quarta-feira, 21 de abril de 2010

PE. NONATO PINHEIRO















É conhecida a secura ou aridez dos cientistas na composição de suas obras, posição até certo ponto compreensível e legítima, já que a ciência é, de sua natureza, austera e objetiva, dispensando os recamos e as louçanias da literatura, da eloquência e das artes, em geral. A literatura é a arte literária, e o artista preocupa-se com o sentido e a plenitude da beleza. Dele diremos o que disse lindamente a Escritura Santa daqueles Varões Insignes, que viveram com a volúpia da beleza: Pulchritudinis studium habentes! (Livro do Eclesiástico).



O homem de letras, a não ser que se trate de um borra-tintas ou um tamanqueiro, esmera-se em suas produções, chegando alguns ao requinte (que não exige) de transformarem suas páginas em obras de arte, esculturas marmóreas, vasos alabastrinos, cromos, cinzeladuras, vitrais, cornucópias e arranjos de rosas, acanto e louro!



O mundo da ciência não conhece ornatos e arabescos, nem se engalana de púrpuras e damascos, mas investiga com frieza a fosforescência do vagalume e a fissura do átomo!

A verdade nua e limpa é que Nunes Pereira, antes de ser o cientista qualificado nos domínios da antropologia cultural, da flora, fauna, potamografia, limnologia, climatologia, bromatologia e mitologia da Amazônia, já se notabilizara como primoroso homem de letras, inspirado poeta simbolista, que muito de indústria escolheu para seu patrono na Academia Amazonense de Letras, da qual foi um dos fundadores, o autor incomparável dos Faróis e dos Broquéis, o glorioso negro de imaginação de ouro, Cruz e Sousa!

Devo à minha pachorra e volúpia no trato da pesquisa o conhecimento que tenho da obra literária de Nunes Pereira. Passei muitas horas nos porões do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, do qual sou membro efetivo e benemérito, a consultar as coleções dos antigos jornais de Manaus. Encontrei sonetos lapidares do autor de Moronguetá e de Panorama da Alimentação Indígena, poemas verdadeiramente antológicos, de sonoridade verlainiana!

Os caminhos da vida ou a própria imposição da sobrevivência deram-lhe outra orientação intelectual, com incursões pela ciência. Como quer que seja, quem o ler, mesmo de inopino, logo percebe o cientista lírico, cuja formação literária suaviza e aveluda suas elucubrações científicas! Enganam-se pois, os que supuserem que o cientista asfixiou e extinguiu o primoroso homem de letras, como na imagem do apuizeiro das florestas amazônicas, estrangulador de espécies vegetais...
A obra literária de Nunes Pereira pede meças à obra científica, só que a primeira azula nos longes de sua mocidade, mas persiste, árdega e garrida, nos jornais e revistas do passado, na Revista da Academia Amazonense de Letras e nas conferências literárias que proferiu, assim no Amazonas como alhures. Recordo-me de uma palestra magistral que pronunciou na sede de nossa Acrópole literária sobre as grandes figuras que a enramaram de louros e mirtos. Ao império de sua admirável evocação, aqueles vultos olímpicos ressuscitaram, retornando redivivos ao recinto azul da academia, revestidos de clâmides refulgurantes, sob os olhares atônitos do presidente Péricles Moraes e de seus confrades, cabendo-me a honra e o júbilo de encontrar-me entre eles!
Nunes Pereira correspondia-se com o famoso antropólogo Claude-Lévi Strauss, o celebrado mestre de Triste- Tropiques; La Pensée Sauvage; Le cru et le cuit e Du miel aux cendres, que o tinha no mais alto conceito científico. Revistas especializadas em antropologia cultural e tribos indígenas brasileiras disputavam a publicação de seus trabalhos, tal o recorte científico que os distinguia! 

E que dizer do boêmio?! Sua vida boêmia não o impediu de atingir a mais provecta senectude, acentuadamente luminosa, conservando até ao ocaso de sua longa existência, referto de ouro e matizes policromos, como o crepúsculo do sol, a força extraordinária de sua portentosa mentalidade! E suas rodas escocesas eram verdadeiros triclínios de letras e saraus de cultura, sempre cercado de intelectuais! 

Eu sugiro a meus ilustres Pares da Academia que a cadeira que o grande maranhense ocupou, passe a crismar-se com o nome de NUNES PEREIRA, e que seja dado o seu nome, pela Prefeitura Municipal, a uma rua ou logradouro público de nossa capital, pelo muito que o nosso Amazonas lhe ficou a dever, assim nas ciências como nas letras!  

Parodiando um lúcido espírito francês, proclamo, entoando a antífona de minha admiração fervorosa, após incensar com redolências seu túmulo em flor:


“Uma águia gigante sobrevoou nosso espaço...”






Pe. Nonato Pinheiro

Rogel Samuel

Li no excelente Blog do Coronel, de Roberto Mendonça, que o Pe. Nonato morreu num cubículo, “morreu em 7 de dezembro de 1994, em um cubículo no subsolo de um hotel, situado na avenida Joaquim Nabuco, em Manaus, abandonado, solitário, cercado apenas de livros aos quais tratou com estima e apreço”.

Ele era um homem ilustre, quando o conheci, sempre elegante na sua batina, e frequentava a mais culta sociedade de Manaus. Respeitadíssimo.

Foi professor de latim de minha mãe. Ele gostava muito de minha mãe, porque ela se chamava Stella, e ele logo a mandava declinar o substantivo.

Amigo de Álvaro Maia e outras personalidades, certa vez o encontrei no gabinete de Genesino Braga, na Biblioteca Pública. Genesino me apresentou e apertamos as mãos. Naquele momento pude ver como ele era uma pessoa frágil. Suas mãos tremiam. Ainda que jovem, uns 40 anos talvez, o rosto marcado pelo sofrimento, aquela arrogância era uma capa protetora, tinha toda uma sociedade contra si, difamado que era.

O melhor prosador de sua época, seus escritos estão perdidos nos jornais de Manaus. Inteligentíssimo, muito culto, memória fotográfica, dia virá em que seus artigos serão editados em livro.

O melhor de sua prosa está espalhado em jornais e revistas e nas colunas que assinou.

Fui aluno de sua mãe, Diana Pinheiro, naquele casarão da vinte e quatro de maio.

E fui seu leitor assíduo.

PlNTURA DA CATEDRAL 

PE. NONATO PINHEIRO



Promovida pela Paróquia de N. S. de Nazaré, com a cooperação das demais entidades católicas desta Capital, iniciou-se e vai engrossando com as mais risonhas perspectivas de êxito a campanha em prol da pintura da nossa Catedral, tradicionalmente conhecida como a "Igreja Matriz". 

  
O movimento teve sua origem nas justas preocupações do nosso mundo católico, tendo à frente, naturalmente o cônego Walter Nogueira, responsável direto atual pela paróquia da Matriz, em torno do centenário do principal templo religioso desta cidade, a ser comemorado, com regozijos característicos, no ano vindouro.

Recorte do jornal A Crítica 

Primeiro, houve a preocupação de fazer a Matriz passar por uma reforma de fachada, inclusive no seu jardim, pela qual, aliás, nos batemos desta coluna, sugerindo que essa última parte fosse feita, com a cooperação efetiva e indispensável da Prefeitura. 
E o nosso mais tradicional e pitoresco templo de orações católicas, verdadeira sentinela e símbolo da religiosidade do nosso povo, logo passou a sofrer os reparos transfiguradores da sua vetusta fisionomia ostentando, já agora, clarões de beleza, à vista de todos, como que a anunciar a aproximação da sua data maior.


Para acontecimento de tanta magnitude, porém, o pensamento teria de encontrar, forçosamente, ideias correlatas. 

E assim deve ter sido concebida a reforma pictórica para o teto da imponente igreja, entregue, já agora, aos cuidados de artista de fama internacional que presentemente se encontra em Manaus. 


Transformada em plano, como era de esperar, a ideia tomou vulto para definir-se nos seus termos reais, em que de todo lado ressalta a sua harmonia com os legítimos anseios do povo desta cidade, no sentido de dotar a sua Catedral, através da reforma já iniciada, da configuração artística que ela merece, e, de outro lado, as despesas necessárias a tal empreendimento.



Para não nos alongarmos nestas considerações, queremos deixar patente que somente a pintura do teto será feito por algumas centenas de milhares de cruzeiros. E o que é interessante é que os recursos terão de provir, na sua quase totalidade, da contribuição particular de todos os (ilegível) da Catedral aqui e em todo o Amazonas. 



Por isso tratando-se de assunto ao qual a imprensa, como instrumento de esclarecimento do povo e de defesa das suas mais caras tradições, não podia ser indiferente, é que a A.A.I. [Associação Amazonense de Imprensa], por decisão unânime de sua diretoria, tendo à frente o presidente Aristofano Antony, resolveu assumir o patrocínio da campanha, desenvolvendo, concomitantemente com o dinâmico cônego Walter, um trabalho de angariação de fundos perante os católicos desta terra e todos aqueles que, afastados dos verdadeiros espíritos religiosos, compreendem perfeitamente que "nem só de pão vive o homem", mas, vive, igualmente, das tradições espirituais da sua cidade, com suas belezas arquitetônicas, seus templos de arte etc. 



Correm, assim, nesta Capital, os títulos de participação financeira na pintura maravilhosa que irá ter nossa Catedral os seus amigos, que, acreditamos, são todos os amigos de Manaus. Com um pouco de boa vontade, os comerciantes e industriais que, apesar de não estarem ganhando como desejavam, possuem, ainda, o conforto que a grande massa obreira somente conhece de notícia, poderão ajudar nossa querida Catedral. Poderão, também, ajudá-la, com os excedentes das mesas de jogo, das boates, dos clubes elegantes, dos picniques e regabofes, todos os que participam desses entretenimentos. 



Poderão ajudá-la, finalmente, todos os que, apesar da inflação, não estão passando fome e, por isso, com um pouco de boa vontade, devem aproveitar a oportunidade de contribuírem para o progresso da cidade, para aumentar o seu patrimônio artístico, que é uma riqueza comum, pertencente a todos, ricos, remediados e pobres ou miseráveis. 



DATE OBULUM – é o pedido, para os que podem, partido da campanha em favor da Catedral. Será que alguém, podendo satisfazê-lo, se negará.? Não acreditamos. 

A campanha continua comandada pelo cônego Walter e os homens da imprensa amazonense, como frisamos ao início, com as melhores perspectivas de êxito retumbante.



 

PADRE NONATO PINHEIRO
(1922-1994)







PADRE AGOSTINHO


Já repousas no céu, padre Agostinho
depois de dezesseis lustros de vida
Oitenta anos de luz e insana lida
mostrando à mocidade o bom caminho
Tua alma sempre em flor, alma de arminho
Tornava-te a batina preferida
em meio a petizada protegida
na casa de Dom Bosco, flóreo ninho
Como em frasquinho cabe muita essência
foste gigante em corpo pequenino
Qual no sacrário a augusta Onipotência
Em vez do De-profundis, canto um hino
Porque chegastes ao fim de tua existência
Sem deixares jamais de ser menino.





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Letras e Livros

Padre RAIMUNDO NONATO PINHEIRO

(Da Academia Amazonense de Letras)

1 O escritor João Nogueira da Mata teve a gentileza de enviar um exemplar de seu livro “Nos Prélios da Vida” ao autor destas linhas. Creio que, mais do que minha condição de sacerdote e de acadêmico, prevaleceu outra, porventura mais forte, que ora revelo: a de ter sido seu discípulo de língua portuguêsa, quando cursava humanidades no Colégio D. Bosco. Entre os professôres e os aprendizes, perduram sempre pela vida laços de estima e recordação. E estima foi precisamente que meu antigo mestre usou na dedicatória com que me obsequiou o volume.

2 Quando frequentei o currículo ginasial no tradicional estabelecimento salesiano, ocuparam as cátedras de língua portuguêsa, sucessivamente, os professôres José Chevalier, João Nogueira da Mata e Leopoldo Péres. Do primeiro tive a honra de ser sucessor na cadeira n.° 20 da Academia Amazonense de Letras, cujo patrono é Afonso Arinos, e sucessor ainda nas funções de secretário do Sodalício, que êle desempenhou com tanto luzimento e com tanto carinho. Em 1934, minha turma estava no primeiro ano ginasial, quando recebíamos as preleções de Chevalier.

3 Entre os meus colegas recordo a presença e o convívio do jornalista Neper Antony, e do governador Plínio Ramos Coelho, ao tempo bons companheiros, pois o azul sereno daqueles dias longínquos não podia ser atingido pelos nimbos plúmbeos d’a competições partidárias. Em 1936, assumiu a cadeira o professor Nogueira da Mata. Era deputado e concluia o curso de Direito. Guardo de suas aulas as melhores recordações, pela assiduidade e pela competência com que regia a cátedra. Nos dois últimos anos do curso, surgiu a figura inolvidável de Leopoldo Péres, com suas aulas magistrais de literatura.

4 Li com atenção devida o livro de estréia de Nogueira da Mata, vulto de notável saliência em nossa intelectualidade. Além de sua cultura opulenta, que todos reconhecemos, prima pelo alto teor do equilíbrio e serenidade com que caracteriza seus atos, o que lhe proporciona um halo de respeito, que provoca admiração. Em magnífica apresentação dos Editôres Sérgio Cardoso & Cia. Ltda., o autor oferece-nos discursos e trabalhos de imprensa que lhe assinalam as etapas da vida, tecida de lutas e vitórias. O título da obra reflete o sentido da luta, com que o escritor se dispôs a aceitar as vicissitudes da existência.

5 No que entende com a sintaxe, o livro de Nogueira da Mata muito se recomenda. Conhecedor do idioma, faz timbre de escrever com asseio e elegância, respeitando como poucos os cânones gramaticais, certo daquela verdade proclamada por nosso João Leda, em sua primorosa obra “Nossa Língua e Seus Soberanos”, “sem decente gramática, não há idéia que sobrenade” (pag. 172).

6 Lamento não dispor de mais espaço para tecer algumas considerações em tôrno dos assuntos que enchem os capítulos. Gostei do elogio de Leopoldo Péres, cuja glória em face da Valorização da Amazônia é inauferível. Outros já tentaram apoderar-se dela, como gralhas que se enfeitam com penas de pavão. A posição estelar de Leopoldo Péres, na obra de soerguimento da Amazônia, não pode ser esquecida e deve ser realçada pelos amazonenses.

7 O Amazonas encontrou em Nogueira da Mata um admirável antesígnano de sua grandeza e um denodado arauto de suas reivindicações. “Nos Prélios da Vida” devia estar nas mãos dos nossos jovens, que se preparam para a vida, como um livro-incentivo e um despertar de energias. Aquelas palavras à mocidade, discurso de paraninfo aos novos contabilistas do Colégio D. Bosco, é uma obra-prima no gênero. Lembrei-me das clássicas alocuções de paraninfo proferidas pelo genial Rui Barbosa. E Nogueira da Mata teve o mérito da síntese. Com duas páginas apenas traçou o roteiro de glórias para a glorificação de qualquer moço idealista.

8 Faço votos que o livro se divulgue e derrame seus clarões sôbre as caminhos da mocidade. E que seja o passaporte para a imortalidade acadêmica, porque Nogueira da Mata merece essa glorificação. Regosijar-me-ei com a ascenção, quando obtiver um sólio entre os príncipes da nossa intelectualidade.

(In. João Nogueira da Mata. “Flagrantes da Amazônia”, Manaus, 1960).










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APARIÇÃO DO CLOWN


Padre Nonato Pinheiro

da Academia Amazonense de Letras



O poema que o padre Luiz Augusto de Lima Ruas chega de dar a lume, oferece margem a vários estudos, entre os quais podemos ressaltar o processo amodernado de sua expressão literária (tema que vem sendo objeto de estudos e debates nestes últimos tempos) e a própria interpretação. Quanto a este particular  o da interpretação da mensagem do autor  fê-lo em alto estilo e largo fôlego o acadêmico André Araújo, que escreveu para prefácio uma de suas mais suculentas produções. Creio mesmo que poucos compreenderiam o alcance dessa mensagem sem a mão guiadora do prefaciador, que talvez pressentindo os apuros do leitor (evidentemente me refiro ao leitor “leigo”), quis logo oferecer-lhe um par de pupilas devassadoras para alcançar num flagrante o sentido e a beleza do poema.

Antes de me reportar à analise da obra, no tema profundo e capital que lhe compõe o arcabouço e lhe revela todo o “substratum”, desejo tecer algumas considerações acerca da linguagem do poema.

Como se sabe, ultimamente vem ocupando a atenção de não poucos estudiosos a questão concernente à expressão literária. Assim da prosa como da poesia. Eu próprio já me ocupei neste cotidiano associado, do concretismo na poesia, tentando dar uma súmula de minhas leituras relativamente ao assunto. Agora já se tenta outra experiência: o da prosa concreta. Venho acompanhando com o mais vivo interesse (não com simpatia, confesso de peito aberto, mas com aquela intenção de que, deseja acompanhar o que se passa no Brasil e no mundo, no campo das letras) alguns debates que se estão travando na imprensa metropolitana, dos quais participam, principalmente, os intelectuais Reynaldo Jardim, Assis Brasil, Theon Spanudis e A. Casemiro da Silva. Reynaldo Jardim é o pioneiro no Brasil dessa tentativa no campo da prosa concreta.
Entendem alguns que há necessidade de se plasmar nova expressão literária, desvinculada ou desvencilhada da tradicional, da que recebemos em legado de nossos antepassados. Alguns poetas e prosadores não hesitaram em romper com essa tradição e passaram a cometer em suas obras certos “atrevimentos” sintáticos, certas novidades “insólitas” no campo da linguagem, imprimindo em seus trabalhos sintomas evidentes de uma ruptura (pouco importa se tenta ou violenta) com a disciplina gramatical que aprendemos nos bancos escolares. Para não me referir à poesia, em cujo campo as ousadias são mais incisivas, poderei citar o caso, aqui no Brasil, do escritor Guimarães Rosa, cuja expressão literária representa um abalo da sintaxe portuguesa, sem embargo de representar, como acentuou com muita propriedade Assis Brasil, a “marca de um narrador clássico, de ressonâncias épicas”.

Outros entendem que não é possível o desvinculamento da tradição, fato que só se conseguiria com a supressão da própria linguagem. Reynaldo Jardim, porém, não pensa desse modo. Para ele, “se há alguma coisa nova a dizer (o galicismo sintático não me pertence) já não pode ser dita, esteticamente, com o material em circulação” (Jornal do Brasil, 21.XII.1958). Como se vê, Jardim fica adstrito ao campo “estético”. Outros ainda opinam que não é possível continuarmos com a mesma expressão sintática tradicional, nesta época em que o homem já “enfadado de viver neste planeta começa a farejar os astros, na ânsia insopitável de conhecer outros mundos”.

Confesso lealmente que não alcanço a necessidade de renunciarmos a velha sintaxe, que é a espinha dorsal de uma linguagem e a mais alta expressão do seu gênio, só porque estamos a pique de ir à Lua ou a Marte. Não compreendo porque o homem não possa levar consigo para os astros um volume da Divina Comédia, de Dante, ou o Hamlet, de Shakespeare, ou Os Lusíadas, de Camões, ou mesmo um romance de Jorge Amado. Não vejo a necessidade irrecorrível de se levar apenas prosa concreta e poesia concreta.

Com a nova fase interplanetária, que se vai abrir, quando o mundo se torna cada vez menor pela facilidade incrível de comunicação, meu ponto de vista é totalmente diferente. Sustento a tese (quem quiser, pense o contrário) de que ficaremos com uma só língua para expressão comum dos nossos sentimentos; ou o russo, ou o inglês, ou o francês, qualquer que seja o idioma. É evidente que o português está fora dessa cogitação; idioma que as nações supercivilizadas fazem questão de relegar ao ínfimo lugar. Prova disso é a declaração recente de um francês (li isso em Paris Match) que, regressando a Paris de uma viagem ao Rio de Janeiro, assim se expressou numa entrefala concedida aos ávidos noticiaristas de um grande jornal parisiense: “Não tenho palavras para exprimir o meu deslumbramento pelo Brasil. É, de fato, o país do futuro, onde se sente a palpitação de uma grandeza verdadeira. Trago, porém, ao lado desse deslumbramento, uma impressão dolorosa”. E o entrevistado concluiu, observando a expressão de interesse contido nos olhos arregalados dos jornalistas: “É que no Brasil se fala o português”.

Como quer que seja, creio que no mundo do porvir, ou em outros mundos que estão a ponto de serem descobertos, e cuja expectativa começa a provocar um estremeção nos códigos jurídicos, com a criação do “Direito Interplanetário” (quando teremos em nossa Faculdade a criação da cadeira?!) só se falará um idioma, sem sotaque, sem regionalismos, sem variantes léxicas ou sintáticas. Enquanto não se operar essa transformação radical, deixemos que os nossos poetas e especialmente os nossos ficcionistas se preocupem com a renovação da linguagem. Eu ainda vou ficando com a velha sintaxe tradicional, embora já me preocupe com o estudo da língua russa.
A verdade, porém, é que essa questão de renovação literária não é tão “nova” como se pensa. Muito antes de Joyce já se tratava desses processos. Daqui a pouco a coisa ficará tão velha como a Sé de Braga. Seja como for, vou acompanhando com olhos bem abertos todas essas inovações, mesmo em outras línguas. Em França há o caso curioso do romancista Michel Butor. Sabe o leitor como esse escritor narra. Simplesmente usando a segunda pessoa do plural.

Voltemos, porém, ao romance do padre Luiz Ruas. Não suponha o leitor que o talentoso sacerdote, sem favor uma das mais altas expressões culturais do nosso clero secular, e da nossa intelectualidade, seja um iconoclasta da linguagem tradicional, e já se exprima em prosa concreta ou poesia concreta. Nada disso. Preferiu um meio termo: conservou a sintaxe, mas aboliu as notações sintáticas e as maiúsculas. Sabemos que as notações sintáticas são os sinais ou símbolos que auxiliam a compreensão do escrito, determinadas pelo sentido e pela necessidade de respirar. São os sinais de pontuação. O padre Ruas, salvo engano de minha parte, só conservou no poema o ponto e o ponto de interrogação. Salvo engano também, só encontrei três vírgulas em toda a brochura (pp. 33 e 37), o que me leva a imaginar que se trata de cochilos do compositor, ou linotipista.

O que interessa, contudo, (e é o que só importa) no poema do padre Luiz Ruas é a mensagem, a um tempo lúcida e dolorosa, do seu poema. Já lhe fez a exegese profunda e minuciosa a pena autorizada de André Araújo. O poema “canta a excelsa angústia humana, representada na figura exótica do clown” (p.11). Efetivamente, é uma análise (poética, é verdade, mas ao mesmo tempo profunda e até angustiada) da alma humana, ou do homem, essa estranha simbiose, ou esse amálgama indecifrável e apaixonante de anjo e demônio. O poeta fez o seu descobrimento. Muitos já fizeram no passado o descobrimento desse “velho clown” (para me servir da palavra inglesa, já que o poeta encontrou nela mais sabor do que nos velhos vocábulos “bufão”, “truão”, “arlequim”, ou mesmo no tradicional “palhaço”. Alguns o fizeram em grande estilo, como o brilhante Shakespeare e o fabuloso Molière, dois profundos analistas da alma humana, dois insignes descobridores de “clowns”.

O palhaço tem sido objeto de numerosos estudos através dos tempos. Muitos zombaram dessa figura estranha, encarnação viva do disfarce. A verdade é que o palhaço também zomba, muitas vezes, dos espectadores. Lembro-me de uma cena num dos palcos de França. Toda a representação do palhaço consistia numa longa e saborosa gargalhada. O teatro repleto. O palhaço ria, ria a bandeiras despregadas, e no fim elucidou a longa gargalhada. “Vocês pagam para ver um palhaço no palco; eu recebo para ver mil palhaços na platéia, nas frisas, nos camarotes e nas arquibancadas...”

A verdade verdadeira é que só descobrimos o “clown” nos outros, e nunca em nós mesmos. Parece que Jesus deu a chave do enigma, ao declarar no seu Evangelho: “Como vês a palha no olho do teu irmão; e não vês a trave no teu? Ou como ousas dizer a teu irmão: deixa que eu tire a palha do teu olho, tendo uma trave no teu? Hipócrita: tira primeiro a trave do teu olho, e então tratarás de tirar a palha do olho do teu irmão”. (Mateus, 7: 3-5.)

O autor veio renovar o eterno tema do destino do palhaço, que é sempre “fundir o alegre riso e o triste pranto” (p.17). Reconhece (p.25) que ele se parece “com o menino que somos e com o inferno que não deixamos de ser”, carregando aquele “fado torturante de ser ave sem poder voar”, “de ser clown”. (p.34)


Não se pense que o padre Luiz Ruas descobriu a América. Ele próprio já havia descoberto o “clown” há muito tempo. Afirmou, à p.17, que verificou ser inútil o seu esforço “de descobrir integralmente o clown”. É força de expressão. Eu e ele, e todos os padres, descobrimos integralmente e diariamente o “velho clown” nas páginas do Breviário Romano, leitura cotidiana e obrigatória para todos nós. Nos salmos bíblicos, que compõem o travejamento, ou o vigamento da oração litúrgica está o “velho clown”, vivo e inconfundível, com o riso e o pranto, com as grandezas e as misérias, com os vôos altaneiros e as depressões dolorosas e letais. Antes que Molière compusesse as suas Précieuses ridicules, já Davi e os demais compositores dos salmos punham no maior relevo aquela “interrogação verde no cenário de carmim”, da página 21. Nos salmos deparamos vivo esse como “precioso ridículo”, que é o homem ou essa “preciosa ridícula”, em vez de um Molière zombeteiro, encontrou um analista profundo e misericordioso na inspiração suprema e divina do Espírito Santo. A verdade é que aí está o “clown”, não em silhuetas mas na sua “dimensão total” (p.29).

Como quer que seja, o poeta padre Luiz Ruas quis re...car o velho tema. Quis “redescobrir” o “velho clown”, e o fez em páginas cintilantes, com trechos soberbos e admiráveis como os de “aviso” e “legado”, este último uma esplendida apoteose de asas onde só falta aquele par de asas divinas, que é o mais alto vôo e o mais alto abrigo para o “velho clown”, e por cuja sombra suspirava o salmista: “sub umbra alarum tuarum protege me” (Salmo 16: 8).

O tema é fascinante. Ortega y Gasset também versou, com o esplendor do seu estilo grandioso, o assunto, velho é sempre novo. Afinal tinha razão o velho João Ribeiro, quando afirmava: “não há questões novas, o que há são questões velhas que se renovam periodicamente”. O padre Luiz Ruas, com a argúcia de seu espírito perquiridor e a opulência vigorosa de sua imaginação de poeta, produziu um poema magnífico, onde há lances de rara sensibilidade e descrições de faiscante colorido. A publicação do livro, em feitio moderno, com algumas tendências de renovação literária, representa uma vitória do autor e uma conquista das próprias letras no cenário da nossa intelectualidade. ◊






1 Coluna Letras & Livros, Jornal do Commercio, 5 de fevereiro de 1959.







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Uma lâmpada que se apagou

O Jornal, 26.04.1970


Custou-me acreditar na dura realidade, quando liguei o meu receptor no momento exato em que a estação noticiava o falecimento de Aderson Andrade de Menezes, um dos espíritos mais lúcidos da intelectualidade contemporânea de minha terra. Conheci-o pessoalmente em 1947, através de um circunstância a um tempo litúrgica e filial, quando me foi cometida a incumbência de celebrar, durante um ano inteiro, uma vez por mês, as missas em sufrágio da alma de seu genitor, na igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Impressionou-me a assiduidade desses irmãos à missa mensal mandada rezar pela família na intenção de Tude Henriques de Menezes. Foi o início do nosso conhecimento. Eu, jovem padre, e ele, já bacharel em Direito, com seu conceito firmado na sublime esfera da inteligência.


Um dia, sou chamado à residência do escritor Péricles Moraes, presidente da Academia Amazonense de Letras. Era eu o secretário do sodalício. O eminente crítico literário, que foi, a muitos títulos e a todas as luzes, o maior escritor do Amazonas, estava preocupado com o preenchimento das vagas da confraria. Naquele tempo, o processo não era o da inscrição do candidato. Os próprios luminares do Areópago das Letras, com suas pupilas de lince, escolhiam seus novos Pares. Sentia-se a preocupação do inolvidável presidente na seleção dos novos acadêmicos. Repugnava-lhe o ingresso, para o cenáculo das letras, dos medíocres e mistificadores literários. Chamou-me para conversarmos de espaço sobre os valores da terra no campo da literatura e da cultura literária. Sempre receou, contudo, a eventualidade de uma recusa por parte do candidato, o que seria, de qualquer maneira, desprimoroso para a Academia. Confiou-me a missão sigilosa e diplomática de consultar os doutores Abdul Sayol de Sá Peixoto e Aderson Andrade de Menezes sobre como receberiam sua eleição para a “Casa de Adriano Jorge”. Cumpri a missão, segundo suponho, a contento. Ambos responderam que, se bem consideravam excessivamente honrosa a distinção, não cometeriam a indelicadeza de uma recusa. E foram eleitos: Abdul, para a cadeira de Eduardo Prado, que pertencera a seu glorioso pai, o desembargador Antonio Gonçalves Pereira de Sá Peixoto; e Aderson, para a cadeira de Silvio Romero. O primeiro, porém, não tomou posse de sua poltrona, que foi declarada novamente vaga, decorrido o tempo previsto e concedido pelo Estatuto.


Notei que Aderson se entusiasmou pela concessão da láurea acadêmica. Dentro em breve tomava posse da poltrona de Silvio Romero, que encontrou grávida de esplendores, pois nela sucedeu ao grande Alfredo da Mata, cujo retrato fidelíssimo nos traçou em seu discurso de recepção, (...)


Aderson entrou para a Academia na presidência de Waldemar Pedrosa, seu grande amigo e mestre, de quem nos legou precioso estudo, entronizando a pena no cérebro e no coração, e que constitui seu canto de cisne, seu nupérrimo livro Waldemar Pedrosa (notas biográficas e textos documentais). Foi recebido, sous la coupole, pelo acadêmico Aristophano Antony, que proferiu, a meu juízo, um dos seus mais belos e substanciosos discursos, em estilo eminentemente acadêmico, limado e polido.


Aristophano fez ligeiros reparos ao discurso de Aderson, no que prendia aos títulos de Alfredo da Mata. Mencionou que o ilustre médico pertenceu aos Institutos Históricos do Ceará, Pernambuco, Sergipe, Bahia, Rio Grande do Sul, São Paulo, sendo ainda sócio ad honorem das Academias de Ciências, de Lisboa e de Estocolmo, tendo sido agraciado por 34 faculdade de medicina de vários países, inclusive pela famosa Sorbonne, que lhe conferiu o titulo de professor honoris causa.


Não resisto a tentação de transcrever o seguinte trecho do formoso discurso de Aristophano Antony, talvez o mais cintilante e comovedor, quando a Academia coroava de louros a fronte de Aderson Andrade de Menezes:


“Aqui chegastes, depois de fácil caminhada, entre epinícios consagradores ao vosso êxito. Nesta hora que vos será, como também a nós, inesquecível, os nossos corações comungando os mesmos ideais, pulsam ritmados por igual emoção.” (...) “Não vos arrependereis, entretanto, do convívio dos vossos confrades, que vos acolhem de encontro ao coração. Eles vos falarão sempre aquela linguagem do afeto e do carinho, linguagem que possui a claridade das estrelas e a suavidade encantadora das rosas.”


Uma vez acadêmico, Aderson Andrade de Menezes teve rebrilhante relevo na Casa de Adriano Jorge e Péricles Moraes. Foi quem recebeu no sodalício o acadêmico José Lindoso, eleito para a cadeira de Araujo Lima, e seu contemporâneo no Colégio Estadual e na Faculdade de Direito. (...)


O egrégio extinto foi diretor da Faculdade de Direito do Amazonas, e de sua passagem por essa Casa deixou profundos e lampejantes sulcos, chegando a escrever-lhe a História, quando das comemorações cinquentenárias dessa benemérita instituição, para a qual entrou com a suculenta e magistral tese “Do Mandato político na democracia representativa” (Tese de concurso à Cátedra de Teoria Geral do Estado, na Faculdade de Direito do Amazonas), para cuja feitura consultou um elenco de obras notáveis, o que positivou os altos quilates de sua erudição. Catedrático de Teoria Geral do Estado, deu à estampa um precioso manual da matéria, que o revelou contubernal dos mais insignes mestres do Direito (...)


Que direi dos cargos que ocupou? Em todos se houve com brilho e elegância: diretor da Faculdade de Direito; diretor da Penitenciária Central; Chefe de Polícia; diretor da Faculdade de Ciências Econômicas; juiz substituto da Capital; secretário de Educação e Cultura e magnífico Reitor da Universidade do Amazonas.


No exercício de alguns desses cargos manifestou extremos de renúncia, tolerância e generosidade. A mim me confiou, em sigilo, que apurou graves irregularidades administrativas de um antecessor seu, num desses cargos. Exibiu-me documentos, ajuntando de logo: “Creia-me, padre Nonato, que não será molestado. Ficarei apenas com a documentação no meu arquivo.”


Como jornalista, Aderson brilhou com impressionante claridade. Recordo-me de uma coluna diária, que ele manteve longo tempo no Diário da Tarde. Eram comentários cintilantes, que de pronto refletiam a inteligência do autor. Um dia não me contive, e perguntei ao amigo Almir Correia, esposo de Amélia Archer Pinto Correia, quem era o redator da coluna. Almir logo me matou a curiosidade: era o Aderson!


Não posso esquecer o orador. Tive ocasião de ouvir grandes discursos de Aderson Andrade de Menezes. Foi orador oficial do Atlético Rio Negro Clube. Como conversador, foi dos mais notáveis que conheci. Sabia prender o interlocutor.


Transferido para Brasília, não morreu sem primeiro cumprir uma destinação que se impusera: biografar o ministro Waldemar Pedrosa, que o amava como a filho. Foi o seu canto de cisne. (...) Meu amigo Satyro Barbosa cedeu-me o seu exemplar para uma leitura, a um termo remansada e emocionante, porque o autor já não se encontrava entre os vivos. Teve a amabilidade de citar um trecho de meu discurso, proferido na Academia na sessão de saudade, realizada no trigésimo dia do falecimento do preexcelso amazonense, em cujo espírito Deus acendeu as estrelas de todas as nobrezas.

Grande Aderson! Só me falta falar do excelente irmão e filho que soubeste ser, e só não o faço, para não ensopar meu artigo com as lágrimas de tua extremosa mãe, cuja dor só não é infinita porque é infinita a consolação filial de teus grandes irmãos!...






Os Clássicos da Língua


Cada vez mais me convenço, e não cesso de o repetir aos que me interpelam, que o mais excelente para aprender um idioma é o contubérnio com os seus melhores escritores, os que chegaram a tal apuro de correção vernacular, que se apresentam como guapos e cadimos padrões de boa linguagem. São os clássicos de língua. Impede que não confundamos alhos com bugalhos. Há autores que se reputam clássicos em determinado ramo do saber humano, mas que o não são quanto à linguagem, por falta da necessária correção. Euclides da Cunha, por exemplo, é clássico da amazonologia, mas não é clássico da língua portuguesa. Péricles Moraes com muita razão declarou, no seu admirável estudo acerca dos intérpretes da Amazônia, que todos são “caudatários de Euclides”. No que tange, porém, ao apuro da linguagem, pela correção gramatical, o autor de “Os Sertões” e de “A margem da história” não atingiu as alturas em que brilharam Rui Barbosa, Gonçalves Dias e Machado de Assis, três notáveis brasileiros que se tornaram padrões de legítima linguagem portuguesa.
Que são clássicos? Podemos aceitar o conceito de José de Sá Nunes, em sua “língua vernácula”( 1.ª e 2.ª séries, pág. 105 da segunda edição ): “Escritores de grande autoridade, que servem de modelo no uso da língua vernácula”. Agrupamo-los em duas categorias: Clássicos antigos e modernos, aceitando-se ainda a classificação entre brasileiros e portugueses.
De entrada desfaço a ilusão em que laboram não poucos estudiosos da língua, supondo que os clássicos sejam necessariamente escritores antigos, mais ou menos como os santos padres da Igreja, que integram e preenchem determinada época da historia. Nada mais falso. A razão está com Francisco Barata, autor de um precioso livrinho, já raro no tempo de Rui Barbosa, e, pelo mesmo elogiado, em termos enaltecedores, titulado “Estudos da língua portuguesa”, onde ensinou: “Clássico é o que melhor e mais primorosamente escreve numa certa época”. (Cfr. “Replica”, nº 193). Segue-se daí, evidentemente, que sempre haverá clássicos, uma vez que em todas as épocas brilharão modelos de boa linguagem, de acordo com o estilo do tempo. Daí também se deduz a infantilidade de muitos, que identificam as obras clássicas com coisas borolentas, como se a correção gramatical fosse apanágio do passado.



São muitos os clássicos antigos, à frente o culminante Camões, autoridade que sobreexcede todas, no dizer de Sá Nunes. Para Rui Barbosa, era “o maior dos maiores”, como se lê na famosa “Réplica”, n.º 222, livro admirável que não pode faltar numa estante de língua portuguesa. “Os Lusíadas”, poema imortal que se inclui entre as melhores obras da literatura universal, é a Bíblia da língua portuguesa. Nenhum estudioso do idioma tem o direito de ignorar as páginas eternas de Camões. O preexcelso vate abre necessariamente a litania dos clássicos da língua.


Entre os clássicos antigos, distinguimos: Frei Luiz de Sousa, Padre Antônio Vieira, Padre Manuel Bernardes, Gil Vicente, Fernão Lopes, Damião de Góis, João de Barros, Bernardim Ribeiro, D. Francisco Manuel de Melo, Jacinto Freire de Andrade, Frei Heitor pinto, Padre João de Lucena, Duarte Nunes, Filinto Elísio, Frei Tomé de Jesus e muitos outros.


Rui Barbosa, na “Réplica”, cita freqüentemente os clássicos antigos, revelando conhecimento profundo de todos. Creio, porém, que poderei dar um conselho aos novos. O importante não é conhecer todos os clássicos antigos, mesmo porque muitas de suas obras se esgotaram. Conhecemo-los através das antologias. Eu recomendaria o estudo de quatro que me parecem sobreexcelentes: Camões, Vieira, Bernardes e Luís de Sousa.


De Camões, nada mais tenho que dizer: é o primeiro!
O padre Antonio Vieira é um dos principais clássicos antigos. Era um dos prediletos de Rui Barbosa, que lhe chamava “um dos três ou quatros grandes cimos clássicos do nosso idioma” (“Réplica”, nº 232). É ainda nesse livro, que consulto quase diariamente, que topamos esta passagem do mestre a respeito do egrégio jesuíta: “No meu longo trato com os livros do exímio escritor português, etc.” (nº 453). São célebres os “Sermões” de Vieira, em número aproximado de duzentos. Aí está a opulência da língua, nas variedades de seus modismos, das suas construções, e na imponência da sua majestade. Aí esta também a assombrosa erudição do padre, em cuja cabeça faiscavam centelhas de genialidade. Além dos “Sermões”, temos as “Cartas” do jesuíta, também numerosas. A “Arte de Furtar” provavelmente não é da autoria do eminente sacerdote. Vieira, entre os clássicos antigos, talvez seja o que mais se aproxime da nossa linguagem de hoje. Há trechos que nenhum português ou brasileiro da atualidade ousaria alterar, tão modernos nos parecem.


O Padre Manuel Bernardes é outro clássico antigo de nomeada. Seu estilo, porém, difere muito do estilo do Padre Vieira. Todos conhecem o célebre paralelo entre Vieira e Bernardes, da lavra do insigne Castilho. Vieira é a tempestade; Bernardes é a bonança. Vieira é o mar encapelado; Bernardes é o lago sereno, a refletir as lucilações das estrelas. Vieira é a força; Bernardes é a doçura. Entre as obras mais excelentes do oratoriano, cito “Nova Floresta” e “Luz e Calor”, modelos de melhor prosa portuguesa.


Frei Luís de Sousa é outra sumidade. Para João Ribeiro era “o mais melodioso, e acaso o mais puro de todos os prosadores de nossa língua”. Para Herculano, era “o maior dos nossos clássicos”, conceito que arpoei na “Réplica” (nº 197). É autor da famosa “Vida de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires”, célebre Arcebispo de Braga, que muito se distinguiu no Concílio de Trento.


Quem conhecer esses quatro clássicos, dentre os antigos, pode ficar tranqüilo.

Passemos agora aos modernos que podemos classificar em duas categorias: portugueses e brasileiros.

Dos portugueses, parece-me que o mais insigne é Antônio Feliciano de Castilho. Sá Nunes o tinha na conta de “o mais puro dos clássicos modernos”, como se lê em sua “Língua Vernácula”, terceira série, pág.201. Pedro Pinto afirma, em seu livro “Locuções e Expressões na Réplica de Rui Barbosa” ( pág. 11 ), que o lê desde menino. Rui Barbosa sempre o colocou nas alturas. Citarei alguns tópicos da “Réplica”, em que o grande brasileiro canoniza o glorioso clássico: “Subamos, porém, ainda. Vamos, dentre os mestres da língua, ao maior: a Castilho Antônio”, (nº 74)
“De todas as autoridades, porém, há um, que por cima de todas sobreleva: a daquele, que Silva Túlio aclamava o nosso pontífice contemporâneo em pontos de fé gramatical, a de Castilho Antônio. Filólogo, poeta e prosador insigne entre os mais insignes, esse clássico, o maior dos da nossa língua no século dezenove”. (nº 201)


Além de Castilho, é de justiça citar outros clássicos portugueses de fama: Camilo Castelo Branco, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Latino Coelho e Rebelo da Silva.


Camilo é o fabuloso romancista português, um dos melhores clássicos da língua, em cujas obras se ostentam a opulência e o colorido do nosso vocabulário. É o escritor mais fecundo da língua. Parece que a cegueira foi a causa do seu lamentável suicídio. Era um dos clássicos prediletos do nosso João Leda, que escreveu “Os Áureos Filões de Camilo”. Aliás, é vastíssima a bibliografia acerca do iminente e donairoso prosador. O próprio Castilho lhe chamou “o mais opulento dos nossos clássicos”, depoimento que Rui transcreveu na “Réplica” (nº 205).


Alexandre Herculano recomenda-se pela grandiosidade do seu estilo. Em Latino Coelho admiramos a eloquência da linguagem. Seus escritos dão-nos a ilusão da tribuna.


O Brasil apresenta também clássicos de nomeada, verdadeiros padrões de boa linguagem, que ombrearam com os melhores clássicos de Portugal: Rui Barbosa, Machado de Assis, Gonçalves Dias, João Francisco Lisboa, Sotero dos Reis, Carlos de Laet, Francisco de Castro e outros. Lisboa escreveu a vida do padre Vieira. Sotero dos Reis conhecia a língua profundamente. Chamou-lhe Rui “mestre de mestres”. O maior clássico brasileiro é incontestavelmente Rui Barbosa, o grande, o fabuloso Rui. Entre suas obras, sob o aspecto de linguagem, recomendo “A Réplica” e as “Cartas de Inglaterra”. O primeiro livro prende-se á famosa polêmica que manteve com o velho Carneiro Ribeiro. O segundo exibe uma linguagem excelente e foi revisto escrupulosamente pelo autor.



Aí estão alguns clássicos da língua, modelos perfeitos de boa linguagem. Devemos compulsar-lhes as obras como recomendava o mestre João Ribeiro, em suas “Páginas de Estética”: “Os nossos clássicos escreviam com lenteza e com vagar é que compunham. Não podem, pois, ser devorados dum trago como os livros de hoje improvisados num lanço”.

Mais do que nas regras gramaticais, aprendemos a língua nas páginas culminantes dos seus mais excelsos artistas e prosadores, que detinham em suas penas o senso profundo da vernaculidade.

A MISSÃO DOS INSTITUTOS HISTÓRICOS  


Grande e benemérita tem sido no país a missão dos Institutos Históricos e Geográficos, como alavancas, da cultura nacional, tranquilas mansões de apaixonados estudiosos, para servir-me de significativa expressão do barão de Ramiz Galvão, recebendo no Instituto Histórico  Brasileiro o notável espírito do Cardeal Cerejeira, proeminente Patriarca de Lisboa, prelado em que se deviam mirar, como em espelho de cristal, os prelados de todos os quadrantes, o qual, sem embargo de sua proceta, mas luminosa senectude, ainda traz o espírito primaveril iluminado aos clarões de arrebóis purpurinos. 

Disseminados pelo país e contando com parcos recursos em assunto de ajuda financeira, realizam obras de estudos, pesquisas e promoção cultural, divulgando documentos e salvando para a posteridades o legado de inteligência e cultura que nos transmitiram a paciência e o zelo patriótico dos nossos antepassados.

Com júbilo espiritual hoje vos recebemos nesta hora de encantamentos, estrelada de todas as resplandecências, a que não faltou o principado do mundo oficial nem o cardinalato das mentalidades mais lúcidas e pujantes de minha terra, para vos colocarmos com a pompa do estilo e a magnificência das horas triunfais, na cadeira austera do historiador beneditino Frei Gaspar da Madre de Deus, cujo elogio tão elegantemente compusestes; nome que sem dúvida vos acordou ao espírito a veneranda cocatedral da Madre de Deus, da capital pernambucana, que prolonga no Recife as gloriosas tradições da velha Catedral de Olinda, mãe e madrinha de tantas igrejas do Nordeste, como já proclamou o eminente sociólogo e nosso sócio correspondente Gilberto Freyre, vosso preexcelso conterrâneo, que acaba de irradiar clarões nessa mesma tribuna em que vindes de proferir vosso admirável discurso de posse.


O SÓLIO DA NOITE  


Nesta festa sumamente suntuosa, de comemorações históricas e de vossa solene recepção, sois figura central, objeto do nosso respeitoso culto e fervorosa admiração. Como nos conclaves dos cardeais, reunidos para a eleição do Papa, caem os dosséis de todos os baldaquinos, aurifulgindo apenas o vosso, o eleito dos príncipes desta Casa, num conclave memorável, em que se prestou justiça ao mérito e ao talento de um prelado ilustre, cuja modéstia, num mundo de repelentes cabotinismos, ainda é um esmalte precioso, e até diria, a verdadeira pedra de toque das grandes inteligências e altivolantes espíritos! Ante o esplendor desta noite memorável, que rivaliza com o dia pelo fulgor de tanta claridade, pela eventual circunstância de ser o orador oficial da Casa, coube-me a grata e honrosa tarefa de dar-vos as boas-vindas em nome de tão ilustres confrades, que se honram em serem presididos por um embaixador da Justiça, que encaneceu no exercício dignificante da magistratura.

vendo-vos os dois -- um, embaixador da Justiça; outro, embaixador da Paz, só me cabe proferir jubiloso as palavras jucundas que o salmista pronunciou ao som harmonioso das citaras: "Justitia et pax osculata sunt"! A Justiça e a Paz se oscularam, para grandeza desta Casa, que toda se ilumina com o vosso ingresso, como o raiar das pompas matinais do meu Amazonas, que é vosso pelo coração e pelos labores apostólicos, pompas matinais que explodem em claridade e se desatam em policromias deslumbrantes, num luxo oriental de galas e esplendores, de gorjeios e aleluias, de flores e arômatas; noite fúlgida e gloriosa, que me obriga mais uma vez a fazer reboar nas arcadas dos lábios a expressão elegante do profeta e rei Davi: "Et r.. no sicut dies illuminabitur!" (E a noite será clara como o dia!)

No esplendor dessa claridade triunfante, eu vos saúdo, senhor Dom João de Sousa Lima, ufano com meus confrades de arregaçar as infulas de vossa mitra neste como pontifical solene, que nada fica a dever, em grandeza e brilho aos pontificais de vossa Catedral Metropolitana, nos dias supremos de Ressurreição e Pentecostes, em que reafirmais, ao bimbalhar dos sinos, a perenidade do Cristo, Centro, Rei, Centro e Divisor da História, a quem Paulo, o Apostolo, se aprazia em chamar o homem-eterno, porque Deus humanado, o Cristo que é sempre o mesmo -- "heri, hodie, ipse et in saecula!" -- o Cristo de ontem, de hoje que há de ser o mesmo de amanhã no cortejo e na perpetuidade de todos os séculos!



A mensagem do Natal


O Natal traz à humanidade, todos os anos, uma mensagem venturosa de luz, de amor e de paz. Estrela dos Magos, que há quase dois mil anos refulgiu sobre o humilde presépio do Salvador, em borbotões de intensa claridade, parece que uma vez por ano, na quadra natalina retornar à terra com o mesmo faiscante esplendor, para repetir aos homens, na eloquência do seu clarão, que só Jesus é o Salvador, que só Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida, que só Ele é a Luz que ilumina todo homem que vem a este mundo, na frase cintilante do evangelista São João.
Sem o fulgor daquele célebre astro, os Magos não teriam encontrado o caminho de Belém. Também a humanidade, mormente nesta encruzilhada tremenda de caminhos do século XX, em que já se sondam novos caminhos para as viagens interplanetárias, e em que a energia nuclear é uma ameaça constante, geradora de pesadelos sinistros, necessita de brilho de um astro, para não perder o roteiro dos seus excelsos destinos.

O Natal, com a sua sublime poesia e a sua divina claridade, como se fosse a radiação de uma Estrela Magnífica, desperta os homens do letargo da sua indiferença, e do crime das suas negações e apostasias, recapitulando-lhes as verdades eternas que transbordam do Evangelho, o mais alto código de santidade que já se escreveu sobre a terra, cujas palavras brotaram da fonte inestancável daqueles lábios divinos, que um dia se descerraram para a proclamação desta verdade inatingível: “Eu sou a Luz do mundo; quem me segue não anda nas trevas”.

Manaus Magazine, dez. 1958



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NATAL de 1958! Neste Natal já iremos sentir uma grande ausência: a ausência de Pio XII, que todos os anos nos trazia uma mensagem radiosa, que arrebatava os corações para o alto. Em dezenove anos já nos acostumáramos aos acordes e aos acentos daquela palavra augusta, toda feita de beleza e claridade, que nos fazia sentir a quase apalpar o mistério profundo do Natal de Jesus.
Neste ano, outra figura, vestida de branco, habita a colina do Vaticano: o Papa João XXIII, o qual também nos transmitirá sua palavra de salvação e de vida, de luz e de sabedoria, insistindo na mesma necessidade da justiça como condição para usufruirmos os benéficos supremos da Paz, que os anjos anunciam na noite fulgurante e santa do nascimento de Jesus: “Glória a Deus nas alturas, paz na terra aos homens de boa vontade”! (...)

“Lux fulgebit hodie super nos! Uma luz brilhará hoje sobre nós – reza a Igreja no intróito da segunda missa de Natal, celebrada ao romper da aurora. Todo o Natal se impregna do clarão dessa luz divina, que nos ilumina e nos arranca das trevas das iniquidades terrenas, elevando os nossos corações para as alturas da vida crista e sobrenatural, lembrando-nos que há uma vida celeste onde a felicidade não se acaba, e onde ouviremos as vozes harmoniosas daqueles mesmos anjos que na venturosa noite do nascimento de Jesus cantaram o mais belo cântico que já se ouviu sobre a terra: Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade!”.






CLUBE DA MADRUGADA
Pe. Nonato Pinheiro

( Da Academia Amazonense de Letras )
Há mais de um decênio que o Clube da Madrugada vem se firmando e afirmando como expressão de tenacidade e pujança no campo das artes e das letras, movimento de vitalidade e renovação, dirigido por uma plêiade de talentosos moços, que encaram o problema da cultura com dignificante espírito de seriedade.
Quando surgiu o movimento, inspirado em manifestações similares noutras áreas literárias e artísticas do país, no espírito que animou a “Semana de Arte Moderna”, promovida em 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, com palestras, conferências, declamações e exibição de artes plásticas, já era eu acadêmico, e senti, no dealbar ou na floração daqueles primeiros impulsos renovadores, certa descrença da parte de alguns vultos de nossas letras planiciárias. Desde o início, entretanto, observei nos rapazes acentuada posição para levarem a coisa a sério. Liam, estudavam, produziam, trocavam idéias e comentavam os últimos lançamentos do país, no mundo livresco. Acompanhavam o movimento artístico e literário, aqui e alhures, com vivo interesse. Não dispunham de uma sala, sequer, para seus encontros. Que importaava? Qualquer porão ou nesga de jardim bastava aos seus intercâmbios culturais. A praça de Heliodoro Balbi foi palco das primeiras tértúlias e continua a ser teatro dos encontros dos clubistas, aos lampejos do sol, se é dia; sob o pálio das estrêlas, quando é noite.
Crescia o movimento. Novos sócios vinham unir-se aos pioneiros. Alguns tranferiram-se para a metrópole tentacular, sonhando comtros ainda retornaram, renovando-se no espírito primitivo que anim melhores vantagens e posições. Outros permaneceram, mantendo crepitante a chama do ideal. Ouou o Clube. Vieram os primeiros lançamentos. E ao editar-se a primeira seleta, a “pequena antologiamadrugada”, já o movimento estava consolidado. Cada nova manifestação dos clubistas era uma explosão e afirmação de pujança, de vigor, de vitalidade. Da fase sonhadora, mesclada talvez de certa indisciplina, compreensível nas instituições nascentes, passou-se à fase das definições, no encalço de uma disciplina e de um roteiro. As equipes movimentavam-se conscientemente, e a cidade tomou conhecimento de que os rapazes se decidiram a tomar posição, a despertar vocações nascentes, a incrementar o movimento artístico e literário, servindo com devotamento à cultura. O Clube da Madrugada era uma realidade seivosa.
Tenho consciência nítida da que sempre estimulei êsses moços, que surgiam diante de minhas pupilas tocados pela centelha eletrizante de um ideal superior. É só consultarem minha colaboração na imprensa amazonense, que já se avoluma de vinte anos, e terão a prova convincente. Cheguei a sugerir ao escritor Péricles de Moraes, presidente da Academia Amazonense de Letras, ao tempo da fundação do Clube da Madrugada, de quem fui colaborador imediato nos movimentos culturais que entendiam com a Casa de Adriano Jorge, que observasse os rapazes, que lhes acompanhasse os passos na seara das letras. Avancei a idéia do aproveitamento de alguns para a Academia, no intuito de uma revitalização do sodalício. Os clubistas têm consciência dessa posição. Outros confrades, como Aristófhano Antony também assim pensavam.
Como quer que seja, entendo que a linha do Clube da Madrugada não deve ser a de oposição à Academia de Letras. Ambas as entidades devem visar ao incremento literário e artístico, tendo em mira o progresso cultural do Amazonas. Não devem ser fôrças antagônicas, mas fôrças vivas, formando uma mesma dinâmica pelo soerguimento pensamental, pelo explendor das letras e das artes, pelo culto do idioma e da literatura nacional.
O Clube da Madrugada possui nomes expressivos em seus quadros: Aluísio Sampaio, Alencar e Silva, Edson Farias, João Bosco Evangelista, Álvaro Páscoa, Carlos Gomes, Farias de Carvalho, Jorge Tufic, Artur Engrácio, Pedro Amorim, Ivens Lima, Jefferson Peres, Afrânio Castro, Evandro Carreira, Miguel Barrela, João Bosco Araújo, Saul Benchimol, Antonio Gurgel do Amaral, J. Maciel, Hanneman Bacelar, Luís Bezerra, Padre L. Ruas, Sebastião Norões, Getúlio Alho, Ernesto Pinho, Ernesto Penafort, Antístenes Pinto, Oscar Ramos Filho, Pedro Santos, Cosme Alves Neto, Guimarães de Paula, Nauro Machado, Nazareno Tourinho, Assis Brasil, Astrid Cabral, Nivaldo Santiago, Teodoro Botinelli de Assunção, Leopoldo Peres Sobrinho, Djalma Passos e Moacyr Couto. Servi-me de uma relação que me foi oferecida pelo clubista Jorge Tufic, cuja ordem ordem nominal mantive.
Já é volumosa a coleção dos livros lançados pelos clubistas. Farias de Carvalho brindou-nos com “Pássaro de Cinza”, bem festejado pela crítica. É sem favor um dos mais belos talentos poéticos da nova geração, refulgindo ainda como excelente declamador. Jorge Tufic, outro poeta de raça e intelectual de elevadas preferências mentais, deu à estampa “Varanda de Pássaros”, na qual, em verdade, só gorjeia uma ave: o pássaro de sua maviosa inspiração. Alencar e Silva, que já nos havia dado “Painéis”, voltou com melhor garbo e amadurecimento em “Lunamarga”, sua última conquista, saudada com desbordante entusiasmo. Padre Luís Ruas, um dos brasões mais refulgentes do Clube, é autor da “Aparição do Clown”, que revelou um poeta de impressivos e expressivos surtos e uma inteligência de radiosa claridade. “Poesia frequentemente” é de Sebastião Norões, discípulo fervoroso de Dario e Guillén, livro que patenteia um intelectual e poeta de muita sensibilidade e intui, ção. Antístenes Pinto, que estreara como inspirado poeta em “Sombra e Asfalto” e, m que há claridades de plenilúnios e olhares serenos de pupilas de sonhador, surge agora como novelista, sobraçando o seu “Chavascal”, núper-lançado. Na crítica literária a companho com interesse e aplausos a desenvoltura de Aluísio Sampaio e Artur Engrácio, cujas recensões refletem a agudeza e o faro de conspícuos analistas. Engrácio ainda brilha no conto e na novelística, e suas “Histórias de Submundo” dão-nos o fôlego e as dimensões do contista.
Na pintura, na escultura, na xilogravura, no campo fascinante das artes pláticas, o Clube da Madrugada apresenta uma plêiade de admiráveis artistas, alguns de renome nacional: Moacyr Couto, Hanneman Bacelar, Getúlio Alho, Afrânio Castro, Álvaro Páscoa e outros, que honrariam os melhores e mais exigentes salões de arte.
Na eloquência e oratória há um nome que se impõe vitorioso: Evandro Carreira, já consagrado num concurso nacional de oratória. No campo das ciências sociais e econômicas Jefferson Peres e Saul Benchimol são figuras de alto relêvo, que dignificam qualquer instituição de cultura. No mundo empolgante do canto e da música esplendem Nivaldo Santiago, Pedro Amorim e outros.
O Clube da Madrugada possui uma flor escarlate em seu jardim, que lhe dá realce e encanto: é Astrid Cabral, a mais talentosa de quantas alunas tive no Instituto de Educação. É a única mulher, a florir com seu formoso talento no sodalício presidido pelo meu amigo Aluísio Sampaio. Embora ausente, sei que Astrid não perde o contacto com o seu Clube, e sempre envia suas produções.
Soube com certo constrangimento que alguns clubistas se afastaram: Elson Farias, Luís Bacelar e Francisco Vasconcelos, todos três valôles positivos. Respeitando sua posição, com a qual nada tenho que ver, lamento que hajam desfalcado as fileiras do Clube, deixando de colaborar num movimento tão simpático de renovação e incremento nas letras e nas artes. Ficaria satisfeito com o seu retôrno. Estou certo de que seus irmãos os receberiam de braços abertos.
Muitos são os que me perguntaram e perguntam acêrca de minha posição em face do movimento do Clube da Madrugada. É de plena fraternidade e simpatia. Embora minha formação intelectual tenha sido eminentemente clássica e acadêmica, a verdade verdadeira é que nunca me prendi a escolas, pelo menos de um modo exclusivo. Sou como abelha industriosa, que vai de flor em flor, à cata do néctar para o fabrico do mel delicioso. Sempre me atraiu o princípio da variedade: “varietas delectat”. Tenho poetas de minha mais alta estima e preferência em tôdas as escolas e correntes literárias. Afinal, o que monta não é a escola, mas o talento do intelectual e do poeta. Só há uma realidade: é a POESIA. Como quer que seja, dou em letra de imprensa o meu abraço aos sócios do Clube da Madrugada, exortando-os à continuação da peleja em prol do progresso cultural de nossa terra. Ergamos bem alto o nome do Amazonas na comunhão nacional pela afirmação da nossa inteligência, no cultivo fascinante das boas letras e das belas artes!
(Jornal do Comércio, Manaus, 03.04.1966)


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O Clarão da Imprensa 
Padre NONATO PINHEIRO
(da Academia Amazonense de Letras) 


muito tempo que prometia ao meu amigo Umberto Calderaro, operoso e esclarecido diretor de "A Crítica", que dotou a imprensa amazonense de um órgão moderno, envolto num halo de fulgentes qualidades, enviar colaborações para o seu vitorioso jornal. Segundo acertamos, sua simpática folha estampará trabalhinhos de minha lavra nas edições de sábado. 



Para algum leitor novo, de poucos janeiros, mal saído da infância para a adolescência, parecerá que este trabalho é minha estreia neste jornal. Nada mais falso. Sou velho colaborador de "A Crítica". Querem a prova? Percorram as coleções do jornal. Mesmo nas instalações da rua Lobo d’Almada, "A Crítica" tem publicado artigos de minha forja. Parece-me que o último foi sôbre o grande Péricles Moraes, sob a epígrafe "Estilo de Clarões".


Minha colaboração frequente, contudo, foi na velha casa da avenida Eduardo Ribeiro. Ali colaborei com mais assiduidade. Fui eu que fiz a cobertura completa do SEGUNDO CONGRESSO EUCARÍSTICO REGIONAL, e os exemplares (permitam que fira a modéstia!) eram disputados pelos próprios prelados que compareceram àquele brilhantíssimo certame de fé. Os bispos tomavam seu desjejum na residência confortável do Sr. (Tales) Loureiro, na praça do Congresso, e ali mesmo devoravam "A Crítica".


Dom Helder Câmara e monsenhor João Ferrofino, que se hospedaram na residência do desembargador André Araújo, também não dispensavam a leitura diária do jornal. O noticiário era completo.


Como se vê, não se trata de estreia. Agora, porém, é com satisfação que registo o progresso sempre crescente do jornal de Umberto Calderaro, que há pouco festejou seu primeiro decênio de lutas incruentas e vitórias consagradoras. O jornal está bem instalado. A redação é das melhores. As oficinas bem montadas. Tudo isso é o prêmio que Deus deu a esse moço inteligente e dinâmico, que no mar azul de sua adolescência lançou as redes douradas de um sonho: dirigir um jornal moderno, que apresentasse os sintomas de uma imprensa sadia e progressista. Parece que o ideal foi atingido.


"A Crítica" nasceu. Primeiro era "onzerino". Circulava às onze horas, na primeira fase. Hoje é um matutino que entra em circulação logo cedo, como os demais. O diretor, ainda na primavera da mocidade, já colhe os frutos opimos da semeadura. As bençãos divinas jorraram a flux sôbre o jornal, que é hoje um patrimônio respeitável da família Umberto Calderaro e um justo orgulho da imprensa do Amazonas. 


Umberto Calderaro é um diretor esclarecido. De quando em quando vai ao Sul: examina, observa e assimila o que vê de novo e vantajoso para melhorar o seu jornal. Rasgam-se-lhe sempre novos e iluminados horizontes. Enviou seu secretário, o jornalista Gutemberg Omena, para fazer um curso de jornalismo.


Na redação e nas oficinas há sangue novo e gente competente. E mesmo os mais velhos, como o seu dileto genitor e o professor Glomyer, têm espírito de moços, que demonstram pela capacidade de trabalho.


Assinalo com júbilo a vitória do jornal. A imprensa é sempre um clarão. Mentora da opinião pública, é o grande facho que penetra nos lares, nas oficinas e nas instituições, levando o "plat du jour", a novidade do dia, e também o contingente da ilustração. Voltaire afirmou que os jornais são os arquivos das futilidades. Não é verdade. São os lustres que iluminam o povo. A imprensa é clarão. É a sagrada locomotiva do progresso, na frase lapidar de Victor Hugo!





Candidatos à Academia


Inscreveram-se como candidatos às vagas da Academia Amazonense de Letras, em ordem cronológica, os intelectuais Djalma Passos, Waldemar Batista de Sales, Lafayete Carneiro Vieira, Francisco Pereira da Silva e João Nogueira da Mata.


Djalma Passos é poeta. É candidato à cadeira nº 13, cujo patrono é Tobias Barreto. A cadeira teve primitivamente o patrocínio de Visconde de Taunay. Seu primeiro ocupante foi Gaspar Guimarães, jurista de soberba cultura, que deixou uma tradição flamejante, assim no Fórum como na Academia.


Sucedeu-lhe na cadeira o desembargador Arthur Virgílio do Carmo Ribeiro, que proferiu belo discurso de posse. Apesar de reverenciar a memória de Escragnolle, Arthur Virgílio não conseguia manter-se tranquilo. É que sentia falta de um lúmen em uma de nossas poltronas: o patrocínio de Tobias Barreto.


Sabe-se que o saudoso acadêmico, cujo segundo aniversário de falecimento comemoramos amanhã, tinha o culto do excelso sergipano, a quem chamava “o maior brasileiro de Sergipe e o maior sergipano do Brasil”. Conseguiu a troca de patrono, ficando extinto o patrocínio do visconde.
Tenente-coronel da PM Djalma Passos


O poeta Djalma Passos anexou ao seu requerimento as seguintes obras: Poemas do tempo perdido (edição do Centro Plácido Serrano); As vozes amargas (edição da Casa do Estudante do Brasil) e Tempo e distância (Tipografia Fênix). O autor tem ainda duas obras inéditas: Vidas paralelas (contos) e Feira de ideias (discursos, artigos, ensaios). E duas outras em preparo: Espírito das ideias republicanas no Brasil e História do Brasil.


Concorre como candidato à mesma cadeira de Tobias Barreto o senhor Lafayete Vieira, contista, poeta e cronista, que remeteu uma coletânea de trabalhos insertos na imprensa local.


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O "Remanso" de Anísio Mello


Capa do livro
Recebi, de São Paulo, o livro de poesia Remanso, da lavra do meu dileto amigo Anísio Mello, amazonense que abandonou a terra, como muitos outros, e fixou residência no grande estado de São Paulo quatrocentão. Anísio não é desconhecido entre nós. Publicou em Manaus Lira nascente e Minhas vitórias régias.
Além de poeta, é pintor e musicista, sendo, portanto, um artista na mais ata e completa acepção do termo. Em Manaus realizou com pleno êxito algumas exposições de pintura. Sua mãe, D. Ester Taumaturgo Soriano de Mello, exímia pintora, deve ter exercido notável influência na formação artística do filho.


Anísio Mello é um poeta que não se escravizou a nenhuma escola. Possui versos brancos, poemas livres e sonetos metrificados e rimados. O poeta recomenda-se por qualidades eminentes, sentindo-se sempre em seus versos um sopro de quente inspiração. Celebra em sua poesia o vento, as flores, as tardes, as noites, os matupás dos lagos e dos igapós, os plenilúnios, pirilampos, numa palavra, a natureza policrômica deste Amazonas colossal, que é o eterno paraíso dos sábios e dos poetas.



Anísio Mello, na aba do Remanso
O autor enfeixou no volume versos de beleza pagã e também, versos sacros, como o soneto Hóstia, dedicado ao inspirado poeta Padre Manuel Albuquerque em que ele celebra a “Majestade eucarística do pão divino dos nossos altares”.
Anísio Mello é um poeta acentuadamente introspectivo, desses poetas que não têm só alma para cantar a natureza, com os seus lustres e as suas galas, mas possuem o hábito do recolhimento para as reflexões profundas. Homem sem exuberâncias comunicativas, prefere o silêncio das solitudes, onde as grandes almas se sentem bem. Ele próprio o declara na poesia Alma de cipreste, que é um perfeito autoretrato:
Minha alma é como um cipreste ereto e soturno!
Sente-se bem quando só.
No silêncio dos túmulos
está a meditação profunda!
No silêncio está a pureza da hora!
A poesia é filha do silêncio
e da meditação.
Poesia de silêncio é pura e toma forma.
As visões da imaginação
se esboçam no cérebro e acariciam
na veludez dos gestos a alma do poeta.
O poeta sente-se bem
e vai conversar com a poesia,
virando poeta outra vez.
Retratou-se o autor nesse lanço de expressiva inspiração. Seu espírito meditativo mais se assemelha ao cipreste contemplativo do que a uma árvore garrida de flores, e trepidante de gorjeios. Tem alma de cipreste, porque lhe apraz o “silêncio dos túmulos”, gerador das meditações profundas.


Agradeço penhorado ao meu dileto amigo a remessa de um exemplar do livro, em excelente papel e nítida apresentação gráfica. Desejo-lhe novos triunfos nas letras e nas artes, de tal modo que afirme na trepidação de São Paulo o vigor da inteligência amazonense!


Padre Nonato Pinheiro, da Academia Amazonense de Letras.
Letras & Livros  (Jornal do Comércio, de 6 novembro 1958)


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Nossos Institutos Históricos

 Padre Nonato Pinheiro

(do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas)

O espaço de que disponho não me permite referências, ainda sumárias, aos demais Institutos. Devo coroar este trabalhinho com uma alusão ao nosso. Foi fundado a 25 de março de 1917, sendo seu primeiro presidente o coronel Bernardo de Azevedo da Silva Ramos, eminente arqulogo, egiptólogo e numismata. Governava o Amazonas o Dr. Pedro de Alcântara Bacelar.

Sede do IGHA, centro histórico

Em 53 anos vem o IGHA cumprindo sua missão cultural no Amazonas através de sua Revista, de seu Boletim, de suas magnas sessões com palestras e conferências culturais, das atividades de seus membros e de suas Comissões Permanentes e através de seu precioso acervo ou coleções. Ouvi Arthur Reis dizer, mais de uma vez, que foi o IGHA que lhe despertou a vocação para historiador. O jovem secretário do sodalício, que tanto pesquisou a biblioteca, as coleções dos jornais e dos documentos de nosso Instituto, é hoje vice-presidente do IHGB e o presidente do Conselho Federal de Cultura, com seu nome firmado dentro e fora da pátria como profundo conhecedor e mestre egrégio da História.

Dentre os mortos, muito deve o IGHA ao Dr. Vivaldo Lima, seu orador oficial. Dentre os sócios venerandos, pela idade e pelo saber, desejo por em especial relevo o professor Agnello Bittencourt, nosso Presidente de Honra Pertuo, e o desembargador Manuel Anísio Jobim, ambos da mesma idade, com as cãs alvíssimas coroadas de louros. São os dois preexcelsos beneméritos do Instituto.

Dr. Vivaldo Lima

Presidido hoje pelo eminente desembargador João Rebello Corrêa, seus membros vêm trabalhando com silenciosa operosidade ou com operoso sincio (sempre ouvi dizer que o bem não faz barulho!) para sua maior grandeza. Sessenta (sic) patronos estão a aclarar-nos os caminhos, já palmilhados por muitos obreiros da pesquisa e da cultura, que nos legaram um monumento. Vinte Comissões Permanentes estão em atividades incessantes. Nossa correspondência com as instituições culturais do país e do estrangeiro, e com sábios e estudiosos cresce dia a dia.

No dia 25 do fluente iremos festejar os 53 anos de existência do IGHA. O Sr. governador Danilo Duarte de Matos Areosa já nos autorizou a publicação de um novo número da Revista. Tudo faremos para maior grandeza e glória da Casa de Bernardo Ramos, que tanto nos inflama as fibras de homens cultos e de patriotas!

 



O INSTITUTO GLORIFICA A IGREJA

Em vossa eleição, guiou-nos o alto quilate que vos caracteriza a inteligência, aberta a todas as ondulações da luz, e a cultura, opulentada nas tradicionais e ubertosas tetas dos estudos clássicos, que, digam lá o que disserem, continuam a ser os alicerces insubstituíveis de toda grande e verdadeira cultura. Como quer que seja, com premiar-vos os talentos, quis o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas glorificar a Igreja, de que sois pontífice; essa Igreja-Mãe, essa Igreja maternal, que parturejou a civilização cristã, criadora e inspiradora de tantos e repetidos benefícios que a humanidade vem usufruindo há vinte séculos de História!

Glorificamos a Igreja caridosa, que criou os hospitais; e glorificamos igualmente, muito particularmente nesta Casa a Igreja sapientíssima, que criou as Universidades, muitas das quais trazem em seu diploma de origem a assinatura de um Papa; Igreja de Gregório XIII, que reformou o calendário, corrigindo um erro plurissecular pela criação dos anos bissextos; Igreja de Leão XIII, que assinou a maior Carta do Operário Cristão, a famosa "Rerum Novarum"; Igreja de Bento XIV, o famoso Lambertini, de quem se escreveu que teve duas almas, uma para a Igreja e outra para as ciências; Igreja criadora de escolas e de bibliotecas, que salvou nos mosteiros medievais, pela paciência dos monges letrados o tesouro das antiguidades; Igreja acoimada de obscurantismo tão somente pelos ignorantes de todas as castas, cuja miopia, amaurose ou cegueira lhes dá olhos imprestáveis para verem o milagre do esplendor do sol. 


Senhor Arcebispo
Dom João de Sousa Lima


O Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) pela segunda vez tem a honra insigne de acolher em seu grêmio um bispo da Santa Igreja. Logo no dealbar de sua inauguração, em 1917,outro antístite, também chamado João, abrigou-se à sombra dessa casa austera, como seu " primeiro vice-presidente, aqui deixando o esplendor de sua mitra fulgentíssima, o brilho meridiano de sua inteligência, a grandeza de sua cultura polimorfa, o colorido de sua palavra eloquente e o fascínio de sua forte e inconfundível personalidade: Dom João Irineu Joffily.
Paraibano de nascimento, sua fisionomia, iluminada pelo fulgor de dois grandes olhos penetrantes, revelava as cintilações de todos os talentos. Sacerdote da arquidiocese de João Pessoa (PB), teve a dita de ser o "baculum senectutis", o cajado da velhice do preclaro Dom Luís Raimundo da Silva Brito, arcebispo de Olinda e Recife, uma das mais soberbas culturas do Episcopado Nacional, maranhense ilustre, que tanto se constelara de glórias no Rio de Janeiro, como pregador da Capela Imperial.
Foi na escola de Dom Luís de Brito que vosso egrégio antecessor no sólio episcopal amazonense se preparou para as lides pastorais, assim na, então, Diocese do Amazonas como na Arquidiocese de Belém do Pará, cujo sólio também ilustrou com acendrado zelo e alto descortino.

Outro Dom João ingressa agora solenemente neste areópago de cultura, apercebido do mesmo caráter episcopal, das mesmas virtudes apostólicas e dos mesmos
pergaminhos de inteligência e erudição, que vossa reconhecida modéstia não logra ocultar, porque o passado, no dizer de elegante escritor, ainda quando anda, sente-se que tem asas...

Sacerdote secular da Diocese de Pesqueira, cedo manifestastes pendor para o magistério, lecionando, entre outras disciplinas, a ciência altíssima das Matemáticas, que na estimativa de grandes mestres, tanto contribui para disciplinar os talentos e comunicar aos espíritos particular cunho de exação e equilíbrio, dando a tudo a justa medida do comedimento e da proporção. Professor de renome da ciência dos números, haveis de ter experimentado a veracidade e o encanto daquela observação de Dom José Pereira Alves, Bispo de Niterói, em cujos lábios de ouro, ou em cujo cálamo de filigranas, encontrei esta pepita: "Em tudo sinto a poesia, até na austera Matemática, pelo menos no cálculo sublime!". Acredito que o estudo e domínio dessa disciplina tão exata haja influenciado poderosamente em vossa formação, dando-vos essa admirável exação que todos surpreendemos na administração da arquidiocese e no governo da vida, reflexo do longo trato de uma das ciências exatas, cujo magistério exercestes em Pesqueira (PE) com tanto proficiência e brilho.


UM DEPOIMENTO VALIOSO

    Tive a ventura de conhecer em São Luís do Maranhão vosso grande amigo, pai e protetor, o       saudoso arcebispo Dom Adalberto Acioly Sobral, bispo de Pesqueira (PE) e posteriormente arcebispo de São Luís do Maranhão, onde a irmã Morte o foi buscar para o repouso dos Justos, na mansão de Deus. Nunca me foi dado ver outro homem de tão singular personalidade, o qual, servindo-me de palavras de Camilo, aplicadas aos poetas, me dava a impressão de anular em si mesmo todas as leis da física ou da fisiologia, para viver de uma única entranha:
o coração! Homem de coração tão grande, que não sei como lhe cabia no peito! Teve-me a seu lado muitas vezes, quando lá estive em viagem de férias, no ano de 1950.


Ainda não éreis nosso arcebispo metropolitano, e mais de uma vez me falou dos vossos talentos e da vitória de vossos estudos no Seminário de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, para onde vos enviara emseminarista, dando-vos oportunidade de uma formação intelectual mais apurada, na forja dos grandes mestres que, sabem ser os filhos de Santo Inácio de Loyola, que reservam tanto devotamento ao estudo das ciências e ao trato das letras, tão em consonância com o oráculo das Letras Santas, a afirmar: "Labia sacerdotis custodiunt scientiam!" (Os lábios do sacerdote guardam a ciência!).
Aprimorados vossos conhecimentos no estudo e na leitura, sorvendo em torrente os lampejos mentais de preceptores preexcelsos, iniciastes vosso currículo sacerdotal na Diocese de Pesqueira (PE), onde mão poderosa de Pio XII vos foi buscar para colocar-vos entre os príncipes da cristandade, robustecendo com a plenitude do sacerdócio. Primeiro Diamantina, em Minas; depois, Nazaré da Mata, em vosso estado natal, vos receberam como Pastor das almas, respectivamente como Bispo e Bispo Diocesano. Naquela diocese sertaneja ouviste pela terceira vez a voz do Vigário de Cristo, promovendo-vos a Arcebispo Metropolitano de Manaus, onde tendes desenvolvido um fascinante programa pastoral, dedicando-vos com alma, inteligência, coração e vida ao anúncio da palavra de Deus, a transmissão da mensagem do Evangelho, pão e luz, que sustenta e ilumina as almas sequiosas dos orvalhos celestes!

O que realizastes na arquidiocese de Manaus é obra que vos enaltece e glorifica. Por vossa indústria e zelo, novas prelazias foram criadas, fundando-se na capital novas residências religiosas. Muito vos empenhastes na irradiação das escolas radiofônicas e na promoção de semanas de ruralismo, dando vosso incentivo à fixação do homem do campo em seu próprio meio, levando-o a não se empolgar pelas miragens mirabolantes da capital, onde o índice de desemprego desafia a acuidade de sociólogos e governantes.


Sintonizando com o espirito da época, tende-vos preocupado com o problema das lideranças, brotando de vosso zelo a fundação da Maromba, centro arquidiocesano para formação de líderes e promoção de cursos de superior cultura, religiosa, social e filosófica. Se é verdade o que proclamou Bacon, que são as ideias que governam o mundo, aprendestes que urge disciplinar nas mentes dos homens ideias fecundas e luminosas, para a floração primaveril de atos decisivos e decisões supremas no rumo de uma comunidade feliz, no clima e na luminosidade daquele MUNDO MELHOR, preconizado pela genialidade de Pio XII, e cujos horizontes azuis tão bem divisastes em memorável Carta Pastoral aos diocesanos de Nazaré da Mata (PE), dada a estampa pela Editora Vozes, de Petrópolis.





Saudação Ao Clube da Madrugada (*)

Padre Nonato Pinheiro


O Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas vive hoje uma de suas noites de mais rútilo esplendor, acolhendo em seu grêmio uma luzida caravana de intelectuais de Brasília, componentes do CLUBE DA MADRUGADA, que já constitui sem favor uma afirmação de pujança mental na vida literária, artística e cultural da capital da República. 
Conduzidos por esse DÍNAMO FEITO HOMEM que é o vosso operoso presidente, nosso confrade Miguel Lúcio Cruz e Silva, que nesta Casa mantém a poltrona de Bruno de Menezes nimbada de permanente claridade, vindes ao Amazonas, às terras lendárias das florestas virgens e das águas grandes, onde as árvores gigantescas rivalizam com as montanhas altaneiras, e os rios de águas negras ou barrentas desdenham dos mares verdes e dos oceanos azuis, vindes ao Amazonas para um amplexo de cativante simpatia entre a vossa e a nossa intelectualidade. 

Pe. Nonato (foto de 1958)
Se esta Casa dispusesse de sinos como as Catedrais góticas, opulentas de carrilhões e de vitrais multicoloridos, que aprisionam, no dizer de Edmond Joly, o azul do céu e o sangue do sol, estariam eles bimbalhando festivamente para receber tão ilustre comitiva, que nos traz a flor cultural da capital do país, portando sua mais nobre e requintada porção, já que o império da inteligência e do espírito inapelavelmente constitui a primazia dos povos! 
De há muito, senhores caravaneiros da cultura de Brasília, já tínhamos notícia da opulência de vosso grêmio, que reúne figuras as mais representativas nas letras, nas ciências e nas artes, brilhando com luz própria na poesia, no canto, na música, na pintura, no folclore na antropologia e demais ciências sociais, enfim, nos vários departamentos do pensamento e do espírito humano. 
Citar nomes seria incorrer no risco das omissões, que sempre ferem, ainda que involuntárias. Mas não seria inoportuno declinar nomes já consagrados em vossa agremiação literária e artística, entre os quais avultam o professor Emanuel Coelho, diretor de orquestra, e compositor, cantor e musicista Paulo Burgos, as poetisas Maria Valéria e Maria Aldina Furtado, a professora Magda França, o folclorista João Artur, o seresteiro Zezinho do Violão, os cantores Fernando Lopes e José Lourenço, a pintora e antropóloga Efy de Paula Moreira, conferencista desta noite, e esse admirável poeta Lenine Fiúza, cuja obra I Suma Poética, no próprio dia de vossa chegada, armou para mim um ágape das mais finas emoções, poeta admirável, que fez de Brasília o seu "convento azul' , e em cujas mãos em concha sua cabeça cismadora se demuda em pérola!... 
Ponto alto deste sarau de inteligência e cultura, será a conferência da professora Efy de Paula Moreira sobre a cultura maia, que floresceu no iucatão mexicano, na Guatemala e Honduras.  Não podia a douta conferencista escolher tema mais sugestivo do que os Malas, povos que habitaram a América Central na época pré-colombiana ou pré-hispânica, cuja cultura, graças à arqueologia e às investigações etnológicas e etnográficas realizadas pelos antropólogos, já nos brilha com luz mais intensa, deixando-nos ver e entrever os traços de sua inteligência nas suas inscrições lapidares, na cerâmica, na arquitetura, na medicina e na literatura, da qual fez valioso estudo Demétrio Sodi, estudando-a em três excelentes capítulos: literatura maia do iucatão; literatura maia de Chiapas e literatura maia da Guatemala. 
Lembro-me de ter lido em Morley que o culto dos ancestrais constituía entre os maias a característica básica de sua religião. As cabeças das pessoas ilustres e importantes eram preservadas para adoração. Esse culto dos ancestrais, senhora professora Efy de Paula Moreira, também é característico dos que compõem o cardinalato deste colendo templo cultural, que é o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, onde praticamos com os varões egrégios do passado e investigamos as civilizações que nos antecederam. 
Vinde dar-nos vossa preleção magnífica, com a qual dignificareis a um tempo vossa luzida embaixada e este sodalício, que faz timbre de receber em alto estilo, com as magnificências do mérito as inteligências privilegiadas e as culturas polimorfas, cujas fontes muita vez entram pelas madrugadas, debruçando-se sobre os livros, pendentes de sono e de fadiga!... 
O Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, senhores embaixadores e embaixatrizes da intelectualidade de Brasília, vos recebe em festa, trazendo cada sócio o coração no rosto. Homens e mulheres de espírito, não podeis restringir vossa excursão a Manaus aos passeios, aos banquetes e à contemplação da natureza extasiante, onde, no dizer de um amazonólogo, impera o deus da POLICROMIA, escapo da mitologia grega. Tínheis que procurar uma elevação, o cimo para uma ascensão, porque é nos alcantis que pousam as águias, cujo olhar de fogo, na formosa expressão de Victor Hugo, troca raios com os raios do sol!... 
Sentis que desceis do planalto de Brasília para a planície amazônica. E nós, em contrapartida, ao calor e à irradiação de vossa alta embaixada, sentimos que subimos da planície para um planalto: o planalto da inteligência, o altiplano da cultura, em cujos cimos aureolados de claridades comovidamente vos abraçamos para o ósculo da fraternidade, neste dia memorável, que não supúnhamos ser para os nossos dias, dia excepcional nunca dantes imaginado por Colombo, Gama, Cabral ou Santos Dumont, em que o homem zarpou do planeta pela primeira vez, com destino a plagas extraterrenas, numa incrível demonstração de superinteligência, como se tocado fora de uma força sobre-humana e divina! 

Saudando-vos com emoção, agradeço em nome do IGHA esta hora de claridade e encantamento!

(*) Transcrito de O  Jornal, de 20 de julho de 1969  

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