não ouves o que ele diz,
Não ouves como ele chora...


Diz ele: "O poeta encerra
Uma noite, em si, mais triste
Que essa que, quando dormiste,
Velava a face da terra...


Os outros saem do meio
Das moitas cheias de flores:
Mas eu saí de entre as dores
Que ele tem dentro do seio.


Os outros a toda parte
Levam o vivo clarão,
E eu vim do seu coração
Só para ver-te e beijar-te.


Mandou-me sua alma louca,
Que a dor da ausência consome,
Saber se em sonho o seu nome
Brilha agora em tua boca!


Mandou-me ficar suspenso
Sobre o teu peito deserto,
Por contemplar de mais perto
Todo esse deserto imenso!"


Isso diz o pirilampo...
Anda lá fora um rumor
De asas rufladas... A flor
Desperta, desperta o campo...


Todos os outros, prevendo
Que vinha o dia, partiram,
Todos os outros fugiram...
Só ele fica gemendo.


Fica, ansioso e sozinho,
Sobre o teu sono pairando...
E apenas, a luz fechando,
Volve de novo ao seu ninho,


Quando vê, inda não farto
De te ver e de te amar,
Que o sol descerras do olhar,
E o dia nasce em teu quarto...


Virgens Mortas


Quando uma virgem morre, uma estrela aparece,
Nova, no velho engaste azul do firmamento:
E a alma da que morreu, de momento em momento,
Na luz da que nasceu palpita e resplandece.


Õ vós, que, no silêncio e no recolhimento
Do campo, conversais a sós, quando anoitece,
Cuidado! - o que dizeis, como um rumor de prece,
Vai sussurrar no céu, levado pelo vento...


Namorados, que andais, com a boca transbordando
De beijos, perturbando o campo sossegado
E o casto coração das flores inflamando,


- Piedade! elas vêem tudo entre as moitas escuras... Piedade! esse impudor ofende o olhar gelado
Das que viveram sós, das que morreram puras!


O Cavaleiro Pobre


(Pouchkine.)



Ninguém soube quem era o Cavaleiro Pobre,
Que viveu solitário, e morreu sem falar:
Era simples e sóbrio, era valente e nobre,
E pálido como o luar.


Antes de se entregar às fadigas da guerra,
Dizem que um dia viu qualquer cousa do céu:
E achou tudo vazão... e pareceu-lhe a terra
Um vasto e inútil mausoléu.


Desde então, uma atroz devoradora chama
Calcinou-lhe o desejo, e o reduziu a pó.
E nunca mais o Pobre olhou uma só dama,
- Nem uma só! nem uma só!


Conservou, desde então, a viseira abaixada:
E, fiel à Visão, e ao seu amor fiel,
Trazia uma inscrição de três letras, gravada
A fogo e sangue no broquel.


Foi aos prélios da Fé. Na Palestina, quando,
No ardor do seu guerreiro e piedoso mister,
Cada filho da Cruz se batia, invocando
Um nome caro de mulher,


Ele rouco, brandindo o pique no ar, clamava:
"Lumen coeli Regina!" e, ao clamor dessa voz,
Nas hostes dos incréus como uma tromba entrava,
Irresistível e feroz.


Mil vezes sem morrer viu a morte de perto,
E negou-lhe o destino outra vida melhor:
Foi viver no deserto... E era imenso o deserto!
Mas o seu Sonho era maior!


E um dia, a se estorcer, aos saltos, desgrenhado,
Louco, velho, feroz, - naquela solidão
Morreu: - mudo, rilhando os dentes, devorado
Pelo seu próprio coração.


Ida


Para a porta do céu, pálida e bela,
Ida as asas levanta e as nuvens corta.
Correm os anjos: e a criança morta
Foge dos anjos namorados dela.


Longe do amor materno o céu que importa?
O pranto os olhos límpidos lhe estrela...
Sob as rosas de neve da capela,
Ida soluça, vendo abrir-se a porta.


Quem lhe dera outra vez o escuro canto
Da escura terra, onde, a sangrar, sozinho,
Um coração de mãe desfaz-se em pranto!


Cerra-se a porta: os anjos todos voam.
Como fica distante aquele ninho,
Que as mães adoram... mas amaldiçoam!


Noite de Inverno


Sonho que estás à porta...
Estás - abro-te os braços! - quase morta,
Quase morta de amor e de ansiedade.
De onde ouviste o meu grito, que voava,
E sobre as asas trêmulas levava
As preces da saudade?


Corro à porta... ninguém! Silêncio e treva.
Hirta, na sombra, a Solidão eleva
Os longos braços rígidos, de gelo...
E há pelo corredor ermo e comprido
O suave rumor de teu vestido,
E o perfume subtil de teu cabelo.


Ah! se agora chegasses!
Se eu sentisse bater em minhas faces
A luz celeste que teus olhos banha;
Se este quarto se enchesse de repente
Da melodia, e do dano ardente
Que os passos te acompanha:


Beijos, presos no cárcere da boca,
Sofreando a custo toda a sede louca,
Toda a sede infinita que os devora,
- Beijos de fogo, palpitando, cheios
De gritos, de gemidos e de anseios,
Transbordariam por teu corpo afora...


Rio aceso, banhando
Teu corpo, cada beijo, rutilando,
Se apressaria, acachoado e grosso:
E, cascateando, em pérolas desfeito,
Subiria a colina de teu peito,
Lambendo-te o pescoço...


Estrela humana que do céu desceste!
Desterrada do céu, a luz perdeste
Dos fulvos raios, amplos e serenos;
E na pele morena e perfumada
Guardaste apenas essa cor dourada
Que é a mesma cor de Sírius e de Vênus.


Sob a chuva de fogo
De meus beijos, amor! terias logo
Todo o esplendor do brilho primitivo;
E, eternamente presa entre meus braços,
Bela, protegerias os meus passos,
- Astro formoso e vivo!


Mas... talvez te ofendesse o meu desejo.
E, ao teu contacto gélido, meu beijo
Fosse cair por terra, desprezado.
Embora! que eu ao menos te olharia,
E, presa do respeito, ficaria
Silencioso e imóvel a teu lado.


Fitando o olhar ansioso
No teu, lendo esse livro misterioso,
Eu descortinaria a minha sorte...
Até que ouvisse, desse olhar ao fundo,
Soar, num dobre lúgubre e profundo,
A hora da minha morte!


Longe embora de mim teu pensamento,
Ouvirias aqui, louco e violento,
Bater meu coração em cada canto;
E ouvirias, como uma melopéia,
Longe embora de mim a tua idéia,
A música abafada de meu pranto.


Dormirias, querida...
E eu, guardando-te, bela e adormecida,
Orgulhoso e feliz com o meu tesouro,
Tiraria os meus versos do abandono,
E eles embalariam o teu sono,
Como uma rede de ouro.


Mas não vens! não virás! Silêncio e treva.
Hirta, na sombra, a Solidão eleva
Os longos braços rígidos de gelo;
E há, pelo corredor ermo e comprido,
O suave rumor de teu vestido
E o perfume subtil de teu cabelo...


Vanitas


Cego, em febre a cabeça, a mão nervosa e fria,
Trabalha. A alma lhe sai da pena, alucinada,
E enche-lhe, a palpitar, a estrofe iluminada
De gritos de triunfo e gritos de agonia.


Prende a idéia fugaz; doma a rima bravia,
Trabalha... E a obra, por fim, resplandece acabada:
"Mundo, que as minhas mãos arrancaram do nada!
Filha do meu trabalho! ergue-te à luz do dia!


Cheia da minha febre e da minha alma cheia,
Arranquei-te da vida ao ádito profundo,
Arranquei-te do amor à mina ampla e secreta!


Posso agora morrer, porque vives!" E o Poeta
Pensa que vai cair, exausto, ao pé de um mundo,
E cai - vaidade humana! - ao pé de um grão de areia...


Tercetos


I


Noite ainda, quando ela me pedia
Entre dois beijos que me fosse embora,
Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:


"Espera ao menos que desponte a aurora!
Tua alcova é cheirosa como um ninho..
E olha que escuridão há lá por fora!


Como queres que eu vá, triste e sozinho,
Casando a treva e o frio de meu peito
Ao frio e à treva que há pelo caminho?!


Ouves? é o vento! é um temporal desfeito!
Não me arrojes à chuva e à tempestade!
Não me exiles do vale do teu leito!


Morrerei de aflição e de saudade...
Espera! até que o dia resplandeça,
Aquece-me com a tua mocidade!


Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava...
Espera um pouco! deixa que amanheça!"


- E ela abria-me os braços. E eu ficava.


II


E, já manhã, quando ela me pedia
Que de seu claro corpo me afastasse,
Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:


"Não pode ser! não vês que o dia nasce?
A aurora, em fogo e sangue, as nuvens corta...
Que diria de ti quem me encontrasse?


Ah! nem me digas que isso pouco importa!...
Que pensariam, vendo-me, apressado,
Tão cedo assim, saindo a tua porta,


Vendo-me exausto, pálido, cansado,
E todo pelo aroma de teu beijo
Escandalosamente perfumado?


O amor, querida, não exclui o pejo.
Espera! até que o sol desapareça,
Beija-me a boca! mata-me o desejo!


Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava!
Espera um pouco! deixa que anoiteça!"


- E ela abria-me os braços. E eu ficava.


In Extremis


Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia
Assim! de um sol assim!
Tu, desgrenhada e fria,
Fria! postos nos meus os teus olhos molhados,
E apertando nos teus os meus dedos gelados...


E um dia assim! de um sol assim! E assim a esfera
Toda azul, no esplendor do fim da primavera!
Asas, tontas de luz, cortando o firmamento!
Ninhos cantando! Em flor a terra toda! O vento
Despencando os rosais, sacudindo o arvoredo...


E, aqui dentro, o silêncio... E este espanto! e este medo!
Nós dois... e, entre nós dois, implacável e forte,
A arredar-me de ti, cada vez mais, a morte...


Eu, com o frio a crescer no coração, - tão cheio
De ti, até no horror do derradeiro anseio!
Tu, vendo retorcer-se amarguradamente,
A boca que beijava a tua boca ardente,
A boca que foi tua!


E eu morrendo! e eu morrendo
Vendo-te, e vendo o sol, e vendo o céu, e vendo
Tão bela palpitar nos teus olhos, querida,
A delicia da vida! a delícia da vida!


A Alvorada do Amor


Um horror grande e mudo, um silêncio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse:


"Chega-te a mim! entra no meu amor,
E à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!
Abençôo o teu crime, acolho o teu desgosto,
Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto!


Vê! tudo nos repele! a toda a criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indignação...
A cólera de Deus torce as árvores, cresta
Como um tufão de fogo o seio da floresta,
Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios;
As estrelas estão cheias de calefrios;
Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu...


Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,
Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!
Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos;
Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;
Surjam feras a uivar de todos os caminhos;
E, vendo-te a sangrar das urzes através,
Se emaranhem no chão as serpes aos teus pés...
Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto,
Ilumina o degredo e perfuma o deserto!
Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,
Levo tudo, levando o teu corpo querido!


Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:
- Tudo renascerá cantando ao teu olhar,
Tudo, mares e céus, árvores e montanhas,
Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas!
Rosas te brotarão da boca, se cantares!
Rios te correrão dos olhos, se chorares!
E se, em torno ao teu corpo encantador e nu,
Tudo morrer, que importa? A Natureza és tu,
Agora que és mulher, agora que pecaste!


Ah! bendito o momento em que me revelaste
O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime!
Porque, livre de Deus, redimido e sublime,
Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus,
- Terra, melhor que o céu! homem, maior que Deus!"


Vita Nuova


Se ao mesmo gozo antigo me convidas,
Com esses mesmos olhos abrasados,
Mata a recordação das horas idas,
Das horas que vivemos apartados!


Não me fales das lágrimas perdidas,
Não me fales dos beijos dissipados!
Há numa vida humana cem mil vidas,
Cabem num coração cem mil pecados!


Amo-te! A febre, que supunhas morta,
Revive. Esquece o meu passado, louca!
Que importa a vida que passou? que importa,


Se inda te amo, depois de amores tantos,
E inda tenho, nos olhos e na boca,
Novas fontes de beijos e de prantos?!


Manhã de Verão


As nuvens, que, em bulcões, sobre o rio rodavam,
Já, com o vir da manhã, do rio se levantam.
Como ontem, sob a chuva, estas águas choravam!
E hoje, saudando o sol, como estas águas cantam!


A estrela, que ficou por último velando,
Noiva que espera o noivo e suspira em segredo,
- Desmaia de pudor, apaga, palpitando,
A pupila amorosa, e estremece de medo.


Há pelo Paraíba um sussurro de vozes,
Tremor de seios nus, corpos brancos luzindo...
E, alvas, a cavalgar broncos monstros ferozes,
Passam, como num sonho, as náiades fugindo.


A rosa, que acordou sob as ramas cheirosas,
Diz-me: "Acorda com um beijo as outras flores quietas!
Poeta! Deus criou as mulheres e as rosas
Para os beijos do sol e os beijos dos poetas!"


E a ave diz: "Sabes tu? conheço-a bem... Parece
Que os Gênios de Oberon bailam pelo ar dispersos,
E que o céu se abre todo, e que a terra floresce,
- Quando ela principia a recitar teus versos!»


E diz a luz: "Conheço a cor daquela boca!
Bem conheço a maciez daquelas mãos pequenas!
Não fosse ela aos jardins roubar, trêfega e louca,
O rubor da papoula e o alvor das açucenas!"


Diz a palmeira: "Invejo-a! ao vir a luz radiante,
Vem o vento agitar-me e desnastrar-me a coma:
E eu pelo vento envio ao seu cabelo ondeante
Todo o meu esplendor e todo o meu aroma!"


E a floresta, que canta, e o sol, que abre a coroa
De ouro fulvo, espancando a matutina bruma,
E o lírio, que estremece, e o pássaro, que voa,
E a água, cheia de sons e de flocos de espuma,


Tudo, - a cor, o dano, o perfume e o gorjeio,
Tudo, elevando a voz, nesta manhã de estio,
Diz: "Pudesses dormir, poeta! no seu seio,
Curvo como este céu, manso como este rio!"


Dentro da Noite


Ficas a um canto da sala,
Olhas-me e finges que lês..
Ainda uma vez te ouço a fala,
Olho-te ainda uma vez;
Saio... Silêncio por tudo:
Nem uma folha se agita;
E o firmamento, amplo e mudo,
Cheio de estrelas palpita.
E eu vou sozinho, pensando
Em teu amor, a sonhar,
No ouvido e no olhar levando
Tua voz e teu olhar.


Mas não sei que luz me banha
Todo de um vivo clarão;
Não sei que música estranha
Me sobe do coração.
Como que, em cantos suaves,
Pelo caminho que sigo,
Eu levo todas as aves,
Todos os astros comigo.
E é tanta essa luz, é tanta
Essa música sem par,
Que nem sei se é a luz que canta,
Se é o som que vejo brilhar.


Caminho em êxtase, cheio
Da luz de todos os sóis,
Levando dentro do seio
Um ninho de rouxinóis.
E tanto brilho derramo,
E tanta música espalho,
Que acordo os ninhos e inflamo
As gotas frias do orvalho.
E vou sozinho, pensando
Em teu amor, a sonhar,
No ouvido e no olhar levando
Tua voz e teu olhar.


Caminho. A terra deserta
Anima-se. Aqui e ali,
Por toda parte desperta
Um coração que sorri.
Em tudo palpita um beijo,
Longo, ansioso, apaixonado,
E um delirante desejo
De amar e de ser amado.
E tudo, - o céu que se arqueia
Cheio de estrelas, o mar,
Os troncos negros, a areia,
- Pergunta, ao ver-me passar:


"O Amor, que a teu lado levas,
A que lugar te conduz,
Que entras coberto de trevas,
E sais coberto de luz?
De onde vens? que firmamento
Correste durante o dia,
Que voltas lançando ao vento
Esta inaudita harmonia?
Que país de maravilhas,
Que Eldorado singular
Tu visitaste, que brilhas
Mais do que a estrela polar?"


E eu continuo a viagem,
Fantasma deslumbrador,
Seguido por tua imagem,
Seguido por teu amor.
Sigo... Dissipo a tristeza
De tudo, por todo o espaço,
E ardo, e canto, e a Natureza
Arde e canta, quando eu passo,
- Só porque passo pensando
Em teu amor, a sonhar,
No ouvido e no olhar levando
Tua voz e teu olhar...


Campo-Santo


Os anos matam e dizimam tanto
Como as inundações e como as pestes.
A alma de cada velho é um Campo-Santo
Que a velhice cobriu de cruzes e ciprestes
Orvalhados de pranto.


Mas as almas não morrem como as flores,
Como os homens, os pássaros e as feras:
Rotas, despedaçadas pelas dores,
Renascem para o sol de novas primaveras
E de novos amores.


Assim, às vezes, na amplidão silente,
No sono fundo, na terrível calma
Do Campo-Santo, ouve-se um grito ardente:
É a Saudade! é a Saudade!...
E o cemitério da alma
Acorda de repente.


Uivam os ventos funerais medonhos. .
Brilha o luar... As lápides se agitam. .
E, sob a rama dos chorões tristonhos,
Sonhos mortos de amor despertam e palpitam,
Cadáveres de sonhos...


Desterro


Já me não amas? Basta! Irei, triste, e exilado
Do meu primeiro amor para outro amor, sozinho.
Adeus, carne cheirosa! Adeus, primeiro ninho
Do meu delírio! Adeus, belo corpo adorado!


Em ti, como num vale, adormeci deitado,
No meu sonho de amor, em meão do caminho...
Beijo-te inda uma vez, num último carinho,
Como quem vai sair da pátria desterrado...


Adeus, corpo gentil, pátria do meu desejo!
Berço em que se emplumou o meu primeiro idílio,
Terra em que floresceu o meu primeiro beijo!


Adeus! Esse outro amor há de amargar-me tanto
Como o pão que se come entre estranhos, no exílio,
Amassado com fel e embebido de pranto...


Romeu e Julieta
(Ato III, cena V.)


JULIETA:
Por que partir tão cedo? inda vem longe o dia...
Ouves? é o rouxinol. Não é da cotovia
Esta encantada voz. Repara, meu amor:
Quem canta é o rouxinol na romãzeira em flor.
Toda a noite essa voz, que te feriu o ouvido,
Povoa a solidão como um longo gemido.
Abracemo-nos! fica! inda vem longe o sol!
Não canta a cotovia: é a voz do rouxinol!


ROMEU:
É a voz da cotovia anunciando a aurora!
Vês? há um leve tremor pelo horizonte afora.
Das nuvens do levante abre-se o argênteo véu,
E apagam-se de todo as limpadas do céu.
Já sobre o cimo azul das serras nebulosas,
Hesitante, a manhã coroada de rosas
Agita os leves pés, e fica a palpitar
Sobre as asas de luz, como quem quer voar.
Olha! mais um momento, um rápido momento,
E o dia sorrirá por todo o firmamento!
Adeus! devo partir! partir para viver...
Ou ficar a teus pés para a teus pés morrer!


JULIETA:
Não é o dia! O espaço inda se estende, cheio
Da noite caridosa. Exala do ígneo seio
O sol, piedoso e bom, este vivo dano
Sé para te guiar por entre a cerração.
Fica um minuto mais! por que partir tão cedo?


ROMEU:
Mandas? não partirei! esperarei sem medo
Que a morte, com a manhã, venha encontrar-me aqui!
Sucumbirei feliz, sucumbindo por ti!
Mandas? não partirei! queres? direi contigo
Que é mentira o que vejo e mentira o que digo!
Sim! tens razão! não é da cotovia a voz
Este encantado som que erra em torno de nós!
É um reflexo da lua a claridade estranha
Que aponta no horizonte acima da montanha!
Fico para te ver, fico para te ouvir,
Fico para te amar, morro por não partir!
Mandas? não partirei! cumpra-se a minha sorte!
Julieta assim o quis: bem-vinda seja a morte!
Meu amor, meu amor! olha-me assim! assim!


JULIETA:
Não! é o dia! é a manhã! Parte! foge de mim!
Parte! apressa-te! foge! A cotovia canta
E do nascente em fogo o dia se levanta
Ah! reconheço enfim estas notas fatais!
O dia! ... a luz do sol cresce de mais em mais
Sobre a noite nupcial do amor e da loucura!


ROMEU:
Cresce... E cresce com ela a nossa desventura!
..............................................................


Vinha de Nabot


Maldito aquele dia, em que abriste em meu seio,
Cruel, esta paixão, como, ampla e iluminada,
Uma clareira verde, aberta ao sol, no meio
Da espessa escuridão de uma selva cerrada!


Ah! três vezes maldito o amor que me avassala,
E me obriga a viver dentro de um pesadelo,
Louco! por toda a parte ouvindo a tua fala,
Vendo por toda a parte a cor do teu cabelo!


De teu colo no vale embalsamado e puro
Nunca descansarei, como num paraíso,
Sob a tenda aromal desse cabelo escuro,
Olhando o teu olhar, sorrindo ao teu sorriso.


Desvairas-me a razão, tiras-me a calma e o sono!
Nunca te possuirei, bela e invejada vinha,
Ó Vinha de Nabot que tanto ambiciono!
Ó alma que procuro e nunca serás minha!


Sacrilégio


Como a alma pura, que teu corpo encerra,
Podes, tão bela e sensual, conter?
Pura demais para viver na terra,
Bela demais para no céu viver.


Amo-te assim! - exulta, meu desejo!
É teu grande ideal que te aparece,
Oferecendo loucamente o beijo,
E castamente murmurando a prece!


Amo-te assim, à fronte conservando
A parra e o acanto, sob o alvor do véu,
E para a terra os olhos abaixando,
E levantando os braços para o céu.


Ainda quando, abraçados, nos enleva
O amor em que me abraso e em que te abrasas,
Vejo o teu resplandor arder na treva
E ouço a palpitação das tuas asas.


Em vão sorrindo, plácidos, brilhantes,
Os céus se estendem pelo teu olhar,
E, dentro dele, os serafins errantes
Passam nos raios claros do luar:


Em vão! - descerras úmidos, e cheios
De promessas, os lábios sensuais,
E, à flor do peito, empinam-se-te os seios,
Ameaçadores como dois punhais.


Como é cheirosa a tua carne ardente!
Toco-a, e sinto-a ofegar, ansiosa e louca.
Beijo-a, aspiro-a... Mas sinto, de repente,
As mãos geladas e gelada a boca:


Parece que uma santa imaculada
Desce do altar pela primeira vez,
E pela vez primeira profanada
Tem por olhos humanos a nudez...


Embora! hei de adorar-te nesta vida,
Já que, fraco demais para perdê-la,
Não posso um dia, deusa foragida,
Ir amar-te no seio de uma estrela.


Beija-me! Ficarei purificado
Com o que de puro no teu beijo houver;
Ficarei anjo, tendo-te ao meu lado:
Tu, ao meu lado, ficarás mulher.


Que me fulmine o horror desta impiedade!
Serás minha! Sacrílego e profano,
Hei de manchar a tua castidade
E dar-te aos lábios um gemido humano!


E à sombria mudez do santuário
Preferirás o cálido fulgor
De um cantinho da terra, solitário,
Iluminado pelo meu amor...


Estâncias


I


Ah! finda o inverno! adeus, noites, breve esquecidas,
Junto ao fogo, com as mãos estreitamente unidas!
Abracemo-nos muito! adeus! um beijo ainda!
Prediz-me o coração que é o nosso amor que finda,
Há de em breve sorrir a primavera. Em breve,
Branca, aos beijos do sol, há de fundir-se a neve.
E. na festa nupcial das almas e das flores,
Quando tudo acordar para os novos amores,
Meu amor! haverá dois lugares vazios.
Tu tão longe de mim! e ambos, mudos e frios,
Procurando esquecer os beijos que trocamos,
E maldizendo o tempo em que nos adoramos...


II


Mas, às vezes, sozinha, hás de tremer, o vulto
De um fantasma entrevendo, em tua alcova oculto.
E pelo corpo todo, a ofegar de desejo,
Pálida, sentirás a carícia de um beijo.
Sentirás o calor da minha boca ansiosa,
Na água que te banhar a carne cor-de-rosa,
No linho do lençol que te roçar o peito.
E hás de crer que sou eu que procuro o teu leito,
E hás de crer que sou eu que procuro a tua alma!
E abrirás a janela... E, pela noite calma,
Ouvirás minha voz no barulho dos ramos,
E bendirás o tempo em que nos adoramos...


III


E eu, errante, através das paixões, hei de, um dia,
Volver o olhar atrás, para a estrada sombria.
Talvez uma saudade, um dia, inesperada,
Me punja o coração, como uma punhalada.
E agitarei no vácuo as mãos, e um beijo ardente
Há de subir-me à boca: e o beijo e as mãos somente
Hão de o vácuo encontrar, sem te encontrar, querida!
E, como tu, também me acharei só na vida,
Só! sem o teu amor e a tua formosura:
E chorarei então a minha desventura,
Ouvindo a tua voz no barulho dos ramos,
E bendizendo o tempo em que nos adoramos...


IV


Renascei, revivei, árvores sussurrantes!
Todas as asas vão partir, loucas e errantes,
A ruflar, a ruflar... O amor é um passarinho:
Deixemo-lo partir: - desertemos o ninho...
A primavera vem. Vai-se o inverno. Que importa
Que a primavera encontre esta ventura morta?
Que importa que o esplendor do universal noivado
Venha este noivo achar da noiva separado?
Esqueçamos o amor que julgamos eterno...
- Dia que iluminaste os meus dias de inverno!
Esqueçamos o ardor dos beijos que trocamos,
Maldigamos o tempo em que nos adoramos...


Pecador


Este é o altivo pecador sereno,
Que os soluços afoga na garganta,
E, calmamente, o copo de veneno
Aos lábios frios sem tremer levanta.


Tonto, no escuro pantanal terreno
Rolou. E, ao cabo de torpeza tanta,
Nem assim, miserável e pequeno,
Com tão grandes remorsos se quebranta.


Fecha a vergonha e as lágrimas consigo...
E, o coração mordendo impenitente,
E, o coração rasgando castigado,


Aceita a enormidade do castigo,
Com a mesma face com que antigamente
Aceitava a delícia do pecado.


Rei Destronado


O teu lugar vazão!... E esteve cheio,
Cheio de mocidade e de ternura!
Como brilhava a tua formosura!
Que luz divina te doirava o seio!


Quando a camisa tépida despias,
- Sob o reflexo do cabelo louro,
De pé, na alcova, ardias e fulgias
Como um ídolo de ouro.


Que fundo o fogo do primeiro beijo,
Que eu te arrancava ao lábio recendente!
Morria o meu desejo... outro desejo
Nascia mais ardente.


Domada a febre, lânguida, em meus braços
Dormias, sobre os linhos revolvidos,
Inda cheios dos últimos gemidos,
Inda quentes dos últimos abraços...


Tudo quanto eu pedira e ambicionara,
Tudo meus dedos e meus olhos calmos
Gozavam satisfeitos nos seis palmos
De tua carne saborosa e clara:


Reino perdido! glória dissipada
Tão loucamente! A alcova está deserta,
Mas inda com o teu cheiro perfumada,
Do teu fulgor coberta...





Este, que um deus cruel arremessou à vida,
Marcando-o com o sinal da sua maldição,
- Este desabrochou como a erva má, nascida
Apenas para aos pés ser calcada no chão.


De motejo em motejo arrasta a alma ferida...
Sem constância no amor, dentro do coração
Sente, crespa, crescer a selva retorcida
Dos pensamentos maus, filhos da solidão.


Longos dias sem sol! noites de eterno luto!
Alma cega, perdida à toa no caminho!
Roto casco de nau, desprezado no mar!


E, árvore, acabará sem nunca dar um fruto;
E, homem, há de morrer como viveu: sozinho!
Sem ar! sem luz! sem Deus! sem fé! sem pão! sem lar!


A um Violinista


I


Quando do teu violino, as asas entreabrindo
Mansamente no espaço, iam-se as notas quérulas,
Anjos de olhos azuis, às duas mãos partindo
Os seus cofres de pérolas,


- Minhas crenças de amor, esquecidas em calma
No fundo da memória, ouvindo-as recebiam
Novo alento, e outra vez do oceano de minh'alma,
Arquipélago verde, à tona apareciam.


E eu via rutilar o meu amor perdido,
Belo, de nova luz e novo encanto cheio,
E um corpo, que supunha há muito consumido,
Agitar-se de novo e oferecer-me o seio.


Tudo ressuscitava ao teu influxo, artista!
E minh'alma revia, alucinada e louca,
Olhos, cujo fulgor me entontecia a vista,
Lábios, cujo sabor me entontecia a boca.


Oh milagre! E, feliz, ajoelhava-me, em pranto,
Como quem, por acaso, um dia, entrando as portas
De um cemitério, vai achar vivas a um canto
As suas ilusões que acreditava mortas,


E ficava a pensar... como se não partia
Essa fraca madeira ao teu toque violento,
Quando com tanta febre a paixão se estorcia
Dentro do pequenino e frágil instrumento!


Porque, nesse instrumento, unidos num só peito,
Todos os corações da terra palpitavam;
E havia dentro dele, em lágrimas desfeito,
O amor universal de todos os que amavam,


Rio largo de sons, tapetado de flores,
A harmonia do céu jorrava ampla e sonora;
E, boiando e cantando, alegrias e dores
Iam corrente em fora...


A Primavera rindo esfolhava as capelas,
E entornava no chão as ânforas cheirosas:
E a canção acordava as rosas e as estrelas,
E enchia de desejo as estrelas e as rosas.


E a água verde do mar, e a água fresca dos rios,
E as ilhas de esmeralda, e o céu resplandecente,
E a cordilheira, e o vale, e os matagais sombrios,
Crespos, e a rocha bruta exposta ao sol ardente:


- Tudo, ouvindo essa voz, tudo cantava e amava!
O amor, caudal de fogo atropelada e acesa,
Entrava pelo sangue e pela seiva entrava,
E ia de corpo em corpo enchendo a Natureza!


E ei-lo triste, no chão, inanimado e frio,
O teu pobre violino, o teu amor primeiro:
E inda nas cordas há, como um leve arrepio,
A última vibração do arpejo derradeiro...


Como, ígneas e imortais, num redemoinho insano,
Longe, a torvelinhar em céus inacessíveis,
Pairam constelações virgens do olhar humano,
Nebulosas sem fim de mundos invisíveis:


- Assim no teu violino, artista! adormecido
À espera do teu arco, em grupos vaporosos,
Dorme, como num céu que não alcança o ouvido,
Um mundo interior de sons misteriosos...


Suspendam-me ao ar livre esse doce instrumento!
Deixem-no ao sol, em glória, em delirante festa!
E ele se embeberá dos perfumes que o vento
Traz dos frescos desvios do vale e da floresta.


Os pássaros virão tecer nele os seus ninhos!
As rosas se abrirão em suas cordas rotas!
E ele derramará sobre os verdes caminhos
Da antiga melodia as esquecidas notas!


Hão de as aves cantar, hão de cantar as flores...
Os astros sorrirão de amor na imensa esfera...
E a terra acordará para os novos amores
De nova primavera!


II


Porque, como Terpandro acrescentou à lira,
Para a tornar mais doce, uma corda mais pura,
Que é a corda onde a paixão desprezada suspira,
E, em lágrimas, a arder, suspira a desventura;


Também desse instrumento às quatro cordas de ouro,
O Desespero, o Amor, a Cólera, a Piedade,
- Tu, nobre alma, chorando acrescentaste o choro
Eterno e a eterna dor da corda da Saudade


É saudade o que sinto, e me enche de ais a boca,
E me arrebata o sonho, e os nervos me fustiga,
Quando te ouço tocar: saudade ansiosa e louca
Do primitivo amor e da beleza antiga...


Para trás! para trás! Basta um simples arpejo,
Basta uma nota só... Todo o espaço estremece:
E, dando aos pés do amado o derradeiro beijo
Quase morta de dor, Madalena aparece...


Ao luar de Verona, a amorosa cabeça
De Julieta desmaia entre os braços do amante:
Não tarda que a alvorada em fogo resplandeça,
E na devesa em flor a cotovia cante...


Viúva triste, que à paz do claustro pede alivio,
Para a sua viuvez, para o seu luto imenso,
Branca, sob o livor do escapulário níveo,
Heloísa ergue as mãos, numa nuvem de incenso...


E na suave espiral das melodias puras,
Vão fugindo, fugindo os vultos infelizes,
Mostrando ao meu amor as suas amarguras,
Mostrando ao meu olhar as suas cicatrizes.


Canta! o rio de sons que do seio te brota
E, entre os parcéis da dor, corre, cascateando,
E vai, de vaga em vaga, e vai, de nota em nota,
Ao sabor da corrente os sonhos arrastando;


Que pelo vale espalha a cabeleira inquieta,
Refrescando os rosais, e, em leve burburinho,
Um gracejo segreda a cada borboleta,
E segreda um queixume a cada passarinho;


Que a todo o desconforto e a todo o sofrimento
Abre maternalmente o regaço das águas,
- É o rio perfumado e azul do Esquecimento,
Onde se vão banhar todas as minhas mágoas.


Em Uma Tarde de Outono


Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto...


Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?


A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!


E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol...


Baladas Românticas


I


Branca...


Vi-te pequena: ias rezando
Para a primeira comunhão:
Toda de branco, murmurando,
Na fronte o véu, rosas na mão.
Não ias só: grande era o bando...
Mas entre todas te escolhi:
Minh'alma foi te acompanhando,
A vez primeira em que te vi.


Tão branca e moça! o olhar tão brando!
Tão inocente o coração!
Toda de branco, fulgurando,
Mulher em flor! flor em botão!
Inda, ao lembrá-lo, a mágoa abrando,
Esqueço o mal que vem de ti,
E, o meu rancor estrangulando,
Bendigo o dia em que te vi!


Rosas na mão, brancas... E, quando
Te vi passar, branca visão,
Vi, com espanto, palpitando
Dentro de mim, esta paixão...
O coração pus ao teu mando...
E, porque escravo me rendi,
Ando gemendo, aos gritos ando,
- Porque te amei! porque - te vi!


Depois fugiste... E, inda te amando,
Nem te odiei, nem te esqueci:
- Toda de branco... Ias rezando...
Maldito o dia em que te vi!


II


Azul...


Lembra-te bem! Azul-celeste
Era essa alcova em que te amei.
O último beijo que me deste
Foi nessa alcova que o tomei!
É o firmamento que a reveste
Toda de um cálido fulgor:
- Um firmamento, em que puseste
Como uma estrela, o teu amor.


Lembras-te? Um dia me disseste:
"Tudo acabou!" E eu exclamei:
"Se vais partir, por que vieste?"
E às tuas plantas me arrastei...
Beijei a fimbria à tua veste,
Gritei de espanto, uivei de dor:
"Quem há que te ame e te requeste
Com febre igual ao meu amor?"


Por todo o mal que me fizeste,
Por todo o pranto que chorei,
- Como uma casa em que entra a peste,
Fecha essa casa em que fui rei!
Que nada mais perdure e reste
Desse passado embriagador:
E cubra a sombra de um cipreste
A sepultura deste amor!


Desbote-a o inverno! o estão a creste!
Abale-a o vento com fragor!
- Desabe a igreja azul-celeste
Em que oficiava o meu amor!


III


Verde...


Como era verde este caminho!
Que calmo o céu! que verde o mar!
E, entre festões, de ninho em ninho,
A Primavera a gorjear!...
Inda me exalta, como um vinho,
Esta fatal recordação!
Secou a flor, ficou o espinho...
Como me pesa a solidão!


Órfão de amor e de carinho,
Órfão da luz do teu olhar,
- Verde também, verde-marinho,
Que eu nunca mais hei de olvidar!
Sob a camisa, alva de linho,
Te palpitava o coração...
Ai! coração! peno e definho,
Longe de ti, na solidão!


Oh! tu, mais branca do que o arminho,
Mais pálida do que o luar!
- Da sepultura me avizinho,
Sempre que volto a este lugar...
E digo a cada passarinho:
"Não cantes mais! que essa canção
Vem me lembrar que estou sozinho,
No exílio desta solidão!"


No teu jardim, que desalinho!
Que falta faz a tua mão!
Como inda é verde este caminho...
Mas como o afeia a solidão!


IV


Negra...


Possas chorar, arrependida,
Vendo a saudade que aqui vai!
Vê que inda, negro, da ferida
Aos borbotões o sangue cai...
Que a nossa história, assim relida,
O nosso amor, lembrado assim,
Possam fazer-te, comovida,
Inda uma vez pensar em mim!


Minh'alma pobre e desvalida,
Órfã de mãe, órfã de pai,
Na escuridão vaga perdida,
De queda em queda e de ai em ai!
E ando a buscar-te. E a minha lida
Não tem descanso, não tem fim:
Quanto mais longe andas fugida,
Mais te vejo eu perto de mim!


Louco! e que lúgubre a descida
Para a loucura que me atrai!
- Terríveis páginas da vida,
Escuras páginas, - cantai!
Vim, ermitão, da minha ermida,
Morto, do meu sepulcro vim,
Erguer a lápida caída
Sobre a esperança que houve em mim!


Revivo a mágoa já vivida
E as velhas lágrimas... a fim
De que chorando, arrependida,
Possas lembrar-te inda de mim!


Velha Página


Chove. Que mágoa lá fora!
Que mágoa! Embruscam-se os ares
Sobre este rio que chora
Velhos e eternos pesares.


E sinto o que a terra sente
E a tristeza que diviso,
Eu, de teus olhos ausente,
Ausente de teu sorriso...


As asas loucas abrindo,
Meus versos, num longo anseio,
Morrerão, sem que, sorrindo,
Possa acolhê-los teu seio!


Ah! quem mandou que fizesses
Minh'alma da tua escrava,
E ouvisses as minhas preces,
Chorando como eu chorava?


Por que é que um dia me ouviste,
Tão pálida e alvoroçada,
E, como quem ama, triste,
Como quem ama, calada?


Tu tens um nome celeste...
Quem é do céu é sensível!
Por que é que me não disseste
Toda a verdade terrível?


Por que, fugindo impiedosa,
Desertas o nosso ninho?
- Era tão bela esta rosa!...
Já me tardava este espinho!


Fora melhor, porventura,
Ficar no antigo degredo
Que conhecer a ventura
Para perdê-la tão cedo!


Por que me ouviste, enxugando
O pranto das minhas faces?
Viste que eu vinha chorando...
Antes assim me deixasses!


Antes! Menor me seria
O sofrimento, querida!
Antes! a mão que alivia
A dor, e cura a ferida,


Não deve depois, tranqüila,
Vendo sufocada a mágoa,
Encher de sangue a pupila
Que já vira cheia de água...


Mas junto a mim que te falta?
Que glória maior te chama?
Não sei de glória mais alta
Do que a glória de quem ama!


Talvez te chame a riqueza...
Despreza-a, beija-me, e fica!
Verás que assim, com certeza,
Não há quem seja mais rica!


Como é que quebras os laços
Com que prendi o universo,
Entre os nossos quatro braços,
Na jaula azul do meu verso?


Como hei de eu, de hoje em diante,
Viver, depois que partires?
Como queres tu que eu cante
No dia em que não me ouvires?


Tem pena de mim! tem pena
De alma tão fraca! Como há de
Minh'alma, que é tão pequena,
Poder com tanta saudade?!


Vilfredo


LENDA DO RENO, GRANDMOUGIN


I


O castelo.


Sobre os rochedos, longe, o castelo aparece,
Dominando a extensão das florestas sombrias.
A tarde cai. O vento abranda. O ar escurece.
E Vilfredo caminha entre as neblinas frias.


Vai vê-la... E estuga o passo. Alto e silencioso,
Abre o castelo, em fogo, os vitrais das janelas.
Nas ameias, manchando o céu caliginoso,
Aprumam-se perfis de imóveis sentinelas.


Vilfredo vai ouvir a voz da sua Dama...
Mas, no seu coração perturbado, parece
Que vive, em vez do amor, essa ligeira chama,
Que arde apenas um dia, arde e desaparece...


E o arruinado solar, refletido no Reno,
Sobre o qual paira e pesa um sonho sobre-humano,
Sobe, entre os astros, só, furando o céu sereno,
Com a calma e o esplendor de um velho soberano.


II


As fadas da lagoa.



Vilfredo conheceu o amor nos braços d'Ela...
Teve-a nua, a tremer, nos braços, nua e fria!
Teve-a nos braços, louca, apaixonada e bela!
Mas parte, alucinado, antes que aponte o dia...


É que uma outra paixão o descuidado peito
Lhe entrou. Paixão cruel, loucura que o atordoa,
Desde o momento em que, formosas, sobre o leito
Das águas calmas, viu as fadas da lagoa.


Parte... À margem fatal da lagoa das fadas
Chega, e em êxtase fica, a riba em flor mirando.
Um ligeiro rumor de vozes abafadas
Aumenta... E exsurge da água o apaixonado bando.


Corre Vilfredo, em febre, a apertá-las ao seio,
E despreza o passado e esquece o juramento:
Beija-as, e, na expansão do carinhoso anseio,
Imola toda a vida aos beijos de um momento.


Para os seus corpos ter, toda a alma lhes entrega:
E, na alucinação do gozo em que se inflama,
Por esse amor, por essa embriaguez renega
O Deus dos seus avós, o amor da sua Dama...


III


O remorso.



Delira. Mas, depois do delírio sublime,
O remorso, imortal, nasce com o arrebol.
E ele mede a extensão do seu monstruoso crime,
E esconde a face à luz vingadora do sol.


Busca assustado a paz, busca chorando o olvido...
À volúpia infernal o coração vendeu,
E o inferno lhe reclama o coração vendido,
Cobrando em sangue e pranto o gozo que lhe deu.


Quer rezar, quer voltar ao seu fervor primeiro,
Quer nas lajes, de rojo, abominando o mal,
Ser de novo Cristão, Fiel e Cavaleiro:
Mas não encontra paz na paz da catedral.


Pobre! até no palor das faces maceradas
Das monjas, cuida ver as faces que beijou;
Ah! seios de marfim! ah! bocas perfumadas!
Recordação cruel de um Éden que acabou!


Parte só, sem destino, errando, a passo incerto,
Por montes e rechãs, no inverno e no verão,
E por anos sem conta habitando o deserto,
Sem lágrimas no olhar, sem fé no coração.


Das florestas sem fim sob a abóbada escura
Ouve, nos alcantis de em torno, a água rolar;
Sobre ele, a longa voz das árvores murmura,
E o vendaval retorce os ramos negros no ar.


Mas à fera, ao inseto, ao limo verde, ao vento,
Ao sol, ao rio, ao vale, à rocha, à serpe, à flor
É em vão que Vilfredo implora o esquecimento
Do seu amor cruel, do seu horrendo amor...


IV
O castigo.


Volta... Nem luta já contra o crime que o atrai.
Velho e trôpego vem, mendigo esfarrapado,
E exânime, por fim, num calefrio, cai
Sem consciência, ao pé das águas do Pecado.


Calma. A noite caiu. Nem um pássaro voa.
Não piam no silêncio as aves agoireiras.
Mas palpitam, luzindo, à beira da lagoa,
Fogos-fátuos subtis sobre as ervas rasteiras.


E, então, Vilfredo vê, presa de um medo
Do denso turbilhão dos fogos repentinos,
Com tentações no olhar e convites na voz
Surgirem turbilhões de corpos femininos.


E o Inferno pela voz dos fogos-fátuos fala!
Vilfredo foge. O horror vai com ele, inclemente!
Foge. E corre, e vacila, e tropeça, e resvala,
E levanta-se, e foge alucinadamente...


Em vão! pesa sobre ele um destino fatal:
E o louco, em todo o horror dos campos tenebrosos,
Vê fechar-se e prendê-lo a cadeia infernal
Da infernal multidão dos Elfes amorosos...


Tédio


Sobre minh'alma, como sobre um trono,
Senhor brutal, pesa o aborrecimento.
Como tardas em vir, último outono,
Lançar-me as folhas últimas ao vento!


Oh! dormir no silêncio e no abandono,
Só, sem um sonho, sem um pensamento,
E, no letargo do aniquilamento,
Ter, ó pedra, a quietude do teu sono!


Oh! deixar de sonhar o que não vejo!
Ter o sangue gelado, e a carne fria!
E, de uma luz crepuscular velada,


Deixar a alma dormir sem um desejo,
Ampla, fúnebre, lúgubre, vazia
Como uma catedral abandonada!...


A Voz do Amor


Nessa pupila rútila e molhada,
Refúgio arcano e sacro da Ternura,
A ampla noite do gozo e da loucura
Se desenrola, quente e embalsamada.


E quando a ansiosa vista desvairada
Embebo às vezes nessa noite escura,
Dela rompe uma voz, que, entrecortada
De soluços e cânticos, murmura...


É a voz do Amor, que, em teu olhar falando,
Num concerto de súplicas e gritos
Conta a história de todos os amores;


E vêm por ela, rindo e blasfemando,
Almas serenas, corações aflitos,
Tempestades de lágrimas e flores...


Velhas Árvores


Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...


O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.


Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:


Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!


Maldição


Se por vinte anos, nesta furna escura,
Deixei dormir a minha maldição,
- Hoje, velha e cansada da amargura,
Minh'alma se abrirá como um vulcão.


E, em torrentes de cólera e loucura,
Sobre a tua cabeça ferverão
Vinte anos de silêncio e de tortura,
Vinte anos de agonia e solidão...


Maldita sejas pelo Ideal perdido!
Pelo mal que fizeste sem querer!
Pelo amor que morreu sem ter nascido!


Pelas horas vividas sem prazer!
Pela tristeza do que eu tenho sido!
Pelo esplendor do que eu deixei de ser!...


Requiescat


Por que me vens, com o mesmo riso,
Por que me vens, com a mesma voz,
Lembrar aquele Paraíso,
Extinto para nós?


Por que levantas esta lousa?
Por que, entre as sombras funerais,
Vens acordar o que repousa,
O que não vive mais?


Ah! esqueçamos, esqueçamos
Que foste minha e que fui teu:
Não lembres mais que nos amamos,
Que o nosso amor morreu!


O amor é uma árvore ampla, e rica
De frutos de ouro, e de embriaguez:
Infelizmente, frutifica
Apenas uma vez...


Sob essas ramas perfumadas,
Teus beijos todos eram meus:
E as nossas almas abraçadas
Fugiam para Deus.


Mas os teus beijos esfriaram.
Lembra-te bem! lembra-te bem!
E as folhas pálidas murcharam,
E o nosso amor também.


Ah! frutos de ouro, que colhemos,
Frutos da cálida estação,
Com que delícia vos mordemos,
Com que sofreguidão!



Lembras-te? os frutos eram doces...
Se ainda os pudéssemos provar!
Se eu fosse teu... se minha fosses,
E eu te pudesse amar...


Em vão, porém, me beijas, louca!
Teu beijo, a palpitar e a arder,
Não achará, na minha boca,
Outro para o acolher.


Não há mais beijos, nem mais pranto!
Lembras-te? quando te perdi
Beijei-te tanto, chorei tanto,
Com tanto amor por ti,


Que os olhos, vês? já tenho enxutos,
E a minha boca se cansou:
A árvore já não tem mais frutos!
Adeus! tudo acabou!


Outras paixões, outras idades!
Sejam os nossos corações
Dois relicários de saudades
E de recordações.


Ah! esqueçamos, esqueçamos!
Durma tranqüilo o nosso amor
Na cova rasa onde o enterramos
Entre os rosais em flor...


Surdina


No ar sossegado um sino canta,
Um sino canta no ar sombrio...
Pálida, Vênus se levanta...
Que frio!


Um sino canta. O campanário
Longe, entre névoas, aparece...
Sino, que cantas solitário,
Que quer dizer a tua prece?


Que frio! embuçam-se as colinas;
Chora, correndo, a água do rio;
E o céu se cobre de neblinas.
Que frio!


Ninguém... A estrada, ampla e silente,
Sem caminhantes, adormece...
Sino, que cantas docemente,
Que quer dizer a tua prece?


Que medo pânico me aperta
O coração triste e vazio!
Que esperas mais, alma deserta?
Que frio!


Já tanto amei! já sofri tanto!
Olhos, por que inda estais molhados?
Por que é que choro, a ouvir-te o canto,
Sino que dobras a finados?


Trevas, caí! que o dia é morto!
Morre também, sonho erradio!
A morte é o último conforto...
Que frio!


Pobres amores, sem destino,
Soltos ao vento, e dizimados!
Inda vos choro... E, como um sino,
Meu coração dobra a finados.


E com que mágoa o sino canta,
No ar sossegado, no ar sombrio!
- Pálida, Vênus se levanta.
Que frio!


Última Página


Primavera. Um sorriso aberto em tudo. Os ramos
Numa palpitação de flores e de ninhos.
Doirava o sol de outubro a areia dos caminhos
(Lembras-te, Rosa?) e ao sol de outubro nos amamos.


Verão. (Lembras-te, Dulce?) À beira-mar, sozinhos.
Tentou-nos o pecado: olhaste-me... e pecamos;
E o outono desfolhava os roseirais vizinhos,
Ó Laura, a vez primeira em que nos abraçamos...


Veio o inverno. Porém, sentada em meus joelhos,
Nua, presos aos meus os teus lábios vermelhos,
(Lembras-te, Branca?) ardia a tua carne em flor...


Carne, que queres mais? Coração, que mais queres?
Passam as estações e passam as mulheres...
E eu tenho amado tanto! e não conheço o Amor!

ALDOUS HUXLEY


ADMIRÁVEL MUNDO NOVO



Aldous Huxley



Será admirável o nosso novo mundo? A quem serve esta civilização que se diz moderna e funcional e, ao aparato das técnicas, sacrifica o espírito?... O espírito, considerado realidade menor, o espírito tolerado, quando não reprimido... Qual, o lugar do homem, numa sociedade dominada pela máquina? Qual, o caminho para o Indivíduo que reivindique a liberdade interior e o direito à sua... individualidade, à sua singularidade? Para o Indivíduo que queira caminhar pêlos próprios pés? Aldous Huxley, um dos maiores escritores contemporâneos, descreve, em «Admirável Mundo Novo», com fantasia e ironia implacável, a sociedade futura totalitarista. Simplesmente, o universo que o grande romancista inglês anima pertence, de certo modo, aos nossos dias. Quase já não pode considerar-se uma ameaça: tomou corpo. O que empresta à leitura desta obra uma força trágica invulgar. Mundo novo? Mundo intolerável? Mundo inabitável? Mundo de onde se deve fugir, de qualquer maneira? Ou, mundo a reconstruir- pedra por pedra? Com uma pureza reconquistada? Aldous Huxley deixa-lhe este montinho de problemas que o leitor poderá- se quiser e souber... - resolver...

PREFÁCIO DO AUTOR

(1946)

O remorso crónico, e com isto todos os moralistas estão de acordo, é um sentimento bastante indesejável. Se considerais ter agido mal, arrependei-vos, corrigi os vossos erros na medida do possível e tentai conduzir-vos melhor na próxima vez. E não vos entregueis, sob nenhum pretexto, à meditação melancólica das vossas faltas. Rebolar no lodo não é, com certeza, a melhor maneira de alguém se lavar.

Também a arte tem a sua moral e grande parte das regras dessa moral são idênticas, ou pelo menos análogas, às regras da ética vulgar. O remorso, por exemplo, é tão indesejável no que diz respeito à nossa má conduta como no que se relaciona com a nossa má arte. O que aí existe de mau deve ser encontrado, reconhecido e, se possível, evitado no futuro. Meditar longamente sobre as fraquezas literárias de há vinte anos, tentar remendar uma obra defeituosa para lhe dar uma perfeição que ela não tinha quando da sua primitiva execução, passar a idade madura a tentar remediar os pecados artísticos cometidos e legados por essa pessoa diferente que cada um é na sua juventude, tudo isto, certamente, é vão e fútil. E eis porque este actual Admirável Mundo Novo é o mesmo que o antigo. Os seus defeitos, como obra de arte, são consideráveis; mas para os corrigir ser-me-ia necessário escrever novamente o livro, e durante essse novo trabalho de redacção, ao qual me entregaria na qualidade de pessoa mais velha e diferente, destruiria provavelmente não apenas alguns defeitos do romance, mas também os méritos que ele poderia ter possuído na origem. Por esta razão, resistindo à tentação de me rebolar no remorso artístico, prefiro considerar que o óptimo é inimigo do bom e depois pensar noutra coisa.

No entanto, parece-me ser útil citar pelo menos o mais sério defeito do romance, que é o seguinte: apenas é oferecida ao Selvagem uma única alternativa: uma vida demente na Utopia, OU a vida de um primitivo na aldeia dos índios, vida mais humana, sob certos pontos de vista, mas, noutros, apenas menos bizarra e anormal.

Na época em que o livro foi escrito, a ideia segundo a qual o livre-arbítrio foi concedido aos seres humanos para que pudessem escolher entre a demência, por um lado, e a loucura, por outro, era uma noção que eu achava divertida e considerava como podendo perfeitamente ser verdadeira. Todavia, por amor ao efeito dramático, é permitido frequentemente ao Selvagem falar de uma maneira mais racional que a que seria justificada pela sua educação entre os praticantes de uma religião que é metade culto da fecundidade e metade a ferocidade do Penitente. No fim, bem entendido, ele recuará perante a razão: o seu Penitente-ismo natal reafirma a sua autoridade, e ele acaba na tortura demente que a si próprio inflige e no suicídio sem esperança. «E foi assim que eles continuaram morrendo miseravelmente», o que muito tranquilizou o esteta divertido e pirrónico que era o autor da fábula.

Não tenho hoje nenhum desejo de demonstrar que é impossível ser-se são de espírito. Pelo contrário. Se bem que verifique, não menos tristemente que outrora, que a saúde do espírito é um fenómeno muito raro, estou convencido de que pode ser conseguida e gostaria de a ver mais espalhada. Por tê-lo dito em vários livros recentes e, principalmente, por ter elaborado uma antologia daquilo que os sãos de espírito dizem sobre a saúde do mesmo e sobre todos os meios pelos quais ela pode ser atingida, fui acusado por um eminente crítico académico de ser um deplorável sintoma da falência dos intelectuais em tempo de crise. Este julgamento subentende, suponho, que o professor e os seus colegas são alegres sintomas de sucesso. Os benfeitores da humanidade merecem congruentemente a honra e a comemoração. Edifiquemos um panteão para os professores. Seria bom que ele ficasse situado entre as ruínas de uma das estripadas cidades da Europa ou do Japão. E no pórtico de entrada do ossário inscreveria eu, em letras com dois metros de altura, estas simples palavras:

À MEMÓRIA DOS EDUCADORES DO MUNDO

SI MONUMENTUM REQUIRIS CIRCUMSPICE

Mas voltando ao futuro... Se eu tornasse agora a escrever este livro, daria ao selvagem uma terceira possibilidade. Entre as soluções utópica e primitiva do seu dilema haveria a possibilidade de uma existência sã de espírito - possibilidade actualizada, em certa medida, entre uma comunidade de exilados e refugiados que teriam abandonado o Admirável Mundo Novo e viveriam dentro dos limites de uma Reserva. Nessa comunidade, a economia seria descentralizada, à Henry George, a política seria kropotkinesca, cooperativa. A ciência e a técnica seriam utilizadas como se tivessem sido feitas para o homem, e não (como são presentemente e como serão ainda mais no mais admirável dos mundos novos) como se o homem tivesse de ser adaptado e absorvido por elas. A religião seria a procura consciente e inteligente do Fim Ültimo do Homem, o conhecimento unitivo do Tao ou Logos imanente, da Divindade ou Brama transcendente. E a filosofia dominante da vida seria uma espécie de Utilitarismo Superior, no qual o princípio da Felicidade Máxima seria subordinado ao princípio do Fim último, sendo a primeira questão que se punha e à qual seria necessário responder, em cada uma das contingências da vida, a seguinte: «Como contribuirão ou porão obstáculos à realização, por mim ou pelo maior número possível de indivíduos, do Fim último do Homem, este pensamento ou este acto?»

Educado entre primitivos, o Selvagem (nesta nova e hipotética versão do livro) só seria transportado para a Utopia após ter tido ocasião de se informar conscientemente sobre a existência de uma sociedade composta de indivíduos cooperando livremente e consagrando-se à procura da saúde do espírito. Assim modificado, o Admirável Mundo Novo possuiria qualquer coisa de completo, artisticamente e (se é permitido empregar uma tão importante palavra acerca de uma obra de imaginação) filosoficamente, que lhe falta, com toda a evidência, sob a sua actual forma.

Sobre o futuro não pode interessar-nos, a não ser que as suas profecias tenham a aparência de coisas cuja realização se pode conceber. Do nosso ponto de vista actual, quinze anos mais abaixo no plano inclinado da história moderna, qual é o grau de plausibilidade que ainda possuem os seus vaticínios? Que se passa durante este doloroso intervalo para confirmar ou invalidar as previsões de 1931?

Há um enorme e manifesto defeito de previsão que imediatamente se verifica. O Admirável Mundo Novo não faz a menor alusão à cisão nuclear. De facto, é extremamente curioso que assim seja, pois as possibilidades da energia atómica constituíam já um preponderante assunto de conversa alguns anos antes de o livro ter sido escrito. O meu velho amigo Robert Nichols tinha mesmo escrito a esse respeito uma peça de sucesso, e lembro-me de eu próprio ter dito umas palavras, de passagem, num romance publicado nos últimos anos da década de vinte. Parece-me portanto, como digo, muito curioso que os foguetões e os helicópteros do sétimo século de Nosso Ford (I.) não tenham possuído como força motriz núcleos de desintegração. Este esquecimento pode não ser desculpável, mas, pelo menos, pode ser explicado facilmente. O tema do Admirável Mundo Novo não é o progresso da ciência propriamente dita - é o progreSso da ciência no que diz respeito aos indivíduos humanos. Os triunfos da química, da física e da arte do engenheiro são considerados tacitamente como progredindo com normalidade. Os únicos progressos científicos que são explicitamente descritos são aqueles que interessam à aplicação aos seres humanos das futuras pesquisas em biologia, fisiologia e psicologia. É unicamente devido às ciências da vida que a vida poderá ser modificada radicalmente. As ciências da matéria podem ser aplicadas de tal maneira que destruam a vida ou que tornem a existência inadmissivelmente complexa e inconfortável; mas, -a não ser que sejam utilizadas como instrumentos pelos biólogos e psicólogos, são impotentes para modificar as formas e as expressões naturais da própria vida. A libertação da energia atómica assinala uma grande revolução na história humana, mas não (a não ser que nos façamos saltar em pedaços e punhamos, assim, fim à história) a revolução final e a mais profunda.

A revolução verdadeiramente revolucionária realizar-se-á não no mundo exterior, mas na alma e na carne dos seres humanos. Vivendo, como viveu, numa época revolucionária, o marquês de Sade serviu-se muito naturalmente dessa teoria das revoluções a fim de racionalizar o seu género particular de demência. Robespierre tinha realizado o género mais superficial de revolução: a política. Penetrando um pouco mais profundamente, Babeuf tentara a revolução económica. Sade considerava-se como o apóstolo da revolução verdadeiramente revolucionária, para além da simples revolução política e económica - da revolução dos homens, das mulheres e das crianças individuais, para quem o corpo se iria tornar daí em diante a propriedade sexual comum a todos e para quem o espírito deveria ser purgado de todos os pudores naturais, de todas as inibições laboriosamente adquiridas pela civilização tradicional. Não existe, é claro, nenhum laço necessário ou inevitável entre o sadismo e a revolução verdadeiramente revolucionária. Sade era um louco, e o fim mais ou menos consciente da sua revolução era o caos e a destruição universal. Os indivíduos que governam o Admirável Mundo Novo podem não ser sãos de espírito (no sentido absoluto desta palavra), mas não são loucos, e o seu fim não é a anarquia, mas a estabilidade social. É com o fim de assegurar a estabilidade que eles efectuam, por meios científicos, a revolução última pessoal, verdadeiramente revolucionária.

Mas por enquanto encontramo-nos na primeira fase daquilo que é, talvez, a penúltima revolução.

Pode acontecer que a fase seguinte seja a guerra atómica e, nesse caso, não teremos que nos preocupar com profecias acerca do futuro. Mas é possível que consigamos ter suficiente bom senso, se não para acabar completamente com as guerras, pelo menos para nos conduzirmos tão razoavelmente como os nossos antepassados do século XVIII. Os inacreditáveis horrores da Guerra dos Trinta Anos ensinaram alguma coisa aos homens e durante mais de cem anos os políticos e generais da Europa resistiram conscientemente à tentação de usar os seus recursos militares até ao limite da sua capacidade de destruição ou (na maior parte dos conflitos) de continuar a lutar até que o inimigo fosse completamente destruído. Eram agressivos, bem entendido, ávidos de lucro e de glória, mas eram igualmente conservadores, resolvidos a conservar intacto, a todo o preço, o seu mundo, na medida em que o consideravam uma florescente empresa. Durante os últimos trinta anos não têm existido conservadores; apenas tem havido radicais-nacionalistas das esquerdas e radicais-nacionalistas das direitas. O último homem de Estado conservador foi o quinto marquês de Lansdowne. E quando ele escreveu uma carta ao Times sugerindo pôr fim à guerra por um compromisso, como tinha sido feito na maioria das guerras do século XVIII, o redactor-chefe desse jornal, antes conservador, recusou a sua publicação. Os radicais-nacionalistas fizeram o que lhes apeteceu, com as consequências que todos nós conhecemos - o bolchevismo, o fascismo, a inflação, a crise económica, Hitler, a Segunda Guerra Mundial, a ruína da Europa e a quase completa fome universal.

(I.) Trocadilho com Our Lord (Nosso Senhor). (N. do T.)

Admitindo, pois, que sejamos capazes de tirar de Hiroxima uma lição equivalente à que os nossos antepassados tiraram de Magdeburgo, podemos encarar um período não certamente de paz, mas de guerra limitada, que seja apenas parcialmente ruinosa. Durante esse período pode-se admitir que a energia nuclear seja aplicada a usos industriais. O resultado - e o facto é bastante evidente- será uma série de mudanças económicas e sociais mais rápidas e mais completas que tudo que até agora foi visto. Todas as formas gerais existentes da vida humana serão quebradas e será necessário improvisar formas novas que se adaptem a esse facto não humano que é a energia atómica. Procusto moderno, o sábio de pesquisas nucleares prepara a cama em que a humanidade se deverá deitar; se a humanidade não se adaptar a ela, tanto pior para a humanidade. Será necessário proceder a algumas ampliações e a algumas amputações - o mesmo género de ampliações e amputações que se verificaram desde que a ciência aplicada se pôs realmente a caminhar com a sua própria cadência. Mas desta vez serão consideravelmente mais rigorosas que no passado. Estas operações, que estão longe de ser feitas sem dor, serão dirigidas por governos totalitários eminentemente centralizados.

É uma coisa inevitável, pois o futuro imediato tem grandes probabilidades de se parecer com o passado imediato, e no passado imediato as mudanças tecnológicas rápidas, efectuando-se numa economia de produção em massa e entre uma populaÇão onde a grande maioria dos indivíduos nada possui, têm tido sempre a tendência para criar uma confusão económica e social. A fim de reduzir essa confusão, o poder tem sido centralizado e o controle governamental aumentado. É provável que todos os governos do Mundo venham a ser mais ou menos totalitários, mesmo antes da utilização prática da energia atómica; que eles serão totalitários durante e após essa utilização prática, eis o que parece quase certo. Só um movimento popular em grande escala, tendo em vista a descentralização e o auxílio individual, poderá travar a actual tendência para o estatismo. E não existe presentemente nenhum sinal que permita pensar que tal movimento venha a ter lugar.

Não há nenhuma razão, bem entendido, para que os novos totalitarismos se pareçam com os antigos. O governo por meio de cacetes e de pelotões de execução, de fomes artificiais, de detenções e deportações em massa não é somente desumano (parece que isso não inquieta muitas pessoas, actualmente); é

- pode demonstrar-se - ineficaz. E numa era de técnica avançada a ineficácia é pecado contra o Espírito Santo. Um estado totalitário verdadeiramente «eficiente» será aquele em que o todo-poderoso comíté executivo dos chefes políticos e o seu exército de directores terá o controle de uma população de escravos que será inútil constranger, pois todos eles terão amor à sua servidão. Fazer que eles a amem, tal será a tarefa, atribuída nos estados totalitários de hoje aos ministérios de propaganda, aos redactores-chefes dos jornais e aos mestres-escolas. Mas os seus métodos são ainda grosseiros e não científicos. Os jesuítas gabavam-se, outrora, de poderem, se lhes fosse confiada a instrução da criança, responder pelas opiniões religiosas do homem. Mas aí tratava-se de um caso de desejos tomados por realidades. E o pedagogo moderno é provavelmente menos eficaz, no condicionamento dos reflexos dos seus alunos, do que o foram os reverendos padres que educaram Voltaire. Os maiores triunfos, em matéria de propaganda, foram conseguidos não com fazer qualquer coisa, mas com a abstenção de a fazer. Grande é a verdade, mas maior ainda, do ponto de vista prático, é o silêncio a respeito da verdade. Abstendo-se simplesmente de mencionar alguns assuntos, baixando aquilo a que o Sr. Churchil chama uma «cortina de ferro» entre as massas e certos factos que os chefes políticos locais consideram como indesejáveis, os propagandistas totalitários têm influenciado a opinião de uma maneira bastante mais eficaz do que teriam podido fazê-lo Por meio de denúncias eloquentes ou das mais convincentes e lógicas refutações. Mas o silêncio não basta. Para que sejam evitados a perseguição, a liquidação e outros sintomas de atritos sociais, é necessário que o lado positivo da propaganda seja tão eficaz como o negativo. Os mais importantes Manhattan Projects do futuro serão vastos inquéritos instituídos pelo governo sobre aquilo a que os homens políticos e os homens de ciência que nele participarão chamarão o problema da felicidade - noutros termos: o problema que consiste em fazer os indivíduos amar a sua servidão. Sem segurança económica, não tem o amor pela servidão nenhuma possibilidade de se desenvolver; admito, para resumir, que a todo-poderosa comissão executiva e os seus directores conseguirão resolver o problema da segurança permanente. Mas a segurança tem tendência para ser muito rapidamente considerada como caminhando por si própria. A sua realização é simplesmente uma revolução superficial, -exterior. O amor à servidão não pode ser estabelecido senão como resultado de uma revolução profunda, pessoal, nos espíritos e nos corpos humanos. Para efectuar esta revolução necessitaremos, entre outras, das descobertas e invenções seguintes: Primo - uma técnica muito melhorada da sugestão, por meio do condicionamento na infância e, mais tarde, com a ajuda de drogas, tais como a escopolamina. Secundo - um conhecimento cientifico e perfeito das diferenças humanas que permita aos dirigentes governamentais destinar a todo o indivíduo determinado o seu lugar conveniente na hierarquia social e económica - as cunhas redondas nos buracos quadrados (I.) possuem tendência para ter ideias perigosas acerca do sistema social e para contaminar os outros com o seu descontentamento. Tertio (pois a realidade, por mais utópica que seja, é uma coisa de que todos temos necessidade de nos evadir frequentemente) - um sucedâneo do álcool e de outros narcóticos, qualquer coisa que seja simultaneamente menos nociva e mais dispensadora de prazeres que a genebra ou a heroína. Quarto (isto será um projecto a longo prazo, que exigirá, para chegar a uma conclusão satisfatória, várias gerações de controle totalitário) - um sistema eugénico perfeito, concebido de maneira a estandardizar o produto humano e a facilitar, assim, a tarefa dos dirigentes.

No Admirável Mundo Novo esta estandardização dos produtos humanos foi levada a extremos fantásticos, se bem que talvez não impossíveis. Técnica e ideologicamente, estamos ainda muito longe dos bebés em proveta e dos grupos Bokanovsky de semi-imbecis. Mas quando for ultrapassado o ano 600 de N. F., quem sabe o que poderá acontecer? Daqui até lá, as outras características desse mundo mais feliz e mais estável - os equivalentes do soma, da hipnopedia e do sistema científico das castas - não estão provavelmente afastadas mais de três ou quatro gerações. E a promiscuidade sexual do Admirável Mundo Novo também não parece estar muito afastada. Existem já certas cidades americanas onde o número de divórcios é igual ao número de casamentos. Dentro de alguns anos, sem dúvida, passar-se-ão licenças de casamento como se passam licenças de cães, válidas para um período de doze meses, sem nenhum regulamento que proíba a troca do cão ou a posse de mais de um animal de cada vez. À medida que a liberdade económica e política diminui, a liberdade sexual tem tendência para aumentar, como compensação. E o ditador (a não ser que tenha necessidade de carne para canhão e de famílias para colonizar os territórios desabitados ou conquistados) fará bem em encorajar esta liberdade. juntamente com a liberdade de sonhar em pleno dia sob a influência de drogas, do cinema e da rádio, ela contribuirá para reconciliar os seus súbditos com a servidão que lhes estará destinada.

Vendo bem, parece que a Utopia está mais próxima de nós do que se poderia imaginar há apenas quinze anos. Nessa época coloquei-a à distância futura de seiscentos anos. Hoje parece Praticamente possível que esse horror se abata sobre nós dentro de um século. Isto se nos abstivermos, até lá, de nos fazermos explodir em bocadinhos. Na verdade, a menos que nos decidamos a descentralizar e a utilizar a ciência aplicada não com o fim de reduzir os seres humanos a simples instrumentos, mas como meio de produzir uma raça de indivíduos livres, apenas podemos escolher entre duas soluções: ou um certo número de totalitarismos nacionais, militarizados, tendo como base o terror da bomba atómica e como consequência a destruição da civilização (ou, se a guerra for limitada, a perpetuação do militarismo), ou um único totalitarismo internacional, suscitado pelo caos social resultante do rápido progresso técnico em geral e da revolução atómica em particular, desenvolvendo-se, sob a pressão da eficiência e da estabilidade, no sentido da tirania-providência da Utopia. É pagar e escolher.




(I.) Expressão metafórica inglesa que designa um indivíduo que está num lugar que lhe não é próprio. (N. do T.)

quinta-feira, 24 de março de 2011

MACHADO DE ASSIS: OCIDENTAIS




Ocidentais




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Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. III,

Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.



Publicado originalmente em Poesias Completas, Rio de Janeiro: Garnier, 1901.









ÍNDICE


O DESFECHO



CÍRCULO VICIOSO



UMA CRIATURA



A ARTUR DE OLIVEIRA, ENFERMO



MUNDO INTERIOR



O CORVO



PERGUNTAS SEM RESPOSTA



TO BE OR NOT TO BE



LINDÓIA



SUAVE MARI MAGNO



A MOSCA AZUL



ANTONIO JOSÉ



ESPINOSA



GONÇALVES CRESPO



ALENCAR



CAMÕES



JOSÉ DE ANCHIETA



SONETO DE NATAL



OS ANIMAIS ISCADOS DA PESTE



DANTE



A FELÍCIO DOS SANTOS



MARIA



A UMA SENHORA QUE ME PEDIU VERSOS



CLÓDIA



NO ALTO















O DESFECHO



Prometeu sacudiu os braços manietados

E súplice pediu a eterna compaixão,

Ao ver o desfilar dos séculos que vão

Pausadamente, como um dobre de finados.



Mais dez, mais cem, mais mil e mais um bilião,

Uns cingidos de luz, outros ensangüentados...

Súbito, sacudindo as asas de tufão,

Fita-lhe a água em cima os olhos espantados.



Pela primeira vez a víscera do herói,

Que a imensa ave do céu perpetuamente rói,

Deixou de renascer às raivas que a consomem.



Uma invisível mão as cadeias dilui;

Frio, inerte, ao abismo um corpo morto rui;

Acabara o suplício e acabara o homem.







CÍRCULO VICIOSO



Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:

— "Quem me dera que fosse aquela loura estrela,

Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"

Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:



— "Pudesse eu copiar o transparente lume,

Que, da grega coluna à gótica janela,

Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!"

Mas a lua, fitando o sol, com azedume:



— "Mísera! tivesse eu aquela enorme, àquela

Claridade imortal, que toda a luz resume!"

Mas o sol, inclinando a rútila capela:



— "Pesa-me esta brilhante auréola de nume...

Enfara-me esta azul e desmedida umbela...

Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"





UMA CRIATURA



Sei de uma criatura antiga e formidável,

Que a si mesma devora os membros e as entranhas

Com a sofreguidão da fome insaciável.



Habita juntamente os vales e as montanhas;

E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,

Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.



Traz impresso na fronte o obscuro despotismo;

Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,

Parece uma expansão de amor e de egoísmo.



Friamente contempla o desespero e o gozo,

Gosta do colibri, como gosta do verme,

E cinge ao coração o belo e o monstruoso.



Para ela o chacal é, como a rola, inerme;

E caminha na terra imperturbável, como

Pelo vasto areal um vasto paquiderme.



Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo

Vem a folha, que lento e lento se desdobra,

Depois a flor, depois o suspirado pomo.



Pois essa criatura está em toda a obra:

Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;

E é nesse destruir que as suas forças dobra.



Ama de igual amor o poluto e o impoluto;

Começa e recomeça uma perpétua lida,

E sorrindo obedece ao divino estatuto.

Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.





A ARTUR DE OLIVEIRA, ENFERMO



Sabes tu de um poeta enorme

Que andar não usa

No chão, e cuja estranha musa,

Que nunca dorme,



Calça o pé, melindroso e leve,

Como uma pluma,

De folha e flor, de sol e neve,

Cristal e espuma;



E mergulha, como Leandro,

A forma rara

No Pó, no Sena, em Guanabara

E no Escamandro;



Ouve a Tupã e escuta a Momo,

Sem controvérsia,

E tanto ama o trabalho, como

Adora a inércia;



Ora do fuste, ora da ogiva,

Sair parece;

Ora o Deus do ocidente esquece

Pelo deus Siva;



Gosta do estrépito infinito,

Gosta das longas

Solidões em que se ouve o grito

Das arapongas;



E, se ama o lépido besouro,

Que zumbe, zumbe,

E a mariposa que sucumbe

Na flama de ouro,



Vaga-lumes e borboletas,

Da cor da chama,

Roxas, brancas, rajadas, pretas,

Não menos ama



Os hipopótamos tranqüilos,

E os elefantes,

E mais os búfalos nadantes

E os crocodilos,



Como as girafas e as panteras,

Onças, condores,

Toda a casta de bestas-feras

E voadores.



Se não sabes quem ele seja

Trepa de um salto,

Azul acima, onde mais alto

A águia negreja;



Onde morre o clamor iníquo

Dos violentos,

Onde não chega o riso oblíquo

Dos fraudulentos;



Então, olha de cima posto

Para o oceano,

Verás num longo rosto humano

Teu próprio rosto.



E hás de rir, não do riso antigo,

Potente e largo,

Riso de eterno moço amigo,

Mas de outro amargo,



Como o riso de um deus enfermo

Que se aborrece

Da divindade, e que apetece

Também um termo...





MUNDO INTERIOR



Ouço que a Natureza é uma lauda eterna

De pompa, de fulgor, de movimento e lida,

Uma escala de luz, uma escala de vida

De sol à ínfima luzerna.



Ouço que a natureza, — a natureza externa, —

Tem o olhar que namora, e o gesto que intimida

Feiticeira que ceva uma hidra de Lerna

Entre as flores da bela Armida.



E contudo, se fecho os olhos, e mergulho

Dentro em mim, vejo à luz de outro sol, outro abismo

Em que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho,



Rola a vida imortal e o eterno cataclismo,

E, como o outro, guarda em seu âmbito enorme,

Um segredo que atrai, que desafia — e dorme.





O CORVO



(EDGAR POE)



Em certo dia, à hora, à hora

Da meia-noite que apavora,

Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,

Ao pé de muita lauda antiga,

De uma velha doutrina, agora morta,

Ia pensando, quando ouvi à porta

Do meu quarto um soar devagarinho,

E disse estas palavras tais:

"É alguém que me bate à porta de mansinho;

Há de ser isso e nada mais."



Ah! bem me lembro! bem me lembro!

Era no glacial dezembro;

Cada brasa do lar sobre o chão refletia

A sua última agonia.

Eu, ansioso pelo sol, buscava

Sacar daqueles livros que estudava

Repouso (em vão!) à dor esmagadora

Destas saudades imortais

Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.

E que ninguém chamará mais.



E o rumor triste, vago, brando

Das cortinas ia acordando

Dentro em meu coração um rumor não sabido,

Nunca por ele padecido.

Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,

Levantei-me de pronto, e: "Com efeito,

(Disse) é visita amiga e retardada

Que bate a estas horas tais.

É visita que pede à minha porta entrada:

Há de ser isso e nada mais."



Minh'alma então sentiu-se forte;

Não mais vacilo e desta sorte

Falo: "Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,

Me desculpeis tanta demora.

Mas como eu, precisando de descanso,

Já cochilava, e tão de manso e manso

Batestes, não fui logo, prestemente,

Certificar-me que aí estais."

Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,

Somente a noite, e nada mais.



Com longo olhar escruto a sombra,

Que me amedronta, que me assombra,

E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,

Mas o silêncio amplo e calado,

Calado fica; a quietação quieta;

Só tu, palavra única e dileta,

Lenora, tu, como um suspiro escasso,

Da minha triste boca sais;

E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;

Foi isso apenas, nada mais.



Entro coa alma incendiada.

Logo depois outra pancada

Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:

"Seguramente, há na janela

Alguma cousa que sussurra. Abramos,

Eia, fora o temor, eia, vejamos

A explicação do caso misterioso

Dessas duas pancadas tais.

Devolvamos a paz ao coração medroso,

Obra do vento e nada mais."



Abro a janela, e de repente,

Vejo tumultuosamente

Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.

Não despendeu em cortesias

Um minuto, um instante. Tinha o aspecto

De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,

Movendo no ar as suas negras alas,

Acima voa dos portais,

Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;

Trepado fica, e nada mais.



Diante da ave feia e escura,

Naquela rígida postura,

Com o gesto severo, — o triste pensamento

Sorriu-me ali por um momento,

E eu disse: "O tu que das noturnas plagas

Vens, embora a cabeça nua tragas,

Sem topete, não és ave medrosa,

Dize os teus nomes senhoriais;

Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"

E o corvo disse: "Nunca mais".



Vendo que o pássaro entendia

A pergunta que lhe eu fazia,

Fico atônito, embora a resposta que dera

Dificilmente lha entendera.

Na verdade, jamais homem há visto

Cousa na terra semelhante a isto:

Uma ave negra, friamente posta

Num busto, acima dos portais,

Ouvir uma pergunta e dizer em resposta

Que este é seu nome: "Nunca mais".



No entanto, o corvo solitário

Não teve outro vocabulário,

Como se essa palavra escassa que ali disse

Toda a sua alma resumisse.

Nenhuma outra proferiu, nenhuma,

Não chegou a mexer uma só pluma,

Até que eu murmurei: "Perdi outrora

Tantos amigos tão leais!

Perderei também este em regressando a aurora."

E o corvo disse: "Nunca mais!"



Estremeço. A resposta ouvida

É tão exata! é tão cabida!

"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência

Que ele trouxe da convivência

De algum mestre infeliz e acabrunhado

Que o implacável destino há castigado

Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,

Que dos seus cantos usuais

Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,

Esse estribilho: "Nunca mais".



Segunda vez, nesse momento,

Sorriu-me o triste pensamento;

Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;

E mergulhando no veludo

Da poltrona que eu mesmo ali trouxera

Achar procuro a lúgubre quimera,

A alma, o sentido, o pávido segredo

Daquelas sílabas fatais,

Entender o que quis dizer a ave do medo

Grasnando a frase: "Nunca mais".



Assim posto, devaneando,

Meditando, conjeturando,

Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,

Sentia o olhar que me abrasava.

Conjeturando fui, tranqüilo a gosto,

Com a cabeça no macio encosto

Onde os raios da lâmpada caíam,

Onde as tranças angelicais

De outra cabeça outrora ali se desparziam,

E agora não se esparzem mais.



Supus então que o ar, mais denso,

Todo se enchia de um incenso,

Obra de serafins que, pelo chão roçando

Do quarto, estavam meneando

Um ligeiro turíbulo invisível;

E eu exclamei então: "Um Deus sensível

Manda repouso à dor que te devora

Destas saudades imortais.

Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."

E o corvo disse: "Nunca mais".



“Profeta, ou o que quer que sejas!

Ave ou demônio que negrejas!

Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno

Onde reside o mal eterno,

Ou simplesmente náufrago escapado

Venhas do temporal que te há lançado

Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo

Tem os seus lares triunfais,

Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"

E o corvo disse: "Nunca mais".



“Profeta, ou o que quer que sejas!

Ave ou demônio que negrejas!

Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!

Por esse céu que além se estende,

Pelo Deus que ambos adoramos, fala,

Dize a esta alma se é dado inda escutá-la

No éden celeste a virgem que ela chora

Nestes retiros sepulcrais,

Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”

E o corvo disse: "Nunca mais".



“Ave ou demônio que negrejas!

Profeta, ou o que quer que sejas!

Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!

Regressa ao temporal, regressa

À tua noite, deixa-me comigo.

Vai-te, não fique no meu casto abrigo

Pluma que lembre essa mentira tua.

Tira-me ao peito essas fatais

Garras que abrindo vão a minha dor já crua."

E o corvo disse: "Nunca mais".



E o corvo aí fica; ei-lo trepado

No branco mármore lavrado

Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.

Parece, ao ver-lhe o duro cenho,

Um demônio sonhando. A luz caída

Do lampião sobre a ave aborrecida

No chão espraia a triste sombra; e, fora

Daquelas linhas funerais

Que flutuam no chão, a minha alma que chora

Não sai mais, nunca, nunca mais!





PERGUNTAS SEM RESPOSTA



Vênus Formosa, Vênus fulgurava

No azul do céu da tarde que morria,

Quando à janela os braços encostava

Pálida Maria.



Ao ver o noivo pela rua umbrosa,

Os longos olhos ávidos enfia,

E fica de repente cor-de-rosa

Pálida Maria.



Correndo vinha no cavalo baio,

Que ela de longe apenas distinguia,

Correndo vinha o noivo, como um raio...

Pálida Maria!



Três dias são, três dias são apenas,

Antes que chegue o suspirado dia,

Em que eles porão termo às longas penas...

Pálida Maria!



De confusa, naquele sobressalto,

Que a presença do amado lhe trazia,

Olhos acesos levantou ao alto

Pálida Maria.



E foi subindo, foi subindo acima

No azul do céu da tarde que morria,

A ver se achava uma sonora rima...

Pálida Maria!



Rima de amor, ou rima de ventura,

As mesmas são na escala da harmonia.

Pousa os olhos em Vênus que fulgura

Pálida Maria.



E o coração, que de prazer lhe bate,

Acha no astro a fraterna melodia

Que à natureza inteira dá rebate...

Pálida Maria!



Maria pensa: "Também tu, decerto,

Esperas ver, neste final do dia,

Um noivo amado que cavalga perto,

Pálida Maria?”



Isto dizendo, súbito escutava

Um estrépito, um grito e vozeria,

E logo a frente em ânsias inclinava

Pálida Maria.



Era o cavalo, rábido, arrastando

Pelas pedras o noivo que morria;

Maria o viu e desmaiou gritando...

Pálida Maria!



Sobem o corpo, vestem-lhe a mortalha,

E a mesma noiva, semimorta e fria,

Sobre ele as folhas do noivado espalha.

Pálida Maria!



Cruzam-se as mãos, na derradeira prece

Muda que o homem para cima envia,

Antes que desça à terra em que apodrece.

Pálida Maria!



Seis homens tomam do caixão fechado

E vão levá-lo à cova que se abria;

Terra e cal e um responso recitado...

Pálida Maria!



Quando, três sóis passados, rutilava

A mesma Vênus, no morrer do dia,

Tristes olhos ao alto levantava

Pálida Maria.



E murmurou: "Tens a expressão do goivo,

Tens a mesma roaz melancolia;

Certamente perdeste o amor e o noivo,

Pálida Maria?”



Vênus, porém, Vênus brilhante e bela,

Que nada ouvia, nada respondia,

Deixa rir ou chorar numa janela

Pálida Maria.







TO BE OR NOT TO BE



(SHAKESPEARE)



Ser ou não ser, eis a questão. Acaso

É mais nobre a cerviz curvar aos golpes

Da ultrajosa fortuna, ou já lutando

Extenso mar vencer de acerbos males?

Morrer, dormir, não mais. E um sono apenas,

Que as angústias extingue e à carne a herança

Da nossa dor eternamente acaba,

Sim, cabe ao homem suspirar por ele.

Morrer, dormir. Dormir? Sonhar, quem sabe!

Ai, eis a dúvida. Ao perpétuo sono,

Quando o lodo mortal despido houvermos,

Que sonhos hão de vir? Pesá-lo cumpre.

Essa a razão que os lutuosos dias

Alonga do infortúnio. Quem do tempo

Sofrer quisera ultrajes e castigos,

Injúrias da opressão, baldões do orgulho,

Do mal prezado amor choradas mágoas,

Das leis a inércia, dos mandões a afronta,

E o vão desdém que de rasteiras almas

O paciente mérito recebe,

Quem, se na ponta da despida lâmina

Lhe acenara o descanso? Quem ao peso

De uma vida de enfados e misérias

Quereria gemer, se não sentira

Terror de alguma não sabida cousa

Que aguarda o homem para lá da morte,

Esse eterno país misterioso

Donde um viajor sequer há regressado?

Este só pensamento enleia o homem;

Este nos leva a suportar as dores

Já sabidas de nós, em vez de abrirmos

Caminho aos males que o futuro esconde,

E a todos acovarda a consciência.

Assim da reflexão à luz mortiça

A viva cor da decisão desmaia;

E o firme, essencial cometimento,

Que esta idéia abalou, desvia o curso,

Perde-se, até de ação perder o nome.





LINDÓIA



Vem, vem das águas, mísera Moema,

Senta-te aqui. As vozes lastimosas

Troca pelas cantigas deleitosas,

Ao pé da doce e pálida Coema.



Vós, sombras de Iguaçu e de Iracema,

Trazei nas mãos, trazei no colo as rosas

Que o amor desabrochou e fez viçosas

Nas laudas de um poema e outro poema.



Chegai, folgai, cantai. É esta, é esta

De Lindóia, que a voz suave e forte

Do vate celebrou, a alegre festa.



Além do amável, gracioso porte,

Vede o mimo, a ternura que lhe resta.

Tanto inda é bela no seu rosto a morte!





SUAVE MARI MAGNO



Lembra-me que, em certo dia,

Na rua, ao sol de verão,

Envenenado morria

Um pobre cão.



Arfava, espumava e ria,

De um riso espúrio e bufão,

Ventre e pernas sacudia

Na convulsão.



Nenhum, nenhum curioso

Passava, sem se deter,

Silencioso,



Junto ao cão que ia morrer,

Como se lhe desse gozo

Ver padecer.





A MOSCA AZUL



Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,

Filha da China ou do Indostão,

Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada,

Em certa noite de verão.



E zumbia, e voava, e voava, e zumbia

Refulgindo ao clarão do sol

E da lua, — melhor do que refulgiria

Um brilhante do Grão-Mogol.



Um poleá que a viu, espantado e tristonho,

Um poleá lhe perguntou:

"Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,

Dize, quem foi que to ensinou?"



Então ela, voando, e revoando, disse:

— "Eu sou a vida, eu sou a flor

Das graças, o padrão da eterna meninice,

E mais a glória, e mais o amor".



E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo,

E tranqüilo, como um faquir,

Como alguém que ficou deslembrado de tudo,

Sem comparar, nem refletir.



Entre as asas do inseto, a voltear no espaço,

Uma cousa lhe pareceu

Que surdia, com todo o resplendor de um paço

E viu um rosto, que era o seu.



Era ele, era um rei, o rei de Cachemira,

Que tinha sobre o colo nu

Um imenso colar de opala, e uma safira

Tirada do corpo de Vichnu.



Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,

Aos pés dele, no liso chão,

Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,

E todo o amor que têm lhe dão.



Mudos, graves, de pé, cem etíopes feios,

Com grandes leques de avestruz,

Refrescam-lhes de manso os aromados seios,

Voluptuosamente nus.



Vinha a glória depois; — quatorze reis vencidos,

E enfim as páreas triunfais

De trezentas nações, e os parabéns unidos

Das coroas ocidentais.



Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto

Das mulheres e dos varões,

Como em água que deixa o fundo descoberto,

Via limpos os corações.



Então ele, estende a mão calosa e tosca,

Afeita a só carpintejar,

Com um gesto pegou na fulgurante mosca,

Curioso de a examinar.



Quis vê-la, quis saber a causa do mistério.

E, fechando-a na mão, sorriu

De contente, ao pensar que ali tinha um império,

E para casa se partiu.



Alvoroçado chega, examina, e parece

Que se houve nessa ocupação

Miudamente, como um homem que quisesse

Dissecar a sua ilusão.



Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,

Rota, baça, nojenta, vil,

Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela

Visão fantástica e sutil.



Hoje, quando ele aí vai, de aloé e cardamomo

Na cabeça, com ar taful,

Dizem que ensandeceu, e que não sabe como

Perdeu a sua mosca azul.







ANTÔNIO JOSÉ



(21 de outubro de 1739)



Antônio, a sapiência da Escritura

Clama que há para a humana criatura

Tempo de rir e tempo de chorar,

Como há um sol no ocaso, e outro na aurora.

Tu, sangue de Efraim e de Issacar,

Pois que já riste, chora.







ESPINOSA



Gosto de ver-te, grave e solitário,

Sob o fumo de esquálida candeia,

Nas mãos a ferramenta de operário,

E na cabeça a coruscante idéia.



E enquanto o pensamento delineia

Uma filosofia, o pão diário

A tua mão a labutar granjeia

E achas na independência o teu salário.



Soem cá fora agitações e lutas,

Sibile o bafo aspérrimo do inverno,

Tu trabalhas, tu pensas, e executas



Sóbrio, tranqüilo, desvelado e terno,

A lei comum, e morres, e transmutas

O suado labor no prêmio eterno.







GONÇALVES CRESPO



Esta musa da pátria, esta saudosa

Niobe dolorida,

Esquece acaso a vida,

Mas não esquece a morte gloriosa.



E pálida, e chorosa,

Ao Tejo voa, onde no chão caída

Jaz aquela evadida

Lira da nossa América viçosa.



Com ela torna, e, dividindo os ares,

Trépido, mole, doce movimento

Sente nas frouxas cordas singulares.



Não é a asa do vento,

Mas a sombra do filho, no momento

De entrar perpetuamente os pátrios lares.







ALENCAR



Hão de anos volver, — não como as neves

De alheios climas, de geladas cores;

Hão de os anos volver, mas como as flores,

Sobre o teu nome, vívidos e leves...



Tu, cearense musa, que os amores

Meigos e tristes, rústicos e breves,

Da indiana escreveste, — ora os escreves

No volume dos pátrios esplendores.



E ao tornar este sol, que te há levado,

Já não acha a tristeza. Extinto é o dia

Da nossa dor, do nosso amargo espanto.



Porque o tempo implacável e pausado,

Que o homem consumiu na terra fria,

Não consumiu o engenho, a flor, o encanto...







CAMÕES



I



Tu quem és? Sou o século que passa.

Quem somos nós? A multidão fremente.

Que cantamos? A glória resplendente.

De quem? De quem mais soube a força e a graça.



Que cantou ele? A vossa mesma raça.

De que modo? Na lira alta e potente.

A quem amou? A sua forte gente.

Que lhe deram? Penúria, ermo, desgraça.



Nobremente sofreu? Como homem forte.

Esta imensa oblação?... É-lhe devida.

Paga?... Paga-lhe toda a adversa sorte.



Chama-se a isto? A glória apetecida.

Nós, que o cantamos?... Volvereis à morte.

Ele, que é morto?... Vive a eterna vida.



II



Quando, transposta a lúgubre morada

Dos castigos, ascende o florentino

À região onde o clarão divino

Enche de intensa luz a alma nublada,



A saudosa Beatriz, a antiga amada,

A mão lhe estende e guia o peregrino,

E aquele olhar etéreo e cristalino

Rompe agora da pálpebra sagrada.



Tu, que também o Purgatório andaste,

Tu, que rompeste os círculos do Inferno,

Camões, se o teu amor fugir deixaste,



Ora o tens, como um guia alto e superno

Que a Natércia da vida que choraste

Chama-se Glória e tem o amor eterno.



III



Quando, torcendo a chave misteriosa

Que os cancelos fechava do Oriente,

O Gama abriu a nova terra ardente

Aos olhos da companha valorosa,



Talvez uma visão resplandecente

Lhe amostrou no futuro a sonorosa

Tuba, que cantaria a ação famosa

Aos ouvidos da própria e estranha gente.



E disse: "Se já noutra, antiga idade,

Tróia bastou aos homens, ora quero

Mostrar que é mais humana a humanidade.



Pois não serás herói de um canto fero,

Mas vencerás o tempo e a imensidade

Na voz de outro moderno e brando Homero."



IV



Um dia, junto à foz de brando e amigo

Rio de estranhas gentes habitado,

Pelos mares aspérrimos levado,

Salvaste o livro que viveu contigo.



E esse que foi às ondas arrancado,

Já livre agora do mortal perigo,

Serve de arca imortal, de eterno abrigo,

Não só a ti, mas ao teu berço amado.



Assim, um homem só, naquele dia,

Naquele escasso ponto do universo,

Língua, história, nação, armas, poesia,



Salva das frias mãos do tempo adverso.

E tudo aquilo agora o desafia.

E tão sublime preço cabe em verso.







1802-1885



Um dia, celebrando o gênio e a eterna vida,

Victor Hugo escreveu numa página forte

Estes nomes que vão galgando a eterna morte,

Isaías, a voz de bronze, alma saída

Da coxa de Davi; Ésquilo que a Orestes

E a Prometeu, que sofre as vinganças celestes

Deu a nota imortal que abala e persuade,

E transmite o terror, como excita a piedade.

Homero, que cantou a cólera potente

De Aquiles, e colheu as lágrimas troianas

Para glória maior da sua amada gente,

E com ele Virgílio e as graças virgilianas;

Juvenal que marcou com ferro em brasa o ombro

Dos tiranos, e o velho e grave florentino,

Que mergulha no abismo, e caminha no assombro,

Baixa humano ao inferno e regressa divino;

Logo após Calderón, e logo após Cervantes;

Voltaire, que mofava, e Rabelais que ria;

E, para coroar esses nomes vibrantes,

Shakespeare, que resume a universal poesia.



E agora que ele aí vai, galgando a eterna morte,

Pega a História da pena e na página forte,

Para continuar a série interrompida,

Escreve o nome dele, e dá-lhe a eterna vida.







JOSÉ DE ANCHIETA



Esse que as vestes ásperas cingia,

E a viva flor da ardente juventude

Dentro do peito a todos escondia;



Que em páginas de areia vasta e rude

Os versos escrevia e encomendava

À mente, como esforço de virtude;



Esse nos rios de Babel achava,

Jerusalém, os cantos primitivos,

E novamente aos ares os cantava.



Não procedia então como os cativos

De Sião, consumidos de saudade,

Velados de tristeza, e pensativos.



Os cantos de outro clima e de outra idade

Ensinava sorrindo às novas gentes,

Pela língua do amor e da piedade.



E iam caindo os versos excelentes

No abençoado chão, e iam caindo

Do mesmo modo as místicas sementes.



Nas florestas os pássaros, ouvindo

O nome de Jesus e os seus louvores,

Iam cantando o mesmo canto lindo.



Eram as notas como alheias flores

Que verdejam no meio de verduras

De diversas origens e primores.



Anchieta, soltando as vozes puras,

Achas outra Sião neste hemisfério,

E a mesma fé e igual amor apuras.



Certo, ferindo as cordas do saltério,

Unicamente contas divulgá-la

A palavra cristã e o seu mistério.



Trepar não cuidas a luzente escala

Que os heróis cabe e leva à clara esfera

Onde eterna se faz a humana fala.



Onde os tempos não são esta quimera

Que apenas brilha e logo se esvaece,

Como folhas de escassa primavera.



Onde nada se perde nem se esquece,

E no dorso dos séculos trazido

O nome de Anchieta resplandece

Ao vivo nome do Brasil unido.







SONETO DE NATAL



Um homem, — era aquela noite amiga,

Noite cristã, berço do Nazareno, —

Ao relembrar os dias de pequeno,

E a viva dança, e a lépida cantiga,



Quis transportar ao verso doce e ameno

As sensações da sua idade antiga,

Naquela mesma velha noite amiga,

Noite cristã, berço do Nazareno.



Escolheu o soneto... A folha branca

Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca.

A pena não acode ao gesto seu.



E, em vão lutando contra o metro adverso,

Só lhe saiu este pequeno verso:

"Mudaria o Natal ou mudei eu?"







OS ANIMAIS ISCADOS DA PESTE



(LA FONTAINE)



Mal que espalha o terror e que a ira celeste

Inventou para castigar

Os pecados do mundo, a peste, em suma, a peste,

Capaz de abastecer o Aqueronte num dia,

Veio entre os animais lavrar;

E, se nem tudo sucumbia,

Certo é que tudo adoecia.

Já nenhum, por dar mate ao moribundo alento,

Catava mais nenhum sustento.

Não havia manjar que o apetite abrisse,

Raposa ou lobo que saísse

Contra a presa inocente e mansa,

Rola que à rola não fugisse,

E onde amor falta, adeus, folgança!

O leão convocou uma assembléia e disse:

"Sócios meus, certamente este infortúnio veio

A castigar-nos de pecados.

Que o mais culpado entre os culpados

Morra por aplacar a cólera divina.

Para a comum saúde esse é, talvez, o meio.

Em casos tais é de uso haver sacrificados;

Assim a história no-lo ensina.

Sem nenhuma ilusão, sem nenhuma indulgência,

Pesquisemos a consciência.

Quanto a mim, por dar mate ao ímpeto glutão,

Devorei muita carneirada.

Em que é que me ofendera? em nada.

E tive mesmo ocasião

De comer igualmente o guarda da manada.

Portanto, se é mister sacrificar-me, pronto.

Mas, assim como me acusei,

Bom é que cada um se acuse, de tal sorte

Que (devemos querê-lo, e é de todo ponto

Justo) caiba ao maior dos culpados a morte."

"— Meu senhor, acudiu a raposa, é ser rei

Bom demais; é provar melindre exagerado.

Pois então devorar carneiros,

Raça lorpa e vilã, pode lá ser pecado?

Não. Vós fizestes-lhes, senhor,

Em os comer, muito favor.

E no que toca aos pegureiros,

Toda a calamidade era bem merecida,

Pois são daquelas gentes tais

Que imaginaram ter posição mais subida

Que a de nós outros animais".

Disse a raposa, e a corte aplaudiu-lhe o discurso.

Ninguém do tigre nem do urso,

Ninguém de outras iguais senhorias do mato,

Inda entre os atos mais daninhos,

Ousava esmerilhar um ato;

E até os últimos rafeiros,

Todos os bichos rezingueiros,

Não eram, no entender geral, mais que uns santinhos.

Eis chega o burro: — "Tenho idéia que no prado

De um convento, indo eu a passar, e picado

Da ocasião, da fome e do capim viçoso,

E pode ser que do tinhoso,

Um bocadinho lambisquei

Da plantação. Foi um abuso, isso é verdade."

Mal o ouviu, a assembléia exclama: "Aqui del-rei!"

Um lobo, algo letrado, arenga e persuade

Que era força imolar esse bicho nefando,

Empesteado autor de tal calamidade;

E o pecadilho foi julgado

Um atentado.

Pois comer erva alheia! ó crime abominando!

Era visto que só a morte

Poderia purgar um pecado tão duro.

E o burro foi ao reino escuro.



Segundo sejas tu miserável ou forte

Áulicos te farão detestável ou puro.







DANTE



(INFERNO, canto XXV)



Acabara o ladrão, e, ao ar erguendo

As mãos em figas, deste modo brada:

"Olha, Deus, para ti o estou fazendo!"



E desde então me foi a serpe amada,

Pois uma vi que o colo lhe prendia,

Como a dizer: "não falarás mais nada!"



Outra os braços na frente lhe cingia

Com tantas voltas e de tal maneira

Que ele fazer um gesto não podia.



Ah! Pistóia, por que numa fogueira

Não ardes tu, se a mais e mais impuros,

Teus filhos vão nessa mortal carreira?



Eu, em todos os círculos escuros

Do inferno, alma não vi tão rebelada.

Nem a que em Tebas resvalou dos muros.



E ele fugiu sem proferir mais nada.

Logo um centauro furioso assoma

A bradar: "Onde, aonde a alma danada?”



Marema não terá tamanha soma

De reptis quanta vi que lhe ouriçava

O dorso inteiro desde a humana coma.



Junto à nuca do monstro se elevava

De asas abertas um dragão que enchia

De fogo a quanto ali se aproximava.



"Aquele é Caco, — o Mestre me dizia, —

Que, sob as rochas do Aventino, ousado

Lagos de sangue tanta vez abria.



Não vai de seus irmãos acompanhado

Porque roubou malicioso o armento

Que ali pascia na campanha ao lado.



Hércules com a maça e golpes cento,

Sem lhe doer um décimo ao nefando,

Pôs remate a tamanho atrevimento."



Ele falava, e o outro foi andando.

No entanto embaixo vinham para nós

Três espíritos que só vimos quando



Atroara este grito: "Quem sois vós?"

Nisto a conversa nossa interrompendo

Ele, como eu, no grupo os olhos pôs.



Eu não os conheci, mas sucedendo,

Como outras vezes suceder é certo,

Que o nome de um estava outro dizendo,



"Cianfa aonde ficou?" Eu, por que esperto

E atento fosse o Mestre em escutá-lo,

Pus sobre a minha boca o dedo aberto.



Leitor, não maravilha que aceitá-lo

Ora te custe o que vais ter presente,

Pois eu, que o vi, mal ouso acreditá-lo.



Eu contemplava, quando uma serpente

De seis pés temerosa se lhe atira

A um dos três e o colhe de repente.



Com os pés do meio o ventre lhe cingira,

Com os da frente os braços lhe peava,

E ambas as faces lhe mordeu com ira.



Os outros dous às coxas lhe alongava,

E entre elas insinua a cauda que ia

Tocar-lhes os rins e dura os apertava.



A hera não se enrosca nem se enfia

Pela árvore, como a horrível fera

Ao pecador os membros envolvia.



Como se fossem derretida cera,

Um só vulto, uma cor iam tomando,

Quais tinham sido nenhum deles era.



Tal o papel, se o fogo o vai queimando,

Antes de negro estar, e já depois

Que o branco perde, fusco vai ficando.



Os outros dous bradavam: "Ora pois,

Agnel, ai triste, que mudança é essa?

Olha que já não és nem um nem dous!"



Faziam ambas uma só cabeça,

E na única face um rosto misto,

Onde eram dous, a aparecer começa.



Dos quatro braços dous restavam, e isto,

Pernas, coxas e o mais ia mudado

Num tal composto que jamais foi visto.



Todo o primeiro aspecto era acabado;

Dous e nenhum era a cruel figura,

E tal se foi a passo demorado.



Qual camaleão, que variar procura

De sebe às horas em que o sol esquenta,

E correndo parece que fulgura,



Tal uma curta serpe se apresenta,

Para o ventre dos dous corre acendida,

Lívida e cor de um bago de pimenta.



E essa parte por onde foi nutrida

Tenra criança antes que à luz saísse,

Num deles morde, e cai toda estendida.



O ferido a encarou, mas nada disse;

Firme nos pés, apenas bocejava,

Qual se de febre ou sono ali caísse.



Frente a frente, um ao outro contemplava,

E à chaga de um, e à boca de outro, forte

Fumo saía e no ar se misturava.



Cale agora Lucano a triste morte

De Sabelo e Nasídio, e atento esteja

Que o que lhe vou dizer é de outra sorte.



Cale-se Ovídio e neste quadro veja

Que, se Aretusa em fonte nos há posto

E Cadmo em serpe, não lhe tenho inveja.



Pois duas naturezas rosto a rosto

Não transmudou, com que elas de repente

Trocassem a matéria e o ser oposto.



Tal era o acordo entre ambas que a serpente

A cauda em duas caudas fez partidas,

E a alma os pés ajuntava estreitamente.



Pernas e coxas vi-as tão unidas

Que nem leve sinal dava a juntura

De que tivessem sido divididas.



Imita a cauda bífida a figura

Que ali se perde, e a pele abranda, ao passo

Que a pele do homem se tornava dura.



Em cada axila vi entrar um braço,

A tempo que iam esticando à fera

Os dous pés que eram de tamanho escasso.



Os pés de trás a serpe os retorcera

Até formarem-lhe a encoberta parte,

Que no infeliz em pés se convertera.



Enquanto o fumo os cobre, e de tal arte

A cor lhes muda e põe à serpe o velo

Que já da pele do homem se lhe parte,



Um caiu, o outro ergueu-se, sem torcê-lo

Aquele torvo olhar com que ambos iam

A trocar entre si o rosto e a vê-lo.



Ao que era em pé as carnes lhe fugiam

Para as fontes, e ali do que abundava

Duas orelhas de homem lhe saíam.



E o que de sobra ainda lhe ficava

O nariz lhe compõe e lhe perfaz

E o lábio lhe engrossou quanto bastava.



A boca estende o que por terra jaz

E as orelhas recolhe na cabeça,

Bem como o caracol às pontas faz.



A língua, que era então de uma só peça,

E prestes a falar, fendida vi-a,

Enquanto a do outro se une, e o fumo cessa.



A alma, que assim tornado em serpe havia,

Pelo vale fugiu assobiando,

E esta lhe ia falando e lhe cuspia.



Logo a recente espádua lhe foi dando

E à outra disse: "Ora com Buoso mudo,

Rasteje, como eu vinha rastejando!"



Assim na cova sétima vi tudo

Mudar e transmudar; a novidade

Me absolva o estilo desornado e rudo.



Mas que um tanto perdesse a claridade

Dos olhos meus, e turva a mente houvesse,

Não fugiram com tanta brevidade,



Nem tão ocultos, que eu não conhecesse

Puccio Sciancato, única ali vinda

Alma que a forma própria não perdesse;

O outro chorá-lo tu, Gaville, ainda.







A FELÍCIO DOS SANTOS



Felício amigo, se eu disser que os anos

Passam correndo ou passam vagarosos,

Segundo são alegres ou penosos,

Tecidos de afeições ou desenganos,



"Filosofia é esta de rançosos!"

Dirás. Mas não há outra entre os humanos.

Não se contam sorrisos pelos danos,

Nem das tristezas desabrocham gozos.



Banal, confesso. O precioso e o raro

É, seja o céu nublado ou seja claro,

Tragam os tempos amargura ou gosto,



Não desdizer do mesmo velho amigo,

Ser com os teus o que eles são contigo,

Ter um só coração, ter um só rosto.







MARIA



Maria, há no seu gesto airoso e nobre,

Nos olhos meigos e no andar tão brando,

Um não sei quê suave que descobre,

Que lembra um grande pássaro marchando.



Quero, às vezes, pedir-lhe que desdobre

As asas, mas não peço, reparando

Que, desdobradas, podem ir voando

Levá-la ao teto azul que a terra cobre.



E penso então, e digo então comigo:

"Ao céu, que vê passar todas as gentes

Bastem outros primores de valia.



Pássaro ou moça, fique o olhar amigo,

O nobre gesto e as graças excelentes

Da nossa cara e lépida Maria."







A UMA SENHORA QUE ME PEDIU VERSOS



Pensa em ti mesma, acharás

Melhor poesia,

Viveza, graça, alegria,

Doçura e paz.



Se já dei flores um dia,

Quando rapaz,

As que ora dou têm assaz

Melancolia.



Uma só das horas tuas

Valem um mês

Das almas já ressequidas.



Os sóis e as luas

Creio bem que Deus os fez

Para outras vidas.







CLÓDIA



Era Clódia a vergôntea ilustre e rara

De uma família antiga. Tez morena,

Como a casca do pêssego, deixava

Transparecer o sangue e a juventude.

Era a romana ardente e imperiosa

Que os ecos fatigou de Roma inteira

Coa narração das longas aventuras.

Nunca mais gentil fronte o sol da Itália

Amoroso beijou, nem mais gracioso

Corpo envolveram túnicas de Tiro.

Sombrios, como a morte, os olhos eram.

A vermelha botina em si guardava

Breve, divino pé. Úmida boca,

Como a rosa que os zéfiros convida,

Os beijos convidava. Era o modelo

Da luxuosa Lâmia, — aquela moça

Que o marido esqueceu, e amou sem pejo

O músico Polião. De mais, fazia

A ilustre Clódia trabalhados versos;

A cabeça curvava pensativa

Sobre as tabelas nuas; invocava

Do clássico Parnaso as musas belas,

E, se não mente linguaruda fama,

Davam-lhe inspiração vadias musas.

O ideal da matrona austera e fria,

Caseira e nada mais, esse acabava.

Bem hajas tu, patrícia desligada

De preconceitos vãos, tu que presides

Ao festim dos rapazes, tu que estendes

Sobre verdes coxins airosas formas,

Enquanto o esposo, consultando os dados,

Perde risonho válidos sestércios...

E tu, viúva mísera, deixada

Na flor dos anos, merencória e triste,

Que seria de ti, se o gozo e o luxo

Não te alegrassem a alma? Cedo esquece

A memória de um óbito. E bem hajas,

Discreto esposo, que morreste a tempo.

Perdes, bem sei, dos teus rivais sem conta

Os custosos presentes, as ceatas,

Os jantares opíparos. Contudo,

Não verás cheia a casa de crianças

Loiras obras de artífices estranhos.



Baias recebe a celebrada moça

Entre festins e júbilos. Faltava

Ao pomposo jardim das lácias flores

Esta rosa de Paestum. Chega; é ela,

É ela, a amável dona. O céu ostenta

A larga face azul, que o sol no ocaso

Coos frouxos raios desmaiado tinge.

Terno e brando abre o mar o espúmeo seio;

Moles respiram virações do golfo.

Clódia chega. Tremei, moças amadas;

Ovelhinhas dos plácidos idílios,

Roma vos manda esta faminta loba.

Prendei, prendei com vínculos de ferro,

Os volúveis amantes, que os não veja

Esta formosa Páris. Inventai-lhes

Um filtro protetor, um filtro ardente,

Que o fogo leve aos corações rendidos,

E aos vossos pés eternamente os prenda;

Clódia... Mas, quem pudera, a frio e a salvo,

Um requebro afrontar daqueles olhos

Ver-lhe o túrgido seio, as mãos, o talhe,

O andar, a voz, ficar mármore frio

Ante as súplices graças? Menor pasmo

Fora, se ao gladiador, em pleno circo,

A pantera africana os pés lambesse,

Ou se, à cauda de indômito cavalo,

Ovantes hostes arrastassem César.



Coroados de rosas os convivas

Entram. Trajam com graça vestes novas

Tafuis de Itália, finos e galhardos

Patrícios da república expirante,

E madamas faceiras. Vem entre eles

Célio, a flor dos vadios, nobre moço,

E opulento, o que é mais. Ambicioso

Quer triunfar na clássica tribuna

E honras aspira até do consulado.

Mais custoso lavor não vestem damas,

Nem aroma melhor do seio exalam.

Tem na altivez do olhar sincero orgulho,

E certo que o merece. Entre os rapazes

Que à noite correm solitárias ruas,

Ou nos jardins de Roma o luxo ostentam,

Nenhum como ele, com mais ternas falas,

Galanteou, vencendo, as raparigas.



Entra: pregam-se nele cobiçosos

Olhos que amor venceu, que amor domina,

Olhos fiéis ao férvido Catulo.

O poeta estremece. Brando e frio,

O marido de Clódia os olhos lança

Ao mancebo, e um sorriso complacente

A boca lhe abre. Imparcial na luta,

Vença Catulo ou Célio, ou vençam ambos.

Não se lhe opõe o dono: o aresto aceita.



Vistes já como as ondas tumultuosas,

Uma após outra, vêm morrer à praia,

E mal se rompe o espúmeo seio àquela.

Já esta corre e expira? Tal no peito

Da calorosa Lésbia nascem, morrem

As volúveis paixões. Vestal do crime,

Dos amores vigia a chama eterna,

Não a deixa apagar; pronto lhe lança

Óleo com que a alimente. Enrubescido

De ternura e desejo o rosto volve

Ao mancebo gentil. Baldado empenho!

Indiferente aos mágicos encantos,

Célio contempla a moça. Olhar mais frio,

Ninguém deitou jamais a graças tantas.

Ela insiste; ele foge-lhe. Vexada,

A moça inclina lânguida a cabeça...

Tu nada vês, desapegado esposo,

Mas o amante vê tudo.



Clódia arranca

Uma rosa da fronte, e as folhas deita

Na taça que enche generoso vinho.

"Célio, um brinde aos amores!" diz, e entrega-lha.

O cortejado moço os olhos lança,

Não à Clódia, que a taça lhe oferece,

Mas a outra não menos afamada,

Dama de igual prosápia e iguais campanhas,

E taça igual lhe aceita. Afronta é esta

Que à moça faz subir o sangue às faces,

Aquele sangue antigo, e raro, e ilustre,

Que atravessou puríssimo e sem mescla

A corrente dos tempos... Uma Clódia!

Tamanha injúria! Ai, não! mais que a vaidade,

Mais que o orgulho de raça, o que te pesa,

O que te faz doer, viciosa dama,

É ver que um rival merece o zelo

Deste pimpão de amores e aventuras.

Pega na taça o néscio esposo e bebe,

Com o vinho, a vergonha. Sombra triste,

Sombra de ocultas e profundas mágoas,

Tolda a fronte ao poeta.



Os mais, alegres,

Vão ruminando a saborosa ceia;

Circula o dito equívoco e chistoso,

Comentam-se os decretos do Senado,

O molho mais da moda, os versos últimos

De Catulo, os leões mandados de África

E as vitórias de César. O epigrama

Rasga a pele ao caudilho triunfante;

Chama-lhe este: "O larápio endividado",

Aquele: "Vênus calva", outro: "O bitínio..."

Oposição de ceias e jantares,

Que a marcha não impede ao crime e à glória.



Sem liteira, nem líbicos escravos,

Clódia vai consultar armênio arúspice.

Quer saber se há de Célio amá-la um dia

Ou desprezá-la sempre. O armênio estava

Meditabundo, à luz escassa e incerta

De uma candeia etrusca; aos ombros dele

Decrépita coruja os olhos abre.

"Velho, aqui tens dinheiro (a moça fala),

Se à tua inspiração é dado agora

Adivinhar as cousas do futuro,

Conta-me..." O resto expõe. Ergue-se o velho

Súbito. Os olhos lança cobiçosos

À fulgente moeda. — "Saber queres

Se te há de amar esse mancebo esquivo?"

— "Sim". — Cochilava a um canto descuidada

A avezinha de Vênus, branca pomba.

Lança mão dela o arúspice, e de um golpe

Das entranhas lhe arranca o sangue e a vida.

Olhos fitos no velho a moça aguarda

A sentença da sorte; empalidece

Ou ri, conforme do ancião no rosto

Ocultas impressões vem debuxar-se.

"Bem haja Vênus! a vitória é tua!

O coração da vítima palpita

Inda que morto já..."

Não eram ditas.

Estas palavras, entra um vulto... É ele?

És tu, cioso amante!

A voz lhes falta

Aos dous (contemplam-se ambos, interrogam-se);

Rompe afinal o lúgubre silêncio...



Quando o vate acabou, tinha nos braços

A namorada moça. Lacrimosa,

Tudo confessa. Tudo lhe perdoa

O desvairado amante. "Nuvem leve

Isto foi; deixa lá memórias tristes,

Erros que te perdôo; amemos, Lésbia;

A vida é nossa; é nossa a juventude."

"Oh! tu és bom!" — "Não sei; amo e mais nada.

Foge o mal donde amor plantou seus lares.

Amar é ser do céu". Súplices olhos

Que a dor umedecera e que umedecem

Lágrimas de ternura, os olhos buscam

Do poeta; um sorriso lhes responde,

E um beijo sela esta aliança nova.



Quem jamais construiu sólida torre

Sobre a areia volúvel? Poucos dias

Decorreram; viçosas esperanças

Súbito renascidas, folha a folha,

Alastraram a terra. Ingrata e fria,

Lésbia esqueceu Catulo. Outro lhe pede

Prêmio à recente, abrasadora chama;

Faz-se agora importuno o que era esquivo.

Vitória é dela; o arúspice acertara.









NO ALTO



O poeta chegara ao alto da montanha,

E quando ia a descer a vertente do oeste,

Viu uma cousa estranha,

Uma figura má.



Então, volvendo o olhar ao sutil, ao celeste,

Ao gracioso Ariel, que de baixo o acompanha,

Num tom medroso e agreste

Pergunta o que será.



Como se perde no ar um som festivo e doce,

Ou bem como se fosse

Um pensamento vão,



Ariel se desfez sem lhe dar mais resposta.

Para descer a encosta

O outro estendeu-lhe a mão.







FIM