sábado, 28 de fevereiro de 2009

BERNARDINA DE OLIVEIRA

MÃOS AO ALTÍSSIMO






"Uma menina síria de quatro anos teria levantado as mãos para o alto como se estivesse se rendendo ao confundir uma câmera fotográfica como uma arma. A imagem comovente foi compartilhada pela fotojornalista Nadia Abu Shaban no Twitter."

Mãos ao Altíssimo!

BERNARDINA DE OLIVEIRA


"Menina síria!
Olhar que derruba mundo em partes desiguais.
Olhar sábio de cores ingênuas.
Lábios afinados de tristeza,
Mãos sobre cabeça,punhos de anjo forte.
Emolduram homem que foge,
Choro contido
Sangra noite enluarada.

Holofote de longas franjas constrange,
Sopro no curso dos mares,
Desvio no ventre dos rios.
Burburinho nas cidades!

Faces coradas e belas,
Extrema-unção de estrelas ,
Agasalhada  discrição,
Ponto cego no voo da águia ,
Contorcida árvore aprisiona cenário:
Tijolos, saibro e céus.

Insígnia  cravada neste milênio de amarras.
Muito quente! Muito quente! Gritara a vietnamita!

Olhares são flechas,
Olhares são rosas sem espinhos,
Espinhos são olhares dentro de nós,
Estilhaços de cobre e chumbo.

Acendam verdes semáforos!
Curvem-se todos:
- Essa menina precisa passar!"

Bernardina de Oliveira



Bernardina de Oliveira, Mineira. Residente no Rio de Janeiro desde 1960. Professora (Português-Literaturas); Mestre em Comunicação (ECO-UFRJ). Pesquisadora do Patrimônio Imaterial- RJ -(SEC-RJ). Prêmios: Vencedora do V concurso Roquette-Pinto: roteiro para TV; ABL e Folha Dirigida: Tema: “Devemos ver com os olhos livres”(2º lugar). Poemas publicados nas coletâneas “Terça ConVerso no Café”. Livros: Poemas: "Mulher de Pedra" (1998); “Cada um com cada qual” (2000); "Tempo de Ninguém" (2006).

espelho-d'água


homem contemporâneo
deus de alguma coisa
vitrines e aglomerados
íntegro homem de agora
não pergunta nada
não quer saber de mais nada
esgotou-se na fonte
espelho d'água



PRIMEIRA CHUVA DE VERÃO




História desfolhada,

tosca luz na sombra,

primeira chuva de verão.



Corpo esculpido na pedra,

talhados traços.



Cidade desperta

volta às cavernas,
corte nas mãos,

ângulos da mesma vela.






JOGO


Querer o quê?
Olhar entre séculos?

Caminhadas serviram aos reis,
catedrais serviram aos reis,
mausoléus serviram aos reis
e o metrô nem chega ao meu reino!
Ainda me guio pelas estrelas.
Passos não se perdem.

Em verdade há ausência de flores
na praça onde o saxofonista toca a vida,
equilibrado momento de notas e arranjos.

Querer o quê?
Mulher faz o jogo,
homem faz o jogo.

Jaz um hiato
no gramado simétrico
do amor.



TEMPO DE NINGUÉM


Tempo de ninguém,

competente tempo.

Rumo desperto

cruzamento à parte,

volta incompleta.



Amor se desdobra,

hospedeiro amor

das horas todas.



Linha do corpo,

tecida batalha.

aprendiz olha

paisagem de fundo.

Músicas transitam

e o canto das águas

se rende à paixão.



Nem vida nem morte,

coração aos pulos,

tempo de ninguém.








CADA UM COM CADA QUAL


Cada um com cada qual!

Silêncio dos quartos,

três cômodos e quatro solidões...

Saudades se insinuam,

risos quebram silêncio da rua arborizada

corrompendo pedras portuguesas

desalojadas dos mosaicos.

Anjos perambulando entre mortais.

O que há de errado?

Selvagens farejam questões sublimes!

Salvas de prata

recolhem raízes

e vôo de pardais.



Cada um com cada qual

onde o mundo adormece,

acordando sonho das águas,

ócio das insônias!



Cada um com cada qual!












VÔO RASO



Palavra solta

à cata do mundo.

Lasca vermelha da florada.

Desfaz-se parte por parte,

ponto por ponto.



Palavra armada,

incandescente corpo em vôo

nas ruas do Rio



DÁDIVA



Cidade, dama das almas,

mil sonhos e um só parecer.



Trajeto caçador de sombras,

canção fragmentada do amor.



E o olhar não se perde, acostuma.

e a solidão não se finda, associa.



Cidade, dama das vidas:

tudo que quero cabe na concha da sua mão.









AMANTES DA CHUVA



Paisagem

deságua silêncios.

Cheiro de barro nas mãos do artista.

Delicados contornos

quebram rigor da tempestade.

Tudo é neblina!

Nobreza é água livre dos seus cursos.

Espaço clama por plantadores de flores silvestres.

Braços se desfazem das muralhas

no alinhamento das pedras.

Exata dimensão

dos amantes,

dos amantes da chuva.






PELE DE BRIM



Em saber

que também canta

indiferente,

também canta,

canta, canta, canta...

Olhar finito exposto

para essa nova

das janelas

de pássaros de barro

acolhidos sob pele de brim...



Devota rotina

se destaca do luar.

vaidade assim talhada,

arrogante entre azuis

da noite

constrangida

surpreendentemente

entreaberta

ao corpo urbano

do amor.

DJALMA PASSOS: As vozes amargas












As vozes amargas


Rogel Samuel


Depois de muitos anos de busca, consigo "As vozes amargas", de Djalma Passos. É um excelente livro, esgotado há 57 anos! Fiquei tão feliz que o transcrevi integralmente no meu blog.

É um livro temático, fechado, que se pode dizer tem começo, meio e fim. Não pode avaliar a poesia de Passos quem só ler um poema. Seu tema é o homem, ou seja, a sociedade e suas questões religiosas e humanas.

Foi publicado em 1952, e poucos anos depois Passos foi meu professor de português no Ginásio de Aparecida. Era um homem calmo e bom, bem me lembro, e morava na época perto da casa de minha avó, na Rua Japurá, onde eu também vivi por alguns anos.

Lembro-me de ter ido à sua casa, não me lembro por quê. E talvez foi lá que eu ganhei um exemplar do livro, que se perdeu ao longo da vida como tantos. Eu já escrevia quando era adolescente, e dirigi um jornal estudantil feito no mimeógrafo onde colaboravam colegas meus, hoje famosos, como a tia de um hoje Senador pelo Amazonas, a esposa de um Governador e Prefeito de Manaus, e a Ira Esteves, hoje em Los angeles. Não tenho nenhum exemplar, pois logo ganhamos espaço nos jornais de Manaus e fundamos o Grupo Satírico Gregório de Matos.

O livro de Djalma Passos é muito bom. A crítica atual da literatura amazonense não fala dele, menos o falecido Artur Engrácio e o piauiense Assis Brasil. Como desconhecem o maior cronista do Amazonas, Afonso de Carvalho. Mas não faz mal. Djalma Passos será lembrado como um dos maiores poetas amazonenses.

DJALMA PASSOS nasceu, no Acre, no dia 19 de junho de 1923 e faleceu no Rio em 1990. Fez seus estudos no Colégio Estadual do Amazonas e na Faculdade de Direito do Amazonas. Foi tenente-coronel da Reserva da Policia Militar do Estado, professor do Colégio Comercial Brasileiro, Ruy Barbosa e Ginásio de Aparecida. Abandonou o magistério para ingressar na política, tendo sido eleito, primeiramente, Vereador, mais tarde, Deputado Estadual e depois Deputado Federal pelo Amazonas pelo PTB (1962). Colaborou com as revistas e jornais de Manaus. O Senador Aureo Mello do PMDB do AM pronunciou Discurso no Senado em 19/06/1990 em HOMENAGEM DE PESAR PELO FALECIMENTO DO SR. DJALMA PASSOS, e hoje tem nome de Rua e Escola em Manaus.



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DJALMA PASSOS: "As vozes amargas". Rio de Janeiro, Casa do Estudante, 1952. 71 P. Texto integral.





POEMA DO MOLEQUE BRASILEIRO


Moleque vadio
Que anda nas ruas
Dizendo pilherias às moças que passam;
Moleque vadio, sem compostura
Que apedreja as vidraças
E não respeita ninguem;
Moleque sem Deus, sem lar e sem pão
Que rasgou a cartilha e esqueceu a lição;
Moleque que brinca de manja nas noites escuras
Que briga e vai preso
E dorme nas calçadas abandonado
Sob os olhares tristes da irmã lua;
Moleque vadio,
Viciado,
Que anda armado à procura do crime
Que se embriaga nos botequins
E rouba os brinquedos dos outros meninos,
Que nunca soube o que foi carinho
E vive sem rumo e sem finalidade
Pelas ruas da cidade,
Pelas veredas dos velhos subúrbios;
Moleque quase homem
Que nunca chegou a ser criança,
Que não sabe o que é ter uma esperança
Que tem uma historia tão triste, tao amarga
E traz no olhar despido de ilusoes
A mágoa de geraçõoes e gerações...
Moleque!
Você não pode ser o futuro do Brasil! ...


ESTRANHAS VOZES



De onde virão, Senhor, essas estranhas e soturnas vozes,
Essas vozes melancólicas, sub-humanas,
Que estão perturbando a calma das auroras
Como um grito lancinante de revolta? ! ...
De onde virá, Senhor, essa amarga sinfonia
Que está enchendo de sombras o infinito
E confrangendo os corações
Nas horas mortas do crepúsculo? !
Virão daquelas nuvens pardacentas,
Do rumor das águas correntes,
Do gorjeio dos passarinhos,
Do fonfom dos automóveis,
Dos apitos das fábricas ciclópicas
Que estão plasmando o mundo de amanhã? !
Virão do sorriso das crianças,
Da agitação das grandes cidades,
Das boites elegantes,
Do roncar dos aviões
Ligando todos os pontos da terra? !
Virão do mar revolto,
Das profundezas dos céus,
Da fúria dos temporais? !
Não, Senhor!
Essas estranhas e soturnas vozes,
Essas vozes cansadas, martirizadas,
Que pedem pão, pedem justiça,
Vêm dos submundos da vida,
Da garganta enrouquecida dos homens famintos,
Daqueles que gemem nos catres imundos dos hospitais,
Dos que tem mãos que parecem garras
E que trazem no olhar a marca dos sofrimentos indeléveis,
Dos que rolam no chao dos velhos casebres abandonados,
Esburacados,
Nos subúrbios miseraveis ...
Vêm da garganta dos que esmolam nas calçadas
E rolam de quando em vez nas sarjetas
Como velhos embrulhos de papel ...
Vêm da garganta de todas as mulheres perdidas
Que se prostituíram para manter seus filhos,
De todas as crianças que transviaram
E conhecem nas ruas da desgraça
A dor e a fome, o frio e o vício,
A miséria e o crime ...
Vêm da garganta dos que se sacrificaram inutilmente
Pela paz humana,
Dos que sonharam com a beleza da existencia
E na impetuosidade desse sonho
Se arrojaram em lutas com falangiários avançados
E tombaram um por um
Sobre o chao morno e ensanguentado ...
Vêm dessa multidão intranquila
Que através de milênios e milênios
Nunca pode contemplar o céu
E caminhou rastejante como um verme
Sofrendo as injustiças de todas as Idades ...
É daí, Senhor, que provém
Essas estranhas e soturnas vozes,
Esse tumultuar de vozes e protestos,
Esse cântico coletivo de esperança
Que nada destruirá seu conteudo
E será o farol inapagavel
Que buscará na noite dos tempos
o caminho da verdadeira aurora ...



RESIGNAÇÃO




Quando a meus olhos se apagarem as estrelas do infinito,
Quando a meus olhos a aurora sucumbir
E o azul deste céu não for mais nada,
Quando os meus braços penderem inexoravelmente
E todos os meus gestos desaparecerem
E a minha voz perder-se numa mudez sombria,
Quando o meu corpo se transformar em humus
E a minha essência vagar como um perfume fugitivo,
Entao contemplarei resignadamente
A estranha saudade do teu olhar perdido
Deixando lágrimas sobre a desolação eterna do meu nada ...





POEMA DA ETERNA AUSÊNCIA


Nunca mais durante a existência inteira
Sentir em minhas mãos vazias as tuas maos afáveis
Que escreveram tateantes como rosas inspiradas
Na epiderme torturada
O poema de todas as carícias ...
E no turbilhao de todas as vozes humanas
Nunca mais distinguir a tua voz
Perdida como um crepúsculo que finda
No silêncio das imensidades ...
Não mais divisar em tempo algum
O vulto que através das idades esperei
E as formas plenas de vida e de delírio
Que as minhas mãos alucinadas procuraram ...
Sim, nao mais te ver
E viver a existência inteira
Na desesperada saudade
Do teu olhar distante,
Da tua voz prenhe de silêncio,
Do teu rosto infinitamente ausente ...


POEMA DO OLHAR EXTINTO


Nao era de ontem que meu olhar buscava o teu olhar ...
Buscava desde tempos remotíssimos
Caminhando ansioso através das idades ...
Em sua busca atravessou os oceanos,
Amargurou-se nas vastidões das planícies,
Ergueu-se mais alto que as montanhas
E palmilhou vagarosamente,
Silenciosamente,
Todas as ruas de todas as cidades
Na agitação febril dos dias tumultuosos,
Na paz das noites desertas e esquecidas ...
O meu olhar buscava o teu olhar
Como uma vida procura a sua própria esperança ...
E entretanto quando o divisou ao longe,
Deixando o meu olhar perdido na planície morta,
O teu olhar extinguiu-se,
Desapareceu como uma estrela fugitiva
Na noite insondável de outros mundos ...



ESPERAREMOS



Esperaremos a aurora do mar da tua noite
Onde quase todas te humilharam,
Onde sangraste os pulsos nos grilhoes impiedosos
E abaixaste a fronte altiva dos teus sonhos ...
Nos esperaremos o ressurgimento do teu corpo
Que virá iluminado de claroes de esperança
E de teu olhar apagado pelo sofrimento
Que de novo brilhará
E transmitirá
A mensagem que recebeste no começo dos tempos ...
Nós esperaremos que te ergas
E possas contemplar o azul do infinito
E que as tuas maos ultrajadas se recomponham profeticamente
Como dois símbolos eternos
Nos te esperaremos porque entao
Na hora de tua nova vida
Te mostraremos o rumo do novo caminho
Por onde os pássaros te guiarão ...



APELO AO MAR


Mar tenebroso, mar gigante,
Mar incomensuravel, mar sem alma,
Nesta hora amarga dos crepúsculos cinzentos
Prostrado diante da tua grandeza.
Revoltado contra a tua impiedade,
Venho fazer-te o meu supremo e irremovível pedido:
Quero que me restituas os meus irmaos queridos
Que se perderam no teu seio turvo e incompreendido,
Os que sucumbiram à fúria das procelas,
Os que enguliste desde as mais remotas eras ...
Quero os que saciaram a fome dos teus monstros,
Os que gritaram nas noites perdidas
Entre as tuas águas assassinas,
Os que nao tiveram o consolo de um último adeus
Nem o afago de um derradeiro olhar,
Os que se agoniaram no teu bojo.
E se desesperaram ao fragor das tuas ondas,
Os que se agarraram a velhos destroços
E viram noites terríveis e dias de angústias
Na solidao da tua imensidade ...
Quero os que ergueram para o céu longínquo
Os olhos suplicantes,
Os que tinham a garganta ferida
E os corpos nus e ensanguentados ...
Quero, ó mar, que me restituas todos os meus irmaos
Que erram no teu seio turvo e incompreendido,
Sem o beijo de sol das manhãs claras,
Sem o doce carinho das noites de luar ...





POEMA



Um dia eu surgirei da treva dos abismos
E pronunciarei um canto amargurado,
Um canto que ninguem compreenderá ...
Nesse dia o céu nao me olhará tranquilo
E a terra em convulsoes dantescas
Se jogará a meus pes quase incriados
Em soluços de mulher arrependida ...
Os seres e as cousas se entenderao quando ouvirem
As primeiras palavras desse canto amargurado
Que pronunciarei em gestos transcendentes
Quando eu surgir das trevas dos abismos ...
Porque entao estarei livre dos homens,
Estarei divorciado da vida,
Serei o Deus supremo de mim mesmo ...
O meu cérebro terá fulgores de estrelas
E os meus olhos magnetismos onipotentes
E direi tudo que assassinei na minha mudez,
Tudo o que mergulhou e perdeu-se no meu silêncio constrangido ...
Será uma hora incomensurável de vingança...



PROCEDÊNCIA


Venho do mundo dos desiludidos,
De onde a vida se tornou amarga e inconcebível,
De onde a tristeza estendeu suas asas negras
Como um pássaro agoureiro e cruel
Sobre os homens e as cousas ...
Venho de um submundo abandonado
Onde nao há Deus nem manhãs de sol,
Nem noites de luar nem dias sem crepúsculos,
Onde tudo vaga sem destino,
Sem finalidade e sem conforto ...
Trago na garganta o gemido dos aflitos,
No peito a tortura dos injustiçados
E no olhar a mensagem dos eternamente perdidos ...
É por isso que a minha alma tem essa vontade estranha
De pairar acima do infinito
E de viver no fundo dos abismos ...


POBRE ELEGIA


Eu não te trago nem flores nem auroras,
Nem a mensagem de outro céu
Nem a terra meiga de novos caminhos ...
Eu não te trago o clarão de outras estrelas
Nem a luz de novos pensamentos,
Nem a coroa da suave esperança
Pela qual te sacrificaste...
Eu não te trago a recompensa
Do sofrimento que absorveu
Num crepúsculo de fogo, num por de sol sangrento,
Sem o ú1timo beijo dos que te amavam,
Sem o olhar dos que foram a tua propria vida
Sem os adeuses do coração que amaste ...
O que eu te trago nesta pobre elegia
É a noticia da ambição que não extinguiste,
Do ódio que não apagaste,
Da incompreensão que nao destruíste,
Da dolorosa inutilidade do teu sacrificio ...



NATAL EM MEU BAIRRO



Nesta noite festiva
De janelas iluminadas,
De sinos repinicando,
De gritos e gargalhadas,
O meu bairro esqueceu a sua tristeza,
A sua melancolia esmagadora de subúrbio
E gargalhou, brincou e dançou freneticamente
Como um bairro feliz ...
Meu bairro esqueceu as suas misérias,
As suas dores,
Esqueceu os seus mendigos,
Os seus casebres desengonçados,
Tristes e cheios de dramas ...
Esqueceu os seus moleques traquinas
Que pulam,
Que gritam,
Que correm nas noites escuras,
Nas ruas sinuosas e lamacentas,
Os seus moleques vadios,
Abandonados,
Esquecidos,
Opilados,
De dentes cariados e mãos calosas ...
O meu bairro esqueceu a sua vida angustiada
E a sua pobreza infinita,
Cicatrizou as chagas de seu corpo
E ensurdeceu aos gemidos de sua alma enferma.
O meu bairro está feliz nesta noite festiva,
Está vivendo a sua noite de natal,
A sua noite de festa,
A sua noite de alegria,
A sua noite imensa de ressurreição ...
Está feliz com o seu céu de estrelas,
Com o seu chão branquinho de luar,
Com os seus namorados nas esquinas
De vozes trêmulas, ofegantes
E carícias prolongadas ...
Está feliz com a sua criançada
Que dança nas ruas,
Que brinca a ciranda
Sob a luz do luar.
Mas quando esta noite findar,
Quando as estrelas se apagarem
E nao houver mais luar,
Quando as crianças famintas chorarem
Descalças e maltrapilhas
Nas ruas sinuosas e lamacentas,
Quando os mendigos voltarem
Com suas faces agônicas,
Então meu bairro já nao será feliz ...
Escutará os gemidos de sua alma enferma,
Os gemidos dos seus casebres cheios de dramas
E sofrerá a sua tristeza infinita,
A sua melancolia esmagadora de subúrbio ...



AS MÃOS




As mãos se estenderam
Se alongaram
Como dois tentáculos perdidos,
Como dois pássaros sem rumo,
Conheceram o abismo das sarjetas
E tocaram o infinito ...
Perderam-se nas ruas sem esperança
Nas noites hibernais
Nas manhãs cheias de sol
Nos crepúsculos vazios
No mundo deserto da espécie ...
As duas mãos iam juntas
Como dois poemas torturados
Destinados ao mesmo estranho caminho ...
Depois penderam inexoravelmente
Na solidão dos destinos eternos.


ESTRELA MORTA



Estrela que fulgurou tao longe
Nas minhas noites incertas,
Estrela que guiou as minhas caminhadas
E anunciou todas as manhãs ...
Estrela que brilhou tão alto
Que me deixou perdido nos abismos
Na solidão imensa dos pântanos
Estrela que foi a única esperança
Nas minhas horas de desespero e desilusões ...
Estrela gloriosa
Estrela efêmera
Estrela morta,
Eu que te busquei tanto
Hoje contemplo a transformação do teu esplendor,
O teu cadáver ao alcance de minhas maos impiedosas...



POEMA



Assistiremos a tua derrocada
Quando um anjo descer sobre a noite
E transformar sombras em auroras,
Quando a tua voz se perder no abismo dos pântanos
E uma música de ópera te envolver ...
Assistiremos a tua derrocada
Quando o silêncio te esmagar nos dedos de aço
E as tuas horas correrem vertiginosamente
Para a solidao infinita que te espera.
Sim, nós marcharemos imperturbavelmente
Para assistir ao espetáculo de tua queda ...




ESTRELA DA MANHÃ




Não foste somente a mão que eu cobri de beijos,
A concha que recolheu os meus afagos,
O colo onde dormiu minha cabeça de martírios
Na estonteadora ebriez de todas as volúpias ...
Não foste apenas o vulto da esperança
Para onde os meus olhares convergiram
E as minhas mãos febris, ansiosas, avançaram
Conduzindo o meu corpo abandonado ...
Foste tambem a estrela da manhã
Que iluminou a minha noite sem aurora,
O farol amigo que entre brumas conduziu
Este pobre barco sobre um mar de escolhos ...
Foste a mão que amparou todos os meus tombos
Quando eu era um triste caminhante dos abismos,
Quando o meu olhar se turvou pelos caminhos
E todos os olhares esperavam a minha queda ...
Foste tu quem ouviu os meus gemidos,
Quem escutou minha voz desesperada
E me apontou ao longe no horizonte
O rumo da existência ...
Sim, tu foste tudo, o céu, a vida, a alegria,
A glória de um pobre ser perdido nas estradas,
O anjo mensageiro da minha grande esperança
Oculta no teu olhar de estrela da manhã ...





ANGÚSTIA



Senhor,
Nesta hora trágica da vida
Eu estou sofrendo
A angústia universal e eterna
De todos os homens,
A angústia suprema e imponderável
Desta hora terrível e cruciante ...
Estou sofrendo a angústia dos que embalde
Te procuram quando a tarde morre,
Dos que de mãos postas sempre acreditaram em Ti,
Dos que sempre Te negaram,
Dos que esperam estoicamente pelo Teu socorro,
Dos que erguem os braços aflitos
E os olhos cheios de lágrimas ao céu,
Dos que amaldiçoam o infinito ...
Estou sofrendo a angústia dos homens sem lar,
Dos que andam famintos pelas ruas tristes,
Dos que esmolam nas calçadas
E conhecem a tristeza das sarjetas,
Dos que gemem nos hospitais
Dos que choram nas noites taciturnas
Dos que soluçam nos albergues abandonados ...
Estou sofrendo a angústia dos que estertoram nas prisões,
Dos condenados
Dos desiludidos
Dos injustiçados
Que nesta hora cruciante
Se irmanam, se arrependem
E Te procuram, Senhor!
Estou sofrendo a angústia dos náufragos perdidos
Que agonizam na imensidade dos oceanos,
Dos que se matam nas oficinas
Dos que se preparam para as lutas
Dos que estão lutando
Dos que estão morrendo
Dos que estão matando
Dos que estão gritando surdamente
Sob os escombros das cidades mortas ...
Sim, Senhor,
Eu sofro a angústia desta hora
Que nos desumanizou,
Que assassinou a nossa fé,
Que destruiu a nossa esperança
E nos deixará eternamente
Duvidando da Tua existência...


POEMA


Eu queria ser uma árvore plantada a beira do caminho!
Eu queria ser uma árvore plantada a beira do caminho!
Uma árvore sobranceira e frondosa
Integrada no ritmo das coisas,
Adormecida num silêncio milenário
Sentindo a carícia meiga da terra
Na rusticidade das raízes ...
Eu queria ser uma arvore para sentir essas noites
Enfeitadas de estrelas lucilantes
Derramarem luar sobre as minhas folhas orvalhadas
Como se fosse um beijo aromal de namorada ...
Ser uma árvore para sentir constantemente
O sussurro das brisas mansas
E ao despontar da aurora
Ver partir da minha fronde
O gorjeio sinfônico dos pássaros
Como se eu cantasse uma eterna melodia ...
Ser uma árvore para sentir fundamente
Nessas horas de oiro e sangue,
De distâncias acesas,
A emotividade dos poentes iluminados ...
Queria ser uma arvore frondosa
Para abrigar sob a minha sombra
Todos os homens que não tem lar,
Os homens que vem fatigados pelo caminho,
Os que estão caindo vencidos pela vida,
Os que estão rolando esquecidos
Dolorosamente nas sarjetas da vida ...
Árvore que desse muitos frutos
Para alimentar as criancinhas órfas e famintas,
Que fosse um aconchego aos que nunca se sentiram amados,
Que desse abrigo a todos os homens infelizes
Os homens que Deus esqueceu ...
Ah! se eu fosse uma árvore frondosa
Integrada no ritmo das coisas,
Carregada de frutos e de flores,
Espraiando sombra no caminho,
Contemplando todos os crepúsculos!



O POETA DENTRO DA NOITE



O poeta quis saber o que havia dentro da noite
E por isso como um psicó1ogo profundo
Mergulhou na alma estranha da noite ...
Logo que o crepúsculo se apagou
E as primeiras trevas envolveram o poeta
E os vagalumes lucilaram na penumbra
O poeta começou a ver
0 que havia dentro da noite ...
Viu os mais opíparos jantares,
Viu muita gente gargalhando,
Homens, mulheres e crianças
Cantando
Brincando
Conversando
Sem nenhuma queixa contra a vida ...
Viu muitos corações felizes...
Mas viu também logo que o crepúsculo se apagou
Legiões de homens cansados, acabrunhados,
Maltrapilhos que não tinham lar,
Nem pão para comer, nem água para beber...
Viu mulheres doentes, tristes, acabadas.
Pelos subúrbios distantes,
Viu crianças famintas que choravam
E velhinhas que vieram de longe
Para levar as sobras dos restaurantes ...
Ouviu soluços longos, dolorosos,
Que vinham das casinhas pobres
E gemidos surdos dos hospitais ...
Depois os microfones encheram a noite
E as luzes brilharam profusamente
E o poeta interessou-se ainda mais
Pelo que havia na alma estranha da noite ...
Viu mãos postas em súplicas infinitas
E lábios hipócritas que rezavam
E corações empedernidos
Que buscavam aquele Cristo de feições mortas
Que os homens esqueceram eternamente na Cruz.
Contemplou as fachadas luminosas dos cinemas
E ouviu prolongadamente
A música que andava no ar
Misturada com o fonfom dos automóveis
Abafando os gritos de angústia,
Levando os momentos de grande aflição
Que perturbariam a festa incomensurável
Da noite maravilhosa dos homens felizes ...
Olhou todas as vitrines
Onde os homens paravam
E desejam o que ainda nao puderam ter ...
Encontrou namorados aos beijos
Nos bancos dos jardins
Sob as árvores quietas,
Ouviu confidências apaixonadas,
Vozes trêmulas, titubeantes
E viu lágrimas passionais ...
Depois, noite alta, na solidão das ruas
Quando as estrelas brilhavam no céu opalino
E a irmã lua surgiu piedosamente
Como um brinquedo de criança,
Branqueando as árvores quietas,
O poeta caminhou pela mais triste e alegre das ruas ...
E viu corpos nus de mulheres perdidas,
Corpos brancos, morenos, bronzeados,
Formas flacidas de seios,
Sorrisos cheios de volupia
E gestos obcenos de lascivia ...
Contemplou a alegria doente dos homens perdidos
Que contemplavam as mulheres desnudas ...
E vieram as horas de grande silencio,
Os veículos pararam,
As árvores ficaram imobilizadas como espetros
E a cidade era como uma necr6pole abandonada
Aos tíbios raios do luar agonizante ...
Mas o poeta continuou vagando pelas ruas desertas
Para saber o que havia dentro da noite ...
Viu ex-homens dormindo nas calçadas
Envoltos no manto gelido da noite barbara,
Ouviu o apito funebre do guarda-noturno
E encontrou 0 sentinela do quartel sombrio
Desiludido como um condenado ...
Penetrou nas alcovas escuras
E como o infeliz Augusto dos Anjos
Viu de perto "0 trabalho genésico dos sexos".
Viu larapios e facinoras,
Notívagos sem alma
Caminhando nas sombras da alma da noite ...
Veio entao a estrela d'alva
E luminosamente
Banhou o rosto do poeta triste ...
Os galos cantaram uma canção selvagem
E houve vibrações de aurora
E gorjeio de passarinhos.
O sol beijou a terra orvalhada
Com o seu beijo trágico de fecundação ...
Então o poeta amargurado,
De olhos postos no infinito cheio de luz,
Sentiu mais do que nunca
O drama de sua geração desesperada ...



POEMA AOS QUE HÃO DE VIR ...



Aqueles que nesta hora ainda estão lutando
Entre as paredes do útero das mulheres grávidas,
Aqueles que vivem incriados e silenciosos no ventre das virgens
Os que hão de surgir em breve
Em todos os recantos do mundo
Como flores desabrochando ao sol
E trarão no olhar de novos pioneiros
A suave esperança de uma nova vida,
Vão escutar agora a informação deste poema:
O mundo esta doente de incompreensão
De intolerância e de injustiça,
E um pobre ancião acabrunhado,
Afogado na onda de seu desespero ...
Há milênios e milênios esqueceu a paz
E os homens tombam fratricidamente,
Rolam no chão morno de sangue das trincheiras
E se desesperam na vastidão dos oceanos ...
E há crianças chorando nas cidades mortas,
Soterradas nos escombros
E mães prostituídas e ultrajadas
E meninos esfarrapados pelas ruas,
Doentes,
Famintos,
Esquecidos,
Gemendo nos mocambos abandonados ...
Há mãos erguidas à beira dos caminhos
Pedindo esmolas em nome do Senhor,
Vultos indistintos,
Corpos cansados,
Confundidos,
Estiolados
Na poeira das estradas ...
Há vozes trêmulas perdidas dentro da noite
Que vem da solidão dos hospitais,
Que partem dos peitos torturados nas prisões,
Das gargantas ensanguentadas
Dos desaventurados passionais ...
Mas há tambem gargalhadas sonoras ecoando,
Risos acintosos pairando pelo ar,
Sobre a angústia dos injustiçados,
Sobre a carne apodrecida das mulheres perdidas ...
Sim, o mundo está doente,
Desolado,
Sem luz, sem ar, sem pão,
Sem direito e sem compreensão ...
E é por isso que aqueles que virão dentro de breve,
Aqueles que dormem incriados e silenciosos
Mas que esperam contemplar todas as auroras,
Terão forçosarnente de curá-lo
Para que outros ainda mais incriados e silenciosos
Possam viver um dia
O milagre das nossas horas de esperanças ...



CANTO DE AMOR À NOITE



Agora eu quero amar profundamente a noite,
Essa noite enfeitada de estrelas lucilantes
E dessa lua que branqueja todos os telhados ...
Não quero amar somente essa noite elegante dos salões,
De mulheres fascinantes, de mãos fidalgas
Bailando maravilhosamente nos teclados
E se perdendo na vertigem das declamações ...
Noite de alvos colos nus,
De lábios rubros, sensuais,
Feitos para a volúpia de incógnitos desejos ...
Mas tambem essa noite ampla e humilde dos subúrbios,
De homens cansados, suarentos,
De pele tostada de sol,
Dessas mulheres profundamente humanas
De pés sujos de terra
Que trazem no ventre o fruto de seus amores ...
Amar essa noite misteriosa das florestas
Onde o pioneiro avançou
E dorme agora silenciosamente.
Essa noite de lendas de pescadores rudes
Que falam dos encantos das boiúnas
E do feitiço dos igarapés ...
Amar essa noite de mulheres perdidas
Que vagueiam sem destino,
Embriagadas,
Dormindo nas sarjetas.
Nas portas dos cabarés ...
Amar a noite na imensidade de seu bojo
Sentindo o calor de suas alegrias
E a amargura de todos os seus dramas ...
Amar e sentir a noite imensa
Descortinada.
Silenciosa.
Alva de luar e esperança
E ensanguentada de mortes e gemidos ...
Sim, amar e sentir toda a noite da janela
E percorrer o mundo como um bólide misterioso
Em busca da aurora
Com a estrela da manhã flutuando nos olhos ...



SAUDADE


Quando a tarde caiu,
Quando o crepusculo avermelhou os horizontes
E as aguas deslizaram no seu poema de silencios,
Quando a paz uniu os seres e as cousas
E os acordes da Ave-Maria penetraram fundamente os coraçoes,
Quando os caminhantes de todas as estradas pararam
E houve em tudo misteriosa vibraçao de salmos,
Quando os meus olhos se perderam na imensidao
E contemplaram a tua grande ausencia,
Foi que senti a inspiração deste poema ...
Foi quando tu voltaste do passado distante
E te senti como uma aurora de esperança
Animando o meu olhar abandonado ...
Foi quando eu senti a emotividade da vida
Na triste apoteose do Angelus ...


POEMA




Venho de longe descalço e triste
Pelas estradas
Caminhando nas noites
Como um viajor soturno e sem destino.
Nao trago vestes sabre o meu corpo,
Venho confundido com a natureza
Tonto de luz e de cor ...
Na caminhada imensa e sem rumo
Tudo perdi,
Tudo ficou na solidao da poeira dos caminhos percorridos,
Menos este bastao ing1ório
Que continua me guiando como uma estrela,
Como uma luz,
Uma esperança.


O HOMEM SÓ



O homem trazia no olhar a mensagem do seu destino,
No coração a esperança de uma nova vida
E nas maos transparentes
A semente pronta para a germinaçao.
O seu maior desejo
Na caminhada sem limite
Atraves de mares, desertos e planicies,
Aquilo que o homem guardava no fundo de seu ser
Como se fosse a ultima luz,
A ultima beleza de seus milhoes de anos de existencia,
Era encontrar a terra para a semente salvadora ...
Assim caminhou incansavelmente,
Venceu distancias infinitas,
Aprisionou-se no seu próprio corpo
E suportou todas as torturas,
Todos dos castigos
Pelo pecado de ter nascido homem ...
Mas quando se sentiu redimido,
Quando se viu puro como a luz ou como um peixe do mar
E deixou de ser demonio para tornar-se anjo,
Quando pos no olhar a mensagem de seu destino,
No coraçao a esperança de uma nova vida
E nas maos transparentes
A semente pronta para a germinaçao,
Sentiu que uma solidao imensa o envolveu ...
Entao compreendeu que ja estava vivendo
Num mundo que nao era o seu ...




ANGÚSTIA NUMA CASA DE CORREÇÃO




Olho os meninos desdentados,
As cabeças raspadas como assassinos,
As maos sujas
Os pes descalços
E as barrigas crescendo de opilaçao ...
Mas o que me angustia
Nesta casa de correçao
Nao sao essas pedras sem rumo,
Esses rostos macilentos,
As esperanças desfeitas
De maes aflitas chorando
Os filhos que estao recolhidos
A esta casa de correçao ...
O que me angustia nesta casa de correçao
É que em todos os rostos macilentos
Como um sinal de naufragio
Ha um ponto de interrogaçao ...



DESEMBARQUE




As praias brancas e desertas
Nas noites luarentas
Sao como sobreviventes de um naufragio
Esperando velas brancas no horizonte
Para a hora fatal do desembarque ...



ANJO NOTURNO



Nao busques conhecet a estranha alma do poeta
Nem perguntes de onde vem seu corpo desvairado
Nesta noite de lubricos rumores ...
Nao somos duas almas paralelas
Mas nossos caminhos tem a fatalidade do mesmo destino ...
Somos filhos desta mesma lua
São nossas todas as estrelas
E merecemos a brisa que agora nos envolve.
Quero afagar as tuas asas, anjo noturno,
Sentir a paisagem triste do teu corpo
Sem olhar a tua alma cheia de pecados ...
Depois partiremos para sempre
E mais uma vez, anjo das noites inesperadas,
Enfrentaras a aurora ...


MADRUGADA SANGRENTA




Em vao eu te busquei ó madrugada
Quando a minha alma quase morta necessitou de auroras
E o meu corpo de um refugio inviolavel ...
Nao pude contemplar a tua paz
Nem deixar que minhas maos mergulhassem em teus lírios ...
No desembarque impossivel,
Eu vi apenas o teu clarao sangrento
E os teus passaros entoando uma cançao de guerra ....



O ÚLTIMO DESEJO DO POETA




Quando O poeta deixar de contemplar todas as auroras
E de maos postas emudecer no seio turvo da terra,
Quando as angustias humanas nao emocionarem mais o coraçao do poeta
Nem os esptaculos da miseria umedecerem seus olhos
E os meninos esfarrapados nao mais pedirem tostao,
Quando todas as vozes amargas silenciarem aos seus ouvidos,
O poeta nao desejara gloria para seu nome
Nem reverencia para sua memoria ...
O poeta desejará apenas
Que surja a grande paz para o homem
Porque entao do seu eterno silencio
Escreverá o seu poema de todos os poemas,
O poema que ficou nas suas horas de esperança ...



TEUS PÉS




Teus pés incansaveis vararam os seculos
Palmilharam as noites sem aurora
Os dias e as solidoes ...
Teus pés percorreram as estradas poeirentas
Marcharam à frente dos que protestaram
E se purificaram nos esterquilínios ...
Teus pes sujos de sangue
Marcharao sempre,
Indefinidamente
Para o futuro,
Para a vida
Para a esperança ...




DAMA DO CABARÉ




Na madrugada fria
Quando o silencio cortava as almas
A dama caiu,
Rolou como uma coisa sem destino
Na porta do cabaré ...
O tempo havia passado,
A vida era como um cavalo correndo alucinado
E por isso todos deixaram a menina bebada
Dormindo na porta do cabaré ...



POEMA


Na hora do teu desencanto,
Na hora em que nu apareces para o mundo,
Na hora em que todas as classes te caluniam
E assistem ao carnaval da tua degradação,
No momento em que todos te abandonam
E esperam ansiosamente,
Alucinadamente
O desenlace do teu sacrifício,
Deixa que a luz deste poema te penetre profundamente,
Te envolva como um manto infinito de estrelas
E pela força de milhões de pássaros
Te conduza à eternidade do teu destino ...



NAUFRÁGIO



Dormirei no leito imenso do mar
Inatingivel como um navio perdido para sempre
Sem soluços nem pesadelos ...
Dormirei tranquilo,
Vitima do meu naufragio voluntário
Ate a minha dissoluçao definitiva ...



POEMA


Homem que vens de longe
Pisando cadaveres de crianças mortas ...
Homem que vens de longe
De maos tintas de sangue
Perdido no teu destino obscuro ...
Homem que vens de longe
Injusto, atrabiliario e cruel!
Detem-te
E contempla o infinito
Os campos e as flores ...
Procura a paz e a esperança,
Joga fora os andrajos que te cobrem,
A lama que tens no coraçao,
Acende uma lampada dentro de tua alma
E socorre as vitimas do teu desespero.
Depois volta assim redimido
Que te mostrarei o novo caminho ...
Pois somente entao
Com essa completa transformaçao
Poderas alcançar o destino da poesia
E viver num mundo que nao é o teu ...



POEMA


Nao deixes que se apague a vela de minha mao.
O vento ruge amigo,
As trevas sao espessas
E nós estamos sozinhos no mundo ...
Talvez nao encontremos mais a aurora
Talvez as nossas forças nos abandonem
E a nossa voz desapareça.
Talvez as nossas maos sejam decepadas,
Os nossos gestos se aniquilem
E fiquemos sem destino com esta vela agonizante ...
Talvez o mar nos envolva bruscamente
A poeira das estradas nos oculte,
As pedras dos caminhos retalhem nossos pes
Mas nós seguraremos com as quatro maos decepadas
Esta vela salvadora
Que foi a razao de nossa vida,
Da eternidade de nossos sonhos ...




ANJO REBELDE


Um anjo rebelde surgirá da vida
E começará a destruiçao das galeras brancas do mar
Das torres ignoradas e dos castelos ocultos,
Destruirá tambem a esperança e as ilusoes ...
O anjo rebelde virá num carro luminoso de estrelas
Com a espada sangrenta nas maos impiedosas,
As suas asas serao essas maos impiedosas
Porque ele nao vira da alturas como os outros anjos
Nem da imensidao soturna do mar
Como um peixe desconhecido,
Nao virá da solidao dos abismos
Como um acontecimento biblico
Nem das florestas misteriosas
Como num conto de fadas ...
O anjo surgirá mesmo da vida
Dos acontecimentos quotidianos
E nao virá precedido de aureolas de fogos
Mas apenas de passaros e estrelas ...
Antes porem de começar a sua marcha gloriosa
O anjo rebelde se ocultará num coraçao qualquer de poeta,
Se remirá em tremendas agonias
Contemplando a paisagem dos caminhos do mundo...
Nesse pequeno interludio,
Nesse martirológio voluntario
O anjo terá gestos invisiveis de revolta,
Inspirará poemas imortais ...


DESPEDIDA AO VIAJANTE NOTURNO



Deixa que eu aperte logo a tua mao amigo
E fuma aqui mesmo o teu cigarro.
A noite lá fora é um misterio,
O vento derrubou todas as estrelas
E por isso seguirás sem rumo
Ouvindo apenas a sinfonia dos gemidos ...
Segue amigo,
A solidao te espera
O vento clama por teu nome
E a madrugada é um convite irrecusavel ...



POEMA


Na manha clara
Cheia de luz e de cor,
Quando os passaros cantavam
E os jardins palpitavam vida,
Tombaste como um imenso cedro
Sobre o estandarte de teus sonhos
E de tuas esperanças ...
Sobre o teu corpo inerme e ensanguentado
As crianças choraram,
Os velhos proferiram suas preces
E as caravanas silenciosamente estancaram ...
Os passaros trouxeram suas musicas
E o crepusculo seus momentos de serenidade ...
Por fim desceu a imensa noite sobre o mundo
Numa tentativa inutil
De ocultar teu corpo
De apagar teus rastros luminosos ...



O POETA DE BRANCO





Na tarde calma
Quando o crepusculo descia
O poeta quis sentir a serenidade do entardecer
E ouvir o brando murmurio das aguas.
O poeta queria deixar que a sua alma
Se embriagasse de paz e suavidade ...
Queria fugir ligeiramente da arena do mundo,
Esquecer todos os problemas quotidianos
Fechar os olhos às contradiçoes da vida
E nao ter ouvidos para o tumulto das multidoes ...
O poeta queria apenas o mísero direito
De viver alguns instantes para si.
O poeta ia de branco
Porque sempre amou a paz,
Porque brancos eram tambem seus pensamenios
Na tarde calma
Em que o poeta nao pôde esconder o seu egoismo ...
Sim, o poeta ia de branco para o entardecer
Embora compreendesse na curva do caminho,
No naufragio quase geral da especie
Que a sua indumentaria era uma afronta ...



FIM DE "AS VOZES AMARGAS"


%%%%%%%%%%%%




ROSA DA ESPERANÇA

Rosa da vida, rosa da esperança
De meu jardim, de tênue alacridade.
Que me ficou vivendo na lembrança
Como um poema de amor e de saudade...

Rosa de luz, rosa ideal e rosa
Que foi sonho e beleza e foi virtude
E estrêla que esperei — alma radiosa
Nas horas boas que viver não pude.

Não te esqueci por êste mundo afora,
Nestes caminhos rudes onde agora
Não vejo a luz de teus olhares francos.

O teu fascínio para mim não finda
Pois te lembrando viverei ainda
Quando chegarem meus cabelos brancos.

(In “Rev. da Academia Amazonense de Letras”, n. 5, março de 1956 — Manaus).




DJALMA VIEIRA PASSOS nasceu, no Acre, no dia 19 de junho de 1923 e faleceu no Rio em 1990. Filho de Diomédio Vieira Passos e de D. Joana Crispim de Souza Passos. Fêz seus estudos no Colégio Estadual do Amazonas e na Faculdade de Direito do Amazonas. Foi tenente-coronel da Reserva da Policia Militar do Estado. Foi professor do Colégio Comercial Brasileiro, Ruy Barbosa e Ginásio de Aparecida. Abandonou o magistério para ingressar na política, tendo sido eleito, primeiramente, Vereador, mais tarde, Deputado Estadual e depois Deputado Federal pelo Amazonas pelo PTB
(1962). Colaborou com as revistas e jornais de Manaus.

O Senador Aureo Mello do PMDB do AM pronunciou Discurso em 19/06/1990 em
HOMENAGEM DE PESAR PELO FALECIMENTO DO SR. DJALMA PASSOS.



Obras:
Poemas do tempo perdido (Plaqueta do Centro Plácido Serrano, 1947);
As Vozes Amargas, (Casa do estudante do Brasil, 1952);
Tempo e Distância, Manaus, 1955.

Poeta, contista, cronista, ensaísta, advogado, diplomado em direito (1955), Fundador do Clube da Madrugada


Obras do Autor Cadastradas

As Vozes amargas Poesia 1952
Bazar de angústia Miscelânea 1972
Notas de literatura contemporânea Crítica, teoria e história literárias 1978
Poemas do tempo perdido Poesia 1947
Tempo e distância Poesia 1955

%%%%%%%%

Em 1954, os poetas Jorge Alauzo Tufic, Antisthenes de Oliveira Pinto, Alencar e Silva, Saul Benchimol, Carlos Farias de Carvalho, Francisco Vasconcelos, Oscar Ramos, Afrânio de Castro, Antonio Trindade, Freitas Pinto, José Pinheiro, Francisco Batista, Djalma Passos e outros, fundaram o Clube da Madrugada em plena Praça da Policia Militar.


%%%%%%%%




JORNAIS ANTIGOS


1946 - O CENTRO
Orgão do Centro Estudantil "Placido Serrano"
Manaus - AM
Diretor: Elpídio Cahn - Redactores: Antonio Lopes de Souza, Bento Vidal e Djalma Passos
Circulação: mensal
01 exemplar avulso de fev. de 1946
Ano: III
______________________________________________________
Notação: Cod. 113: A1.P1. Port.2



%%%%%%%%%%

LEI Nº 543, DE 23 DE JUNHO DE 2000
DÁ o nome de Djalma Passos à
Escola Municipal localizada na Rua
Monte Sião s/nº, bairro Cidade de
Deus, Zona Leste de Manaus
O PREFEITO MUNICIPAL DE MANAUS no uso
das atribuições que lhe são conferidas pelo artigo 80, inciso
IV, da Lei Orgânica do Município.
FAÇO SABER que o Poder Legislativo decretou
e eu sanciono a presente
LEI:
Art. 1º - A Escola localizada na Rua Monte Sião
s/nº, bairro Cidade de Deus, Zona Leste de Manaus,
vinculada à Secretaria Municipal de Educação, será
denominada Escola Municipal Djalma Passos.
Art. 2º - A Prefeitura Municipal de Manaus
adotará as providências necessárias para execução desta
legislação, sobre tudo no tocante a sua sinalização.
Art. 3o - Revogam-se as disposições em
contrário.
Art. 4o - Esta Lei entrará em vigor na data de
sua publicação.
Manaus, 23 de junho de 2000
ALFREDO NASCIMENTO
PREFEITO

%%%%%%%%%%%%%

Ações do Projovem vão à Zona Norte (2007)

No próximo sábado, dia 30 de junho, alunos do Projovem irão participar de atividades de integração das ações previstas dentro do Programa( ações comunitárias, profissionais e de educação básica). Das 8 da manhã até 1 da tarde, vão ser realizadas palestras e oficinas como de manicura, cabeleireiro, artesanato, todas para atender à comunidade. A programação vai ser realizada na Escola Municipal Djalma Passos que fica no Campo Dourado, bairro Cidade Nova.

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APÊNDICE: ATIVIDADE PARLAMENTAR

COMISSÕES


RESOLUÇÃO Nº 1, DE 1963
(Diário do Congresso Nacional de 28 de março de 1963)
Institui a Comissão Parlamentar de inquérito para apurar irregularidades no Serviço de Proteção aos Índios e da outras providencias.
Sr. Presidente, requeremos um Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar irregularidades no Serviço de Proteção aos índios, do Ministério da Agricultura, principalmente no que concerne aos arrendamento das terras, á receita arrecadada e sua aplicação, á assistência prestado ao índio e as providencias determinada ás Comissões de Sindicância criadas pelo poder Executivo.
A Comissão Parlamentar de Inquérito de que trata o art. 1º, será composta de 5 membros e terá o prazo de duração de 90 dias.
As despesas decorrentes da presente resolução correrão á conta da verba própria do orçamento vigente - Consignação 1.600 - Encargos diversos, suplementada se necessário.
Sala das Sessões, 20 de março de 1963.
Justificativa
Senhor Presidente,
È lamentável o estado em que se encontra o Serviço de Proteção aos índios. Denuncia-o o próprio Diretor Chefe de Serviço Cel. Moacyr Ribeiro Coelho; "Há muita safadeza em vários casos em cujo esclarecimento está empenhado, a fim de moralizar a administração do SPI. A crise é de pessoal, qualitativa e quantitativamente... "Referindo-se aos diversos casos de irregularidades de que vem sendo acusada a sua administração, o Diretor do SPI disse que 23 inqueritos e sindicâncias fora reconstituídos para apurar os fatos.
Se assim se passa não administração, não é diferente o estado em que se encontram os índios. Há no pais, cerca de 300.000 índios, dominados pela doença (tuberculose e malaria), a subnutrições e pela ignorância, enquanto o que a nação dispende cerca de ½ bilhão de cruzeiros para manutenção desse serviço que, antes de ser de Proteção ao índio, é de Perseguição.
A reportagem diz que "O Coronel Moacyr Ribeiro Coelho está quase só na batalha pela valorização do silvícola. O órgão esta obsoleto. O Ócio administrativo por pouco não ganhou consistência jurídica, enquanto o atual dirigente parece um corpo estranho ali".
As reservas indígenas, como acontece com a dos Kadiueus - cerca de 360.000 hectares, - estão arrendados a diversos criadores, por prazos nunca inferiores a 6 anos, na base de 3% da lotação, nunca inferior a 400 cabeças produzindo uma grande renda ao SPI. Hoje ali existem uma 50 a 60 mil cabeças de gado vacum. O Orçamento da União, no entanto, não contempla qualquer rubrica da receita.
"Há uma luta interna muito grave no SPI, "denuncia-o o Sr. Janes Monteiro Leite" e a Inspetoria faz confusão dos fatos no desejo de obrigar a retirada dos atuais arrendatários e permitir a entrada de outros que oferecem bom dinheiro pelas posses existentes, que custaram 2, 3 e 4 milhões de cruzeiros. Além disso pagaram 30 mil cruzeiros ao advogado, cada um, no ato da assinatura dos contratos, em numero de 62. Essa luta do SPI, tempo atrás, resultou na morte de um, fato que se passou dentro da própria repartição, nesta cidade". (Campo Grande).
A Câmara Precisa Agir
A Câmara precisa agir com decisão para que não venha a ser acusada de displicência porque índio não vota, como se vê no tópico seguinte;
"Serviço de Proteção aos índios e uma vergonha com meio século de duração. O flagrante desinteresse dos políticos diante dos silvícolas pode ser interpretado de forma clara : índio não vota. Raciocinando assim, os homens públicos, em média, não sentem qualquer compaixão pelo elemento nativo".
Senhor Presidente,
São estas as razões que levam os subscritores do presente projeto a requerer á Casa a formação da presente Comissão Parlamentar do Inquérito.
Edison Garcia - Simão da Cunha -Francelino Pereira- Oscar Correia - José Carlos Guerra - José Sarney - Vital do Rego - Dnar Mendes - Flores Soares - Ernani Satyro - Luiz Bronzeado - (Ilegível) Minoro Miyamoto - Adauto Cardoso - Celso Passos - Ezequiel Costa - Raimundo Padilha - Amaral Neto - Aliomar Baleeiro - Otavio Ribeiro - Augusto Novais - Ossian Araripe - Gil Veloso - Costa Cavalcanti - Saldashe Derzi - Adolpho de Oliveira - Pedro Braga - Newton Carneiro - Dias Menezes - Jorge Curi - Tourinho Dantas - Horacio Betonio - Arnaldo Nogueira - Rondon Pcheco - Manoel Pereira - Jalles Machado - Edilson Melo Távora - Segismundo Andrade - Vasco Filho - Plínio Sampaio - Teófilo Andrade - Juarez Távora - Emilio Jones - Henrique Tuner - Ruy Santos - Tenório Cavalcanti - Oceano Carleial - Mario Covas - Adião Bernardes - Stelio Maracujá - Omeo oBtelho - Paulo Sarasato - Pedro Aleixo - Euclides Trides - Cid Furtado - Correa da Costa - Plínio Lemos - Aristotenes Fernandes - Tuly Massil - Dervilly Alegretti - Ortiz Borges - Jose Esteves - Candido Sampaio - Yukishique Tâmara - Benjamim Farah - Padre Godinho - Afrânio de Oliveira - Lamartine Tavara - Gastão Pereira - Jairo Brun - Euvaldo Pinto - Nicolau Tuma - Neiva Moreira - Arnaldo Carvalho - Wilson Falcão - Rubens Paiva - (ilegível) - Alceu Carvalho - Aélcio Magahenizani - Altino Machado - Abrão Moura - Emmanuel Waismann - Milton Dutra - José Aparecido - Djalma Passos - Álvaro Catão - Albino Zeni - Afonso Auschau - Hermes Macedo - Pedro Braga - Ney Maranhão - Audizio Pinheiro - Benedito Vaz - Milton Reis - Clemens Sampaio - Mario Maia - Benedito Cerqueira - Jamil Aniden - Manoel Novaes - Necy Novaes - Manso Cabral - João Alves de Almeida - Padre Godinho - Padre Nobre - Henrique Tuner - João Mendes - Olimpio - Arruda Câmara - Machado Rolemberg - Armando Rolemberg - Arnaldo Gomes - José Carlos Teixeira - Francisco Montoro Susuumu Hivata - Dias Lins - Aloyno Nono - Medeiros Neto - Zacaria Selene - Elias do Carmo - Geraldo Freire - Sousa Santos - Lauro Cruz - Waldemar Pessoas - (ilegível) José Etseves (duplicata) Moyses Pimentel - Aécio Cunha - Alberto Abou - Esmerino Arruda - Ferro Costa - Costa Rego - Ribeiro Coutinho - Jonary Nunes - Bilac Pinto - Lourival Baptista - Paulo Sarasate - Antonio Carlos Magalhães - Pedro Aleixo - Hamilton Nogueira - Diomicio Freitas - Cardoso de Menezes - Djalma Marinho - Daso Coimbra.
Foram designados os seguintes deputados para integrarem a Comissão; Senhores Edgard Pereira - Valério Magalhães - Gelso Amaral - Antonio Bresolim - Wilson Martins, e como suplentes os Senhores Rachid Mamed e Luiz Bronzeado.


ATIVIDADE PARLAMENTAR

DEPUTADOS ELEITOS


Câmara dos Deputados - 1962


AC - Valério Caldas de Magalhães - 827 - PSD (4,2)

AM - Djalma Vieira Passos - 3306 - PTB (2,4)

PA - Sylvio Leopoldo de Macambira Braga - 10299 - (PSP, PTN, PRT, PR, PSB, UDN, PL ou MTR) (2,4)

MA - Pedro Braga Filho - 6025 - (PDC, UDN, PTN ou PR) (1,2)

PI - Jacob Manoel Gayoso e Almendra - 12707 - PTB (4,0)

CE - José Flávio Leite Costa Lima - 12919 - (PSD ou UDN) (1,5)

RN - Jessé Pinto Freire - 18292 - (PSD ou PDC) (5,7)

PB - Bivar Olinto de Melo - 5834 - PSD (1,4)

PE - Aurino do Nascimento Valois - 8514 - PTB (1,0)

AL - José Pereira Lúcio - 5535 - UDN (2,9)

SE-João Machado Rolemberg Mendonça - 9905 - (UDN,PTBou PST) (5,1)

BA - Pedro Vilas Bôas Catalão - 8423 - (PTB, PR ou PRP) (0,7)

MG - Padre José Sousa Nobre - 13856 - (PTB, PSP ou PL) (0,5)

ES - Raymundo de Araújo Andrade - 10669 - (PSD ou PTN) (3,5)

GB (DF) - Benedicto Cerqueira - 3527 - (PTB ou PSB) (0,3)

RJ - Roberto Saturnino Braga - 7709 - (MTR, PSB ou PST) (0,7)

SP - Adrião Bernardes - 7270 - PST (0,2)

PR - Lyrio Bertolli - 8223 - PSD (0,7)

SC - Paulo Macalani - 12579 - PTB (2,0)

RS - Ary Rodrigues Alcântara - 13452 - PSD (0,9)

MT - Edison Britto Garcia - 7713 - UDN (1,5)

GO - Jales Machado de Siqueira - 8182 - (UDN, PSP ou PDC) (1,6)


ATIVIDADE PARLAMENTAR



PL-2035/1964
Autor: DJALMA PASSOS - PTB/AM.

Data de apresentação: 15/6/1964
Ementa: DISPÕE SOBRE O APROVEITAMENTO DO FUNCIONARIO EM DIREITO, NOS SERVIÇOS JURIDICOS DA UNIÃO E DAS AUTARQUIAS.


PL-1268/1963
Autor: DJALMA PASSOS - PTB/AM.

Data de apresentação: 14/11/1963
Ementa: CONCEDE A APOSENTADORIA VOLUNTARIA, AOS 25 ANOS DE SERVIÇO AOS SERVIDORES DO SERVIÇO GRAFICO DA UNIÃO, CUJAS ATRIBUIÇÕES OS OBRIGUE A UM CONTATO PERMANENTE COM SUBSTANCIAS NOCIVAS A SAUDE.


PL-696/1963
Autor: DJALMA PASSOS - PTB/AM.

Data de apresentação: 19/7/1963
Ementa: ESTABELECE O SALARIO DE FRONTEIRA PARA AS POLICIAS MILITARES DO AMAZONAS, ACRE, PARA, MATO GROSSO, PARANA, SANTA CATARINA, RIO GRANDE DO SUL, E DA OUTRAS PROVIDENCIAS.


PL-447/1963
Autor: DJALMA PASSOS - PTB/AM.

Data de apresentação: 11/6/1963
Ementa: AUTORIZA A UNIÃO A CONSTITUIR, COM O ESTADO DO AMAZONAS E SEUS MUNICIPIOS, A COMPANHIA AMAZONENSE DE NAVEGAÇÃO, E DA OUTRAS PROVIDENCIAS.


PL-446/1963
Autor: DJALMA PASSOS - PTB/AM.

Data de apresentação: 11/6/1963
Ementa: AUTORIZA O PODER EXECUTIVO A ABRIR, PELO MINISTERIO DA JUSTIÇA E NEGOCIOS INTERIORES, O CREDITO ESPECIAL DE CRZ 80.000.000,00 (OITENTA MILHÕES DE CRUZEIROS), PARA AJUDAR A CONSTRUÇÃO DA PENITENCIARIA AGRICOLA E INDUSTRIAL DO AMAZONAS, NA ESTRADA AM-1 (MANAUS-ITACOATIARA).


PL-421/1963
Autor: DJALMA PASSOS - PTB/AM.

Data de apresentação: 5/6/1963
Ementa: CRIA O FUNDO DE INDUSTRIALIZAÇÃO DA AMAZONIA E DA OUTRAS PROVIDENCIAS.


PL-133/1963
Autor: DJALMA PASSOS - PTB/AM.

Data de apresentação: 22/4/1963
Ementa: CRIA A DELEGACIA FEDERAL DE PREÇOS, E DA OUTRAS PROVIDENCIAS.


Senado Federal
Subsecretaria de Informações



COMISSÕES



RESOLUÇÃO Nº 160, DE 1965

Requeiro a constituição de uma comissão Parlamentar de Inquérito, composta de onze (11) membros com a duração de sessenta (60) dias, a fim de apurar atos de violência e desmandos, que culminam até em torturas, físicas, praticadas com evidente intuito de coação eleitoral por agentes do Departamento Federal de Segurança Pública destacados em Alagoas, sob ordens do Secretário de Segurança Pública daquele Estado, desvirtuando assim as altas finalidades da referida corporação policial, que se transformou ali em mero instrumento de pressões políticas contra os adversários do Governo estadual. A CPI ora requerida terá uma verba de cinco milhões de cruzeiros.....(Cr$ 5.000.000) para suas despesas.

Sala das sessões 1º de setembro de 1965.

- Aloysio Nono - Paulo Lauro - Theodulo Albuquerque - Wilson Calmon - Clemens Sampaio - Luna Freire - Manso Cabral - Clovis Pestana - Benjamin Farah - Padre Vidigal - Áureo Melo - João Alves - Oswaldo Zanello - Campos Vergal - Arnaldo Garcez - Ozanan Coelho - Blas Fortes - Padre Nobre - Ney Maranhão - Jader Albergaria - Gustavo Capanema - Altino Machado - Geraldo Guedes - Noronha Filho - Jairo Brum - Aurino Valois - Derville Alegretti - Adahhury Fernandes - Eurico de Oliveira - Mauricio Goulart - João Veiga - José Cinciano - Lisandro Paixão - Hergel Morty - Geraldo Mesquita - Mario Maia - Aluysio de Castro - Adriano Gonçalves - Gabriel Hermes - Celestino Filho - Wanderley Dantas - Leopoldo Peres - Heitor Dias - João Calmon - Antônio Feliciano - Mário Covas - Henrique Lima - José Maria Ribeiro - Guilhermino de Oliveira - Luiz Pereira - Cunha Bueno - Anísio Rocha - Jorge Julume - Álvaro Catão - Ario Theodoro - Chagas Rodrigues - Edésio Nunes - Ulysses Guimarães - Humberto Lucena - Daso Coimbra - Lino Braun - Oscar Cardoso - João Mendes - Machado Rolemberg - Ariosto Amado - Celso Amaral - Croucy de Oliveira - Tabosa de Almeida - Aécio Cunha - Renado Celidônio - Amaral Peixoto - Flores Soares - Paulo Pinheiro Chagas - Walter Passos - Álvaro Lins - Raymundo Andrade - Osni Regis - José Menuck - Milvernes Lima - Ary Alcântara - Alfredo Barreira - José Freire - Abrahão Sabbá - José Mandelli - Djalma Passos - Francisco Macedo - Antônio Annibelli - Miguel Marcondes - Pinheiro Brisolla - Bulamaqui de Miranda - Luciano Machado - Adrido Bernardes - Leão Sampaio - Ubirajara Índio do Ceará - Jose Barbosa - Alceu Carvalho - Regis Pacheco - Stelio Maroja - Lôpo de Castro - Ponce de Arruda - Laurentino Pereira - Norberto Schmidi - Benedito Vaz - Manoel Novaes - Necy Novaes - Antônio Almeida - Manoel Almeida - Bernardo Bello - Paulo Frete - Zaire Nunes - Bezerra Leite - Eduardo Flores - Aderbal Jurema - Carvalho da Silva - Dirceu Cardoso - arruda Câmara Jamil Amide - Ozires Pontes - Plínio Salgado - Esmerino Arruda - Dager Serra - Dulcino Monteiro - Lenoir Vargas - Celso Murta - Osmar - Grafulha - Fontes Torres - Hary Normaton - Manoel Barbuda - Breno da Silveira - Matheus Schmidt - Floriceno Paixão - Levy Tavares - Teófilo Andrade - Vieira de Mello - Josaphat Azevedo - Clayso e Almendra - Accioly Filho - Brito Velho - Euclides Triches - Roberio Saturnino - Augusto Novaes - José Carlos Guerra - Abel Rafael - Hamitton Prado - Chordano Alves - Dyino Pires - Affonso Celso - Calos Murilo - César Prieto - Baptista Ramos - Iran Luz - Mata Neto - Humberto El-Jalek - Geraldo Pina - Armando Leite - José Carlos Teixeira - Evaldo Pinto - Martins Rodrigues - Unirio Machado - Expedito Rodrigues - Nogueira de Rezende - Osvaldo Lima Filho - Geremias Fonte - Gastão Pereira - Andrade Lima Filho - Paulo Coelho - Cid Furtado - Adyllo Vianna - Ezequias Costa - Argilano Dario - Peracchi Barcellos.

(Publicada no D.C.N. de 10-9-65-Pág. 7.419


ESCREVEU ARTHUR ENGRACIO:

O escasso necrológio de Djalma Passos, falecido na segunda quinzena de junho, no Rio de Janeiro, publicado nos jornais de Manaus e falando apenas do político, diz bem do pouco conhecimento que se tinha do poeta e do escritor.

Ocorre com ele o que ocorreu com Álvaro Maia – também político e poeta –, cuja atividade política, por ser, talvez, mais assídua e dominante, empanava-lhe a atividade literária. Não são casos isolados. Muitos outros bons escritores têm-se obscurecido com o sortilégio dessa dama fascinante – a Política.

No entanto, em Djalma Passos, pari passu com o político, caminhava, com a mesma seriedade, o intelectual, o homem de letras no mais acabado sentido do termo. Poderia ter-se tornado nome nacional, não fosse a sua excessiva modéstia, que o fazia arredio dos meios onde a sua obra tinha oportunidade de ser divulgada e promovida.

Djalma Passos deu uma contribuição valiosa às letras do Amazonas, publicando Poemas do tempo perdido (1948), As Vozes amargas (1952), Tempo e distância (1955), Bazar de angústias (1973), Ocupação da Amazônia e outros problemas (1974) e Notas de literatura contemporânea (1977). Relidos, agora, tenho sobre a mesa três dos seus melhores livros.


Ocupação da Amazônia e Outros Problemas. Esta obra integra Djalma Passos ao quadro dos escritores verdadeiramente preocupados com a problemática amazônica – a que de fato deve polarizar – hoje mais do que nunca - a atenção de quantos, amazônidas ou não, vivem e lutam pelo bem-estar desta região.

São quase duzentas páginas de texto, onde o autor, servido sempre de assinalável cultura, analisa fatos e expõe pontos de vista relacionados à grande questão que tem construído, até hoje, a Amazônia. Sua experiência de ex-parlamentar ajudou-o muito no enfoque desses problemas, cuja solução maior vem o governo federal procurando dar. O livro traz, inclusive, vários projetos de sua autoria, em que ele se ocupa, primordialmente, de nossa região, mostrando ao Brasil as nossas mazelas, necessidades e anseios – legítimos sob todos os aspectos – de integrarmo-nos ao resto do País, recebendo deste, também, as benesses do progresso e da civilização.


Em Outros Problemas, que constitui a segunda parte da obra, o autor aborda outras realidades brasileiras, como o analfabetismo, a ocupação dos nossos espaços vazios, a reforma educacional, o amparo à infância abandonada etc. São páginas de menor amplitude, mas nem por isso destituídas de valor, de interesse, elaboradas sob a mesma motivação que o levou a escrever os demais trabalhos do volume.
Capa de As vozes amargas


Ocupação da Amazônia e outros problemas, sem ser obra especializada, é um livro que fala de problemas brasileiros atuais, equilibrado, vazado em boa prosa, tendo a virtude de trazer a debate, reavivando-o, um tema para nós da maior significação – a Amazônia.


As Vozes Amargas encerra os melhores momentos da poesia de Djalma Passos. É, a nosso juízo, o seu livro de maior expressão literária, levando-o a alcançar, quando do seu lançamento, significativo êxito de crítica e livraria. Constitui-se de poemas de cunho social, de delicada inspiração e onde o autor atinge porventura os vôos mais altos dentro do seu universo poético


Essas estranhas e soturnas vozes/
Vem dos submundos da vida/
Da garganta enrouquecida dos homens famintos/
Daqueles que gemem nos catres imundos dos hospitais. (Estranhas Vozes).

Em As Vozes Amargas, alternando com poemas de caráter social, há versos de profundo toque lírico, de irrecusável beleza, onde a voz do poeta, sem perder o amargor, reveste-se de nostálgica e dilacerante paixão. Esta estrofe de Poema da terna ausência, fala por ele:

Não mais te ver...
Nunca mais durante a existência inteira
Sentir em minhas mãos vazias as tuas mãos afáveis
Que escreveram tateantes como rosas inspiradas
Na epiderme torturada
O poema de todas as carícias...


Bazar de Angústia é o outro livro do autor que reli com agrado. Nele estão reunidos contos e crônicas, subordinados a temas variados e todos repassados daquele humanismo que se tornou a característica das obras de Djalma Passos. Para o meu gosto, o cronista coloca-se acima do contista, abordando com propriedade os assuntos do dia a dia, que constituem, em verdade, a matéria-prima de que se utiliza o escritor desse gênero da literatura

A síntese, a leveza, o tom poético da frase estão presentes na maioria das crônicas de Bazar de Angústia: "A noite pontilhada de estrelas, branca de luar, continuou como uma sedução diante de meus olhos", "(...) deixei que me invadisse o ar suave da noite pura e contemplei a cidade penetrada de silêncio". "Há cânticos de passarinhos penetrando em meus ouvidos (...)", "... como se eu fosse um estranho caminhante coberto só de andrajos e ilusões", "Da juventude que é a dona do mundo e para quem brotam as flores e nascem todas as manhãs", "A vida é um instante fugaz no relógio do tempo".

As crônicas de Djalma Passos lembram as de Fernando Sabino, pelo tratamento de ficção que o autor lhes dá. Aliás, com um tratamento técnico mais apurado, a maioria delas poderia transformar-se em pequenos contos, enriquecendo mais o número das histórias curtas que o volume contém.

As informações sobre Djalma Passos que aqui se alinham, têm um fim específico: 1) reparar a lacuna dos obituários da imprensa, que esqueceram o poeta; 2) revelar aos leitores amazonenses, notadamente, aos da nova geração, a importância da sua obra literária, a qual, tão autêntica e valiosa quanto à sua obra política, há-de merecer sempre a nossa homenagem.

FONTE - BLOG DO CORONEL



Djalma Vieira Passos nasceu no então Porto Acre, hoje Rio Branco, capital do Acre, em 1923, filho de Diomedes Vieira Passos e Joana Crispim de Souza. À época, a borracha já dera sua contribuição aos estados amazônicos, estes enfrentavam a derrocada. Por isso, creio, foi que alguns jovens alcançaram Manaus para conquistar aqui a única faculdade em movimentação.

Era uma aventura sair do vizinho Acre para Manaus, toda ela realizada em barcos regionais. E bote tempo nessa travessia.

A Faculdade de Direito do Amazonas acolheu um bom número de acreanos. O primeiro a conquistar a graduação foi Raymundo Nonato de Castro, que marcou sua passagem pela capital baré. Cerca de duas dezenas de jovens oriundos do Território Federal do Acre, espalhados pelos anos, tornaram-se bacharéis em direito, antes que Djalma Passos aos 32 anos conquistasse o mesmo “canudo” em 1955.

A esse tempo, Passos já pertencia à Policia Militar do Estado, onde ingressara como sargento. Há um registro de sua atuação junto ao Dr. Djalma Batista, que fora médico da PM, quando um incêndio destruiu parte da Biblioteca Pública, em agosto de 1945.

Rogel Samuel lembra-se de Djalma Passos, na metade dos anos 1950. Passos foi meu professor de português no Ginásio Aparecida. Era um homem calmo e bom, e morava na época perto da casa de minha avó, na rua Japurá, onde eu vivi por alguns anos.
Abandonou o magistério para ingressar na política, tendo sido eleito, primeiramente, vereador, mais tarde deputado estadual (1955-58), e depois federal, pelo PTB, em 1963-67. Depois passou pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro); migrou para a Arena (Aliança Renovadora Nacional) e seu sucedâneo PSD (Partido Social Democrático).

Enquanto major da PM do Estado foi comandante da extinta Guarda Civil, que era uma organização militarizada e subordinada à Polícia Civil, o quartel desta (na rua Guilherme Moreira) ligava-se pelos fundos com a famosa Central de Polícia, da rua Marechal Deodoro.
A participação deste oficial nessa entidade trouxe-lhe motivação para defender um de seus subordinados que matara um conhecido cidadão. Caroço, era a alcunha do inditoso, mas que era irmão do nosso conhecidíssimo José Bernardo Cabral. O guarda-civil cumpriu a punição que lhe foi imposta.


Artigo publicado em favor do subordinado
Djalma Passos publicou, em defesa do guarda, o opúsculo Entre o dever e o cárcere (A tragédia do Guarda Manuel Carlos Melo). Detalhe: ainda vive uma irmã do acusado, minha meia-tia, que o mal de Alzeimer já apagou dela as dores do encarceramento.
Em homenagem a ela, breve vou publicar o texto de Djalma Passos.

O senador Aureo Mello, do PMDB, pronunciou discurso no Senado em 19 junho de 1990, em pesar pelo falecimento de Djalma Passos, acontecido no Rio de Janeiro.
A prefeitura de Manaus, por seu prefeito Alfredo Nascimento, homenageou ao saudoso político com seu nome na Escola Municipal, situada no Monte Sião, na Cidade de Deus.




A poesia de Djalma Passos desapareceu de nossos registros. Nada se comenta ou revela sobre os livros deste artista, nascido no atual estado do Acre, ter concluído a Faculdade de Direito do Amazonas, em 1955; ter sido oficial da Polícia Militar; e, como político, alcançado a Câmra Federal, a partir de 1962.
Capa do livro
Seu primeiro livro - Poemas do tempo perdido, edição do Centro Plácido Serrano, em 1949, quando já publicava sonetos nos jornais de Manaus.
Encontrei em mãos do acadêmico Almir Diniz os três primeiros livros de Djalama Passos. Reproduzo abaixo uma "notícia sobre o autor", de autoria do consagrado poeta Luiz Bacellar.

Tempo e Distância é o terceiro livro de Djalma Passos [1955]. O segundo - As Vozes Amargas - publicado pela Casa do Estudante do Brasil, em 1952, inaugurou a poesia social no Amazonas. Nele, o poeta nos transmite sua mensagem através dos ritmos largos e ondulantes de uma poesia cheia de inquietude pelos destinos do homem.

Ao seguir, As Vozes Amargas não teve da crítica a atenção que merecia, em face da desconceituação da poesia moderna, então chama "futurista" pelos maiorais da crítica e das letras provincianas, mas, embora tratado com tão clamorosa injustiça, firmou-se no conceito da nova geração. (Um grupo de novos, no qual se destacavam elementos ligados a círculos literários de outros estados, como Sebastião Norões, de poesia marcadamente social, surgia então para reivindicar o direito de renovar os cânones da poesia no Amazonas).

Embora sem contactos prolongados, Djalma Passos acha-se integrado a esse grupo, do qual fazem parte: Freitas Pinto, o mais velho dos novos, Jorge Tufic e Carlos Farias, poetas diferentes entre si, mas coesos quanto à necessidade de renovação dos valores poéticos; e nele toma parte, destacando-se como o pioneiro da poesia social, além de ser o único desses poetas que já estreou em forma de livro.

Djalma Passos, que é também contista ainda inédito, é um dos mais brilhantes oficiais da nossa Polícia Militar, atualmente no posto de major, tendo exercido a elevada função de comandante da Guarda Civil de Manaus, durante o período de 31-01-51 a 17-11-54, quando escreveu, em defesa do guarda civil Manuel Carlos de Melo, acusado de causador da morte do cidadão conhecido nos meios boêmios pela alcunha de Caroço [irmão de Bernardo Cabral], o opúsculo "Entre o Dever e o Cárcere" (Manaus, 1953). Foi, por certo, nesse cargo, que Djalma Passos teve a oportunidade de entrar em contacto mais direto com o homem da rua, o que marca profundamente sua expressão de poeta e contista.

Poeta cheio de profunda ternura pelos desajustados sociais, Djalma Passos é uma das mais puras vozes líricas da poesia planiciária; possuidor de uma linguagem despojada e simples, galvaniza e marca, com o estigma de sua poesia, o leitor mais desinteressado; senhor de uma fluidez límpida e clara, transporta -nos aos redutos de seu espírito observador do homem da rua, através da "fonte perene" de uma expressão profundamente individual.

Pertencendo à categoria dos que têm os olhos voltados para o futuro, sob o signo da pergunta, Djalma Passos domina, com toda a maestria, a expressão larga e a ênfase do verso withmaniano.


DJALMA PASSOS
dá-nos neste volume uma continuação à temática social de "As Vozes Amargas". E, até mesmo, podemos ver no seu "Poema do Feto" um complemento do "Poema aos que hão de vir..." de As Vozes Amargas.
O homem, entidade no tempo mais que no espaço, é, como se vê, a constante genérica na poesia de Djalma Passos, onde avultam ainda as subconstantes da Infância, da Noite e do Mar. O Futuro sempre aparece como maior preocupação do poeta: Poema aos que hão de vir e Poema do feto.

Caracterizando-se como poeta de ritmos livres (quase sempre tão traiçoeiros para os que se deixam dominar pela sua aparente facilidade sem se submeterem ao rigor sutil e sem manter consciente obediência aos autênticos movimentos interiores), Djalma Passos atinge maior pureza lírica e riqueza expressional nas composições que intitula simplesmente Poema.


Em TEMPO E DISTÂNCIA, por pura condescendência para com o presente surto de reatualização do soneto, ao que parece, o poeta realiza alguns, entre os quais se deve destacar o que tem por título Nossas Mãos [abaixo copiado].

Sem preocupações de afetar sua autêntica modernidade, Djalma Passos exclui, muito acertadamente, o problema da unidade em sua obra, tendo antes a preocupação da transmissão de sua mensagem. E consegue plenamente seu objetivo! Vale destacar, por exemplo, entre os poemas de As Vozes Amargas, os de títulos: "Poema do moleque brasileiro", "Poema do olhar extinto", "Estranhas vozes", "Procedência", "Anjo noturno", “O Homem só" e "Despedida do viajante noturno".

No "O Poeta de branco" há uma interessante correspondência de sentimento com "O Poeta come amendoim" de Mário de Andrade.
A função de sua poesia carrega-se do mais intenso significado nos dias cheios de angústia e expectativa que estamos passando. Poeta dos mais autênticos e expressivos, surpreende-nos de vez em quando com "pulos de gato" de poesia no mais cristalino estado de pureza: "A noite lá fora é um mistério, o vento derrubou todas as estrelas... " (Despedida do viajante noturno).

Sua penetrante naturalidade realiza no leitor aquilo que chamaremos de "comoção lírica totalmente independente de qualquer intenção ideológica", não se podendo, portanto, classificar a poesia de Djalma Passos de "dirigida".

Resta-nos chamar a atenção do leitor, neste livro, para a extraordinária potência poética de Djalma Passos que é, sem favor, o fundador da poesia social, "do povo e para o povo", no Amazonas. Que os novos que se estão agrupando agora sob a denominação de Clube da Madrugada lhe façam justiça.



Nossas Mãos

Não procures olhar as mãos que outrora
Tantas vezes teu rosto percorreram...
Também não tentes recordar agora
Os bons poemas que elas escreveram...

Tudo passou, foi sonho, foi quimera,
Que se perdeu no mundo de outros dias
Pois tuas mãos, em plena primavera,
São para mim completamente frias...

Talvez não saibas nem eu sei também
Porque estas mãos que se entendiam bem
Hoje preferem não viver mais juntas...

Nem ódio, nem amor... Somente a vida
Na sua teia estranha e incompreendida
E' quem responde todas as perguntas...








domingo, 15 de fevereiro de 2009

Emily Dickinson



Emily Dickinson

(tradução de M C Ferreira)




que sempre amei
trago-te provas
até que amasses
voltas e voltas
que te amar hei
não se comprova
que amor é vida
ida - sem volta

dúvida, amado ?
fiz o que pude :
abracabraço-te
por vias crucis.


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A bela de Amherst





Ela varre com vassouras multicores
E sai espalhando fiapos,
Ó Dona arrumadeira do crepúsculo,
Volta atrás e espana os lagos:

Deixaste cair novelo de púrpura,
E acolá um fio de âmbar,
Agora, vejam, alastras todo o leste
Com estes trapos de esmeralda!

Inda a brandir vassouras coloridas,
Inda a esvoaçar aventais,
Até que as piaçabas viram estrelas —
E eu me vou, não olho mais.



(Trad. Aíla de Oliveira Gomes)







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Tive uma jóia nos meus dedos —
E adormeci —
Quente era o dia, tédio os ventos —
"É minha", eu disse —

Acordo — e os meus honestos dedos
(Foi-se a Gema) censuro —
Uma saudade de Ametista
É o que eu possuo —



Trad. Augusto de Campos







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Noites Loucas — Noites Loucas!
Estivesse eu contigo
Noites Loucas seriam
Nosso luxuoso abrigo!

Para Coração em porto —
Ventos — são coisas fúteis —
Bússolas — dispensáveis —
Portulanos — inúteis!

Navegando em pleno Éden —
Ah, o Mar!
Quem dera — esta Noite — em Ti
Ancorar!

Trad. Paulo Henriques Britto


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Primeiro Ato é achar,
Perder é o segundo Ato,
Terceiro, a Viagem em busca
Do “Velocino Dourado”

Quarto, não há Descoberta —
Quinta, nem Tripulação —
Por fim, não há Velocino —
Falso — também — Jasão.




Tradução: Paulo Henriques Britto


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Uma palavra morre
Quando é dita —
Dir-se-ia —
Pois eu digo
Que ela nasce
Nesse dia.




Trad. Aíla de Oliveira Gomes




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Dentre todas as Almas já criadas

Emily Dickinson


Dentre todas as Almas já criadas -
Uma - foi minha escolha -
Quando Alma e Essência - se esvaírem -
E a Mentira - se for -

Quando o que é - e o que já foi - ao lado -
Intrínsecos - ficarem -
E o Drama efêmero do corpo -
Como Areia - escoar -

Quando as Fidalgas Faces se mostrarem -
E a Neblina - fundir-se -
Eis - entre as lápides de Barro -
O Átomo que eu quis!

(Tradução: José Lira)


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Algo existe



Tradução de Lúcia Olinto

Algo existe num dia de verão,
No lento apagar de suas chamas,
Que me impele a ser solene.
Algo, num meio-dia de verão,
Uma fundura - um azul - uma fragrância,
Que o êxtase transcende.
Há, também, numa noite de verão,
Algo tão brilhante e arrebatador
Que só para ver aplaudo -
E escondo minha face inquisidora
Receando que um encanto assim tão trêmulo
E sutil, de mim se escape.





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Beleza e Verdade



Tradução de Manuel Bandeira



Morri pela beleza, mas apenas estava
Acomodada em meu túmulo,
Alguém que morrera pela verdade,
Era depositado no carneiro próximo.
Perguntou-me baixinho o que me matara.
– A beleza, respondi.
– A mim, a verdade, – é a mesma coisa,
Somos irmãos.
E assim, como parentes que uma noite se encontram,
Conversamos de jazigo a jazigo
Até que o musgo alcançou os nossos lábios
E cobriu os nossos nomes.




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Cemitério


Tradução de Manuel Bandeira

Este pó foram damas, cavalheiros,
Rapazes e meninas;
Foi riso, foi espírito e suspiro,
Vestidos, tranças finas.
Este lugar foram jardins que abelhas
E flores alegraram.
Findo o verão, findava o seu destino...
E como estes, passaram.


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Tradução de Ana Luísa Amaral

Espingarda Carregada - a minha Vida -
Por Cantos - assim for a
Até passar o Dono - Me marcar -
E Me levar embora -
E agora erramos em Bosques Reais -
E perseguimos uma Corça agora -
E cada vez que falo em Sua vez -
As Montanhas respondem sem demora -
E se eu sorrio, uma amigável luz -
No Vale se faz ver -
É como se uma face de Vesúvio
Soltasse o seu prazer
E quando à Noite - já cumprido o Dia -
Guardo a Cabeça do Meu Dono -
Melhor do que Almofada em Penas Suaves
Partilhada - no sono -
Do inimigo Seu - sou-o, mortal -
Não se torna a agitar -
Esse em quem pouse o meu Olho Amarelo -
Ou enfático Polegar -
Embora eu possa viver mais - do que Ele
Ele mais do que eu - deve viver -
Que eu só tenho o poder de matar,
Sem - o poder de morrer -




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Tradução de Ana Luísa Amaral

Há uma palavra
Que empunha uma espada
Pode trespassar um homem armado -
Lança as suas sílabas de farpa
E fica-se, calada.
Mas onde tombar
Os salvos dirão
Em dia da nação,
Deixou de respirar
Um irmão, um soldado.
Por onde corra o sol arfante -
Ou o dia vagueie -
Aí, o seu ataque sossegado -
E a sua vitória!
Notai o atirador mais hábil!
O tiro mais certeiro!
O mais sublime alvo do Tempo,
A alma "sem memória"!






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Tradução de Maria do Carmo Ferreira

e se eu disser que já é demais
e arrebentar portas carnais
e extrapolar compassos?

e se eu limar até o sabugo
além da dor além do luto
e liberar meus passos?

ninguém me pega mais - nem morta!
corram masmorras com revólveres
nada mais faz sentido

como o sorriso - nem me lembrem!
laços & fitas - shows mambembes
e o que morreu - comigo


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Tradução de Ana Luísa Amaral




Não sou Ninguém! Quem és?
És tu - Ninguém - também?
Há, pois, um par de nós?
Não fales! Não vão eles - contar!
Que horror - o ser - Alguém!
Que vulgar - como Rã -
Passar o Junho todo - a anunciar o nome
A charco de pasmar!






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Tradução de Ana Luísa Amaral

Porque não pude deter-me para a Morte -
Parou Ela amavelmente para mim -
Na Carruagem cabíamos só Nós
E a Imortalidade.
Seguimos devagar - Ela sem pressa -
E eu pusera de lado
O meu trabalho e o ócio também
Pela Sua Cortesia –

Passámos pela Escola, onde, em Recreio,
E no Adro - lutavam as Crianças -
Passámos pelos Campos de Trigo de Espanto -
Passámos o Sol posto -
Melhor - passou-Nos Ele -
O Orvalho caía frio e trémulo -
Porque de Gaze só o meu Vestido -
E a minha Estola - era de Tule só -
Parámos junto a Casa semelhante
A Inchaço no Solo -
O Telhado da casa mal se via -
A Cornija - no Solo -
Desde então - Séculos há - porém
Tudo parece menos que esse Dia
Em que primeiro adivinhei que as Crinas
Apontavam para a Eternidade



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Tradução de Ana Luísa Amaral




Noites - Noites selvagens!
Estivesse eu - contigo
Tais Noites - o nosso
Deleite - seriam!
Fúteis - os Ventos -
A Coração em Porto -
Inútil - a Bússola!
Como a Carta - inútil!
Remando - em Éden!
Ah! o Mar!
E eu ancorar - Esta Noite -
Em Ti!




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Alguns guardam o Domingo indo à Igreja
Eu o guardo ficando em casa
Tendo um Sabiá como cantor
E um Pomar por Santuário.
Alguns guardam o Domingo em vestes brancas
Mas eu só uso minhas Asas
E ao invés do repicar dos sinos na Igreja
Nosso pássaro canta na palmeira.
É Deus que está pregando, pregador admirável
E o seu sermão é sempre curto.
Assim, ao invés de chegar ao Céu, só no final
Eu o encontro o tempo todo no quintal!




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Péricles Moraes (1882-1956)






Última foto (1952)











Os intérpretes da Amazônia





Arriscava-se, talvez, nos dias de hoje, ao perigo de incorrer em falsa afirmativa, quem ousasse dizer, como fez Euclydes da Cainha, nos conceitos de seiva medular inscritos no pórtico do Livro do sr. Alberto Rangel, que a Amazônia, ainda sob o aspecto estritamente físico, apesar de seculares investigações, e conhecida aos fragmentos, e tudo o que se escreve a seu respeito se adstringe aos seus inumeráveis aspectos parcelados. Para descortina-la, em conjunto, a seu vir, teria o espírito humano que se afrontar com entraves e obstáculos intransponíveis, decorrentes de sua aparente uniformidade estrutural, da complexidade de suas mutações geológicas, dos seus imensos horizontes paleontológicos, suscetíveis, na sua desmesurada grandeza e na sua estonteante realidade, de turvar e desnortear as inteligências. De fato, naquela época, a não ‘ser o prosador de Os Sertões, nenhum outro escritor se aventurou à temeridade de tais entrepresas. Pode-se mesmo avançar que os seus estudos sobre a Amazonia, assim nas paginas do Á margem da Historia, como no prefácio magistral do Inferno Verde. são o eixo central de tudo quanto se tem pensado e escrito sobre a região portentosa. Euclydes, com a sua faculdade de ver, compreender e deduzir, tinha ainda a vantagem de possuir uma sensibilidade aguçadissima, que lhe transmitia às imagens as vibrações do temperamento ensofregado. A natureza por ele objetivada, sendo exatamente a mesma que servira lentes dos outros escritores e cientistas,, aparece-nos, entretanto, agitada pelos fluxos e refluxos de uma imaginação .ardente, que poreja sangue e lhe dá a medida, a extensão e a superioridade do espírito. Porque, não há negar, o cientista, isoladamente, fora da temperatura febril do escritor, não obstante a sua visão introspectiva, não teria impressionado dessa maneira. Foi a sua arte de escrever, refletindo-lhe, em lampejos, o trabalho da alma e do cérebro, as fermentações e conflitos interiores, que operou o prodígio. Euclydes via Amazônia com a consciência do artista e a profundeza do cientista, deixando-nos algumas páginas de tão grande fertilidade de observações, que não se pode hoje emitir qualquer opinião neste domínio sem consultar-lhe a autoridade. Mas se foi ele, deveras, o único que conseguiu, em traços vigorosos firmes, projetar, nas suas cores vivas e flagrantes, a natureza amazônica, à sua sombra, à sombra de sua glória, cresceu e frondejou uma floresta de imitadores solertes e subalternos, que lhe tentaram decalcar o estilo indecalcável, a forma e a superfície das idéias, copiando-lhe o vocabulário, reproduzindo-lhe os neologismos, deturpando-lhe as intenções e até, inconscientemente, assimilando-lhe os leves defeitos de composição e de estilística e as imperceptíveis.negligências de técnica. A obra de Euclydes, todavia, triunfou e resistiu galhardamente, conservando-se ilesa, e destinando-se a servir de introdução a qualquer estudo sério que se pretenda realizar sobre o mesmo assunto. Euclydes, com efeito, foi um clássico da Amazônia, clássico enquadrado no definir de Sainte-Beuve - um escritor que se dirige a todos com um estilo seu e que se encontra também em todo mundo, um estilo novo e antigo, contemporâneo de todas as datas. As paginas fragmentárias, que escreveu sobre a Hilae, são, indiscutivelmente, o primeiro monumento que se vislumbra no horizonte literário amazônico. É certo que, muito antes dele, por escritores e investigadores estrangeiros e da nossa raça, outras incursões ,já haviam sido feitas com proveito e resultados frutuosos. Citamos, entre inúmeras, as do amazonense Santana Nery, que escreveu um livro interessantíssimo Le Pays des Amazones, no qual, sobre o problema amazônico, se compendiaram, habilmente discutidas e comentadas, as hipóteses a ensaiar e verificar. Santana Nery conseguiu levantar uma rápida nomenclatura das viagens de exploração feitas no Amazonas, com largos empréstimos ao dr. Severiano da Fonseca (Viagem ao redor do Brasil), a L. Vittel, a Demarquets e outros, analisando todas as particularidades geográficas, geodésicas, climatéricas e geológicas do vale do Amazonas. Para a aquisição fácil e sem esforço dos eruditos de cutiliquê, estão aí coligadas as anotações dos mais destacados exploradores científicos da Amazônia, do astrônomo francês La Condamine, que foi o primeiro, no fim do século XVIII, a abrir para a ciência a província do Amazonas às iniciativas do naturalista alemão Humboldt, que, no começo do Século passado, fez da Amazônia um campo de experiências; às viagens do conde de Castelnau, refertas de informes curiosos sobre os variados aspectos e as diversas produções da região. Alias, não foram diretas as observações que consigna em seu livro. Sobre o solo amazônico, as suas condições climatéricas, a sua constituição geológica, a sua fauna e a sua flora, as suas riquezas ictiológicas, e, sobretudo, as suas lendas maravilhosas, Santana Nery foi buscar dados e subsídios na obra de Barbosa Rodrigues, a quem denomina o “Agassiz brasileiro”, na do engenheiro J.M. da Silva Coutinho, e nos estudos de Alexandre Haag, que foi o primeiro a conceber, antes mesmo de Euclydes, os planos da ligação, por via férea, do Acre com o Madeira. Embora norteado sempre por observações hauridas em fontes estranhas, Santana Nery traçou um vasto panorama da Amazônia, estudando-lhe, de conjunto, o clima e as maravilhas da vegetação luxuriante, a flora e a fauna em suas curiosas particularidades, o fenômeno da produção e a trama de sua bacia hidrográfica, além de explicar-lhe as lendas nativas e estender-se sobre o sentimento religioso dos indígenas. Amparou-se, vezes muitas, nos conceitos e nas informações dos exploradores que o antecederam na inspeção à gleba amazônica. Mas; talvez por isso mesmo, realizou um dos melhores estudos que ainda se fizeram sobre a planície setentrional brasileira. Não lhe foi possível, tal a distensão dos horizontes a perquerir, construir uma obra completa, estudando a região integralmente, de fronteira a fronteira, num exame detido e pessoal de todas as ‘suas proteiformes manifestações geográficas. Sem embargo, os comentários aí expendidos foram tão acertados e judiciosos, que o seu livro tem sido o manancial que vem abastecendo, sem nenhuma responsabilidade, o farnel erudito de inumeráveis escritores especialistas em conhecimentos da Amazônia. A região amazônica, porem, ainda não era conhecida senão de outiva, de informações de segunda mão, através de hipóteses sustentáveis algumas, insustentáveis na sua maioria, formuladas por autores suspeitos e desautorizados, que, simulando uma irrisória atitude científica, repetiam, exaustiva e levianamente, assim os conceitos verdadeiros, como os postulados falsos, as impressões apaixonadas, as teorias abstratas e sofísticas, que nao resistiam ao contato do mais primário dos argumentos. Porque a Amazônia não é assunto para escritores medíocres. O gigantesco caos amazônico, para ser desvendado e compreendido, requer uma divinação quase profética. Não basta o aparelhamento científico. Para compreender, assimilar e exprimir a complexidade de sua natureza, o escritor precisa ser dotado de um talento verdadeiro, auxiliado por todas as fôrças do espírito e da vontade, além de possuir, simultâneamente, a faculdade de perceber, de um lance, as circunstâncias particulares e sensíveis que lhe explicam as influências passadas e presentes. Ademais, cumpre saber fixar-lhe, como um pintor, as transformações fugitivas de seus espetáculos, o efeito dos seus violentos cenários, o mundo de idéias secretas que a vertigem de suas águas e o assombramento de suas florestas despertam em nossa imaginação. Por isso, por ter disposto integralmente de todas essas faculdades, é que Euclydes ainda no foi excedido. Gênio fundamentalmente dedutivo, ele pretendeu com a sua visão de águia, extrair de alguns princípios claros e evidentes, de algumas fórmulas obscuras e dificilmente demonstráveis, o conhecimento de todos os fenômenos amazônicos, vendo na Amazônia o que os outros ainda não tinham conseguido ver.

Já o sr. Alberto Rangel, escrevendo num estylo rigido, inquieto e castigado, onde se encontram, não raro,os relevos violentos e as descargas nervósas do estylo de Euclydes, sem medir as perspectivas cheias de seducções e de perigos que se abriam deante de sua imaginação, viu a Amazonia de outro modo. Sem procurar, como o seu emulo, penetrar-lhe a fundo a estructura physiographica, preferiu descortina-la nos seus aspectos trepidantes, fixando-os num livro de pungente realismo – o Inferno Verde, onde o homem amazonico, submettido á crueldade do proprio destino, e a terra fantastica, nos seus painéis allucinatorios, são vistos através da idealização excitada de um rebellado temperamento de escriptor. Tinha razão, neste particular, Euclydes da Cunha, em face da estrutura desse livro, quando declarava que a Amazonia era conhecida apenas aos fragmentos, sob aspectos numerósos mas parcellados, em traços fórtes mas desconnexos, sem ser jámais visionada de conjuncto, porque " a intelligencia humana não supportaria, de improviso, o peso daquella realidade portentosa". Alberto Rangel, tentando delineá-la, não tinha illusões, convencido de que a tragedia amazonica ainda estava por ser escripta. Não apparecera ainda, de verdade, o poeta, que a um tempo tivesse o cabedal do scientista, a visão do sabio e a penetração do homem de genio, capaz de plasmar o poema immortal de suas peripecias gigantescas, numa obra-prima do espirito, onde transverberassem os coloridos de um Michelet ou de um Saint-Victor. O espectaculo surprehendente de suas metamorphóses telluricas não se amoldava aos descortinadores de horizontes restrictos. Para vêr a Amazonia e interpretá-la, era necessario uma imaginação creadora, que traduzisse em linhas convulsivas, a epopéa do homem, na luta angustiada e tenaz contra os imprevistos da natureza, desafiando a aggressividade dos elementos physicos que o circundam, surprehendendo a vida e a alma das florestas, emparedado nos seus desvãos solitarios, pontilhados de trechos sombrios, "onde se diria na expressão de Alberto Rangel - que se accendem candelabros para uma festa de duendes". Fixar os lances dramaticos do homem e da terra amazonicos, onde a variedade dos aspectos se confunde e se altera em transmutações bruscas e inopinadas, fazendo sossobrar todos os artifícios da logica e da razão, e onde, para cada um delles, a intensidade de impressões e a dependencia das idéas e das emoções variam de conformidade com a estructura intellectual do observador, não era empreitada para intelligencias tardigradas e marasmaticas. Era obra para os artistas de élite, capazes de exprimir, num traço fulgurante e revelador, a violencia de suas sensações e o fremito das emoções que lhes abalam o systema nervoso. Não tem sido outra, por taes motivos, a causa do insuccesso de não poucos escriptores que se têm arriscado a buscar na Amazonia a thése e o desenvolvimento de suas digressões espirituaes. Dir-se-ia que a grandeza do modelo lhes opprime e atordôa a concepção. Eriçada de impropriedades, tumultuaria de lances emphaticos, desbordante de imagens excessivas e incoherentes, congestionada de narrações prosaicas e de afflictiva monotonia, que lhe accusam a erudição superficial e discursiva, a obra resente-se, desde logo, das fraquezas e debilidades do escriptor, apresentando uma Amazonia absurda, falsa e mystificada,erigida sob os auspicios da observação de outros escriptores e, por conseguinte, sem o cunho da visada pessoal, que. imprimiria, pelo menos, o caracter de authenticidade a certas invenções porventura mais fantasiósas. Seja como fôr, se até hoje ainda não exsurgiu, por encanto, o menestrel que lhe eternizasse as glorias, muitos escriptores do nosso tempo e da nossa raça, tomando-a como fonte de inspiração e pesquisando-a em determinados aspectos, trouxeram, do seu contacto com a natureza e com o homem, impressões originaes, traduzi das em paginas de indiscutivel mestria.

Veja-se, por exemplo, o livro Terra Immatura, de Alfredo Ladislau. No conciliar os surtos da imaginação com as exigencias do espirito especulativo, o escriptor preferiu vêr o lado plastico da Amazonia, modelando-a em desenhos flexuósos, sem mutilar a realidade, e descobrindo-lhe as fórmas estheticas e luminósas, ao geito de La Sizeranne. Construindo um livro que é uma verdadeira introducção ao estudo da natureza amazonica, ou melhor ainda, que é uma preparação espiritual, um roteiro admiravel para quem deseje tentar uma incursão á selva selvaggia maravilhósa,

Alfredo Ladislau em impressivas aguas-fortes, desenvolve a ondulante perspectiva do panorama amazonico, nos seus contornos desordenados e nas sombrias tragedias que lhe convulsionam as forças cosmologicas. É uma Amazonia feita de claridades solares, em periodos esculpturaes, onde resplende a "vis superba formae" do poeta latino. Mas, cumpre accentuar, é tambem uma obra de pensamento e de emoção, onde por entre os lavores de uma arte de luxuósas incrustações, estão perfeitamente equilibrados a sensibilidade do artista e o raciocinio, a logica, a pureza e a concisão do escriptor. É evidente que, sobre o espirito de Alfredo Ladislau, o prosadpr épico d' Os Sertões exerceu aquella indominavel influencia, aquella poderosa attracção que subjuga e perturba a quantos lhe sintam o fascinio ineludavel. Mas, tambem, é fóra de duvida que essa influencia não foi de molde a diminuir-lhe o prestigio das idéas e a sagacidade das observações. Porque o livro da Terra Immatura, escripto com aquella excessiva pujança verbal e intensidade de expressão que eram o traço caracteristico do estilo envolvente de Euclides, não impressiona apenas pelo esplendor da fórma e pelos ademanes da linguagem. O descortino visual do escriptor, estabelecendo pontos de vista novos e defendendo-os com desassombro, esclarecendo certos phenomenos e procurando explicar-lhes os effeitos e as causas, por sua vez contribuiu e preponderou para que, das varias e multiplas suggestões de um mundo estranho, resultasse um sistema de idéas geraes, que lhe denunciam a efficiencia da cultura. Cada capitulo desse livro é o conspecto isolado de trechos esparsos da vida amazonica. Traço a traço, dominado pela idéa de lhes dar a phisionomia verdadeira, o artista sobrepõe-se ao escriptor, imprimindo ás télas pinceladas vigorósas que lhe definem o talento descriptivo. Ha ahi paginas soberbas, dignas de Euclides. Mas, de quando em quando, embora não se tenha o espirito prevenido, sente-se-lhe a affinidade com outros escriptores da Amazonia, a reminiscencia viva de impressões alheias que lhe ficaram na memoria e reapparecem, subrepticiamente, accusando-Ihe a genese da concepção. Quem não descobre, desde logo, verbi gratia, que essas paginas lapidares da Psychologia dos lagos foram inspiradas na leitura do Tapará, de AIberto Rangel? A certos aspectos, a mesma semelhança de relevo e de tonalidades, na pintura do quadro amazonico, se identifica no estilo de ambos. Ainda mais. Os conceitos sobre os factores geographicos observados para as formações hidrographicas dos lagos são analogos, como é analoga a supposição, analisada com a logica de raciocinios equivalentes, de que no lago amazonico a crendice aborigene encontrou a fonte das lendas e das creações fantasticas que lhe alimentam o fabulario. Aliás, o autor do Inferno Verde, a inferir-se da legenda que lhe emmoldura o trabalho parece ter ido buscar, por sua vez, subsidios na obra do padre João Daniel.....


(Legendas & aguas-fortes, Manaos, Livraria Clássica, 1935)



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A tristeza de Maupassant




Quando os meus olhos maravilhados voltaram a ultima pagina dessa obra imperecivel, de realismo puro, que é para as lettras de França como um padrão excepcional de justeza e limpidez de estylo, o que me ficou dessa arte rigorosamente objectiva, feita de sobriedade e precisão absoluta de observações, foi um impressionante sentimento de tristeza, tristeza dolorosa e commovida que se impregnou como perfume atordoante através de todas essas paginas vividas intensamente. É o accento predominante que a cada passo nos revela profundas ansias mysteriosas. Tem-se a sensação de que a alma do artista, sob o pendor de influencias exteriores, está penetrada de intimos dilaceramentos, involuntariamente revelados, deixando-nos á visão compungida os acúleos de uma dôr que ninguem soube comprehender. O estylo do escriptor, claro e vigoroso, projecta saúde e força, sobretudo saúde mental, productiva e fecunda; e a sua observação, pela maneira impessoal de vêr, dá-nos a completa illusão da vida. Reflectindo-a com impassibilidade, dos aspectos que reproduz e das sensações que fixou, como se a vida fôsse um poema de melancolias, faz ressaltar, de pagina em pagina, um claro-escuro de amarissima tristeza, que é sombra a encher de brumas paisagens claras e illuminadas, que é fluido a diffundir-se dolorosamente, empolgando o sentimento de seus retratos. Entretanto, jamais houve quem a pintasse, embora através de um temperamento morbido, com maior fidelidade e exactidão. Ninguem a comprehendeu melhor nas suas tumultuarias modalidades, nas suas transições sombrias, na sua tragedia de todos os momentos. As suas paixões, as suas intrigas, os seus aviltamentos, os seus pequeninos interesses, as suas felonias, o entrechóque de caracteres heteróclitos, a lucta de competiçoes, o lastro de aventuras de que a vida é capaz, o seu pincel reproduziu na violencia de ardentes perspectivas. Toda a sua obra é um assombroso espectaculo d'apres 'nature. A sua retina de artista não visava a ficção, desde que a ficção é irreal e lhe desmaiava a intensidade dos coloridos. As personagens que se agitaram ao influxo de sua dominação, as mulheres que viveram nos seus romances, os contornos e os aspectos que os requintes de sua visualidade focou, pela serena indifferença e pela tranquilla verdade com que foram representados, são a propria vida na sua imperturbavel realidade. A novella, delineada pelo seu pulso de mestre, é episodio flagrante que dá a lembrar uma pagina que já vivemos; o seu conto é um lance imprevisto que o artista viu e sentiu; o romance de Maupassant é sempre o vagalhão da vida que se despenha sobre uma alma. Se, por vezes, os seus heróes e as suas paixões, se animam de um desdem interior que lhas imprime o ressaibo de imperceptivel ironia, é que os seus sentimentos não foram photographados de aspectos alheios, senão da, propria vida do escriptor que, na sua obra, se reproduz com a regularidade de movimentos isóchronos. Não é difficil para quem lhe conhece a biographia, tanto esquadrinhada pelas memorias, correspondencias e estudos, surprehender essas affinidades muito intimas de que a pintura é cópia, realizada na febre das auto-sensações. A sua querida Normandia, no pinturesco de facetas encantadoras, com os seus camponios rudes e os seus ingênuos pescadores, a sua paisagem ensolarada de verão, risonha e gorgeiante, Etrétat e Fecamp, e os rochedos de Yport, vivem na maioria de suas novellas, resplendem, evocativos, nas paginas do Une vie, livro de amarga tristeza, odysséa atormentada de mulher que se resigna aos desregramentos do marido e ás ingratidões do filho. Os dias estuosos de sua mocidade, a sua paixão pelo mar, as confidencias desse tempo, as suas façanhas de canotier destemido, o seu devotamento á cultura physica -.- « fazendo para seu prazer vinte leguas do Sena em um dia) --, recorda-os o romancista nos periodos da Mouche, novella de saudades e reminiscencias. Quem não sente no L'Heritage um episodio de sua vida, quando humilde empregado do Ministerio da Marinha? Bel-Ami é o turbilhão do jornal, os primeiros passos do grande artista no ambiente de dissimulaçóes e adulterios da sociedade parisiense, a lucta pela conquista, a ansia de renome, a caça do dinheiro e do goso através da astucia das Madeleine Forestier e dentro da seducção de irresistiveis depravadas como Mme. de Marelle. De sua ascenção á montanha ficou, palpitante de emoção, o Mont-Oriol. As suas viagens ás costas italianas, á Sicilia, á Argelia, a Tunis, a Veneza, são referidas com encanto voluptuoso na Vie errante. Os seus cruzeiros no Mediterraneo, a bordo do seu lindo yacht Bel-Ami, estão descriptos no Sur l'eau, livro de memorias de um deleite superexcitante. A sua passagem pela Italia é relembrada na novella emotiva das Soeurs Rondoli. O seu baptismo nos meios viciados e corruptores foi Yvette. O seu romance Fort comme la mort reflecte-lhe o percurso nos circulos mundanos, e a tristeza de envelhecer, encarnada no desespero do pintor Bertin. Vem depois Notre coeur, a obra-prima de suas obras-primas, onde Gaston Lamarthe, (Anatole France surprehendeu, traço a traço, nesse implacavel homem de lettras o retrato authentico de Maupassant) sob a tormenta de uma paixão despotica por essa col1eante Michéle de Burne, foge á tentação, mergulha no silencio bucolico de Fontaineblau, succumbe nos braços da creada, uma camponeza jovem e ardente, e enfarado desse banho epicurista em plena selva, é attrahido novamente pelo feitiço colubrino da mundana.

Tal é, integralmente, a sua feição de artista. Fóra disso, através das outras paginas estranhas á sua vida, os vicios, os pecados. as depressões intimas e exteriores de uma sociedade em deliquescencia, foram photographados ao vivo com a maestria de um talento que se não commovia com a miséria ambiente para que, isenta de preferencias e pela observação sincera, a prova tivesse propriedade e expressão, conferindo com o original.

Essas qualidades impessoaes eram o traço luminoso do seu temperamento de artista. Faguet affirmou que o autor da Madame Bovary fez a theoria da arte impessoal e Maupassant realizou-a. É incontestavel. Discipulo de Flaubert, imitando-lhe os processos de execução e orientado pelas suas modernas concepções de arte, Maupassant, torturado no seu sonho de belleza, attingiu essa paridade de estylo e de fórma que, no solitario Croisset, era o segredo da composição. Mas penetrante a diferença na esthetica dos dois grandes mestres da prosa franceza! Se Flaubert não acreditava na impessoalidade absoluta e julgava que todo o artista era susceptivel de ceder ás sollicitações do sentido individual, a arte de Maupassant não tinha outro escopo senão o de representar. As suas altas faculdades intellectuaes, na creação da obra d'arte, restringiam-se a gravar as sençações da vida com a nitidez de uma placá photographica. A contemplação e representação eram os preceitos essenciaes na esthetica flaribertiana. Viver, - tal era o dogma de Maupassant. O artista, seleccionador de bellezas, devia sentir, palpitar, agitar-se dentro de suas personagens, indifferente ás suggestões inferiores da sentimentalidade, presumido contra os impulsos do coração.

O realismo de Flaubert revivia a antiguidade com a sua maneira pessoal de vêr, desvirtuando-a, adaptando-a ás exigencias do romance moderno. Maupassant, enclausurado na sua arte, era inflexive1. O seu instincto da realidade não se deformava nem se corrompia. A vida era o typo humano, ornamentado de virtudes ou achacado de taras, extasiante de belleza ou formidavel na sua hediondez. Maupassant era isso: «O eterno pintor da careta humana.»

(In FIGURAS & SENSAÇÕES, Porto, L. Chardron, 1923)



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Heliodoro Balbi

Grande Balbi!

A ultima vez que o vi, acompanhando-o por toda a parte até dizer-lhe o derradeiro adeus (e nunca me surprehendeu o presentimento tragico de ser esse o ultimo !) foi no dia da partida. A viagem era definitiva. Ninguem o demovera. Seguia resoluto para o paiz da illusão e da perfidia, tangido por compromissos inadiaveis, levado pela angustia de uma posição insustentavel, desprovido de recursos, na imminencia de affrontosas humilhaç,ões. Pouco lhe importava partir abandonando a esposa, filhos, amigos, posição, proventos futuros que nunca chegariam, sacrificado á sanha dos revézes politicos. Coragem lhe não faltava para novas luctas, nem se sentia abatido pela amargura da contingencia. Denorteava-o, confrangendo-o, esse ambiente pesado de oppressões moraes de toda sorte, que o asphixiava, que lhe tirava a alegria de viver, compellindo-o à aventura, sem temer-lhe as consequencias. Mas, nessa noite de inquietações e de pezares, o que minava essa alma intrépida que jamais na vida se arreceiara dos perigos do embate, era a dolorosa certeza de partir, com rumo incerto e destino ignorado, e nunca mais vêr, nunca mais! a companheira abençoada de tantos annos de felicidade e de infortunio, a dôce companheira que compartilhára com elle as alternativas da fortuna mendaz, estuante e feliz, nos dias ensolarados do triumpho, e apertando-o ao peito, commovida e soluçante, á amarugem da desdita. . . Essa, que foi a mais amada de todas as mulheres, ahi se ficava, sem poder seguil-o ainda uma vez, lancinada no seu abandono, e presa ao leito, immobilisada, errante na sua dôr, livorescida na sua agonia, corroida pela enfermidade terrivel que dias depois lhe fechou os olhos. Era a perspectiva desse transe que o combalia, desarvorando-o; e, quando á noite, taciturnos, regressavamos á casa, a tortura de vêl-a de novo e ter que partir, retardava-lhe os passos. Vi-o á porta, cambaleante, vencido, os olhos marejados de lagrimas.

- Ah ! meu vélho, que horrivel provação! É a peior hora da minha vida. . .

Entrámos silenciosos. Vi-a de longe, no seu leito de morte, os olhos parados e cheios de angustia, as faces lividas, um sorriso doloroso esvoaçando dos labios desmaiados... As eternas oscillações da alma!

Não quiz ver o resto. Fugi. Fui esperal-o no largo, em frente á egreja, olhando a bahia deserta.

No céo, lavado de bistre, palpitavam as primeiras estrellas. Minutos depois vi que voltava, espectral, sombrio no seu mudo desespero, as pernas tropegas, sem poder articular palavra.

Olhei-o, commovido. Apertei-o com força em meus braços. Tentei consolal-o. Murmurou-me ao ouvido, com voz embargada:

- Tu não imaginas a minha angustia! Acabo de abraçar um cadaver . . .

Chorava convulsivamente.

Só então reparei que eu tambem tinha os olhos arrazados d'agua.

(In FIGURAS & SENSAÇÕES, Porto, L. Chardron, 1923)



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"Pericles Moraes foi figura de destaque na
vida intelectual amazonense. E não apenas na vida
intelectual. Teve participação também na vida pública.
Foi, em 1926, prefeito de Coari e Parintins; em 1932
integrou o Conselho Consultivo do Governo estadual e
foi Secretário-Geral do Estado em dois governos.
Na obra póstuma, Pericles Moraes destaca o relevante
papel que sua esposa, Andrômaca, desempenhou
em sua atividade literária. Ela tinha, como ele, amor às
letras e foi incansável companheira de estudos.
Registro aqui os parabéns à acadêmica Carmen,
por haver organizado essa obra póstuma e agradecimentos
pela gentileza de ter-me agraciado com um
exemplar. Pela sua contribuição à cultura do Amazonas,
estou encaminhando à mesa requerimento de
voto de aplauso.
Era o que tinha a dizer.
Muito obrigado.
SENADOR JEFERSON PERES



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Meu arquivo está cheio das lembranças de Leopoldo Peres. Não obstante vivermos sempre juntos, no Amazonas, durante a sua vida inteira, entre as correspondências que conservo dos amigos mortos, a maior é a sua. Epistolas enternecidas de um Damon que falasse a sensibilidade de Pynthias, referentes as épocas em que, a contragosto, em¬bora temporariamente, motivos ponderosos nos obrigavam a abandonar a cidade do nosso enlevo. Minhas estantes guardam dezenas e dezenas de livros, em encadernaçoes de luxo, do mais requintado acabamento, que por ele, por qualquer pretexto e sem nenhum pretexto, me eram presenteados, nos quais as dedicatórias transbordantes de afeto se revezavam de volume para volume. Sobretudo, no silencio do meu gabinete de trabalho, atraves de preciosos objetos de arte, estão os traços marcantes da nossa amizade indestrutivel, que perdurou ate a morte. São bronzes simbólicos, jarrões, estatuetas, baixos-relevos, paisagens a ó1eo de pin¬tores celebres, caricaturas autenticas de Caran d' Ache e de Govarni, silhuetas a coups de crayon de desenhistas de reputaçao universal, obras-primas em biscuit de Limoges, como essa das "Tres Graças", concepção estatutária de incomparável recorte, que ele adquirira para nos galantear no dia comemorativo das bodas de prata do meu casal. Havia também uma deliciosa Joueuse de diaule, nas linhas flexíveis de sua correção plástica, em socie de alabastro, ivre de beauté, um surto original do genio helenico. Na galeria de honra, entre as fotografias do meu querido Augusto Linhares e do magnífico Jose de Figueiredo Lobo, figura espartana de soldado e de homem de letras, encaixado em moldura oval incrustada de ouro, adornado de duas palavras de infinita simpatia espiritual, o retrato desse prodigioso definidor de almas, na magnificência dos seus trinta anos gloriosos...


(LEOPOLDO PERES, apud LINS. Seleta literária do Amazonas)



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PÉRICLES MORAES, filho de Severo Jose de Moraes e de Evarista de Melo Moraes, nasceu, em Manaus, no dia 28 de abril de 1882. Fez os estudos primarios em sua terra natal e o secundário em Belem.
Foi professor, jornalista e serventuário de Justiça. Pertenceu à Academia Amazonense de Letras e à Associações Amazo¬nense e Brasileira de Imprensa. Era membro correspondente das Academias de Letras do Para e da Bahia, da Associaçao Brasileira de Escritores e Honorario da Sociedade de Geografia e História do Ceara. Faleceu, precisamente, às 3,30 horas do dia 26 de setembro de 1956.
Obras:
"Figuras e Sensaçoes", Porto, 1923; "Coelho Neto e Sua Obra", Porto, 1926;
"Vida Luminosa de Araujo Filho", Manaus, 1931; "Legendas e- Aguas Fortes", Manaus, 1935; "Confidências Literarias", Rio, 1944; e "Leopoldo Peres", Manaus, 1952.

(LINS)



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Péricles Moraes

Por Roberio Braga




Não comporta a Série Memória, um estudo sobre a vida ou a obra de Péricles Moraes, pois que, destinando-se aos estudantes mais que aos estudiosos mais aprofundados na vida literária brasileira, destina-se a textos didáticos e informativos. Assim é que, nossa contribuição ao ensejo do primeiro centénário de seu nascimento, para essa publicação tão oportuna, traduz-se pelo sentido prático da informação biográfica mais sintética com o intuito de motivar que a geração de agora desperte para estudar e procurar compreender a dimensão exata de uma das maiores expressões literárias de todos os tempos na Amazônia que foi Péricles Moraes.

Amazonense de Manaus, era filho do político Severo José de Moraes e D. Evarista Mello Moraes, tendo feito seus primeiros estudos em Manaus e os chamados de Humanidades, em Belém do Pará.

Professor, Jornalista, Político, Escritor, Acadêmico, foi estilista por excelência.

Professor da Língua e da Literatura Francesa, categorizou-se como Mestre de várias gerações em Manaus.

Na vida pública, foi Prefeito Municipal de Coari e de Parintins, em 1926, membro do Conselho Consultivo do Estado em 1932, Diretor Geral da Instrução Pública em 1934, hoje cargo correspondente ao de Secretário de Estado da Educação e Cultura, Secretário Geral do Estado no Governo do Desembargador Estanislau Afonso em 1945, e novamente na administração do Dr. Leopoldo Amorim da Silva Neves de 1947 a 1950. Fundador, em Belém, do “Apostolado Cruz e Souza”, e em Manaus, da “Sociedade de Homens e Letras”, depois transformada em Academia Amazonense de Letras, em 1918.

Como Jornalista, contribuiu intensamente na imprensa diária, em jornais e revistas sempre com artigos que refletiam vasto conteúdo e beleza de forma e essência. Colaborou em “O Amazonas”, “O Jornal”, “O Jornal do Comércio”, “O Libertador”, “A Gazeta da Tarde”, “A Tarde”, o ‘Diário da Tarde”, órgão da imprensa amazonense e em a “Folha do Norte”, e “A Província do Pará”, de Belém. Escreveu ainda para as revistas “Cabocla”, “Redempção”, editadas em Manaus.

Em sua vasta e seleta biblioteca foram encontradas obras diversas com dedicatória ao mesmo tempo carinhosa e de reconhecimento aos seus dotes intelectuais, gravadas por personalidades várias das letras universais. Para informação, destacamos dentre as diversas divulgadas na Revista da Academia, as seguintes:

“Faço deste livro, saído agora do prelo, o portador dos meus louvores e de muitos agradecimentos ao caprichoso artista d’OBUFÃO, pela dedicatória de tal jóia ao meu nome, que desejo seja tido, de hoje por diante, por quem tanto o honrou, como de amigo e admirador”. COELHO NETO (O Turbilhão)

“Ao muito brilhante, ao Artista Péricles Moraes, a admiração de MARTINS FONTES” (Boêmia Galante)

“Ao incomparável estilista Péricles Moraes, com a admiração e o afeto do menor de seus discipulos VIANA MOOG” (Heróis da Decadência).

“A Péricles Moraes, o eminentíssimo crítico e alto espírito oferece o seu admirador AQUILINO RIBEIRO” (Luis de Camões, fabuloso e verdadeiro).

Dentre os amazônidas, embora muitos se tenham ocupado de sua cultura e conformação intelectual, especialmente os membros da Academia Amazonense de Letras, extraí da mesma fonte, para ilustração estudantil, a opinião que expenderam em dedicatórias de suas próprias obras.

“A Péricles Moraes, escritor que honra o Brasil e a Língua Portuguesa, com a permanente admiração de ÁLVARO MAIA” (Gente de Seringais).

“A Péricles Moraes, luminoso escritor e consumado esteta com um grande abraço do seu velho amigo JOÃO LEDA” (Vocabulário de Ruy Barbosa, 2ª. edição).

“Ao querido mestre e amigo Péricles Moraes - esta homenagem de muita admiração ao homem que é a maior contribuição da Amazônia à cultura e à inteligência brasileira de DJALMA BATISTA” (José Bonifácio).

“Ao Péricles - augusto espírito imortal - a flama entusiasmada do RAMAYANA DE CHEVALIER” (Ensaio de uma Parapsicologia da Amazônia).

De profunda intimidade com as obras e luminosas letras, foi familiarmente do convívio amigo de várias escritores de grande renome nacional como Coelho Neto, Hermann Lima, Josué Montello, Rogaciano Leite, Oswaldo Orico, Viana Moog, Martins Fontes, Peregrino Júnior, além de muitos outros de expressão internacional, como Fidelino de Figueiredo e todos os amazônidas de seu tempo.

Autor de várias obras, deixou nas revistas então editadas em Manaus contribuições que merecem uma edição em coletânea, das quais podemos destacar, apenas para informação: “Em louvor de Adriano Jorge” - Cabocla, agôsto de 1937; “Anatole, Semeador de Dúvidas” - Redempção, 1924; “Um Artista Clássico” - Redempção, março/abril 1925; “Grandeza e Decadência de D.Juan” - Redempção, maio de 1925.

Fundador da Academia Amazonense de Letras foi também seu Presidente por vários anos, compunha além de compor os quadros literários das Associações Amazonense e Brasileira de Escritores e foi membro Honorário da Sociedade de Geografia e História do Ceará.

Em reconhecimento a sua cultura e dedicação à Casa, a Academia Amazonense de Letras fez publicar uma edição de sua Revista, Comemorativa ao Jubileu Literário, em agosto de 1956 que se constitui em fonte preciosa para o conhecimento mais amplo da vida significativa e da obra majestosa do escritor que foi Péricles Moraes.

Fontes:
1. BITTENCOURT, Agnello. Dicionário Amazonense de Biografias. Rio de Janeiro, Conquista, 1973. p. 408-11.
2. . ROCQUE, Carlos. Grande Enciclopédia da Amazônia. Pref. de Arthur Cézar Ferreira Reis. Belém, Amel Ed., 1968 O Acadêmico.

Ocupante e fundador da cadeira patrocinada por Gonzaga Duque na Academia Amazonense de Letras, a de nº. 13 da Fundação, foi depois alçada a de nº.1, com a mesma denominação, transformada com sua morte em Poltrona Péricles Moraes, a seguir ocupada por Cosme Ferreira Filho, eleito juntamente com João Nogueira da Mata, José Lindoso, Almeida Barroso, João Crysóstomo, a 4 de novembro de 1959.
Dentre as suas contribuições na Revista da Academia, podemos destacar "Um inovador da crítica literária Benjamin Lima", In número especial, fev. de 1935; "Legenda heroíca de uma vida dedicada a Adriano Jorge": In fev. 1955; "Carlos Parros",n.4, dez.de 1955.