sexta-feira, 18 de março de 2011

Pitigrilli




Pitigrilli, o esquecido

Rogel Samuel


Li na juventude muitos livros de Pitigrilli. Ele se chamava Dino Segre (Turim, 9 de maio de 1893 — Turim,
8 de maio de 1975) era italiano.



Em Pitigrilli fala de Pitigrilli, uma das últimas obras, mostra sua opção pelo espiritismo, ou, pelo menos, sua enorme curiosidade pelo lado oculto das religiões. Já estava em idade avançada e morava em Buenos Aires, Argentina, onde se refugiou. Influenciou alguns autores e pensadores italianos, argentinos e brasileiros, como Guido Gozzano, Flavio Bonfá e Julio Cortázar.

Por isso fiquei feliz em encontrar

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Ninguém mais lê Pitigrilli.

Só eu.


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Duas horas antes aquele cão de máscara de Beethoven encontrara, sob os pórticos da “Comédie Française”, por trás do monumento a De Musset um cão seu amigo, um “fox-terrier” estúpido como uma rapariga honesta.

Os dois animais tinham-se aproximado, olhando-se nos olhos, e fazendo sinais por algum tempo, com a cauda. Depois um havia dado a precedência ao outro e o outro se tinha voltado, como para dizer:

— Depois de vós, senhor!

Esgotado aquilo que Maupassant chama as cerimônias maçônicas dos cães, sentaram-se um defronte ao outro, e contaram-se as suas peripécias.

O cão da máscara de Beethoven dissera:

— Tu moras na pastelaria da Rua Lépic. Reconheço-te. Parecia-me que não fosses uma cara, ou antes, um cheiro novo. Sempre nos encontrávamos quando eu e o meu criado íamos comprar na tua casa o presunto cozido do meu almoço.

“Agora não estou mais naquela casa. Consegui fugir.

“Que queres? Aquela casa não me agradava mais. Os meus hóspedes eram demasiados ricos, demasiado bons; queriam-me demasiado bem. Devam-me nojo com o seu afeto.”

— Deixavam-te lamber os pratos?

— Isso não, porque é anti-higiênico, dizem eles, deixar que os cães comam nos pratos do dono.

— Preconceitos!

— Têm razão. Eu sei de um cão que, por ter lambido o prato onde comera uma senhorita de dezoito anos, de família distinta, pegou a sífilis.

“Davam-me tudo o que eu queria.

“Não sabes quanto se está mal na abastança!

“Tinha um criado exclusivamente para mim. Dormia em coxins moles, macios, inchados, num quarto escrupulosamente aquecido, no meio de móveis finíssimos que eu me sentia no dever de respeitar, conquanto me deixassem a mais completa liberdade de escolha, entre uma peça e outra.

“Não me faltava nada. Faziam-me contrair a diabete por hipernutrição. Não havia gulodice que não me dessem. Mantinham-me a pastéis de caça, “pemmican” e “plum cake”. Mandavam vir da Inglaterra uns biscoitos especiais. Haviam chegado a eliminar em mim a coisa mais bela: o desejo. Eu não podia desejar mais nada, porque tinha tudo.

“Só desejava uma coisa, que nunca me permitiram: aventuras passageiras com cadelinhas de menor idade, que mostravam interesse por mim, quando eu levava a passeio nos Campos Elísios o meu criado. Mas um cão da minha raça — diziam eles — não pode ter “mésalliances”. E aconteceu-me o que acontece aos príncipes hereditários: estabeleceram épocas fixas para os meus amores, que eu só devia consumar com exemplares femininos da minha raça. Com este fim peregrinei de casa em casa; em toda parte onde se encontrasse uma fêmea de meu tipo, tinha eu que fazer estágios de quinze dias. Estive na casa de uma grande atriz, de um ex-presidente da República, de um embaixador, de um filósofo chinês, de uma “cocotte” célebre.”

— De uma “cocotte”? Deves ter visto boas!

— Não. Vi mais nas casas de famílias decentes. Oh, quantas coisas vi nas que freqüentei! Se soubesses como os homens são diferentes em casa e fora de casa! Tu, que vagas continuamente pelas ruas, imaginarás que as mulheres sejam, em frente de si mesmas, seres delicados, refinados, preciosos como são fora. Oh, iludido! Eu vi-as na intimidade, e afirmo-te que nunca encontrei u’a mulher, por espiritual que fosse, que na solidão do seu quarto, sabendo-se inobservada, não introduzisse no nariz aqueles dedinhos pálidos que parecem destinados a só tocar hóstias santas e pérolas reais.

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O CINTO DE CASTIDADE


— És um amante demasiado vertiginoso para dares bom marido — segredara-lhe uma sua amiguinha num dia de infinito langor.

E o doutor Cirmeni, médico-cirurgião, não se casou.

* * *
— Achas que ainda poderei agradar às mulheres? — perguntara muito tempo depois o doutor Cirmeni, médico-cirurgião, a um amigo — achas que ainda poderei agradar às mulheres?

— Quanto tens de renda? — indagara o amigo.

— Sessenta mil liras anuais.

— Sim. Podes agradar ainda.

— Faria bem casando-me com a viúva Heiman-Bouchard? — perguntou um dia, depois dos quarenta o doutor Cirmeni.

— Não, não farias bem — desaconselhou o amigo. E o doutor Cirmeni casou-se com ela do mesmo jeito.

Os que se casam com uma viúva acompanham o gesto com espetaculosa exibição de inteligente modernidade de idéias.

Dizem:

— Os costumes estão por tal modo corruptos, que casando com uma virgem a gente se expõe, nove vezes em dez, a uma decepção. Uma senhorita que foi agitada pelo desejo e não se pôde satisfazer senão com os sucedâneos do amor, ao entrar na vida conjugal torna-se necessariamente uma adúltera. A viúva, ao contrário, já passou pelos bruscos movimentos durante o primeiro período matrimonial, como a madeira seca que se rachou, retorceu, inchou sob as intempéries, e depois de trabalhada não se altera mais.

Quem quiser uma boa mulher — aconselham — deve-se casar com uma viúva.

O fato de ter pertencido a outro homem não tem importância. O amor que a mulher nos dá é independente do que deu a outro, quando nós não tínhamos nem aparecido no seu horizonte. O florescimento de uma árvore nos delicia, mesmo se um ano antes, muitos anos antes, o mesmo florescimento deliciou a outros.

Dizem isso antes de se casarem com uma viúva.

Mas, depois que casaram, sentem-se como que envenenados por uma espécie de pudor. Sentem-se como que os voluntários do chifre, os cabrões legalizados, os minotauros consagrados, os enganados oficias. E envergonham-se disso como de u’a mancha. Não podendo esconder o seu estado, transformam-no habilmente com a fantasia.

— Casei-me com uma viúva, mas uma viúva especial. Quando casou comigo, era ainda virgem.

(Todos os meus conhecidos que se casaram com viúva, encontraram-nas virgens.)

— O primeiro marido, — explicam — descendo as escadas do Foro, tropeçou e partiu a espinha dorsal.

Esta é a versão mais simples. Outros dizem:

— Era virgem porque, apenas voltaram à casa após a cerimônia nupcial, tiveram de separar-se por incompatibilidade de gênios. Ele era um alcoólico brutal. Ela, alma delicadíssima, recusou-se-lhe e fugiu.

Também esta é uma versão de uso corrente. Mas há outras, cuja complexidade varia segundo o nível da imaginação do segundo marido: histórias de partidas inesperadas, de mandados de prisão, de ossos de frango que durante o jantar de núpcias entupiram o esôfago do esposo; de incêndios que irromperam no hotel no momento da cópula inaugural.

A história mais usual, a que me foi contada por nove pessoas diversas, é a da impotência do primeiro marido. Um amigo meu, que se casou com o dinheiro de uma viúva, jurava-me que o primeiro marido, fraco de constituição, deixara-a literalmente intacta.

Soube mais tarde que daquele primeiro marido impotente a viúva intacta tivera três filhos que agora gozam de excelente saúde, são os primeiros da classe e batem nos companheiros.

* * *
Casando-se com a viúva, o doutor Cirmeni não a engrinaldou aos olhos dos amigos com flores de laranjeiras artificiais.

Não escondeu a ninguém que a mulher era mãe de graciosíssima menina, e que durante o interregno de viúva tivera amiguinhos para uso interno.

O doutor Cirmeni era feio, mas tinha dinheiro.

Quando a u’a mulher se apresenta um homem com fins matrimoniais, se este é financeiramente um bom partido, ela não lhe vê os defeitos físicos, ainda que seja feio ou disforme.

Vê-lo-á feio e disforme somente se o homem a desdenhar...

O doutor Cirmeni era feio mas inteligente. Era magro, pálido, descarnado como a etiqueta farmacêutica dos venenos; tinha olhos pequenos como os dos homens míopes e os das galinhas cozidas; e tinha na cidade um consultório para moléstias dos ossos e u’a amante.

A amante era a “femme-crampon”.

Quando jovem fizera de modista; depois, de “chanteuse”; depois, de “cocotte”; e chegara a ser uma grande “cocotte”. Para chegar a ser uma grande “cocotte”, precisa-se começar fazendo de modista e de “chanteuse”. Estes estágios preparam para a faceirice como o jornalismo prepara para a política. Depois de ter feito a “cocotte” viajante em todas as redes ferroviárias internacionais, e de ter pernoitado em todos os hotéis, das mais elegantes praias e das mais espermáticas metrópoles, retirou-se dos negócios, para se dedicar exclusivamente aos cuidados íntimos do doutor Cirmeni. Fez como aqueles que depois de terem, durante anos e anos, exercido a tumultuosa profissão de advogado, fecham o escritório e ingressam numa empresa particular, ocupando-se fielmente com os negócios mais ou menos limpos de um só cliente.

O doutor Cirmeni, porém, não lhe dava excessivas ocupações. A sua escassa virilidade, devendo ser eqüitativamente repartida entre a mulher e a amante, reclamava aplicação prudente e cautelosa. Em outros tempos, quando os seu cabelos ainda não tinham necessidade de tintas e os seus nervos não exigiam regime equilibrado, o doutor Cirmeni era célebre na cidade pela sua vasta clientela feminina: diariamente vinham ao seu gabinete as belas e extravagantes iniciadas nos paraísos artificiais da morfina ou do éter, pedindo-lhe uma receita para a compra do doce veneno. E em troca do precioso documento, davam-lhe tudo. O dar “tudo” reduz-se afinal a dar uma coisinha só.

E se o doutor Cirmeni envelheceu precocemente, devia em grande parte agradecer à sua demasiado reconhecida clientela feminina.

— Outrora, — dizia — quando eu fazia a corte a u’a mulher, receava sempre que recusasse. Agora tenho sempre medo de que aceite...

Um dia por semana ia ao seu barbeiro fazer tingir os quatro, vírgula zero zero, cabelos que lhe restavam, e com ímpeto juvenil dirigia-se para a casa da amante, experimentada nas mais misteriosas fórmulas amatórias.

O apartamento da amante era todo mobiliado à turca, com lâmpadas que não dão luz e tapetes moles e macios.

Mesinhas baixas e cigarros.

Um narguilé para o efeito da cor local, mas que nunca se sabe em que parte do aposento colocar.

Madeiras incrustradas de madrepérola, pratos de bronze desbotado, quadros com minaretes ao crepúsculo, e o almuédão.

Obrigação para as visitas de se sentarem no chão, de pernas cruzadas, à turca.

* * *
Quem foi deputado durante uma legislatura, continua por toda a vida a chamar-se excelência.

Quem cantou num “music-hall” por alguns meses e depois foi fazer de “cocotte”, continua a atender por “chanteuse”.

Os vizinhos de casa e os amigos do doutor chamavam-na a “chanteuse”. A mulher também a chamava a “chanteuse”, simplesmente.

— E o seu marido, não vem ao mar?

— Não. Está na montanha com a sua “chanteuse”.

— Mas é sua amante mesmo?

— Uma “chanteuse” não se tem por poesia.

— Ao menos, quem sabe se pela música.

Era um homem esquisito aquele marido. Não amava a mulher, mas tinha-lhe ciúme. O seu amigo Axenfeld, doutor em física, alemão, estudioso de todas as ciências, explicava-lhe como o seu ciúme era fato inexistente.

— Se não amas tua mulher, — dizia — não podes ter-lhe ciúme. O amor e o ciúme estão sujeitos a uma lei que lembra a da ótica: o ângulo de incidência (amor) é igual ao ângulo de reflexão (ciúme).

“Imagina que tens um tubo de vidro em forma de U — dizia-lhe Axenfeld, o jovem doutor em física alemão — Se duma parte do tubo derramares amor, esta substância, que suporemos líquida, subirá pelo outro braço do tubo, e parará ao mesmo nível nos dois braços. De um lado derramaste amor. Do outro subiu até a mesma altura o ciúme. A coluna do amor e a coluna do ciúme têm sempre exatamente a mesma altura. Se amares pouco u’a mulher, serás francamente ciumento. Se a amares com loucura, o teu ciúme tocará a loucura.”

— Pois bem, estás errado, meu amigo — respondia o doutor Cirmeni —. Eu amo-a pouquíssimo e sou atrozmente ciumento. Tenho tido ciúmes de mulheres que não amava mais, ou que ainda não amava, ou que nunca amei. O que produzia esse estranho ciúme terá sido talvez amor em estado latente.

— Bem, então — retrucava o amigo — haverá em ti um amor em estado latente por tua mulher.

— Pode ser.

Mas o seu verdadeiro amor dirigia-se à “chanteuse” a quem dava todos os ímpetos amortecidos da sua paixão debilitada. Todo mundo se perguntava como é que o doutor Cirmeni podia adorar tão desesperadamente a “chanteuse”, carne para marinheiro, resto de prostíbulos, aventureira aposentada, destroços de beleza naufragada, vênus decaída, bocado mastigado de mulher; como é que amava um corpo a que não restava mais a elegância da linha, a harmonia das formas. Como é que podia amar uma mulher envelhecida pelos anos e pelas pinturas, em quem a sensualidade se devia ter afrouxado como a pele do pescoço, como os seios, como os flancos.

Poucos compreendem a verdadeira essência do amor. Julga-se geralmente que um homem seja atraído para u’a mulher pela frescura do seu rosto, pela esbeltez da cintura, pela agilidade das pernas, pelo mistério magnético dos olhos, pela muda promessa dos lábios impudicamente carnudos, pela palidez da fronte pura, pela tácita oferta das cadeiras, pela faceirice indisciplinada da cabeleira. Julga-se que u’a mulher se sinta atraída para um homem pela prepotência do seu olhar másculo, pela dobra da beca autoritária, pelo sorriso triste de sonhador ou de desiludido, pelos cabelos animalescos dos pulsos ou pela face depilada de efebo; pelo espírito que demonstra, pela inteligência que esconde, pela nobreza do seu caráter, pela malvadez sádica da sua alma, pela sensualidade que promete a sua mandíbula nervosa.

A beleza, pois, a linha, a forma, a cor, são, no juízo da maioria, os elementos que atraem um para o outro o macho e a fêmea. Só por meio deste erro se explica a pergunta que ouvimos todo dia:

— Mas como podes gostar daquela mulher, que não tem seios, que é magra, quo tem boca pequena e olhos apagados?

O amor — respondemos nós — não é produzido pela mútua contemplação da cor dos olhos ou da forma do nariz. O amor, este magnetismo animal mediante o qual um indivíduo é atraído para outro indivíduo, é causado pela afinidade química de dois corpos. No indivíduo devem-se distinguir duas entidades: a forma e a substância, isto é, a linha exterior e a matéria.

O amor é devido, não à forma, porém à matéria; o amor é atração física, a afinidade química dos dois organismos. A beleza não influi nada. A juventude não influi nada. O espírito, o talento, a elegância, a honestidade, a traição não têm a mínima parte no magnetismo animal que faz um corpo sentir a necessidade de se compenetrar noutro. Quando um homem e u’a mulher, tendo-se encontrado num ponto do espaço, experimentam a necessidade imperiosa (digo necessidade imperiosa e não desejo distraído) de se unirem, isso quer dizer que no corpo “daquela“ mulher existe a substância, a matéria, o produto químico que com implacável ânsia procura a substância, a matéria encerrada no corpo “daquele“ homem.

Nem de outro modo se explicaria o desejo de certas mulheres belas por homens que todos, e elas também, acham horríveis, nem de outro modo se explicaria o amor doido de certos homens por mulheres feias ou gastas.

O amor eterno, isto é, o inextricável retorcimento de uma vida em torno de outra vida, é o produto do encontro de um corpo em cujos tecidos existem aqueles metais e aqueles metalóides que têm afinidade química pelos metais e metalóides de um determinado corpo de sexo diverso.

(Esta expressão fará rir os farmacêuticos, mas eu não ligo.)

Os homens e as mulheres que se amam com um amor tenaz assim, podem, é verdade, praticar infidelidades com relação uns aos outros. Mas a aventura não é o amor; a cópula ocasional deixa intacta a paixão constante. Pode-se amar desesperadamente um homem e ir umedecer os lençóis de outro. A aventura não é mais que uma espécie um pouco refinada de masturbação, depois da qual, ainda que os sentidos tenham sido extenuados, permanece inalterada a paixão da mulher pelo indivíduo que emulsionou estavelmente a própria vida com a sua vida.

* * *
O amor do doutor Cirmeni pela “chanteuse” era a verdadeira paixão inextinguível.

O amorzinho intermitente com a esposa legítima era um incidente fortuito como uma aventura, insignificante como uma masturbação. Certas vezes, de manhã, acordando saciado, cansado, esgotado na cama da esposa jovem e bela, o seu desejo corria para a “chanteuse”, a velha amante desgastada pelos anos, pelas pinturas, pelas massagens.

— Não, meu amigo. O ciúme não é o estado alotrópico do amor — objetava o doutor Cirmeni ao doutor Axenfeld, que freqüentemente discutia com ele psicologia —. Eu não amo a minha mulher e tenho ciúmes dela, simplesmente porque aproximando-me dela por desfastio, por distração, por uma novidade, tenho necessidade de saber que aquela mulher, cuja posse não passa de acidente mínimo na minha vida, pertence-me só a mim.

“O ciúme, reconheço, é um sentimento bárbaro, selvagem, primitivo, que os séculos e a civilização deviam ter abafado e dissolvido. Mas não tenho culpa, se sou um homem da minha época, se vivo em 1921, ano em que os animais da minha espécie, que vivem em colônias no meu país, não chegaram ainda a tal ponto de evolução que consintam em que a mulher de cada um seja também mulher de outros. Com os séculos, com a evolução animal, o ciúme do homem se irá eliminando, como se vão perdendo o dente do siso e as vértebras do cóccix. Mas hoje ainda não chegamos a esse ponto de aperfeiçoamento, e eu sofro o ciúme como o sentiam aqueles guerreiros da Idade Média que, antes de partirem para as demoradas guerras, impunham à própria esposa o cinto de castidade.

— Lenda!

— Lenda? Então nunca estiveste no Museu de Cluny, em Paris? Há dois, em tão perfeito estado de conservação que se poderiam usar ainda hoje. Pois bem, eu compreendo o ciúme como o compreendiam aqueles enamorados primitivos.

— É grotesco.

— Isto sei eu, que é grotesco.

— E por cima, ingênuo. Que te importa que a tua mulher — objetou o amigo Axenfeld — não entregue a outro homens aquela parte do corpo que o cinto de castidade resguarda, se lhe pode dar a sua boca, a sua paixão, a sua alma? Com o cinto de castidade não fazes mais que impedir um ato, o ato sexual, o contacto de duas mucosas. Mas não podes impedir todo o resto, o amor, a paixão, o desejo.

— Palavras! — retrucou o marido —. O nosso ciúme, o ciúme verdadeiro, o grande ciúme que arrasta ao delito, o ciúme que se manifesta da maneira mais animalescamente sublime, está todo resumido na aproximação das duas mucosas, como tu dizes. Aquele que faz cena de ciúmes com a amante ou com a mulher porque trocou um olhar, um sorriso, um beijo furtivo com um estranho, não é um ciumento. O verdadeiro ciumento pouco se importa de que a mulher crave o olhar no olhar de um homem ou a língua numa boca masculina. O ciúme verdadeiro é o horror terrificante que experimentamos ao pensar que as suas mucosas situadas na fonte da vida sofreram o contacto das mucosas de outro. O homem verdadeiramente ciumento só tem medo deste contacto, da adesão daquelas duas mucosas úmidas. Entendes-me?

— E lamento-te.

— O cinto de castidade é um instrumento ideal, porque impede essa conjunção. Se à mulher que amo (a minha amante) e à mulher que me agrada (a minha esposa) eu pudesse fechar em torno do ventre aquele aparelho de ferro e marfim, acompanharia o gesto com estas palavras:

“— E agora podes beijar outro, beija-o como quiseres, onde quiseres; dá-lhe todo o fogo da tua boca enamorada, entrega-lhe a tua paixão, morre de amor por ele; odeia-me, toma nojo por mim. Não me importa. Basta que eu saiba que aquele ponto misterioso e maravilhoso do teu corpo não recebeu as poluções de outro homem.

“O adultério consumado é a única coisa que me assusta. Mas o desejo, o amor, o adultério branco não.

“Meu amigo, causo-te horror, compreendo, como causaria horror a u’a mulher a quem falasse deste modo. Mas o grande amor, o amor imenso, o amor pelo qual se mata e que nos mata, não é mais, deixa-me dizê-lo, que o contacto daquelas duas pequenas mucosas.“

* * *
O doutor Axenfeld passara grande parte da juventude sobre as fórmulas e os instrumentos de física. Preocupado com penetrar os mistérios da alimentação, da reprodução e da morte no mundo vegetal e no mundo animal, não tinha podido estudar os homens e as mulheres: da psicologia humana tinha, por isso, conceito impreciso e convencional. A realidade científica da matéria de que estudava os segredos não chegara nunca a desanuviar-lhe o espírito de todos os preconceitos que pesam sobre o nosso córtex cerebral e são o dom de triste herança milenária.

Era aquilo que, com perdão da palavra, se chama um moralista.

Ele não escondia, ao contrário, gabava-se de ser absolutamente puro de qualquer contacto feminino; e sustentava que o homem, se tem o direito de exigir de sua esposa a virgindade, tem o dever de dar-lhe em troca a própria virgindade.

— Ao casamento — proclamava — chegarei puro.

“Como poderia, aliás, não sê-lo? Como poderia possuir u’a mulher que não fosse a minha esposa?

“As mulheres mercenárias me assustam como frascos de veneno ou de explosivo ou de vírus.

“Desejar a mulher alheia é um delito.

“Como vês — concluía — não posso deixar de ser puro.“

* * *
Um homem como este deve fazer pena a quem dele se aproxima. Eu sempre me representei os moralistas como velhos e ressequidos, com a face térrea e rugosa como um velho sapato amarelo, e cheirando a castidade. O cheiro de castidade imagino-o como aquele cheiro de lacre, de tinta seca e de mofo que empesta as repartições de correio e as secretarias dos tribunais.

O moralista, visto de perfil, deve ter o cabelo caindo sobre o nariz, o nariz descendo por cima do bigode, e os bigodes chovendo sobre o queixo.

O alemão Axenfeld, doutor em física e moralista, era, porém, um belo rapaz, elegante, sem seguir a moda, interessante, sem se esforçar por sê-lo. Das mangas do trajo negro saíam-lhe as mãos pálidas de convalescente. Espáduas largas, mas não curvadas; cintura fina, porém não estrangulada; tez clara, mas não doentia; fronte vasta, mas sem prelúdio de calvície.

Havia um quê místico na sua pessoa. Era o tipo do asceta moderno, fundido com o violinista dos cartões-postais, com o poeta murgeriano e com o conspirador de 48, como o imaginam as senhoritas das escolas normais.

Cabelos, olhos, supercílios, vestes negras e pesadas, como os traços de uma xilografia.

Fronte, faces, lábios, mãos de um pálido amarelado como o pálido amarelado das águas-fortes.

E chamava-se Hans.

Hans Axenfeld.

E agora que conhecemos o marido e o amigo do marido travemos conhecimento com a mulher.

A senhora Cirmeni tinha cabelos tão ruivos que neles se poderia acender o cigarro. Vestia roupas aderentes que nem malhas de seda, e nos dedos usava anéis antigos com pedras não facetadas, mas redondas, hemisféricas, pançudas como gotas de “alchermes“ ou de “chartreuse”.

Sensualidade escassa, na aparência.

Sensibilidade nula, na aparência.

Nervos anti-sísmicos.

Mulher gélida, imperturbável, simuladora hábil, dissimuladora prudente.

Olhos frios de bebedora de absíntio; impenetráveis como se as suas íris cinzentas fossem esmeriladas, fossem lavadas com minúsculos cristais de gelo.

A conduta quase indiferente do marido, o seu “faux ménage” não a humilhava, não a ofendia. Ele tivera a lealdade de lho confessar antes de casar-se. Ela tivera a serenidade inteligente de suportá-lo. O casamento não é a paixão. É o encontro de dois seres que fazem juntos um trecho de estrada: um dos dois, de vez em quando, reparte com o outro as suas provisões: o casamento é o encontro de dois seres de sexo diferente que tomaram uma casa em comum, que se servem de pão sobre a mesma toalha, repousam os membros sobre os mesmos lençóis, e que às vezes aproveitam a comodidade da cama para um contacto mais íntimo.

As noites que o marido passava fora de casa, ela dormia sem achar falta e sem desejo dele, e à sua volta não lhe dirigia perguntas indagadoras.

— Estive em casa de um doente.

— Não te perguntei onde estiveste.

No verão, quando, numa aldeia do Adriático, ela recebia a visita do marido proveniente da cidade, fazia-lhe um acolhimento cordial, e não menos cordialmente o acompanhava à estação quando partia de regresso à sua clínica de enfermidades dos ossos e sua amante, a desbotada “chanteuse”.

A Vila das Cetônias, onde ela passava os verões, estava animada ao fundo de vasto parque de sebes penteadas à Humberto, aquelas sebes quadradas preferidas por Emma Ciardi. Aqui e ali negrejavam alguns ciprestes lúgubres, que pareciam postos para amedrontar os ladrões noturnos; e sobre as rosas singelas dos canteiros, iridescentes reuniões vegetarianas de cetônias que se banqueteavam. Dir-se-ia que as rosas vermelhas fossem cultivadas para nutrir aqueles coleópteros azuis que ali viviam e morriam imperturbados, realizando e poetizando a tola expressão convencional do “leito de rosas”. E nasciam entre as pétalas vermelhas como na alcova de púrpura nasceu o imperador Constantino, o porfirogênito.

Desde há vários anos, todos os verões, a senhora Felka Cirmeni voltava com a filha para aquela vila aconchegada ao fundo do parque, daquele parque recolhido ao fundo do golfo.

Na Vila das Cetônias havia um órgão, um dócil galgo inglês, um papagaio brasileiro poliglota e doente de esplim, um burrico estúpido como um homem, e três quartos para hóspedes.

Um desses hóspedes era o doutor Hans Axenfeld, o físico alemão, o moralista elegante, pálido, quase jovem, quase belo, o homem que se proclamava puro.

Ninguém melhor do que ele podia ser o companheiro ideal da senhora Felka, cujo marido ciumento via em quase todos os homens um conjurado contra a sua felicidade.

Hans ensinava física e matemática à filha da senhora, e segurava a sombrinha de Felka, durante os demorados passeios vesperais ao longo da praia e do parque.

— Ao sol — dizia a senhora — eu enegreço depressa como papel fotográfico. Ai de mim, se fico um instante sem sombrinha. E sou demasiado indolente para carregá-la. É fatigante. Hans, segure-a você.

Aqueles dois seres tão elegantes e tão singulares, a senhora Felka e o doutor Hans, eram, para a opinião pública, amantes. Andavam demasiado encostados, conversavam demasiado baixo, parando demasiadas vezes para se olharem de face, sob as manchas de sol filtradas através da folhagem. Quase todos os dias, seguidos pelo ágil e flexuoso galgo (era um conjunto de curvas) desciam pela alameda do parque, avançando até os recifes, e se deixavam ficar contemplando o mar quase imperturbável, sob delgadas e oscilantes tramas de luz.

— Estar sentada num rochedo, contemplando o mar e pensando no tédio da vida da cidade — dizia a senhora — é bom como telefonar ao marido estando sentada nos joelhos de um amante.

Hans e Felka respiravam a melancolia da tarde, comovendo-se tacitamente com os sortilégios que o crepúsculo opera no mar, interrogando no azul, lentamente, a luz das primeiras estrelas.

Todo este sentimentalismo repugna. Eu sei.

Depois tornavam a subir pela alameda do parque. Dos subterrâneos da casa vinha um bom perfume de funeral indiano. Às vezes detinham-se a observar, através da grande, o cozinheiro paramentado como um sacerdote no ato de frigir sabiamente um pedaço de cadáver.

Esperava-os a sala de jantar de forro em forma de baús intercalados com grandes bordas de ouro. Sobre todos os móveis, desordenados feixes de ervas colhidas por Crisu, a menina de treze anos, meio ciganinha, meio “farouche”, que preferia arrancar celidônias, clematites e giestas a estudar a composição da pilha de Bunsen, ou a guardar na memória o “Piemonte” de Carducci, a poesia “baedecker”, trabalhos que lhe impunham o simpático e sereno doutor Hans, e o desapiedado e divertido teólogo Nardelli.

* * *
O teólogo Nardelli era outro amigo do marido e outro hóspede da Vila das Cetônias.

Sua mãe, uma antiga glória de Cítera, pusera-o num colégio de barnabitas para ter mais liberdade de movimentos. Todos os meses um banqueiro israelita e mação comparecia ao colégio dos padres para pagar a taxa mensal. Ele era o principal acionista da grande aventureira, cuja arte deliciava os ricos vivedores das grandes capitais européias. Esta vendedora de contrações espasmódicas, este lobo do mar da galantaria era como uma usina elétrica que distribuísse a sua energia em todas as direções e a distâncias fantásticas. Uma mulher como aquela não podia, pois, carregar um filho consigo. Se fosse uma filha... Poderia iniciá-la. Mas um filho...

Saindo do colégio dos barnabitas à morte da mãe, o teólogo Nardelli preparou-lhe comovente cerimônia fúnebre (com presença do clero, filhas de Maria, filhas do Sagrado Coração e filhas de Jesus) paga pelo banqueiro israelita e mação; depois, partiu para o Oriente. Após dois anos de viagem, voltou à Itália, e retirou-se com os seus livros e a sua melancolia para uma casinha branca às portas da cidade. O dinheiro herdado da mãe permitia-lhe ser um padrezinho bem tratado, limpo, com meias de seda e fivelas de prata.

Era um educador-tipo de famílias patrícias; o padre que usa lencinhos de batista, penteia o cabelo para um lado e usa camisas de seda com punhos de renda.

— Queres-te encarregar da educação da pequena?

— Com muito gosto, meu amigo.

— Ensinar-lhe-ás um pouco de literatura. A cultura clássica pode ser útil até a u’a menina.

— Por certo. Um pouco de cultura clássica não lhe fará mal, tanto mais que a esquecerá.

E foi assim que também o jovem teólogo Nardelli partira para aldeia à margem do Adriático, e na Vila das Cetônias encontrara um lugar à mesa e um quartinho claro que dava para o mar.

“A sua humilde cela” — dizia a senhora. Mas naquela humilde cela vermelhejavam estatuetas de Doulton, e cheiravam as giestas colhidas por Crisu, abandonadas em fantasiosos cristais de Lalique. Da trave de uma porta pendiam as molas elásticas para ginástica de câmara; e genial desordem de livros, jornais, revistas e pijamas de seda cobria o leito, baixo à maneira otomana.

Uma pia de água benta cheia de água-de-colônia perfumada.

Escrivaninha de palissandra com objetos galantes de escritório. Uma pasta sulcada de fios de bronze.

Era esta a cela que a senhora Felka Cirmeni oferecera ao teólogo Nardelli na Vila das Cetônias.

* * *
Mas havia naquela casa um terceiro e último moralista.

Apresentamo-los um de cada vez para não dar ao leitor uma congestão de náusea.

O terceiro moralista era um jovem demissionário, vice-presidente da Liga de Moralidade Pública, implacável desenredador de tramas filosóficas, cirurgião do ideal que se abstraía continuamente da realidade. Nos poucos meses durante os quais tinha exercido a chamada justiça, enfiara todo um rosário de besteiras. Julgando um ladrão de sapatos ou um corruptor de menores, ele se elevava por sobre a realidade dos fatos para guindar-se às sublimes razões do espírito. E como para ser magistrado é preciso raciocinar com os critérios de um guarda campestre, foi galhardamente convidado a pedir demissão.

Usava lentes de hipermetrope, que lhe agrandavam bovinamente os olhos.

— Tire esses óculos — aconselhava-lhe a senhora Felka.

— Se tiro os óculos fico em baixo de um automóvel.

— É melhor ficar em baixo de um automóvel do que ser feio.

— Ou pelo menos — sugeria o elegante teólogo Nardelli — se quer a todo custo usar óculos, em vez dessas lentes que lhe fazem monstruosos os olhos, use lentes para míopes.

Os três moralistas hospedados na Vila das Cetônias viviam em harmonia, se bem que as suas contínuas discussões quase filosóficas os pusessem muitas vezes em estado de perturbar a paz comum. Mas, como a moral não é mais que um conjunto de preconceitos, dogmas e mentiras hereditárias, aceitas sem exame crítico, os moralistas sempre se acham de acordo sobre todos os pontos do preconceito e da mentira. Um moralista que criticasse um dos dogmas da imbecilidade humana sobre que se apoia a moral, seria um moralista encaminhado na estrada da verdade. Noutras palavras, apartar-se-ia daquelas hipocrisias de que se tem de esfregar um moralista ortodoxo.

Entre moralistas nunca existem divergências, porque eles admitem incondicionalmente a inútil renúncia, a pureza aviltante, a felicidade tola, a honestidade ridícula, a criminosa cloroformização dos sentidos.

A vida dos três moralistas em torno de Felka Cirmeni, naquela vila adriática de veraneio, não tinha outro fim, na aparência, que não fosse orientar os estudos da pequena Crisu, cuja inteligência vivaz merecia não se deixar perder. O teólogo Nardelli ensinava a menina a tirar dos tubos do órgão as alegres e inspiradas vozes dos anjos e os lamentos das almas angustiadas. Ensinava-lhe também, em doses homeopáticas, latim e grego: o quanto bastasse para decifrar a inscrição de um relógio solar, ou para compreender o significado de um nome de remédio derivado daquela sublime língua de Safo, que hoje só se usa para compor nomes de pílulas, de pastas dentifrícias e vermífugos.

Crisu estudava com gosto e nunca se olhava ao espelho. O dia em que se olhasse ao espelho não estudaria mais.

Tinha os olhos azuis, do mesmo azul do vestido. As modistas dizem “ton sur ton”.

Bronzeada como um frango assado, passava a maior parte do dia na praia, correndo ao vento que lhe desmanchava artisticamente o penteado, ou lendo todos os livros que lhe caíam nas mãos.

— Gosto de “bouquiner” na beira-mar, porque o vento me vira a página.

O teólogo Nardelli procurava em vão fazer nas leituras da menina prudente seleção. Às vezes a menina “delurée” punha-o em inquietante embaraço com perguntas a que ele não saberia responder senão recorrendo a prestidigitação de palavras.

— Que é adenite? — perguntava Crisu.

— A adenite é uma doença exótica, que dá em Áden, na costa meridional da Arábia.

O segundo moralista, o juiz dos óculos grossos, ministrava-lhe conselhos úteis sobre a direção que se deve imprimir à vida, e preciosos ensinamentos educativos.

A educação não é mais que hipocrisia disciplinada.

Os educadores são gente que ensina a não dizer certas mentiras, mas obriga a dizer outras.

O terceiro moralista, o doutor Hans Axenfeld, iniciava-a nos mistérios da botânica e da mineralogia e divertia-a com fáceis experiências sobre a dilatabilidade dos corpos, sobre a transmissão do calor, sobre a formação dos cristais, sôbre as maravilhas da eletricidade.

Mas aquela adolescente que apenas começava a desenhar-se, que ainda não tinha compreendido quanto são mais úteis os espelhos do que os livros, aquela menina de pernas delgadas de fenicóptero, já tinha nos olhos uma chama de mulher vibrante, e as suas órbitas eram veladas de uma sombra azulada.

Se já fosse mais mulher, dir-se-ia que tinha “une mine de lendemain”.

* * *
“Une mine de lendemain” tinha todos os dias a mamãe, a senhora Felka Cirmeni.

“Cara de dia seguinte”... a quê? A que, se o marido estava longe, ocupado com os ossos ancilosados dos seus clientes e com as carnes amolecidas da sua “chanteuse”? Os três moralistas que o doutor Cirmeni pusera, na aparência, em torno da menina, formavam de verdade um cinto de castidade apertado em torno das cadeiras da senhora Felka. O marido que não a amava, porém que dela era doentiamente ciumento, tinha a sensação de ter-se assegurado a fidelidade física daquela mulher, pondo como guardiões das suas mucosas os três moralistas insuspeitáveis, que, pela sua in­vul­ne­ra­bi­li­da­de às setas do amor, ele chamava, como os três invulneráveis da lenda: Aquiles, Orlando, Siegfredo.

Não lhe podendo apertar em roda da cintura aquele aparelho de ferro e de marfim que admirara com bárbaro desejo numa vitrina do Museu de Cluny, organizara um mais inextricável ainda, composto de três homens, de três virtuosos inflexíveis: o magistrado, idealista, sonhador, que renegava a aparência da matéria, todo enamorado da realidade do espírito; o teólogo, cuja batina era absoluta garantia de pureza; o doutor em química alemão, que conseguira abafar o clamor da carne.

Confiada a mulher, tacitamente, à tutela dos três moralistas invulneráveis, ele podia viver tranqüilo, como o guerreiro medieval que nas noites de repouso, entre uma batalha e outra, palpava num bolso da cota de malhas a chave com que fechara e havia de tornar a abrir os tesouros de fidelidade da esposa longínqua.

* * *
No entretanto, quem visse na praia ardente, sob o guarda-sol vermelho, naquele recanto quase secreto do golfo, os três moralistas invulneráveis e a bela senhora, deitados à sombra, em silêncio ou reunidos em grupo de conversa, não poderia deixar de suspeitar obscuras intrigas de amor e adultério. A mulher, ágil como um felino, era pródiga em sorrisos eloqüentes como promessas; o teólogo, vestido somente de um par de calções aderentes, que lhe deixavam nu todo o dorso de ginasta e as pernas delgadas e musculosas, dir-se-ia um desportista do grande mundo, dedicado, mais que aos exercícios espirituais, aos exercícios ginásticos; o magistrado demissionário, que tirava os óculos para olhar à distância, parecia procurar alguma coisa entre o mar e o céu, na linha do horizonte; o alemão pálido, de fronte emoldurada em negro, mostrava-se triste como se lamentasse um amor defunto ou uma paixão que não nasceu.

Quem diria que aqueles três jovens e aquela senhora não estavam ligados por invisíveis cadeias de amor?

Mas nem sempre se reuniam em grupo na praia. As mais das vezes acompanhavam um por um a senhora, que não gostava dos colóquios numerosos; mais do que ao coro, ao alternar-se e cruzar-se das objeções e dos ditos, preferia os colóquios a dois, ora com este, ora com aquele, de só a só.

Falar, falar! Ouvir falar! Felka Cirmeni tinha um medo louco do silêncio.

— Eu quisera que alguém, de noite, ficasse no meu quarto durante a minha “toilette” noturna, enquanto eu me dispo, enquanto procuro o sono; e que falasse, falasse até eu adormecer. Tenho medo de ficar só. Tenho medo do silêncio. Fugi de Veneza porque naquela cidade o silêncio me matava . Você devia vir, Hans, à noite fazer-me companhia, conversar, enquanto eu solto os cabelos e me aconchego. Entre nós dois há um compromisso tácito de castidade. Diante de você eu poderia despir-me sem corar, e você poderia ver a minha carne sem desejá-la.

O quarto da senhora e o do doutor eram contíguos; em frente ao de Felka estava a “cela” do teólogo Nardelli; do outro lado, simetricamente ao de Hans, o aposento do magistrado idealista. Até na disposição das peças reconhecia-se, ao redor de Felka, o cinto de castidade.

Nenhum estranho podia chegar ao seu quarto de dormir sem correr o risco de ser visto e ouvido por um dos três.

E nenhum dos três podia transpor o limiar da porta da bela presa sem se expor ao controle dos outros dois.

— Esta noite, às onze — disse Felka, abandonando a mão tão pálida que parecia fosforescente nas mãos de Hans — às onze dexarei a porta semicerrada, e conservarei apagada a luz. Você entrará em silêncio, como no quarto de uma amante.

* * *
Às onze uma luz se apagava e um trinco se abria, com um ranger que parecia um gemido abafado sob a mão de alguém.

Como a que estou contando é uma história de amor, diremos que o céu estava povoado de estrelas palpitantes. Mas o fato teria acontecido mesmo que não houvesse estrelas.

Das árvores do parque (ou da terra?) subia a voz dos grilos (ou das cigarras?). A sua voz era como se um polegar subtil passasse e repassasse infatigavelmente sobre os dentes elásticos de um pente de prata, e de vez em quando se interrompia em breves silêncios, como uma cascatinha de água interceptada.

Os grilos assobiavam lamentosos, como dezenas de apitos numa feira, até o aturdimento.

Parece que limam, infatigavelmente, como os inúmeros operários de uma oficina.

De uma oficina de poesia.

A intervalos, dentre aquele ranger monótono escapava-se o grito de prazer lacerante de um gato no terraço embranquecido pela lua e pelas constelações. Nem os poetas, nem os amantes, mas somente os gatos compreendem a linguagem das estrelas.

Ou era talvez um grito de amor. Um grito de sofrimento, pois. O gato, no momento da “pequena morte”, no amor, sofre e sabe que sofre.

Também o homem sofre. Mas não sabe. Pensa que goza.

É a única superioridade que, em amor, o homem tem sobre o gato.

As cores do mar, na noite de verão, eram tão puras que pareciam filtradas através de um prisma de cristal.

— O mês que prefiro é este — disse Hans Axenfeld, depois de longo silêncio, na alcova sombria, de pé, junto à janela, ao lado de Felka, enquanto um e outra olhavam fixamente para o fundo do horizonte, onde o tear calado da água forma o tecido líquido de metal incandescente.

No vão da janela, os dois vultos estavam direitos e próximos. Felka estava envolta numa túnica clara como uma aparição, e os seus pés estavam nus sobre as sandálias levantinas de junco.

— O mês que prefiro é este — prosseguiu Hans — porque a campanha e o mar são uma grande orquestra de perfumes, em que aqui e acolá, como nas sinfonias, os vários instrumentos, os vários perfumes, acordam uma lembrança. E agrada-me este silêncio dos homens. As luzes estão apagadas; os homens dormem nesta hora: que tolos! Entretanto, se os homens estivessem despertos, já não haveria esta poesia.

Sob a túnica leve de Felka, os pequeninos seios feitos ao torno parece que estremeciam.

— Os seus seios são minúsculos — disse Hans — como os das amazonas. Com a diferença que as amazonas, para poderem abraçar o escudo, só tinham um.

— E eu — disse Felka — não tenho nem esse.

A lua subia, passando as cumieiras da vila, e deixando mais escura a alcova. Mas a brancura que jorrava do céu estrelado desenhava os vultos de Hans e de Felka, contornando-os sob o fundo negro tão nitidamente que, aproximadas duas cadeiras cobertas de almofadas, sentaram-se. Hans não precisou bracejar no vácuo para encontrar uma mãozinha fria, mimosa.

Sob os lábios de Hans, o pulso de Felka palpitava como o coração de uma andorinha prisioneira. Porém, mais em cima, ao longo do braço, na espádua, sob as axilas, os lábios de Hans encontraram um calor macio e morno.

Quando a túnica se abriu e os pequeninos seios apareceram duros, vibrantes, trepidantes de frescura e de desejo, Hans acariciou-os levemente, com uma face, e pensou — o doutor em física — que a eletricidade se escapa pelas pontas.

.........
.......

Durante a sacudida epiléptica em que os dois corpos se fundem num só, os olhos fecham-se automaticamente. A natureza deixou entender aos homens que o amor é uma cerimônia misteriosa em que não se devem ver símbolos nem sacerdotes.

O amor de Felka e de Hans consumou-se na mais profunda escuridão. Dois corpos que sentem que são belos e se procuram e se encontram e se enlaçam sem se verem... Isto é sinal de que uma vontade superior, clarividente, os guia. Uma vontade eterna que não conhece nem fés de mulherzinhas, nem leis de homens, nem morais de hipócritas.

Ao amanhecer, quando no quarto entrou o primeiro raio de sol, o corpo de Felka, pálido como um arminho, e o Hans, musculoso como um atleta grego, encontravam-se de novo extenuados e belos, um ao lado do outro, sobre a cama revolvida; as tranças de Felka soltas sobre o peito de Hans; um joelho feminino sobre o seu ventre; e as mãos dele errando por aqui, por ali, sobre a brancura da pele macia e gozada.

Depois de se terem amado sem se conhecerem nas linhas do corpo, olhavam-se mutuamente, admirando-se. E, satisfeita a carne, o prazer proveniente da beleza contemplada do outro era mais forte.

— Amas-me, Felka?

— Não é preciso.

Mas as duas bocas tornavam a se unir, como se se amassem.

O amor é um pseudônimo com que os homens convencionaram chamar o prazer dos sentidos; mas quase todos julgam que seja o nome de uma coisa diversa, abstrata, indefinível.

De uma coisa que, em realidade, não existe.

* * *
Até aquele dia os passeios de Felka com o doutor Hans tinham sido mais freqüentes que com os dois outros moralistas, os outros dois cordões do triplo cinto de castidade.

E até então, entre a bela mulher de olhos de bebedora de absíntio e o jovem alemão de fisionomia de sonhador insatisfeito e inquieto, nunca tinha havido nenhum contacto epidérmico.

Todos os que paravam nos portões do parque para estender as mãos sobre uma flor ou para atirar um olhar à estranha gente um pouco lendária que morava na vila, pensavam que aquele homem e aquela mulher fossem amantes. Eles permaneciam muito tempos juntos. Não podiam deixar de ser amantes.

Mas, a partir do dia em que se tornaram de verdade amantes, ninguém mais acreditou no seu amor, porque nunca mais se mostraram juntos.

Cada duas ou três noites, a horas tardias, a porta de Felka se abria, e um homem de pijama de seda entrava no quarto, leve como um fantasma.

— Hans!

— Felka!

O céu de agosto era sulcado de estrelas, de fragmentos de estrelas projetados doidamente no espaço, como por um deus pirotécnico aprendiz da sua arte.

— Se enquanto uma estrela realiza no firmamento o seu vôo — dizia a mulher, no fundo das sensuais mais inteligentes, suspira sempre uma tola romântica — se, enquanto uma estrela realiza o seu vôo, tu formulares um desejo, o teu desejo será satisfeito.

E o desejo era sempre satisfeito, porque o homem ávido e a mulher vibrante, enlaçados, nus, em um nó de membros retorcidos como as serpentes de Medusa, permaneciam firmes, no amplexo, para prolongar longamente o espasmo. E enquanto isso, enrolados, contorcidos, trançados um com outra, na escuridão, em um nó que tendia a se desmanchar mas cada vez se apertava mais, olhavam, na bela noite adriática, ora através da janela, ora no espelho em frente, as estrelas nômades, faiscando fantasticamente no azul profundo.

Diante de tão sublime celebração de amor, de um amor que desafiava o direito de um marido, a honestidade de uma mulher, a lealdade de um amigo; que se punha em conflito com duas consciências, com a lei, com a moral, Felka e Hans compreenderam finalmente como o amor dos amantes é lícito em todas as formas, quando é verdadeiro, quando é belo, quando dois corpos nus se atraem integrando-se, quando através de uma janela irrompem os perfumes de agosto e aflui o infinito do espaço.

A moral, diante do amor arrebatado, torna-se uma coisa ainda mais miserável e esconsa do que é.

É como se às paredes de um arco de triunfo, todo verde louros e vermelhos de sol, enquanto passam os soldados ébrios de conquista, alguém pregasse um cartaz com os seguintes dizeres:

“É proibido fumar”.

O amor celebrado assim, com loucura, com febre, com sofrimento delirante, é sempre belo, ainda que tivesse de arrastar consigo uma tragédia, ainda que trouxesse nos filhos a mistura com um sangue diverso.

O amor é obsceno quando feito de cartas à posta-restante, de cumplicidade de porteiros, de cópulas apressadas em hotéis por hora, de movimentos embaraçados em veículos de praça com cortinas abaixadas, de posses incômodas com complicações de vestidos que o medo de serem surpreendidos não permite tirar.

Em suma, o amor é sórdido e imoral somente quando atormentado pelas dificuldades, pelos subterfúgios, pelas hipocrisias que a moral hipócrita impõe.

* * *
— A tristeza e a alegria — dizia a senhora Felka uma tarde, à sombra de um eucalipto sob o qual costumava tomar o café — a tristeza e a alegria, meu bom teólogo Nardelli, não nos vêm do mundo exterior, mas existem em nós.

Hans e a pequena dormiam a sesta. O juiz, rodeado de livros impenetráveis aos profanos, entregava-se ao seu onanismo filosófico, num recanto do parque, solitário, fresco e poético, onde vingam os cogumelos e as dores reumáticas. As janelas estavam fechadas como pálpebras sobre olhos obumbrados pela luz. A vila era como um forno escaldante.

O teólogo Nardelli ofereceu o café à senhora.

— Não é o mundo exterior — continuou Felka — que age sobre a nossa sensibilidade, gerando a dor ou o prazer, mas a dor ou a alegria que há em nós é que nos fazem ver diversamente colorido o mundo exterior. Hoje, meu amigo, estou triste. Sinto a necessidade de me embriagar, mas quero a sua cumplicidade autorizada.

— Embriagar-se?

— Desmemoriar-me. “Me griser.”

A um ramo do eucalipto estava suspenso um gongo de bronze esverdeado. Felka deu-lhe um golpe com o martelo de couro.

— Leve para casa as xícaras — disse ao criado maltês, indicando a bandeja — e sirva no meu quarto champanha.

— “Frappé”?

— Se houver gelo.

— Biscoitos?

— Se houver.

O teólogo Nardelli acompanhou a senhora, por entre os canteiros de hortênsias.

— Mas no meu quarto não o quero vestido assim. Pareceria u’a missa negra. Venha em traje de banho, em pijama de praia, como queira. Mas assim, não. Espero-o dentro de um quarto de hora.

A senhora esvaziou — chegando ao quarto — o toucador de todos os aparelhos para as unhas e os cabelos. O criado pôs ali um vaso de metal com uma garrafa de pescoço e ombros envoltos em linho branco, como o manto de um rei, e uma bandeja em que duas taças se chocavam tinindo.

Na escrivaninha afastou alguns livros para dar lugar a um prato daqueles biscoitos compridos, tubulares, em anéis, que em 48, com aguda malícia, se chamavam “plaisirs des dames.”

Felka chegou-se à janela. No jardim subjacente um presunçoso galo de amplas curvas caminhava cons­tran­gi­da­mente aos pulinhos, como um enfermo de ataxia motora que vá pedir uma reparação pelas armas.

O mar estava como nas aquarelas das senhoritas: uma linha, e sobre essa linha uma vírgula branca virada (uma vela).

Pouco depois, entrou no quarto um cheiro de cedro. Cheiro de claustro. O teólogo Nardelli aspergia o corpo todas as manhãs com água inglesa que lhe recordava a sua adolescência. O jardim de seu colégio era todo cheiroso a cedro.

E o jovem sacerdote devia estar muito pouco vestido para que logo ao entrar no quarto de Felka se escapasse do seu corpo aquele bom cheiro fresco de erva.

— Afia as armas? — perguntou à senhora que lustrava as unhas com o polidor de pele.

— Sim — respondeu Felka —. E agora vou pintar também, na sua presença, a boca. É vaidade, não? Mas são os senhores, moralistas católicos, que, lembrando-nos com demasiada insistência que um dia próximo as nossas mãos hão de ser apenas ossos e o nosso rosto será apenas caveira, são os senhores que nos estimulam, enquanto não somos ainda esqueletos, a embelezar-nos as carnes.

O teólogo Nardelli sentou-se mergulhando os punhos nos bolsos do pijama. Sob a seda distendida o tórax se modelou.

Quando tinham bebido a terceira taça, Felka disse:

— Que coisa efêmera é a dor se bastam três taças de champanha para suprimi-la!

— A senhora disse uma tolice — sentenciou o jovem sacerdote —. Seria como afirmar que a vida é coisa efêmera porque basta meio grama de estricnina para aniquilá-la.

— Tem razão — replicou Felka —. É uma coisa efêmera a vida.

Nardelli bebeu uma quarta, uma quinta taça de champanha.

— E efêmera é também toda a insensata ideologia sobre a castidade, sobre a fidelidade, sobre a espiritualidade do amor — zombou Felka — se à quinta taça de champanha os seus crentes a renegam.

A boca de Nardelli e a boca de Felka eram como as duas partes de um fruto partido que se tivessem colado de novo.

Dos olhos de ágata de Felka ia desaparecendo a vontade.

— O teu corpo nu — disse-lhe Nardelli com admiração — recorda-me o corpo de uma bela adolescente indiana que conheci numa cidadezinha cor de rosa nos confins da “jungle”. No seu ventre (um ventrezinho feito, como o teu, não para a fecundação, mas para os amores estéreis), no seu ventre havia, tatuada em espiral, toda a história de acidentada caça ao tigre. Depois de vários episódios dramáticos, o tigre perseguido conseguia fugir, sumir-se num esconderijo secreto do ventre depilado, de onde não ficava de fora mais que a cauda. Nos olhos de ágata de Felka não havia mais vontade.

.......
.......

Algumas horas depois tornavam a se vestir.

A única coisa triste no amor é o tornar a se vestir.

* * *
— Tornei a me casar — respondia Felka servindo-se de açúcar — porque a situação da viúva nos nossos países é ridícula. A viúva, no meio das outras mulheres, é diante da opinião pública como aquela casca de ovo que um jorro de água levanta e que serve de alvo preferido nas feiras. Há, no fundo, outros alvos — as outras mulheres — mas o ovo na ponta do jorro de água é o que todos se empenham por atingir.

Os três moralistas, recostados nas cômodas poltronas de junco, acendiam cigarros e provocavam as revelações da senhora Felka. A luz, naquela sala de jantar, chovia de uma lâmpada amarela que fazia mais amarelas as grandes borlas de ouro do forro abaulado.

— Eu não amo o meu marido. O meu marido não me ama. Daí que, conversando há alguns dias com um amigo, no seu consultório, dissesse: “Quando eu morrer, não me enterrem junto com a minha mulher; sempre gostei de quartos separados”.

“— Não amas a tua mulher? — perguntou-lhe alguém.

“— Não a amo — respondeu meu marido — nem nunca a amei. Casei com ela por meros motivos pneumáticos. Tenho uma amante assaz opulenta de formas, que não é a mulher ideal para a satisfação dos meus modestos apetites. Eu precisaria de u’a mulher inflável e desinflável como os travesseiros de borracha para viagem. Minha mulher, com a sua harmoniosa magreza, é a imagem desinflada da minha formosa amante.&lrquo;

Os três moralistas tomaram uma expressão de branda e hilar pena.

O criado trouxe uma carta.

A senhora abriu-a.

E leu. Os outros calaram. Uma falena, indecisa entre a sedução da luz e a tentação do perfume, aleteava desordenadamente entre a lâmpada e os cálices de cristal avermelhados por um velho xarope.

O marido de Felka escrevia-lhe no momento de partir para a Argélia, onde ia realizar importante operação. E concluía: “Espero que os teus receios se tenham dissipado”. “Receios? Que receios? — pensou a senhora — A que receios se referirá?”

Depois se lembrou. E riu, por dentro, com os lábios fechados. Antes de se despedir do marido, a última vez, formulara-lhe a suspeita de estar grávida. Mas não havia nada. É uma precaução útil, para u’a mulher que o marido deixa sozinha ou com outros homens, dizer-lhe, antes da partida, no ouvido: “Sabes, eu tenho receio da estar...”

Felka rasgou em quatro, oito, dezesseis, trinta e dois pedaços a carta, e atirando os fragmentos na bandeja dos licores, anunciou:

— O meu marido parte para a Argélia. Voltará dentro de dez dias.

E levantou-se.

— Estou cansada, meus amigos. Se permitem, retiro-me para o meu quarto. Podem permanecer aqui. Deixo-lhes os cigarros, os licores, e um inesgotável assunto de conversa: “Uma mulher sem amor”.

Apertou as mãos dos três amigos e saiu.

— Por certo que eu — comentou o juiz, deitando um olhar para a porta que se fechara — não me en­car­re­ga­rei de consolá-la.

— Tampouco eu — acrescentou Hans, com horror.

— Eu, então... — sorriu o teólogo Nardelli, fazendo correr um olhar significativo sobre as suas vestes talares.

— O estado de viuvez lhe pesava — comentou o juiz abraçando um joelho com as duas mãos —. O amor pelo marido defunto não era tão nobre que lhe acalmasse os baixos desejos da carne.

Hans calava-se.

O teólogo Nardelli distraía-se contemplando um copo cilíndrico cheio de água, no qual se torciam lianas ornamentais.

— Parece aquela fauna intestinal — disse o teólogo Nardelli — que se vê em certos frascos, nas farmácias.

Hans e Nardelli não queriam acompanhar o juiz em terreno tão insidioso.

— Amor, amor... — disse Hans —. É um tema sobre que nunca se está de acordo. O amor é um conceito que tem diferente extensão para cada indvíduo... Adeus, eu vou dormir.

Saiu.

Chegando ao primeiro andar, bateu docemente, com as polpas dos dedos, na porta de Felka.

— Esta noite não — disse Felka —. Estou cansada. Hoje só te dou um beijinho.

“E agora, vai-te.”

Hans recebeu o beijo e foi-se, puxando a porta, que pouco depois tornava a abrir-se.

Tornava a abrir-se e o sacerdote setecentesco das fivelas de prata entrava silenciosa e leve, e aproximava-se de Felka com um gesto hierático das mãos pálidas, e olhava para ela comovido. Nunca olhara com tal transporte para um ostensório.

— Mas isto não é abraço, — estremeceu contente a mulher — é agressão!

— Amo-te, Felka.

— Também eu te amo.

— Serei o teu único amante?

— Sim.

— Juras?

— Sim.

— Por quê?

— Pelo túmulo de...

— Não jures pelos túmulos, Felka! É o juramento menos seguro de todos, porque a quem está morto não lhe pode acontecer nada pior...

Felka sentou-se nos seus joelhos e rodeou-lhe o pescoço com os seus braços nus, com o que ela chamava a “minha coroa sem espinhos.”

— Como és criança — murmurou Felka — no amor! És ainda daqueles que entre um e outro beijo exigem um juramento. Gosto de ti porque no ímpeto da posse gastas toda a energia acumulada em anos e anos de abstinência. E como no fundo do meu corpo de mulher sensual e insaciável há uma romântica incuravelmente iludida, eu te amo porque me iludo imaginando que durante toda a adolescência e a juventude tu te conservaste puro, esperando por mim.

A cupidez do homem não se podia mais conter. As suas mãos tentavam abrir passagem por entre a leve roupa branca.

— Não, já não — reteve-o Felka —. Eu gosto dos “hors d’oeuvre” do amor.

— Eu também — mentiu o rapaz.

— Não. Tu queres logo o prato principal.

— Mas tu depois repetes quatro e cinco vezes.

Os laços e nós se desataram.

O homem apertou entre as mãos um punhado de linhos ainda quentes e cheirando a carne, e enterrou neles a cara. Depois os jogou para cima de uma cadeira.

Pés descalços sobre o soalho frio.

O afundar-se de um leito sob o duplo peso.

Apertado entre os braços de Felka, que se cruzavam na sua nuca robusta, ele ouvia o seu próprio coração pulsar sobre o seio direito dela, quente e elástico.

Em poucos instantes desfilaram-lhe diante da memória os anos da sua vida espiritual, as longas meditações na cela branqueada a cal, no jardim do colégio, no pórtico solitário. Oh! a vida espiritual, a fé, o pensamento em Deus nunca tinham conseguido dar-lhe o verdadeiro esquecimento da matéria.

Agora o amplexo daquela mulher dava-lhe o completo esquecimento de tudo. O gozo que provinha daquela epiderme feminina guindava-o ao idealismo absoluto.

No seu colégio impregnado de fé, na cela branqueada a cal, muitas vezes pensara na morte sem ter dela uma idéia clara.

Agora, entre aqueles braços femininos, mornos de luxúria, ele tinha a intuição exata da morte. Sentia-se arrebatar, mergulhar na inconsciência. O sono, a loucura, não dão idéia da morte. O amor, sim. A sacudida de todos os nervos, a aceleração do ritmo do coração, a abolição da consciência, não são mais que rápida agonia. No momento em que a gente se projeta fora de si mesmo, morre-se um pouco; faz-se uma excursão momentânea à morte, que parece mais bela porque se morre a dois e volta-se à vida.

— Eu fiz-te conhecer o amor.

— Não, Felka. Tu me fizeste conhecer a morte.

* * *
Nardelli, o jovem sacerdote, dava a Felka, além do ardor de sua carne moça, também o fogo da sua espiritualidade.

Hans dava-lhe somente a galhardia do seu corpo de atleta grego.

E todas as noites, ora um, ora outro, gozavam no leito de Felka o prazer de um instante de morte. A mulher de sensualidade inextinguível dava a um e outro a ilusão da fidelidade.

E a um e outro dava a ilusão de amá-los, porque sabia que no homem o paroxismo da nevrose, a sacudida epilética do prazer são mais intensamente trágicos quando sobre a verdade dos sentidos adeja a mentira convencional do amor. Os homens ainda não o compreenderam; mas a mulher sabe, por intuição, que no prazer não entra o amor.

Ponham em contacto os dois pólos dessas máquinas imprecisas que são o macho e a fêmea. Se se agradarem, brotará a faísca do gozo.

Ainda que, no fundo, as duas máquinas se detestem.

A mulher que me deu os espasmos eróticos mais loucos foi u’a mulher que possuí, por cinco anos seguidos, odiando-a.

* * *
— Devia ensinar-me um pouco de filosofia, o senhor que anda sempre com o Kant de arrasto — disse Felka u’a manhã, vestida de malha aderente, trepada na proa de um barco e virando as costas o juiz que remava.

Sobre o espelho encrespado o barco deslizava, leve e rápido como uma “canga”, a embarcaçãozinha usada pelos egípcios no Nilo. Por ter a proa fina, cortante, levemente encurvada, o doutor Cirmeni batizara-o de “Bisturi”.

Os pezinhos de Felka roçavam na água e com os dedinhos recurvados iam recolhendo um pouco de espuma. O barco corria ligeiro, impelido pelos braços sólidos do juiz, e o corpo da mulher, na proa, era como uma pequena vitória.

— Precisa-se muito inteligência — perguntou Felka — para ser uma boa filósofa?

— Mas se precisa — respondeu o moralista curvando-se sobre os remos — para ser uma boa amante.

Felka de um pisco fez passar uma perna por cima do esporão da proa, girou agilmente sobre si mesma, e sentou-se em frente dele. Este parou, baixando sobre as próprias coxas a empunhadura dos remos, e erguendo fora da água as pás gotejantes. O barco ficou abandonado sobre as ondas fracas.

O azul era profundo.

Uma cortiça flutuante.

Na praia distante um colar fino e arrumado de vilas, como corais brancos, róseos e vermelhos.

Algumas nuvenzinhas alvas, em flocos, em fios, em cachos como uma peruca setecentesca.

Felka tirou o capacete de impermeável, e a cabeleira loira que estava em baixo, oprimida, se esparramou numa desordem rebelde, como as pétalas amarelas e crespas de um crisântemo dobrado.

— Como sabe o senhor se eu sou uma amante boa ou má?

— Não sei nada. Quisera saber. Ofende-se?

— Não. Mas um moralista como o senhor... — respondeu ela, zombeteira, sentindo-se mais forte naquela tênue malha reveladora.

O juiz suspendeu os remos e, sem tirá-los das forquetas, pousou-os com as pás sobre o barco.

— Falemos um pouco de sua pessoa. — disse, cruzando as pernas e levando dois dedos da mão direita a um joelho nu, como para beliscar, com o gesto habitual, o friso da calça —. Á senhora enche-me de curiosidade, Felka. Quisera saber alguma coisa de íntimo...

— E lhe parece pouco?

— É muito. Mas eu sou um colecionador de curiosidades sentimentais, de aberrações psicológicas.

— Em mim — garantiu Felka — não encontrará nem aberrações, nem curiosidades. Sou mulher. Muito mulher. Um meu amante farmacêutico definiu-me como um extrato etéreo de mulher.

“Tenho trinta e cinco anos. A idade em que os desejos se tornam espasmos, em que o espasmo se torna delírio, em que a entrega tem toda a beleza de uma bela impudicícia.

“O senhor se horroriza, meu amigo. É daqueles para quem a viúva devia ser queimada com o cadáver do marido.”

— ...

— À viúva os senhores permitem que constitua uma casa, que seja elegante, que freqüente as estações mundanas de veraneio; mas do ponto de vista sexual proíbem-lhe qualquer satisfação. Se os seus nervos vibram, se os seus sentidos gritam, deve, para satisfazê-los, recorrer a mil subterfúgios ignóbeis.

— ...

— Impõem-lhe fidelidade à memória daquele marido de quem nada mais resta que um pouco de matéria calcária em forma de caveira. Em honra daqueles fragmentos ds cálcio, fósforo e carbono, a viúva deveria, segundo os senhores, abafar a vida que grita nas suas carnes. O ato sexual, para os senhores, é inseparável do sentimento: morto o marido, o estímulo sexual deveria desaparecer como se a mulher fosse um canhão de que o marido, partindo para o outro mundo, levasse consigo o obturador. Perdoe a comparação, mas o meu primeiro marido era um oficial da artilharia polonesa.

“Os sentidos dever-se-iam apagar como se apaga a chama do gás, fazendo girar uma chave.

“Mas não sabem, desgraçados, que alguma coisa de mais forte que o sentimento se ergue a cada passo em nosso sonho adocicado de ternura espiritual, para chamar-nos à brutalidade das funções orgânicas? Não sabem que podemos, pela alma, estar ligadas à memória do marido, e, morto ele, podemos não amar mais ninguém, mas que apesar de tudo a febre dos sentidos fatalmente nos impele a procurar um homem soberbamente vivo que nos sacie, onde haja não o eco da voz de um morto, mas o grito da vida?

— ...

— A consciência? Consciência, nada! A carne, digo eu. Também nós, mulheres, temos desejos prepotentes como os têm os senhores, que, entretanto, podem atendê-los com a maior simplicidade, fora de qualquer fato sentimental. Os senhores satisfazem os sentidos como quem vai ao restaurante, ao bar, ao banhista, ao barbeiro. Pois bem, nós mulheres quiséramos que existisse uma prostituição masculina, para podermos saciar os nossos apetites sem tropeçar com complicações sentimentais.

— ...

— Não, não é feio, meu amigo. Arranjar um amante, com todas as complicações de epistolário, de fidelidade, de devotamento, de laço eterno, é u’a maçada. Um homem que tenha sido hóspede do nosso leito, considera-se no direito de só ele voltar ali. E julgando ter-nos dado quem sabe o quê, pretenderia ainda que lhe agradecêssemos comovidas, e que lhe déssemos em troca o nosso coração.

“Nós mulheres arranjamos amante não por necessidade de coração, mas para as necessidades de outros órgãos menos literários e de funções menos indefiníveis.

— ...

— Os senhores não compreendem a tortura orgânica das nossas noites solitárias. Não compreendem porque nenhuma mulher ousou confessá-lo nunca. E nenhuma mulher ousa confessá-lo, porque a moral dos homens de há dois mil anos proibe-lhe dizer uma honesta verdade. Mas entre nós, mulheres, o dizemos. Ou talvez nem o digamos, porque é uma verdade evidente, comum a todas as mulheres.

“Não lhe terá acontecido nunca, meu amigo, ouvir u’a mulher dizer que almeja uma prostituição masculina. Mas eu lhe juro que todas as mulheres, no fundo, a desejam.

— ...

— Sim, todas desejamos poder, finalmente, sobrepor ao nosso corpo o corpo de um macho, sem ter que lhe dizer: amo-te.

— ...

— Não ter que dizer: amo-te. A beleza da aventura de hotel, o encanto da cópula com o desconhecido de ontem, com o esquecido de amanhã, é este: não ter que dizer como a um amante: amo-te, como a um marido: só te amo a ti.

— ...

— E nós mulheres estamos tão cansadas de ter que dizer a um marido ou a um amante: “nenhum outro homem me agrada a não seres tu”, que o enganamos até para darmos a nós mesmas a prova da inexistência daquele amor que se nos impõe.

“O prazer de trair consiste todo nisso.

“Os senhores à carne não pedem o que a carne pode dar, mas exigem alguma coisa mais. Não lhes basta que nós nos entreguemos para saciar a nossa carne e a sua. Querem ainda o discurso de circunstância, o róseo cartão de dedicatória...

“Não se contentam nunca com o amor que lhes oferecemos. Exigem também selos de garantia, análises químicas, fórmulas farmacêuticas que especifiquem todos os ingrediente do nosso amor, e as várias doses. Não há homem, por mais inteligência que possua, que não nos dirija as habituais, estúpidas perguntas:

“— No ano passado amavas-me como hoje?

“— Amas-me hoje mais do que ontem?

“— O teu amor não se está entibiando?

“— Amar-me-ás ainda por muito tempo?

“Mas que vamos nós saber do nosso amor? Não registramos todos os dias os vários graus de temperatura do nosso coraçãozinho, e não podemos prever os eclipses do nosso desejo, nem os cometas de outros homens que atravessarão a órbita imensa da nossa imensa sensualidade.

“Os senhores nos ensinaram a dizer tolices para responder às suas tolas perguntas. As nossas estúpidas cartas de amor são copiadas das suas.

“Ensinaram-nos a mentir, e depois dizem que a mulher mente por instinto. O meu instinto levá-la-ia a entregar-se lealmente a este e àquele, a três, a quatro, a dez homens em seguida, até que se esgotassem aquelas provisões de energia que um só não basta para esgotar.

“U’a mulher que parta para a sua longa viagem no oceano da sensualidade, provida do amor de um só homem, é como um navegante que saia para uma grande travessia e leve como único alimento favas em salmoura.

“A mulher entregar-se-ia com cega prodigalidade. Mas a selvagem pretensão dos senhores, de domínio absoluto, obrigou-a, não podendo transformar os instintos, a mascará-los. A mentir. Os senhores contrariam-lhe o instinto: a mulher, tornando-se mentirosa, não faz mais que se adaptar ao ambiente, como aqueles animais que, vivendo em baixo da terra, criaram garras fortes para escavar galerias.”

— Em resumo, a senhora — replicou o juiz, palpando com o polegar a palma da outra mão, calejada pelo remo — em resumo, a senhora faz a apologia do prazer sem amor.

— Não, deixo-o de parte — respondeu ela, rindo — como deixo da parte a questão das garantias, a questão homérica e a questão irlandesa. Não me interessa. Existe o prazer unido ao amor: admito. Mas sustento que o prazer separado do amor tem a sua razão de existir. Ama-se uma vez ou duas na vida. Há quem — como eu — nunca amou. Entretanto, a necessidade dos sentidos volta periodicamente, como num organismo sadio a fome volta cada cinco ou seis horas.

— Não acredita no amor feito exclusivamente de alma?

— Não. E procurei-o avidamente. O prazer dos sentidos a cujo encontro sempre corri, não tendia a outro fim, no fundo, senão a destruir a minha sensualidade, para poder um dia experimentar o amor da alma. Fiz como os “dapaks” de Bornéu, que, acreditando na imortalidade da alma, devoram o pai para conservar em si o princípio espiritual. Eu devorei os meus sentidos, para procurar a alma.

— Portanto nega a fidelidade, que é um fato espiritual.

— Pode ser que exista alguma mulher fiel — admitiu ela com ironia —. Mas a fidelidade, em qualquer caso, não é mais que uma série de adultérios abortados, de traições malogradas.

Felka, inclinando-se de lado sobre um flanco do barco, recolheu no oco da mão um pouco de água, com que borrifou a testa.

— E a senhora deseja tão ardentemente assim?

— Sim, — confessou ela — desejo, desejo como desejamos todas nós, mulheres moças e sadias.

O barco, abandonado a si mesmo, afastara-se muito da praia.

— Esta discussão — observou a senhora, apontando para a costa — levou-nos muito longe.

— Eu diria que nos aproximou — corrigiu com sorriso ambíguo o jovem juiz.

— Não compreendo.

— Aproximou-nos um do outro — explicou ele —. Alguém disse que falar de amor eqüivale a fazê-lo. Eu creio que falar de desejo equivalha a desejar.

Felka olhou para ele com fria intensidade.

— Aliás, — continuou ele — como poderia não ser assim? A senhora me agrada, Felka, pela frescura do seu corpo e pela sinceridade audaz das suas palavras. E o pensamento de podê-la embalar aqui, no meio do mar, como uma deidade marinha...

— Literatura, literatura...

— O pensamento de possuí-la, aqui, me inflama. Felka mergulhou os dedos na água e borrifou-lhe o rosto.

— Acalme-se, meu amigo. O senhor está superexcitado. Não me dê o remorso de ter atentado contra a sua virgindade de moralista incorruptível.

“E, depois, diga-me, um homem como o senhor, feito para os amores prolíferos, à sombra protetora de cortinanados familiares, com uma esposa obtida mediante todas as formalidade fiscais de Deus ou de alguns dos seus agentes, um homem como o senhor, teria a imprudência de possuir a mulher de outrem, num barco, em pleno dia?”

Felka riu-se. Quando uma mulher ri está desarmada. Às vezes, porém, o riso de uma mulher é a mais inexpugnável das defesas.

Contra a ironia e o paradoxo despedaçam-se as mais robustas argumentações.

Mas porque havia Felka de se defender hoje? Porque aquele homem não lhe agradava... Mas, nove vezes em dez a mulher se entrega ao homem que não lhe agrada! O gozo é produzido por um choque mecânico que se opera de olhos fechados! A mulher goza mais ou menos com a mesma intensidade com todos os homens. A escolha é devida mais ao acaso do que à reflexão. Não há, pois, de que se gabar por ter sido escolhido por uma mulher, porque a mulher nunca escolhe. Adapta-se. Resigna-se.

Com hábil movimento das pernas nuas e de busto embainhado pela malha de seda, ela fez realçar todo o juvenil vigor das suas formas.

As axilas, sabiamente aloiradas, prometiam segredos triangulares de um loiro impudico. A respiração agitada que dilatava o tórax e levantava o peito, sugeria o eletrizante contacto de u’a musculatura palpitante no ato da posse.

Mas aquele homem, de olhos míopes e de carnes brancas como as de u’a monja, não lhe agradava.

Ao expor as suas idéias sobre o prazer e os modos de obtê-lo, Felka se excitara pensando num homem distante, talvez Hans, talvez o jovem Nardelli, talvez um homem dos seus sonhos, talvez um homem entrevisto, quem sabe em que épocas remotas, quem sabe em que noite de insônia. Mas o homem que estava na sua frente não lhe agradava.

— Por que não queres ser minha? — insistiu o juiz, com a boca espumante de desejo —. Se os teus sentidos são ávidos, por que não queres que eu os acalme? Se não te entregas a mim — gritou — é sinal que tens um amante. Teu marido está longe. O teu desejo renova-se constantemente. Se não te entregas a mim é porque te entregas a outro. Quem é? Nardelli? Hans?

— Não! — gemeu ela.

E para não dar a entender que havia outros dois homens na sua vida, deixou que o juiz a apertasse nos braços, e lhe desamarrasse os cordões sobre os ombros.

Com mãos trêmulas ele fez virar-se e cair sobre si mesmo o maiô de seda, ao longo do tórax, ao longo das coxas. Felka levantou, conformada, consentindo, uma perna, e depois a outra; e o maiô, desprendendo-se, caiu.

E quando, deitada no fundo do barco (um pouco de água fria tinha-se acumulado sob os seus ombros e em baixo da nuca), viu, sobre o seu rosto, um rosto congestionado (tinha tirado os óculos e mergulhado os olhos), pensou que o amplexo daquele homem que não lhe agradava tinha um único valor: o de realizar-se no mar, sob o sol.

Os que, da praia, olham de binóculo para o mar, vêem às vezes um homem e u’a mulher, que se afastam remando desaparecerem por alguns minutos no fundo da embarcação.

Pois bem, o mais das vezes, a culpa (ou o mérito?) é toda do sol.

* * *
Como são bons os lábios das mulheres, quando salgados pelo vento marinho!

* * *
Aquela noite e todas as noites e no dia seguinte e em todos os dias consecutivos, os três moralistas evitaram tocar o tema esdrúxulo da mulher e do amor. Os três moralistas, com efeito, davam-se a entender um aos outros que eram incapazes de desejos. As ligas de moralidade pública não são mais que o conjunto mais ou menos numeroso de homens porcos como todos os butros, que fazem crer uns aos outros que o são um pouco menos. Os moralistas, os rígidos conservadores dos bons costumes, são aqueles que desejariam suprimir a prostituição, mas ao mesmo tempo e às escondidas são os seus mais animadores sustentáculos. Os moralistas fazem com as devidas precauções aquilo que os outros homens fazem sem cautelas. Nos prostíbulos, quando de repente as portas das salas de espera e de escolha se fecham discretamente, isso quer dizer que passa um freguês de consideração, que em homenagem à moral não quer ser visto.

U’a manhã em que, não se sabe como, a conversa recaíra sobre a frieza e a paixão, cada um dos três pensou com íntima satisfação:

“Eu, só eu matei a sede àquela mulher!”

Se o marido estivesse presente, teria pensado:

“Eu, só eu saciei a sua fome!”

E se a mulher pudesse dizer toda a verdade, teria gritado:

— Nenhum de vocês me sacia! Nem todos os quatro, juntos, me bastam. Um homem, dois homens, três homens, quatro homens não bastam para nenhu’a mulher. A soma de prazer que u’a mulher está em condições de dar, vale mil.

“A três amantes dá trinta.

“Ao marido dá dez. A perda real orça por novecentos e sessenta!”

* * *
Uma noite Hans disse-lhe:

— És uma coisa preciosa! E ela respondeu:

— Para ti. A mulher, nas mãos do marido, é ouro que se transforma em metal ordinário. Nas mãos de um amante é metal ordinário que se transforma em ouro.

Aquela noite Felka esteve mais excitada que de costume, durante o delicioso martírio sexual. O prazer da traição realizada na véspera, poucas horas antes do regresso do marido, dava-lhe uma espécie de orgulho.

O doutor Cirmeni chegaria da Argélia às primeiras horas da manhã.

— E agora vai-te para o teu quarto — disse Felka a Hans, quando ele, de volta, pela quinta vez, da “pequena morte”, deixou-se cair atravessado na cama, com o rosto mergulhado numa das suas mãos. Com a outra mão Felka alisava-lhe lentamente os cabelos, roçando-os apenas, como a uma criança cansada.

Por que razão as mulheres, depois que o amante se saciou nelas, tornam-se maternais?

— Vai dormir na tua caminha, pobre pequeno... E não faças barulho.

Hans calçou docilmente as sandálias e saiu, silencioso como um espírito.

Davam as duas horas.

Um galo cantou, ao longe.

Felka acendeu um cigarro, olhou-se ao espelho, passou “rouge” nos lábios.

Abriu a porta.

No corredor, no limiar da “cela” esgueirava-se uma lâmina de luz.

— Cala! — disse Felka, em voz baixa, entrando. Nos lençóis do sacerdote havia um bom cheiro claustral de cedro.

* * *
O macho legítimo, chegando ao meio-dia, pelo diretíssimo, ofereceu aos amigos carteiras de ouro polido, com cigarros da Argélia. Os amigos, que em torno da mulher tinham tão dedicadamente formado o tríplice cinto de castidade, mereciam o presente.

— E não te enamoraste de Hans? — perguntou o doutor a Felka —. É um belo rapaz.

— É um belo rapaz — concordou a senhora.

— Nem de Nardelli? — insistiu gracejando, sem ter ares de inquisidor, o doutor Cirmeni.

— Tampouco. E é um belo rapaz, ele também.

— E nem do magistrado demitido?

— Muito menos. O magistrado não me agrada.

— Então, os outros dois te agradam?

— Talvez.

“Talvez que os ame — pensou o marido —. Talvez que os deseje. Provavelmente faria uma loucura por algum deles. Mas, que importa isto, se não se entrega, se não se entregou?

“O contacto das almas não me preocupa. O que me preocupa é o contacto da mucosa.

“E este — garantiu a si mesmo — não se deu. Eram três a guardá-la.

“Não, não se deu nos vinte dias que estive ausente, porque entregando-se a mim estava fremente como depois de vinte dias de inútil desejo.”

* * *
Um ano depois o doutor Cirmeni e a senhora Felka viajavam rumo ao norte, para irem gozar uma primavera parisiense. E uma tarde de chuva, visitando o Museu de Cluny, o doutor quis ver os cintos de castidade aos quais, em todas as suas viagens a Paris, o seu mórbido ciúme o reconduzia.

O guarda de serviço naquela sala aproximou-se dos dois estrangeiros:

— Origem ignorada — explicou indicando o cinto —. Instrumento bárbaro, usado na Idade Média pelos cavaleiros ciumentos, que partiam para longas guerras e queriam ter uma garantia segura da fidelidade das suas esposas.

— E levavam a chave? — perguntou Felka.

— Sim, senhora — respondeu o guarda.

— E só havia uma chave? — perguntou Felka.

— Ora! — disse com um sorriso cheio de subentendidos o malicioso guarda —. Acho que cada senhora teria, para seu uso, uma chave falsa...

Felka pensou em Hans, em Nardelli, no juiz, e passou distraidamente a outra vitrina, enquanto o marido continuava a contemplar, hipnotizado, o bárbaro aparelho.


4 comentários:

leo e theo disse...

Tenho muitos livros do Pitigrilli e estou lendo Pitigrilli fala de Pitigrilli. Foi muito difícil encontrar um exemplar. Gostaria de saber se tem alguns para troca (original ou cópia)

don Sergio Andreoli disse...

Sergio Andreoli,
Io, il vero Pitigrilli,
I edizione,
[con: Pitigrilli di fronte a Dio, II edizione],
Gruppo Edicom,
Cerro Maggiore (Milano)
2000

(www.gruppoedicom.it).

Sara disse...

sempre interessante ouvir esses pontos de vista, espero ter a sorte de fazer mais vezes, agora eu estou indo para uma conferência na Argentina, porque eu tenho um apartamento mobiliado em buenos aires

ROGEL SAMUEL disse...

fico feliz de encontrar tantos leitores de Pitigrilli como eu