quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

ANTOLOGIA DE ÁLVARO MAIA






ÁLVARO MAIA COM SUA MÃE













ÁLVARO MAIA (1893-1969)


(Foto de 1939)


LEIA TAMBÉM PAULA MIRANA DE SOUSA RAMOS aqui





SOBRE AS ÁGUAS BARRENTAS


Sob o sol fugitivo, a tarde prisoneira
abre à invasão da noite as aguas do Madeira...
Calor de Agosto. 0 vento encrespa o sorvedouro,
que embala ao vento langue as lentas ondas de ouro...
- Rema, canoeiro amigo! A noite se avizinha.
Não risca o espaçO escuro uma asa de andorinha...
Deixa o barco fugir à flor da correnteza,
e apresta as férreas mãos com vigor e presteza ...



SUMAUMEIRA


Venho adorar-te à sombra da folhagem,
olhando o nascente, ao vento ondeando a fronde ...
E soltas o farfalho, que responde
à voz das cousas, num bramir selvagem ...
Teu verde-branco, verde-azul, aonde
a passarada canta em vassalagem,
vem procurar ventura na estiagem,
que doura as copas e a fartura esconde.
Ó samaumeira patrícia! Infiltra-me na fronte,
quando o corpo volver ao transformismo,
as riquezas do ar, as bênçãos do horizonte.
Leva minha alma ao céu, que o bem resume,
e espalha-me, em piedoso romantismo,
na luz, no pendão e no perfume ...





SERINGUEIRA


Ó gérmen do celeiro, ó bendita semente,
que trazes no tecido o vigor destas zonas,
brota, deslumbra, mostra o delírio fremente
das florestas, dos céus, dos rios do Amazonas.
Quantas bênçãos de luz nao te brilham nas franças,
que harmonizam de dia o rincão que adoramos...
Resplende em tua fronde um fanal de esperanças,
solta hosanas a noite o oboé dos teus ramos...
Rainha poderosa imperando na mata,
com tua ardente seiva o terreno enriqueces...
E, às carícias do sol e aos luares de prata,
esbanjas a bondade, entreabrindo-te em preces ...
És a imagem ideal do crescer formidando,
do holocausto divino em favor de quem chore...
Dão-te golpes na casca e, em resposta, cantando,
dás teu leite e teu pão, que são gotas da aurora...
Sacodes tua copa aos clamores do vento,
ofereces ao solo o teu pólen fecundo...
Sorves pela raiz o abençoado alimento
para dar alimento aos que vivem no mundo...
Ó florestas, ó céus, ó rios do Amazonas,
estacai um momento e, em delirio fremente,
levantai orações ao porvir destas zonas,
ao galho, à folha, à flor, ao perfume, a semente ...





PÊNDULO QUEBRADO


O implacavel cronometro da vida,
nos mecânicos giros errabundos,
ao bater os minutos e os segundos,
vai ficando com a órbita partida.
Enquanto corre o pêndulo, na lida
de revolver as eras nos seus fundos,
surgem do nada gêneses de mundos
e ao nada volta o que nao tem saida.
Corpo, frágil ponteiro da existencia,
coração, que alimentas e transformas,
perdestes o claror da adolescencia...
Mas, nas lutuosas noites merencórias,
haveis de reviver por novas formas
para a ressurreição de novas glórias.




EMPAREDADO

- "A terra é um canto eliseo... O céu é um grande centro
de aura e fogo a fulgir, - sentinelas da aurora...
Mas, apoiado à dor, noiva que estua e chora,
a cela da saudade, entre soluços, entro...
A duvida acompanha o elo em que me concentro,
ergue interrogações... E, nos prantos que irrora,
mostra o contentamento a explodir por fora
e um rude desespero a vibrar aqui dentro...
Estudo as sensações de toda fronte jovem,
sondo meu coração, rubro céu sem caminho.
E fujo, na agonia em que me desespero
E no encanto triunfal das forças que me movem,
a ansia de desejar tudo quanto adivinho
e à furio de viver em ideais que não quero..."





FANTASMAS


- " Fantásticas visões, virgens de olhos ardentes,
que passaram sorrindo em meu longo caminho,
constróem beijos de mel, ressoantes de carinho,
em colmeias que são tremendas urnas quentes...
Amei-as furioso, como a árvore o torvelinho...
Agitei-as com raiva em meus braços potentes,
desprezando-as após sem fo1has viridentes,
sem torneios de vento e sem canções de ninho...
Clamei, mas era tarde... Às minhas rudes vozes,
responderam da treva em clamores de fera
rugidos de revolta e protestos ferozes...
Só tu me apareceste, ó Imagem soberanal
ó triste Solidão doce noiva sincera,
e sincera talvez porque não és humana!"


%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%


[...]
Rias ao vento... Mais um dia,
Cahiste negua e, agreste avena,
Vinhas sem luz, vinhas tão fria,
Vinhas tão só de causar pena...
O seringueiro que remava,
Semeando espumas pelo rio,
o seringueiro, que passava,
erguendo os remos te acudiu.
Hoje, em seu lábio agradecida,
Agitas no ar sonoras azas,
E, pela voz, levas a vida
Aos entes bons, que estão nas casas...
Levas o som de cornamusa,
Quando o luar jorra e o rio é branco,
Á que o namora, alva e confusa,
Das ingaseiras do barranco...
A noiva ideal quase desmaia,
Quando percebe as tuas notas,
Lembrando beijos sobre a praia
E gritos longos de gaivotas...
Bambu perdido nos relentos,
Narciso immoto á beira d’agua,
Bebeste a rir todos os ventos,
Toda a verdura estuando em magua...
Agora tens, nesses descantes
em que a saudade vive accesa,
a dor das mattas soluçantes,
as grandes forças da tristeza...
Clarim das selvas, em teu canto
Rola o rumor das outras éras,
-anceios mortos num quebranto,
Clamores de índios e de feras...

%%%%%%%%%%%%%%%%%%%


Quando, alva e loura vital me dava,
minha Mãe, entre a selva e o céu nevoento,
também me dava o trom do oceano ao vento,
das galeras valsando na onda em lava...
Mas minha vida em fumo se apagava:
Germinara e cahira em soffrimento...
E tive a salvação, tive o tormento
nos seios de Narcisa, uma índia brava...
Dessas correntes em meu sangue, sinto
Galeões em rota por um mundo extincto,
Tribus em lucta pela mesma terra,
E, ora em doçuras, ora em rebeldias
Labios christãos ciciando Ave-Marias,
Rudes almas pagãs medindo a guerra...



%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%


Cabelos negros como nunca vi!
Mágico poema de fatais anelos
Há nessas tranças, como nunca li!
Cabelos crespos, revoltoso oceano,
Cabelos negros como a tempestade!
Cabelos castos de infinito arcano,
Que me consolam nesta soledade!
Cabelos magos que me seduzem tanto,
Cabelos negros que beijar quisera,
Cabelos plenos de magia e encanto
Cabelos lindos como a primavera!
Formosos laços de sonhado enleio,
Cabelos negros da mulher que eu amo,
- vagas olentes sobre um puro seio,
Por elas morro e, suspirando, chamo!








ÁRVORE FERIDA



Ante a constelação do céu florindo em lume
temos, ó árvore, o mesmo ideal e a mesma sina. . .
Sangrou-me o peito inerme a sensação divina,
como a acha te sangrou em golpe de negrume.
Dando esmola ao faminto e consôlo à ruina,
subimos em bondade, ardemos em perfume. . .
Bendita a dor criadora, o perfurante gume,
que em mim produz o verso e em ti produz resina. .
Ninguém virá curar-te! Apenas os ramalhos
ensinarão à flor a música dos galhos
e ensinarão ao galho as lutas das raizes.
Ninguém virá curar-me! Os meus versos apenas
serão o bálsamo esfeito em minhas próprias penas,
sob a ronda de dor dos dramas infelizes.

(BUZINA DOS PARANAS, 1958)






Buzina do Mato





Clarim das selvas, em teu canto
rola o rumor das outras eras,
anseios mortos num quebranto,
clamores de índios e de feras...

Quantos idílios não despertas
no lago imenso das lembranças,
rubras paixões das Descobertas,
revôos de flechas contra lanças...

Com essas canções de citaredo,
cobres a tarde de perfumes:
as folhas bolem no arvoredo
e ardem no bosque os vaga-lumes...



Falas... e trazes nos zunidos
as redolências das florestas,
e enches os olhos e os ouvidos
de trechos verdes e de festas...

Rias ao vento... Mas, um dia,
caíste n'água e, agreste avena,
vinhas sem luz, vinhas tão fria,
vinhas tão só de causar pena...


O seringueiro, que remava,
semeando espumas pelo rio,
o seringueiro, que passava,
erguendo os remos, te acudiu...

Hoje, em seu lábio, agradecida,
agitas no ar sonoros asas,
e, pela voz, levas a vida
aos entes bons, que estão nas casas...

Levas o som de cornamusa,
quando o luar jorra e o rio é branco,
à que o namora, alva e confusa,
nas ingàzeiras do barranco...

A noiva ideal quase desmaia,
quando percebe as tuas notas,
lembrando beijos sôbre a praia
e gritos longos de gaivotas...

Bambu perdido nos relentos,
Narciso imoto à beira d'água,
bebeste a rir todos os ventos,
todo o verdor estuando em mágoa...

Agora tens, nesses descantes,
em que a saudade vive acesa,
a dor das matas soluçantes,
as grandes fôrças da tristeza...

Clarim das selvas, em teu canto
rola o rumor das outras eras,
anseios mortos num quebranto,
clamores de índios e de feras...

Apud. Buzina dos paranás. Manaus, Sérgio Cardoso, 1958. p.9.





SÔBRE AS ÁGUAS BARRENTAS





Sob o sol fugitivo, a tarde prisioneira
abre à invasão da noite as águas do Madeira...
Calor de Agosto. O vento encrespa o sorvedouro,
que embala ao vento langue os lentas ondas de ouro.

- Rema, canoeiro amigo! A noite se avizinha.
Não risca o espaço escuro uma asa de andorinha...
Deixa o barco fugir à flor da correnteza,
e apresta as férreas mãos com vigor e presteza...
Há quem te espere ansiosa, entre as portas da casa,
mostrando à bôca em sangue um sorriso de brasa...

O sol filtra na queda o derradeiro feixe...
A montaria investe e corre como um peixe,
ora em quieto remanso, ora na maresia,
por entre a escuridão da mata fugidia...

Recurvo, o corpo de aço excandece e trabalha,
mas a idéia repousa à janela de palha,
onde um rosto amanhece e um corpo alvoroçado
e um maduro pomar, onde cresce o pecado...

Tudo em nosso redor é um solene incentivo
a êsse beijo de fogo, a êsse abraço furtivo :
o vento, que te afaga, enchendo-te de frio,

êste encanto, esta noite, esta cena, êste rio,
tudo é um riso imaturo, uma carícia calma,
que se lançam do céu sôbre as misérias da alma.

Ao rever a ampla selva em que folguei menino,
sinto meu coração fundir-se em brônzeo sino,
como si a terra fôsse uma igreja, uma aurora,
e o meu corpo em delírio uma tôrre sonora...
Às ilusões da infância, a minha vida acorda:
cada sentido é a fôrça e cada nervo é a corda,
que me levam no rio, áurea flor de bubuia,
na estranha languidez de uma branda aleluia...

A alegria luariza o sonho... -E o sino canta
ante a consolação desta harmonia santa.
Ajoelho em pensamento, entrecruzando os braços,
para beber num sôrvo as selvas e os espaços...

Insculpo em meu olhar, recolho nos ouvidos
tantos quadros da Vida em vidas repartidos...
Longas praias sem têrmo, onde alvejam gaivotas,
bosque em côres aberto e rio aberto em notas,
árvores de São João, sumaumeiras em prece,
doces recordações que nunca a fronte esquece,
heis-de embutir um dia, entre a lembrança rude,
na prata da velhice o ouro da juventude...

Sois o romance, a voz, que nos vem, de repente,
a uma valsa, a um perfume,a uma vista, em que a gente
ouve, abraça, recorda a trindade bendita
- a mãe, a noiva, a irmã, em doçura infinita...

Vivei, entrai em mim ! Quero, tempos afora,
sentir-vos a vibrar, como vos sinto agora,
onde me surja a mágoa, onde me leve o sonho,
imagens maternais de meu berço risonho !

Mais distante, à distância, onde o caudal não dorme,
desliza um batelão, vagaroso e disforme...
Hércules semi-nus lutam, batendo a voga,
e a espuma, em revulsão sob os remos que afoga,
confunde a queixa humana ao rumor de fadigas
da embarcação que lembra as galeras antigas...

-Homens, ó meus irmãos, ó párias que aí dentro ides,
em dolentes canções para a dor de outras lides,
que buscais e quereis, nesse destino obscuro,
despidos de ambição, cegos para o futuro?
Nada! Mas, na floresta onde as hordas selvagens
viam palcas de guerra ao verdor das ramagens,
traçais a nova estrada, ergueis o mundo novo,
por onde há de rolar em marcha um grande povo.

Os dias, que passais em conquistas e arrojos,
viverão dentro em nós, cantarão nos rebojos,
como o sangue brutal destas barrentas veias,
como o suave dulçor destas fulvas areias...

— Rema, canoeiro amigo! O vago céu escorre
uma toalha de breu sôbre a tarde que morre...
Estas margens azuis são muralhas de fumo,
— muros de sombra e mêdo, em que vamos sem rumo...

Tudo apavora, tudo assusta, tudo assombra,
nesta hora de refrega entre o sol-morto e a sombra. .
Há bruxedos de anões sôbre as luras do charco,
índios e iaras trovando à passagem do barco...

Bóia, monstruoso, à proa, o balseiro de uma ilha...
Mas, em cima, o bando irial das estrêlas fervilha.
Erra o bosque em perfume. Há bôcas nos barrancos,
e o lindo luar nascente esparge lírios brancos...

A noite aumenta o espasmo em que nos debatemos,
ouvindo no silêncio o chapinhar dos remos...

É a recompensa... E, enquanto idealizas o beijo
do que te espera muda, em pudor e desejo,
eu guardo a imensa voz destas imensidades
e encho o meu coração de vindouras saudades,
Terra, ó mãe, que me deste, em mesma hora dorida,
a luz do amor, o bem do sonho, o pão da vida!




%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%


Falena doidejando em fútil meio bobo,
Traí minha beleza e pratiquei um crime...
Pousei de riso em riso e não amei, -vendi-me!
Fiz à própria existência um lancinante roubo...
Estéril, sem tremer ao maternal arroubo,
Para matar a angústia imensa, - dividi-me
Entre a dor da lembrança e a mágoa que me oprime,
Sentindo roer-me o ovário um famulento lobo...
Os nervos, na prisão da carne em fúria, bolem...
E meu corpo, que é céu, contém o horror do inferno,
E minh’alma, que é luz, rola em pleno negrume...
Tranquei a alva corola aos remígios do pólen,
Fugi ao sol nupcial e procurei o inverno...
Morro sem ver o amor! Morro sem ter perfume!




%%%%%%%%%%%%%%%%%


Cedro! Não soffres o ultimo trabalho,
O derradeiro sommo...
Foi pouco esse agasalho,
Que déste a quem passava no abandono...
Breve, em canoa, o seringueiro estóico
Virá levar-te para a embocadura
De igarapé ou lago,
Cantando endeixas do torrão heroico...
E aguradará, com um affago,
Que a jangada appareça na corrente
E pare da ingazeira á sombra escura...
Então, exposto as maresias,
Aos cedros rente,
Irás para longe
Da humosa selva dos primeiros dias...
E longe ainda
Ainda bem longe,
Dentilhões de ferro transformado,
Embalará infante recemnado,
Em dia lindo, em noite linda...
Ou mastro no penol de um transatlantico,
Levantará, nos vagalhões do Atlantico,
a bandeira da Pátria, envolta em trovas...
Ante flavor da flammula flammante,
-folhagem verde-flava flammejante
Lembrarás amazônicos recantos...
E, na áurea juventude de um renovo,
Tu julgarás o mastro um galho novo,
Reverdecendo em folhas novas
E remalhando em novos cantos...
Onde vás assim? Porque abandonas
A terra em flôr de yaras e de máguas,
Ó jangada de cedros do Amazonas?
Onde a levais, bebendo os horizontes,
Na successão da aguas,
Seringueiros-titans de brônzeas frontes?
Entre ribas azues e grandes aguas
E com a saudade a uivar nos horizontes,
A jangada de cedros, no Amazonas,
Vae para longe,
Muito longe...
[...]





OBSESSÃO


- “Noite. .. Que horas serão?
Levanto-me do leito abandonado,
e abro o olhar triste pelo escuridão
tremenda do pecado ...

Na treva do cubículo, perquiro,
sob a febre nervosa dos instintos,
.....................
Abro a janela, em prantos para a treva ...
Meu olhar, de tristezas embebido,
treme, desvaira, perde-se e se eleva
nas árvores do sítio em que resido ...

São ficus e mangueiras paralelas,
de folhagens triunfais,
expostas aos clamores das procelas
e aa trom dos temporais ...
Beijadas por estrelas misteriosas,
como que sonham nesta grande hora,
- hora em que as hamadríadas chorosas,
enquanto nao Ihes vêm a luz da aurora,

Saem dos troncos, cheios de ciúme,
e, em rajadas pagãs,
beijam, apertam, cobrem de perfume
os feros egipãs ...

A noite é fria. .. Dançam pela aragem,
dançam na aragem fadas taciturnas ...
Dedilha o vento as harpas do folhagem,
zune e entoa suavíssimos noturnos ...

Noite, fecundo ventre das idéias,
quando choras assim,
fulgurando ao dulçor das epopéias,
tem piedade de mim ...


VEIO D'AGUA



Gosto de ouvir-te, veio de agua pura,
recortando os recantos escondidos
de soluços, de vozes, de arruidos,
entre hinos de alegria e de amargura ...
Choras no coração da selva escura
a saudade dos trilhos percorridos,
e ao teu pranto, lembrando os tempos idos,
a verde alma da terra se mistura ...
És calmo e frio em fases diferentes,
ora na rude angustia das vazantes,
ora no desespero das enchentes ...
E, corda de harpa rebentando em festas,
ergues ao ceu, em notas delirantes,
a epopeia convulsa das florestas ...


%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%


Em teu corpo de nubil se anniquila,
Estrangulado por um cancro interno,
O sol germinador que, em sonho terno,
Te incendeia de auroras e pupilla...
Vês o tempo correr, carne intranquilla,
sem o sanguento céu do amor materno,
e sentes nos tendões rugir o inferno,
emquanto marchas para a extrema argilla...
Ainda podes combater a idade,
Ó fonte que desejas ser bebida...
Cede ao Amor... E, á sombra que te invade,
Surgirão, no esplendor de nova vida,
Forças occultas pela virgindade,
Grandes beijos sem portas de sahida...

%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%



GARÇAS


No azul, em móveis ângulos, esparsas
as penas em finíssimas arestas,
fugindo em tempo às cerrações funestas,
vão em busca do céu bandos de garças ...
Em meio de tristezas e de festas,
fazem retas e círculos de farças,
ou pospontam sendais nas talagarças
e nas tules ondeantes das florestas...
Na tarde escura, no verdor da aurora,
voam, revoam pelo espaço afora,
- aladas sensações, asas de mágoas...
Descem, depois, aos longes da planura,
e, enfeitando os barrancosde brancura,
lebram Mães-dágua em sonhos sobre as águas...


%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%


[...]
Longas praias sem termo, onde alvejam gaivotas,
Bosques em cores aberto e rio aberto em notas,
Arvores de São João, samahumeiras em prece,
Doces recordações que nunca a fronte esquece,
Heis de embutir um dia, entre a lembrança rude,
Na prata da velhice o ouro da juventude...
Sois romance, a voz, que nos vêm, de repente,
A uma valsa, a um perfume, a uma vista, em que a gente
Ouve, abraça, recorda a trindade bemdita
-a mãe, a noiva, a irmã, em doçura infinita.
Vivei, entrae em mim! Quero, tempos afora,
Sentir-vos a vibrar, como vos sinto agora,
Onde me surja a magua, onde me leve o sonho,
Imagens maternaes de meu berço risonho!
Mais distante, à distancia onde a caudal não dorme,
Deslisa um batelão vagaroso e disforme...
Hercules semi-nús luctam, batendo a voga,
E a espuma, em revulsão sob os remos que afoga,
Confunde a queixa humana ao rumor das fadigas
Da embarcação que lembra as galeras antigas...
-Homens, ó meus irmãos, ó parias que ahi dentro ides,
Em dolentes canções para a dor de outras lides,
Que buscais e quereis nesse destino obscuro,
Despidos de ambição, cegos para o futuro?
Nada! Mas, na floresta onde as hordas selvagens
Viam palcos de guerra ao verdor das ramagens,
Traçais a nova estrada, ergueis o mundo novo,
Por onde há de rolar em marcha um grande povo...
Os dias, que passais em conquistas e arrojos,
Viverão dentro de nós, cantarão nos rebojos,
Como o sangue brutal destas barrentas veias,
Como o suave dulçor destas fulvas areias...
[...]


%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%



Despeço-me de ti como o proscripto
Que da risonha pátria desterrado
Parte para cumprir seu negro fado
noutra pátria de fel e granito
Onde somente echôe o triste grito
De qualquer animal desnaturado,
E donde não divise o desgraçado
Nem passar uma nuvem no infinito.
Adeus! Em um desanimo profundo
Vae fenecendo toda a minha vida
Desde o momento desta despedida
De mim agora foge toda calma
E é tão triste a saudade de minha’alma
como é entrestecido o próprio mundo




RENÚNCIA



Entre o teu vulto ardente e o meu destino incerto,
fulgure este deserto, este abismo fechado,
- e ruja o coração, como um grande forçado,
vendo-te sempre longe, embora estejas perto ...
Mas bendito esse abismo e bendito o deserto,
que nos cavam no mundo um fosso ilimitado:
não terás minha voz, como um grito abafado,
nem verei teu olhar, duplo sol entreaberto ...
Bendito esse deserto e bendito esse abismo!
Não sentirás a dor, que me acorrenta os passos,
o imposslvel gelar-te as faces de agonia,
Nem cismarás em pronto as torturas que cismo,
- beijo morto ao nascer, rósea estátua sem braços,
que vejo em desespero e não terei um dia!




%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%



Meu coração é cedo! Não te afundes
Na dor de sonhos fúneros, inscriptos
De eterno anceio por eternos mythos,
Em trêdos ais e longos de profundis...
Busca os céus, onde fuljam róseos ritos,
Róseos mysterios em que te aprofundes,
E destróe o pavor de que te infundes,
Provendo culpas aos teus proprios gritos...
Deixa, um instante a solidão! A vida
É transformismo, é ascese indefinida,
É doirar de volúpia as sombras frias...
Ó machina de dynamos de sangue,
Arranca e suga de meu corpo exangre
Beijos novos por novas energias

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Já viste por acaso um cemitério
Cheio de ossos das fúnebres caveiras
De mausoléus de todas as maneiras
Que nos dão um pavor triste e funéreo?
Quando o relogio lugrube as primeiras
Pancadas vae batendo em tom sidereo,
Á meia-noite- a hora do mysterio,
Soltam gritos as aves agoureiras
Nesse momento geme a ventania
E ergue-se uma visão
Toda envolta por tétricos horrores
É a imagem terrível de minh’alma
Que passa pelo mundo sem ter calma,
Mergulhada no pântano das dores?


%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%





REFÚGIO AZUL

2.


Volvidos lentos anos de fadiga
sob um pesar desolador,
vinha sempre dizer-te, árvore amiga,
o meu sonho de amor ...
Guardavas minhas súplicas sombrias
- velhas frases dizendo dores vivas...
Escutavas as frases, e vertias
o teu perdao de folhas pensativos...
Nado sou, nada sinto, nada valho
sem o perfume e a sensação que vertes:
bebo teu riso, canto no teu galho,
porque dás forças às ilusoes inertes.

3.

Neste canto de luz que nos esconde
das violentas paixões da vida impura,
enlaço-te hoje toda a verde fronde
com meus serenos braços de verdura...
Chegam ruídos do mundo de onde em onde,
gritos que se erguem pela noite escura...
Mas, a esses gritos, nossa voz responde
em preces de silencio e de doçura...
Nas áureas borda úmidos do cálix,
que se alberga nos urnas de teu peito,
vivem bênçãos de amor para os meus males...
E bendizes o céu ermo e impoluto,
como a flor que perece em bem do leito,
como a flor que perece em bem do fruto...





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Soffres? – Somente o Amor, que transfigura e eleva,
accenderá manhãs em teu genio sombrio...
Amor é procreação, ou estéril desvario,
e, quando fere, exalta, e, quando humilha, eleva...
-Achas o mundo o inferno?-Adão, vae domar Eva!
Ateia a labareda a esse peito já frio,
E, em seios limpos, colla os labios, como um rio
Em dois montes iguaes, cantando ao sol e á treva...
Lança a bocca faminta á violência dos húmus...
Suga, pela volúpia o sangue, - alma da veia...
E , dando á vida o odor dos fructos de áureos sumos,
Mudas os haustos pagãos num soberbo evangelho...
Sê divino, e produz! Sê robusto, e semeia!
Verás que fostes um deus, quando ficares velho!







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INVERNO


Vai morrendo a alegria dos estios,
num retintim de pompas e fanfarras:
bandos de pombos em revoos sombrios,
periquitos em loucas algazarras...

A água se espalha em volumosos fios,
que a terra escarvam, ferem como garras...
Fogem do espaço os fracos vozerios
das aves, das abelhas, das cigarras...

Os rios, como veias rebentadas,
dão o sangue lustral – a água que escorre –
às margens, em torrentes e enxurradas...

Há vozes pela selva, em canto eterno
– voz de saudades ao verão que morre,
– voz de exorcismos ao vindouro inverno!






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BIOGRAFIA DO ARQUIVO DO SENADO

Senador Álvaro Maia

Álvaro Botelho Maia
Nascimento: 19/2/1893
Natural de: Humaitá - AM

Filiação: Fausto Pereira Maia
e Josefina Botelho Maia
Falecimento: 4/5/1969


Histórico Acadêmico
Secundário Ginásio Amazonense D. Pedro Ii
Direito Faculdade de Direito

Cargos Públicos
Secretário da Prefeitura Manaus
Presidente da Caixa Econômica Federal Manaus
Secretário de Educação e Cultura.
Secretário da Prefeitura Porto Velho

Profissões
Jornalista
Professor(a)
Servidor Público

Mandatos
Interventor - 1930 a 1933
Deputado Federal - 1933 a 1935
Governador - 1935 a 1937
Interventor - 1937 a 1945
Senador - 1946 a 1951
Governador - 1951 a 1954
Senador - 1967 a 1969

Trabalhos Publicados
- Água viva. Manaus : [s.n.] 1950. 8 p.
- Antes das férias. Manaus : Livraria Clássica, 1929.
- Após a campanha. Manaus : Armazéns Palácio Real, 1926. 28 p.
- Banco de canoa. Manaus : Sérgio Cardoso, 1963. 280 p.
- A Bandeira Nacional como símbolo e emblema da Pátria. Manaus : Armazéns Palácio real, 1926. 42 p.
- Beiradão. Rio de Janeiro : Borsoi, 1958. 296 p.
- Bendita entre as mulheres. Manaus : [s.n.], 1945. 9 p.
- Buzina dos paranás. Manaus : Sérgio Cardoso & Cia., 1958. 382 p.
- Canção de fé e esperança. Manaus : Tipografia de Cá e Lá, 1923. 34 p.
- O clarão solitário. Manaus : [s.n.], 1945. 9 p.
- O cântaro da samaritana. Manaus : DEIP, 1945. 9 p.
- Defumadores e porongas. Manaus : Sérgio Cardoso, 1966. 266 p.
- D. Pedro II e a República. Manaus: Armazéns Palácio Real, 1926. 22 p.
- Em minha defesa. Manaus : Aug Reis Impressor, 1931. 10 p.
- Em nome das amazônidas. Manaus : Tipografia Palais Royal, 1927.
- Em torno do caso do Amazonas. Rio de Janeiro: [s.n.], 1931.
- Etelvina, enfermeira esperança. Manaus : [s.n.], 1946. 11 p.
- Friagens e cerrações.[S.n.t.]
- Gente dos seringais. Rio de Janeiro : Borsoi, 1956. 375 p.
- Imperialismo e separatismo. Manaus : Armazéns Palácio Real, 1926. 28 p.
- Luz do horizonte. Manaus : [s.n.], 1946. 9 p.
- Na manhã do centenário. Manaus : Tipografia Augusto Reis, 1925. 20 p.
- Nas barras do pretório. Manaus : Sérgio Cardoso & Cia., 1958. 200 p.
- Nas paliçadas de dezembro. Manaus : [s.n.], 1934. 37 p.
- Nas tendas do emaús. Manaus : Sérgio Cardoso, 1967 .220 p.
- Na vanguarda da retaguarda. Manaus : DEIP, 1943. 354 p.
- No limiar da intervenção. Manaus : Tipografia Palais Royal, 1925. 44 p.
- Noite de redenção. Manaus : DEIP, 1944. 8 p.
- A nova política do Brasil. Manaus : [s.n.], 1939. 90 p.
- Panorama real do Amazonas. Manaus : Tipografia Phenix, 1934. 37 p.
- Pela glória de Ajuricaba. [S.l.]: Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, 1952. 43 p.
- O português-lusitano e o português-brasileiro, léxica e sintaticamente considerados. Manaus : Armazéns Palácio Real, 1926. 71 p.
- As responsabilidades revolucionárias da juventude. Manaus : [s.n.], 1931.
- O ritmo da língua nacional. Manaus : Papelaria Velho Lino, [19- - ?]. 39 p.
- Os sãos não precisam de médicos. [S.l: s.n.], 1954. 18 p
- Semana do serviço militar. Manaus : DEIP, 1947. 8 p.
- Sponsa horrenda : poesia. Manaus : Imprensa Pública, 1943. 4 p.
- Velhos e novos horizontes. Manaus : Imprensa Oficial , 1924. 31 p.






ÁLVARO MAIA


Álvaro Botelho Maia nasceu em 19 de fevereiro de 1893, no seringal “Goiabal”, rio Madeira, município de Humaitá, primogênito de Fausto Ferreira Maia (cearense, falecido em 1932) e Josefina Botelho Maia (amazonense, falecida em 1968). Além de Álvaro Maia, nasceram do casal os filhos Antonio Botelho Maia (antigo fiscal de consumo, ex-Prefeito de Manaus e ex-Deputado Federal pelo Amazonas), Raimundo Botelho Maia (funcionário federal, falecido em Manaus em 1942) e uma menina, Nênê, falecida em 1902, em tenra idade.

Formação intelectual

Álvaro Maia veio criança para Manaus, aqui fazendo os cursos primário e secundário, o último no Ginásio Amazonense, tendo como colegas de turma Cosme Ferreira Filho, Cícero Bezerra de Menezes, Romero Estellita, Carlos Studart Filho e Pedro Thiago de Mello.
Curso superior iniciado em 1913 na Faculdade de Direito do Ceará, onde morou na “República Vaticano”. Em 23 de março de 1917, na Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, colou grau de bacharel em direito, na mesma turma do acreano Mário Oliveira.

Atividade jornalística

Iniciada em “Aura”, publicação estudantil que circulou em Manaus de 24 de junho de 1907 até 20 de junho de 1912, quase todo esse longo período sob direção de Abelardo Araújo.
Ainda estudante secundário começou a trabalhar no “Jornal do Comércio”, então dirigido, pelo Dr. Vicente Reis, tendo como companheiros Abelardo Araújo, Cosme Ferreira Filho e Raimundo Santos.
No Ceará, participou do grupo de redatores do jornal estudantil “Vaticano”, onde apareceu uma apreciação a seu respeito em que é identificado por “Alberto Maia”. Também no Ceará escreveu em “Radical”, assistindo à agressão sofrida pelo Dr. Gentil Falcão.
De volta a Manaus, já formado, em 1917, Álvaro Maia fundou com Caetano Estellita “A Imprensa”, de cuja redação fez parte também Benjamim Lima, sendo Diretor o Dr. Alfredo da Mata.
Em 1921, durante permanência no Rio, trabalhou na “Gazeta de Notícias”, ao lado de Cândido Campos e Franklin Palmeira.
Nos primeiros meses de 1926, no início do Governo Efigênio de Sales, foi Diretor da Imprensa Oficial.
A partir da II Grande Guerra, passou a colaborador permanente dos Diários Associados, por escolha pessoal de Assis Chateaubriand, e seus artigos entraram a ser divulgados pela citada cadeia jornalística.

Atividades intelectuais

Estreou nas letras publicando o soneto “Cabelos Negros” em o “Curumi”, jornal de estudantes, em 1904. Ao longo de 65 anos, consagrou-se como poeta, ensaísta, romancista e pensador; sobretudo como poeta.

Durante o período de formação escreveu e versejou sempre, publicando nos jornais em que trabalhou.

Em 1918, figurou entre os 30 fundadores da Academia Amazonense de Letras, tendo escolhido para patrono o poeta Maranhão Sobrinho, então há pouco falecido.

No concurso promovido, em 1925, pela revista “Redenção”, dirigida por Clovis Barbosa, Álvaro Maia foi escolhido príncipe dos poetas amazonenses, por 21 votos, tendo como concorrentes Jonas da Silva (7 votos), Raimundo Monteiro (6 votos), Francisco Pereira, Genésio Cavalcante e Heitor Veridiano (1 voto cada).

Só em 1943 publicou o primeiro livro, reunindo crônicas aparecidas quando da campanha da produção da borracha, sob o título de “Na Vanguarda da Retaguarda”, tendo como prefácio um artigo de Assis Chateaubriand, “O Mujik da Steppe Verde da Amazônia”, escrito em Manaus a 25 de maio de 1943. Foi divulgação oficial, feita pelo então Departamento Estadual de Imprensa e Divulgação.
Até então os trabalhos de Álvaro Maia (poesia, crônicas, ensaios, teses, discursos e conferências) haviam sido publicados somente na imprensa ou em folhetos. O livro, porém, só apareceu aos 50 anos de idade.
O 2o livro, “Gente dos Seringais”, foi impresso no Rio, pelo Editor Borsoi, em 1956, apresentando um mapa da região que serve de cenários às narrativas, que se prendem “ao Médio-Madeira, especialmente no Município de Humaitá, com o Marmelos, Maici, Machado e Jamari, pela margem direita; à esquerda, os rios menores, que percorrem os campos gerais, Puruzinho e Mucuim, cujas águas se comunicam ao Ipixuna e outros afluentes do Purus; ao sul, o cotovelo encachoeirado do Madeira-Mamoré, até Guajará-Mirim, na fronteira boliviana, em que se encontra a estrada-de-ferro, conseqüência do Tratado de Petrópolis”.
Em 1958 apareceram três volumes: um de poesias, “Buzina dos Paranás”, o segundo “Nas Barras do Pretório”, livro político de justificativa de sua vida, editados por Sérgio Cardoso & Cia. Ltda., em Manaus, e o terceiro, o romance “Beiradão”, saído no Rio, dos prelos de Borsoi Editor.
“Buzina dos Paranás” reúne a poesia de Álvaro Maia até a época, incluindo os seguintes sub-títulos: Nos Céus do Amazonas, Portas da Amazônia, No Turbilhão, Novo Ipiranga, Mata Invadida, A Bem-Aventurança Esquecida, Romance Azul, Terreiros de Umbanda, Na Penumbra dos Sanatórios, Traduções, Horas Antigas e Mi Deslumbramiento en el Amazonas (traduções de Gastón Figueira).
O famoso “Nas Barras do Pretório” e uma defesa da vida do político, escrita sem malquerenças nem subterfúgios, demonstrando, à saciedade, com documentos, os atos e as atitudes de uma carreira combativa.
O romance “Beiradão” retrata o período de conquista do Madeira e seus afluentes, registrando dramas e tragédias na época em “dominava a coragem fria, manejando o rifle”.
“Banco de Canôa” saiu em 1963, pela Editora Sérgio Cardoso, em Manaus, retratando cenas de rios e seringais da Amazônia. Diz o autor, no prefácio: é um livro de crônicas seringueiras, destinadas a seringueiros e operários da selva. Espécie de folclore pioneiro caboclitude para imitar negritude, qualidade comum às atitudes e às condutas dos caboclos do interior”.
Em 1966, saiu nas Edições Governo do Estado do Amazonas, na série Raimundo Monteiro, vol. X, uma coletânea de pequenas estórias, intitulada “Defumadores e Porongas”.
Por fim, “Tenda de Emaús”, livro de divagações espiritualistas, foi lançado em fins de 1968, poucos meses antes da morte de Álvaro Maia, apesar de estar impresso desde o ano anterior, por Sérgio Cardoso.
Em 1o de janeiro de 1966, foi empossada a Diretoria da Academia Amazonense, presidida por Álvaro Maia, que esteve no posto até 28 de novembro, quando dele se licenciou para exercer o mandato de Senador.
Uma semana antes do seu passamento, ficou assentada uma comemoração, em julho de 1969, dos 65 anos de sua atividade literária.

Atividades no magistério

Com a criação da cadeira de Instrução Moral e Cívica nos cursos secundários, pelo Presidente Arthur Bernardes, Álvaro Maia foi nomeado pelo Interventor Alfredo Sá para professor interino do Ginásio Amazonense, em 1925, empossando-se a 20 de maio, em sessão presidida pelo Prof. Plácido Serrano. Aberto concurso para a cadeira, foi ele, já em 1926, candidato único, apresentando tese sobre “Imperialismo e Separatismo” e defendendo outra, de ponto sorteado pela Congregação, “A Bandeira Nacional como Símbolo e Emblema da Pátria”
Também em 1926 conquistou uma das cadeiras de Português do mesmo Ginásio, com duas teses: “O Português-Lusitano e o Português-Brasileiro léxica e sintaticamente considerados” (ponto sorteado pela Congregação) e “O Ritmo da Língua Nacional” (de própria escolha).
Ensinou, efetivamente, até 1930.
Nesse mesmo período ensinou Português no Colégio Dom Bosco, onde ainda tentou continuar a dirigir classes em 1931, já Interventor Federal, verificando, logo no início do ano, a falta de tempo.
No Rio, do segundo semestre de 1931 até 1933, voltou ao magistério em colégios particulares, tendo sido, ainda, Inspetor de Ensino.

Atividades políticas

Desde que retornou, formado, à terra natal, Álvaro Maia se tornou uma bandeira política. Em 1918 foi candidatado a Deputado Federal, pela oposição, sem nenhuma perspectiva de vencer.
Sua afirmação, porém, se deu quando pronunciou a “Canção de Fé e Esperança”, em 9 de novembro de 1923. Depois dos famosos discursos-libelos de Heliodoro Balbi, foi o documento decisivo da vida política do Amazonas. Enquanto ensinava, Álvaro Maia foi conquistando paulatinamente a confiança e a simpatia dos moços. Por outro lado, sua vida era um exemplo de dignidade e desprendimento.
Após a Revolução de 1930, foi afinal chamado ao poder, como Interventor Federal, indicado pelo então Tenente-Coronel Floriano Machado, que esteve à frente do Governo do Estado. Exerceu o cargo até meados de 1931, no meio das maiores dificuldades, inclusive financeiras.
Tendo-se exonerado no Rio, lá ficou até que foi iniciada a campanha para a reconstitucionalização do país, quando voltou ao Amazonas, disputando eleição para Deputado à Assembléia Nacional Constituinte (eleitos: Álvaro Maia, Alfredo da Mata, Leopoldo Cunha Melo e Luiz Tireli).
Votada a Constituição de julho de 1934, organizou-se a vida política estadual, sendo, em 1935, escolhido pela Assembléia Estadual para Senador Federal, juntamente com Alfredo da Mata. Logo depois, também em eleição indireta, foi eleito Governador Constitucional do Estado.
Com o golpe político do Estado Novo, em 10 de novembro de 1937, foi nomeado Interventor Federal, mantendo-se no poder até a queda de Getúlio Vargas, em 29 de outubro de 1945. Atravessou toda a II Grande Guerra à frente do Estado. Foi substituído pelo Desembargador Stanislau Affonso, Presidente do Tribunal de Justiça, durante o Governo José Linhares.
Integrando o Partido Social Democrático desde a sua fundação, como membro de sua comissão central, Álvaro Maia foi candidato à Senatoria Federal, juntamente com Waldemar Pedrosa. Nas eleições de 2 de dezembro de 1945 a chapa venceu por larga margem de votos, publicando Álvaro Maia, uma prestação de contas de sua administração.
Durante o exercício do mandato, foi Presidente da Comissão de Diplomacia da Câmara Alta e fez parte da Delegação do Brasil a uma reunião da ONU, em Paris, em 1948: nessa ocasião apresentou trabalho sobre genocídio.
Em 1950 voltou novamente ao Governo do Estado, numa eleição renhida, em que teve como competidor o Senador Seve riano Nunes. Foi eleito na mesma ocasião em que Getúlio Vargas conquistou pelo voto direto a Presidência da República. Antes do término do mandato, desincompatibilizou-se para disputar eleição para o Senado, em que foi derrotado.
Seguiram-se mais duas eleições perdidas (1958 e 1962). Na 4a disputa, porém, sua candidatura saiu vitoriosa. Foi como Senador, pela 3a vez, que a morte o encontrou.

Outras atividades

O 1o emprego que teve o bacharel Álvaro Maia, no Amazonas, em 1917, foi de redator dos debates da Assembléia Legislativa. Depois foi procurador da República, interino (1917-1918). Exerceu durante 15 dias o lugar de ajudante do Gabinete de Identificação e Estatística (1918), sob a direção do Dr. Galdino Ramos. Em 1918-1919 foi Auditor da Força Policial, cargo que considerou destituído de interesse para o Estado, propondo ao Governador Alcântara Bacelar a sua extinção. Foi então para Porto-Velho, como secretário do Superintendente Monsenhor Raimundo Oliveira (1920-1921). Em 1921-1922 serviu como secretário da Comissão de Propaganda e Organização do Centenário no Pará, chefiada por Djalma Cavalcanti, seu cunhado. De 1922 a 1926, serviu na Comissão de Saneamento Rural do Amazonas sob a direção do Dr. Samuel Uchôa, sendo-lhe atribuída a coordenação dos relatórios.
Quando Governador Militar do Amazonas o Cel. Raimundo Barbosa, após a chegada do General Menna Barreto, Comandante do Destacamento organizado para combater os revoltosos de 23 de julho de 1924, Álvaro Maia foi secretário da Prefeitura de Manaus. O Prefeito, então, foi Araújo Lima, que posteriormente, voltou ao cargo, no Governo Efigênio de Sales, realizando uma das mais profícuas administrações.
Na Associação Comercial do Amazonas, exerceu as funções de Consultor Jurídico e redator da revista, até 1930. Retomou o posto de Consultor Jurídico em 1958.
Neste ano, foi nomeado Presidente da Caixa Econômica Federal, aposentando-se, como tal, em 1966.
No Rio, manteve escritório de advocacia, associado ao Dr. Paulo Marinho, entre 1955-1958.

Morte

Morreu Álvaro Maia a 1:15 da madrugada de 4 de maio de 1969, num apartamento do Pavilhão Santana, da Santa Casa de Misericórdia de Manaus, acometido de infarto do miocárdio na manhã da véspera. Assistiram ao desenlace o médico assistente, Dr. Osvaldo Said, acompanhado pela enfermeira Ruth Helena, pela Srta. Maria Helena Paiva Monte (prima) e Dr. Erasmo Alfaia (amigo). Imediatamente a notícia se espalhou e começaram a chegar ao hospital os amigos do morto, que foi velado no hall do Palácio Rio Negro desde o alvorecer.
O sepultamento de Álvaro Maia se deu ao fim da tarde de 5 de maio, no Cemitério São João Batista, acompanhado por grande massa humana, sentida e emocionada.
(Biografia publicada na Revista da Academia Amazonense de Letras n.0 14, de dezembro de 1969, de autoria do Acadêmico Djalma Batista, que consentiu, gentilmente, na sua transcrição).


[Agnello Bittencourt. Dicionário amazonense de biografias. Rio de Janeiro, Conquista, 1973].

Álvaro Maia foi casado com D. Amazilis e teve duas filhas: Terezinha (já falecida) e Alviles, casada com Leopoldo Péres Sobrinho (irmão do falecido senador Jefferson Péres.)

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terça-feira, 27 de janeiro de 2009

ROGEL SAMUEL: O QUE É SATORI?






QUE É SATORI?

As aves aquáticas
vagam aqui e acolá
sem deixar pegadas mas suas veredas nunca as esquecem.

DOGEN (1200-1253)


Há uma expressão de Zen que diz: “um espelho de boas qualidades é tão puro como a água que deixou de correr”. Isto, diz Takuzo Igarashi, representa o estado de mente em que se encontra o espírito do Zen, quando toca as coisas se refletem na “sabedoria que é como o espelho”, tão simples e tão claras, que é quando aparecem na água pura de um céu sem nuvens, O céu não está na água, nem a água está coberta de céu. A água pode estar correndo lentamente, de acordo com outra expressão do Zen: “um movimento em tranqüilidade”. Pode-se dizer que o Haicai é espelho da mente do poeta.

2. A iluminação de Buddha se fez em três etapas. Na primeira parte da noite ele tomou conheci¬mento da existência do antes, antes dos estados de consciência. Na segunda parte da noite ele adquiriu o conhecimento de como os seres passam dum estado de consciência (existência) a outro. Neste ponto ele percebeu a lei de dukkha (a lei do Sofrimento) e a lei da Causa do Sofrimento, a primeira e a segunda Nobres Verdades. Enfim, na ultima parte da noite, ele penetrou no conhecimento das causas subjacentes à existência, no processo das origens explicadoras da existência, na origem de tudo, inclusive do Universo. No Dhammapada, v. 153-154, Ele declara solene-mente: “Na última vigília da noite, cheio de compaixão pelos seres vivos, fixando meu espírito nas origens interdependentes e meditando acerca da ordem do devir e de sua cessação, ao sol nascente alcancei a iluminação suprema”.

3. Satori é a experiência do Nirvana, a percepção de um instante. Nirvana significa a cessação do processo de vir-a-ser. É a paz, a tranqüilidade do céu sem nuvens e da água sossegada, mesmo em movimento. A absoluta realização na realidade do instante, na eternidade que o instante porta. Mesmo em um segundo de percepção podemos ver o Eterno. O Nirvana, o estado da mente de um Buddha, não é nem de aniquilação, nem de não-aniquilação, nem outra coisa: só inteligência viva e suprema da Atenção, porque o Buddha disse só haver um caminho para o Nirvana, que é o da Atenção (Sattipatana Suttra), e esta é a Quarta Nobre Verdade, ou Óctuplo Caminho.

A libertação repousa na existência da água em tranqüilidade refletindo um céu sem nuvens, ou seja, na Segunda Nobre Verdade, a verdade da Causa do Sofrimeiro, que é explicada por este vira-ser, por esta lei de causa e efeito chamada carma.
O Buddha definiu o carma: “Isto tendo sido, aquilo vem a ser”. Ou seja, não existe um eu substancial, nem alma, pois o processo de vir-a-ser está em completa mutação, e um sujeito não pode ser e estar mudando sempre em cada ponto. O “Eu” éum vir-a-ser, que é carma. O Carma é o que aparece, mesmo o Universo. Sem Carma, não é, portanto nada sofre mudança (ou lei do Sofrimento). O carma cria a roda do Sansara. “Nem Deus ou Brahma podem ser criadores da roda do Sansara; um fenômeno vazio segue seu curso sujeito a causas e condições”, disse o Buddha. Por isto se diz que o Budismo é ateu.

4. Se saber é sabor, a questão “o que é satori” fica sem resposta. Primeiramente, porque poucos o experimentam. É falar do que não se sabe. No Budismo se diz: quem fala não sabe, quem sabe não fala. Só é possível a transmissão de uma experiência através da poesia, do Haicai. Sendo uma experiência, o satori é a apreensão, a percepção do lago velho num céu sem nuvens de Bashô, onde uma rã salta. O satori é a espada do silêncio que tudo penetra. Por isso tudo, mesmo os deuses não têm existência inerente, o Budismo é cheio de deuses, mas todos são vazios, criados por minha própria mente na hora de praticá-los. Vazios de existência inerente, mas cremos que verdadeiros. Pois o Despertar é uma coisa Súbita, Abrupta. Ser, sem objetivo nem proveito, é Despertar.

Quando o Buddha vinha de sua Iluminação encontrou um homem que lhe perguntou quem era e quem tinha sido seu mestre. O Buddha não teve mestres. “Sou Aquele que compreendeu o que devia ser compreendido, e abandonou o que devia ser abandonado. Eu sou o Buddha, o Desperto”. Satori significa “despertar para a verdade côsmíca”. Significa “a mente concentrada além do pensamento”, como diria Kapleau. E experimentar a dignidade da realidade e tornar cada atividade um fim em si mesmo.
5. Budismo é religião? Zen é religião? Podemos dizer que sim e que não. Não como compreendemos as outras religiões, baseadas na fé. Se você tem de ter fé, no Budismo, será fé em si mesmo, e fé no Guru, um homem de carne e osso. E assim mesmo, é dito que você tem de observar o Guru vários anos até se decidir em considerá-lo mestre, Guru é o Buddha. Budismo é ciência, embora mista. Um interessante ensaio de Hannah Arendt, “Religião e política” nos parece muito esclarecedor a respeito. Não a respeito da crítica que ela faz do comunismo, chamando-o de “religião”. Mas do que ela diz acerca da ciência, a “crença no saber”.

6. Este pequeno ensaio se propõe, tardiamente digamos, a ler os haicais de Luiz Bacellar. Creio que estamos nos enredando num caminho longo, o da fundamentação teórica.

7. O haicai significa a visão pura do horizonte do mundo. Aquela que há, quando o “eu” desaparece. Quando o “eu” se liberta.
Na visão impura, há sofrimento e libertação do sofrimento, há céu e inferno. Na visão pura, não há nem sofrimento, nem libertação do sofrimento, nem céu, nem inferno, ou melhor há sofrimento, mas não há sofredor. Na visão pura não há nada que seja certo ou errado. Não há mesmo libertação, porque não há prisioneiro, nem o de
que se libertar Não há dualidade.

8. Mas satori é libertação. Libertação de quê? Talvez do próprio questionamento sobre o que satori seja. Libertação do questionador, do sujeito que põe a questão. Portanto, da dúvida e da certeza. Só há dúvida quando pensamos que as coisas podem ser de outro modo. Quando elas não são o que são. Quando as deixamos em paz, sem perguntas, elas não são certas ou erradas, culpadas ou inocentes de serem como tais. Aliás nada há o que perguntar, tudo é prazer e paz absoluta no satori, tudo é ação sem resultado no satori, tudo é. O horizonte da sabedoria e do concreto. Nada mais concreto do que o satori. Hegel, que na Fenomenologia do Espírito falou da “ascensão ao concreto”, sabia. O espírito absoluto é concreto, as pedras são abstratas, na sua indefinição, ignorância e surdez. O concreto é o que se encontra em consonância com o saber.

9. Satori é liberdade. Nega Foucault que haja algo que seja por natureza libertador, já que a liberdade é uma prática. Não existe, diz ele, um espaço apropriado para a prática da liberdade, tal que esta prática possa ser exercida neste ou naquele lugar Mesmo quando um certo espaço é arquitetonicamente projetado para o agir libertário, como o Familistêre (1859) a que ele se refere, o fato de ninguém poder entrar ou sair sem ser visto por todos significava que ninguém era livre, pois todos fiscalizavam a todos, e a investigação representava um fenômeno policialesco (“a vontade de saber”) no campo complexo das relações de poder da distribuição espacial (The Foucault reader).

A liberdade pressupõe a felicidade, e é precisa¬mente isto que a sociedade não pode tolerar. Ela até aceita a ilegalidade (a fim de que o poder policial seja possível e justificável). A liberdade é a espera de nada, é um conceito muito próximo do de “libertino”. Dizem que só o imperador era livre. As mais íntimas forças humanas são negadas pela realidade e tudo contribui para o cerceamento. A liberdade: uma revolução, a irrupção violenta da subjetividade rebelde. Nada a impede. Ninguém pode prender um homem livre, dizia Krishnamurti; podem acorrentá-lo na fossa de uma masmorra, podem arrancar-lhes os olhos, mas interiormente ele permanecerá livre.

10. Liberdade de quê? A liberdade não é um absoluto. A liberdade aqui significa espaço. Pequenas se fazem ás coisas, e amplos, incomensuráveis se dão os espaços da liberdade. Não se pode aprisionar a liberdade de pensamento, além do pequeno ego, aberto a um desconhecido devir, novo, significa ultrapassar esse limite. Não significa fazer o que bem se entende, mas assinar em baixo de suas próprias responsabilidades. Por isso, não existe liberdade sem amor, sem a prática dos símbolos de humanidade, dos vazios sem obstáculos da imaginação concreta de um mundo humano.

11. Mestre Dogen escreveu uma frase enigmática que diz: “o tempo precisa estar comigo”. Se o tempo têm a característica de passar de hoje para amanhã, de ontem para hoje, ser é tempo. O haicai significa isso: “o tempo está comigo”. É uma apreensão do tempo. “Tarde de sol / o armador da rede / range devagar”. O que há de comum entre a tarde de sol, o armador de rede, o som de ranger e os três incluídos e o tempo presente, o tempo devagar; o amazônico é a rede, a tarde. O universo amazônico, a vida amazônica inteira pode estar contida nestes três pequenos versos de Luiz Bacellar. Do sol à terra, da tarde à rede, num golpe, devagar. Toda preguiça do tempo range nos seus gonzos, numa oposição lúcida entre o todo (a tarde) e o uno (rede), numa relação do homem com seu universo. A rede range, sob o sol que está fora. Significa isso, range sob o forte calor, não há corpo sobre a rede que não seja o do poeta que talvez durma, sonhe. O “ar” de “tarde” ressoa no “ar” de “armador” e de “devagar”. Mas é sempre “ar”. O universo encapsulado num grupo de nove palavras se liberta para sempre. Por isso o leitor de um haicai não deve esperar ler muito, o haicai melhor se dá num quadro na parede do que no feixe de páginas de um livro, O haicai é uma janela aberta para o caminho, para a música do Universo.

12. O satori é, pois, aquilo de que não podemos falar, “aquilo de que se deve calar”, aquilo, aquele conceito para o qual só nos podemos aproximar cautelosamente. O satori é negativo, ou seja, sei o que ele não é. O satori é a verdade da poesia.
A poesia não fala de algo, ela é. Só a poesia faz falar o que é, a saber, a linguagem desperta. Por isso, sua luz é a linguagem, que é aquilo que sempre pode mais: revela a profunda agudez das coisas, ilumina o profundo mundo da realidade, a nudez das coisas, acionando o seu vigor, sua liberdade é da ordem da linguagem, que é anterior ao pensar. Só há pensamento quando há um pensador, portanto o aprisionamento do sujeito se dá quando o sujeito se recria ao pensar, ele não pode sair de sua prisão porque ele é a própria prisão, e com o “eu” não há espaço, não há nada além do centro, do núcleo do “eu”. Quando o “eu” some, há o satori. Ou seja, não havendo dualidade sujeito-objeto, há dissolução do sujeito na imensidão onde tudo é alegria, totalidade, tudo é poder da atenção, júbilo. O “eu~~ e sempre triste, o “não-eu” e sempre glória.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Ezra Pound






Ezra Pound

Os Cantos


Trad. José Lino Grünewald





CANTO 1

E pois com a nau no mar,
Assestamos a quilha contra as vagas
E frente ao mar divino içamos vela
No mastro sobre aquela nave escura,
Levamos as ovelhas a bordo e
Nossos corpos também no pranto aflito,
E ventos vindos pela popa nos
Impeliam adiante, velas cheias,
Por artifício de Circe,
A deusa benecomata.
Assim no barco assentados
Cana do leme sacudida em vento
Então com vela tensa, pelo mar
Fomos até o término do dia.
Sol indo ao sono, sombras sobre o oceano
Chegamos aos confins das águas mais profundas.
Até o território cimeriano,
E cidades povoadas envolvidas
Por um denso nevoeiro, inacessível
Ao cintilar dos raios do sol, nem a
O luzir das estrelas estendido,
Nem quando torna o olhar do firmamento
Noite, a mais negra sobre os homens fúnebres.
Refluindo o mar, chegamos ao local
Premeditado por Circe.
Aqui os ritos de Perímedes e Euríloco e
“De espada a cova cubital escavo
Vazamos libações a cada morto,
Primeiro o hidromel, depois o doce
Vinho mais água com farinha branca
E orei pela cabeça dos finados;
Em Ítaca, os melhores touros estéreis
Para imolar, cercada a pira de oferendas,
Um carneiro somente de Tirésias,
Carneiro negro e com guizos.
Sangue escuro escoou dentro do fosso,
Almas vindas do Erebus, mortos cadavéricos,
De noivas, jovens, velhos, que muito penaram;
Úmidas almas de recentes lágrimas,
Meigas moças, muitos homens
Esfolados por lanças cor de bronze,
Desperdício de guerra, e com armas em sangue
Eles em turba em torno de mim, a gritar,
Pálido, reclamei-lhes por mais bestas;
Massacraram os rebanhos, ovelhas sob lanças;
Entornei bálsamos, clamei aos deuses,
Plutão, o forte, e celebrei Prosérpina;
Desembainhada a diminuta espada,
Fiquei para afastar a fúria dos defuntos,
Até que ouvisse Tirésias.
Mas primeiro veio Elpenor, o amigo Elpenor,
Insepulto, jogado em terra extensa.
Membros que abandonamos em casa de Circe,
Sem agasalho ou choro no sepulcro,
Já porque outras labutas nos urgiam.
Triste espírito. E eu gritei em fala rápida:
‘‘Elpenor, como veio a esta praia escura
Veio a pé, mais veloz que os marinheiros?”
E ele, taciturno:
Azar e muito vinho. Adormeci
Na morada de Circe ao pé do fogo.
Descendo a escadaria distraído
Desabei sobre a pilastra,
Com o nervo da nuca estraçalhado
O espírito procurou o Avernus.
Mas, ó Rei, me lembre, eu peço,
E sem agasalho ou choro,
Empilhe minhas armas numa tumba
A beira—mar com esta gravação:
Um homem sem fortuna e com um nome a vir.
E finque o remo que eu rodava entre os amigos
lá, ereto, sobre a tumba.”
Veio Anticléia, a quem eu, repelia,
E então Tirésias tebano,
Levando o seu bastão de ouro, viu —me
E falou primeiro:
“Uma segunda vez? Por quê? homem de maus fados,
Face aos mortos sem sol e este lugar sem gáudio?
Além do fosso! eu vou sorver o sangue
Para a profecia.”
E eu retrocedi,
E ele, vigor sangüíneo: “Odysseus
Deverás retornar por negros mares
Através dos rancores de Netuno,
Todos teus companheiros perderás.
Depois veio Anticléia.
Divus, repouse em paz, digo, Andreas Divus,
In ofiicina Wecheli, 1538, vindo de Homero.
E ele velejou entre Sereias ao
largo e além até Circe.
Venerandam,
Na frase em Creta, e áurea coroa, Afrodite,
Cypri munimenta sortita est, alegre, orichalchi, com dourados
Cintos, faixas nos seios, tu, com pálpebras de ébano
Levando o ramo de ouro de Argicida.


ENVOI (1919)



Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz

Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.

(tradução de Augusto de Campos)



E ASSIM EM NÍNIVE


"Sim! Sou um poeta e sobre minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.

"Veja! não cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou poeta e sobre minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.

"Não é, Ruaana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho."

(tradução de Augusto de Campos)




Canto III



Another's a half-cracked fellow—John Heydon,
Worker of miracles, dealer in levitation,
In thoughts upon pure form, in alchemy,
Seer of pretty visions ("servant of God and secretary of nature");
Full of plaintive charm, like Botticelli's,
With half-transparent forms, lacking the vigor of gods.
Thus Heydon, in a trance, at Bulverton,
Had such a sight:
Decked all in green, with sleeves of yellow silk
Slit to the elbow, slashed with various purples.
Her eyes were green as glass, her foot was leaf-like.
She was adorned with choicest emeralds,
And promised him the way of holy wisdom.
"Pretty green bank," began the half-lost poem.
Take the old way, say I met John Heydon,
Sought out the place,
Lay on the bank, was "plungèd deep in swevyn;"
And saw the company—Layamon, Chaucer—
Pass each in his appropriate robes;
Conversed with each, observed the varying fashion.
And then comes Heydon.
"I have seen John Heydon."
Let us hear John Heydon!
"Omniformis
Omnis intellectus est"—thus he begins, by spouting half of Psellus.
(Then comes a note, my assiduous commentator:
Not Psellus De Daemonibus, but Porphyry's Chances,
In the thirteenth chapter, that "every intellect is omni-form.")
Magnifico Lorenzo used the dodge,
Says that he met Ficino
In some Wordsworthian, false-pastoral manner,
And that they walked along, stopped at a well-head,
And heard deep platitudes about contentment
From some old codger with an endless beard.
"A daemon is not a particular intellect,
But is a substance differed from intellect,"
Breaks in Ficino,
"Placed in the latitude or locus of souls"—
That's out of Proclus, take your pick of them.
Valla, more earth and sounder rhetoric—
Prefacing praise to his Pope Nicholas:
"A man of parts, skilled in the subtlest sciences;
A patron of the arts, of poetry; and of a fine discernment."
Then comes a catalogue, his jewels of conversation.
No, you've not read your Elegantiae—
A dull book?—shook the church.
The prefaces, cut clear and hard:
"Know then the Roman speech, a sacrament,"
Spread for the nations, eucharist of wisdom,
Bread of the liberal arts.
Ha! Sir Blancatz,
Sordello would have your heart to give to all the princes;
Valla, the heart of Rome,
Sustaining speech, set out before the people.
"Nec bonus Christianus ac bonus
Tullianus."
Marius, Du Bellay, wept for the buildings,
Baldassar Castiglione saw Raphael
"Lead back the soul into its dead, waste dwelling,"
Corpore laniato; and Lorenzo Valla,
"Broken in middle life? bent to submission?—
Took a fat living from the Papacy"
(That's in Villari, but Burckhardt's statement is different)—
"More than the Roman city, the Roman speech"
(Holds fast its part among the ever-living).
"Not by the eagles only was Rome measured."
"Wherever the Roman speech was, there was Rome,"
Wherever the speech crept, there was mastery
Spoke with the law's voice while your Greek, logicians...
More Greeks than one! Doughty's "divine Homeros"
Came before sophistry. Justinopolitan
Uncatalogued Andreas Divus,
Gave him in Latin, 1538 in my edition, the rest uncertain,
Caught up his cadence, word and syllable:
"Down to the ships we went, set mast and sail,
Black keel and beasts for bloody sacrifice,
Weeping we went."
I've strained my ear for -ensa, -ombra, and -ensa
And cracked my wit on delicate canzoni—
Here's but rough meaning:
"And then went down to the ship, set keel to breakers,
Forth on the godly sea;
We set up mast and sail on the swarthy ship,
Sheep bore we aboard her, and our bodies also
Heavy with weeping. And winds from sternward
Bore us out onward with bellying canvas—
Circe's this craft, the trim-coifed goddess.
Then sat we amidships, wind jamming the tiller.
Thus with stretched sail
We went over sea till day's end:
Sun to his slumber, shadows o'er all the ocean.
Came we then to the bounds of deepest water,
To the Kimmerian lands and peopled cities
Covered with close-webbed mist, unpiercèd ever
With glitter of sun-rays,
Nor with stars stretched, nor looking back from heaven,
Swartest night stretched over wretched men there.
Thither we in that ship, unladed sheep there,
The ocean flowing backward, came we through to the place
Aforesaid by Circe.
Here did they rites, Perimedes and Eurylochus,
And drawing sword from my hip
I dug the ell-square pitkin, poured we libations unto each the dead,
First mead and then sweet wine,
Water mixed with white flour.
Then prayed I many a prayer to the sickly death's-heads
As set in Ithaca, sterile bulls of the best,
For sacrifice, heaping the pyre with goods.
Sheep, to Tiresias only,
Black, and a bell sheep;
Dark blood flowed in the fosse.
Souls out of Erebus, cadaverous dead
Of brides, of youths, and of many passing old,
Virgins tender, souls stained with recent tears,
Many men mauled with bronze lance-heads,
Battle spoil, bearing yet dreary arms:
These many crowded about me,
With shouting, pallor upon me, cried to my men for more beasts;
Slaughtered the herds—sheep slain of bronze,
Poured ointment, cried to the gods,
To Pluto the strong, and praised Proserpine.
Unsheathed the narrow steel,
I sat to keep off the impetuous, impotent dead
Till I should hear Tiresias.
But first Elpenor came, our friend Elpenor,
Unburied, cast on the wide earth—
Limbs that we left in the house of Circe,
Unwept, unwrapped in sepulchre, since toils urged other,
Pitiful spirit—and I cried in hurried speech:
'Elpenor, how art thou come to this dark coast?
Cam'st thou afoot, outstripping seamen?' And he in heavy speech:
'Ill fate and abundant wine! I slept in Circe's ingle,
Going down the long ladder unguarded, I fell against the buttress,
Shattered the nape-nerve, the soul sought Avernus.
But thou, O King, I bid remember me, unwept, unburied!
Heap up mine arms, be tomb by the sea-board, and inscribed,
A man of no fortune and with a name to come;
And set my oar up, that I swung 'mid fellows.'
Came then another ghost, whom I beat off, Anticlea,
And then Tiresias, Theban,
Holding his golden wand, knew me and spoke first:
'Man of ill hour, why come a second time,
Leaving the sunlight, facing the sunless dead and this joyless region?
Stand from the fosse, move back, leave me my bloody bever,
And I will speak you true speeches.'
"And I stepped back,
Sheathing the yellow sword. Dark blood he drank then
And spoke: 'Lustrous Odysseus, shalt
Return through spiteful Neptune, over dark seas,
Lose all companions.' Foretold me the ways and the signs.
Came then Anticlea, to whom I answered:
'Fate drives me on through these deeps; I sought Tiresias.'
I told her news of Troy, and thrice her shadow
Faded in my embrace.
Then had I news of many faded women—
Tyro, Alcmena, Chloris—
Heard out their tales by that dark fosse, and sailed
By sirens and thence outward and away,
And unto Circe buried Elpenor's corpse."


Lie quiet, Divus.
In Officina Wechli, Paris,
M. D. three X's, Eight, with Aldus on the Frogs,
And a certain Cretan's
Hymni Deorum:
(The thin clear Tuscan stuff
Gives way before the florid mellow phrase.)
Take we the Goddess, Venus:
Venerandam,
Aurean coronam habentem, pulchram,
Cypri munimenta sortita est, maritime,
Light on the foam, breathed on by zephyrs,
And air-tending hours. Mirthful, orichalci<.i>, with golden
Girdles and breast bands.
Thou with dark eye-lids,
Bearing the golden bough of Argicida.



Source: Poetry (July 1917).




SAUDAÇÃO



Oh geração dos afetados consumados
e consumadamente deslocados,
Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,
Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas,
Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes
e escutado seus risos desengraçados.
E eu sou mais feliz que vós,
E eles eram mais felizes do que eu;
E os peixes nadam no lago
e não possuem nem o que vestir.

(tradução de Mário Faustino)



SAUDAÇÃO SEGUNDA



Fostes louvados, meus livros,
porque eu acabara de chegar do interior;
Eu estava atrasado vinte anos
e por isso encontrastes um público preparado.
Não vos renego,
Não renegueis vossa progênie.

Aqui estão eles sem rebuscados artifícios,
Aqui estão eles sem nada de arcaico.
Observai a irritação geral:

"Então é isto", dizem eles, "o contra-senso
que esperamos dos poetas?"
"Onde está o Pitoresco?"
"Onde a vertigem da emoção?"
"Não ! O primeiro livro dele era melhor."
"Pobre Coitado ! perdeu as ilusões."

Ide, pequenas canções nuas e impudentes,
Ide com um pé ligeiro !
(Ou com dois pés ligeiros, se quiserdes !)
Ide e dançai despudoradamente !
Ide com travessuras impertinentes !

Cumprimentai os graves, os indigestos,
Saudai-os pondo a língua para fora.
Aqui estão vossos guisos, vossos confetti.
Ide ! rejuvenescei as coisas !
Rejuvenescei até The Spectator.
Ide com vaias e assobios !

Dançai a dança do phallus
contai anedotas de Cibele !
Falai da conduta indecorosa dos Deuses !

Levantai as saias das pudicas,
falai de seus joelhos e tornozelos.
Mas sobretudo, ide às pessoas práticas -
Dizei-lhes que não trabalhais
e que viverei eternamente.

(tradução de Mário Faustino)




TENZONE



Será que as aceitarão ?
(i.é., estas canções).
como tímida fêmea perseguida por centauros
(ou por centuriões),
Elas já vão fugindo, urrando de terror.

Ficarão comovidos pelas verossimilitudes ?
Sua estupidez é virgem, é inviolável.
Eu vos imploro, meus críticos amistosos,
Não saiais por aí procurando-me um público.

Deito-me com quem é livre em cima dos penhascos;
os recessos ocultos
Já têm ouvido o eco de meus calcanhares
na frescura da luz
e na escuridão.

(tradução de Mário Faustino)



CINO



Arre! Já celebrei mulheres em três cidades,
Mas é tudo a mesma coisa;
E cantarei ao sol.

Lábios, palavras, e lhes armamos armadilhas,
Sonhos, palavras, e são como jóias,
Estranhos bruxedos de velha divindade,
Corvos, noites, carícia:
E eis que não o são;
Já se tornaram almas de canção.

Olhos, sonhos, lábios, e a noite vai-se.
Em plena estrada, uma vez mais,
Elas não são.
Esquecidas, em suas torres, de nossa toada,
Uma vez por causa do vento, da revoada
Sonham rumo de nós e
Suspirando dizem, "Ah, se Cino,
Apaixonado Cino, o de olhos enrugados,
Alegre Cino, de riso rápido.
Cino ousado, Cino zombeteiro,
Frágil Cino, o mais forte de seu clã bandoleiro
Que bate as velhas vias sob o sol,
Se Cino do alaúde aqui voltasse!"

Uma vez, duas vezes, um ano -
E vagamente assim se exprimem:
"Cino ?" "Oh, eh, Cino Polnesi
O cantor, não é dele que se trata ?"
"Ah, sim, passou uma vez por aqui,
Sujeito atrevido, mas...
(São todos a mesma coisa, esses vagabundos)
Peste! As canções eram dele ?
Ou cantava as dos outros ?
Mas e o senhor, Meu Senhor, como vai sua cidade ?"

Mas e senhor, "Meu Senhor", bá! por piedade!
E todos os que eu conhecia estavam fora, Meu Senhor, e tu
Eras Cino-Sem-Terra, tal como eu sou,
O Sinistro.

Já celebrei mulheres em três cidades.
Mas é tudo a mesma coisa.
E cantarei do sol.
...eh?... a maioria delas tinha olhos cinzentos,
Mas é tudo a mesma coisa, e cantarei do sol.

"Pollo Phoibeu, panela velha, tu,
Glória da égide do Zeus do dia,
Escudo d'azul aço, o céu lá em cima
Tem por chefe tua rútila alegria!

Pollo Phoibeu, ao longo do caminho,
Faze do teu riso nossa chanson;
Que teu fulgor ofusque nossa dor,
E que o choro da chuva tombe sem som!

Buscando sempre o rastro recente
Rumo aos jardins do sol...
..............................................
Já celebrei mulheres em três cidades
Mas é tudo a mesma coisa.

E cantarei das aves alvas
Nas águas azuis do céu,
As nuvens, o borrifo de seu mar.

(tradução de Mário Faustino)






Canto 81


O que amas de verdade permanece,
o resto é escória.
O que amas de verdade não te será arrancado
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
Mundo de quem, meu ou deles
Ou não é de ninguém?
Veio o visível primeiro, depois o palpável
Elísio, ainda que fosse nas câmaras do inferno,
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
O que amas de verdade não te será arrancado


A formiga é um centauro em seu mundo de dragões.
Abaixo tua vaidade, nem coragem
Nem ordem, nem graça são obras do homem,
Abaixo tua vaidade, eu digo abaixo.
Aprende com o mundo verde o teu lugar
Na escala da invenção ou arte verdadeira,
Abaixo tua vaidade,
Paquim, abaixo!


O elmo verde superou tua elegância.
“Domina-te e os outros te suportarão”
Abaixo tua vaidade
Tu és um cão surrado e largado ao granizo,
Uma pega inchada sob um sol instável,
Metade branca, metade negra
E confundes a asa com a cauda
Abaixo tua vaidade
Que mesquinhos os teus ódios
Nutridos na mentira,
Abaixo tua vaidade
Ávido em destruir, avaro em caridade,
Abaixo tua vaidade,
Eu digo abaixo.


Mas ter feito em lugar de não fazer
isto não é vaidade
Ter, com decência, batido
Para que um Blunt abrisse
ter colhido no ar a tradição mais viva
Ou num belo olho antigo a flama inconquistada
Isto não é vaidade.
Aqui o erro todo consiste em não ter feito.
Todo: na timidez que vacilou.

Ezra Pound,Cantos

(Tradução conjunta: Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari)

JORGE TUFIC





























RETRATO DE MÃE


Venham fios de luz, aromas vivos
misturar-se às palavras, à centelha
do louvor mais profundo deste filho
que se depura e sofre com tua ausência.
Venha o trigo do Líbano, a maçã
de que tanto falavas; venha a brisa
tecer mediterrânea esta saudade
que vem de ti quando por ti me alegro.
Que venha a primavera, saturando
vales, planícies, colorindo os montes,
noites de luar caiando os muros altos.
Venha a pedra da igreja onde ficaste
quando em febre te ardias. Venham lírios
rebrotados de ti, dos teus martírios


Teus cabelos castanhos, tuas tranças
fazem lembrar as madres de Cartago.
Doce mãe, sombra tépida, murmúrio
de sonâmbulas fontes; poucos sabem
teu nome, enquanto, fatigada embora,
dás-nos o pão e o leite, a flor e o fruto.
Poucos sabem te amar enquanto viva
e, quando morta, poucos também sabem
da fraqueza que em força transformavas.
Ai, retrato de mãe, quanto mistério
se converte na tímida lembrança
destes álbuns que lágrimas sulcaram.
Na verdade, Ramón, só de lembrá-la
um soluço arrebenta-nos a fala.


Lentilha, azeite doce, o acebolado
chia na frigideira de alumínio;
a casa está repleta de convites
para a janta frugal e acolhedora.
Nos arredores brinca o vento: a cerca
divisória, talvez, nada separa.
Vizinhando quintais vozes fraternas
cantam, mandam recados de ternura.
Assim te vejo, mãe, rosto suado
na lida da cozinha ou pondo a mesa.
Terrinas de coalhada, o pão redondo
a recender de ti, mais que do trigo.
Calendário sem datas, chão de outrora,
como tudo passou se tudo é agora?


Em tudo, minha mãe, te vejo e sinto.
Neste verniz antigo, neste cheiro
suavíssimo que vinha do teu corpo,
do pólen de tuas mãos, do hortelãzinho.
Em tudo, minha mãe, teu vulto amado
se desenha mais firme, e, lentamente,
vem dizer-me aos ouvidos qualquer coisa
desses anos que pesam sobre mim.
Em tudo, minha mãe, vejo este lenço
que à passagem da dor recolhe o traço
do sorriso que foste a vida inteira.
E, mesmo quando morta, entre açucenas,
ainda ressai de ti, poder divino,
a canção que adormece o teu menino.



Numa tarde opressiva de domingo,
o estrondo de tua queda: a irreversível
fratura que me dói quando te lembro
de olhos fixos em mim, quase a dizer-me
adeus, lágrimas ácidas rolando
sobre abismos drenados- tal o impacto
na dureza do chão, tal a dureza
do impacto na ossatura envelhecida.
Ninguém para colher-te o desamparo
desse tombo sem grito; apenas gestos
e vozes pressentidas me indicavam
zombeteiro demônio. Quem mais, Senhor,
de tão covarde, cínico e vilão,
faz da morte uma simples diversão?


Nossa infância era toda iluminada
pelas fontes da tua juventude.
Armadura que tínhamos freqüente
para afastar as sombras e o perigo.
Eram fartos os dias com teus peixes
mergulhados no arroz: postas de ouro
não largavam seus brilhos nem suas luas.
Na escassez, entretanto, te inquietavas.
Ainda te vejo, o porte esbelto indo
por aqueles baldios transparentes
onde a luz, de tão verde, pincelando
os ermos, quanta música expandia!
Voltavas quase noite ao doce abrigo,
e o mundo inteiro, mãe, vinha contigo.


Fui pedir ao canário que me desse
um raspão do seu canto fragmentário;
fui às nuvens do céu pedir mais nuvem
para o leve pedal que emite a voz;
debrucei-me, também, sobre os regatos
em busca de tua face; a brisa, enfim,
tentara descrever-te mas não pôde.
Andei, assim, por montes e calvários.
Ajoelhei-me ante o Cristo, bebi vinho.
Nada pude captar, nenhum remorso
fora maior que o meu nessa procura.
Somente agora, mãe, na tecelagem
destes versos que fiz para louvar-te,
em tudo posso ver-te e posso amar-te.



Estavas, posta no esquife, igual a todas
as defuntas convulsas, lapidadas.
Tão branca e tão distante companheira
destes ventos na pausa da agonia.
Quisera ter morrido quando foste,
nave de ti somente, abrindo rotas
na invisória partida, nesse coro
latente em nossas almas. Parecias
dormir, então, liberta como um trono.
Ó lágrimas de Orfeu, tempo escoado,
corpo de insones ânforas, mãezinha,
que sei de ti nos guantes da saudade?
Que sabemos de ti quando te vais,
se o teu vazio é feito de punhais?




Dormindo vinhas, mãe, já rente à brisa,
aos telhados de Sena, rente às asas
dos Derwiches que em sonho acorrentavas,
rente ao chão, rente à luz, à névoa rente
sobre a qual repousavas como em sonho.
Na música de um verso ou na toada
das cachoeiras, metáforas de ti
sobrevoam meus olhos consolados
pela visão dos seres que encarnaste.
A morte também veio, barulhenta,
mas galáxias cintilam nos teus passos,
vales de auroras curvas te embalsamam.
Por teres ido, fica mais sombria
a terra onde plantaste o nosso dia.




Que restara de ti, dos teus pertences?
Um vestido de linho desbotado,
um sapato comum, chinelo torto,
e nada mais, ó nuvem, se restara.
Tudo posto num saco humilde e roto.
Eu quis, então, medir esse legado,
mas limites não vi para a tristeza.
Davas a sensação de que o tesouro
se enterrara contigo. E era tão leve
quanto um sopro lilás, cantiga doce,
mansidão perdulária, água de fonte.
Como dizer-te verdadeiramente
numa sílaba só? Que eternidade
pode igualar-se à voz desta saudade?



Extravaso em rugidos carcerários
minha raiva de ser todo impotente,
barro de horas fantásticas, mas barro
solancado de escamas, quilhas, peito,
maremoto pulsar, refugo e tábua,
sobras, talvez, calungas e malárias
de um canto mais diuturno, menos frágil,
mais perene ou barroco, mais você
na inventação das ilhas, regelado
marujo, testemunha das nascentes,
dos dilúvios, da Cóchida e Gomorra;
em ti, Jorge de Lima, eu busco a vaca
resoluta dos pântanos enormes,
e louvo a minha mãe, enquanto dormes.



Ampulheta de ignotas ressonâncias,
me contas do teu mar, do teu navio;
mar e portos lavados pelo brilho
dos teus olhos cativos ao marulho
de outros mares guardados bem no fundo
das arcas de teu pai: este luarense
das tascas litorâneas e do vinho.
Que são lucandas, mãe? Que são topázios?
E a Tour d’ Eifel, que nuvens ela toca
ao se erguer entre os pássaros do orgulho?
E, te ouvindo contar destas viagens,
teu filho adormecia, tatuado,
ora pelo rigor de tua costura,
ora pelos encantos da aventura.




Volta comigo o trágico cenário,
e algo de inumerável me angustia.
Um cântico, talvez, de olhos miúdos,
cardume de fantasmas, trastes velhos.
Soma de nossos dias, ponte amarga
entre os bichos e a terra; pedras soltas,
navegantes do caos: roupas no tanque
onde o limo se avilta e se devora.
E o teu sangue, mãezinha? Que algazarra
no espaço vesperal de um plenilúnio
feito de nossas urzes cotidianas!
Deve ser esta a voz que me chamava,
o rosto que me quer. E a luz que fica
neste pátio me açoita e crucifica.





Nem maior nem menor do que ninguém,
me banho deste sol, bebo esta água
e sorvo a taça azul dessa manhã
num canto de quintal feito por ti.
Entre gato e cachorro as folhas verdes
de um jovem pé de frutas: me debruço
lendo as coisas e os seres pequeninos,
umas de tempo findo, outros em luta.
Em luta por um talo ou por um nada,
e na luta maior e mais profunda
dos monturos calados chão adentro.
Vou pedindo licença e vou entrando
nos buracos, nas fendas, neste cheiro
que um dia será rosa em meu canteiro




Foi lendo-te, Chalita, que no breve
mapa do nosso Líbano deparo
a infância de minha mãe: ouro e neve,
o monte, a vida, o sol e o clima raro.
Chat-il-baher, Batrun. Que tinta escreve
o som, a voz, a luz e este disparo
de asas que me escravizam? Tanto deve
ter sido ela feliz e o tempo claro.
Mas o fado, Chalita, esse outro mapa
que em suas mãos eu lia, é tão diverso
daquele em que se nasce e nos escapa.
Brisa mediterrânea, fêmea austera,
seu martírio, depois, lento e perverso,
ainda assim nos trazia a primavera.




RETRATO DE UMA OBRA-PRIMA

Rogel Samuel



É um tema banal, popular, mesmo vulgar. A mãe, já tão gasto motivo dos cadernos poéticos e saudades, pois todos nós tivemos ou temos a mãe a saudar, a lembrar, a louvar, a chorar.

Mas Jorge Tufic é um poeta excepcional: com que realizou sua obra-prima, sonetos pós-modernos em que ele traça o perfil, o “Retrato de mãe“, de sua verdadeira mãe, ou da personagem mãe.

O livro todo está no blog
http://jorge-tufic.blogspot.com/
O pequeno livro é uma obra-prima em quinze sonetos. Começa por uma invocação.
O que lemos aí é a invocação de um sabor (de um saber), de um elemento gustativo, a maçã, o trigo, me o visual, fios de luz, e o táctil elemento do vento, e os aromas, a paisagem, a planície, os montes e as noites, a pedra, a febre, o martírio.


Venham fios de luz, aromas vivos
misturar-se às palavras, à centelha
do louvor mais profundo deste filho
que se depura e sofre com tua ausência.
Venha o trigo do Líbano, a maçã
de que tanto falavas; venha a brisa
tecer mediterrânea esta saudade
que vem de ti quando por ti me alegro.
Que venha a primavera, saturando
vales, planícies, colorindo os montes,
noites de luar caiando os muros altos.
Venha a pedra da igreja onde ficaste
quando em febre te ardias. Venham lírios
rebrotados de ti, dos teus martírios


Invocada, a mãe começa a delinear-se, começa a aparecer, vem em fragmentos, pouco nítida, mas forte, sentida, ou pressentida, sim, começa ele a pintar o retrato interno da dulcíssima Mãe e que logo todos nós assumimos como nossa (quem consegue falar de sua mãe morta sem tornar-se piegas?), conjuntamente, nossa mãe síntese e simbólica, a Fonte, semente e nome de nossa vida, que tudo nos deu.

Tema freudiano, pois.
E no segundo soneto logo aparece um mistério: Quem será este desconhecido Ramón que aparece no penúltimo verso?

É D. Ramón Angel Jara, Bispo de La Serena, Chile, citado no pórtico do livro. No livro há citações, pós-modernidade. Ou seja, a obra se diz: “Calma, eu sou apenas uma obra literária”.
A descrição, o retrato começa pelos cabelos, as tranças, a voz, a lembrança. A fonte do pão, do leite, da flor, do fruto. Mãe que é para “amar depois de perder”, como no verso de Drummond. Na verdade, Tufic, só de lembrá-la um soluço arrebenta-nos a crítica.

Teus cabelos castanhos, tuas tranças
fazem lembrar as madres de Cartago.
Doce mãe, sombra tépida, murmúrio
de sonâmbulas fontes; poucos sabem
teu nome, enquanto, fatigada embora,
dás-nos o pão e o leite, a flor e o fruto.
Poucos sabem te amar enquanto viva
e, quando morta, poucos também sabem
da fraqueza que em força transformavas.
Ai, retrato de mãe, quanto mistério
se converte na tímida lembrança
destes álbuns que lágrimas sulcaram.
Na verdade, Ramón, só de lembrá-la
um soluço arrebenta-nos a fala.

Depois vem a casa, a cozinha, as comidas da culinária libanesa, a lentinha, o azeite, as cebolas fritas, a coalhada, o pão redondo, que a Mãe preparava... mas tudo isso passou. Onde estão as comidas, os pratos de lentilha, a terrina de azeite para as coalhadas, as cebolas fritas? Tudo passou... Como, ao redor da casa, o vento. Como passou o vento do tempo. Também passam a cerca do quintal, os vizinhos, as vozes cantantes, e passaram. E o que passa é aquele Calendário sem datas, o chão do passado, o que passa. A casa da mãe. O que passa. O chiar da frigideira. Os convites. O passado convida o leitor no seu chamado culinário: a mãe é aquela cozinheira das almas, das afetividades, da fraternidade, da ternura, o amor recende dessa mãe cozinheira, que ainda manda seus recados e canta, é assim que ela aparece, suada e infinitamente bela e luminosa, centro da vida familiar. Social.
A mãe é o corpo da “vida privada”.
O que significa vida familiar, vida privada?

A palavra “social” é de origem romana. Os gregos não a conheceram. Societas significava, para os romanos, uma aliança entre pessoas para um fim específico, “como quando os homens se organizavam para dominar outros ou para cometer um crime”.
O pensamento grego era diretamente oposto a esta organização “social”: essa associação natural cujo centro é constituído pela casa e pela família.
A pólis marcava a destruição de todas essas unidades organizadas à base do parentesco. A sociedade representa a família. O ser político, o viver na pólis “significava que tudo era decidido mediante palavras e persuasão, e não através da força ou violência” (ARENDT, Hanna. A condição humana. Rio de Janeiro, Forense/Rio de Janeiro, Salamandra/São Paulo, Ed. Universidade São Paulo. 1981. 339p.). Para os gregos, forçar alguém mediante a violência, ordenar ao invés de persuadir eram modos pré-políticos de lidar com as pessoas, típicos da vida fora da “pólis”, característica do lar e da família, na qual o chefe da família imperava com poderes despóticos; caracterizava a vida dos “bárbaros”, cuja organização era comparada à doméstica.
Toymbee analisou este estado de coisa no seu livro Helenismo (TOYNBEE, Arnold J. Helenismo. Rio de Janeiro, Zahar, 1963. 232p.), em que mostra como a vida familiar era considerada pelos gregos como um lugar onde os participantes estavam sujeitos à perda da liberdade, e à descaracterização de suas individualidades. A vida familiar, diz ele, mantém os homens presos a um elemento por que não optaram e a que não podiam renunciar sem uma violação à própria natureza.
Diz Toynbee:
A vida familiar mantém a humanidade como serva de uma Natureza não-humana. No seio da família, o ser humano não é personalidade independente, com um espírito e uma vontade próprios — é um rebento na arvore da família, que por sua vez e um ramo da árvore evolucionária da vida, cujas raízes mergulham nos abismos do subconsciente (p.55).

A tradução latina do homem como animal rationale é um erro de interpretação. Para Aristóteles (ver PETERS, F.E. Termos filosóficos gregos. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1977. 273p.), o que elevava o homem não era a razão, mas o nous (p.163), isto é, a capacidade de contemplação cujo conteúdo não pode ser expresso por palavras. Todos que viviam fora da pólis eram aneu logou, destituídos não da faculdade de falar, mas de um modo de vida no qual só o discurso tinha valor e sentido, e não a compulsão, não a violência, característica dos povos bárbaros.

Hoje o mundo ocidental vive a nostalgia do antigo mundo grego. Pois na pólis, a mais hábil arma era a capacidade de discorrer uns com os outros, e de argumentar com palavras e não com a ação violenta. Neste sentido vive o mundo moderno fora da pólis, num estado pré-político, em estranha regressão.
Da pólis para a sociedade opera-se uma mudança de pensamento político. Na sociedade, o pensamento político já não é arte política, mas economia, economia social. O que chamamos sociedade passa a ser um conjunto de famílias organizadas do ponto de vista hoje burguês, num ser estrutural chamado Estado. Para os gregos, tudo que fosse econômico não era político, mas estava relacionado à esfera do apolítico da vida privada (isto é, privada de liberdade) da família. A vida privada era o lugar doméstico, privado por definição do espaço público, onde o dialogo era franco. Não é sem razão que os textos de Platão se chamam diálogos, isto é, através do logos. Na vida pública estava o espaço da liberdade dos homens livres, não da dependência, da interdependência. E os escravos eram considerados seres desprezíveis não porque estivessem na condição escrava, mas porque se sujeitavam à escravidão, não preferindo a morte, o suicídio, e não tendo a necessária coragem para a vida de risco e de perigo que constituía a vida dos homens livres, onde o perigo apesar de tudo estava sempre presente: pois outro conceito grego eminente era de que a liberdade — supremo bem a atingir — não significava segurança (inferior condição de sujeição a que estavam sujeitas as crianças e as mulheres), mas perigo e aventura, característica dos heróis.

A literatura grega é uma longa série de batalhas e de mortes, uma ampla apologia da aventura do espaço, da não resignação do homem com qualquer restrição ao seu existir. Homero, pois, principalmente, foi o pai da ética grega. E um herói grego estava na antítese de um moderno burguês.
Portanto, na organização da moderna sociedade burguesa reina o domínio da necessidade, não o espaço da liberdade.
O moderno é, por definição, passivamente adaptável, resignado e satisfeito com a sociedade e bem-estar que esta pode proporcionar-lhe. Um ser descaracterizado. A política da pólis não se mostrava meio de segurança social. As sociedades que se seguiram à pólis grega representaram um conjunto de interesses; seja a sociedade feudal, seja a sociedade burguesa, seja a sociedade socialista.
A liberdade, até o avento da sociedade moderna, significa não a liberdade individual, mas a liberdade social, o que começa a mudar no comportamento pós-moderno.
A força da violência está desempenhada atualmente pelo Estado, encarregado de vigiar e punir.
A força e a violência nascem, portanto, universalidade, da raiz da sobrevivência.
Para os gregos, toda forma de governo, tal como o entendemos hoje, representava um estágio totalitário, pré-político, em que predominam a submissão e a falta de espaço, formas desprezíveis de viver.
A vida familiar centralizada ao redor da “mãe”, assim como a vida pública, o espaço público, se refere à vida fora de casa, no espaço da cidade, manifestada pela figura paterna.
A vida familiar é o regaço, materno. O colo, o abrigo. Nela somos todos infantes.



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As noites voadoras de Jorge Tufic

Rogel Samuel

Na poesia de Tufic tudo voa, são estrelas, cintilam caminham no céu daquela Amazônia mítica, luas várias luas que se contam com as mãos, narrativas dos nossos mitos, viagem dos Desâna, canoas de cristal, transformadoras, estórias e sabenças de quem vive sozinho no meio do mato, faro de onça, muirakitãs da lua nua, que se despe na entressafra do amor,

despenca uma folha
e o verão estremece

Passarinhos que ouvem nossas conversas, na terra macia escrevemos nossos textos (nunca se sabe, tampouco, - porque se chama de vazio – o espaço da natureza).

Que será de ti, Amazônia? Cavidades, rangidos

Subitamente sou árvore,
flor, pássaro e livro.
Um livro cujas páginas
tomaram a cor e o risco
da música e da pedra.

..........
cinzel que não fere,
da jaula inconsútil.

(Texto escrito com “Quando as noites voavam”, de Jorge Tufic – Fortaleza, 2011.
Ele é o grande cantor da Amazônia!)










Pacote poético



Rogel Samuel






Recebo um pacote pelo correio, um pacote amarelo que apalpo e que sinto, há objetos dentro, possivelmente livros: sim, são cinco novos livros de Jorge Tufic que eu lhe pedi pelo telefone e eu fico me lembrando que, há quarenta e três anos atrás, ele publicava o seu já clássico Varanda de pássaros.

Como pode Jorge Tufic manter 43 anos ininterruptos de poesia apesar da crise por que passa a produção cultural brasileira e a amazonense em particular? Porque depois daquele grupo do Clube da madrugada muito pouco produziu a poesia de Manaus.

Eu adolescente e Tufic já era dono de uma poderosa lira que se afirmava principalmente nos seus sonetos extraordinariamente inovadores. Na década de 80 nós nos correspondíamos, depois ele se foi para Fortaleza e o perdi de vista. Soube que foi homenageado no Rio de Janeiro, onde moro, mas não o vi porque estava viajando.

A última vez que o encontrei foi no ano passado, em Manaus, no Galo carijó, onde gosto de almoçar sempre que estou em Manaus (também deparei ali com o Thiago de Melo, donde se conclui ser aquele bar um ponto da poesia presente).

Agora, além de seus cinco livros, vieram várias pequenas publicações, entre as quais o belíssimo Agendário de sombras, uma coleção de sonetos dos quais cito, ao acaso:

Necessito do rio e da paisagem
que me vira partir quando menino.
da visão surpreendida ou desse quanto
pode haver em redor do meu destino.
eram coisas e seres do meu tempo,
partes de mim que a vida, em seu balanço,
foi deixando passar, nuvem sujeita
aos ventos, matéria sujeita ao ranço,
rubros sóis de verão, coleita breve
de azeitonas e ocasos, também contam.
Soldado entregue ao chumbo dos brinquedos,
ao som, talvez, das águas deste inverno,
quero sentir na pele evanescente
como eu seria agora, antigamente.

Ao poetas menores como eu, Tufic humilha, com a força da sua Linguagem: mas como pessoa ele tem a gentileza dos mais nobres corações e nos brindou com imerecidas dedicatórias.

Dentre sua produção recente, no ano passado ele publicou Sinos de papel, um delicioso livro de haikais que bastaria para o consagrar:

Paineira caiada
Por uma lua de espuma
Tão cheia de nada.

Jorge Alaúzo Tufic nasceu no dia 13 de agosto de 1930 e publicou seu primeiro livro aos 25 anos. A Amazônia dele se orgulha.


(Rio, 30 de setembro de 1999)





alguns dos "sinos de papel"





Jorge Tufic








oculto no dom
de não ser ninguém
o grilo é som...



pétalas de mim
cultivo num jarro velho
que já foi jardim



em tantra medito
o saber é uma pedra
a mulher, o seu grito



ah, delicadeza
a mosca, senhora tosca
baila sobre a mesa


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ODE À AMÉRICA DO SUL


Que o boné de Pablo Neruda
e a lágrima fluvial de Santos Chocano,
e o grito de Allende
(enquanto os fuzis do terror e do medo
repetiam o massacre da liberdade),
venham flocar este chão consagrado
por tantos modos e cantos diferentes,
oh América do Sul.
Os cravos de tuas noites mergulham
na plumagem das Cordilheiras,
e os ramos da paz que te ilumina
e o relincho das pedras que desenham
bisontes e tempestades,
pousam como fósseis alados
em tuas crinas de esmeralda.
De Santa Marta à Terra do Fogo
tuas espigas rebentam colares de jade
e cintilam nas máscaras de ouro
roubadas aos templos do sol
e às pirâmides da lua.
E ao sopro nativo da flauta
exilada entre colméias,
um tesouro de vasos, borboletas
e animais de uma fauna imaginária,
sacode o pó da argila e do granito
em suaves movimentos.
Atlantes e Laoccontes
vigiam tuas muralhas indormidas,
mas deixam livres as fronteiras do sonho.


















II

Com a espada de Bolívar
e a prosa rubra e latejante de Sarmiento;
com as vestes de Antonio Conselheiro
e a nervura semântica de Euclides da Cunha;
com a suavidade de um verso de Lugones
e os contos gauchescos de Simões Lopes Neto;
com os arcos e flechas dos incas e aimarás
e a clepsidra das ruínas de Zaculén;
com as cinzas do uirapuru do Amazonas
e os depurados muirakitãs do Espelho da Lua,
eu te louvo, América do Sul,
agora que revejo tua cerâmica do Marajó,
tuas matas e teus rios,
tuas cidades e tuas pontes,
teus barcos possantes, tuas fábricas
e tuas manchetes; e ouço a voz
dos teus regatos, as canções de teus povos
e vejo, deslumbrado,
que uma ciranda feita de arrulhos e girassóis
te enlaça, constantemente,
do Atlântico semeado de praias
ao Pacífico de pássaros
e fontes azuladas.

























III


Quantos martírios e sucessos
pontilham tuas manchas ocres
em cada solo ferido ou conquistado!
Lembras-te, por acaso, dos gestos em forma de dança
de teus ancestrais caribenhos?
Do milho cor de cereja dos Aruakes?
Dos artefatos barrancoides dos Walpés?
Dos dialetos tecidos com a envira do silêncio
e a toada dos riachos verdejando os caminhos?
Da antigüidade seletiva dos tucanos,
muras e cambebas?
Lembras-te, por acaso,
da bola de sernambi que estes últimos
te deram, ainda em pleno século XVII,
e do jogo que eles jogavam
num campo sem traves e sem torcidas?


Numa rede de dormir
os brancos degustam teu massacre
mas olvidam o teu legado,
esse imenso legado que sucedera ao jugo,
impiedoso e cruel,
daqueles teus primeiros habitantes,
plantadores de sombras,
raízes da terra.
Guitarras, malária, devastação e confisco,
eles trouxeram de tudo.
Mas tomam caxiri no delicado suporte
de uma cuia rústica ou pitinga;
alimentam-se de farinha de mandioca
e têm muito de si no caboclo que se espreguiça
para não ir ao trabalho;
e têm muito de si na mestiça que se vende
por las calles y los pueblos;
e têm muito de si, também,
nessa fusão de sons e melodias
que fizeram do nheengatu das águas pretas
a língua franca dos mitos
e do lendário esquecido.








IV

Imitas um coração populoso e tranqüilo.
Tens a forma de harpa ou alaúde
com doze cordas festivas.
E ainda podes ser vista como um rosto enigmático
voltado para si mesmo.
Desigualdades e semelhanças predominam
assim, de um lado e de outro,
entre vales, planícies e altiplanos.
Em qualquer Atlas se lê, por exemplo,
que há fome na Bolívia,
que há tango, festas e greves na Argentina,
que o Chile exporta minérios e vinhos,
que o Brasil é o maior destes países,
que o Equador tem reservas de prata e ouro,
que o Peru não se expande,
que o Paraguai continua bloqueado
sem saídas para o mar.
Em teu próprio nome, oh América do Sul,
e em nome da história que te deram,
hás de entender, no entanto,
que ninguém pode ser feliz
quando está cercado pela miséria,
seja a miséria do egoísmo,
seja a miséria das guerras;
que ninguém pode ter paz
quando há golpes e matanças
do outro lado de suas fronteiras.
Hás de saber entrementes que,
por cima da fala dos caudilhos,
paira a linguagem fluida ou tormentosa
daqueles que te celebram;
inclusive daqueles que apodrecem em tuas mansardas
ou se debruçam nas torres de vidro;
ou daqueles, ainda, que se confundem
com os traços das telas que azedam em teus sótãos
e em tuas águas-furtadas.
Estes homens de letras ou picassos anônimos
entregues à corrosão que desfigura
e ao abandono que mata.












V

Quantos equívocos te cercam
antes e após a descoberta, por ti,
do torno do oleiro, da roda e do arado?
Que simpáticas figuras transoceânicas
poderiam ter-te doado,
oh América do Sul,
carrinhos votivos de cerâmica,
travesseiros de barro
e selos em forma de bujarronas?
E as tuas escritas?
Terão sido trazidas por quem
- fenícios, gregos, romanos –
se colocam na origem de teus índios?
Fascina acreditar, em vez disso,
que provenhas, isto sim,
de alguma centelha que se fez Avalon,
Atlântida ou Atlas,
segundo escrevem as aves migratórias
quando te buscam nos pélagos,
e adivinham teus ecos profundos
nas cavidades do espanto.





























VI

A cidade perdida dos incas
são tantas cidades quanto as portadas
que levam à presença do sol;
e dali ao rio de espelhos e cardumes intactos,
e dali às cavernas talhadas a ouro,
e dali aos túmulos daqueles que sucumbiram
ao peso dos colossos que protegem a montanha
das patas ecoantes de Espanha.

Em cada milímetro quadrado
das alturas que saltaram de mares incalculáveis,
Amarus confundem a inteligência
dos homens de Pizarro.
Labirintos ficaram, boiunas coleiam
na ouriversaria das auroras.
E ninguém poderá decifrá-las.

Para Iucay se evadira Manco.
E uma das primeiras guerrilhas da história
consegue fazer das trilhas enganosas
o desgastante baralho das Cordilheiras.
A imagem de raios solares
com mais de cem toneladas,
em que leito de Vilcabamba
terá se consumido em miríades de estrelas?

Em Cajamarca, enfim, morrera Atahualpa.
Em Viticos, chega a vez de Manco Inca.
Sayri Tupã e Tito Cusi também foram imolados.
Tupac Amaru expira em Cuzco
levando no olhar a música do império.

















VII

Grande é o solar do tempo nesta aldeia
onde um galope nunca se interrompe.
Este chão de Pizarro em Guamachucho
de lavas contraídas pelo medo.
Escarpas traçam rápidas figuras,
pousam brilhos de séculos vencidos.
E um velho terremoto, agora fóssil,
arroja um tigre do alto de um penedo.
A noite é um vinho branco. Mas o sangue
que transborda do lago, não descansa:
quer vingar a cobiça, o fogo e a traição,
estes três assassinos de Atahualpa,
daquele em cujo peito o sol dos incas
despedaça o seu último clarão.


VIII

Nos porões soterrados debaixo
das cidades, deuses animais de terracota
aparecem ao lado da serpente,
e ao lado da serpente
paradigmas antropomórficos.
Foi assim que teus nativos,
pescadores de Valdívia,
dominaram os ornatos circulares:
perfis abstratos,
bizarras entidades híbridas
sobressaem nos relevos celestes;
e ao lado destes, ardósias cônicas,
traçados olmecas.

Um portal contendo símbolos xamãs
e sarcófagos dourados,
torna visível o silêncio dos mortos
na estática de teus músculos altivos
prateados de neve.

A Quinta Era, afirmam ali,
pertence a Tonatiú, o deus Sol,
habitante dos leques das palmeiras;
e há de ser confirmada por graves,
extensos abalos.
Pumas alertam para as ameaças que sobem
das Ilhas Arqueanas.





IX (a lição dos rios)

Tentando lavar este sangue
inutilmente derramado,
de cinco mil metros de altura despenca o Vilcanota;
ele vai mudando de nomes
até unir-se às águas revoltas
do lendário Urubamba.
Este, por sua vez, se socorre do Apurimac,
quando formam, juntos,
o Rio Amazonas.

Muito tarde, porém.
Um grande exemplo despercebido.

Esses rumores até hoje incessantes,
este chamado das vertentes comuns,
somente os poetas o sabem distinguir
na diversidade que amalgama
e na dor que ensina.
































X (balada enquanto seja)

Ao contrário de outras águas,
nosso rio é movimento,
serpe andina em debandada
vai ele em busca do mar;
desde que nasce de um fio
por ondas rola barrento,
vem à tona e vira vento,
é estirão que sai do nada.

Rio de lendas ficou,
matreiro, curvo e norato,
seu berço de concha e lua,
com três nomes de batismo,
três caminhos sete bocas
por onde bebe a tormenta;
mas tem mágicas, puçangas,
e a cada estória, se aumenta.

Pântano cósmico, diz-se
por quem o lê pelo avesso,
por quem ouve a queixa inata,
por quem adentra seus peixes,
por quem taboca faz beiço
e sopra o fogo da enchente,
pois este rio é começo
da febre que torra a gente.

Ao contrário de outras águas,
o Amazonas, como um todo,
pode tornar a seu fio
como náufrago do lodo.


















XI (Thiago de Mello)

Por caminhos de San Tiago,
volta o poeta das angras
a quem doara o seu canto
pela causa dos humildes.

Levara o corpo sadio,
como quem leva a esperança
marcada a fogo no brigue
que, novo, se lança ao mar.

Os Estatutos do Homem
riscando o teto da noite
com seus mastros decididos,
quantos vilões não cegaram!

Mas, igual à copa náutica
das sapopemas gigantes,
que pelas vias de Tiago
desprendem flocos de sonho,

retorna, depois da luta
para o feno das raízes:
a copa – rica de estrelas,
o tronco – de cicatrizes.


























XII (a Pedra do Reino)


Como então esquecer,
neste painel de teus milagres,
oh América do Sul,
a oficina armorial desse múltiplo Ariano Suassuna,
a poesia e a prosa que se deixam fundir
em seu romance d´A Pedra do Reino?
Assim também, igualmente,
como esquecer os poemas de Carlos Newton Júnior,
a cerâmica de Côca,
as lâminas e os palimpsestos de Virgílio Maia
ou a tenda agreste, mística e versátil de Audifax Rios?
E como esquecer as andanças dos ¨padeiros¨cearenses
em busca das cacimbas,
do aboio crepuscular,
do alpendre de seus avós e da espada
de algum rei com sua túnica de abelhas?
Pois é das artes desse Ariano vulcânico
e de seus valerosos cavaleiros,
as surpreendentes iluminogravuras,
diante das quais apenas o arco-íris, o novilúnio
e as doze talhas apócrifas da Via Dolorosa,
não são réplicas inúteis.

























XIII (entrefala e louvação)


Deixemos, portanto, as amoras,
o etéreo veludo celeste, o filme vazio,
a novela das oito
e as ruas por onde não passaram
bandeiras despedaçadas por um grito maior
que a esperança dos mortos.

Deixemos de lado as violetas
que ardem nos versos prematuros
daqueles que nunca percebem o gemido
das salamandras
nem a fuga dos girassóis alucinados.

Deixemos de lado o jarro de Matisse,
a gôndola que imita o cisne de Isolda,
as olheiras roxas das janelas caiadas
pelo terror dos massacres.

Louvemos Neruda que, em sorvos miúdos,
provara do vinho amassado com a terra,
o suor e as lágrimas de quantos,
no Chile, na Espanha e na Turquia,
conseguiram, em seus momentos finais,
erguer a face do entulho e da lama,
cuspir na bota dos tiranos.

Louvemos Neruda pelos gestos perenes
de salvar um carneiro da morte,
uma rosa da escuridão e muitos,
centenas de amigos,
do cárcere infecto e da bofetada humilhante.

Saudemos Neruda
com uma taça de beija-flores.














XIV (sursum corda habemus)


O giro vesperal das andorinhas
sobrevoa os transcursos das cordilheiras;
paira, depois, sobre os telhados gastos
pelo mofo dos armários vazios
e o esquecimento das chuvas.
Elas tomam as sereias de tuas falanges,
dedilham a ira dos terremotos.
Mais do que nunca teu coração vacila,
mas sente-se pleno em curtir a polêmica união
entre o Ocidente dos filósofos
e a pátria dos cardos ensolarados.
Terá sido esta a pausa dos monumentos,
o tremor que se estabiliza nos ossos,
a reflexão que se deixou cair das pálpebras de água
no enterro dos navios.

Uma sombra te acompanha desde que nasceste,
orográfico e triste,
de pais que vestiam a paisagem dos trens de ferro
com os andrajos da mulher de Bolívar,
a insepulta de Paita.
Teus versos são lições de uma geografia da alma,
rochedos floridos de ternura.
Soltos na madrugada,
eles rastreiam fragrâncias, matizes,
números e signos gravados na espuma
e no cansaço das festas.
São metáforas da hora incalculável,
a incrível marca do passageiro.

Depois das estradas, Neruda,
o amor te concedera uma pausa,
um silêncio neutro que irrompe dos tanques
cobertos pelo trigo;
uma pausa que pergunta a cada coisa
se tem algo mais. E a cada palavra
endereça uma rosa. Neruda épico, lírico,
e que tampouco deixa de seguir os passos noturnos
de Lautrèamont, de Pascal e dos Três Mosqueteiros.


Teus cantos são cantarias de luar,
pólens de ouro e neblina.
Oh América do Sul


(Publicado no jornal O PÃO de Fortaleza-CE, Ano V-No. 36-em 13-12-1996). Atualizado em 2008)..




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Guimarães e Tufic



O ilustre poeta e ensaísta Jorge Tufic, como membro do Clube da Madrugada, recepcionou e foi hostess do escritor Guimarães Rosa quando este esteve pela primeira e única vez em Manaus, em 15 de janeiro de 1967. É sobre esse encontro, ocorrido há 42 anos, que Tufic nos conta um pouco.



Revista Literária – O que Guimarães Rosa veio fazer em Manaus naquele ano de 1967?

Jorge Tufic: Guimarães Rosa esteve em Manaus de passagem para uma reunião diplomática, se não me engano, em Bogotá, na Colômbia. Questões lindeiras.



RL – De quais atividades, culturais ou não, ele participou na cidade?

JT: Não houve tempo para isso. GR nos dera a impressão de que estava querendo aproveitar os dois dias que passaria em Manaus, a) conhecendo o Clube da Madrugada e b) ultimando questões diplomáticas do Itamarati (ao mesmo tempo em que se empenhava em experimentar um suco de taperebá). Tentei ajudá-lo nesse último desejo, mas, lamentavelmente, ainda não era época da fruta.



RL – A vinda do escritor famoso mexeu com a comunidade literária de Manaus? Cite nomes de quem participou da estada dele na cidade.

JT: De fato, mexeu com a turma do Clube. O restante dos intelectuais e escritores da terra, visceralmente apegados à tradição acadêmica, ficara à distância. Tanto que não houve imprensa nem fotógrafo no jantar que lhe fora oferecido pelo Clube da Madrugada, ali na Peixaria do Balaio, ou do velho Francisco, ao lado fluvial da Igreja dos Educandos. O Clube em peso compareceu ao ágape: Aluisio Sampaio, Ernesto Pinho Filho, Afrânio Castro, Saul Benchimol, Francisco Batista, Sebastião Norões, Farias de Carvalho, todos, enfim, com algumas exceções. Vale informar que ele, o grande Guimarães Rosa, ficou na berlinda diante de seus mais aferrados leitores, como Ernesto Pinho e Aluisio Sampaio, dando respostas breves, contudo substanciais quanto às personagens realmente polêmicas de seus romances, a exemplo de Grande Sertão Veredas e Sagarana. Outro fato histórico nessa sua rápida passagem por Manaus: dali a uma semana o nosso ilustre visitante tomaria posse na Academia Brasileira de Letras. Logo a seguir, se “encantaria”.



RL – Que impressões, em você, ficaram dele?
JT: Impressões indefiníveis só comparáveis a um prêmio que eu tivesse recebido, ainda sem o merecer. GR era um ser todo afeto, carinho verbal, solicitude, companheirismo nas andanças por onde quer que o levássemos, talvez para demonstrar com isso a plenitude da criatura, antes do criador. Quanta saudade ainda hoje sinto dele, quase uma falta, apesar das poucas horas de nosso contato.



João Guimarães Rosa, mais conhecido como Guimarães Rosa, nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 27 de junho de 1908. Foi um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos, bem como médico e diplomata.

Os contos e romances escritos por Guimarães Rosa ambientam-se quase todos no chamado sertão brasileiro. A sua obra destaca-se, sobretudo, pelas inovações de linguagem, sendo marcada pela influência de falares populares e regionais. Tudo isso, somado a sua erudição, permitiu a criação de inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos e palavras populares, invenções e intervenções semânticas e sintáticas.

O escritor morreu de infarto, dez meses depois de ter vindo a Manaus, em 19 de novembro de 1967, no Rio de Janeiro.

Guimarães Rosa em Manaus

Jorge Tufic, jorgetufic@hotmail.com



Considero imperdoável a omissão de um fotógrafo no jantar, a céu aberto, que o Clube da Madrugada ofereceu ao romancista João Guimarães Rosa, em sua única visita a Manaus, ocorrida a 15 de janeiro de 1967. Vinha o escritor em missão diplomática, mas a primeira coisa lembrada por ele não foram os pontos turísticos nem os homens de letras. Foi um refresco de taperebá. Pronunciava o nome da fruta com a mesma ênfase, o mesmo carinho ácido, a mesma teimosia infantil com que dava ao buriti de seu lugar de nascimento o feitio acabado de uma personagem de suas novelas. Este episódio tipicamente roseano é aludido pelo ensaísta Ítalo Gurgel, no estudo admirável que publica sobre “João: Um Vaqueiro de Cartola”: “As alusões ao buriti tornam-se, às vezes, quase obsessivas, como neste trecho do conto “Cara-de-Bronze”: “... e água, e alegre relva arrozã, só nos transvales, cada qual, se refletem, orlantes, o cheiroso sassafrás, a buritirana espinhosa, e os buritis, os ramilhetes dos buritizais, os buritizais, os buritizais, os buritis bebentes”. E Carlos Drumond de Andrade, mineiro como o nosso ex-diplomata, indaga num poema dedicado ao conterrâneo: “Tinha pastos, buritis plantados/ no apartamento?/ no peito?”.



(Trecho de uma crônica de Jorge Tufic, no seu livro “Tio José”, sobre a primeira e única vinda de Guimarães Rosa a Manaus, há 42 anos).


AO FINGIDOR


Jorge Tufic

Revejo a praça, o bar, o teatro, a igreja.
A tarde deixa o dia ali na esquina.
Logo chega o Simão, e a noite ensina
que antes do papo venha uma cerveja.

Agora o bar do Armando é uma oficina.
Em cada peito um fingidor lateja...
Zemaria sussurra, alguém troveja,
mas tudo é festa, brinde, serpentina.

Que seria de nós ou da Poesia,
se além da “crise” bar virasse banco,
praça, estacionamento, o que seria

das estrelas, do nimbo e do luar,
se de repente um verso – azul ou branco –
já não tivesse mais onde pousar?

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QUASE TEATRO – PURO CINEMA




Almir Gomes de Castro lança um livro surpreendente –Kuriquiã --,biografia romanceada, de sopro épico. É a vida, na região acreana do Alto Purus, de imigrantes da família do brilhante poeta Jorge Tufic, que lá abriu os olhos para o mundo e viveu a infância e além dela, transferindo-se depois para Manaus. Vale-se Almir da primeira pessoa, como se o poeta contasse essa odisséia dos que vieram de longe, além mar, nordestinos e habitantes da selva, com os seus segredos, sustos, dura realidade e lendas, em amostragem um tanto teatral e cinematográfica. Surpreendente como o autor praticamente tudo transferiu para o campo das falas, exsurgindo disto uma visão bastante impressionista das personagens e da região. O narrativo, com isto, comanda a história, e o descritivo tornou-se quase elíptico, sem perder nenhuma qualidade criadora ou desvirtuamento da verdade. E o curioso vai mais longe: o poeta Jorge Tufic, personagem principal, narrador, pouco aparece, mas está presente nas entrelinhas como uma sombra quase palpável, e o drama e a trama da história fogem do caminho estreito e se ampliam na vida das personagens e da região.
Eu sabia palidamente das origens acreanas do grande poeta Jorge Tufic. E agora, neste livro, vi, palpitando, em que mundo ele nasceu ,cresceu e absorveu desse mundo real e encantado, sem perder os liames seculares dos seus. A ótica narrativa abre-se muito, com suas tramas difusas e ao mesmo tempo unas, trazendo ao vivo a vida das personagens, e ele, o poeta, parecendo se resguardar, não fica em segundo plano, eis que é um espelho acompanhando tudo de perto.
A ascensão do poeta na vida, em Manaus, e projetando-se nacionalmente, vem em fulguração rápida. O livro é um recado: este é o seu passado, estas as suas raízes, laboratório da sua caminhada. E aqui chegou com nova arte poética, respeitada e admirada no país inteiro.
Este livro é cinema. Daria um belo filme.
Almir Gomes de Castro soube treliçar e destreliçar os cordéis para escrevê-lo. E o poeta é mais do que merecedor desta quase prece.
É tão fácil tirar a prova... Bastará ler o livro.


Caio Porfírio Carneiro