quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

L. RUAS - APARIÇÃO DO CLOWN




L. RUAS 

APARIÇÃO DO CLOWN


descoberta



foi no tempo do luar pois não existe sol
no velho parque − tempo não maduro – 
que encontrei o sempiterno clown. 
queria ver-lhe a face. e sua face 
era imenso lago azul parado
onde a lua se repetia. lua.
queria ver seu corpo – um chafariz
era seu corpo de barro modelado 
aljofrando de estrelas e de pérolas
o céu e o chão banhados em azul.
apenas vi o velho clown beijando
uma boneca. e beijando-a chorava.
e ria ao mesmo tempo que
o destino dos palhaços é fundir
à luz da lua o alegre riso e o triste pranto.

e vendo ser inútil o meu esforço
de descobrir integralmente o clown
eu suplicante lhe falei assim





















discurso



faz mistério palhaço
e ri teu riso esbandalhado.
gargalha palhaço e faz sofrer
os que contigo riem e sofrem
e vivem.
canta a tua ideologia tirânica 
ó clown sentenciado
para fazer chorar os que riem.
ninguém entende tua vida mascarado
que se esconde atrás da cortina
das pinturas e das vestes.
onde está tua face palhaço onde?
além do além do horizonte
nas nuvens ou atrás da máscara?
onde está teu riso palhaço onde?
no pranto que improvisas
ou na dor que não gargalhas?
palhaço.
interrogação verde no cenário de carmim.
palhaço. olha o palhaço.
havia inocência e terror pureza e crime
em teus olhos abertos para o mundo.
luzes.
as luzes da ribalta não revelam
o que não dizem também
nem as cores nem os saltos nem as cambalhotas


que fazes no trapézio longínquo.
palhaço. quem já viu tua face
tua única face?
aquela que não é partida
aquela que não é pintada?
quem já beijou tua boca verdadeira?
as bailarinas beijam a boca mentirosa
a que canta a que ri a que chora
mas ninguém beijará o teu silêncio.
e tuas mãos palhaço e tuas mãos rosa
tuas mãos disfarce que nos enganam e alegram.
a bailarina lhe disse chorando – eu te amo.
ele riu. palmas. a cortina cerrou-se.
e se vestiu de nobre e deu esmola
para encobrir com seda e ouro o adultério.
palhaço. ri teu riso e oferece-nos teu almoço.
dá-nos o ridículo banquete onde comemos
rosas e suspiros e sorrisos.
e deixa-nos sonhar depois e depois chorar
tudo aquilo que não nos revelaste
a flor ainda em botão
não desabrochada não vituperada.
ninguém te vaia palhaço
todos riem somente da face mentirosa
da escandalosa face que nos ofereces
dizendo que é vinho.

todos beberiam porém teu sangue
seiva das árvores água dos rios lama das sarjetas
e comeriam tua carne que não ofereces.
carne de elefante néctar de bonina alma de passarinho.
a estrela pousou – sombra de sonho – em seu ombro
– venho do céu. vi o mundo nascer. sou como tu 
eterna. 
sou a mais antiga das estrelas de todas as estrelas.
dou-te todo o meu brilho se disseres
porque ris tanto se és tão triste assim.


– ora. vamos dançar.

e saiu para o palco dançando e cantando.
ninguém viu a lágrima que lhe molhou os olhos 
ocultos. 

palhaço.
flor-de-lis onde bimbalham chocalhos.
inocência e maldade água e sangue
azul e preto
lama e sapo.
ri palhaço que ansiamos por te ver no picadeiro
árvore estranha esquisita flor
não sabemos de que país ou de que planeta.
de onde vens palhaço? quê nos queres dizer?
fala que te espiamos cientista da vida.
tu gargalhas no palco o que choramos na vida.
embora te odiemos te amamos
pois te pareces com o menino que somos
e com o inferno que não deixamos de ser.
poeta de risos e de cabriolas
diametralmente opostas
teus trejeitos são a mais perfeita rima
que já encontrei para os poemas
que não escreverei.
somos crianças palhaço diante de ti
sou criança que não aprendi ainda
o que é o belo e o feio
o pranto e a galhofa.
o que é ser e o que é não ser.
pois tu és homem palhaço tu és homem.
clown desengraçado


bicho fantasiado de deus
em quem não assentam
nem
rabo de macaco
nem
auréola de arcanjo.
tu és verdadeiramente homem
pois tu somente revelas o segredo
honra e vergonha
que todos ocultamos.
palhaços dos anjos e dos homens
mito de farsa e de verdade
palco e vida
gargalhada e pranto
seres partidos
dois olhos
duas pernas
duas mãos
paralíticos
cegos e loucos.
apagaram-se as luzes?
ou as rosas morreram?









resposta 




apenas vemos sombras
sem conhecermos a luz.
percebemos a chaga
não tocamos a alma.
brasa em negro fogo consumida
semente bipartida.
julgas possuir toda ciência
se sabes rir apenas
quando é preciso rir
é mister no entanto descobrir
que também no muito riso há pranto.
a máscara sustem dois olhos
um é cego porém. de fato
só um olho vê. por isso
conheces silhuetas
e não a dimensão total
aquela dimensão que
por ser transdimensional
entre todas
é mais constante e mais real.
a caverna de platão.
que sabes das rosas renascidas?
Das estrelas em luz desfalecidas?
da liberdade e do amor?
ser livre em essência é ser cativo.





aviso


quando vires o pássaro ferido
vagando antes que surja a madrugada
não o tanjas nem o chames
deixa-o voar. não te apiades
deixa o pássaro voar.
ele comeu a estrela
e conserva no desenho do seu vôo
as dimensões incontidas
dos humildes gestos perdidos para sempre.
não chames o pássaro ferido.
não te ouvirá pois não sabes os seus nomes.
e ninguém há de estancar o vôo
que jorra eternamente
de suas vísceras fecundadas
pela essência intocada da estrela
sua prisioneira e amor.
uma estrela de fogo e de basalto.
de basalto e fogo, não esqueças.
e o pássaro mais ferido pela luz
do que pelas cinco pontas da estrela
sempre voará.
deixa o pássaro voar. quando ouvires
o tatalar – apenas ritmo – cansado
mas não vencido
de suas penas molhadas de arrebol
deixa o pássaro voar. não tentes


prendê-lo. a ilusão é mais mortífera
do que a desesperança.
o pássaro é essencialmente livre
muito embora suas penas estejam prenhes
de luz e sangue misturados. 
se vires por acaso o pássaro voando 
não o chames para o teu silêncio 
pois o pássaro é muito bom – é bom demais – 
para que tu sombra e demência 
o possas possuir. 
nem te deixes seduzir pelo seu canto 
que o canto das sereias de ulisses 
diante do cantar do pássaro ferido
é apenas ritmo – apenas esboçado.
mas não odeies o pássaro 
ama-o de longe. pois é forte
apenas um amor de morte.
puccini ouviu o pássaro cantar. 
e eu também eu palhaço o ouvi.
ouvi sua lenda e seu martírio 
a tortura da estrela e saí
no ontem no hoje e no amanhã
a procurá-lo.
fruto do bem e do mal.


romance


a estrela de fogo e de basalto tem cinco
chifres e se parece com a rosa.
de sangue.
aberta ferida gotejante 
no peito espalmado e branco deste pássaro em vôo.
de ouro e de basalto.
de basalto da etiópia e de neve da antártida.
quando o pássaro raptou a estrela 
ela estava sendo devorada por um peixe.
que adianta mais? ser comida por um peixe 
ou amada por um pássaro. ser ou não ser comido.
esta é a questão. hamlet tinha razão.
para além para muito além de todo sonho 
o pássaro levou a estrela devorada 
e mais alto do que as águias o pássaro voou. 
mas quando o pássaro quis partir 
para a aventura sem rota 
por mares nunca antes navegados 
por espaços nunca antes habitados 
para plantar no barro e na luz 
um reino instável e efêmero 
onde imperaram 
o gênio, a arte, a poesia e a flor 
foi então que nasceu o mais profundo humor –
– o pássaro devorou a estrela 
e a estrela o pássaro gerou. o palhaço dos homens.


martírio

a serpente a maçã a figueira e o lírio 
todos cantaram pela voz do pássaro 
nascido prometeu.
não prometeu acorrentado um dia 
no deserto e na montanha.
prometeu não morre é apenas devorado.
continuamente devorado prometeu continuamente vivo.
comem-lhe o sexo e a alma 
a carne e o sangue e prometeu não morre 
prometeu acorrentado um dia 
do amor na eterna penedia.
o amor nos prende e nos tortura. mas não mata.
o pássaro ferido tem sete bicos 
sete línguas de fogo sete olhos sete chagas.
tem olhos e não vê. ouvidos e não ouve. está ferido. 
suas asas sangrando sempre banham o mundo inteiro.
às vezes é de mansinho que eles chegam 
os sete amores filhos do amor.
ágape feriu eros letalmente. terminou a comédia. 
júpiter destronado. mas beethoven está cantando.
ou é o pássaro ferido? 
os trigais estão maduros para a ceifa. 
que importa a primavera?
mefistófeles zombou do doutor fausto 
e o venceu. mistério e luz.
ouve o pranto da estrela solitária
que se desfaz em canto.

canção

se eu chorasse
estas sombras
e estes símbolos
morreriam 

os diamantes quebrariam
as arestas
e os vulcões se extinguiriam 

se eu chorasse
dormiria logo
e cedo sonharia
o lago dos cisnes

se eu chorasse
o cavalo branco
que cavalga morto
comeria as rosas

e a rosa de barro
murcharia no jarro
em ângulos obtusos

não digais ao mar
a dor das pedras frias
não digais à mariposa 
a tortura da luz

o meu amado é
um pássaro ferido
não choro sua dor
nem curo seu amor

a maçã é muito branca
o peixe é muito branco
o lírio é muito branco
não é branco o amor

eu cantei uma canção
baixinho ao meu amado 
– “não chores pequenino
não chores que eu te amo” –

eu andei por longas ruas 
e por cidades perdidas
em busca do meu amor 
procurava uma rosa
so encontrei dissabor

perguntei aos que passavam
onde andava meu amor

mas todos olhavam atentos
para as mãos de um senhor
que fazia jogos engraçados
e ninguém me respondeu
onde estava meu amor

eu andei por teus caminhos
em busca do meu amor
os palhaços tristemente
despetalavam uma flor.

viagem

foi então que cheguei ao cais 
e as barcaças estavam todas 
amarradas ancoradas.
caronte me disse amargamente 
– “não voltarão mais nem dante nem virgílio. 
nem será dado a orfeu
ir salvar eurídice
a passagem está vedada
e as barcaças ancoradas
não mais navegarão por mares ignotos” – 
quando olhei para o mar vi na praia
os escombros da batalha. 
pontas de lança arcos flechas
corpos destroçados almas insepultas. 
uma criança brincava com as conchas 
e com a caveira de um herói 
– se não me engano era de aquiles – 
seus olhos eram de fogo 
e suas mãos de lírio.
a criança então me disse – “depois
que a serpente me feriu no calcanhar 
nunca mais fui ao deserto nem
ao mar.
as águas não me sustentam mais
e somente caminho na praia
pois temo naufragar.

espero o pássaro ferido 
e se quiseres esperar comigo 
senta-te na praia e não vás ao mar.
o mar é muito vasto e fera enraivecida.
já engoliu noivos e pescadores
e seduziu o pássaro ferido.
não te lembras do mar de suas pompas
e de seus sedutores artifícios?
de seus cantos falazes e dos apelos sedutores
com os quais arrasta para o abismo
do seu próprio nada os navegantes
inexperientes e desprevenidos? 
não procures no mar no buliço das vagas 
a sombra do teu amor.
eu mandei prender as barcas
e aguardo o pássaro ferido.
canta uma canção ao teu amor.”
como cantarei cantos de amor
nesta solidão? 
os cantos nascem apenas da união
do brilho da estrela com o ritmo do vôo.
como hei de cantar canções de amor
se ainda estou peregrinando
por essas praias de vidro?
a criança então cantou assim – 



apóstrofe

em vão hás de voar pássaro triste 
buscando o fruto verde não sepulto
nas praias naufragadas onde existe
a concha nacarada – peixe inculto

além de tuas patas espalmadas
o mar é brisa calma e mata bruta
as asas que se abrem limitadas
mergulham sem tocar na doce fruta

em curvas linhas retas canto e arte
te vejo entre o céu e o barro forte
comendo espaço e tempo sul e norte

buscando em vão o fruto que te farte.
quem sabe? pode ser que noutros mares
sacies teu desejo. é bom tentares.



o dragão e a flor

vi que a criança fabricava
uma espada que cortava suas mãos.
perguntei-lhe – por que fazes esta espada?
respondeu-me – é para matar o cordeiro 
que será servido no banquete
do encontro da estrela com o pássaro.
o mar tranqüilo e frio como o desamor
a praia de vidro. caronte preso.
cupido sem flechas na aljava
a antiga simetria de vênus lamentava
que a beleza da estrela avantajava.
então compreendi porque a esperar 
estava a criança tão sozinha
o regresso do pássaro ferido.
neste momento entre fumo e fogo de inferno 
surgiu do mar profundo um dragão.
o mar como gigante enfurecido
uivava em contorções
espadanando seus peixes e todas suas pérolas
que vinham espatifar-se loucamente
na polida face da praia de cristal.
ó desencanto das palavras que não chegam.
uivava o mar qual leão acorrentado
sob o peso imponderável do amor
do dragão que perseguia a flor.
a flor tinha redolências de mulher




e era pura como um anjo.
oh. as flores que aninhei em minhas mãos
trêmulas como úteros maternos.
oh. as flores perdidas para sempre
nos longínquos perfumes ressequidos.



“– não mais verás o encanto fenecido 
do dia e da noite
não mais terás ó lírio amortecido
as brisas leves do teu vale.
não mais.
não mais que vênus está extinta
e a estrela rediviva”.


assim cantou o dragão enraivecido 
então a criança correu para meus braços
gritando – “não deixes o dragão me seduzir”.
“– que posso fazer criança que não sou
poderei salvar por acaso o eterno jogo 
se habitas a praia sem dimensões
sem sol e sem luar?
por que me buscas se possues espada
e mãos de sonho e olhos de rubi?
sou apenas sopro vento vaidade nada
pó perfume cor sonoridade luz.
que mistério é este que sugeres
tentando penetrar nestas entranhas
fecundadas pelo canto do pássaro ferido?
então o mar partiu-se lado a lado
como um véu por invisíveis mãos rasgado
e engoliu o dragão.


prelúdio 

quatro cavalos passaram galopando 
em asas de águias sustentados
relinchando como se fossem trombetas sua voz
ou ribombar de trovões enlouquecidos.
olhei. estava só na praia. o mar quieto.
uma brisa dançava sobre as ondas
o prelúdio que chopin tocava soluçando.
depois vieram ninfas volitando
ao som de músicas ligeiras.
sumiram-se depois nas gotas do orvalho.
oh. a crosta espessa das palavras
que mal revelam o fulcro luminoso
da consistência do mistério vislumbrado.
quem está cantando perguntei são as rosas?
rosas?
quem está cantando é o coro dos palhaços.

coral

vigiai vigiai. 
preparai a veste
acendei o círio
acendei a ribalta
ressuscitai as rosas
e aguardai no amor
que o pássaro virá.



nênia

mas se o pássaro não vier como será? 
os trigais deixarão cair – inútil esmola –
os grãos de ouro no chão incandescido.
as flores murcharão – flores de pedra –
pontiagudas como espinhos secos.
as fontes coalharão suas águas
e teu sorriso morrerá qual fruto podre.
se o pássaro não vier
será a noite sem estrelas
e o sol não bordará mais de ouro e púrpura
as régias fímbrias do manto da aurora.
tuas mãos inutilmente chamarão os pirilampos
para os bailes feéricos no seio da floresta
se o pássaro não vier
a musica silenciará
na última corda partida
de paganini.
o basilisco e as víboras dominarão os caminhos
e ficará deserto e frio o último dos ninhos.
não mais
não mais terás o meu carinho
pois teu rosto de mármore será
estulto como estátua de museu.
se o pássaro não vier
inutilmente serás.

serás o quê? ser o quê se o pássaro não vem? 
ser o quê se não há mais flor?
ser o quê se não há mais ninho?




ressurreição do baile

mas
escuta
que vozes serão essas? 
de onde vêm? para onde vão?
olha.
as flores ressuscitam.
olha.
as estrelas se acendem.
olha o mar. olha a estrela de basalto e ouro
olha.
não vês ó triste cego o deserto reflorido
e as amendoeiras do japão e as borboletas?
olha o exército pronto para a guerra.
olha os coros dos serafins e dos arcanjos.
olha os noivos enfeitados para as bodas.
olha a brisa dançando na folhagem.
é na brisa que o pássaro virá.
virá com as línguas de fogo
e os cornos septiformes. olha as luzes.
vê as cores. ouve os sons.
tudo recomeça a vibrar e a dançar.
é o tempo.
olha a estrela de ouro e de basalto.
o pássaro ferido está chegando.



retorno


ele voltou dançando o mesmo balé antigo.
“– quem és tu esquisito ser luxuriante?
e estes guizos pendentes de teus dedos 
e estas chamas febris em teu olhar de ave?
quem és tu? perguntei – “e o fantasma
não me olhou sequer. subia e descia
em ritmo veloz e às vezes calmamente.
“– quem és tu? –“ perguntei impaciente
que o medo o pavor o riso a loucura
já de mim se apossavam. e o demente
anjo respondeu-me indiferentemente
“– de onde venho não sei nem mesmo sei
se algum dia nasci ou se apenas sempre nasço.
quem sou? rosa anjo fagulha do inferno 
semideus apenas gesto luz ou noite?
por que perguntas isso? por que queres saber
quem sou se eu mesmo não o sei? repara.
quando aqui chegaste a noite era nova
e já a estrela da manhã desfolha
uma a uma humildemente suas pétalas de luz.
não te direi quem sou. dorme e sonha.
acorda viaja estuda raciocina dorme.
não és homem por acaso não possues 
uma centelha divina ardendo viva
dentro do teu mais misterioso mar?
não direi meu nome a homem algum porém 
podes muito bem descobri-lo. sabes que a lua
é um satélite da terra. que o sol é uma estrela.
que tudo é relativo e três as dimensões do espaço.
que os corpos se compõem de átomos e moléculas.
conheces a inflexível lei da gravidade
que arrasta para o chão o barro do teu corpo.
descobriste no âmago das coisas íons e elétrons
o positivo e o negativo
forças que se atraem e se repelem.
conheces as rotas dos planetas e o caminho
das marítimas correntes dos ventos e das aves
e não sabes ainda balbuciar meu nome verdadeiro.
e eu não direi. espia bem esta paisagem.
lê de novo o poema. desce. vai ao fundo.
sobe depois. evola-te. transforma-te
depois em fumaça e em luz. não te afadigues.
o ritmo do meu nome é longo. majestoso.
quando souberes quantas rosas floriram
na paisagem perdida e de novo descobrires
o sonho inquieto e a aurora pranteada
alegra-te então. pois caminhas certo
rumo ao mistério inexprimível do meu nome.
agora olha bem para dentro de meus olhos.
que são eles? abismos caricias ou perdição?
fogo água tranqüilidade ou medo? 
e meus pés? vês? são pés de fauno grego
ou de arcanjo bizantino? não sabes?
não sabes decifrar o indevassável enigma
dos meus pés sempre velados?
não sabes entender a linguagem dos meus olhos?
sou demente sim. sou ilógico. hiperlógico. paralógico.
sou problema e sombra. queres saber meu nome?
queres me amar talvez ou odiar talvez.
sou vida esperdiçada ou morte indesejável.
e meu corpo se corpo chamar se pode
a esta mistura de feno e melodia
é tão instável como a dança histérica das chamas.
sou ar fogo umidade terra e água.
os quatro elementos? ah. os infinitos elementos.
sou móvel motor força motriz mobilidade extrema
e ao mesmo tempo sou suprema paz e quietude.
olha a lagoa onde revoam pássaros cansados.
olha as canaranas frágeis baloiçando 
e os aguapés dormindo brancamente.
olha as águas das lagoas diluídas
os cetáceos as serpes os palmípedes
e as ondas profundas que despertam
e uma a uma vão morrer nas margens.
e perguntas meu nome. sabê-lo não desejes.
à noite venho ver-te e te acalento 
no sono solitário e tão estrangulado.
fabrico sonhos e ao meu rude comando
as estrelas despenham-se e os planetas giram
na luminosidade sempre nova das noites consteladas.
não percebes o uivar dos ventos nas mangueiras
e na bonina que se abre como o ventre
da primeira mãe ainda virgem que já foi?
e meu nome não sabes. fui presente
nas metamorfoses de virgílio e na comédia de dante
iluminei camões e lorde byron
shakespeare foi meu fâmulo. joão da cruz meu senhor.
ensinei davi a dedilhar a lira
o outro joão eu visitei em patmos
e o bateau ivre era meu. dei-o a rimbaud.
sou chama e alma rio e danço
no fogo rubro amarelo azul e verde.
quando olhares o fogo observa bem
que lá estou como também estou
na palidez da lua sempre fria
e dentro de ti mesmo a conduzir
tua mão quando escreves os poemas
e sentes a tortura de dizer belezas.
pareço mau às vezes quando prendo a pena
e estrangulo a luz justamente no momento
em que começa a palpitar dentro de ti. 
mas se o faço é para despertar em ti
a sede onímoda de conseguir o mais.
agora vê. me vou. deixo-te agora.
vou como vim. apaga a luz
fecha os olhos e me verás no sonho 
o mesmo balé inicial dançando.



foi assim que partiu o tresloucado 
pois como os amantes é hostil
à luz do sol. é sombra seu império.
não trevas. mas a luz azul
que não é dia não é noite.
é luar.

legado

asas somente isso. angústia 
de fugir ao destino das raízes.
túrgidas velas singrando aberto espaço.
velas do destino de colombo
partindo em quilhas quase loucas para
o mistério das virgens descobertas.
asas de ícaro vencidas pelo sol
incauto icaro não sabias que
não é dado a palhaços ver o sol?
ah. o vôo de icaro presente
na dança de nijinski.
asas, somente isso. desespero
de ser barro e ao mesmo tempo seta.
asas apenas sugeridas
nas curvas nos voejos nas volutas
nos mantos e nas vestes do barroco.
asas de anjos de querubins de touros
assírios. asas custódias da arca da aliança.
asas nos calcanhares de mercúrio.
asas romanas. gregas. bizantinas asas.
asas egípcias. asas de papel crepon
dos anjinhos meninas das procissões.
asas até sim asas de avião.
asas do padre bartolomeu de gusmão.
asas em queda.
pois até para cair é mister possuí-las.
belzebu tem asas. sim. belzebu tem asas.
no céu e no inferno ruído de asas tatalando.

asas nos pés da bailarina tola do café noturno. 
antigo sonho. desejo antigo. eterna tentação.
asas. panos soltos ao vento. gazes leves.
e os braços que se erguem as mãos que gesticulam
asas as torres ogivais as fadas e as bruxas.
asas sonoras sibilando esses
verdes azuis amarelas incolores
brilhantes e opacas grandes e pequenas
das borboletas das garças das abelhas
das plumas dos polens do orvalho
asas imponderáveis e asas de granito
dos arcanjos que guardam mausoléus.
asas. geometria rude esboço mal riscado
pelos bandos erradios de pássaros selvagens.
asas no chão. asas no céu.
asas ensaiando vôo. é somente isso
o rebento verdolengo ao romper
a espessa placenta da terra dura e seca.
asas de águia em vôos altaneiros.
asas quietas pousadas em silêncio.

doutrina

sou cativo do pássaro ferido 
pois ouvindo sua lenda e seu martírio
por legado recebi este desejo
e da estrela tornei-me companheiro.
ó poeta não queiras pois é morte
e cativeiro conhecer a face do palhaço.
há milênios caminho sem cessar
sem ver o sol. apenas o luar
e a luz indecisa das estrelas
recriam esta máscara e fonte
do riso e da tristeza que oculta 
o meu rosto e corpo verdadeiros.
e assim caminharei eternamente
peregrino sempre sempre marinheiro
carregando meu fado torturante 
– semente feto messe em promissão –
de ser ave sem poder voar
de ser clown isto é ser e não ser.
mas tu poeta enquanto não puderes
te unir totalmente com o mistério
que te foge das mãos feitas de som 
une-te intensamente
às formas aos sons e às cores simples.
modela sem cessar
a chama que te queima a alma e as mãos.
não deixes que se perca uma só
destas fagulhas.
pois uma delas pode ser a luz
que salvará tua face passageira
quando raiar o sempiterno dia.













despedida


e o velho clown partiu beijando ainda
o brinquedo que a criança abandonara
no velho palco parque ou tempo sem memória.






domingo, 4 de dezembro de 2016

VICTOR HUGO














DEUS SONHA

O dia acorda. Deus, por uma fresta
Das nuvens a espreitar, ri-se. A floresta,
O campo, o inseto, o ninho sussurrante,
A aldeia, o sol que finge a serrania...
Tudo isso acorda, quando acorda o dia
No fresco banho de ouro do Levante.

Deus sonha. Vaza os olhos d’água; pica
As artérias da terra; o lis fabrica,
E da matéria sonda o fundo ovário.
Pinta as rosas de branco e de vermelho,
E faz das asas vis do escaravelho
A surpresa do mundo planetário.

Homens! As férreas naus de velas largas
Monstros revéis, formidolosas cargas,
Do bruto oceano arfando as insolências
Extenuando os ventos, e nos flancos.
Largo enxame a arrastar de flocos brancos
De escuma, e raios e fosforescências...

Os estandartes de arrogantes pregas;
As batalhas, os choques, as refregas;
Náuseas de fogo de canhões sangrentos;
Feroz carnificina de ferozes
Batalhões - bando espesso de albatrozes
De asa espalmada e aberta aos quatro ventos...

Comburentes, flamívomas bombardas,
Ígnea selva de canos de espingardas,
Estampidos, estrépitos, clangores,
E, bêbedo de pólvora e fumaça,
Napoleão que galopando passa,
Ao ruflar de frenéticos tambores;

A guerra, o saque, as convulsões, o espanto;
Sebastopol em chamas, de Lepanto
A vau de lanças e clarins repleto...
Homens! Tudo isso, enquanto recolhido
Deus sonha, passa e soa ao seu ouvido
Como o rumor das asas de um inseto!

(Trad. de Raimundo Correia)







OH! NÃO INSULTEIS...





Oh! não insulteis nunca uma mulher perdida!
Quem sabe qual o transe em que ela foi vencida?
Quem sabe se foi longo o seu combate rude,
Entre as mil privações que assaltam a virtude?
Se o vento das paixões soprou com violência,
Quem já viu a mulher, que prendia a inocência
Nas pequeninas mãos cruzadas sobre o seio,
Não ir no turbilhão, gritando, com receio?...
Tal a gota de chuva, - pérola da rama: -
Brilha ao passar do vento, oscila e cai na lama!

A culpa é nossa; é tua, ó rico! é do teu ouro!
Mas, no lodo é que o mar esconde o seu tesouro...
Para que o pingo d’água erga-se da poeira,
Com o vivo esplendor e a limpidez primeira.
Já que as transformações se operam pra melhor,
Dai-lhe um raio de sol! dai-lhe um raio de amor!

(Trad. de Múcio Teixeira)







A AMOR


Pois que a beber me deste em taça transbordante,
E a fronte no teu colo eu tenho reclinado,
E respirei da tu’alma o hálito inebriante,
- Misterioso perfume à sombra derramado;

Visto que te escutei tanto segredo, tanto!
Que vem do coração, dos íntimos refolhos,
E tive o teu sorriso e enxuguei o teu pranto,
- A boca em minha boca e os olhos nos meus olhos;

Pois que um raio senti do teu astro, querida,
Dissipar-me da fronte as densas brumas frias,
Desde que vi cair na onda da minha vida
A pétala de rosa arrancada aos teus dias...

Posso agora dizer ao tempo, em seus rigores:
- Não envelheço, não! podeis correr, sem calma,
Levando na torrente as vossas murchas flores
Ninguém há de colher a flor que eu tenho n’alma!

Podeis com a asa bater, tentando, sem efeito,
A taça derramar em que me dessedento:
Do que cinzas em vós há mais fogo em meu peito;
E, em mim, há mais amor que em vós esquecimento!

(Trad. de Alvaro Reis)







DEPOIS DA BATALHA




Meu pai, aquele herói de riso sempre aberto,
Seguido de um “hussard” que estimava, decerto,
Mais que os outros, por ser um bravo ante a metralha,
Percorria, a cavalo, após uma batalha,
O campo do combate envolto pelo véu
Da noite; nisto um ruído a escuridão rompeu:
Era um belo espanhol do exército vencido
Que, à beira do caminho, exânime, vencido
Gemia agonizante, exausto e sem socorro,
E que a custo dizia: “Água! Água que eu morro!”
Meu pai magoado, estende ao seu “hussard”, então,
A cabaça do rum pendurada no arção,
E diz-lhe: - “Toma lá, dá-lha ao pobre ferido”.
De repente, no instante em que o “hussard”, pendido,
O ia socorrer, ele, um tipo de mouro,
Que inda agarrava a arma, arremessa um pelouro,
À fronte de meu pai, exclamando: “caramba!”
Tão perto lhe zune o tiro, que descamba
O chapéu, e o cavalo acua e se retrai.
“Vá, dá-lhe de beber, embora!” diz meu pai.

(Trad. de Silva Ramos)

sábado, 3 de dezembro de 2016

IRANÁRIS FERREIRA DA SILVA



IRANÁRIS FERREIRA DA SILVA




Um poeta morreu

Bilhete a Rogel Samuel
por Flávio Bittencourt
"Brasília, 25.9.2009
Mestre Rogel:
Entristecido, verifico, lendo notícia de sua lavra, que Iranáris -  "(...) [que foi] jornalista no Rio (A noite) e professor de matemática na Escola Técnica de Manaus (...), como você informa - . faleceu.
Ao lado dos também escritores Homero de Miranda Leão e Ramayana de Chevalier - e meu pai, Ulysses Bittencourt, era quase um irmão do pai de Stanley, Scarlet e Ronald Chevalier, o célebre Roniquito -, vejo, em pesquisa no Google, que Iranáris foi suplente de deputado estadual, como os Drs. Homero e Ramayana também o foram, pela UDN do Amazonas, nas eleições de 3.10.1958,

1958, vale lembrar, de acordo com Joaquim Ferreira dos Santos, foi "o ano que não deveria terminar",
http://www.editoras.com/record/05185.htm. 
Em 1975, no funeral de Pier Paolo Pasolini, pronunciou Alberto Moravia: 
"(...) Hoje morreu um poeta. E um poeta é uma coisa rara. Só aparecem dois ou três poetas em cada século. O poeta deveria ser sagrado. (...)"
Transmita as minhas condolências, por favor, à família enlutada do seu amigo, o poeta amazonense 

                                  Iranáris Ferreira da Silva (1912 - 2009).

IRANÁRIS FERREIRA DA SILVA
(Iran Fersil)


Iran Fersil




Rogel Samuel





Morreu hoje, às 15 horas, no Rio de Janeiro, o poeta amasonense IRANÁRIS FERREIRA DA SILVA (Manaus 4 de abril 1912 - 24 de setembro 2009), o Iran Fersil. Ele foi jornalista no Rio (A noite) e professor de matemática na Escola Técnica de Manaus.

Ele tinha 97 anos e meio e era casado há 75 anos com sua esposa, Eulice Esteves da Silva, já falecida. Morreu dormindo, de parada cardíaca. Deixou os filhos Maíra Esteves, Nicolino Marinho D'Antona, Renata D'Antona e duas netas, a conhecida escritora Eulícia Esteves (Coordenadora de Música Popular da Funarte) e Isabela Esteves Albrecht, arquiteta, que mora em Paris.

Iranáris era meu amigo há 50 anos. Sua produção poética é muito grande, mas toda publicada nos jornais de Manaus. Ele nunca publicou um só livro. Ele dizia que sua mãe era uma índia Baré.

Era do nosso Grêmio Gregório de Matos. Leia:






POUCO SONHO E MUITO AMOR


Diz-me baixinho, amor; diz, segredando,
palavras de afeto e de carinho,
para que eu vá dormindo de mansinho,
depois desperter mais e mais te amando.
Vem em meus olhos, lado a lado, andando,
para que eu não me sinta tão sozinho;
vem, sem receio, que eu serei bonzinho,
porque sem ti me quedarei chorando.
E nosso par será mui venturoso:
símbolo de amor, de gozo e de ventura
que tanta inveja então há de causar.
Serás feliz, querida, eu bem ditoso,
no lindo sonho cheio de ternura
que de tão belo não devia findar!



VOLTA!

Você voltou! Por que você voltou?
Melhor seria sempre ser ausente.
Pois que mudada está, mui diferente,
não parecendo aquela que me amou.

Perdeu, mesmo, o jeito de inocente
que, noutros tempos, tanto me encantou...
Sorriso, fala... em fim tudo mudou. .
Como possível foi, tão de repente?

Volta! Já não desejo ter agora
o mesmo amor que tive outrora,
que fêz minhalma desvairada, louca.

Vai! Segue, em paz, seus floridos caminhos!...
Que outros possam colher os seus carinhos,
que de o fazer minha vontade é pouca!



MINHA VIDA

É minha vida um grã vergel talhado
por fortes ventos das desilusões;
os flóreos ramos com que hei sonhado
brotam flôres de decepções.

Nos seus canteiros, já não há trinado
a passarada, tão belas canções...
somente anum, em canto magoado,
toca de perto os nossos corações.

Minhalma errante, passa, preocupada,
colhendo, aqui, ali, pétalas caídas
que já não têm um pouco de perfume...

Assim, meu coração, de caminhada,
está deserto de amizades tidas,
guardando um resto de feral ciúme...


POUCO SONHO E MUITO AMOR

Diz-me baixinho, amor; diz, segredando,
palavras de afeto e de carinho,
para que eu vá dormindo de mansinho,
depois desperte mais e mais te amando.

Vem em meus sonhos, lado a lado, andando,
para que eu não me sinta tão sôzinho;
vem, sem receio, que eu serei bonzinho,
porque sem ti me quedarei chorando.

E nosso par será mui venturoso:
simb’lo de amor, de gôzo e de ventura
que tanta inveja então há-de causar.

Serás feliz, querida, eu bem ditoso,
no lindo sonho cheio de ternura
que de tão belo não devia findar!


A MORENA E A ROSA

Dei-lhe uma rosa perfumada e bela
colhida há pouco num dos meus jardins
tenho açucenas cravos e jasmins
mas nenhum’outra se compara a ela.

Nem todas flôres têm felizes fins
mas minha rosa que destino o dela:
iluminando o peito da donzela
dando realce a todos os seus quindins.

No lindo quadro se nos afigura
uma bela e meiga, outra linda e pura
que enfim nos deixa a alma duvidosa

pois entre a flor e a escultural pequena
não sei se a rosa que enfeita a morena
ou se a morena que realça a rosa.

sábado, 5 de dezembro de 2015

OLAVO BILAC - TARDE




Olavo Bilac A TARDE


À memória
de
José do Patrocínio,
meu amigo,
é dedicado este livro.

8 outubro - 1918.

O. B.


"... La nostra vita è siccome uno arco montando e volgendo... Avemo dunque che Ia gioventute nel quarantacinquesimo anno se compie: e siccome I'adolescenza è in venticinque anni che procede montando alia gioventute; cosí il discendere, cioè la senettute, è altrettanto tempo che succede alla gioventute; e cosí si termina Ia senettute nel settantesimo anno... Dov'é da sapere che la nostra buona e diritta natura ragionevolmente procede in noi, siccome vedemo procedere la natura delle piante in quelle; e però altri costumi e altri portamenti sono ragionevoli ad una età più che ad altre; nelli quali I'anima nobilitata ordinariamente procede per una semplice via, usando li suoi atti nelli loro tempi e etadi siccome al'ultimo suo frutto sono ordinari."


(DANTE - "Il Convito", trat. quarto, cap. XXIV.)

Hino á Tarde


Glória jovem do sol no berço de ouro em chamas,
Alva! natal da luz, primavera do dia,
Não te amo! nem a ti, canícula bravia,
Que a ti mesma te estruis no fogo que derramas!


Amo-te, hora hesitante em que se preludia
O adágio vesperal, - tumba que te recamas
De luto e de esplendor, de crepes e auriflamas,
Moribunda que ris sobre a própria agonia!


Amo-te, ó tarde triste, ó tarde augusta, que, entre 
Os primeiros clarões das estrelas, no ventre, 
Sob os véus do mistério e da sombra orvalhada,


Trazes a palpitar, como um fruto do outono, 
A noite, alma nutriz da volúpia e do sono, 
Perpetuação da vida e iniciação do nada.

Ciclo

Manhã. Sangue em delírio, verde gomo,
Promessa ardente, berço e liminar:
A árvore pulsa, no primeiro assomo
Da vida, inchando a seiva ao sol... Sonhar!


Dia. A flor, - o noivado e o beijo, como
Em perfumes um tálamo e um altar:
A arvore abre-se em riso, espera o pomo,
E canta à voz dos pássaros... Amar!


Tarde. Messe e esplendor, glória e tributo;
A árvore maternal levanta o fruto,
A hóstia da idéia em perfeição... Pensar!

Noite. Oh! saudade!... A dolorosa rama
Da árvore aflita pelo chão derrama
As folhas, como lágrimas... Lembrar!


Pátria


Pátria, latejo em ti, no teu lenho, por onde
Circulo! e sou perfume, e sombra, e sol, e orvalho!
E, em seiva, ao teu clamor a minha voz responde,
E subo do teu cerne ao céu de galho em galho!


Dos teus liquens, dos teus cipós, da tua fronde,
Do ninho que gorjeia em teu doce agasalho,
Do fruto a amadurar que em teu seio se esconde,
De ti, - rebento em luz e em cânticos me espalho!


Vivo, choro em teu pranto; e, em teus dias felizes, 
No alto, como uma flor, em ti, pompeio e exulto! 
E eu, morto, - sendo tu cheia de cicatrizes,


Tu golpeada e insultada, - eu tremerei sepulto:
E os meus ossos no chão, como as tuas raízes, 
Se estorcerão de dor, sofrendo o golpe e o insulto!


Língua Portuguesa


Ultima flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...


Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma 
De virgens selvas e de oceano largo! 
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,


Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


Música Brasileira


Tens, as vezes, o fogo soberano
Do amor: encerras na cadência, acesa
Em requebros e encantos de impureza,
Todo o feitiço do pecado humano.


Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza
Dos desertos, das matas e do oceano:
Bárbara poracé, banzo africano,
E soluços de trova portuguesa.


És samba e jongo, xiba e fado, cujos
Acordes são desejos e orfandades
De selvagens, cativos e marujos:


E em nostalgias e paixões consistes, 
Lasciva dor, beijo de três saudades, 
Flor amorosa de três raças tristes.


Anchieta


Cavaleiro da mística aventura, 
Herói cristão! nas provações atrozes
Sonhas, casando a tua voz às vozes 
Dos ventos e dos rios na espessura:


Entrando as brenhas, teu amor procura
Os índios, ora filhos, ora algozes,
Aves pela inocência, e onças ferozes
Pela bruteza, na floresta escura.


Semeador de esperanças e quimeras, 
Bandeirante de "entradas" mais suaves, 
Nos espinhos a carne dilaceras:


E, porque as almas e os sertões desbraves, 
Cantas: Orfeu humanizando as feras, 
São Francisco de Assis pregando às aves...


Caos


No fundo do meu ser, ouço e suspeito
Um pélago em suspiros e rajadas:
Milhões de vivas almas sepultadas,
Cidades submergidas no meu peito.


As vezes, um torpor de águas paradas...
Mas, de repente, um temporal desfeito:
Festa, agonia, júbilo, despeito,
Clamor de sinos, retintim de espadas,


Procissões e motins, glórias e luto, 
Choro e hosana... Ferver de sangue novo, 
Fermentação de um mundo agreste e bruto...


E há na esperança, de que me comovo,
E na grita de dúvidas, que escuto,
A incerteza e a alvorada do meu povo!

Diziam que...


"Diziam que, entre as nações sobreditas, moravam algumas monstruosas.

Uma é de anãos, de estatura tão pequena, que parecem afronta dos homens; - chamados Goiasis.

Outra é de casta de gente, que nasce com os pés ás avessas, de maneira que quem houver de seguir seu caminho há de andar ao revés do que vão mostrando as pisadas; chamam-se Matuius.

Outra é de homens gigantes, de dezesseis palmos de alto, adornados de pedaços de ouro por beiços e narizes, e aos quais todos os outros pagam respeito; têm por nome Curinqueás.

Finalmente que há outra nação de mulheres, também monstruosas no modo do viver (são as que hoje chamamos Amazonas, e de que tomou o nome o rio) porque são guerreiras, que vivem por si só sem comércio de homens; vivem entre grandes montanhas; são mulheres de valor conhecido...

Padre Simão de Vasconcelos.

(Crônica da Companhia de Jesus no Estado do Brasil, 1663, Liv. I, cap. 31.)


I
Os Monstros


Não me perdi numa ilusão... Perdi-me
Na existência, entre os homens. E encontrei-os,
Vivos, bem vivos! - estes monstros feios,
Cujo peso afrontoso a terra oprime.


Mas há monstros no bem, como no crime:
Outros houve, que em hinos e gorjeios
Talvez viveram e morreram, cheios
De extrema formosura e ardor sublime.


Ah! no dia da cólera tremenda, 
Os monstros bons, agora fugitivos 
Desta míngua de fé que nos infama,

Ressurgirão no epílogo da lenda:
Os mortos voltarão varrendo os vivos, 
E os maus se afogarão na própria lama!


II


Os Goiasis


Ainda viveis, espíritos obscenos,
Como nos dias do Brasil inculto,
Na inteligência anãos, como no vulto;
Como no corpo, no moral pequenos.


Espremeis a impotência do ódio estulto
Em pérfidos esguichos de venenos..
Tendes baixeza em tudo: nem, ao menos,
Força na inveja e elevação no insulto!


Répteis humanos, no coleio dobre 
De rastos babujais templos e lares; 
Contra os bons, contra os fortes de alma nobre,


Línguas e dentes dardejais nos ares:
Mas só podeis ferir, na raiva pobre, 
Em vez dos corações, os calcanhares.


III


Os Matuius


De pés virados, marcha avessa e rude,
Dedos atrás, calcâneos para a frente,
Ainda viveis, mentores sem virtude,
Que a verdade escondeis à vossa gente!

Sabeis, - e errais propositadamente, 
Traidores nas lições e na atitude:
Aos corações o vosso exemplo mente, 
Como no solo o vosso rasto ilude.


Pobre quem calca o vosso piso errado:
Em vez da liberdade encontra um muro; 
Pedindo a salvação, cai num pecado;

E acha em lugar da glória o lodo impuro:
Para seguir-vos, vai para o passado;
Por imitar-vos, foge do futuro.


IV

Os Curinqueãs


Ainda viveis! Conheço-vos, felizes
Morubixabas de ambições astutas,
Que em desgraçadas e mesquinhas lutas
Desgovernais misérrimos países!


Já tendes paços em lugar de grutas... 
Mas, apesar do tempo e dos vernizes,
- Se os não trazeis por beiços e narizes, 
Os botoques guardais nas almas brutas.


Pobres de idéias, ávidos de foros, 
Rudes pastores de servil rebanho, 
Espirrais arrogância pelos poros...


Sois sempre os mesmos Curinqueãs de antanho:
Vastos e estéreis, ocos e sonoros, 
Unicamente grandes no tamanho!


V
As Amazonas


Nem sempre durareis, eras sombrias 
De miséria moral! A aurora esperas,
Ó Pátria! e ela virá, com outras eras, 
Outro sol, outra crença em outros dias!


Davi renascerá contra Golias,
Alcides contra os pântanos e as feras:
Os corações serão como crateras,
E hão de em lavas mudar-se as cinzas frias.


As nobres ambições, força e bondade, 
Justiça e paz virão sobre estas zonas, 
Da confusa fusão da ardente escória.


E, na sua divina majestade, 
Virgens, reviverão as Amazonas 
Na cavalgada esplêndida da glória!

O Vale


Sou como um vale, numa tarde fria,
Quando as almas dos sinos, de uma em uma,
No soluçoso adeus da ave-maria
Expiram longamente pela bruma.


É pobre a minha messe. É névoa e espuma
Toda a glória e o trabalho em que eu ardia...
Mas a resignação doura e perfuma
A tristeza do termo do meu dia.


Adormecendo, no meu sonho incerto
Tenho a ilusão do prêmio que ambiciono:
Cai o céu sobre mim em pirilampos...


E num recolhimento a Deus oferto
O cansado labor e o inquieto sono
Das minhas povoações e dos meus campos.

A Montanha


Calma, entre os ventos, em lufadas cheias
De um vago sussurrar de ladainha,
Sacerdotisa em prece, o vulto alteias
Do vale, quando a noite se avizinha:


Rezas sobre os desertos e as areias,
Sobre as florestas e a amplidão marinha;
E, ajoelhadas, rodeiam-te as aldeias,
Mudas servas aos pés de uma rainha.


Ardes, num holocausto de ternura...
E abres, piedosa, a solidão bravia
Para as águias e as nuvens, a acolhê-las;


E invades, como um sonho, a imensa altura,
- Ultima a receber o adeus do dia,
Primeira a ter a bênção das estrelas!


Os Rios


Magoados, ao crepúsculo dormente,
Ora em rebojos galopantes, ora
Em desmaios de pena e de demora,
Rios, chorais amarguradamente,


Desejais regressar... Mas, leito em fora,
Correis... E misturais pela corrente
Um desejo e uma angústia, entre a nascente
De onde vindes, e a foz que vos devora.


Sofreis da pressa, e, a um tempo, da lembrança. 
Pois no vosso clamor, que a sombra invade, 
No vosso pranto, que no mar se lança,


Rios tristes! agita-se a ansiedade 
De todos os que vivem de esperança, 
De todos os que morrem de saudade...


As Estrelas


Desenrola-se a sombra no regaço
Da morna tarde, no esmaiado anil;
Dorme, no ofego do calor febril,
A natureza, mole de cansaço.


Vagarosas estrelas! passo a passo,
O aprisco desertando, às mil e às mil,
Vindes do ignoto seio do redil
Num compacto rebanho, e encheis o espaço...


E, enquanto, lentas, sobre a paz terrena, 
Vos tresmalhais tremulamente a flux,
- Uma divina música serena


Desce rolando pela vossa luz:
Cuida-se ouvir, ovelhas de ouro! a avena
Do invisível pastor que vos conduz...


As Nuvens


Nuvem, que me consolas e contristas,
Tenho o teu gênio e o teu labor ingrato:
Essas arquiteturas imprevistas
São como as construções em que me mato...


Nunca vemos, misérrimos artistas,
A vitória deste ímpeto insensato:
A um sopro benfazejo, que conquistas!
A um hálito cruel, que desbarato!


Nuvens de terra e céu, brincos do vento, 
Vai-se-nos breve a essência no ar varrida... 
Irmã, que importa? ao menos, num momento,


No fastígio falaz da nossa lida, 
Tu, nas miragens, e eu, no pensamento, 
Somos a força e a afirmação da Vida!

As Árvores


Na celagem vermelha, que se banha
Da rutilante imolação do dia,
As árvores, ao longe, na montanha,
Retorcem-se espectrais à ventania.


Árvores negras, que visão estranha
Vos aterra? que horror vos arrepia?
Que pesadelo os troncos vos assanha,
Descabelando a vossa rumaria?


Tendes alma também... Amais o seio 
Da terra; mas sonhais, como sonhamos, 
Bracejais, como nós, no mesmo anseio...


Infelizes, no píncaro do monte, 
(Ah! não ter asas!...) estendeis os ramos 
À esperança e ao mistério do horizonte.


As Ondas


Entre as trêmulas mornas ardentias,
A noite no alto-mar anima as ondas.
Sobem das fundas úmidas Golcondas,
Pérolas vivas, as nereidas frias:


Entrelaçam-se, correm fugidias,
Voltam, cruzando-se; e, em lascivas rondas,
Vestem as formas alvas e redondas
De algas roxas e glaucas pedrarias.


Coxas de vago ônix, ventres polidos 
De alabastro, quadris de argêntea espuma, 
Seios de dúbia opala ardem na treva;


E bocas verdes, cheias de gemidos, 
Que o fósforo incendeia e o âmbar perfuma, 
Soluçam beijos vãos que o vento leva...


Crepúsculo na Mata


Na tarde tropical, arfa e pesa a atmosfera.
A vida, na floresta abafada e sonora,
Úmida exalação de aromas evapora,
E no sangue, na seiva e no húmus acelera.


Tudo, entre sombras, - o ar e o chão, a fauna e a flora, 
A erva e o pássaro, a pedra e o tronco, os ninhos e a
hera,
A água e o reptil, a folha e o inseto, a flor e a fera,
- Tudo vozeia e estala em estos de pletora.


O amor apresta o gozo e o sacrifício na ara:
Guinchos, berros, zinir, silvar, ululos de ira, 
Ruflos, chilros, frufrus, balidos de ternura...


Súbito, a excitação declina, a febre pára:
E misteriosamente, em gemido que expira, 
Um surdo beijo morno alquebra a mata escura...


Sonata ao Crepúsculo


Trompas do sol, borés do mar, tubas da mata,
Esfalfai-vos, rugindo, - e emudecei... Apenas,
Agora, trilem no ar, como em cristal e prata,
Rústicos tamborins e pastoris avenas.


Trescala o campo, e incensa o ocaso, numa oblata.
- Surgem da Idade de Ouro, em paisagens serenas, 
Os deuses; Eros sonha; e, acordando à sonata, 
Bailam rindo as subtis alípedes Camenas.


Depois, na sombra, à voz das cornamusas graves, 
Termina a pastoral num lento epitalâmio... 
Cala-se o vento... Expira a surdina das aves.


E a terra, noiva, a ansiar, no desejo que a enleva, 
Cora e desmaia, ao seio aconchegando o flâmeo, 
Entre o pudor da tarde e a tentação da treva.


O Crepúsculo da Beleza


Vê-se no espelho; e vê, pela janela, 
A dolorosa angústia vespertina:
Pálido, morre o sol... Mas, ai! termina 
Outra tarde mais triste, dentro dela;


Outra queda mais funda lhe revela
O aço feroz, e o horror de outra ruína:
Rouba-lhe a idade, pérfida e assassina,
Mais do que a vida, o orgulho de ser bela!


Fios de prata... Rugas... O desgosto
Enche-a de sombras, como a sufocá-la
Numa noite que aí vem... E no seu rosto


Uma lágrima trêmula resvala, 
Trêmula, a cintilar, - como, ao sol posto, 
Uma primeira estrela em céu de opala...


O Crepúsculo dos Deuses


Fulge em nuvens, no poente, o Olimpo. O céu delira.
Os deuses rugem. Entre incêndios de ouro e gemas,
Há torrentes de sangue, hecatombes supremas,
Heróis rojando ao chão, troféus ardendo em pira,


Ilíadas, bulcões de gládios e díademas,
Ossa e Pélio tombando, e Zeus em raios de ira,
E Acrópoles em fogo, e Homero erguendo a lira
Em reverberações de batalhas e poemas...


Mas o vento, embocando as bramidoras trompas, 
Clangora. Rolam no ar, de roldão, num tumulto, 
Os numes e os titãs, varridos à rajada:


E ódio, furor, tropel, fastígio, glória, pompas, 
Chamas, o Olimpo, - tudo esbate-se, sepulto 
Em cinza, em crepe, em fumo, em sonho, em noite, em nada.


Microcosmo


Pensando e amando, em turbilhões fecundos
És tudo: oceanos, rios e florestas;
Vidas brotando em solidões funestas;
Primaveras de invernos moribundos;


A Terra; e terras de ouro em céus profundos,
Cheias de raças e cidades, estas
Em luto, aquelas em raiar de festas;
Outras almas vibrando em outros mundos;


E outras formas de línguas e de povos;
E as nebulosas, gêneses imensas,
Fervendo em sementeiras de astros novos;


E todo o cosmos em perpétuas flamas...
- Homem! és o universo, porque pensas,
E, pequenino e fraco, és Deus, porque amas!


Dualismo


Não és bom, nem és mau: és triste e humano...
Vives ansiando, em maldições e preces,
Corno se, a arder, no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.


Pobre, no bem como no mal, padeces;
E, rolando num vórtice vesano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.


Capaz de horrores e de ações sublimes, 
Não ficas das virtudes satisfeito, 
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:


E, no perpétuo ideal que te devora, 
Residem juntamente no teu peito 
Um demônio que ruge e um deus que chora.

Defesa

Cada alma é um mundo à parte em cada peito...
Nem se conhecem, no auge do transporte,
Os jungidos do vínculo mais forte,
Almas e corpos num casal perfeito:


Dormindo no calor do mesmo leito,
Votando os corações à mesma sorte,
Consigo levam à velhice e à morte
Um recato de orgulho e de respeito...


Ficam, por toda a vida, as duas vidas 
Na mais profunda comunhão estranhas, 
No mais completo amor desconhecidas.


E os dois seres, sentindo-se tão perto, 
Até num beijo, são duas montanhas 
Separadas por léguas de deserto.


A um Triste


Outras almas talvez já foram tuas:
Viveste em outros mundos... De maneira
Que em misteriosas dúvidas flutuas,
Vida de vidas múltiplas herdeira!


Servo da gleba, escravo das charruas
Foste, ou soldado errante na sangueira,
Ou mendigo de rojo pelas ruas,
Ou mártir na tortura e na fogueira...


Por isso, arquejas num pavor sem nome, 
Num luto sem razão: velhos gemidos, 
Angústias ancestrais de sede e fome,


Dores grandevas, seculares prantos, 
Desesperos talvez de heróis vencidos, 
Humilhações de vítimas e santos...

Pesadelo


Às vezes, uma vida abominanda
Vives no sono, em que a hórrida matula
Dos íncubos e súcubos te manda
O eco do inferno que referve e ulula.


Um mundo torpe nos teus sonhos anda:
O ódio, a perversidade, a inveja, a gula,
Espíritos da terra, sarabanda
Das grosseiras paixões que a treva açula.


Assim, à noite, no ínvio da floresta, 
No mistério das sombras, entre os pios 
Dos noitibós, o candomblé se apresta:


Batuques de capetas, rodopios 
De curupiras e sacis em festa, 
Em sinistros risinhos e assobios.

A Iara

Vive dentro de mim, como num rio,
Uma linda mulher, esquiva e rara,
Num borbulhar de argênteos flocos, lara
De cabeleira de ouro e corpo frio.


Entre as ninféias a namoro e espio:
E ela, do espelho móbil da onda clara,
Com os verdes olhos úmidos me encara,
E oferece-me o seio alvo e macio.


Precipito-me, no ímpeto de esposo, 
Na desesperação da glória suma, 
Para a estreitar, louco de orgulho e gozo...


Mas nos meus braços a ilusão se esfuma:
E a mãe-d'água, exalando um ai piedoso, 
Desfaz-se em mortas pérolas de espuma.

Ressurreição


Como às vezes, piedoso, o sol se inclina 
Sobre um pântano, e acende-o, e da água ascosa 
No atro fundo, ergue Alhambras de ouro e rosa, 
Catedrais e Krêmlins de prata fina,


- Também, da alta região que nos domina, 
Tu pairas sobre mim, sombra piedosa:
Sinto em mim, como numa nebulosa, 
Mundos novos, ardendo em luz divina...


São torres vivas, cúpulas fulgentes, 
Zimbórios igneos, toda a arquitetura 
Dos sonhos que a ambição do Ideal encerra,


Subindo em largos surtos, em torrentes, 
Galgando o céu, para brilhar na altura 
E desfazer-se em versos sobre a terra...


Benedicite!


Bendito o que, na terra, o fogo fez, e o tecto;
E o que uniu a charrua ao boi paciente e amigo;
E o que encontrou a enxada; e o que, do chão abjeto,
Fez, aos beijos do sol, o ouro brotar do trigo;


E o que o ferro forjou; e o piedoso arquiteto
Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo;
E o que os fios urdiu; e o que achou o alfabeto;
E0 que deu uma esmola ao primeiro mendigo;


E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano;
E o que inventou o canto; e o que criou a lira;
E o que domou o raio; e o que alçou o aeroplano...


Mas bendito, entre os mais, o que, no dó profundo,
Descobriu a Esperança, a divina mentira, 
Dando ao homem o dom de suportar o mundo!

Sperate, Creperi!

Não sei. Duvido e espero. Na ansiedade,
Vago, entre vagas sombras. Se não rezo,
Sonho; e invejo dos crentes a humildade
E o orgulho dos filósofos desprezo.


Como um Jó miserável da verdade
E de receios farto como um Creso,
Adormeço a tristeza que me invade
E engano o coração cansado e leso...


Talvez haja na morte o eterno olvido, 
Talvez seja ilusão na vida tudo.
Ou geme um deus em cada ser ferido...


Não afirmo, não nego. É vão o estudo.
Quero clamar de horror, porque duvido:
Mas, porque espero, - espero, e fico mudo.


Respostas na Sombra


"Sofro... Vejo envasado em desespero e lama
Todo o antigo fulgor, que tive na alma boa;
Abandona-me a glória; a ambição me atraiçoa;
Que fazer, para ser como os felizes?"
- Ama!


"Amei... Mas tive a cruz, os cravos, a coroa
De espinhos, e o desdém que humilha, e o dó que infama;
Calcinou-me a irrisão na destruidora chama; 
Padeço! Que fazer, para ser bom?"
- Perdoa!


"Perdoei... Mas outra vez, sobre o perdão e a prece, 
Tive o opróbrio; e outra vez, sobre a piedade, a injúria; 
Desvairo! Que fazer, para o consolo?"
- Esquece!

"Mas lembro... Em sangue e fel, o coração me escorre:

Ranjo os dentes, remordo os punhos, rujo em fúria... 
Odeio! Que fazer, para a vingança?"

- Morre!


TRILOGIA

I

Prometeu

Filhas verdes do mar, e ó nuvens, num incenso,
Beijai-me! e bendizei o meu sangue e o meu pranto!
Quando sucumbo e sou vencido, - exulto e venço:
A minha queda é glória e o meu rugido é canto!


Sob os grilhões, espero; escravizado, penso;
E, morto, viverei! Domando a carne e o espanto,
Invadindo de estrela a estrela o Olimpo imenso,
Roubei-lhe na escalada o fogo sacrossanto!


Forjando o ferro, arando o chão, prendendo o raio, 
Dei aos homens o ideal que anima, e o pão que [nutre...

Debalde o ódio, e o castigo, e as garras me consomem:


Quando sofro, maior, mais alto, quando caio, 
Sou, entre a terra e o céu, entre o Cáucaso e o abutre,
- Sobre o martírio, o orgulho, e, sobre os deuses, Homem!


II
Hércules


Que vale o orgulho? A dor é, como a vida, eterna; 
Mas a força defende, e a compaixão redime.
Sou, na humana floresta a planta heróica e terna:
Contra a violência um roble, e pura a prece um vime.


Por onde reviveu, silvando, a hidra de Lema,
Fuzilou no meu braço a cólera sublime;
Os monstros persegui de caverna em caverna,
Sufoquei de antro em antro a peste, a infâmia e o crime:

E, ó Homem, libertei-te!... E, enfim, depondo a clava,
Inerme semideus, sonhei, doce fiandeiro, 
De roca e fuso, aos pés de Onfália, num arrulho...


Alma livre no assomo, e na piedade escrava, 
Sou raio e beijo, ardor e alívio, águia e cordeiro,
- A força que liberta, e o amor que vence o orgulho!


III
Jesus


Mas sempre sofrerás neste vale medonho...
Que importa? Redentor e mártir voluntário,
Para a tua miséria um reino imaginário
Invento, glória e paz num futuro risonho.


Para te consolar, no opróbrio do Calvário,
Hóstia e vítima, a carne, o sangue e a alma deponho:
Nasce da minha morte a vida do teu sonho,
E todo o choro humano embebe o meu sudário.


Só liberta a renúncia. Ó triste! a sombra imensa
Dos braços desta cruz espalha sobre o mundo
A utopia celeste, orvalho ao teu suplício.


Sou a misericórdia ilusória da crença:
Sobre a força, a fraqueza; e, sobre o amor fecundo, 
A piedade sem glória e o inútil sacrifício!


Dante no Paraíso


... Enfim, transpondo o Inferno e o Purgatório, Dante 
Chegara à extrema luz, pela mão de Beatriz:
Triste no sumo bem, triste no excelso instante, 
O poeta compreendera o mal de ser feliz.

Saudoso, ao ígneo horror do báratro distante,
Ao vórtice tartáreo o olhar volvendo, quis
Regressar à geena, onde a turba ululante
Nos torvelins raivando arde na chama ultriz:


E fatigou-o a paz do esplendor soberano;
Dos réprobos lembrando a irrevogável sorte,
A estância abominou do perpétuo prazer;


Porque no coração, cheio de amor humano, 
Sentiu que toda a Vida, até depois da morte, 
Só tem uma razão e um gozo só: sofrer!


Beethoven Surdo


Surdo, na universal indiferença, um dia,
Beethoven, levantando um desvairado apelo,
Sentiu a terra e o mar num mudo pesadelo...
E o seu mundo interior cantava e restrugia.


Torvo o gesto, perdido o olhar, hirto o cabelo,
Viu, sobre a orquestração que no seu crânio havia,
Os astros em torpor na imensidade fria,
O ar e os ventos sem voz, a natureza em gelo.


Era o nada, a eversão do caos no cataclismo,
A síncope do som no páramo profundo,
O Silêncio, a algidez, o vácuo, o horror no abismo...


E Beethoven, no seu supremo desconforto,
Velho e podre, caiu, como um deus moribundo, 
Lançando a maldição sobre o universo morto!


Milton Cego


Desvendava-se ao cego o mistério:
(As idades
Sem princípio; de sol a sol, de terra a terra, 
A eterna combustão que maravilha e aterra, 
Geradora de bens e de ferocidades;


Cordilheiras de espanto e esplendor, serra a serra,
De infinito a infinito; asas em tempestades,
Tronos, Dominações, Virtudes, Potestades,
Luz contra luz, furor de chama e glória em guerra;


E os rebeldes, rodando em rugidoras vagas;
E o Éden, e a tentação, e, entre o opróbrio e a alegria,
O amor florindo ao pé da amaldiçoada porta;


E o Homem em susto, o céu em ira, o inferno em pragas;
E, imperturbável, Deus, na sua glória!...)
Ardia
O poema universal numa retina morta.

Miguel Ângelo Velho

"Vieram-lhe o amor e a poesia, no
declínio da vida. Na mocidade, foi
de costumes austeros. Aos cinqüenta
e um anos, conheceu Vittoria Colonna;
escreveu para ela canções, sonetos,
madrigais, exaltação do cérebro, 
temperada de misticismo; ela admirou-
o, mas não o amou. Quando Víttoria
morreu, Buonarrotti beijou a mão do
cadáver, não ousando beijar-lhe a fronte."
(M. MONNIER - La Renaíssance.)


E pensava: - "Perder a chama peregrina, 
Que extrai da pedra um Deus, do barro imundo um Santo;
E este punho, que alçou a cúpula divina

De São Pedro, e amassou "Moisés" de luz e espanto;


E esta alma, que arquiteta os mundos na oficina:
O "Dia", força e graça, e a "Noite", sombra e encanto,
E o "Juízo Final" da Capela Sixtina
E "Judit", flor de sangue, e "Pietà", flor de pranto;



Tudo: tinta, pincel, escopro, camartelo,
Ouro, fama, poder, glória, gênio, virtude,
- Por um milagre só, no amor que me abandona:


Morrer, e renascer ardente, moço, belo, 
E, como o meu "Davi", clarão de juventude, 
Aparecer, sorrindo, a Vittoria Colonna!"

No Tronco de Goa

Camões sofre, na infâmia da clausura,
Pária sem honra, náufrago sem nome;
E rala, na saudade que o consome,
O pobre peito contra a pedra dura.


O seu gênio ilumina a abjeta lura...
Mas a vida das carnes se lhe some:
Míngua de pão, e, outra mais negra fome,
Indigência de beijos e ventura.


Do próprio fel, dos íntimos venenos,
Faz a glória da pátria e a luz da raça;
E chora, na ignomínia. Mas, ao menos,


Possui, na mesquinhez da terra crassa
E na vergonha de homens tão pequenos,
O orgulho de ser grande na desgraça.


EDIPO


I
A Pítia


"Repetiu-me Apolo o vaticínio: que eu
seria o assassino de meu pai; e rei; e
marido de minha mãe, sem a conhecer;
e tronco de uma prole infame!..."
(SÓFOCLES - Édipo Rei.)


Em Delfos. Com pavor, de pé, no ádito escuro,
Édipo escuta... O deus, rugindo de ira e ameaça,
Pela boca da Pítia em êxtase, devassa
O tempo, e o arcano véu destrama do futuro:


"Rolarás do fastígio à ignomínia e à desgraça! 
Rompendo de um mistério o impenetrável muro, 
Num sólio ensangüentado e num tálamo impuro 
Gerarás, parricida, a mais odiosa raça!"


É a Esfinge, a glória, o reino, o assassínio de Laio,
E o amor sinistro... Assim troveja a voz de Apolo
E enche o sacrário... O céu carrega-se de bruma;


Fuzila; estruge o chão; reboa no antro o raio... 
E, enquanto Édipo tomba inânime no solo, 
Sobre a trípode a Pítia, em baba, ulula e escuma.

II
A Esfinge


"Bem-vindo sejas à cidade de Cadmo, 
nosso libertador e nosso rei, que, com
a tua penetração de espírito e o auxílio
divino, levantaste o tributo de sangue
que pagávamos à cruel Esfinge!"

(SÓFOCES - Édipo Rei.)


Perto de Tebas, junto a um monte, sobre o Ismeno, 
Águia e mulher, serpente e abutre, deusa e harpia,
Tapando a estrada, à espera, - aterrava e sorria 
O monstro sedutor, horrível e sereno:

"Devoro-te, ou decifra!" Era fascínio o aceno; 
A voz, morna e sensual, tinha afeto e ironia, 
Graça e repulsa; e a luz dos olhos escorria 
Fluido filtro, estilando um pérfido veneno.


Mas Édipo desvenda o enigma... Ruge em fúria 
O Grifo, e escarva o chão, bate contra o rochedo, 
Rola em vascas, em sangue ardente a areia tinge,


E fita o campeador no uivar da extrema injúria.
E o Herói recua, vendo, entre esperança e medo,
Rancor e compaixão no verde olhar da Esfinge.


III
Jocasta

"Trevas espessas! eterna, horrível noite!
sou dilacerado pelo espinho da dor e
pela memória dos meus crimes!"
(SÓFOCLES - Édipo Rei.)


Édipo vê cumprir-se o oráculo funesto:
Tebas entregue, em luto, à peste que a devasta,
E, sobre o trono em sânie e o leito desonesto,
Morta, infâmia da terra e asco de céu, Jocasta.


Louco, vociferando, erguendo a grita e o gesto
Contra os deuses, mordendo a poeira em que se arrasta,
O mísero, medindo o parricídio e o incesto,
Quer da vista apagar a lembrança nefasta:


Os dois olhos, às mãos, das órbitas arranca 
Em sangue borbotando, em lágrimas fervendo, 
Para o pavor matar na esmagada retina...


Mas, cego embora, - vê Jocasta hedionda, branca, 
Enforcada, a oscilar, como um pêndulo horrendo, 
Compassando, fatal, a maldição divina.

IV
Antígona

"Disse-me também o oráculo que 
morrerei aqui, quando tremer a
terra, quando o trovão rolar, 
quando o espaço brilhar..."
(SÓFOCLES - Édipo em Colona.)


A terra treme. Rola o trovão. Brilha o espaço.
Chega Édipo a Colona, em andrajos, imundo,
Sombra ansiosa a fugir do próprio horror profundo,
Ruína humana a cair de miséria e cansaço.


Mas, quando o ancião vacila, órfão da luz do mundo,
- Antígona lhe estende o coração e o braço,
E, filha e irmã, recolhe ao maternal regaço
O rei sem trono, o pai sem honra, moribundo.


É o ninho (a terra treme...) amparando o carvalho,
A flor sustendo o tronco! Édipo (o espaço brilha...)
Sorri, como um combusto areal bebendo o orvalho.


É o fim (rola o trovão...) da miseranda sorte:
O cego vê, fitando o céu do olhar da filha,
Na cegueira o esplendor, e a redenção na morte.


Madalena

"Maria Madalena, Maria de Tiago, e
Salomé compraram aromas, para irem
embalsamar a Jesus. Mas, olhando, 
viram revolvida a pedra... E Jesus, 
tendo ressurgido, apareceu primei-
ramente a Maria Madalena."
(S. MARCOS cap. XVI.)


Quedaram, frio o sangue, as mulheres chorosas,
Sem cor, sem voz, de espanto e medo. E, de repente,
Caíram-lhes das mãos as ânforas piedosas
De bálsamo odoroso e de óleo recendente.

Enfeitiçou-se o chão de um perfume dormente, 
E o arredor trescalou de essências capitosas, 
Como se a terra toda abrisse o seio, e o ambiente 
Se enchesse de jasmins, de nardos e de rosas.


E Madalena, muda, ao pé da sepultura, 
Tonta da exalação dos cheiros, em delírio, 
Viu que uma forma, no ar, divinamente bela,


Vivo eflúvio, vapor fragrante, alva figura, 
Aroma corporal, pairava...
Como um lírio,
Num sorriso, Jesus fulgia diante dela.

Cleópatra

"Cleopatra diffidava... Fu persuasa che 
il vincitore la destinava al trionfo... 
Ottaviano, corse in gran fretta a salvare
la sua preda, la trovó, sul letto, adorna
della sua piú bella veste di regina,
addormentata per sempre..."

(G. FERRERO - Grandezza e decadenza 
di Roma.)


Não! que importava a queda, e o epílogo do drama:
O trono, o cetro, o povo, o exército, o tesouro,
As províncias, a glória, e as naus, no sorvedouro
De Actium, e Alexandria entregue ao saque e à chama?

Não! que importava o horror da entrada em Roma: a fama
De Otávio, e o seu triunfo, entre a púrpura e o louro,
E a plebe em grita, e o céu cheio das águias de ouro,
E o Egito, e o seu império, e os seus troféus, na lama?


Não! Que importava o amor perdido? Que importava
O naufrágio do orgulho, a vergonha, a tortura
Do ódio do vencedor ou da piedade alheia?


Mas entrar desgrenhada, envelhecida, escrava, 
Rota, sem o arraiar da sua formosura, 
Sol sem fulgor...
Matou-a o medo de ser feia.


A Velhice de Aspásia

Velha, Aspásia, como um clarão, na Academia
E na ágora, surgia e ofuscava as mais belas;
E, sob as cãs, e sob as roupagens singelas,
Aureolada do amor de Péricles, sorria...


Do Helesponto, do Egeu, do Jônio, em romaria, 
Vinham vê-la e admirá-la efebos e donzelas. 
E eles: "Que sol nos teus cabelos brancos!" E elas:
"Brilha mais do que a aurora o final do teu dia!"


Ela e a Acrópole, frente a frente, alvas, serenas, 
Unidas no esplendor, gêmeas na majestade, 
Eram a forma e a idéia, iluminando Atenas.


Aspásia, deusa clara e simples, na moldura
Do céu, nume feliz, perfumava a cidade...
Era uma religião a sua formosura!

A Rainha de Sabá

"O rei Salomão deu à rainha de Sabá o
que ela lhe desejou, e lhe pediu, afora
os presentes que ele mesmo lhe deu
com liberalidade real. A rainha voltou, e 
se foi para o seu reino com os seus servos."
(REIS, L. III, cap. X, 13.)


"Que mais queres? Sião? e, entre os bosques sombrios,
O meu colar de cem cidades deslumbrantes?
O Líbano, pompeando em paços, em mirantes,
Em cedros, em pavões, em corças, em bugios?


O povo de Israel, em tribos formigantes
Do Eufrates ao mar Morto e o Egito? Os meus navios,
As esquadras de Hirão, coalhando o oceano e os rios, 
Atestadas de prata e dentes de elefantes?


O meu leito, ainda olente e morno do teu sono?
O cetro? O gineceu, e a guarda, e as mil mulheres
Como escravas, rojando aos teus pés? O meu trono?


Os vasos do holocausto? O templo de ouro e jade? 
A ara, em sangue e fulgor, ante Jeová?... Que queres?"

.............................................................

- "O teu último beijo... o deserto... e a saudade..."


A Morte de Orfeu


"Em vão as bacantes da Trácia procuram
consolá-lo. Mas Orfeu, fiel ao amor de
Eurídice, encarcerada no Averno, repeliu
o amor de todas as outras mulheres. 
E estas, despeitadas, esquartejaram-no."

Houve gemidos no Ebro e no arvoredo,
Horror nas feras, pranto no rochedo;

E fugiras as Mênadas, de medo, 
Espantadas da própria maldição.

Luz da Grécia, pontífice de Apolo, 
Orfeu, despedaçada a lira ao colo,
A carne rota ensangüentando o solo,
Tombou... E abriu-se em músicas o chão...

A boca ansiosa em nome disse, um grito,
Rolando em beijos pelo nome dito;
"Eurídice", e expirou... Assim Orfeu,

No último canto, no supremo brado,
Pelo ódio das mulheres trucidado,
Chorando o amor de uma mulher, morreu...

Gioconda

Deu-te o grande Leonardo ao sorriso a ironia,
Insídia, e eterno ardil, na luminosa teia:
Tal, a Belerofonte a Quimera sorria,
E a Esfinge de Gizé sorri na adusta areia...


A cilada do amor, o embuste da utopia,
O desejo, que abrasa, e a esperança, que enleia,
Chispam na tua boca impenetrável, fria...
Seduzes, através dos séculos, sereia!


Esse leve clarão no teu lábio, indeciso, 
É a dobrez ancestral, a malícia primeva 
Da Ísis, da pecadora altriz do Paraíso:


Porque, para extrair as gerações da treva, 
A serpe, e a Adão, e a Deus, com o teu mesmo sorriso,
Sorria, astuta e forte, a mãe das raças, Eva.

Natal


No ermo agreste, da noite e do presepe, um hino
De esperança pressaga enchia o céu, com o vento...
As árvores: "Serás o sol e o orvalho!" E o armento:
"Terás a glória!" E o luar: "Vencerás o destino!"


E o pão: "Darás o pão da terra e o pão divino!"
E a água: "Trarás alívio ao mártir e ao sedento!"
E a palha: "Dobrarás a cerviz do opulento!"
E o tecto: "Elevarás do opróbrio o pequenino!"


E os reis: "Rei, no teu reino, entrarás entre palmas!"
E os pastores: "Pastor, chamarás os eleitos!"
E a estrela: "Brilharás, como Deus, sobre as almas!"


Muda e humilde, porém, Maria, como escrava, 
Tinha os olhos na terra em lágrimas desfeitos; 
Sendo pobre, temia; e, sendo mãe, chorava.

Aos Meus Amigos de São Paulo

Se amo, padeço, e sonho, a recompensa
É a melhor que me dais, neste agasalho:
Desta ternura, sobre mim suspensa,
Desce todo o valor do quanto valho.

Não tenho aroma que vos não pertença:
Vêm de vós a doçura e o bem que espalho;
Valemos todos pela nossa crença,
Na comunhão do amor e do trabalho.

Operário modesto, abelha pobre, 
De vós e para vós o mel fabrico, 
E abençôo a colmeia que nos cobre.

Só do labor geral me glorifico:
Por ser da minha terra é que sou nobre, 
Por ser da minha gente é que sou rico.

A um Poeta


Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!


Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.


Não se mostre na fábrica o suplício 
Do mestre. E, natural, o efeito agrade, 
Sem lembrar os andaimes do edifício:


Porque a Beleza, gêmea da Verdade, 
Arte pura, inimiga do artifício,
E a força e a graça na simplicidade.

Vila Rica

O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre;
Sangram, em laivos de ouro, as minas, que ambição
Na torturada entranha abriu da terra nobre:
E cada cicatriz brilha como um brasão.

O ângelus plange ao longe em doloroso dobre,
O último ouro do sol morre na cerração.
E, austero, amortalhando a urbe gloriosa e pobre,
O crepúsculo cai como uma extrema-unção.

Agora, para além do cerro, o céu parece 
Feito de um ouro ancião que o tempo enegreceu... 
A neblina, roçando o chão, cicia, em prece,

Como uma procissão espectral que se move...
Dobra o sino... Soluça um verso de Dirceu...
Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove.

New York


Resplandeces e ris, ardes e tumultuas;
Na escalada do céu, galgando em fúria o espaço,
Sobem do teu tear de praças e de ruas
Atlas de ferro, Anteus de pedra e Brontes de aço.

Gloriosa! Prometeu revive em teu regaço,
Delira no teu gênio, enche as artérias tuas,
E combure-te a entranha arfante de cansaço,
Na incessante criação de assombros em que estuas.

Mas, com as tuas Babéis, debalde o céu recortas, 
E pesas sobre o mar, quando o teu vulto assoma, 
Como a recordação da Tebas de cem portas:


Falta-te o Tempo, - o vago, o religioso aroma 
Que se respira no ar de Lutécia e de Roma, 
Sempre moço perfume ancião de idades mortas...

Último Carnaval

Íncola de Suburra ou de Sibarís, 
Nasceste em saturnal; viveste, estulto, 
Na folia das feiras, no tumulto 
Dos caravançarás e dos bazares;

Morreste, em plena orgia, entre os esgares
Dos arlequins, no delirante culto;
E a saudade terás, depois sepulto,
Herói folião, dos carnavais hílares...

Talvez, quem sabe? a cova, que te esconda, 
Uma noite, entre fogos-fátuos, se abra, 
Como uma boca escancarada em risos:

E saltarás, pinchando, numa ronda
De espectros aos tantãs, dança macabra
De esqueletos e lêmures aos guizos.


Fogo-Fátuo


Cabelos brancos! dai-me, enfim, a calma
A esta tortura de homem e de artista:
Desdém pelo que encerra a minha palma,
E ambição pelo mais que não exista;

Esta febre, que o espírito me encalma
E logo me enregela; esta conquista
De idéias, ao nascer, morrendo na alma,
De mundos, ao raiar, murchando à vista:

Esta melancolia sem remédio, 
Saudade sem razão, louca esperança 
Ardendo em choros e findando em tédio;

Esta ansiedade absurda, esta corrida 
Para fugir o que o meu sonho alcança, 
Para querer o que não há na vida!


Inocência


Como, em vez de uma paz desiludida,
Posso eu ter, nesta idade, esta confiança,
Que me leva a correr a toda brida
Na pista de uma sombra de esperança?


Esta velhice ingênua me intimida:
Tanto ardor, tanta fé, que me não cansa,
E, em mais de meio século de vida,
Tanta credulidade de criança!

Rio, inocente, ao sol, como uma rosa;
Ainda arquiteto mundos sobre a areia;
Anoiteço em miragem luminosa.

E ainda imagino a minha taça cheia,
E emborco-a: "Oh! Vida!..."; e quero-a, e acho-a formosa,
Como se não soubesse quanto é feia!


Remorso


Às vezes, uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando,
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah! mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto o que esperdicei na juventude; 
Choro, neste começo de velhice, 
Mártir da hipocrisia ou da virtude,

Os beijos que não tive por tolice, 
Por timidez o que sofrer não pude, 
E por pudor os versos que não disse!


Milagre


Depois de tantos anos, frente a frente,
Um encontro... O fantasma do meu sonho!
E, de cabelos brancos, mudamente,
Quedamos frios, num olhar tristonho.

Velhos!... Mas, quando, ansioso, de repente,
Nas suas mãos as minhas palmas ponho,
Ressurge a nossa primavera ardente,
Na terra em bênçãos, sob um sol risonho:

Felizes, num prestígio, estremecemos;
Deliramos, na luz que nos invade
Dos redivivos êxtases supremos;

E fulgimos, volvendo à mocidade, 
Aureolados dos beijos que tivemos, 
No divino milagre da saudade.

A Cilada

O perfume, o silêncio, a sombra... Os ninhos
Emudecem... E temos, sonhadores,
A humildade das ervas nos caminhos
E uma inocência de anjos entre as flores.

Mas há na tarde morna ignotos vinhos,
Secretos filtros, pérfidos vapores,
Amavios, feitiços e carinhos
Moles, quebrados e perturbadores...

E, de repente, o incêndio dos sentidos:
As mãos frias tateando na ansiedade, 
As bocas que se buscam num queixume,

E o corpo, o sangue, o espírito perdidos,
E a febre, e os beijos... e a cumplicidade
Da sombra, do silêncio, do perfume...


Perfeição


Nunca entrarei jamais o teu recinto:
Na sedução e no fulgor que exalas,
Ficas vedada, num radiante cinto
De riquezas, de gozos e de galas.

Amo-te, cobiçando-te... - E, faminto,
Adivinho o esplendor das tuas salas,
E todo o aroma dos teus parques sinto,
E ouço a música e o sonho em que te embalas.

Eternamente ao meu olhar pompeias, 
E olho-te em vão, maravilhosa e bela, 
Adarvada de altíssimas ameias.

E à noite, à luz dos astros, a horas mortas, 
Rondo-te, e arquejo, e choro, ó cidadela! 
Como um bárbaro uivando às tuas portas!


Messídoro


Por que chorar? Exulta, satisfeita!
És, quando a mocidade te abandona,
Mais que bela mulher, mulher perfeita,
Do completo fulgor senhora e dona.

As derradeiras messes aproveita,
E goza! A antevelhice é uma Pomona,
Que, se esmerando na final colheita
Dos frutos áureos, a paixão sazona.

Ama! e frui o delírio, a febre, o ciúme, 
E todo o amor! E morre como um dia 
Em fogo, como um dia que resume

Toda a vida, em anseios, em poesia, 
Em glória, em luz, em música, em perfume, 
Em beijos, numa esplêndida agonia!


Samaritana


Numa volta de estrada, em sede insana,
Vi-te. Ao lado, a frescura da cisterna.
E tinhas a expressão piedosa e terna,
Como na Bíblia, da Samaritana.

Deste-me de beber. Mas quanto engana,
Às vezes, a piedade, e a esmola inferna!
Deste-me de beber da fonte eterna,
De onde a torrente dos remorsos mana.

Com a água que me deste (que contraste
De ti para a mulher de Samaria!)
A boca e o coração me envenenaste:

Maior do que o da sede, este tormento, 
Esta ânsia singular, esta agonia 
Que é de saudade e de arrependimento!


Um Beijo


Foste o beijo melhor da minha vida,
Ou talvez o pior... Glória e tormento,
Contigo à luz subi do firmamento,
Contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
Queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
E do teu gosto amargo me alimento,
E rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo, 
Batismo e extrema-unção, naquele instante 
Por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-te o ardor, e o crepitar te escuto, 
Beijo divino! e anseio, delirante, 
Na perpétua saudade de um minuto...


Criação


Há no amor um momento de grandeza,
Que é de inconsciência e de êxtase bendito:
Os dois corpos são toda a Natureza,
As duas almas são todo o Infinito.

É um mistério de força e de surpresa!
Estala o coração da terra, aflito;
Rasga-se em luz fecunda a esfera acesa,
E de todos os astros rompe um grito.

Deus transmite o seu hálito aos amantes:
Cada beijo é a sanção dos Sete Dias, 
E a Gênese fulgura em cada abraço;

Porque, entre as duas bocas soluçantes, 
Rola todo o Universo, em harmonias 
E em glorificações, enchendo o espaço!


Maternidade

"O Senhor disse à mulher: Por que
fizeste isto? Eu multiplicarei os
teus trabalhos!"
(Gen., cap. III.)


Ventre mártir, a rútila visita
Do amor fecundo te arrancou do sono:
E irradias, lampejas como um trono
De animado marfim que à luz palpita!

Ergues-te, em esto de orgulhoso entono:
Fere-te enfim a maldição bendita!
Tens o viço da Terra, quando a agita,
Rico de orvalhos e de sóis, o outono.

Augusto, em gozo eterno, o teu suplício... 
Feliz a tua dor propiciatória...
- Rasga-te, altar do torturante auspício,


E abra-se em flores tua alvura ebórea, 
Ensangüentada pelo sacrifício, 
Para a maternidade e para a glória!

Os Amores da Aranha

Com o veludo do ventre a palpitar hirsuto
E os oito olhos de brasa ardendo em febre estranha,
Vede-a: chega ao portal do intrincado reduto,
E na glória nupcial do sol se aquece e banha.

Moscas! podeis revoar, sem medo à sua sanha:
Mole e tonta de amor, pendente o palpo astuto,
E recolhido o anzol da mandíbula, a aranha
Ansiosa espera e atrai o amante de um minuto...

E ei-lo corre, ei-lo acode à festa e à morte! Um hino
Curto e louco, um momento, abala e inflama o fausto
Do aranhol de ouro e seda... E o aguilhão assassino

Da esposa satisfeita abate o noivo exausto, 
Que cai, sentindo a um tempo, - invejável destino! 
A tortura do espasmo e o gozo do holocausto.


Os Amores da Abelha

Quando, em prônubo anseio, a abelha as asas solta
E escala o espaço, - ardendo, êxul do corcho céreo,
Louca, se precipita a sussurrante escolta
Dos noivos zonzos, voando ao nupcial mistério.

Em breve, sucumbindo, o enxame arqueja, e volta...
Mas o mais forte, um só, senhor do excelso império,
Segue a esquiva, e, em zunzum zeloso de revolta,
Entoa o epitalâmio e o cântico funéreo:

Toca-a, fecunda-a, e vence, e morre na vitória... 
A esposa, livre, ao sol, no alto do firmamento, 
Palra, e, rainha e mie, zumbe de orgulho e glória;

E, rodopiando, inerte, o suicida sublime, 
Entre as bênçãos da luz e os hosanas do vento, 
Rola, mártir feliz do delicioso crime.


Semper Impendent...


Se amas, se da velhice entras a porta escura,
Maldize o teu amor, que é um triste adeus à vida!
Porque no teu amor de velho se mistura
Ao enlevo de um noivo a angústia de um suicida.

Louco! vês entreabrir-se a cova, na doçura
Do aconchego nupcial que ao gozo te convida;
E, na incerteza atroz da carícia futura,
Cada afago te dói como uma despedida.

Sofres um estertor em cada abraço, um grito
Em cada beijo, em cada anseio uma saudade:
É um rolar, um ferver num inferno infinito!

No desesperador prazer do teu transporte, 
Sentes a crispação da treva que te invade, 
O doloroso amargo ante-sabor da morte...


O Oitavo Pecado


Vivendo para a morte, alegre da tristeza,
Temendo o fogo eterno e a danação sulfúrea,
Gelaste no cilício, em ascética fúria,
A alma ridente, o sangue em esto, a carne acesa.

Foste mártir e herói da própria natureza.
Intacto de ambição, de desejo ou de injúria,
Para ganhar o céu, venceste a ira, a luxúria,
A gula, a inveja, o orgulho, a preguiça e a avareza.

Mas não amaste! E, além do Inferno, um outro existe, 
Onde é mais alto o choro e o horror dos renegados:
Ali, penando, tu, que o amor nunca sentiste,

Pagarás sem amor os dias dissipados! 
Esqueceste o pecado oitavo: e era o mais triste, 
Mortal, entre os mortais, de todos os pecados!


Salutaris Porta


Para conter aquela imensa chama,
Os nossos corações eram pequenos:
Tivemos medo da paixão... E ao menos
Não vimos tanto céu mudado em lama!

O velário correu-se antes do drama.
E não houve perfídias nem venenos
Entre os nossos espíritos serenos,
Que a saudade do prólogo embalsama.

Bendigamos o amor que foi tão curto, 
O sonho vago que expirou tão cedo, 
Sossobrado no porto antes do surto!

Feliz o idílio que não teve história!
Salvando-nos do tédio, o nosso medo
Foi uma porta de ouro para a glória!


Assombração


Conheço um coração, tapera escura,
Casa assombrada, onde andam penitentes
Sombras e ecos de amor, e em que perdura
A saudade, presença dos ausentes.


Evadidos da paz da sepultura,
Num tatalar de tíbias e de dentes,
Revivem os fantasmas da ternura,
Arrastando sudários e correntes.

Rangem os gonzos no bater das portas, 
E os corredores enchem-se de prantos... 
Um mundo de avejões do chão se eleva,

Ressuscitado pelas horas mortas:
Frios abraços gemem pelos cantos, 
Beijos defuntos fogem pela treva.


Palmeira Imperial


Mostras na glória um coração mesquinho...
Numa beleza esplêndida, que aterra,
Passas desencadeando um ar de guerra,
Sem deixar um perfume no caminho.

Como a palmeira, não susténs um ninho! 
Não és filha, mas hóspeda da Terra; 
Subjugando a planície, na alta serra,
- Cruel às aves, seca de carinho.

Ha no deslumbramento do teu porte
Tédio, orgulho, desdém: talvez saudade
De outra vida, ambição talvez da morte...

Como a palmeira, tens a majestade,
E dela tens a desgraçada sorte:
A avareza da sombra e da piedade.


Diamante Negro


Vi-te uma vez, e estremeci de medo...
Havia susto no ar, quando passavas:
Vida morta enterrada num segredo,
Letárgico vulcão de ignotas lavas.

Ias como quem vai para um degredo,
De invisíveis grilhões as mãos escravas,
A marcha dúbia, o olhar turvado e quedo
No roxo abismo das olheiras cavas...

Aonde ias? aonde vais? Foge o teu vulto; 
Mas fica o assombro do teu passo errante, 
E fica o sopro desse inferno oculto,

O horrível fogo que contigo levas, 
Incompreendido mal, negro diamante, 
Sol sinistro e abafado ardendo em trevas.


Palavras


As palavras do amor expiram como os versos,
Com que adoço a amargura e embalo o pensamento:
Vagos clarões, vapor de perfumes dispersos,
Vidas que não têm vida, existências que invento;

Esplendor cedo morto, ânsia breve, universos 
De pó, que um sopro espalha ao torvelim do vento, 
Raios de sol, no oceano entre as águas imersos,
- As palavras da fé vivem num só momento...

Mas as palavras más, as do ódio e do despeito,
O "não!" que desengana, o "nunca!" que alucina,
E as do aleive, em baldões, e as da mofa, em risadas,

Abrasam-nos o ouvido e entram-nos pelo peito:
Ficam no coração, numa inércia assassina, 
Imóveis e imortais, como pedras geladas.


Marcha Fúnebre

"Thamuz, Thamuz, panmegas tethneke!...


Como se ouviu no Epiro, outrora, o extremo grito
"Pã morreu!", - na amplidão reboe o meu lamento:
Torpe a ambição, perdido o amor, inane o alento, 
Nestas baixas paixões de um século maldito!

Rolem trenos no oceano e elegias no vento!
Concentrai-vos na dor do funerário rito,
O asas e ilusões num miserere aflito,
E, ó flores num responso, e, ó sonhos num memento!

Bocas, bradando ao céu de minuto em minuto, 
Olhos, velando a terra em sudários de pranto, 
Corações, num rufar de tambores em luto,

Guaiai, carpi, gemei! e ecoai de porto a porto, 
De mar a mar, de mundo a mundo, a queixa e o espanto:
O grande Pá morreu de novo! O Ideal é morto!


O Tear


A fieira zumbe, o piso estala, chia
O liço, range o estambre na cadeia;
A máquina dos Tempos, dia a dia,
Na música monótona vozeia.

Sem pressa, sem pesar, sem alegria,
Sem alma, o Tecelão, que cabeceia,
Carda, retorce, estira, asseda, fia,
Doba e entrelaça, na infindável teia.

Treva e luz, ódio e amor, beijo e queixume, 
Consolação e raiva, gelo e chama 
Combinam-se e consomem-se no urdume.

Sem princípio e sem fim, eternamente
Passa e repassa a aborrecida trama
Nas mãos do Tecelão indiferente...

O Cometa


Um cometa passava... Em luz, na penedia,
Na erva, no inseto, em tudo uma alma rebrilhava;
Entregava-se ao sol a terra, como escrava:
Ferviam sangue e seiva. E o cometa fugia...

Assolavam a terra o terremoto, a lava,
A água, o ciclone, a guerra, a fome, a epidemia;
Mas renascia o amor, o orgulho revivia,
Passavam religiões... E o cometa passava,

E fugia, riçando a ígnea cauda flava.
Fenecia uma raça; a solidão bravia
Povoava-se outra vez. E o cometa voltava...

Escoava-se o tropel das eras, dia a dia:
E tudo, desde a pedra ao homem, proclamava
A sua eternidade! E o cometa sorria...


Diálogo


O mancebo perfeito e o velho humilde e rude
Viram-se. E disse ao velho o mancebo perfeito:
"Glória a mim! sorvo o céu num hausto do meu peito!"
E o velho: "Engana o céu... Tudo na terra ilude..."

"Rebentam roseirais do chão em que me deito!" 
"A alma da noite embala a minha senectude..." 
"Quando acordo, há um clarão de graça e de saúde!" 
"Pudesse ser perpétua a calma do meu leito!"

"Quero vibrar, agir, vencer a Natureza, 
Viver a Vida!" "A Vida é um capricho do vento..." 
"Vivo, e posso!" "O poder é uma ilusão da sorte..."

"Herói e deus, serei a beleza!" "A beleza 
É a paz!" "Serei a força!" "A força é o esquecimento..."
"Serei a perfeição!" "A perfeição é a morte!"


Avatara


Numa vida anterior, fui um cheik macilento
E pobre... Eu galopava, o albornoz solto ao vento,
Na soalheira candente; e, herói de vida obscura,
Possuía tudo: o espaço, um cavalo, e a bravura.

Entre o deserto hostil e o ingrato firmamento,
Sem abrigo, sem paz no coração violento,
Eu namorava, em minha altiva desventura,
As areias na terra e as estrelas na altura.

Às vezes, triste e só, cheio do meu desgosto, 
Eu castigava a mão contra o meu próprio rosto, 
E contra a minha sombra erguia a lança em riste...

Mas o simum do orgulho enfunava o meu peito:
E eu galopava, livre, e voava, satisfeito
Da força de ser só, da glória de ser triste!


Abstração


Há no espaço milhões de estrelas carinhosas,
Ao alcance do teu olhar... Mas conjeturas
Aquelas que não vês, ígneas e ignotas rosas,
Viçando na mais longe altura das alturas.

Há na terra milhões de mulheres formosas,
Ao alcance do teu desejo... Mas procuras
As que não vivem, sonho e afeto que não gozas
Nem gozarás, visões passadas ou futuras.

Assim, numa abstração de números e imagens, 
Vives. Olhas com tédio o planeta ermo e triste, 
E achas deserta e escura a abóbada celeste.

E morrerás, sozinho, entre duas miragens:
As estrelas sem nome - a luz que nunca viste,
E as mulheres sem corpo - o amor que não tiveste!


Cantilena

Quando as estrelas surgem na tarde, surge a [esperança...
Toda alma triste no seu desgosto sonha um Messias:
Quem sabe? o acaso, na sorte esquiva, traz: a mudança
E enche de mundos as existências que eram vazias!

Quando as estrelas brilham mais vivas, brilha a esperança...
Os olhos fulgem; loucas, ensaiam as asas frias:
Tantos amores há pela terra, que a mão alcança! 
E há tantos astros, com outras vidas, para outros dias!

Mas, de asas fracas, baixando os olhos, o sonho cansa;
No céu e na alma, cerram-se as brumas, gelam as luzes:
Quando as estrelas tremem de frio, treme a esperança...

Tempo, o delírio da mocidade não reproduzes!
Dorme o passado: quantas saudades, e quantas cruzes!
Quando as estrelas morrem na aurora, morre a esperança...


Sonho


Ter nascido homem outro, em outros dias,
- Não hoje, nesta agitação sem glória, 
Em traficâncias e mesquinharias, 
Numa apagada vida merencória...


Ter nascido numa era de utopias,
Nos áureos ciclos épicos da História,
Ardendo em generosas fantasias,
Em rajadas de amor e de vitória:

Campeão e trovador da Idade Média, 
Herói no galanteio e na cruzada, 
Viver entre um idílio e uma tragédia;

E morrer em sorrisos e lampejos, 
Por um gesto, um olhar, um sonho, um nada, 
Traspassado de golpes e de beijos!

Ruth


Pede pouco! Mais tem do que um monarca
O pobre, tendo o pouco que pedia:
E é rico, achando, ao terminar do dia,
Paz no espírito e pão no fundo da arca,

Triste, ó alma, a ambição que o mundo abarca!
Perde tudo quem quer a demasia.
Poupa o riso e o prazer! porque a alegria
Tanto é mais doce quanto mais é parca.

Feliz, modesto coração, te dizes, 
Quando vais, como Ruth, em muda prece, 
Empós dos segadores mais felizes:

Feliz é o simples, que, feliz, procura 
Uma espiga apanhar da alheia messe, 
Um resto miserável da ventura.


Abisag


Cedes a um velho inválido e insensato,
(Mais insensato do que tu!) sorrindo,
A graça e o viço do teu corpo lindo,
A tua formosura e o teu recato...

Em breve, louca! o teu delírio findo,
Compreenderás o horror deste contrato:
Ter dado aroma a quem não tem olfato,
Pedir amparo ao que já está caindo.

Ele, um dia, amargando a sua glória, 
Chorando o seu império e o teu degredo, 
O teu remorso e o seu pavor covarde,

Morrerá de vergonha na vitória:
Triste ilusão, que te acordou tão cedo!
Fortuna triste, que o escolheu tão tarde!


Estuário


Viverei! Nos meus dias descontentes,
Não sofro só por mim... Sofro, a sangrar,
Todo o infinito universal pesar,
A tristeza das cousas e dos entes.

Alheios prantos, em cachões ardentes, 
Vêm ao meu coração e ao meu olhar:
- Tal, num estuário imenso, acolhe o mar 
Todas as águas vivas das vertentes.

Morre o infeliz, que unicamente encerra
A própria dor, estrangulada em si...
Mas vive a Vida que em meus versos erra;

Vive o consolo que deixei aqui;
Vive a piedade que espalhei na terra...
Assim, não morrerei, porque sofri!

Consolação


Penso às vezes nos sonhos, nos amores,
Que inflamei à distância pelo espaço;
Penso nas ilusões do meu regaço
Levadas pelo vento a alheias dores...

Penso na multidão dos sofredores,
Que uma bênção tiveram do meu braço:
Talvez algum repouso ao seu cansaço,
Talvez ao seu deserto algumas flores...

Penso nas amizades sem raízes, 
Nos afetos anônimos, dispersos, 
Que tenho sob os céus de outros países...

Penso neste milagre dos meus versos:
Um pouco de modéstia aos mais felizes, 
Um pouco de bondade aos mais perversos...


Penetralia


Falei tanto de amor!... de galanteio, 
Vaidade e brinco, passatempo e graça,
Ou desejo fugaz, que brilha e passa 
No relâmpago breve com que veio...

O verdadeiro amor, honra ou desgraça,
Gozo ou suplício, no íntimo fechei-o:
Nunca o entreguei ao publico recreio,
Nunca o expus indiscreto ao sol da praça.

Não proclamei os nomes, que, baixinho, 
Rezava... E ainda hoje, tímido, mergulho 
Em funda sombra o meu melhor carinho.

Quando amo, amo e deliro sem barulho;
E, quando sofro, calo-me, e definho
Na ventura infeliz do meu orgulho.


Prece


Durma, de tuas mãos nas palmas sacrossantas,
O meu remorso. Velho e pobre, como Jó,
Perdendo-te, a melhor de tantas posses, tantas,
Malsinado de Deus, perdi... Tu foste a só!

Ao céu, por teu perdão, a minha alma, que encantas,
Suba, como por uma escada de Jacó.
Perdi-te... E eras a graça, alta entre as altas santas,
A sombra, a força, o aroma, a luz... Tu foste a só!

Tu foste a só!... Não valho a poeira que levantas, 
Quando passas. Não valho a esmola do teu dó!
- Mas deixa-me chorar, beijando as tuas plantas,

Mas deixa-me clamar, humilhado no pó:
Tu, que em misericórdia as Madonas suplantas, 
Acolhe a contrição do mau... Tu foste a só!


Oração a Cibele


Deitado sobre a terra, em cruz, levanto o rosto
Ao céu e às tuas mãos ferozes e esmoleres.
Mata-me! Abençoarei teu coração, composto,
Ó mãe, dos corações de todas as mulheres!

Tu, que me dás amor e dor, gosto e desgosto,
Glória e vergonha, tu, que me afagas e feres,
Aniquila-me! E doura e embala o meu sol posto,
Fonte! berço! mistério! Ísis! Pandora! Ceres!

Que eu morra assim feliz, tudo de ti querendo:
Mal e bem, desespero e ideal, veneno e pomo, 
Pecados e perdões, beijos puros e impuros!

E os astros sobre mim caiam de ti, chovendo,
Como os teus crimes, como as tuas bênçãos, como
A doçura e o travor de teus cachos maduros!


Eutanásia


Antes que o meu espírito no espaço
Fuja em suspiro etéreo e vago fumo,
Em versos e esperanças me consumo,
E espalho sonhos pelo bem que faço.

Até no instante em que seguir o rumo
Para o sono final do teu regaço,
Ó terra, sorverei, no extremo passo,
Da vida em febre o capitoso sumo.

Seja a minha agonia uma centelha 
De glória! E a morte, no meu grande dia, 
Pairando sobre mim, como uma abelha,

Sugue o meu grito de última alegria, 
O meu beijo supremo, - flor vermelha 
Embalsamando a minha boca fria!

Introibo!


Sinto às vezes, à noite, o invisível cortejo
De outras vidas, num caos de clarões e gemidos:
Vago tropel, voejar confuso, hálito e beijo
De cousas sem figura e seres escondidos...

Miserável, percebo, em tortura e desejo,
Um perfume, um sabor, um tacto incompreendidos,
E vozes que não ouço, e cores que não vejo,
Um mundo superior aos meus cinco sentidos.

Ardo, aspiro, por ver, por saber, longe, acima, 
Fora de mim, além da dúvida e do espanto! 
E na sideração, que, um dia, me redima,

Liberto flutuarei, feliz, no seio etéreo, 
E, ó Morte, rolarei no teu piedoso manto, 
Para o deslumbramento augusto do mistério!


Vulnerant Omnes, Ultima Necat


Rio perpétuo e surdo, as serras esboroas,
Serras e almas, ó Tempo! e, em mudas cataratas,
As tuas horas vão mordendo, aluindo, à toa...
Todas ferem, passando: e a derradeira mata.

Mas a vida é um favor! De crepe, ou de ouro e prata,
Da injúria ou do perdão, do opróbrio ou da coroa,
Todas as horas, para o martírio, são gratas!
Todas, para a esperança e para a fé, são boas!

Primeira, que, em meu ninho, os primeiros arrulhos 
Me deste, e a minha Mãe deste um grito e um orgulho, 
Bendita! E todas vós, benditas, na ânsia triste

Ou no clamor triunfal, que todas me feristes!
E bendita, que sobre a minha cova aberta
Pairas, última, ó tu que matas e libertas!

Frutidoro

Fruto, depois de ser semente humilde e flor,
Na alta árvore nutriz da Vida amadureço.
Gozei, sofri, - vivi! Tenho no mesmo apreço
O que o gozo me deu e o que me deu a dor.

Venha o inverno, depois do outono benfeitor!
Feliz porque nasci, feliz porque envelheço,
Hei de ter no meu fim a glória do começo:
Não me verão chorar no dia em que me for.

Não me amedrontas, Morte! o teu apelo escuto, 
Conto sem mágoa os sóis que me acercam de ti, 
E sem tremer à porta ouço o teu passo astuto.

Leva-me! Após a luta, o sono me sorri:
Cairei, beijando o galho em que fui flor e fruto, 
Bendizendo a sazão em que amadureci!

Os Sinos


Plangei, sinos! A terra ao nosso amor não basta...
Cansados de ânsias vis e de ambições ferozes,
Ardemos numa louca aspiração mais casta,
Para trasmigrações, para metempsicoses!

Cantai, sinos! Daqui por onde o horror se arrasta,
Campas de rebeliões, bronzes de apoteoses,
Badalai, bimbalhai, tocai à esfera vasta!
Levai os nossos ais rolando em vossas vozes!

Em repiques de febre, em dobres a finados, 
Em rebates de angústia, ó carrilhões, dos cimos 
Tangei! Torres da fé, vibrai os nossos brados!

Dizei, sinos da terra, em clamores supremos, 
Toda a nossa tortura aos astros de onde vimos, 
Toda a nossa esperança aos astros aonde iremos!


Sinfonia


Meu coração, na incerta adolescência, outrora,
Delirava e sorria aos raios matutinos,
Num prelúdio incolor, como o alegro da aurora,
Em sistros e clarins, em pífanos e sinos.

Meu coração, depois, pela estrada sonora
Colhia a cada passo os amores e os hinos,
E ia de beijo a beijo, em lasciva demora,
Num voluptuoso adágio em harpas e violinos.

Hoje, meu coração, num scherzo de ânsias, arde 
Em flautas e oboés, na inquietação da tarde, 
E entre esperanças foge e entre saudades erra...

E, heróico, estalará num final, nos clamores 
Dos arcos, dos metais, das cordas, dos tambores, 
Para glorificar tudo que amou na terra!