terça-feira, 11 de novembro de 2008

Antologia Farias de Carvalho com inéditos












Leio o belo soneto de Farias de Carvalho (1930-1997), o poeta amazonense, o poeta maior, tão bom quanto os maiores. Leio nO Fingidor o soneto. Farias meu professor de literatura no colégio. Farias, genial poeta:

Meu cavalo chegou

Farias de Carvalho (1930-1997)

Meu cavalo chegou (memória e nuvem),
a aurora derramada sobre a crina.
Meu cavalo chegou. Fome de tudo
estou também: engoliremos mundos.

Meu cavalo chegou. E, pressentidos,
os caminhos me espiam de suas rédeas.
Meu cavalo chegou. Há quanto tempo
gasto-me em pés e olhos nesta espera...

Meu cavalo chegou. Eu despertava
quando o vento falou-me de seus cascos
e a poeira garantiu-me sua presença.

Meu cavalo chegou. Cumprir-me-ei.
Tanta gente cansada nessas cruzes...
Meu cavalo chegou. Mortos, montai!...

Leio o belo soneto e mergulho na sua simbologia, na sua mitologia. Cavalo, signo quente, masculino, sexual. Memória e nuvem, desejos na aurora, sobre a crina. Desejo, fome de tudo, engoliremos mundos. Pressentimentos dos caminhos, de suas rédeas de virtude e de vício, de seus cascos, da poeira, da presença. Meu cavalo chegou para acordar os mortos, tema sempre constante em Farias d'Ouro de Carvalho, tanta gente morta, tanta gente cansada nessas cruzes. O ponto é aqui. A vida contra a morte. O cavalo contra a poeira esquecida do caminho...





JANELA DE MUNDO (*)



Farias Carvalho
Dia seis [de agosto] transcorreu mais um aniversário de fundação do Cine Guarany. Pela manhã, ainda bem cedo, fazendo a minha costumeira visita à República Livre do Pina, andei dando uns mergulhos dentro de mim
mesmo, nos desvãos do meu mundo interior, nos labirintos da memória, rebuscando fatos e coisas do passado, numa viagem impregnada de lembranças e de saudades.
Aniversário do GUARANY! a meninada acordava em festa, com a moeda de um mil-réis balançando no bolso, fortuna que chegava para a compra do ingresso e sobrava ainda para um copo duplo de refresco acompanhado de um imenso mata-fome.

Desde às primeiras horas da manhã, começavam a se formar as filas enormes, com os guardas de trânsito postados à porta do cinema, em uniforme de gala, o alto-falante voltado para a rua, a todo volume, como um convite musical, chamando a todos para a grande festa popular, em que se realizavam sorteios, ofereciam-se brindes, tudo antes que, na tela, lotadas a plateia e a galeria, Tom Mix ou Buck Jones começassem a cavalgar os seus corcéis fogosos, perseguindo maus encarados, sob a gritaria terrível da meninada, que ficava atirando aviões de papel, caixinhas de chicletes, quase levando a loucura o pobre do Domingos, velho funcionário que fechava as portas laterais e ficava a andar como uma barata tonta, na tentativa de acalmar a fúria dos meninos endiabrados.

Mas, acima de tudo isso, pairando sobre a confusão da inquietação da garotada, agigantava-se a figura do velho Vasco, o querido Vovô da meninada inteira, com os seus cabelos da cor da neve, o seu rosto rosado de camponês sadio, o seu sorriso sempre iluminado, sempre irradiando ternura e bondade.
 
Cine Guarany
Quando o filme começava, ele colocava-se à entrada interior do cinema, para escutar e atender aos mesmos pedidos de sempre: "Seu Vasco, eu tenho só quinhentos réis, deixa eu entrar?'' E ele, inventando uma carranca que era só de araque, acabava encuiando as mãos e, sem poder conter o riso franco, respondia sempre: “Sobe moleque, sobe, vai pra galeria!"

E era de ver-se, meus irmãos, a correria da turma miúda, da turma pobre dos bairros distantes que, por não dispor dos dez tostões, ficava pechinchando e por fim terminava mesmo entrando com quinhentos,
trezentos, duzentos réis, às vezes até mesmo sem pagar coisa alguma, que era assim, meus irmãos, o vovô Vasco, o imensamente bondoso vovô Vasco, que uma cidade inteira amava profundamente, através de suas
crianças, especialmente as crianças pobres, que, pelo  fato de não terem dinheiro, não ficavam jamais sem as emoções das cargas de cavalaria, trepidando na tela, sob o comando corajoso de Custer, nos combates eternos contra os peles vermelhas. 
De repente, contudo, a voz de um amigo trouxe-me de volta à realidade do presente. E eu olhei para o GUARANY. Foi como se qualquer coisa de mim mesmo quisesse desprender, libertar-se, voltar a saltitar   irrequietante. E eu compreendi, meus irmãos, perfeitamente, que era o menino, o menino de ontem, perdido em bruma e ocasos, que buscava teimoso o reencontro, o reencontro impossível com o passado.

Com duas lágrimas marotas descendo pelo rosto, voltei os olhos para o céu e tive, meus irmãos, sinceramente, a nítida impressão de que do azul, Vovô me fitava sorridente, as brancas mãos unidas como em cuia, a me dizer na linguagem da brisa e da luz: “Eu estou aqui, meu filho, a tua espera. Não te importes com os níqueis e as moedas. Quando vieres, traz uma estrela na alma. Bastará!”

(*) A Notícia, 9 de agosto de 1975











Farias de Carvalho





OCASO





Meus mortos hão de vir no fim da tarde
molhados da ferrugem liquida do rio
que banha as margens deste meu silencio,
deste silencio 1úcido e sonoro
que embala na praia ao fim das tardes
os olhos de éter dos defuntos tortos
que lambem com o olhar a praia longe.

Meus mortos hão de vir no fim da tarde
mordendo a pele aquática do vento;
(vento, vento de tíbias descarnadas
arrepiando o pelo das vidraças).

Meus mortos hão de vir no fim da tarde.
Aguçai vossos dentes, cães do tempo,
vamos comer a morte no crepúsculo.





SONETO ALÉM DA BRISA




Acorda, amiga, veio a noite. Veste-a,
cobre tua nudez paralisante.
(Nem os astros, amor, compreenderão
que foi para o meu sonho que despiste
a túnica irreal em que apareces
para os olhos que veem e te não sabem).
Vamos. 0 bosque adormeceu repleto
de tua presença imaterial e eterna.
Um pouco mais, andemos, deixar-me-ás
lado a lado ao pastor que já repousa
e quando, na volúpia de seguir-te
eu deixar que te vas, nua-te amor,
para que eu possa ter dentro da sombra
umas gotas de sol para buscar-te.



ACALANTO


Sao estórias da vida que me conto,
a mim, que muitas vezes me não sei;
reinvenção de tudo quanto amei,
lendas de carne e alma onde me encontro.
Falas de praia e rio, de calçadas
banhadas pela luz da lua cheia,
de naus e caravelas tripuladas
por sonhadores capitães de areia.
São essas coisas todas que me digo,
coisas que o sopro de algum vento antigo
joga outra vez no meu convés noturno.
E quilha e mastro, e bússola e velame
reinventam-se em mim, para que os meus
marujos mortos novamente eu chame.



Mensagem do amanhã


Farias de Carvalho (1930-1997)



Essa aurora que vem será dos puros,
dos bem-aventurados loucos de hoje;
dos que trocaram o paletó de carne
pela túnica azul dos infinitos.

Essa aurora que vem será dos poetas,
esses feitores mágicos de mundos,
– galopadores das palavras vivas
que serão a estrutura do amanhã.

Essa aurora que vem, cairá das mãos
desses pálidos anjos que andam, à noite,
tatuando mensagens nos espaços...

Essa aurora que vem, magicamente
pulará da cartola de Carlitos
com a chave de amor do mundo novo!




SONETO II


Sinto um gosto de quilha nos meus olhos
e um paladar de ventos nas narinas,
desconhecidas ilhas esses poemas
onde para chegar tanto me custa.
Ha uns que por sextantes e por cartas
aportam o sonho, e plantam estórias, ficam.
Se o meu verso não fosse, e fosse mapa
já por certo meus mundos descobrira.
Mas nesta viagem nova, nesta rota,
acho mesmo melhor não ter estrelas
(e convite saber que se não sabe)
Para que mapa, pois? Creio basta
este gosto de quilha nos meus olhos
e este sabor de ventos nas narinas.





VIGÍLIA




Tocado por meus mortos despertei
ruminando palavras de silencio;
e a noite que voltava aos seus misterios
deixou seus anjos para o meu co1óquio.
Na treva, enquanto o sapo do re1ógio
coaxava as horas pelos olhos verdes, \
com meu punhal de têmpera de lua,
risquei memórias velhas na parede.
Depois, pelo jardim adormecido,
cumpri o ofício de esperar o dia
pendurando meus sonhos pelo arame
como esses velhos, murchos e pacatos,
que esperam a morte junto das lareiras
arrumando saudades e retratos.





Prólogo




Desses mortos ocasos esquecidos
chega-me agora o pássaro de cinza;
de ontem são suas asas, de silêncio
o seu bico pousado sobre a ponte

entre o vencido vale e o bosque a entrar,
bica-me o peito onde marés antigas
jogam restos de mastros e fantasmas
desses velhos piratas que ficaram

tatuados na penumbra de olhos idos.
E sem saber talvez do inútil intento
ninha o vazio do momento, à espera

da comida do sonho que ontem davam
essas mãos que se foram, consumidas
nesses mortos ocasos esquecidos...

[Pássaro de cinza. Manaus, Valer, 2.000]

Encontrei a nova edição de Pássaro de cinza no Aeroporto, de volta ao Rio. Era 28 de dezembro de 2.000, o avião lotado dos que vinham para o Reveillon, o/um clima de « fim de siècle » pairava no ar. A meu lado um cavalheiro estrangeiro lia um livro grosso, com gravuras. Sério, aborrecia-se cada vez que eu saía de meu lugar para andar, estirar as pernas no corredor do aeroplano. Irritava-se com minha incontinência. Em pouco o calor de Manaus foi substituído por um tempo chuvoso e feio, frio, escuro, Brasília. E eu voltava, continuava, continuava lendo, relendo, o poeta, o professor Carlos Farias Ouro de Carvalho e vi os 35 anos se passando, desde que o vi pela última vez, no Colégio Estadual do Amazonas, Farias era gordo, moreno, os olhos esbugalhados e poderosos, carregados de genialidade, o sorriso delirante, dramático, os gestos largos, a voz tonitruante, grave, minha leitura prosseguia, eu revia todos aqueles poemas de meu Professor de Literatura, de vida, moreno, gordo, talentoso, imponente e belo, dizem que faleceu no Rio, ou em Brasília, ou em Nicterói, não sei, que largou Manaus, que fazia “cartomancia clínica” em Nicterói, dizem, que inventava sonhos, futuros, inventariava profissões, ressuscitava esperanças mortas, profetizava, arregimentava os signos do zodíaco e orquestrava novas configurações prestidigitações. Farias lembrava o Orson Welles, figura extraordinária, agora reeditado pela Valer. Quanto vale a sua poesia? Quem sabe. Ele faz parte do quarteto de ouro: Norões, Bacellar, Tufic e Farias, os quatro grandes da poesia do Amazonas, que fazem parte de meu arcabouço intelectual, tão improvisado. Sou um provinciano, ainda que tenha vivido no mundo inteiro: Katmandu, Paris, Sydney. Manaus é para mim minha pátria espiritual, mas que não parece. Quando vou a Manaus só permaneço 3, 5 dias. Carrego Manaus dentro de mim. Não preciso estar lá. Farias faz parte de minhas mais antigas leituras, me deu aula de vida, de alegria, de charme, de dignidade e nobreza. Ninguém era tão elegante quanto ele, no gesto largo da mão gorda, na inclinação da face, na inflexão da voz, nas metáforas exatas, Farias cantava as aulas, declamava, não reclamava, (nunca nos repreendeu), pedia dinheiro emprestado aos alunos, que nunca pagava, me ensinou a Poesia, a Ousadia, a Superação, ele foi um pai, um amigo, e um exemplo, um grande exemplo de educador, no mais elevado sentido desse incômodo e errático termo, e hoje escrevo estas notas, quase com lágrimas nos olhos, vindas de longe, do tempo em que Farias exercia sobre a minha consciência de adolescente um papel mítico, imortalizado na arquitetura de seu livro Pássaro de cinza, dedicado ao Dr. João Veiga, meu médico da infância e adolescência triste e doentia, solitária e incompreendida, Veiga na sua bela casa da Getúlio Vargas, casa que não mais deve existir, aliás nada mais existe, tudo desapareceu no fundo da noite dos anos, e se, na hora de minha morte, as imagens de minha vida se projetarem na minha consciência que se extingue, virá como o pássaro de cinzas de Farias de Carvalho, o Professor.[R. Samuel].







ERÓTICA


Planto a manhã no bico dos teus seios
e acampo ternuras infinitas

no céu dermatológico do teu colo.

De repente,

um escafandro de loucos

arrepios

me leva ao bosque negro das origens

e a selva-seiva tinge-me de espasmos

enquanto um lepidópero de asas-noite


Rufla gôzos e humus no meu rosto.




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Reinventando Manaus

FARIAS DE CARVALHO






O CINEMA GUARANI




Domingo de claridade!!
do centro, daí, dali,
os meninos da cidade
onhavam com o Guarani.
Níqueis na mão,iam em festa
ao sol claro da manhã,
embrenhar-se na floresta
com Jane,Boy e Tarzã
à porta o Vasco sorria
com as mãos brancas encuiadas
enquanto nelas caia
a cascata, que tinia,
das moedas recontadas.
brancos, pretos, ricos, pobres,
compunham a mesma grei,
lutando, heróicos e nobres,
com os mosqueteiros do rei.
Duas horas de ilusão,
devaneio e encantamento,
cavalgando o alazão
do Zorro, ou partindo, ao vento
pelo mar, bravio e ancho,
na caravela ligeira
com o estandarte da caveira
do bravo Capitão Gancho.
OH! DOMINGOS COLORIDOS
DE SAUDOSAS MATINAIS
QUE HOJE NAVEGAM, PERDIDOS,
NESSAS ROTAS DO JAMAIS.



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Tarde morna de domingo
prenúncio róseo de poente;
O sol, escarlate pingo
no céu, morre lentamente.
A praça alegre irradia
cintilação diferente,
festiva policromia
de chitas, sedas e gente.
É a retreta domingueira
do flerte mal disfarçado,
da caboclinha faceira
sonhando com um namorado.
No coreto os instrumentos
começam a ser afinados
para.o doce encantamento
das marchas, valsas, dobrados.
É a cidade enternecida
que floresce em bem-querer,
enquanto se escoa a vida
nas trilhas do não-saber.
AH! RETRETAS, AH! DOBRADOS
DA MINHA VELHA CIDADE,




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O BONDE SAUDADE



Não era apenas transporte
de conduzir passageiros,
era como um passaporte
para os sonhos mais brejeiros.
Aos domingos, quase ao poente,
dava-se a transformação:
Pouco a pouco, lentamente,
na pracinha da estação
dos bondes, se reunia
Grande parte da cidade e o costume se cumpria:
Passear no bonde SAUDADE!
Senhoras de fino trato
e recatadas donzelas,
como vivas aquarelas
na moldura de um retrato.
Sorrisos bordando o ar
no jogo do faz-não-faz,
cheiro bom de ROYAL-BRIAR
e frou-frou dos tafetás.
Os homens empertigados
para a volta vespertina,
com os jaquetões engomados,
lustrados à estearina.
Súbito era a multidão
toda se alvoroçando,
um frêmito, uma emoção:
Era o SAUDADE chegando!
com sua fome de trilhos
partia o bonde, rodando,
mãos ligeiras acenando
seus recados andarilhos.
OH! PRACINHA DA ESTAÇÃO,
PLANTADA NA ETERNIDADE,
EM QUE TRILHOS DA AMPLIDÃO
RODA O MEU BONDE SAUDADE?




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Ofício
Farias de Carvalho (1930-1997)



Ruir-me e sem contudo haver ainda
sequer simples começo construído,
saber-me morto e nunca ter vivido
além do gesto que não foi. A infinda

flagelação do instante pressentido
(e só) é o postilhão dessa berlinda
onde o ir-se já sabe mais a vinda
e onde me instalo lúcido e perdido.

Ruir-me e sem poder cantar na queda
o pânico do abismo. Não poder
legar o sonho em ruína para os salvos.

Ruir-me. Como súbito o silêncio
estraçalhado por um grito. E ir-me
ruindo nesse afã de construir-me.




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A CIDADE

Era província, possuía
o indizível paladar
das tardes com que urdia
seu tempo de não-passar.
À noite, tendo bordadas
as ruas pelo luar,
se punha a tagarelar
em cadeiras nas calçadas.
Aos domingos, de manhã,
sabendo a cupuaçu,
se banhava no Mindu
ou então no tarumã.
E à tardinha, à claridade
de um céu de sonho e de paz,
vestia-se em tafetás
para as voltas no SAUDADE.
Nas esquinas sempre havia
um carro de garapeiro,
de cujo bojo subia
o odor de um pomar inteiro.
Ao lado, como um convite
aos passantes distraídos,
doces multicoloridos
eram um hino ao apetite.
AH! MANAUS DE ANTIGAMENTE
-BONDES, PRAÇAS, VELHO CAIS-
HOJE ÉS UM RISCO SOMENTE
NO MEU CÉU DE NUNCA-MAIS!




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ROADWAY



Um passeio domingueiro,
um costume da cidade,
festivo, alegre, brejeiro,risos, sonhos,
risos, sonhos, claridade..
Domingo à tarde era certo:
Elegantes, bem trajados,
iam todos ver de perto
os navios ancorados.
Os tafetás reluziam,
e os ternos brancos de linho,
enquanto os sonhos se urdiam
nos volteios do caminho.
Moças casamenteiras,
rapazes apaixonados,
mãos se tocando, ligeiras,
doces olhares trocados.
E diante dos navios,
dos grandes "loides" silentes,
o sonho tecendo os fios
de roteiros diferentes.
De repente, no horizonte,
o ocaso se anunciava,
fim do passeio, a fonte
de ilusões que terminava.
DOMINGOS DA ADOLLESCÊNCIA,
DOS MEUS PASSEIOS AO CAIS,
ESTÃO TATUADOS NA ESSÊNCIA
DAS ROTAS DO NUNCA-MAIS!




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CARTA, SABENDO A BÚSSULA PARA UM VELHO MARINHEIRO... MEU PAI, UM ENCANTADOR DE ESTRELAS, NO SEU ETERNO VELEJAR

Graça Carvalho




Pois é meu pai, tu mesmo me disseste: "Quando aos teus olhos de repente, se formar os primeiros sinais de um furacão, recolhe o teu velame calmamente, e veleja saudades e lembranças".
Difícil, amado poeta! As lembranças são tantas! E cada uma delas vem tão carregada de peculiaridades e encantamentos, que a memória falha, confunde a clareza e a exatidão de tudo aquilo que me faz mergulhar dentro do teu "BAÚ VELHO". Peguei emprestado o teu velho quebra-cabeça e, sorvendo como uma louca cada pedacinho de suas peças (como tu já o fizeras), bati o pó e a saudade e comecei a jogar.
Quis jogar o mesmo jogo louco de uma vida louca onde, como tu, a minha normalidade se resumisse simplesmente em deixar que todos estes gestos me permitissem vagar pelos caminhos do ontem e de hoje. Quis vagar "NA PELE ÉOLEA DO VENTO" como costumavas dizer em muitos de teus escritos, crônicas ou poemas, com muita peculiaridade, e me entregar por inteiro a esse brincar de colher um pedacinho qualquer de uma nuvem distraida. Agarrar-me a ela com sofreguidão... e voar em direção à gávea da mesma estrela que escolhestes como tua nova morada. Quis sentar-me ao teu lado, tomar-te as mãos, e beijá-las, tatuando-as com o orvalho da noite, e colher o teu gosto de eternidade. Do meu colo tiraria as peças do quebra-cabeças. E como duas crianças marotas, nos esconderíamos do tempo, da lua, do infinito, ou de qualquer coisa que nos pudesse atrapalhar e começaríamos a jogar.
Ontem passei a noite inteira colocando em ordem todos os escritos que, para minha alegria, deixastes aqui nesse plano onde a carne, o corpo, os movimentos (diferentes do que agora te encontras), e senti a tua amada presença como a me orientar e dizer como gostarias que tudo fosse feito. Depois disso me senti pronta e capaz de executar esta maravilhosa e estonteante tarefa de exercer, assim como tu, o ato de escrever, deixando que meu corpo fique completamente grávido de estrelas liqüefeitas, para poder parir palavras.
Senti-me capaz de transmutar tudo aquilo que esteve preso em minha garganta, inclusive o sonho de brindar, não com a mesma facilidade que possuías, o romper da bolsa d'água no momento do nascimento de alguns poemas e crônicas. E, quem sabe, um dia poder também ser chamada, POETA.
Sei, como disseste no belíssimo poema que a mim dedicaste, que, como um velho marinheiro, permaneces na gávea da mesma estrela. E como o mesmo Capitão de Areia que afirmaste que te transformarias, te imagino com os teus lindos olhos de Orson Welles e aquele sorriso maroto que eu tanto entendia, a nos abençoar e torcer para que nesse mundo louco, onde todos nós continuamos, possamos sobreviver a todas a intempéries e loucuras a que estamos expostos.


SAUDADES
Sempre Tua, Nêga.






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Avigrama de Adeus
Para Bob Kennedy,
no Seu Regresso à Luz

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Farias de Carvalho

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Em ti, quanto mais fora o prometido
por herança de Luz, determinismo,
mais te ferira o cruento fanatismo
pela sina de haveres te cumprido.

Se a morte te fizera ter vivido
sem temores de atroz dogmatísmo
matar-te não chegou a ser o abismo
de ver-te por essência destruido.

Assim, se te ceifou a parca o vulto
por sôbre o falso real de olhos mortais,
perdoa, por paupérrimo, o insulto

Dos que pensam não seres nunca mais:
Não suspeitam que em ti o ter morrido
agora e viver mais, por renascido.


Pois foi, Bob, dos cornos da estátua babilônica(chamam-na),
O velho abutre empavonado em listas, mirou-te a frente serena, a
Fronte plena de luz e naturalmente contando o Deus Salve a
América mas uma vez falou sua linguagem e cristãdemocrática,
Ocídental. John, ferido ainda quis inultilmente avisar. Não conse-
Guiu. Teus olhos viam apenas a súplica nos olhos molhados
Dos írmãos , teus e meus que morrem no Vietnã. Teus ouvidos,
Apenas escutavam o lamento, negro lamentos dos negros em
Em blue. E não viste. Não ouviste. Mesmo se houveras, terias pros
Seguido.Não poderias deixar poque, naquelas latitúdes, seguias a
Ti mesmo Bob, pleno de tua Fé, imensa imensamente imenso
Na tua esperança de moer os fuzis nas cascatas do ocaso para de-
Volvê-los depois à terra tua como sal, como adubo, a fim de que
Sôbre os derradeiros crânios mutilados um pó de estrelas rebentas
Se em rosas, e ao fim das tardes Rilke pudesse vir serenamente per
Fumar esses caminhos áridos de mundo.
Não viste. Não ouviste. Creio contudo que sabias. Que era preci
so voltar o peito lavado de sol para outra bicada venenosa.Do abutre,
Bob, faminto abutre traidor de Washington e Jefferson e que fincou cor
Nos de lama na fronte da estátua. Por isso, irmão Bob, por sabermos
Que sabias, o obrigado do mundo. Teu sangue lavou a maquilagem do
Abutre. OO antigo make-up escorreu para o esgoto. Ninguém mais
Se engana, ninguém. Nunca mais.







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ESSES CONTRASTES DE AGORA







Releio, como quem saboreia um vinho antigo, a entrevista concedida pelo Poeta Carlos Drumond de Andrade "O Jornal"do Rio De Janeiro, em novembro de mil novecentos e quarenta e quatro, Homero Senna, a quem a cultura brasileira deve depoimentos valiosíssimos, colhidos de personalidades os mais célebres de nossa galeria literária e publicados depois em livro, intitulado por Homero de REPUBLICA DAS LETRAS, dado a lume pela primeira vez em mil novecentos e cinquenta e sete, tendo Carlos Ribeiro como editor, e depois, em mil novecentos e sessenta e oito, edição da Gráfica Olímpica Editora.
Perguntado sobre a importância da Literatura no mundo de amanhã, o grandioso poeta de Itabira respondia, exatamente há vinte e oito anos atrás:
"A Literatura, no mundo de amanhã, a meu ver terá a importância que sempre teve, aumentada e diminuída ao mesmo tempo pelo uso das novas técnicas de difusão cultural, que dilatam a extensão e simultaneamente reduzem a qualidade do conhecimento. Observe, por exemplo, que maravilhoso instrumento de educação e burrice que é o rádio! Num tempo em que cada vez necessitamos mais dos aparelhos elétricos e dos elementos físico-químicos organizados cientificamente, é de prever que todo mundo aprenda a ler, e que cada vez se leia menos ( o grifo é meu), à maneira clássica, isto é, com inteligência, e num objeto impresso, chamado livro. Imagino que chegaremos a ler com os pés, na ponta dos sapatos fotoelétricos de 1960, leremos peças de madeira, superfícies de alumínio, portas de elevador, o diabo. Mas isto não tem maior importância, uma vez que, condensados ou transformados, os produtos literários existirão e serão consumidos. Não haverá desgraça para a humanidade, se as bibliotecas, por exemplo, assumirem novas formas, desde que continuem a existir e prestar serviço".
Imprimindo a tudo o sabor inteligente e genial de sua sátira implacável e iluminada, Drumond, há vinte e oito anos atrás, numa época em que a televisão ainda não existia praticamente, fazia, no corpo imaterial das antemanhãs, o debuxo dos quadros que estamos vivendo hoje, realisticamente, quando, irrefutavelmente, "novas técnicas de difusão cultural dilatam a extensão do conhecimento, para, simultaneamente, reduzir-lhe a qualidade". Em verdade, nestes nossos dias de tão grandes conquistas eletrônicas, a televisão, os cassetetes, os gravadores, deveriam de ser elementos notáveis no campo da difusão cultural, trabalhando positivamente no sentido de dilatar a extensão do conhecimento extensão feita exatamente no sentido da qualidade.
Contudo, nada disso está a acontecer. Realmente, com os recursos da eletrônica, muito maior é o número de pessoas que aprendem a ler. Paradoxalmente, no entretanto, muito maior ainda vai sendo o número dos que, dia a dia, vão deixando de ler, à maneira clássica, como o diz Drumond, com inteligência, e num objeto impresso chamado livro.
Verdadeiramente, essa estória de ler livros, "já era", como dizem os moços de agora. Tudo anda preso, condicionado à rapidez da eletrônica, através da qual as mensagens são transmitidas subliminarmente, sacrificando o maior número possível de palavras, que o tempo é cada vez mais curto, e urge ganhar mais dinheiro, enriquecer mais e mais, reservar horas mais longas para o prazer dos instintos, para o furor da luxúria, para o império da libidinagem. Ler livros? Para que? Para lucrar o que?
Indagações assim, fazem-nas os moços quando os mais velhos teimam em falar em leitura. Que não precisam de livros, é o que dizem, argumentando ainda que livro é a velharia do passado. E, ao que tudo indica, eles parecem mesmo ter razão. Do modo como as coisas vão, com a brutalização cada vez mais rápida do ser humano, niguem vai mesmo necessitar mais de livros, nem de palavras. O homem, que espiritualmente já regrediu à época das cavernas, vai agora empreender essa regressão no terreno da linguagem. Apesar de todas as fabulosas conquistas eletrônicas, ele a pouco e pouco, vai perdendo a noção do falar, do falar inteligente, coisa que levou milênios e milênios para aprender. Com toda sua televisão, seus cassetes, seus gravadores, seus amplificadores, ele está voltando a emitir apenas sons desarticulados, gritinhos roucos e ininteligíveis, exatamente como o faziam os nossos avoengos da pre'-história, que, por não terem até então aprendido a formar palavras, urravam, somente, como os dinossauros, seu companheiros de planeta.
É o progresso, meu irmão Drumond de Andrade, o progresso eletrônico!





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Sonata, opus 20,
In Memoriam para John Kennedy



Súbito,
a morte cavalgando um hipogrifo de aço,
rasgando a epiderme inconsútil da brisa
e a tua, irmão,
onde levavas, tatuada,
a esperança do mundo.
Na linguagem de ódio da explosão
a ampulheta parada, e o segundo
invertendo os roteiros, esfacelando as bússolas
com que buscavas descobrir as trilhas
e os caminhos da paz, rosa desfeita
pelo asfalto de Dallas, com seus sépalos
de sangue e espanto e horror e nunca mais!
Nos teus olhos um último relâmpago
faiscou os sustos do não-crer, difícil
o aceitar que por cantar a vida
pela vida tivesses que morrer.
Mas foi.
De repente,
no corpo claro da manhã a semeadura
da parca, e o desabar da longa noite escura.
Não mais tua estelar cartografia
de amor, riscando novas latitudes
para o atônito velejar dos homens; contigo,
enquanto teu olhar ensombrecia,
a messe que em ti mesmo semearas,
sem teu hálito de luz, também morria.
Súbito,
a morte cavalgando um hipogrifo de aço
No calendário,
a marca-marco do ódio, hora
que o tempo não consumil, e nós,
Irmão,
ainda esperamos transformar na aurora
que plantaste em teu riso urdido em fé,
andaime de esperanças,
Claridão.



Brasília, 21-11-83.


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MARIA TOSTÃO



Farias de Carvalho




Ë a tua mãe, Filho da puta"...

Assim , inaugurava o dia. Manhãzinha, quando a cidade lavava de sol a cara sonolenta, ela surgia para a via-sacra do seu destino doloroso. No bar do espanhol, misto terrível do abutre avarento, a primeira talagada de paratí. Fogo infernal do vício e loucura, onde buscava o torpor da Amnésia que o álcool não podia dar completamente. Sempre, dos desvãos da memória, a figura do ontem boiando, boiando, no cálice escuro da pinga barata.

O rio. E a vida tranqüila escorrendo serena nas águas barrentas. Depois, a festa do padroeiro. E a cara ventuda do turco regatão. A lembrança longínqua de um copo de bebida. Estranha. Queimando. E um sono. E um peso. Uma vontade de se abandonar. A sensação da dor rasgando o ventre, A impressão de um grito arranhando o silêncio Depois, a manhã. O porto vazio. E a mancha de sangue nas vestes de chita. E os Olhos do povo. E a boca do povo, falando, falando; ö turco descabaçou a Maria ". Ao fim, o couro do chicote no couro macio. E o velho cabloco explodindo seu ódio: "busca teu rumo, puta. Na minha casa não fica mais. Sem-vergonha. Dá o cabaço prum turco daquela"... E a triste saída. Os olhos olhando molhados de lágrimas, da popa do barco rumando à cidade, os últimos traços da casa de palha. 15 anos. Mulher. Furada. E a boca do mundo engolindo os seus sonhos. Seus sonhos pobrinhos de moça matuta, nascida no verde da mata distante. 15 anos; Jeitosa. O corpo moreno cheirando a pecado; empregou-se. Lavava pratos e roupas. A noite, era obrigada a lavar-se na baba asquerosa do torpe patrão. Precisava do emprego; da Bóia. E dava; ausente de si. Como quem morre. Mas dava. Um dia, a patroa acordou mais cedo. O homem, pulando afobado da rêde encardida, falava covarde: "a cabloca é tarada. Agarrou-me"... Expulsaram-na. A Lôla encontrou-a Outro mundo. A pensão refulgindo de luzes e risos. 10 mil réis a hora de amor. Boêmios, soldados, marinheiros, maridos frustados, adolescentes imberbes, todos sonhavam seus sonhos malucos, no leito macio da cama de ferro, nas coxas morenas, roliças da velha menina Maria. Um dia, a paixão, o amor de verdade. O moço estudante de rosto bonito. E ela se dando tôdinha, inteirinha, pelo amor de seu amor. Seu xodó. Pagava-lhe rindo as loiras Teutônia, as farras noturnas, com os mil réis que lhe nasciam da rosa do sexo. Uma noite, a velha megera rompeu em insultos: escuta aqui, putinha vagabunda; a babaca é tua, mas a casa é minha. Quer trepar de graça, vai trepar nos muros vaca, sem mãe. Meu caso é renda. Trepada de amor é na rua. Cai fora". Expulso-a. E a recomendação correu célere as outras pensões: Não aceitem essa puta.

Tem mania de fazer caridade."Niguem aceitou-a. Na esquina, no bar a garrafa cresceu aos seus opacos. Me dá uma dose aí botequineiro. Bebeu. Um . Duas. Três. Não sabe quantas. Era sábado. À noite, ainda meio chirrada, um estudante liso e atrasado encontrou-a. Levou-a para a baixa do jg. Amarão no chão. Como bichos."Quanto te devo, mulher?" Qualquer tostão, meninão... Pagou-a 2 mil réis. E saiu aliviado. Desde então, quando acendia os seus mistérios, povoando-se de estrelas e de crimes, ela saia para o pasto juvenil. Em busca dos jovens potros. A uns, iniciava na arte do gozo. A outro, satisfazia todas as taras bestiais. E foi caindo. Caindo, descendo, caindo, descendo. Aos 25 , era completamente velha. Nenhuma lembrança da doce Maria dos 15 distantes. Muitas gonorréia lha haviam corrido as entranhas enfermas. Caiu de uma vez. Bêbeda, a voz pastosa, fazia um convite nojento: "vamos trepar, meu filho...





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ERÓTICA




Planto a manhã no bico dos teus seios
e acampo ternuras infinitas

no céu dermatológico do teu colo.

De repente,

um escafandro de loucos

arrepios

me leva ao bosque negro das origens

e a selva-seiva tinge-me de espasmos

enquanto um lepidópero de asas-noite


Rufla gôzos e humus no meu rosto.




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TOCATA N.1, AOS ARQUITETOS DO ABISMO






CERTO:

Indispensáveis, são

a mesa e o pão!

Mas antes, deve de ser

a MÃO!

Que aduba, semeia e a si se colhe

nessas messes de antiga solidão.

MÃO!

Rota de todos os caminhos,

de argila e trigo,

prata e diamante,

lúcido instante

primeiro, de todo o construir;

Em ti pensar, quem há de vir

na hora suculenta do banquete

quando a espiga é colhida é dividida

entre os donos do pasto que te trincham

ao tempero de espanto do teu pranto?

MÃO!

Semente e flor,

fruto maduro,

sino de aldeia,

luz no escuro,

vela de barco,

nau no mar,

cadeira armada

no patamar

MÃO!

O pão e a mesa

mais a certeza

de reflorir

( cumpra-se a sina)

nessas esquinas

do suplicar.

Mão vidamorte

é tua sorte

negra corola

servires trigo

sem abrigo

findares nua

cactos da rua

colhendo esmola.

CERTO:

Indispensáveis, são

a mesa e pão!

Mais ai, não fôras tu,

MÃO!


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