quinta-feira, 23 de outubro de 2008

ANTONIO NOBRE: Antologia


Antônio Nobre



ANTÔNIO NOBRE nasceu em 1867. Estudou um ano de Direito na Universidade de Coimbra, indo depois para Paris, onde cursou ciências políticas, e onde se familiarizou com as novas tendências da poesia. Voltando para Portugal, tomou parte num concurso para cônsul, mas não conseguiu obter a primeira classificação. Depois disso, começou a viajar com freqüência, procurando climas melhores para sua saúde. Publicou apenas um livro de poesias, "Só", cuja primeira edição apareceu em Paris, em 1892, mas a 2a, de 1898, é que é a definitiva. Depois de sua morte foram publicados mais dois volumes de versos: "Despedidas" e "Primeiros Versos". Morreu em 1900.



Ó virgens que passai, ao Sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente,
Que me transporte ao meu perdido Lar.

Cantai-me, nessa voz onipotente,
O Sol que tomba, aureolando o Mar,
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a Graça, a formosura, o luar!

Cantai! cantai as límpidas cantigas!
Das ruína do meu lar desaterrai
Todas aquelas ilusões antigas

Que eu vi morrer num sonho, como um ai...
Ó suaves e frescas raparigas,
Adormecei-me nessa voz... Cantai!



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MEMÓRIA
Ora isto, Senhores, deu-se em Trás-os-Montes,
Em terras de Borba, com tôrres e pontes.
Português antigo, do tempo da guerra,
Levou-o o Destino pra longe da terra.

Passaram os anos, a Borba voltou,
Que linda menina que, um dia, encontrou!

Que linhas fidalgas e que olhos castanhos!
E, um dia, na Igreja correram os banhos.

Mais tarde, debaixo dum signo mofino,
Pela lua-nova, nasceu um menino.

Ó mães dos Poetas! sorrindo em seu quarto,
Que são virgens antes e depois do parto!

Num berço de prata, dormia deitado,
Três moiras vieram dizer-lhe o seu fado.

(E abria o menino seus olhos tão doces) :
"Serás um Príncipe! mas antes. . . não fôsses."

Sucede, no entanto, que o Outono veio
E, um dia, ela resolve dar um passeio.

Calçou as sandálias, toucou-se de flôres,
Vestiu-se de Nossa Senhora das Dores:
"Vou ali adiante, à Cova, em berlinda,
Antônio, e já volto. . . " E não voltou ainda!

Vai o Espôso, vendo que ela não voltava,
Vai lá ter com ela, por lá se quedava.

Ó homem egrégio! de estirpe divina,
De alma de bronze e coração de menina!

Em vão corri mundos, não vos encontrei
Por vales que fôra, por êles voltei.

E assim se criou um anjo, o Diabo, o lua;
Ai corre o seu fado! a culpa não é sua!

Sempre é agradável ter um filho Virgílio,
Ouvi êstes carmes que eu compus no exílio,

Ouvi-os vós todos, meus bons Portuguêses!
Pelo cair das fôlhas, o melhor dos meses,

Mas, tende cautela, não vos faça mal. . .
Que é o livro mais triste que há em Portugal!



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ANTÔNIO

Que noite de inverno! Que frio, que frio!
Gelou meu carvão:
Mas boto-o à lareira, tal qual pelo estio,
Faz sol de verão!
Nasci, num reino d 'Oiro e amôres,
A beira-mar.
Ó velha Carlota! tivesse-te ao lado,
Contavas-me histórias:
Assim. . . desenterro, do Val do Passado,
As minhas Memórias.
Sou neto de Navegadores,
Heróis, Lôbos-d'água, Senhores
Da índia, d'Aquém e d'Além-mar!
Moreno coveiro, tocando viola,
A rir e a cantar!
Empresta, bom homem, a tua sachola,
Eu quero cavar:
E o Vento mia! e o Vento mia!
Que irá no Mar!
Erguei-vos, defuntas! da tumba que alveja
Qual Lua, a distância!
Visões enterradas no adro da Igreja
Branquinha, da Infância.
Que noite! ó minha Irmã Maria
Acende um círio à Virgem Pia,
Pelos que andam no alto Mar. . .
Lá vem a Carlota que embala uma aurora
Nos braços, e diz:
"Meu lindo Menino, que Nossa Senhora
O faça feliz!"
Ao Mundo vim, em têrça-feira
Um sino ouvia-se dobrar!
E Antônio crescendo, sãozinho
Feliz que vivia!
(E a Dor, que morava com êle no peito,
Com êle crescia. . . )
Vim a subir pela ladeira
E, numa certa têrça-feira,
Estive já pra me matar. . .
Mas foi a uma festa, vestido de anjinho,
Que fado cruel!
E a Antônio calhou-lhe levar coitadinho!
A Esponja do Fel...
Ides gelar, água das fontes
Ides gelar!
A tia Delfina, velhinha tão pura,
Dormia a meu lado
E sempre rezava por minha ventura. . .
E sou desgraçado!
Águas do rio! Águas dos montes!
Cantigas d'água pelos montes,
Que sois como amas a cantar.. .
E eu ia às novenas, em tardes de Maio,
Pedir ao Senhor:
E, ouvindo êsses cantos, tremia em desmaio,
Mudava de côr!
Passam na rua os estudantes
A vadrulhar...
E a Mãe-Madrinha, do tempo da guerra
A mailos Franceses,
Quando ia ao confesso, à ermida da serra,
Levava-me, às vêzes.
Assim como êles era eu dantes!
Meus camaradas! estudantes!
Deixai o Poeta trabalhar.
Santinho como ia, santinho voltava:
Pecados? Nem um!
E a instância do padre dizia (e chorava):
"Não tenho nenhum. .."
O Já, coberto de gangrenas,
Meu avatar!
As noites rezava, (e rezo inda agora)
Ao pé da lareira.
(A chuva gemente caía lá fora,
Fervia a chaleira. . .)
Conservo as mesmas tuas penas,
Mais tuas chagas e gangrenas,
Que não me farto de coçar!
- Que Deus se amercie das almas do Inferno!
- Amém! Oxalá...
E o moço rosnava, transido de inverno:
- Que bom lá está!
E a neve cai, como farinha,
Lá dêsse moinho a moer, no Ar.
O sino da Igreja tocava, à tardinha:
Que tristes seus dobres!
Era a hora em que eu ia provar, à cozinha,
O caldo dos Pobres. . .
O bom Moleiro, cautelinha!
Não desperdices a farinha
Que tanto custa a germinar. . .
Ó velhas criadas! na roca fiando,
Nos lentos serões:
Corujas piando, Farrusca ladrando
Com medo aos ladrões!
Andais, à neve, sem sapatos.
Vás que não tendes que calçar!
~
O Zé do Telhado morava, ali perto:
A triste Viúva
A nossa casa ia pedir, era certo,
Em noites de chuva. . .
Corpos ao léu, vesti meus fatos!
Pés nus! levai êsses sapatos...
Basta-me um par.
Ó feira das uvas! em tardes de calma.. .
(O tempo voou!)
Pediam-me os Pobres" esmola pela alma
Que Deus lhe levou!"
Quando eu morrer, hirto de mágoa,
Deitem-me ao Mar!
E havia-os com gôta, e havia-os herpéticos,
Mostrando a gangrena!
E mais, e ceguinhos, mas era dos éticos
Que eu tinha mais pena. . .
Irei indo de frágua em frágua,
Até que, enfim, desfeito em água,
Hei de fazer parte do Mar!
Chegou uma carta tarjada: a estampilha
Bastou-me enxergar...
Coitados daqueles que perdem a filha,
Sôbre águas do Mar!
No Panthéon, trágico, o sino
Dá meia-noite, devagar:
Ó tardes de outono, com fontes carpindo
Entre erva sedenta!
Os cravos a abrirem, a Lua aspergindo
Luar, água-benta...
É o Vítor, outra vez menino,
A compor um alexandrino,
Pelos seus dedos a contar!
Ao dar meia-noite no cuco da sala,
Batiam: "Truz! truz!"
E o Avô que dormia, quietinho na
Entrava, Jesus!
Que olhos tristes tem meu
Vê-me a comer e põe-se a ougar:
Nas sachas de Junho, ninguém se batia
Com o nosso caseiro:
Que espanto, pudera! se da freguesia
Êle era o coveiro. . .
Sobe ao meu quarto, bom velhinho!
Que eu dou-te um copo dêste vinho
E metade do meu jantar.
Morria o mais velho dos nossos criados,
Que pena! que dó!
Pedi-lhe, tremendo, fizesse recados
À alminha da Avó...
Bairro Latino! dorme um pouco;
Faze, meu Deus, por sossegar!
Ó banzas dos rios, gemendo descantes
E fados do Mundo!
Ó águas falantes! ó rios andantes,
Com eiras no fundo!
Cala-te, Georges! estás já rouco!
Deixa-me em paz! Cala-te, louco,
Ó boulevard!
Trepava às figueiras cheiinhas de figos
Como astros no Céu:
E em baixo, aparando-os, erguiam mendigos
O rôto chapéu.. .
Boas almas, vinde ao meu seio!
Espíritos errantes no Ar!
Ó Lua encantada no fundo do poço,
Moirinha da Mágoa!
O balde descia, quimeras de Moço!
Trazia só água. . .
Sou médio: evoco-os, noite em
Vós não acreditais, eu sei-o. . .
Deixá-lo não acreditar.
meio!
Meus versos primeiros estão no adro, ainda,
Escritos na cal:
Cantavam Aquela que é a rosa mais linda
Que tem Portugal!
Se eu vos pudesse dar a vista,
Ceguinhos que ides a tactear...
A Lua é ceifeira que, às noites, ensaia
Bailados na Terra!
Luar é celeiro que, pálido, caia
Ermidas na serra. . .
Quando essa sorte me contrista!
Mas ah! mais vale não ter vista
Que um mundo dêstes ter de olhar. . .
O Conde da Lixa sabia o Horácio,
Tintim por tintim!
E dava-me, à noite, passeando em palácio,
Lição de latim.
A Morte, agora, é a minha Ama
Que bem que sabe acalentar!
E entrei para a escola, meu Deus! quem me dera
Nessa hora da Vida!
Usava uma blusa, que linda que era!
E trança comprida...
À noite, quando estou na cama:
"Nana, nana, que a tua Ama
Vem já, não tarda! foi cavar. . . "
Os outros rapazes furtavam os ninhos
Com ovos a abrir;
Mas eu mercava-lhes os bons passarinhos,
Deixava-os fugir. . .
Camões! Ó Poeta do Mar-bravo!
Vem-me ajudar...
Os Presos, às grades da triste cadeia,
Olhavam-me em face!
E eu ia à pousada do guarda da aldeia
Pedir que os soltasse. . .
Tenho o nome do teu escravo:
Em nome dêle e do Mar-bravo
Vem-me ajudar!
E quando um malvado moía a chibata
Um filho, ou assim,
Corria a seus braços, gritando: "Não Bata!
Bata antes em mim. . . "
E o Vento geme! e o Vento geme!
Que irá no Mar!
E quando dobrava na terra algum sino
Por velho, ou donzela,
A meu Pai rogavam "deixasse o Menino
Pegar a uma vela..."
Lôbos-d'água, que ides ao leme
Tende cuidado! A lancha treme.
Orçar! orçar!
Enterros de anjinhos! O dores que trazem
Aos tristes casais!
Há doces, há vinho, senhores que fazem
Saúdes aos pais. . .
Meu velho Cão, meu grande amigo,
Por que me estás assim a olhar!
A Prima doidinha por montes andava,
A Lua, em vigília!
Olhai-me, Doutôres! Há doidos, há lava,
Na minha Família...
Quando eu choro, choras comigo
Meu velho Cão! és meu amigo. . .
Tu nunca me hás de abandonar.
E os anos correram, e os anos cresceram,
Com êles cresci:
Os sonhos que tinha, meus sonhos. . . morreram,
Só eu não morri. . .
Frades do Monte de Crestelo !
Abri-me as portas! quero entrar...
Fui vendo que as almas não eram no Mundo
Singelas e francas:
A minha, que o era, ficou num segundo
Cheiinha de brancas!
Cortai-me as barbas e o cabelo,
Vesti-me êsse hábito singelo. . .
Deixai-me entrar!
Fiquei pobrezinho, fiquei sem quimeras,
Tal qual Pedro-Sem,
Que teve fragatas, que teve galeras,
Que teve e não tem. . .
Moço Lusíada? criança!
Por que estás triste, a meditar'
Vieram as rugas, nevou-me o cabelo
Qual musgo na rocha. . .
Fiquei para sempre sequinho, amarelo,
Que nem uma tocha!
Vês teu país sem esperança
Que tudo alui, à semelhança
Dos castelos que ergueste no Ar'
E a velha Carlota, revendo-me agora
Tão pálido, diz:
Meu pobre Menino! que Nossa Senhora
Fêz tão infeliz. . ."



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SONETOS
1

Longe de ti, na cela do meu quarto,
Meu corpo cheio de agoirentas fezes,
Sinto que rezas do Outro-mundo, harto,
Pelo teu filho, Minha Mãe, não rezes!

Para falar, assim, vê tu! já farto,
Para me ouvires blasfemar, às vêzes,
Sofres por mim as dores cruéis do parto
E trazes-me no ventre nove meses!

Nunca me houvesses dado à luz, Senhora!
Nunca eu mamasse o leite aureolado
Que me fêz homem, mágica bebida!

Fôra melhor não ter nascido, fôra,
Do que andar, como eu ando, degredado
Por esta Costa d' África da Vida.


2

Altos pinheiros septuagenários
E ainda impertigados sôbre a serra!
Sois os Enviados-extraordinários,
E embaixadores del-Rei Pã, na Terra.

A noite, sob aquêles lampadários,
Conferenciais com êle... Há paz? Há guerra ?
E tomam notas vossos secretários,
Que o Livro Verde secular encerra.

Hirtos e altos, Tayllerands dos montes!
Tendes a linha, não vergais as frontes
Na exigência da Côrte, ou beija-mão!

Voltais aos Homens com desdém a face. . .
Ai oxalá! que Pã me despachasse
Adido à vossa estranha Legação!



3
Não repararam nunca? Pela aldeia,
Nos fios telegráficos da estrada,
Cantam as aves, desde que o Sol nada,
E, à noite, se faz sol a Lua-Cheia.
No entanto, pelo arame que as tenteia,
Quanta tortura vai, numa ânsia alada!
O Ministro que joga uma cartada,
Alma que, às vêzes, d' Além-Mar anseia:

- Revolução! - Inútil. - Cem feridos,
Setenta mortos;. - Beijo-te! - Perdidos!
- Enfim, feliz!?! - Desesperado. - Vem.

E as boas aves, bem se importam elas!
Continuam cantando, tagarelas:
Assim, Antônio, deves ser também.




ANTONIO NOBRE
A LISBOA DAS NAUS, CHEIA DE GLóRIA
Lisboa à beira-mar, cheia de vistas,
Ó Lisboa das meigas Procissões!
Ó Lisboa de Irmãs e de fadistas!
Ó Lisboa dos líricos pregões. . .
Lisboa com o Tejo das Conquistas,
Mais os ossos prováveis de Camões!
Ó Lisboa de mármore, Lisboa!
Quem nunca te viu, não viu coisa boa. ..
Ai canta, canta ao luar, minha guitarra,
A Lisboa dos Poetas Cavaleiros!
Galeras doidas por soltar a amarra,
Cidades de morenos marinheiros,
Com navios entrando e saindo a barra
De proa para países estrangeiros!
Uns pra França, acenando Adeus! Adeus!
Outros pras índias, outros.. . sabe-o Deus!

Ó Lisboa das ruas misteriosas!
Da Triste Feia, de João de Deus,
Beco da Índia, Rua das Fermosas,
Beco do Fala-Só (os versos meus...)
E outra rua que eu sei de duas Rosas,
Beco do Imaginário, dos Judeus,
Travessa (julgo eu) das Isabéis,
E outras mais que eu ignoro e vós sabeis.

Luar de Lisboa! aonde o há igual no Mundo?
Lembra leite a escorrer de têtas nuas!
Luar assim tão meigo, tão profundo,
Como a cair dum céu cheio de luas!
Não deixo de o beber nem um segundo,
Maio vejo apontar por essas ruas. . .
Pregoeiro gentil lá grita a espaços:
"Vai alta a lua!" de Soares de Passos.

Formosa Sintra,onde, alto, as águias pairam,
Sintra das solidões! beijo da terra!
Sintra dos noivos, que ao luar desvairam,
Que vão fazer o seu ninho na serra.
Sintra do Mar! Sintra de Lord Byron,
Meu nobre camarada de Inglaterra!
Sintra dos Moiros, com os seus adarves,
E, ao longe, em frente, o Rei dos Algarves!

Ó Lisboa vermelha das toiradas!
Nadam no Ar amôres e alegrias,
Vêde os Capinhas, os gentis Espadas,
Cavaleiros, fazendo cortesias.. .
Que graça ingênua! farpas enfeitadas!
O Povo, ao Sol, cheirando às maresias !
Vêde a alegria que lhe vai nas almas!
Vêde a branca Rainha, dando palmas!

Ó suaves mulheres do meu desejo,
Com mãos tãos brancas feitas pra carícias!
Ondinas dos Galeões! Ninfas do Tejo!
Animaizinhos cheios de delícias.. .
Vosso passado quão longínquo o vejo!
Vós sois Árabes, Celtas e Fenícias!
Lisboa das Varinas e Marquesas. . .
Que bonitas que são as Portuguêsas !

Senhoras! ainda sou menino e moço,
Mas amôres não tenho nem carinhos!
Vida tão triste suportar não posso.
Vós que ides à novena, aos Inglesinhos,
Senhoras, rezai por mim um Padre-Nosso,
Nessa voz que tem beijos e é de arminhos.

Rezai por mim. . . Vereis . . . Vossos pecados
(Se acaso os tendes) vos serão perdoados.
Rezai, rezai, Senhoras, por aquêle
Que no Mundo sofreu tôdas as dores!
Ódios, traições, torturas, - que sabe êle!
Perigos de água, e ferro e fogo, horrores!
E que, hoje, aqui está, só osso e pele,
A espera que o enterrem entre as flôres . . .
Ouvi: estão os sinos a tocar.
Senhoras de Lisboa! ide rezar.



SONÊTO No 25

Meu pobre amigo! Sempre silencioso!
Assim eu fui. Cismava, lia, lia. . .
Mudei no entanto de Filosofia,
Não creio em nada! e fui tão religioso!

Tomei parte no Exército glorioso
Que foi bater-se por Israel, um dia!
Cri no Amor, no Bem, na Virgem Maria,
Não creio em nada! tudo é mentiroso!
Não vale a pena amar e ser amado,
Nem ter filhos dum seio de mulher
Que ainda nos vem fazer mais desgraçado!

Não vale a pena um grande poeta ser,
Não vale a pena ser rei nem soldado,
E venha a Morte, quando Deus quiser!


AFIRMAÇÕES RELIGIOSAS

Ó meus queridos! Ó meus Stos. limoeiros!
Ó bons e simples padroeiros!
Santos de minha muita devoção!
Padres choupos! ó castanheiros!
Basta de livros, basta de livreiros!
Sinto-me farto de civilização!

Rezai por mim, ó minhas boas freiras,
Rezai por mim, escuras oliveiras
De Coimbra, em Sto. Antônio de Olivais;
Tornai-me simples como eu era d 'antes,
Sol de Junho, queima as minhas estantes,
Poupa-me a Bíblia, Antero... e pouco mais!
No mar da vida cheia de perigos
Mais monstros há, diziam os antigos,
Que lá nas águas dêsse outro mar.
O que pensais vós a respeito disto,
Ó navegantes dêsse mar de Cristo!
Heróis, que tanto tendes de contar

Chorai por mim, ó prantos dos salgueiros,
Pois entre os tristes eu sou dos primeiros!
Lamentos ao luar, dos pinheirais,
E vós, ó sombra triste das figueiras!
Chorai por mim, ó flor das amendoeiras
Chorai também, ó verdes canaviais!

E quando enfim, já tarde de sofrer
Eu um dia me fôr adormecer
Para onde há paz, maior que num convento,
Cobri-me de vestes, ó fôlhas d 'outono,
Ai não me deixeis no meu abandono!
Chorai-me ciprestes, batidos do vento...


O REGRESSO DE ANRIQUE A PORTUGAL
Vem entrando a barra a galera " Maria' ,
Que vem de tão longe, e tão linda que vem!
Toca em terra o sino pra missa do dia,
Em frente, em Santa Maria de Belém!
Mareantes trigueiros, no alto dos mastros,
Ai dobram as velas; não são mais precisas!
Ai que lindas eram, às luas e aos astros!
Que doidas, aos ventos! que meigas, às brisas!

Desdobra as amarras! apresta a fateixa!
Pois todos em breve a nau vão deixar;
Ó terra! que saudade a de quem te deixa,
Ó terra! pela aventura do alto mar!

Entra o pilôto e abraçam-se êstes e aquêles,
Abraçam-se e riem tanto à vontade. . .
Abraços que levam almas dentro dêles,
Sorrisos de bôcas que falam verdade!

Só as entende (capitães, não as sentis)
Quem, algum dia, passou as águas salgadas,
Quem, um dia, as passou numa hora infeliz,
Quem, um dia, as passou, com as frontes curvadas.

E "Maria" vai indo pelo Tejo acima,
E cisma Anrique: - Que lindo Portugal!
Vêm as Ninfas... Vai uma dá-lhe uma rima,
Vai outra (gostam dêle) e vai faz-lhe um sinal.

E Anrique cisma: - Quem te não viu ainda!
Ó minha Lisboa de mármore! Lisboa
De ruínas e de glórias! Tu és linda
Entre as cidades mais lindas, ó Lisboa!

Ó minha Lisboa, com oiros tão constantes
Pelas serras e céus e pelo rio! Com seus
Jerônimos dos Poetas e Mareantes!
Lisboa branca de João de Deus!


LISBOA DOS DESTINOS IMPERIAIS
(fragmento)

Côr do céu, a bandeira, e côr de neve,
Não a vejo na Tôrre a flutuar!
Senhor! Vós bem sabeis que o Rei não deve
Outras armas que a Vossa apresentar...
Se assim deixais que outro Povo a leve,
Por que a destes ao nosso pra guardar
Não é êle o mesmo que, em Ourique,
A aclamou nas mãos do teu Henrique?
Anda tudo tão triste em Portugal!
Que é dos sonhos de glória e de ambição?
Quantas flôres do nosso laranjal
Eu irei ver caídas pelo chão!
Meus irmãos Portuguêses, fazeis mal
De ter ainda no peito um coração.
Talvez só eu (Amor, ai, tu me entendes!)
Possa ainda ter a paz que já não tendes.
Esperai, esperai, ó Portuguêses!
Que êle há de vir, um dia. Esperai.
Para os mortos os séculos são meses,
Ou menos que isso, nem um dia, ai.
Tende paciência, findarão reveses;
E até lá, Portuguêses, trabalhai.
Que El-Rei Menino não tarda a surgir,
Que êle há de vir, "há de vir, há de vir!



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DA INFLUÊNCIA DA LUA

Outono. O Sol, qual brigue em chamas, morre
Nos longes d'água... Ó tardes de novena!
Tardes de sono em que a poesia escorre
E os bardos, a cismar, molham a pena!
Ao longe, os rios de águas prateadas,
Por entre os verdes canaviais, esguios,
São como estradas líquidas, e as estradas,
Ao luar, parecem verdadeiros rios!
Os choupos nus, tremendo, arrepiadinhos,
O xale pedem a quem vai passando...
E nos seus leitos nupciais, os ninhos,
As lavandiscas noivam, piando, piando!
O orvalho cai do Céu, como um unguento.
Abrem as bôcas, aparando-o, os goivos;
E a laranjeira, aos repelões do Vento,
Deixa cair por terra a flor dos noivos,
E o orvalho cai... E, à falta d'água, rega
O vale sem fruto, a terra árida e nua!
E o Padre-Oceano, lá de longe prega
O seu Sermão de Lágrimas, à Lua!
A Lua! Ela não tarda aí, espera!
O mágico poder que ela possui!
Sôbre as sementes, sôbre o Oceano impera,
Sôbre as mulheres grávidas influi...
Ai os meus nervos, quando a Lua é cheia!
Da Arte novas concepções descubro,
Todo me aflijo, fazem lá idéia!
Ai a ascensão da Lua, pelo Outubro!
Tardes de Outubro! ó tardes de novena!
Outono! Mês de Maio, na lareira!
Tardes.. Lá vem a Lua, gratiae plena,
Do convento dos Céus, a eterna freira!



LUSITÁNIA NO BAIRRO LATINO

.............................SÓ
Ai do Lusíada, coitado,
Que vem de tão longe, coberto de pó,
Que não ama, nem é amado,
Lúgubre Outono, no mês d' Abril !
Que triste foi o seu fado!
Antes fôsse pra soldado,
Antes fôsse pro Brasil. . .
Menino e moço, tive uma Tôrre de leite,
Tôrre sem par!
Oliveiras que davam azeite,
Searas que davam linho de fiar,
Moinhos de velas, como latinas,
Que São Lourenço fazia andar. . .
Formosas cabras, ainda pequeninas,
E loiras vacas de maternas ancas
Que me davam o leite de manhã,
Lindo rebanho de ovelhas brancas;
Meus bibes eram da sua lã.
Antônio era o Pastor dêsse rebanho:
Com elas ia para os Montes, a pastar.
E tinha pouco mais ou menos seu tamanho,
E o pasto delas era o meu jantar.. .
E a serra a toalha, o covilhete e a sala.
Passava a noite, passava o dia
Naquela doce companhia.
Eram minhas Irmãs e tôdas puras
E só lhes minguava a fala
Para serem perfeitas criaturas. . .
E quando na Igreja das Alvas Saudades
(Que era da minha Tôrre a freguesia)
Batiam as Trindades,
Com os seus olhos cristianíssimos olhavam-me,
Eu persignava-me, rezava Ave-Maria. . .
E as doces ovelhinhas imitavam-me.
Menino e moço, tive uma Tôrre de leite,
Tôrre sem par!
Oliveiras que davam azeite. . .
Um dia, os castelos caíram do Ar!
As oliveiras secaram,
Morreram as vacas, perdi as ovelhas,
Saíram-me os Ladrões, só me deixaram
As velas do moinho. . . mas rôtas e velhas!
Que triste fado!
Antes fôsse aleijadinho,
Antes doido, antes cego. . .
Ai do Lusíada, coitado!
Veio da terra, mailo seu moinho:
Lá, faziam-no andar as águas do Mondego,
Hoje, fazem-no andar águas do Sena . . .
É negra a sua farinha!
Orai por êle! Tende pena!
Pobre Moleiro da Saudade.. .
Ó minha
Terra encantada. cheia de Sol,
Ó campanários, ó Luas Cheias,
Lavadeira que lavas o lençol,
Ermidas, sinos das aldeias,
Ó ceifeira que segas cantando,
Ó moleiro das estradas,
Carros de bois, chiando. . .
Flôres dos campos, beiços de fadas,
Poentes de Julho, poentes minerais,
Ó choupos, ó luar, ó regas de verão!
Que é feito de vocês? Onde estais, onde estais?
Ó padeirinhas a amassar o pão,
Velhinhas na roca a fiar,
Cabelo todo em caracóis!
Pescadores a pescar
Com a linha cheia de anzóis!
Zumbidos das vespas, ferrões das abelhas,
Ó bandeiras! ó Sol! foguetes! ó tourada!
Ó boi negro entre as capas vermelhas!
Ó pregões d'água fresca e limonada!
Ó romaria do Senhor do Viandante!
Procissões com música e anjinhos!
Srs. Abades d'Amarante,
Com três ninhadas de sobrinhos!
Onde estais? Onde estais?
Ondas do Mar! Serras da Estrêla d'água,
Cheias de brigues como pinhais...
Morenos mareantes, trigueiros pastôres!
Onde estais? Onde estais?
Convento d'águas do Mar, ó verde Convento,
Cuja Abadêssa secular é a Lua
E cujo Padre-capelão é o Vento. . .
Água salgada dêsses verdes poços,
Que nenhum balde, por maior, escua!
Ó Mar jazigo de paquêtes, de ossos,
Que o Sul, às vêzes, arrola à praia:
Olhos em pedra, que ainda chispam brilhos!
Corpo de virgem, que ainda veste a saia,
Braços de mães, ainda a apertar braços de filhos!
Noiva cadáver ainda com véu.. .
Ossadas ainda com os mesmos fatos!
Cabeça roxa ainda de chapéu!
Pés de defunto que ainda traz sapatos!
Boquinha linda que já não canta.. .
Bôcas abertas que ainda soltam ais!
Noivos em núpcias, ainda, aos beijos, abraçados!
Corpo intacto, a boiar (talvez alguma Santa. . .)
Ó defuntos do Mar! ó roxos arrolados!
Onde estais? Onde estais?
Ó Boa Nova, ermida à beira-mar,
Única flor, nessa viv'alma de areais!
Na cal, meu nome ainda lá deve estar,
À chuva, ao Vento, aos vagalhões, aos raios!
Ó altar da Senhora, coberto de luzes!
Ó poentes da Barra, que fazem desmaios....
Ó Sant'Ana, ao luar, cheia de cruzes!
Ó lugar de Roldão! vila de Perafita!
Aldeia de Gonçalves! Mesticosa!
Engenheiros, medindo a estrada com a fita. . .
Água fresquinha da Amorosa!
Rebolos pela areia! Ó praia da Memória!
Onde o Sr. D. Pedro, Rei-soldado,
Atracou, diz a História,
No dia... não estou lembrado;
Ó capelinha do Senhor d'Areia,
Onde o Senhor apareceu a uma velhinha. . .
Algas! farrapos dos vestidos da Sereia!
Lanchas da Póvoa que ides à sardinha,
Poveiros, que ides para as vinte braças,
Sol-pôr, entre pinhais. . .
Capelas onde o Sol faz mortes, nas vidraças!
Onde estais?


2

Georges! anda ver meu país de Marinheiros,
O meu país das Naus, de esquadras e de frotas!
Oh as lanchas dos poveiros
A saírem a barra, entre ondas e gaivotas!
Que estranho é!
Fincam o remo na água, até que o remo torça,
À espera da maré,
Que não tarda aí, avista-se lá fora!
E quando a onda vem, fincando-a a tôda a fôrça,
Clamam todos à uma: Agôra! agôra! agôra!
E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
(Às vêzes, sabe Deus, para não mais entrar. . . )
Que vista admirável! Que lindo! Que lindo!
Içam a vela, quando já têm mar:
Dá-Ihes o Vento e tôdas, à porfia,
Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas,
Rosário de velas, que o vento desfia,
A rezar, a rezar a Ladainha das Lanchas:
Senhora Nagonia!
Olha acolá!
Que linda vai com seu êrro de ortografia. . .
Quem me dera ir lá.
Senhora da guarda!
(Ao leme vai o Mestre Zé da Leonor)
Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda
O caçador!
Senhora d'ajuda!
Ora pro nobis!
Caluda!
Sêmos probes!
Senhor dos ramos
Istrêla do mar!
Cá bamos!
Parecem Nossa, Senhora, a andar.
Senhora da Luz!
Parece o Farol. . .
Maim de Jesus!
É tal qual ela, se lhe dá o Sol!
Senhor dos Passos! Sinhora da Ora!
Águias a voar, pelo mar dentro dos espaços
Parecem ermidas caiadas por fora. . .
Senhor dos Navegantes! Senhor de Matozinhos!
Os mestres ainda são os mesmos dantes:
Lá vai o Bernardo da Silva do Mar,
À mailos quatro filhinhos,
Vascos da Gama, que andam a ensaiar. . .
Senhora dos aflitos! Mártir São Sebastião!
Ouvi os nossos gritos!
Deus nos leve pela mão!
Ramos em paz!
ó lanchas, Deus vos leve pela mão!
Ide em paz!
Ainda lá vejo Zé da Clara, os Remelgados,
O Jéques, o Pardal, na Nam te perdes,
E das vagas, aos ritmos cadenciados,
Às lanchas vão traçando, à flor das águas verdes
"As armas e os varões assinalados. . ."
Lá. sai a derradeira!
Ainda agarra as que vão na dianteira. . .
Como ela corre! com que fôrça o Vento a impele:
Bamos com Deus!
Lanchas, ide com Deus! Ide e voltai com êle
Por êsse mar de Cristo. . .
Adeus! Adeus! Adeus!


3

Georges! anda ver meu país de romarias
E procissões!
Olha essas moças, olha estas Marias !
Caramba! dá-lhes beliscões!
Os corpos delas, vê, são ourivesarias,
Gula e luxúria dos Manéis !
Têm nas orelhas grossas arrecadas,
Nas mãos (com luvas) trinta moedas, em anéis,
Ao pescoço serpentes de cordões,
E sôbre os seios entre cruzes, como espadas,
Além dos seus, mais trinta corações!
Vá! Georges, faze-te Manel! Viola ao peito,
Toca a bailar!
Dá-lhes beijos, aperta-as contra o peito,
Que hão de gostar!
Tira o chapéu, silêncio!
Passa a procissão.
Estralejam foguetes e morteiros.
Lá vem o Pálio e pegam ao cordão
Honestos e morenos cavalheiros.
Altos, tão altos e enfeitados, os andores,
Parecem Tôrres de Davi, na amplidão!
Que linda e asseada vem a Senhora das Dores!
Olha o Mordomo, à frente, o Sr. Conde.
Contempla! Que tristes os Nossos Senhores,
Olhos leais fitos no vago. .. não sei onde! Os anjinhos!
Vêm a suar:
Infantes de três anos, coitadinhos!
Mãos invisíveis levam-nos de rastos
Que êles mal sabem andar.
Esta que passa é a Noite, cheia de astros!
(Assim estava, em certo dia, na Judéia)
Aquêle é o Sol! (Que bom o Sol de olhos pintados!)
E aquela outra é a Lua Cheia!
Seus doces olhos fazem luar...
Essa, acolá, leva na mão os Dados,
Mas perde tudo se vai jogar.
E esta que passa, tôda de arminhos,
(Vê! d 'entre o povo em êxtase, olha-a a Mãe)
Leva, sorrindo, a Coroa dos Espinhos,
Crianças em flor que ainda nos não tem.
E que bonita vai a Esponja de Fel!
Mal sabe, a inocentinha,
Nas suas mãos, a Esponja deita mel;
Abelhas d 'oiro tomam-lhe a dianteira.
Lá vem a Lança! A bainha
Traz ainda o sangue da Sexta-feira. . .
Passa o último, o Sudário!
O Corpo de Jesus, Nosso Senhor. . .
Oh que vermelho extraordinário!
Parece o Sol-pôr...
Que pena faz vê-lo passar em Portugal!
Ai que feridas e não cheiram mal. . .
E a procissão passa. Preamar de povo!
Maré-cheia do Oceano Atlântico!
O bom povinho de fato novo,
Nas violas de arame soluça, romântico,
Fadinhos chorosos da su 'alma beata.
Trazem imagens da Função nos seus chapéus.
Poeira opaca. Abafa-se. E, no Céu ferro-e-oiro,
O sol em glória brilha olímpico, e de prata,
Como a velha cabeça aureolada de Deus!
Trombetas clamam. Vai correr-se o toiro.
Passam as chocas, boas mães! passam capinhas.
Pregões. Laranjas! Ricas cavaquinhas!
Pão-de-ló de Margaride!
Aguinha fresca da Moirama !
Vinho verde a escorrer da vide!
A porta dum casal, um tísico na cama,
Olha tudo isto com seus olhos de Outro-mundo,
E uma netinha com um ramo de loireiro
Enxota as môscas, do moribundo.
Dança de roda mailas moças o coveiro.
Clama um ceguinho:
“Não há maior desgraça nesta vida,
que ser ceguinho ! "
Outro moreno, mostra uma perna partida!
Mas fede tanto, coitadinho. . .
Este, sem braços, diz "que os deixou na pedreira. . . “
E, êsse, acolá, todo o corpinho numa chaga,
Labareda de cancros em fogueira,
Que o Sol atiça e que a gangrena apaga,
Ó Georges, vê! que excepcional cravina.. .
Que lindos cravos para pôr na botoeira!
Tísicos! Doidos! Nus ! Velhos a ler a sina!
Etnas de carne! Jobs! Flôres! Lázaros! Cristos!
Mártires! Cães! Dálias de pus! Olhos-fechados!
Reumáticos! Anões! Deliriums-tremens! Quistos!
Monstros, fenômenos, aflitos, aleijados,
Talvez lá dentro com perfeitos corações:
Todos, à uma, mugem roucas ladainhas,
Trágicos, uivam" uma esmola p'las alminhas
Das suas obrigações!"
Pelo nariz corre-lhes pus, gangrena, ranho!
E coitadinhos! fedem tanto: é de arrasar. . .
Qu'é dos Pintores do meu país estranho,
Onde estão êles que não vêm pintar?




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